sábado, 13 de fevereiro de 2016

Vendedor ambulante de refrescos no Largo Duque do Cadaval

Do Largo Duque do Cadaval (Freguesia de Santa Justa) não existe atribuição oficial do topónimo nem quaisquer data de referência De acordo com a DEAT/CML [Divisão de Alvarás, Escrivania e Toponímia] em email de 18/l l/05, «trata-se de um terreno propriedade da CP. e, como tal, não é da competência da CML atribuir-lhe denominação». 
(in Ler história - Edições 52-53, p. 233)

O prémter marchand d'eau, velhote vestido de branco, com chapéu de  palha,  fez época no Rossio. apregoando as suas refrescantes beberagens:
— Capilé?
— Groselha?
— Salsaparrilha?

Marchand de boisson  [entre 1908 e 1914] 
Largo Duque do Cadaval, vendo-se a Estação do Rossio
[D. Nuno Álvares Pereira de Melo (1638-1727), 1º Duque de Cadaval]

Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente
(*) O local não se encontra identificado pelo fotógraf
o

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Os «Americanos» de Lisboa

Data de 1803 o aparecimento do omnibus, puxado a muares, para a exploração dos quais se constituiu uma Empresa de Transportes com sede na Praça do Pelourinho. No entanto, incómodos, caros e raros, o povo miúdo pouco beneficiou com eles. Verdadeiramente populares e servindo já vastas zonas da cidade foram os seus sucessores, os carros «americanos», inaugurados em Lisboa em 1874.
O povo utilizava, de preferência, os carros mais baratos e também mais incómodos, como o Carro do Jacinto, o Chora da Empreza Eduardo Jorge ou o Lusitânia, enorme carroção, onde se apinhavam, como sardinha em canastra. Com eles carregavam gaiolas com pássaros, capoeiras de galináceos, trouxas de roupa, transformando os carros em folclóricas feiras ambulantes.

Carro «Americano» |189-|
Teatro Nacional D. Maria II
Fotógrafo não identificado. in Lisboa de Antigamente

Os carros «americanos», primeiro, depois os eléctricos, e a inauguração do comboio de Cascais, permitindo um escoamento mais rápido de pessoas e mercadorias, levaram ao abandono progressivo deste meio de deslocação alfacinha.
A aplicação da tracção eléctrica aos carros «americanos» que leva ao aparecimento dos carros eléctricos, cuja primeira linha é inaugurada em Lisboa em 1901 e a aplicação do motor de explosão que levará à invenção do automóvel e do camião de carga, facilitando o transportes de passageiros e de cargas, vão introduzir uma verdadeira revolução nos transportes urbanos (...)
(in O Povo de Lisboa: tipos, ambiente, modos de vida, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, Câmara Municipal de Lisboa, p. XVIII, 1979)

Carro «Americano»|189-|
Teatro Nacional D. Maria II
Fotógrafo não identificado. in Lisboa de Antigamente

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Largo de S. Domingos: Casa de Candeeiros José D'Oliveira & Barros

Sobre o sítio de S. Domingos refere Norberto de Araújo o seguinte: 
S. Domingos  — Dilecto — é uma crónica viva de Lisboa, com as suas imediações da Praça da Figueira, com o seu trânsito obrigatório, pela Rua [de] Barros Queiroz e Calçada do Garcia, formigueiros de gente, que desce dos Anjos, dos bairros novos, ou de Sant'Ana velha. [...]

Casa de Candeeiros José D'Oliveira & Barros [1909]
Rua Barros Queirós; Largo de S. Domingos; Igreja de São Domingos; Ginjinha do Rossio
Procissão de Nossa Senhora da Saúde entrando na igreja de São Domingos.
Anselmo Franco, in Lisboa de Antigamente

Junto do templo dominicano, assentava, crê-se que já antes de se erguer o Convento, a pequenina ermida de N. Senhora da Purificação, ou da Escada, de grande nomeada na Lisboa velha; o seu lugar era onde está a Casa de Candeeiros, que foi de Tomé de Barros Queiroz, bom cidadão de Lisboa, e que em 1890 a tomou a Manuel Joaquim de Oliveira, fundador dela em 1870. ==
(ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa»,  vol. XII, p. 80, 1939)

Casa de Candeeiros José D'Oliveira & Barros [c. 1910]
Largo de S. Domingos; Igreja de São Domingos (video)
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
 
N.B. O topónimo devia ser mais conhecido como sítio de São Domingos já que nas plantas feitas após a remodelação paroquial de 1770, é referida uma «rua de trás de S. Domingos» na freguesia de Stª Justa e Rufina.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Lyceu Central de Pedro Nunes

O Liceu Central de Pedro Nunes teve a designação inicial de Lyceu Central de Lisboa, 3ª zona escolar. Em Janeiro de 1906 foi instalado provisoriamente no Liceu do Carmo, no Palácio Valadares. Três meses depois foi transferido para um edifício alugado na Rua do Sacramento à Lapa. 
 
É no quadro das preocupações higienistas e pedagógicas estabelecidas na reforma de Eduardo Coelho de 1905, que foram concebidos os edifícios liceais das primeiras décadas do século XX, em Portugal: os liceus de Lisboa da autoria do arquitecto Miguel Ventura Terra, e os liceus do Porto da autoria de José Marques da Silva. A par da influência dos modelos franceses dos lycées construídos a partir da segunda metade do século XIX, o processo de concepção destes edifícios acompanhou a época de transição que caracterizou o início do século em Portugal, em que os valores tradicionais da arquitectura são confrontados com os novos desafios na área da construção e da aplicação de novos materiais. Em termos urbanos, os edifícios liceais vão adaptar-se aos novos planos de urbanização e de melhoria da cidade então projectados.

Lyceu Central de Pedro Nunes [c. 1911]
Avenida Álvares Cabral, antiga Avenida Pedro Álvares Cabral
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Como as instalações não eram as mais adequadas, foi adquirido um terreno na antiga Quinta da Bela Vista, com 36.000m², (actual Avenida de Álvares Cabral), e iniciada a construção de raiz, em 1909. A edificação deste liceu realizou-se segundo projecto elaborado pelo arquitecto Ventura Terra.

Lyceu Central de Pedro Nunes  em construção [c. 1909]
Avenida Álvares Cabral, antiga Avenida Pedro Álvares Cabral
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O liceu foi inaugurado no ano lectivo de 1911/1912 (17-11-1911) com a designação de Liceu Central de Pedro Nunes. Entre 1928 e 1930, Sá de Oliveira, o seu primeiro reitor e organizador, dedicou-se à difícil e árdua tarefa de reestruturar o Liceu para que nele passasse a funcionar a vertente de formação de professores, iniciando-se, assim, uma nova etapa da vida da Instituição, agora como Liceu Normal de Lisboa. Alterado em 1937 para Liceu Pedro Nunes.

Lyceu Central de Pedro Nunes, pátio, campo de jogos [c. 1911]
Avenida Álvares Cabral, antiga Avenida Pedro Álvares Cabral
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Em 1956 nova designação para Liceu Normal de Pedro Nunes. Por fim em 1978 adquire o nome que ainda mantém actualmente de Escola Secundária de Pedro Nunes.1

Lyceu Central de Pedro Nunes  [s.d. - post. 1911]
Avenida Álvares Cabral, antiga Avenida Pedro Álvares Cabral
Estúdio Mário Novais in Lisboa de Antigamente

O edificado, incluindo os jardins, os campos de jogos, o pavilhão gimnodesportivo e o refeitório está classificado, desde 2012, como Monumento de Interesse Público.

Lyceu Central de Pedro Nunes, campo Norte  [s.d. post. 1911]
Avenida Álvares Cabral, antiga Avenida Pedro Álvares Cabral; em segundo plano vêem-se as torres sineiras da Igreja de Santa Isabel
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
1  Texto Fernanda Veiga Gomes in parque-escolar.pt.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Avenida Almirante Reis

O olisipógrafo Norberto Araújo caracteriza da seguinte forma esta grande artéria, com início na Rua da Palma e fim na Praça Francisco Sá Carneiro (Areeiro): 
«Do nosso tempo é a grande artéria de Almirante Reis, que sucedeu na designação, como tenho dito, à Avenida de D. Amélia: tem 40 anos incompletos. É uma linha urbana de primeira categoria, sem história, que começou a rasgar-se timidamente no final do século passado [séc. XIX]. Obedeceu a um plano, e por esta circunstância oferece o esplendoroso aspecto citadino que se lhe nota.
Assim fôsse sempre em Lisboa.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 73, 1938)

Avenida Almirante Reis |c. 1910|
Entroncamento com o Regueirão dos Anjos (à dir.) após demolição da primitiva Igreja dos Anjos; a seguir ao prédio em construção (à esq.) nascerá o Cinema Lys em 1930.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Um mês após a Implantação da República, através do edital de 05/11/1910,  passou a intitular-se Avenida Almirante Reis em homenagem a Carlos Cândido dos Reis (1852-1910): vice-almirante da marinha de guerra e um dos organizadores da revolução de 5 de Outubro de 1910, que se suicida na madrugada do dia 5 convencido do fracasso da revolução. (cm-lisboa.pt)

Avenida Almirante Reis |ant. 1939|
Cruzamento com a Rua dos Anjos. Note-se, como curiosidade, que o eléctrico ainda circulava pela Rua dos Anjos1 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

1 A linha do eléctrico, Carreira nº 19, «Santo Amaro-Arco do Cego», foi inaugurada em 1901 e suprimida em 1991, tendo o seu percurso conhecido várias alterações.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Terreiro do Paço, «Black Horse Square»

E surgiu então — um Terreiro do Paço novo. Espalmou-se aqui, no chão que fora o «espalmadeiro» 1 dos séculos XIV e XV — a mão de Pombal. E Eugénio dos Santos delineou a praça nova, ordenada por decreto de 16 de Janeiro de 1758.
A «Black Horse Square» (Praça do Cavalo Preto), como dizem os ingleses, é, talvez, a mais imponente praça pública da Europa.

Terreiro do Paço [séc XIX] 
A Estátua Equestre de D. José data de 1775 e é da autoria do mestre escultor Joaquim Machado de Castro.
Fotógrafo  não identificado,
in Lisboa de Antigamente

Praça principal de Lisboa, sala de visitas da Cidade — de uma nobilíssima magestade à qual não falta harmonia — todos a temos nos olhos.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 23, 1939)

Terreiro do Paço [séc XIX] 
A Estátua Equestre de D. José data de 1775 e é da autoria do mestre escultor Joaquim Machado de Castro
Fotógrafo  não identificado, in AML

A denominação dada à praça foi atribuída pelo Marquês de Pombal que, deste modo, homenageou os comerciantes de Lisboa que, voluntariamente, cederam 4% sobre os direitos alfandegários de todas as mercadorias para a reconstrução da cidade.
No entanto, o povo não aderiu à homenagem, continuando a chamar-lhe Terreiro do Paço. Esta última designação faz referência ao Paço da Ribeira erguido neste sítio por D. Manuel, entre 1500 e 1505.

Terreiro do Paço [séc XIX] 
A Estátua Equestre de D. José data de 1775 e é da autoria do mestre escultor Joaquim Machado de Castro
Fotógrafo  não identificado,
in Lisboa de Antigamente

[1] Estaleiro no qual querenavam naus.
(Virar ou pôr de querena (a embarcação), para consertar ou limpar.)

Carnaval de Lisboa: o «Chéché»

«Accorda a gente ouvindo, na rua, as castanholas dos rapazes. De vez em quando passa ao longe, muito festiva, uma philarmonica de artistas. É o Carnaval, não ha que vêr. Estamos em pleno domingo gordo. E aqui mesmo, debaixo da janella, um garroche veio tocar buzina furiosamente. Parece um epigramma a nossa preguiça cheia de indiferença. A pe! a pé! até os gainachas nos fazem surriada. Já se sabe na visinhança que gostamos de levantar-nos tarde; portanto a visinhança aproveita a occasião para nos mandar uma bisca n'uma buzina. Que horas marca o relogio? Onze. Com efeito! a buzina teve razão. A pé! a pé! Abrimos a janella. Oh! santo Deus! que mal encarado dia! eu pesadão, ruas lamacentas. Adivinha-se frio lá fóra. Pois, senhores, os que gostam de divertir-se no carnaval vão ficar verdadeiramente codilhados com este domingo gordo. Pobres rapazes! Elles ainda querem iludir-se annunciando a festa com as suas castanholas, espantar O mau tempo com a buzina.»
 (PIMENTEL Alberto, Vida De Lisboa,  1900, pp. 115-116)

Avenida da Liberdade Avenida Dom Carlos I com a Rua do Poço dos Negros [séc. XIX]
O
«Chéché» ou «xéxé, figura típica do carnaval lisboeta

Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

O «Chéché» era a principal figura das Paródias de Carnaval até cerca de 1910, chamavam-lhe peralta, salsa, pisa-flores. Era a caricatura da Lisboa miguelista, da cabeleira de estopa, com grandes lorgnons, trazendo, espetado na bengala, um grande chifre, empunhava um facalhão de madeira e papel prateado com o qual ia ameaçando: «Arreda.que te espeto» O «Chéché›» envergava uma casaca às cores, sapato de fivela, cabeleira de estopa, punhos de renda e um imenso chapéu bicorne com uma inscrição normalmente obscena, como se pode constatar por esta imagem [1ª foto].

Rua Vicente Borga [séc. XIX]
O
«Chéché», figura típica do carnaval lisboeta

Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Igreja da Madalena

Eis-nos no Largo da Madalena — na companhia de Norberto de Araújo — , defronte da Igreja de manuelino pórtico. Antes do Terramoto (sempre o Terramoto...) este templo já tinha a sua frente na orientação de hoje, olhando para a Rua dos Ourives da Prata que então aqui corria, serventia estreita endireitando ao Terreiro do Paço, e que a actual Rua da Madalena apenas sobrecortou no lanço entre o último quarteirão de casas da Rua de S. Julião, e aquele exactamente onde se encosta a Igreja.
Estes sítios foram desafogados nos séculos XIV e XV, e de boa nomeada.

Igreja da Madalena, portal manuelino da fachada principal. escadaria |190-|
Largo da Madalena, Rua de Santo António da Sé
Paulo Guedes,
in Lisboa de Antigamente

O actual templo é de construção posterior ao Terramoto (1767- 1783), obra do arquitecto João Paulo, e assenta nas mesmas bases sobre as quais se erguia, antes, a antiga e real Igreja de Santa Maria Madalena, muito recuada de história e de fundamento, pois é certo existir em 1164 (se não antes), e ter sido reedificada no ano de 1262. Ardeu em 1372, por ocasião do primeiro cerco castelhano a Lisboa, visto ficar fora da Cerca Moura, e foi depois restaurado; padeceu estragos em 1600, foi novamente beneficiado em 1692, e, havendo resistido ao Terramoto, foi devorado no dia imediato pelo incêndio que se seguiu ao cataclismo, e que só poupou, e em parte, a sacristia. Do antigo templo só existe hoje o pórtico manuelino da fachada, considerado monumento nacional, e que ficara de pé em 1755.¹

Igreja da Madalena, portal manuelino da fachada principal. escadaria |c. 1900|
Largo da Madalena, Rua de Santo António da Sé
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1783 a nova igreja é aberta ao público, na festa da padroeira, a 22 de Julho. E em 1798 é construído o adro avançado sobre a rua.
Símbolo da arquitectura religiosa pombalina, revivalista e neo-manuelina, o portal neo-manuelino onde assentam duas esferas armilares, tem fortes afinidades formais com o portal da Igreja do Convento da Madre de Deus.
Foi objecto de alguma contestação quanto à sua proveniência, permanecendo ainda a tese de que o mesmo portal veio da extinta Igreja da Conceição dos Freires, a actual Igreja da Conceição Velha.
Da nova Igreja, merece destaque a decoração no seu interior: mármores, talha e as pinturas da autoria de Pedro Alexandrino. As esculturas foram executadas por Machado de Castro e José de Almeida.²

Igreja da Madalena, portal manuelino da fachada principal. escadaria |c. 1910|
Largo da Madalena, Rua de Santo António da Sé
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, p. 14, 1938.
² cm-lisboa.pt.
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