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domingo, 25 de janeiro de 2026

Cais da Ribeira: cena de rua

Nos primeiros anos do séc. XX diversas empresas asseguravam o tráfego fluvial de Lisboa com a “Outra Banda”. A Parceria dos Vapores Lisbonenses, sedeada no “chalet” do Cais do Sodré, tinha duas carreiras diárias para Aldeia Galega (Montijo), onde se pagava 160 réis à ré e 120 réis à proa. Na “linha” de Cacilhas, durante a semana, os preços variavam de 60 réis à ré a 40 réis à proa, saindo os barcos com um intervalo de 40 minutos.
(in Guia do Viajante, Lisboa 1907)

Cais da Ribeira: recolher das redes de pesca |1912|
Em segundo plano destacam-se os famosos "Hotel Central" e "Hotel Bragança (ou Braganza)" mais atrás, ambos referidos por Eça de Queiroz nos seus romances e já aqui mencionados.
Joshua Benoliel
, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): As ovarinas (o 'o' etimológico perdeu-se na pronúncia) (peixeiras) formam com seus pais, maridos e irmãos a mais curiosa população desta cidade; população inteiramente à parte e com carácter e feição própria.

Cais da Ribeira: cena de rua |c. 1900|
A freguesia aguarda enquanto as varinas preparam o peixe para a venda. Antiga Estação da "Parceria dos Vapores Lisbonenses", fundada em 1890; Cais do Sodré.
Autor não identificado, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Edifício central da companhia dos telefones de Lisboa

Edifício situado no gaveto da Rua Augusta, 254-262, com a Rua de Santa Justa, 54-60, que serviu, entre 1888 e 1905, de sede da Anglo-Portuguese Telephone Company em Portugal. A mansarda, cujo projecto indica ter sido acrescentada em 1888, surge em foto tirada do elevador de Santa Justa [vd. 2ª imagem], provavelmente da primeira década de 1900.

Rua Augusta com a Rua de Santa Justa |c. 189-|
Edifício central da companhia dos telefones de Lisboa 
A estrutura em madeira visível nesta foto era uma grande caixa sobre o telhado
do prédio que servia de central de cabelagem dos telefones. A central funcionou neste
edifício até 1905.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O pedido de alteração do telhado mostra nas peças gráficas o desejo de substituir somente as águas-mestras por novo material, esclarece o material que revestia as águas-dobradas, e que se observa na 2ª imagem, reza assim:

No 4º andar e mansarda, onde se pretende faser estas obras, esteve installada a “Companhia dos Telephones” que mandou demolir algumas divisões interiores a fim de obter uma grande sala em cada um dos pavimentos, assim como fez construir o telhado em condições especiais para o seu serviço, e coberto com folha de ferro. Pretende agora o proprietario tornar estes dois pavimentos habitaveis, fasendo-lhes novas divisões e construindo novo telhado com inclinação regular e coberto de telha.
 Na actualidade, este edifício encontra-se revestido com telhas canudo, inseridas após 1980, o que não permite a observação in loco para levantar informações complementares. 

Rua de Santa Justa |c. 1903|
O edifício da Telephone Company (3º à esq.) após as alteração do telhado e mansarda.
Castelo de S. Jorge; elevador de Santa Justa
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Este modelo de cobertura surgiu em França e ganhou notoriedade através das obras de dois arquitectos do século XVII: François Mansart (1598-1666) e o seu sobrinho-neto Jules Hardouin-Mansart (1646-1708), cujos sobrenomes se tornaram na nomenclatura usada para o modelo arquitectónico (Machado e Moura, 2017).
Em Lisboa, a mansarda surge no léxico arquitetónico português no século XVIII, importada de modelos franceses. [Mateus: Cadernos do Arquivo Municipal, 2022]

Rua de Santa Justa |1960-70|
O edifício da Telephone Company é 2º à esq. com o desaparecido Hotel Francfort à frente.
Panorâmica sobre a encosta do Castelo, tirada a partir do topo do elevador de Santa Justa
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Hotel Central

Estamos de volta ao velhinho Sitio dos Remolares, e ao afamado Hotel Central, desta vez na companhia de Marina T. Dias e de Eça de Queiroz.  Delineada pelos engenheiros do Marquês de Pombal, a futura Praça do Duque da Terceira permaneceu quase deserta até ao início do século XIX, constituindo então apenas parte dos vastos areais que delimitavam sul de Lisboa. Mesmo após a construção dos primeiros quarteirões a nascente e a poente, o rio chegava até ao extremo sul do largo, formando uma pequena praia no local onde mais tarde seria construída a estação de caminho de ferro da linha de Cascais. Contígua à praia, a Praça dos Remolares tinha já sido ampliada pelas obras de construção do Aterro, mantendo na tradição oral o nome do antigo cais: Sodré.
Falar do Cais do Sodré é também falar da Lisboa queirosiana — e do seu Hotel Central, Eça refere-o em Os Maias, A Capital, O Primo Basílio e A Correspondência de Fradique Mendes. A primeira hospedaria que ocupou o quarteirão com os números 20-27 do Largo (antigos números 3 a 11) chamava-se Estrella Branca (c. 1835). Em 1838 fora já trespassada à francesa Madame Lenglet que lhe deu o título de Hotel de France. 

(Grand) Hotel Central |c. 1875|
A oitocentista praça dos Remolares ainda sem a estátua do Duque da Terceira (1877) vendo-se ao fundo a primeira ponte de acesso aos barcos; no local onde se vê um candeeiro existiu, até 1874, um relógio de sol, conhecido por Meridiana dos Remolares. 
Rua Bernardino Costa antiga do Corpo Santo; à esq. nota-se a embocadura da Rua do Alecrim com o Alfaiate Rego (Rego Tailor) no gaveto leste.
J.. Laurent, in Lisboa de Antigamente

Sobre o rio, a tarde morria numa paz elísia. O peristilo do Hotel Central alargava-se, claro ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no colo. Uma mulher passava, alta, com uma carnação ebúrnea, bela como uma deusa, num casaco de veludo branco de Génova. O Craft dizia ao seu lado: Très chic. E ele sorria, no encanto que lhe davam estas imagens, tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloração de coisas vivas.
(Eça de Queiroz, ln Os Maias, 1888)

Com uma sólida fama e um excelente serviço de mesa, o hotel recebeu hóspedes ilustres, entre eles o compositor Franz Liszt, na temporada de 1844-1845. Novamente trespassado (c. 1855), transforma-se no Hotel Central, supra-sumo da possível opulência lisboeta, com as suas ceias elegantes e as suas belas janelas então viradas para o Tejo.
O Central foi,  na Lisboa da segunda metade de Oitocentos, aquilo que o Avenida Palace viria a ser na Belle-Époque, ou o Aviz no tempo da Segunda Grande Guerra. Recebeu reis e diplomatas famosos, figuras mundanas e celebridades do universo das artes. Foi também num dos seus quartos que o próprio Eça de Queiroz terá pedido ao conde de Resende a mão da irmã deste, Emília de Castro Pamplona, sua futura mulher. O episódio é narrado por Luís Pastor de Macedo. 

Hotel Central |c. 1904|
Praça Duque da Terceira: Cais do Sodré. Ao fundo observa-se o extinto Arsenal de Marinha que deu lugar à Av. Ribeira das Naus.
Postal ilustrado, edição da Casa Gonçalves, in Lisboa de Antigamente
Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Praça Duque da Terceira
No gaveto norte deste edifício estiveram vários botequins célebres. À O primeiro foi o «jacobino» Café do Grego; o último foi o Café Londres, encerrado em 1935.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

«Numa das suas vindas a Portugal, informado que o conde, vindo do Porto, se hospedara em Lisboa no Hotel Central, e apreciando em extremo a convivência daquele seu grande amigo, [Eça] mandou também as suas malas para o mesmo hotel e ali ficou durante largos dias.
Certa manhã, quando [...] se encontrava no quarto do seu amigo, justamente na ocasião em que este, de cara ensaboada, se dispunha, com a navalha na mão, a barbear-se, o criado, pedindo licença, entrou e entregou uma carta que viera pelo correio. 
   — Vê lá, menino, o que aí vem -—- diz o conde a Eça de Queiroz.
   — É uma cartada tua irmã.
   — Faze favor, abre-a e vê o que diz essa teimosa.
   O grande escritor obedeceu e ao terminar a sua leitura, depois de a dobrar vagarosamente, diz a Rezende:
   — Peço-te mão de tua irmão».
(Luís Pastor de Macedo notas em A Ribeira de Lisboa por Júlio de Castilho, vol. 4)

Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Praça Duque da Terceira; Cais do Sodré
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

O Hotel Central encerrou em 1919, após um breve período de crise económica, distantes que iam já os hábitos de convívio da Lisboa queirosiana. A Sociedade Estoril, nova arrendatária, mandou então proceder a obras de vulto na fachada e interiores do edifício, cujas características gerais pouco têm agora a ver com a da casa que albergou Eça, Ramalho ou Guerra Junqueiro. O próprio Cais do Sodré sofrera enormes alterações ao longo do meio século de existência do Hotel Central. Por volta de 1880 a praia chegava ainda sé ao larguinho posteriormente ajardinado (Jardim Rogue Gameiro, plantado entre 1912 e 1915), e alguns quartos do Central estavam, como era uso dizer-se, «sobre o no». Perderam esse privilégio em 1907, vendo erguer-se-lhes à frente o edifício da Administração do Porto de Lisboa (onde está o célebre relógio com a «Hora Legal»). O terreno era tão incerto (basicamente areia da praia, movimentada pelas marés) que foi necessário fazer assentar todas as paredes desse prédio sobre estacaria. Ao centro da praça esteve, até 1874,um relógio de sol muito célebre e muito troçado: a «Meridiana dos Remolares», apeada para que desse lugar ao monumento em homenagem ao Duque da Terceira.

Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Fachada S. sobre o Cais do Sodré e Travessa do Corpo Santo; Praça Duque da Terceira.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MARINA, Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, vol. 6, pp. 179-184, 1989.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Panorâmica sobre o Porto de Lisboa: Arsenal de Marinha

O Pôrto de Lisboa, conhecidamente, é o mais capaz e seguro de tôda a Europa, quanto mais de Espanha, por ser tamanho, que nenhum outro em grandeza pode em muita parte, competir com êle, nem recolher tão grande número de navios com mais comodidade, pois está abrigado de todos os ventos, e ser de tanto fundo, que nêle se fazem grandíssimos galeões, e as naus da índia, que são as maiores embarcações que navegam hoje no mar.== 


A grandiosidade de que tanto se orgulha Lisboa, e o povo português, está altamente expressa nestas palavras do Imperador Carlos V ao presenciar o numeroso auxílio que lhe prestou Portugal, com navios, para a sua expedição a Túnis (1535): FÔRA EU REI DE LISBOA, EM POUCO O SERIA DO MUNDO.
(Maltieira: 1968)

A construção do Arsenal de Marinha começou no ano de 1759, em terreno que fora ocupado por uma parte dos Paços Reais da Ribeira, tornados em completa ruína pelo terremoto de 1755, e sobre o próprio local das antigas "Tercenas " edificadas por Don Manuel, estabelecimento, que não era exclusivamente naval, porque continha armazéns de armas para o exército. No reinado de Don Manuel e de Don João III guardavam-se neste depósito armamentos completos para 40.000 homens de infantaria e 3.000 de cavalaria, além de muitas peças de artilharia. 

Panorâmica sobre o Porto de Lisboa |c. 1890|
À direita nota-se o Arsenal de Marinha e acima o afamado Hotel Central na Pç. Duque da Terceira e o Mercado da Ribeira no Aterro da Boavista, hoje Av. 24 de Julho.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Este arsenal também teve o nome de «Ribeira das Naus», que conservou até ao terremoto de 1755, que destruiu completamente todos os seus edifícios. 
Esta denominação passou ao novo arsenal, por alvará de 16 de Novembro de 1755, e por muito tempo ainda o povo assim lhe chamava. O arquitecto Eugénio dos Santos de Carvalho, autor da planta da reedificação de Lisboa, foi quem fez o risco para o novo edifício. O Arsenal da Marinha tem armazéns vastíssimos, que no começo do século XIX se achavam bem providos de todo o material necessário para uma marinha de guerra respeitável; a marinha portuguesa compunha-se então de doze naus, dezasseis fragatas e muitos outros vasos de menor lotação. Tem dois estaleiros bem construídos de cantaria.
(marinhadeguerraportuguesa.blogspot.pt

Doca seca do Arsenal de Marinha, caldeira |c. 1890|
Antiga Ribeira da Naus; Praça do Comércio
A. S. Fonseca, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Edifício do antigo Hotel Vitória (ou Victoria Hotel)

Inaugurado a 1 de Julho de 1936, propriedade de António Maria Lopes, esta obra do arq.º Cassiano Branco utiliza, de forma notável, os valores volumétricos do código modernista, em cuja fachada solucionou originalmente a conjugação de um sistema volumétrico paralelepipédico, cilíndrico, assim como de bandas horizontais, referências fundamentais de todo um período da Arte Moderna da década de trinta. Juntamente com o antigo Cinema Éden, esta obra poderá ser considerada uma das mais emblemáticas e originais da arquitectura portuguesa da época.

Edifício do antigo Hotel Vitória [c. 1936]
Avenida da Liberdade, 168-170
Antigo Lis-Hotel (esq,) e Palacete Lambertini (dir.).
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

De planta rectangular, este edifício de seis pisos, cave e composto por dois corpos totalmente revestidos a mármore, destaca-se pelos alçados rasgados por cinco janelas de vão rectangular em cada um dos pisos, com mainel em forma cilíndrica, cujas varandas possuem frisos metálicos. Para além deste aspecto, a cobertura é constituída por um terraço, onde um pilar central é encimado por uma consola, que vê a sua continuação ao longo do alçado lateral através de uma pala suportada por pilares. [DGPC]

Edifício do antigo Hotel Vitória ou Victoria Hotel [c. 1938]
Avenida da Liberdade, 168-170
Salazar Diniz, in Lisboa de Antigamente

N. B. Ralph Fox, jornalista inglês vindo a Portugal no Verão de 1936, refere que viu no bar do Hotel Vitória, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, inúmeros pilotos alemães que faziam escala em Lisboa, ao transportarem por via aérea, de Berlim para Espanha aviões de combate e material de guerra diverso.
Reza a história, que os seus luxuosos quartos foram frequentados por espiões alemães durante a Segunda Guerra Mundial.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Grande Hotel d'Inglaterra

lnstalara-se o Grande Hotel de Inglaterra no vasto prédio a esquina da Rua do Jardim do Regedor para os Restauradores, com a sua sala de jantar de estilo D. João V, como o salão de visitas. Foi inaugurado em 15 de Abril de 1906, por ocasião do décimo quinto Congresso de Medicina, que se realizou na capital. Era proprietário do hotel o senhor Abel de Barros, também dono da Pension Hotel, da Rua da Glória, centro de hospedagem preferido pelos portugueses que regressavam do Brasil. No novo estabelecimento havia pessoal português, inglês, alemão e francês.

Grande Hotel de Inglaterra |1912|
Praça dos Restauradores e Rua Primeiro de Dezembro (antiga do Príncipe)

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

No prédio do lado oposto [da Rua 1.º de Dezembro], esquina da Rua do Jardim do Regedor — recorda Norberto de Araújo — , existiu até 1936 o Hotel de Inglaterra, que teve categoria. A Companhia, proprietária do Avenida Palace, comprou então o prédio para construir um grande Hotel, mas, como surgissem dificuldades, desfez-se do imóvel, o qual foi em 1937 adquirido pela «Ribatejana», sociedade de comércio agrícola; do Hotel novo, ou da reabertura do Hotel de Inglaterra, mais se não falou.

Grande Hotel de Inglaterra |1910|
Praça dos Restauradores e Rua Primeiro de Dezembro (antiga do Príncipe)

«Funeral do almirante Cândido dos Reis e do doutor Miguel Bombarda (1910-10-16)»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 

GRANDE HOTEL DE INGLATERRA Praça dos Restauradores, 53 O mais central da capital Todo conforto, aquecimento central Agua corrente quente e fria, em todos os quartos Linda vista da Avenida da Liberdade PREÇOS MODERADOS Optimo serviço de cosinha.
(Roteiro ilustrado de Lisboa e arredores. Ed. do Guia de Portugal Artístico, Lisboa, 1935)

 



A parte decorativa das salas e dos quartos foi dirigida pelo sr. Augusto Pina, um consumado artista no Género como se pode pelo gosto com que decorou a sala de entrada como se pode ver pelo gosto com que decorou a sala de entrada em estylo Luiz XV e a sala de visitas no mesmo estylo, o gabinete de leitura, em estylo imperio, a grande sala de jantar que podemos classificar epoca. D. João V, onde se vêem lindos panneaux em tons suavissimos, pintura do sr Antonio Baeta, entre os apainelados de molduras em graciosos relevos, sobresaindo das paredes, classicas cariátides, obra do sr. Pina. Ao fundo d'esta sala ha uns bellos vitraes com pinturas, trabalho do atelier. Julio.
O quarto Luiz XV que se encontra no 3.º andar é tambem bellamente decorado, sendo digno de apreço o seu mobiliario e tapeçarias, assim como um outro quarto decorado em estylo Arte Nova.
Todos os pavimentos são cobertos por oleados ingleses de lindo gosto, vindos expressamente de Londres, assim como as tapeçarias vieram de Paris.
O estabelecimento do Grande Hotel d'Inglaterra sob os pontos de vista d'arte, hygiene e commodidade, é um grande melhoramento para a nossa capital. (O Occidente: 1906)

Grande Hotel de Inglaterra |1933|
Praça dos Restauradores e Rua Primeiro de Dezembro (antiga do Príncipe)

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. A inauguração fez-se no dia 15 de Abril de 1906, tendo sido tomados todos os quartos para alojamento de uma parte dos congressistas estrangeiros, que em numero superior a dois mil vieram a Lisboa tomar parte no XV Congresso de Medicina.
O edifício onde se encontrava o Grande Hotel de Inglaterra foi demolido em 1952.

Grande Hotel de Inglaterra, demolição |1952|
Praça D. João da Câmara e Rua Primeiro de Dezembro (antiga do Príncipe)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia

MARTINS, Rocha, Lisboa: História das suas Glórias e Catástrofes, 1947.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p.  15, 1939.

O Occidente: 1906.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Profissões de antanho: o homem da hortaliça

Não tinha grande relevo nem brilho de pregão o homem que carregava aos ombros dois canastros unidos por um grosso varapau:
 — Cá estão nabos, cenouras, tomates ou pepinos e tudo o mais que a horta dá!
Naturalmente, concorria no negócio com os lugares de hortaliça que os havia e há por toda a Lisboa, pequenas lojecas onde se vende, a par das couves e dos rabanetes, galinhas e coelhos em reduzidas capoeiras entaipadas e às vezes malcheirosas.

Profissões de antanho: o homem da hortaliça [1907]
Avenida Almirante Reis, S→N; quarteirão entre as Ruas Álvaro Coutinho e Febo Moniz.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O homem da hortaliça, raras vezes de origem saloia, já não se vê nos bairros populares, substituído por oportunistas que, na altura das «novidades», gritam, de esquina em esquina, o produto que anunciam em primeira mão, utilizando umas carroças atreladas a pacientes burricos. Estes vendedores normalmente não pagam licença camarária para exercer o mister. Daí que, à aproximação do polícia fiscalizador, para gáudio e regalo dos proprietários dos lugares de hortaliça, lá vai tudo de escantilhão e com eles em fuga, a carroça, o burro, as balanças e os pesos, quando os há!

Profissões de antanho: o homem da hortaliça [post. 1901]
Avenida Vinte e Quatro de Julho e Praça do Duque da Terceira; Hotel Central.
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
DINIS, Calderon , Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974, p. 42, 1986.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Grande Hotel das Duas Nações

Aí temos à esquina da Rua da Vitória o Hotel das Duas Nações — diz Norberto de Araújo — , um dos raros hotéis desta nossa área  — e tantos houve!
Êste Hotel das Duas Nações, com entrada pela Rua da Vitória, 41, leva aproximadamente sessenta e cinco anos, pois já existia em 1875; foi fundado neste prédio por Manuel (?) Certã. alentejano, casado com uma senhora espanhola, e daí a designação de «Duas Nações.

Grande Hotel «Duas Nações» [1912]
Rua da Vitória, 41 - 1º

Rua Augusta; Casa Comercial Ribeiro e Silva
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

À saída da Estação do Rossio — conta-nos Calderon Dinís — , por volta de 1900, os corretores dos hotéis eram uns sujeitos fardados exibindo nos quépis os títulos dos vários hotéis a que pertenciam.
À medida que os passageiros iam saindo das carruagens eram assaltados por esses homens a apregoar os nomes dos hotéis ou pensões, numa vozearia que se estendia a toda a gare. — Hotel Aliança! Hotel Borges! Suiço Hotel! Francfort Hotel! Hotel das duas Nações! Hotel Central! Pensão do Rossio! etc. Para quem vinha de longe e ignorasse Lisboa, eles, de imediato, tiravam as pessoas de dificuldades, oferecendo os seus préstimos e conduzindo as malas portáteis dos recém-chegados.
Tal serviço acabou com o desenvolvimento do turismo, pois, raro será o viajante que, não conhecendo o ambiente do destino, não contrate com uma agência de viagens que, sem mais preocupações para ele, se encarrega de todos os pormenores, desde o bilhete da passagem à instalação tranquila no local do destino.

Grande Hotel «Duas Nações» [1911]
Rua da Vitória, 41 - 1º, esquina com a Rua Augusta
Trabalhos de montagem do abrigo em ferro e vidro na fachada da

Casa Comercial Ribeiro e Silva virada à  Rua Augusta 
Alberto Carlos Lima,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa», vol. XII, p. 52, 1939.
DINIS, Calderon , Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974), p. 42, 1986.

domingo, 18 de março de 2018

Palácio Regaleira, a S. Domingos

No quarteirão entre as Escadinhas da Barroca e a Calçada do Garcia, ali tens o prédio, n.º 14 a 15 com sete portas, que foi o Palácio Regaleira, propriedade no meado do século passado [séc. XIX] de D. Ermelinda Monteiro [Allen] d'Almeida, baronesa e viscondessa da Regaleira, título que passou e se mantém nos Morais Palmeiro; êste prédio pertenceu a Francisco de Sousa Cruz, em 1915? passou por compra a Artur Aires, e hoje [1939] é da Companhia dos Tabacos.

Existiu aqui um clube de jogo e de prazer, impropriamente chamado "Clube Regaleira".¹


O registo mais antigo que se encontra sobre este edifício remonta a 28 de Outubro de 1814, no qual a localização do palácio é descrita no Registo de Descrições Prediais. A localização privilegiada do Palácio Regaleira numa zona nobre, central e movimentada da cidade, próximo do Rossio e no mesmo Largo da Igreja de São Domingos fez com que este mantivesse a sua centralidade relativamente ao espaço e vida urbana ao longo dos tempos.
Os dados precisos sobre a autoria e data de construção do edifício são desconhecidos. Vários autores sugerem tratar-se de uma edificação do século XVIII, provavelmente anterior ao terramoto de 1755. Segundo José-Augusto França, em gravuras anteriores a essa data, surge representado no mesmo local um edifício que apresenta grandes semelhanças com o actual: um prédio de três pisos, com a fachada principal virada a sul, de arquitectura sóbria e disposição simétrica de portas e janelas, que ocupam de forma regular grande parte da frontaria. É provável que o edifício tenha entrado na posse da família Allen em período anterior ao de D. Ermelinda Allen Monteiro d’Almeida, a primeira viscondessa da Regaleira, que teria herdado o Palácio dos seus pais e empreendido os trabalhos de remodelação entre 1835 e 1842, conferindo ao edifício a sua traça actual.

Palácio Regaleira [post. 1933]
Largo de S. Domingos, 14-15
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

A vida social de grande ostentação e as festas sumptuosas dadas nesta época pela baronesa e viscondessa da Regaleira no seu palácio lisboeta são-nos descritas por Fialho de Almeida:
«A primeira foi em 4 de Março de 1842, e Paulina de Flaugergues aponta-a como uma das mais belas e animadas da estação. Estiveram cerca de mil convidados, e era notável a porção de mulheres bonitas que se encontrava nos salões. A ornamentação da casa em pouco ou nada fora alterada a mais do que costumava ser nos dias ordinários. O palácio de madame Monteiro d’Almeida era um verdadeiro museu de coisas de arte e de elegância, e arcava em gosto e riqueza com a residência dos Palmelas, dos Fronteiras, dos Atalaias, e dos viscondes de Porto Covo […] No pátio da casa, em que tocavam três bandas de regimento, fora improvisado um jardim com laranjeiras, pritchardias e camélias, sob uma tenda de seda, às riscas multicolores, esticada e, lanças e albardas, que aprumavam de roda, mais de catorze ou quinze estátuas de guerreiros.»²

Em 1901 — após ter saído em definitivo (1898) da posse da família Allen — está instalado no Palácio Regaleira o Teatro Eléctrico Mágico. A partir do ano seguinte, funciona nesse edifício o Liceu de São Domingos, um desdobramento do Liceu do Carmo. Segundo o olisipógrafo Appio Sottomayor, terá aí funcionado, pouco tempo antes da implantação da República, a sala de cinema Rossio Palace, na qual se realizam, para alguns espectadores escolhidos e pagantes, sessões especiais com filmes pornográficos que têm lugar pela noite fora49. Já João Paulo Freire refere nas suas memórias «uma exposição-museu de figuras de cera, com uma secção reservada a doenças venéreas» que teria estado no Palácio Regaleira em 1918, aproximadamente.³

Palácio Regaleira [post. 1933]
Largo de S. Domingos, 14-15
No início do séc. XX esteve aqui instalada sala de cinema Rossio Palace
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

No mesmo edifício funciona ainda um estabelecimento comercial denominado Vaccaria de S. Domingos e um hotel. A 24 de Março de 1919 o prédio foi vendido à firma Arthur Adriano Ayres, Lda. Este dado, retirado dos Registos Prediais, contradiz a data de transição da propriedade do imóvel que nos é dada por Norberto Araújo nas suas Peregrinações em Lisboa como se pode ler logo no inicio desta publicação: «em 1915? passou por compra a Artur Aires».

Palácio Regaleira [1910]
Na esquina do Largo de S. Domingos com as Escadinhas da Barroca, observa-se a Vaccaria S. Domingos.
António Novais, in Lisboa de Antigamente

No que respeita ao Regaleira Club — também mencionado por Norberto de Araújo como Clube Regaleira — há notícia do seu funcionamento entre 1920 e 1922. Contudo, este poderá ter aqui funcionado antes da data indicada. Entre Fevereiro e Maio de 1917 estaria, a julgar pelo nome, aí já instalado o Club Palácio da Regaleira, que pagava ao Governo Civil de Lisboa a devida licença para prolongar, todas as noites, as suas diversões para além da meia-noite. Não foi no entanto possível apurar se este seria ou não o mesmo estabelecimento conhecido por Regaleira Club em 1920. O seu encerramento em 1923 parece ser consensual.
Com a sua instalação no Palácio Regaleira e a adopção do nome deste para sua própria denominação, este clube nocturno procurou claramente beneficiar do estatuto alcançado e difundido na época da baronesa e viscondessa da Regaleira, aproveitando do edifício a aura que ainda prevalecia de festas sumptuosas e luxuosas.

«A monumental escada» e «A majestosa sala do “Regaleira Club”»
Efeitos da Guerra», ABC, 7 de Julho de 1921 [fotografias de Serra Ribeiro]

O palácio é vendido à Companhia de Tabacos de Portugal, que compra o imóvel pelo montante de 1.303.000$00 em escritura de 14 de Novembro de 1923.
Os inquilinos multiplicam-se e sucedem-se: um Armazém de Roupas Nogueira Viegas Lda.; a Fotografia Electro Rápida, de Brito Gago Justel; um estabelecimento de instrumentos musicais, de Larcher Castelo Branco, um estabelecimento comercial de artigos de malha, de José Esteves de Almeida; a Empresa Portuguesa de Instalações Eléctricas, Lda.; um estabelecimento de comércio de fruta e um outro de peixe, de Maria Fernandes de Almeida; o Bazar Universal, de Orlando Silva. Por estes anos está também instalada no Palácio Regaleira a Casa das Beiras, instituição de carácter regional que organiza festas e récitas.
No final da década o edifício encontra-se em adiantado estado de degradação: «O palácio estava em mísero estado. Parecia um chavascal. Soalho esburacado, paredes sujas, portas escangalhadas, um pavor.»
Em 1933 a Companhia dos Tabacos arrenda à Ordem dos Advogados o 1.º andar do edifício, que inicia obras de recuperação no palácio. A nova sede da Ordem dos Advogados só é inaugurada em cerimónia solene a 24 de Maio de 1939. Finalmente, a 26 de Janeiro de 1960, a Companhia dos Tabacos de Portugal vende o Palácio Regaleira à Caixa de Previdência da Ordem dos Advogados e Solicitadores pelo preço avultado de 11.000.000$00.
Tudo leva a crer que a traça arquitectónica exterior do edifício se tenha mantido igual desde meados do século XIX, altura em que se realizaram os amplos trabalhos de remodelação. Já o interior do Palácio terá conhecido múltiplas e significativas intervenções, em resultado dos numerosos inquilinos e das diversas actividades que ali tiveram lugar.⁴
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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 81, 1939.
² ALMEIDA, Fialho de, Vida Errante, pp. 334-335, 1925.
³ FREIRE, João Paulo, Lisboa do meu tempo e do passado, Lisboa, 1931-1939, p. 10-11.
⁴ VAZ, Cecília Santos, Clubes nocturnos modernos em Lisboa: sociabilidade, diversão e transgressão (1917-1927), Palácio Regaleira, pp. 76-81, 2008.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Café-Restaurante Royal

O «Café Royal» tem boa situação na Praça, entre tabacarias que se distinguem — tal as do Rossio — pela profusão de revistas e jornais estrangeiros; não tem história recuada. Foi fundado em 1906[1904] pelos donos do Cafe Central da Calçada do Carmo (...)

Era neste Café-Restaurante que costumava almoçar nos últimos anos da sua vida, sempre acompanhado de sua espôsa, o pintor Columbano.¹


O Café Royal — recorda M. Tavares Dias na sua Lisboa Desaparecida — constitui sozinho uma página importante da história do Cais do Sodré. Em estampas oitocentistas o gaveto nascente da Praça Duque da Terceira com a Rua do Alecrim é ainda morada do alfaiate Rego. Como de costume, inscrições do toldo e da fachada exibem publicidade em inglês: Rego Tailor.

 Café Royal |c. 1912|
Praça Duque da Terceira e Rua do Alecrim (Hotel Bragança); Rua Bernardino Costa (dir.)
Alberto Carlos Lima,  in Lisboa de Antigamente

O estabelecimento foi trespassado em 1902, adquirido por um brasileiro de torna-viagem que ali pretendia instalar um café elegante. Esmerou-se nas decorações exteriores, encomendando a J. Bonnadove desenhos vários, alusivos aos prazeres da gastronomia e da boémia. A partir deles foram estampados belos painéis de azulejo para enquadramento das portas e embelezamento das fachadas. Apeados inteiros na altura em que o café encerrou, esses azulejos versavam sete temas distintos, cujo levantamento aqui deixo a partir de fotografias e outros documentos da época.

Café Royal |1958|
Painel (central) de azulejos assinados

por J. Bonnadove
Armando Serôdio, in L.A.
Painel central sobre a praça: publicidade à Água Castello (figura feminina exibindo uma garrafa) [vd. 2ª foto]. Painel lateral nascente, sobre a praça: piquenique campestre com quatro convivas. Painel lateral poente sobre a praça: interior de café (três homens à mesa).  Painel poente tornejando para a Rua do Alecrim: cena de brinde com champanhe; várias figuras à mesa (uma delas, de cálice erguido, ocupava o friso vertical que constituía o gaveto do quarteirão) [vd. 3ª foto]. Painéis pequenos virados para a Rua do Alecrim: dois com motivos campestres e, ao centro, o «painel do caçador» (que teria sido inspirado pelo poeta Bulhão Pato).

A tempos espaçados estiveram inteiramente cobertos os dois painéis, à esquerda da entrada, pois desse lado instalara-se a tabacaria do café com as suas vitrinas repletas de estampas e de postais. Os desenhos acompanhavam quase toda a altura da fachada do café (piso térreo do edifício), começando a cerca de um metro do solo. Todos estavam enquadrados por molduras em relevo com motivos arte-nova, cuja policromia contrastava com o azul ferrete  dos motivos principais.
 
Café Royal |1958|
Painel de azulejos no gaveto do
quarteirão assinados por J. Bonnadove
Armando Serôdio, in L.A.
Os interiores também eram modern-style (mesas monogramadas e espelhos debruados a ouro), pelo que a casa inaugurou no pino da moda em artes decorativas. Nesse ano de 1904 o Café Royal adivinhava-se futuro centro de muitas e ilustres tertúlias. Alguns meses após a fundação já o proprietário inicial o tinha em praça para trespasse por preço disso condigno, encontrando imediatamente muitos colegas interessados. O café seria então — 1905 — adquirido pela família Blanco, em cujas mãos se manteve até 1959, ano do encerramento. Entre estas duas datas um mundo de luzes cintilou em volta das suas mesas. Na lista dos clientes do Royal poder-se-ão apontar, entre muitos outros, Columbano e Raphael Bordallo Pinheiro, Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro. Fernando Pessoa. Almada Negreiros, António Botto, Gago Coutinho, Reinaldo Ferreira (Reporter X), Armando Portela, Rocha Martins, Cunha Leal, Lopes Graça. Luiz Pacheco, Helder Macedo, Virgílio Martinho. António José Forte, Ernesto Sampaio, Mário Cesariny e Mário Domingues.

Foi este último escritor, conhecedor do café desde a segunda década do século [XX], quem fez a elegia da casa num panfleto publicado pouco antes do encerramento: «Conheci naquele aconchegado café tantos tipos humanos, presenciei tanto drama, escutei tanta confidência. lidei com gente tão fraternal e, por vezes, com patifes. escroques internacionais, mal disfarçados espiões que se acotovelavam com ingleses gelados e rígidos por fora e sentimentais por dentro, holandeses saudáveis, americanos mal-educados mas good-fellows; impregnei-me de tanta humanidade, armei-me de tanta compreensão e tolerância que considero o Royal o maior tesouro espiritual da minha vida.» Estas palavras de homenagem reflectem bem as múltiplas faces do mundo que, entre as duas guerras, desaguava no Cais do Sodré, encaminhando os passos para o seu principal pólo de vida: as mesas do célebre café.²

 Café Royal |c. 1910|
Praça Duque da Terceira; Rua Bernardino Costa (dir.)
Joshua Benoliel,  in Lisboa de Antigamente

N.B.  No próximo artigo — e ainda a propósito deste curioso  café — contaremos uma história picaresca em que contracenam o freguês «exigente», o empregado de mesa — um tal de Chico —, um cozinheiro pouco zeloso e ainda... um  bife. A não perder.
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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p.39, 1939.
² DIAS, Marina T
avares, Lisboa Desaparecida, vol. 6, pp. 179-184, 1989.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Monumento ao Duque da Terceira

Se a Praça Duque da Terceira já não tem os famosos cafés do tempo de Eça de Queirós, toda a zona é rica de edifícios e monumentos do século XIX. No centro daquela praça foi erigido em 1877 o monumento ao general conde de Vila Flor, duque da Terceira que libertou Lisboa do governo absoluto em 1833, obra do escultor Simões de Almeida.


Sigamos o olisipógrafo Norberto de Araújo em mais uma Peregrinação e «enfiemos ao Cais do Sodré, que aí temos alguma cousa que ver e outras para lembrar.
A Praça do Duque da Terceira é do meado do século passado [séc. XIX], e assenta sabre chãos que eram praia há menos de um século. A Praça Duque da Terceira constitui uma parte do Cais do Sodré, e não logrou absorver a velha designação mesmo na limitada área em que a Praça, com sua estátua, rigorosamente se contém». Recorda-nos ainda o mesmo autor que na denominação municipal «Cais do Sodré é a larga zona que abrange o Jardim Roque Gameiro e vai desde a Estação da linha do Estoril-Cascais até ao Corpo Santo»,  e ainda que as «designações «Cais do Sodré» ou «Praça dos Remolares» foram comuns durante muito tempo, antes de se erguer a Estátua; «Remolares», perdeu-se na oralidade. Há no povo uma atracção particularíssima para os vocábulos sonantes. «Sodré» — canta».
No local onde hoje se ergue a estátua ao Duque da Terceira existiu até 1874  um relógio de sol conhecido como a «Merediana dos Remolares».

Praça Duque da Terceira |c. 1890|
Cais do Sodré, antiga Praça dos Remolares
Monumento ao Duque da Terceira
À direita vê-se parte do prédio onde existiu o famoso Hotel Central, imortalizado por Eça de Queiroz em «Os Maias»; no piso térreo, o «jacobino» Café do Grego (depois Café Londres); ao centro,  no  gaveto nascente  da Praça com a Rua do Alecrim vê-se o toldo do Alfaiate Rego (depois Café Royal). Como era costume naquela época, as inscrições do toldo e da fachada exibiam publicidade em inglês: Rego Tailor. O mesmo se pode constar do lado poente: Barbear Shaving
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A primeira pedra deste monumento foi lançada em 24 de Julho de 1875; a inauguração solene realizou-se em 24 de Julho de 1877, no 44.° aniversário do desembarque do Duque da Terceira em Lisboa. A estátua é do cinzel de José Simões de Almeida, e o risco do monumento de José António Gaspar. 
 O monumento é simples, discreto de linhas, com as suas quatro inscrições: «Guerra Peninsular 1808 a 1814» — «Campanhas da Liberdade 1826 a 1834» — «24 de Julho de 1833» — «Ao Duque da Terceira 1877», esta na face principal, sul.

Praça Duque da Terceira |c. 1877|
Cais do Sodré, antiga Praça dos Remolares
Monumento ao Duque da Terceira; coreto
Observe-se a guia e gradil de protecção em redor das árvores com aspecto de terem sido 
plantadas recentemente
in Archivo Panoramico e Artístico

A estátua homenageia o Duque da Terceira, António José de Sousa Manuel Menezes Severim de Noronha, herói das guerras liberais, natural de Lisboa, Trata-se de uma estátua de bronze, com altura de 3,30m, onde a figura do duque é representada em traje militar, de rosto sóbrio e numa posição de chefia e comando. O plinto de pedra em forma de prisma tem uma base mais alargada com friso saliente junto ao chão de empedrado artístico de vidraço e friso duplo saliente no final desta parte. No pedestal foi colocada uma folha de palmeira e na parte superior deste plinto um brasão de armas coroado e ladeado por ramos de oliveira. Este conjunto, de estátua e plinto, tem a altura total de 9m.
A estátua ao Duque da Terceira sofreu recentemente uma intervenção de conservação e restauro, patrocinada pela Renault. O projecto, acompanhamento e fiscalização da obra, da responsabilidade da Divisão de Salvaguarda de Património Cultural/DPC/DMC da Câmara da Municipal de Lisboa, ficou concluída em Fevereiro de 2015.

Praça Duque da Terceira |post. 1877|
Cais do Sodré, antiga Praça dos Remolares
Monumento ao Duque da Terceira, face norte
No centro da Praça a estátua do duque olha a direito o rio.
Fotógrafo: não identificado,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Monumentos e edifícios notáveis do distrito de Lisboa, vol. 5, Junta Distrital de Lisboa, p. 19, 1962.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 37-40. 1939.
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