Showing posts sorted by date for query rua da graça. Sort by relevance Show all posts
Showing posts sorted by date for query rua da graça. Sort by relevance Show all posts

Sunday, 9 August 2026

À roda da Magdalena: o Monete, o Bonete e o Rozendo

Magdalena (rua da) segunda á esquerda na rua nova d'Alfandega, indo da praça do Commercio e finda no poço do Borratem, freguezias da Magdalena 2 a 22, 32 a 146 ela 197, S. Christovão 148 a 186, Santa Justa 188 a 234, 199 a 291, Sé 24 a 30. [Velloso: 1869]

A Rua da Madalena nunca teve qualquer característica comercial ou industrial muito acentuada. Artéria de passagem, de ligação entre a Baixa e S. Cristóvão, S. Mamede e altos do Castelo e da Graça, e ainda à margem da zona principal do comércio citadino, nunca foi uma rua cujo nome lembrasse, ao pronunciá-lo, uma especialidade comercial que a dominasse. No entanto lá teve uma zona que era a das sapatarias e lá teve também as suas casas de venda de bixas (barbearias?).
Da indústria, alem da dos tamancos e das violas, só mais duas, na segunda metade do século passado se afeiçoaram à rua: a hoteleira, na parte que desce para o sul, e a das molherinhas de porta, no pitoresco dizer do quinhentista Miguel Leitão de Andrade ao referir-se às mulheres que se vendiam a si próprias, as quais, sorrateiramente, fugindo a vigilância por entre as sombras imprecisas projectadas pela mortiça luz de azeite, se foram acomodando, hoje uma, amanhã outra, depois várias, ao fim da rua, junto à Betesga, no enfiamento da Mouraria, foco principal. Foi esta a parte suja da rua. Foi ... e infelizmente ainda é, pelo menos à noite, na passagem obrigatória para as casas duvidosas do beco do Rosendo. Mas tirando esta parte — a que resvala das embocaduras das escadinhas de Santa Justa e da travessa da Madalena, antigo beco do Monete — a rua foi sempre uma artéria limpa, uma rua pacatamente habitada pela burguesia com alguma coisa de seu, circunstância que lhe emprestou noutros tempos um ar calmo, de intimidade, que nos confidenciava morarem ali as senhoras Silvas com o seu jogo de gamão, as suas fatias de pão de fôrma com manteiga, o seu chá, e os seus bolos do afamado Baltresqui ...==
[MACEDO, Luiz Pastor de, Tempos que passaram; um artista, uma rua e uma freguesia de Lisboa, 1940]

Rua da Madalena (S→N) |c. 1911|
A dir. lê-se o dístico municipal indicando o então Beco do Monete, que por edital de 1924, passou a denominar-se Tv. da Madalena. Ao funco fica o Poço do Borratém.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Legenda no abandalhado amL: «Manietação popular»

O topónimo Rua da Madalena, como o próprio nome indica, deriva da proximidade à Igreja da Madalena, existente desde pelo menos 1164, mandada construir por D. Afonso Henriques junto à Cerca Moura, em terrenos onde outrora se erguia um templo romano dedicado a Cibeles, a deusa-mãe.
De acordo com o olisipógrafo Luíz Pastor de Macedo, esta artéria teria sido a Rua do Arco de N. S. da Consolação. Por seu lado, Norberto Araújo defendia que não correspondia a qualquer arruamento existente antes do terramoto de 1755. Em 1841, adianta, ainda nesta artéria não havia passeios empedrados.

 

Rua da Madalena em 1911 e 1901, respectivamente
A primeira transversal na imagem da esq. é a Rua de Santa Justa (escadinhas)
Na imagem da dir. vê-se a embocadura das Escadinhas de São Cristóvão, sendo que, ao prédio com que estas faziam gaveto, foi acrescentado do lado poente
uma fiada com um arco que se abre sobre a antiga serventia.
Fotografias por Alberto Carlos Lima e Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Monete (beco do) primeiro á esquerda nas escadinhas de S. Christovão, indo da rua da Magdale Magdalena, e finda na rua da Magdalena, não tem saída, freguezia de Santa Justa 2 a 50 e 1 a 9.

Monete (Beco do) Em 1551 «rua do Monturo do Bonete», assim como as Escadinhas de S. Cristóvão «rua da calçada do Monturo do Bonete», havendo também no sítio a «travessa do Monturo do Bonete».
Em 1715, a rua do Monturo do Bonete desceu já à categoria de «beco», e a sua denominação está reduzida a «Beco do Bonete». Em 1763, ainda o Padre Castro lhe chama igualmente «Beco do Bonete». Aparece, enfim, o beco do Bonete transformado em beco do Monete, no Itinerário de Inácio Paulino, edição de. edição de. 1804. É. provável. que. a. transformação. venha. da. aposição geral dos letreiros, mandada executar dois anos antes pela Administração Geral dos Correios.
É o segundo à esquerda, subindo pela rua da Madalena e termina nas escadinhas de S. Cristóvão, diz o Itinerário lisbonense de 1818. [Brito: 1935]

Beco do Rosendo |c. 1945|
Perpectiva tomada da Rua da Madalena.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Em Lisboa há um beco hoje chamado «do Rosendo» que pelos documentos antigos e pelo Tombo da Cidade, composto depois do terremoto de 1755, se vê ter tido a denominação de Resende. [O Archeólogo português: 1906]

Sunday, 5 July 2026

Palácio Figueira (ou de Santo André)

O Palácio Figueira, a Santo André, de sólidos cunhais nas prumadas extremas das suas faces, mas que não atingem toda a altura do edifício, assinala-se pela sua primitiva fachada principal orientada a Sul, e pelo robusto portal que a domina, caracterizadamente seiscentista, constituindo no exterior um curioso monumento de fisionomia lisboeta.

Palácio Figueira, a Santo André, situado entre o alto da calçada desta denominação e o começo da Calçada da Graça, é uma construção pesada, acentuadamente seiscentista (c. 1563), na qual avulta o portal nobre da fachada principal.

Palácio dos Condes da Figueira, portal nobre seiscentista |193-|
Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André e, ao fundo, o trecho final da Costa do Castelo. Neste local existiu, até 1913, o Arco de Santo André. 
Portal nobre da época da fundação, em cantaria e tipologia semelhantes às das fortalezas seiscentistas. Pedra de armas da família Mendoça, que parece não ser a primitiva, franchada, com legenda, dividida por dois ângulos do brasão, AVE MARIA. (Araújo: 1949)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O seu núcleo fundamental remonta aos fins do século xv, e foi erigido por um fidalgo, João de Memdoça, cognominado «Cação», a quem D. João II, cerca de 1490, deu licença para que construísse casa junto à muralha da cerca e postigo de Santo André. A casa solarenga fora já reedificada, quasi desde os fundamentos, no meado do s4culo XVII, apenas com um andar, e em 1676, quando do casamento da senhora Mendoça com o 2.ª Montebelo, o palácio foi acrescido de um andar nobre, recebendo ainda ampliações e beneficias. É este o actual Palácio de Santo André, que pouco dano sofreu pelo Terramoto [...]
Em 1822, D. Maria Amália Machado de Mondoça casa-se com o 1º Conde da Figueira, D. José de Castelo Branco Correia e Cunha de Vasconcelos e Sousa. Assim, o Palácio dos Mendoças entra na Casa Figueira.

Palácio dos Condes da Figueira |194-|
Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André com a Calçada da Graça
Fachada Poente, no começo da Calçada da Graça, com dois corpos distintos, sendo, o de baixo, com quatro janelas de sacada, correspondente ao edifício primitivo, e o que lhe fica contíguo, mais alto e avançado, e de uma feição diferente do palácio seiscentista, enobrecido por portal nobre, da fundação do edifício e actual acesso ao palácio) de tipo setecentista.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Em 1913 foi demolido o pitoresco Arco de Santo André, da Cerca de D. Fernando, contiguo ao palácio, e que, superiormente, punha este em ligação com as casas da entrada da Costa do Castelo.==

Nota(s): O desaparecido Elevador da Graça, semelhante ao da Estrela-Camões, percorria o trajecto Largo da Graça, Largo e Calçada de Santo André (contornando o Palácio Figueira), Calçada dos Cavaleiros, Rua da Mouraria, Carreirinha do Socorro e Rua Nova da Palma, surgindo a maior dificuldade na transposição do velho Arco de Santo André.

Calçada da Graça |c. 191-|
Palácio Figueira, portal setecentista.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Calçada da Graça — onde se encontra a Fachada Poente com seu portal setecentista deve o nome do antigo Convento de N. S. da Graça, começado a construir em 1271 no local conhecido por Almofala, que era um pequeno arrabalde mourisco extramuros quando as tropas de D. Afonso Henriques aí acamparam durante o cerco de Lisboa. A Almofala mourisca tornou-se no bairro da Graça lisboeta repetida na Rua, Largo e demais topónimos que invocam aquele convento.
____________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 12-14, 1938.
idem, Inventario de Lisboa, Fasc. VI, 1949.

Sunday, 22 March 2026

Rua das Picoas com a Av. da Praia da Vitória

 A Rua das Picoas, embora só tinha sido oficializada por deliberação camarária de 12 de Julho de 1906, era anterior à urbanização que o local sofreu no final do século XIX, como Estr. das Picoas. Diz-se que entre os proprietários da quinta se contaram duas senhoras de apelido Picão, a quem o povo chamou «as Picôas», e assim foi baptizado o sítio.

Picôas (estrada das) fica á direita no largo da Cruz do Taboado, indo para a porta do novo Matadouro e finda na barreira, que precede a rua das Cangalhas, freguezia de S. Sebastião da Pedreira 2 a 20 e 1 a 15. [Velloso: 1869]

Rua das Picoas com a Av. da Praia da Vitória |1943-01|
Este antigo troço da Rua das Picoas (velhinha Estr. das Picoas) que desapareceu depois da construção do Cine-Teatro Monumental (e prolongamento da Av. Praia da Vitória) e após demolição do Palácio Camarido que se vê à direita.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida Praia da Vitória no cruzamento com a Rua das Picoas |1943-01|
Ao fundo, em fase de demolição, observa-se o Palácio Camarido e a Avenida 5 de Outubro.
Roiz, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem corrigida, invertida no abandalhado amL.

O nome desta avenida surgiu em 1906 como Avenida «da» Praia da Vitória mas, em 1951, a partícula «da» foi retirada, após parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 13 de Abril aprovado pelo Vice-Presidente da Câmara no dia 16. Inicialmente, estendia-se da Rua de Dona Estefânia à Praça Duque de Saldanha, sendo que, a partir de 1945, passou a prolongar-se até à Avenida 5 de Outubro.

Rua das Picoas vista tomada da com a Av. Fontes Pereira de Melo |1938|
Este antigo troço da Rua das Picoas (velhinha Estr. das Picôas) desapareceu depois da construção do Cine-Teatro Monumental (vd. fotografia aérea abaixo); à dir. nota-se o muro do extinto Palácio Camarido.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem corrigida, invertida no abandalhado amL.
Fotografia aérea da zona da Praça Duque de Saldanha e Picoas |1934|
Pinheiro Corrêa, in Lisboa de Antigamente
Legenda (clicar para ampliar):
Edifícios/Monumentos:
1Palácio Camarido (demolido c. 1945)  2Praça Duque de Saldanha  3Mercado 31 de Janeiro que foi Matadouro Municipal   4Maternidade Doutor Alfredo da Costa  6Hotel Aviz (Palacete Silva Graça, demolido em 1962)
Arruamentos:
Vermelho —Antiga Estr. das Picoas (o troço tracejado foi extinto);  Verde — Rua Engenheiro Vieira da Silva;  Azul — Avenida Fontes Pereira de Melo;  Laranja — Avenida 5 de Outubro;  Roxo —Av. Duque de Ávila

Sunday, 19 October 2025

Sitio onde a Rua da Adiça encontra a Rua Norberto de Araújo

A Adiça, denominação muito antiga, foi durante 63 anos (1893 a 1956) Calçada de S. João da Praça. O fontanário singelo que aqui se encontrava em tempos (vd. 2ª imagem), foi substituído por este que ali se vê escondido numa pequena gruta.
Mal sabia o insigne autor das "Peregrinações" que ao dizer, em 1943, o que abaixo transcrevemos, quase vinte anos volvidos (1956), a edilidade aprovaria uma nova designação para o troço da R. da Adiça — desde o n.º 53-70 até ao Largo das Portas do Sol — passando a denominar-se "Rua Norberto de Araújo" — homenagem ao ilustre olisipógrafo (1889-1952).

Sítio onde a Rua da Adiça encontra a Rua Norberto de Araújo (fontanário) |post. 1965|
A Adiça. Aí temos um dos mais contemplativos recantos da Alfama. [Araújo: 1939]
Amadeu Ferrari, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está «identificado no abandalhado amL

O Sítio da Adiça — recorda Norberto de Araújo — nasce nas Portas do Sol e morre em S. Rafael. [...] Adiça! Que graça arcaica de legenda toponímica! Hoje chama-se Calçada de S. João da Praça [(até 1956. depois voltou a denominar-se R. da Adiça]. Os velhos do lugar só sabem onde fica a Adiça. Eis um dos mais típicos e generosos compartimentos alfamistas. [Araújo, 1943]

Local onde a Rua Norberto de Araújo e Rua da Adiça se encontram |1950|
Observa-se o primitivo fontanário na R. da Adiça antes das remodelações em Alfama na década de 1960. 
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Friday, 17 October 2025

Quartel da Graça

Graça (largo da) fica entre a calçada da Graça, caracol da Graça, travessas das Monicas, de S. Vicente, da Pereira, rua do Sol da Graça e travessa do Monte, freguezias de Santo Andre 93 a 136, Santa Engracia 1 a 52, S Vicente 53 a 92.
Foi fundada a egreja de Nossa Senhora da Graça no anno de 1147, a primeira vez e a segunda em 1291, sendo reedificada em 1526 е 1556. O convento serve de quartel para infanteria[Veloso: 1869]

Tudo o que a Graça oferece à vista é posterior ao Terramoto, a não ser o casco invisível de uma ou outra casa, fora da área central do Bairro, e a Convento, hoje [1938] Quartel, com sua Igreja. Os mouros, que seus arredores ocupavam antes da conquista cristã, chamavam a este sítio «Almafala» — recorda Norberto de Araújo — designação «de Graça» que data precisamente de 1305, nem mais ano nem menos ano. Continuou depois a ser subúrbio, estrada de comunicação desta parte da Cidade com os caminhos que levavam para as quintas e lugarejos do ocidente.

Largo da Graça |1949-03|
Stio do estrangulamento entre os seus terreiros superior e inferior. À dir. nota-se a igreja e convento e quartel da Graça e, ao fundo, observa-se a chamada Vila Sousa.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Dilecto — prossegue o distinto olisipógrafo —: vale a pena, mais do que noutro qualquer antigo Convento tornado casa militar, percorrer o edifício, apressadamente que seja, e no que nos for possível.
Em 1834, pela extinção das Ordens, instalou-se no edifício conventual o regimento de Infantaria 10, alguns anos mais tarde Infantaria 5, que foi a unidade grande detentora da casa, claustros e cerca dos Agostinhos. Em 1918, estiveram neste Quartel, episodicamente, Infantaria 32 (de Lagos) e Infantaria 30 (de Bragança); de 1919 a 1928 um esquadrão da Guarda Republicana sendo depois o edifício entregue a Caçadores 7, que hoje ocupa uma parte com uma companhia de adidos e duas companhias de reformados, havendo-se instalado noutra parte do casarão monástico a terceira companhia de Saúde.
O aspecto exterior do Quartel, ameado nas guarnições, e com o portal de tipo militar com legendas, muito sumidas, relativas a acções em combate de Infantaria 5, é de 1842.

Largo da Graça |1912|
À esq. nota-se o convento e quartel da Graça.
Postal ilustrado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 42-43, 1938.

Sunday, 17 August 2025

Conservatório Nacional que foi Convento dos Caetanos da Divina Providência

Aqui temos o edifício, novo, do Conservatório Nacional (de Música e Teatro). Assenta, com transformação radical arquitectónica do exterior, e com alterações radicais do interior, no que foi o Convento de S. Caetano de Thiene, dos frades teatinos ou «caetanos» que deram o nome à Rua.
Os clérigos regulares de S. Caetano — recorda  Norberto de Araújo a quem vamos sempre seguindo — tinham a invocação da Divina Providência, e instalaram-se em Portugal em 1650, primeiramente num hospícios que existiu no local onde se ergueu a actual Igreja dos Mártires, e depois neste sítio, ainda como hospício, visto não terem obtido logo licença régia de D. João IV para erguerem Casa conventual; já «eram demais» os conventos em Lisboa, confessava o Rei.

Conservatório Nacional que foi Convento dos Caetanos |1918|
Rua dos Caetanos, 29
Perspectiva tomada da Travessa dos Inglesinhos.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Igreja do Hospício, do Bairro Alto, foi inaugurada em 1653, havendo antes sido comprados para a Ordem casas, chãos e hortas que, pertencentes certo fidalgo (não sei quem ele tivesse sido) chegavam até à Rua Formosa [hoje R. de O Século]. Em 1661 os clérigos de qualidade e muito saber, obtiveram a almejada licença régia para converterem o Hospício em Convento, e vinte anos depois D. Pedro II mais terrenos lhes concedeu, para alargarem a Casa e a engrandecer; o novo Convento foi inaugurado em 1698. O Terramoto quási deu cabo do edifício, mas um Teatino ilustre, o Padre D. Manuel Caetano de Sousa, fê-lo reedificar à sua custa, voltando os religiosos, que se tinham ido albergar a uma casa que possuíam no Campo Grande, aos «Caetanos» em 1757.
Cabe aqui dizer que o introdutor desta Ordem em Portugal foi o padre napolitano António Ardizoni Spínola; neste Convento da Divina Providência viveram e floresceram clérigos caetanos notáveis, aos quais muito deveram as letras: D. António e D. Manuel Caetano de Sousa, D. José Barbosa, o insigne Rafael Bluteau, D. Tomás Caetano do Bem, para outros não citar.
O Real Conservatório não teve, em cultura, maus alicerces. Já em 1811 se instalava no Convento a Real Academia de Desenho e de Arquitectura Civil — talvez o germe da Escola das Belas Artes.
No tempo das guerras civis estiveram neste edifício aquarteladas as tropas miguelistas, e, depois, no inicio do regime liberal, uma companhia da Guarda Municipal.


Conservatório Nacional |1059|
Rua dos Caetanos, 29
Fernando Jesus Matias, in Lisboa de Antigamente
Conservatório Nacional |1929-04-10|
Rua dos Caetanos, 29
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente





















Ficaste, Dilecto, alguma cousa sabendo do «casco» material e cultural desta Casa. Como passou isto a Conservatório não fujo a recordar-te. 
Há um século [por volta de 1838], precisamente, o Teatro português caíra em profunda decadência, mas menor e menos grave do que a actual — desorientadora! — , porque em boa verdade o Teatro nos séculos anteriores ao Conservatório Real não passara de tentativas, e no nosso tempo — do século passado [XIX] para o actual — houve bom teatro ... e já não o há.
O insigne Visconde de Almeida Garrett num célebre relatório à Rainha D. Maria II pintou com sinceridade o lamentoso quadro «da decadência do teatro», e pela força da compreensão superior de Passos Manuel — criador de tanta instituição! — foi, em 15 de Novembro de 1836, fundado o Conservatório de Arte Dramática, no qual se incorporou o Conservatório de Música, estabelecido no ano anterior na Casa Pia; a Inspecção Geral dos Teatros foi fundada na mesma data.
Em 12 de Janeiro de 1837 o edifício dos Caetanos foi destinado a sede do Conservatório, pois a Ordem religiosa, como todas, fora extinta em 1834 (havia já então nos Caetanos apenas três velhos clérigos) . E desde então o Conservatório, no qual a arte musical gradualmente tomou natural predomínio sobre a arte dramática, nunca mais daqui saiu.

Conservatório Nacional que foi Convento dos Caetanos |1968|
Rua dos Caetanos com a  R. João Pereira da Rosa (antiga Cç. dos Caetanos).
Defronte do Conservatório levanta-se o Palácio Almeida Araújo, com seu portão armoriado e pátio nobre. [Araújo: 1938]
Armando Serôdio,  in Lisboa de Antigamente

Dilecto, podemos entrar. Observa, antes, o exterior arquitectónico do edifício, que faz ângulo na Rua e Calçada dos Caetanos [hoje  R. João Pereira da Rosa], muito ao gosto italiano, e com certa beleza, na exuberância de cantaria e dos lavores , nas suas janelas rasgadas e no seu pórtico principal sóbrio e elegante.
As obras de adaptação vieram do século passado, mas pode dizer-se que se intensificaram desde 1911; por essa época foi nomeado Inspector do Conservatório o Dr. Júlio Danta, que, com alguns pequenos interregnos, durante os quais ocupou o lugar de Director o professor Viana da Mota, aqui exerceu as suas funções até 1936. Extinto o lugar de Inspector, Viana da Mota ficou como Director único (secção de música e de teatro), e desde Agosto de 1938, pela circunstância daquele artista e professor haver atingido o limite de idade legal, passou a Director o professor Ivo Cruz que se afirmou, no acto da sua posse, capaz de levar a cabo uma reforma ajustada às exigências deste estabelecimento de ensino.

Conservatório Nacional, Salão Nobre |1926|
Rua dos Caetanos, 29
Ao longo dos seus mais de 180 anos de existência, a Escola de Música do Conservatório Nacional sempre formou músicos e apresentou em concerto os seus alunos. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Mas dêmos uns passos pelo edifício; como vês, o aspecto interior é o característico dos estabelecimentos de ensino: frio, simétrico, higiénico, claro. O que havia de representativo do antigo Convento — desapareceu; a Igreja foi demolida em 1912.
O Salão de concertos e conferências do Conservatório data de 1881; possuí um restrito interesse, com sua galeria, sua tribuna doirada, as pinturas do tecto ― uma alegoria e quatro medalhões ― do pincel de Columbano, obra que o excelso artista repudiava. As decorações são de Eugénio Cotrin.
Quanto a mim ―  e tu vais concordar ―  o mais interessante que possuí o interior do Conservatório novo (cujas obras foram durante muitos anos dirigidas pelo engenheiro Veiga da Cunha), são estes «Passos Perdidos» da parte da Secção de Teatro.
É uma iniciativa feliz, como tanta , do Dr. Júlio Dantas ( a quem o Conservatório bastante deve), obra começada a realizar em 1915 e só concluída em 1930.
Vamos ver com atenção. Neste corredor «nobre», onde se rasgam portas de aulas engrinaldadas e sobrepujadas de azulejos no estilo de setecentos num conjunto um pouco teatral mas que num Conservatório de Teatro não é defeito as paredes são guarnecidas a todo o longo de silhares de panos de azulejos, na cor clássica, com assuntos e figuras do teatro português, recortados nas cimeiras.
Vê tu, Dilecto, como isto é belo, apesar de moderno (quero dizer: sem a graça subjectiva da cerâmica), e pensa quantos amigos de Lisboa do teatro e da arte desconhecem estes « Passos Perdidos», como eu lhes chamo, e tu toleras.
E deixemos o Conservatório Nacional, que o tempo voa.==
 
Conservatório Nacional que foi Convento dos Caetanos |c. 1910|
Rua dos Caetanos, 29
O primeiro prédio à dir. é o primitivo Conservatório Nacional, fund. em 1836.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

N.B. Passaram pelo Conservatório Nacional nomes incontornáveis do panorama literário e teatral português, como D. João da Câmara, Maria Matos, Lucinda do Carmo e Assis Pacheco no quadro dos docentes, e, enquanto alunos, o Conservatório deu à cena teatral portuguesa artistas como Maria Lalande, Irene Isidro, Eunice Muñoz, Maria Barroso, João Villaret e Ruy de Carvalho, entre muitos outros. [+ info]
_________________________________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VI, pp. 36-40, 1938.

Friday, 3 January 2025

Calçada Nova do Colégio que foi do Monturo do Colégio

Colégio (Calçada Nova do) - Esta categoria foi acompanhada do sufixo «Nova», para diferençar a via pública a que está aplicada a denominação correspondente, de outra que a teve igual, e hoje é denominada «José António Serrano», com a categoria de Rua. [Brito: 1935]

Collegio (calçada do monturo do) - Segunda á direita na rua do Arco da Graça, indo da calçada do Collegio e finda na calçada de Santa Anna. [Vellozo, 1869]

Calçada Nova do Colégio |1910|
Antiga do Monturo do Colégio [dos Jesuítas de Santo Antão-o-Novo, hoje
Castelo de S. Jorge; lanterna adaptada a gás.
Bilhete postal não circulado. Edição Tabacaria Costa

Tudo isto era de sujeição toponímica c social ao Convento dos Padres do Colégio da Companhia de Jesus (hoje Hospital de S. José) nos começos do século de seiscentos, e, antes, lombas de Sant'Ana, terrenos campestres só aqui e ali arruados, com um ar rural dando contraste ao bulício lá de baixo: S. Domingos, Rossio, Corredoura de Santo Antão. [Araújo: 1938]

Calçada Nova do Colégio |1948|
Troço da muralha Fernandina com a imponente Torre de Sant'Ana à direita.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Friday, 29 November 2024

Ascensor da Glória

No dia 31 do mez¹ findo — noticiava a revista ilustrada O Occidente em 11 de Novembro de 1885 — , foi aberto á circulação publica o calçada da Gloria, e a maneira como o publico recebeu esta innovação, demonstra cabalmente a sua grande utilidade.
O ascensor da calçada da Gloria, mais feliz, porventura, que o seu irmão primogenito da calçada do Lavra, veio confirmar de um modo positivo a grande vantagem d'estes elevadores, e este com especialidade, porque reune á vantagem practica, a aspiração platonica de se subir a Gloria por um vintem cada cabeça, o que não é para desprezar n'estes tempos de tantas aspirações.

Ascensor da Glória |c. 1920|
Da «Glória» se chama em razão de uma Ermida de N. S. da Glória que existiu
ao fundo da rampa, erigida em 1574, por Fernão Pais (...).
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

Mas, independente d'estas vantagens, tem ainda outra muito mais importante a qual é a de ter quebrado o enguiço, que parecia haver para o desenvolvimento d'este grande beneficio á capital, enguiço causado pelo pouco resultado obtido na exploração do ascensor da calçada do Lavra, o que não devia fazer desanimar os emprehendedores d'este melhoramento, porque a concorrencia do publico alli é muito limitada, com ascensor ou sem elle.
Para o lado occidental da cidade o movimento da população é muito maior, e portanto a exploração dos ascensores muito mais productiva.
Os resultados já obtidos no elevador da calçada da Gloria, animam a exploração de novas vias, e é assim que se projectam e tratam de pôr em pratica, na calçada da Estrella ou travessa de Santo Amaro, na Bica de Duarte Bello, na rua das Flores, na rua da Imprensa Nacional, na calçada dos Paulistas e para o monte da Graça, cujos habitantes pedem este melhoramento em um abaixo assignado com mais de mil assignaturas. [O Occidente: 1885]
¹ (foi mantida a ortografia da época)

Ascensor da Glória |1885|
Ascensor da Glória no dia da inauguração - 31 de Outubro de 1885; este elevador apresentou, no inicio,  a particularidade de se poder viajar no tejadilho.
 Desenho do natural por J. Christino, in O Occidente

Sunday, 23 June 2024

Panorâmica sobre a zona da Bica

Numa definição alargada a Bica inclui a Calçada da Bica Grande — verdadeiro caroço da vida social do bairro —, o Beco dos Aciprestes, a Travessa da Bica Grande, a Calçada da Bica Pequena, o Largo de Santo Antoninho, a Rua dos Cordoeiros, a Rua da Bica Duarte Duarte Belo e as quatro travessas que a cortam perpendicularmente: a do Cabral, da Portuguesa, da Laranjeira e do Sequeiro

Panorâmica sobre a zona da Bica |196-|
Vista tomada do Alto de Santa Catarina notando-se à esquerda a greja das Chagas de Cristo e, à direita, as torres da Igreja de São Paulo.
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Na Igreja do Convento da Trindade de Lisboa, existiu desde 1493 uma confraria chamada Chagas de Cristo, cujos devotos e confrades eram marítimos e mercadores vindos da Índia. A confraria atingiu grande prestígio na capital e Frei Diogo de Lisboa resolveu em 1542 erigir uma igreja destinada ao culto e a albergar os frades. Com o terramoto de 1755, a primitiva igreja foi arruinada, perdendo-se a valiosa imagem de Nossa Senhora da Piedade das Chagas de Cristo, padroeira do templo. A reconstrução que sofreu, devolveu-lhe um aspecto sóbrio como é comum a quase todas as igrejas pombalinas. De uma só nave e com três altares laterais é de salientar o retábulo da "Ascensão" no altar-mor.
__________________________________________________________
Bibliografia
CORDEIRO, Graça Índias e GARCIA, Joaquim, Lisboa freguesia de São Paulo, Lisboa, Contexto Editora, pp. 34, 35 1993.
idem. Um lugar na cidade: quotidiano, memória e representação no bairro da bica. Lisboa, Publicações Dom Quixote, p. 65, 1997.

Friday, 17 May 2024

Drogaria Progresso, à Polytechnica com a Rua da Penha de Fança

Penha de França (rua da) quarta á direita na rua da Escola Polytechnica, indo do largo do Rato e finda na travessa de Nossa Senhora da Conceição, freguezias de S. Mamede 1 a 61 e 28 a 82, Santa Izabel 2 a 26. [Velloso: 1869]

Drogaria Progresso |c. 1911|
Rua da Escola Politécnica, 109-113, com a Calçada Engenheiro Miguel Pais — dístico de 1948.
Antiga Calçada de João do Rio, antes Calçada da Penha de França e antes Rua da Penha de França.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Correia Pais (1825-1888) foi um engenheiro militar que alcançou a patente de Tenente- Coronel em 6 de Junho de 1868.
Trabalhou nas linhas do Caminho de Ferro do Sul e Sueste Em 1876 apresentou um projecto de uma ponte entre o sítio do Grilo - no Beato - e o Montijo, com um tabuleiro duplo para circulação ferroviária e rodoviária e na sua obra «Melhoramentos de Lisboa e Seu Porto» (1883-84) defendeu projectos como um túnel entre o Largo do Município e o Largo do Corpo Santo, um viaduto metálico entre o Largo do Caldas e o Chiado, uma avenida de 800 m entre a Rua da Misericórdia e o Palácio de S. Bento, um grande viaduto metálico entre o Monte da Graça e o Monte da Estrela ou uma linha de túneis entre o Largo do Intendente a Rua de S. Bento.

Drogaria Progresso (s/d) |c. 1905|
Fachada sobre a  Calçada Engenheiro Miguel Pais — dístico de 1948.
Antiga Calçada de João do Rio, antes Calçada da Penha de França e antes Rua da Penha de França.
"Especialidade de artigos para Photographia, Analyses e Embalsamamentos"
Arquivo MTD

Sunday, 21 April 2024

Hotel Aviz (Palacete Silva Graça)

Já agora, anotemos o luxuoso Hotel Aviz, que se contém no quarteirão que segue para Sul — sugere o ilustre Norberto de Araújo.

Foi aqui o palacete que o director de «O Século», José Joaquim da Silva Graça, fez levantar em 1904 (desenhado para habitação pelo arq.º Ventura Terra), para sua moradia particular. Em 1919 José Rugeroni, genro de Silva Graça, adquiriu este palacete ao mesmo tempo que comprava «O Século»; em 1931 decidiu José Rugeroni converter o palacete, com seus jardins e anexos, num hotel de luxo.
O edifício foi então radicalmente transformado, segundo a orientação do seu proprietário, com o qual colaborou o arquitecto Vasco Regaleira
O Hotel, cujo levantamento só foi possível com o auxilio financeiro da Caixa Geral de Depósitos, foi inaugurado em 24 de Outubro de 1933.


Hotel Aviz (Palacete Silva Graça) |c. 1960|
Av. Cinco de Outubro com a Av. Fontes Pereira de Melo
Na fachada destaque para a enorme águia de asas abertas.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Hotel Aviz (Palacete Silva Graça) |c. 1960|
 O palacete do antigo jornalista Silva Graça situava-se entre as ruas de Tomás Ribeiro,
Viriato, Latino Coelho e Avenida de Fontes Pereira de Melo.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

O Hotel está recamado de arte na construção e decoração de sentido histórico no seu ambiente; é possível que pareça pretensioso, mas resultou bem o risco, até pela solução de vários problemas, nos quais a intenção e o bom gosto se poderiam chocar.

Um «hall» vistoso introduz num salão «Renascença» — grande vestíbulo — no qual se vê, à direita, um fogão, tipo de lareira portuguesa, com ricas colunas de madeira lavrada, peça que adveio da Vila de Santo António, à Junqueira, que pertenceu aos Burnays; sobre ele se colocou um brasão da Casa de Aviz. Do lado oposta vê-se um belo armário « Renascença», exemplar seiscentista que estava no Convento das Trinas; anota aquela formosa porta monumental ao fundo, e a balaustrada de ferrageria portuguesa antiga, peça que pertenceu à capela do Convento de Sacavém. Evidentemente todos estes exemplares beneficiaram de restauro. As sobreportas ostentam as armas e as divisas dos infantes da Ínclita Geração.

Hotel Aviz (Palacete Silva Graça) |c. 1960|
 Vestíbulo no qual se vê, à direita, um fogão, tipo de lareira portuguesa e balaustrada de ferrageria portuguesa antiga.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Hotel Aviz (Palacete Silva Graça) |c. 1960|
 Salão «Renascença».
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

A Sala de Leitura, com mobiliário de estilo alentejanos, o «bar», no qual se notam baixos relevos históricos de Diogo de Macedo, e um sentido original no mobiliário, os terraços decorados com azulejos de tipo hispano- -árabe - definem já o « carácter e a fisionomia do Hotel.
As dependências e quartos, no primeiro pavimento, designam-se por «Suites», ou melhor — por correntezas — , que tomaram os nomes dos reis e príncipes da Casa de Aviz: D. João I, D. Filipa de Lencastre, D. Duarte, D. Pedro «Regente», Infante D. Henrique, Infante Santo e Infante D. João. As guarnições interiores dos aposentos são ricas, como arte aplicada. 
A Sala de Jantar situa-se no primeiro pavimento, abrindo dos jardins; há que destacar nela um grande painel de azulejos (Leopoldo Batistini) que reproduz uma das tapeçarias portuguesas de Pastraña (Espanha), além de outras decorações artísticas, de sentido histórico e etnográfico.
 
Como viste, o Hotel Aviz não está mal; este, e o Palace do Bussaco, constituem os dois únicos espécimes de hotel de luxo em Portugal.¹

Palacete Silva Graça depois Hotel Aviz  |c. 1905|
Perspectiva tirada do cruzamento da Av. Cinco de Outubro com a Rua Pinheiro Chagas na direcção da Av. Fontes Pereira de Melo. Do lado esq. nota-se o muro da Casa-Museu Doutor Anastácio Gonçalves, antiga Casa Malhoa.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Palacete Silva Graça depois Hotel Aviz |c. 1908|
Perspectiva sobre os jardins do Palacete Silva Graça vendo-se a Av. Cinco de Outubro à dir. e a Rua Viriato à à esq...
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

N.B. O quarto número 72, com uma casa de banho extraordinária, ficou conhecido pelo Quarto Eva Perón; noutras épocas recebeu também Cecil B. DeMille. Além destes, passaram por lá Mastroianni, Sinatra, Ava Gardner, Maria Callas e outros. Calouste Gulbenkian viveu e morreu neste Hotel.
Durante a Grande Guerra também espiões alemães foram frequentemente instalados no Aviz, como o famoso Dusko Popov, e membros de famílias reais, como Humberto II de Itália, o futuro rei Juan Carlos de Espanha e o ex-rei da Roménia, Carol. Este último tinha abdicado do trono romeno sob pressão alemã, em 1940. Como estava sempre a ser seguido por membros da Gestapo durante a sua estadia no Aviz, nunca deixou o hotel antes de se mudar para a Casa Mar e Sol, no Estoril.
Hotel Aviz foi também o local do lendário jantar do duque de Windsor − antigo rei Eduardo VIII de Inglaterra − e da sua esposa Wallis Simpson. O jantar teve lugar a 30 de Julho de 1940, no dia anterior à sua partida a bordo do Excalibur para as Bahamas, onde lhe foi atribuído o cargo de governador por Winston Churchill. Os serviços secretos alemães planeavam raptar o duque, que simpatizava fortemente com a Alemanha nazi, nessa mesma noite. Mas os serviços secretos britânicos descobriram a Operação Willi e a trama nazi falhou.²
Demolido em 1962 erguem.se no seu lugar o “Edifício Aviz e o “Hotel Sheraton”.
_________________________________________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 81-82, 1939.
² LANGENS, Joke, Lisboa em 10 Histórias, 2022.
Web Analytics