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Wednesday, 4 July 2018

Ermida de Nossa Senhora do Rosário (ou da Verónica)

No seu relatório paroquial de 1759 diz o prior da freguesia de Santa Engrácia, Luís da Costa Barbuda, acerca desta ermida: «A ermida de N. S. do Rosário, sita na Vila Galega, fundação de alguns devotos, com um terço». De acordo com Norberto de Araújo, a Rua da Verónica, «que segue à Graça», deve o seu nome à existência desta ermida.


Ermida construída no século XVIII (1748) em substituição de um nicho ali existente. Um papel colado num dos poucos livros da irmandade dessa capela diz que naquele local houvera primitivamente um nicho chamado da Verónica; que mais tarde uns devotos, autorizados pelo Prior do Mosteiro de S. Vicente, construíram ali aquela ermida, e a ela se acolheram constituindo a irmandade de N. S.. do Rosário, tendo-lhes o dito Prior imposto a obrigação de taparem a porta com pedra e cal no caso de um dia de lá saírem.

Ermida de Nossa Senhora do Rosário |1902|
Rua da Verónica, 31; Travessa do Rosário de Santa Clara
Machado & Souza, 
in Lisboa de Antigamente

Em 1914, em virtude da lei da separação do Estado das igrejas, foi mandado arrolar o pouco que lá dentro havia, e leiloado depois, sendo a sua capela secularizada. O que restava da irmandade e a imagem da Senhora passou a recolher-se à Igreja da Graça; em 1934, a primeira Assembleia de Deus de Lisboa alugou o edifício abandonado convertendo-o em espaço de culto; em 1943 o interior é utilizado como fábrica de malas.


Ermida de Nossa Senhora do Rosário, N. |c. 1900|
Rua da Verónica, 31
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente


Ermida de Nossa Senhora do Rosário, S. |1942|
Rua da Verónica, 31
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente



Bibliografia
Revista municipal Lisboa, 1943.
monumentos.pt.

Saturday, 1 August 2015

Palácio Barbacena, a Santa Clara

O Palácio Barbacena, no Campo de Santa Clara, na esquina Poente da Rua da Verónica, é uma construção nobre do final da primeira metade do século XVIII, cujo risco se deve a Manuel da Costa Negreiros, arquitecto da Casa do lnfantado, falecido em 1750. Mandou-o levantar Luís Xavier Furtado de Mendonça, 4.º Visconde de Barbacena, descendente de Leitão Vaz de Castro, rico homem, a cujo filho primogénito, D. Diogo, 1.º Senhor de Barbacena, doou a D. Sebastião a quinta e solar do Rio, a Sacavém, o que originou o apelido Castro do Rio; um seu filho casou com uma senhora da casa dos Furtados de Mendonça, e desta circunstância derivou a junção dos apelidos.

Palácio Barbacena [c. 1900]
Campo de Santa Clara;
; Rua da Verónica; Mercado de Santa Clara
A Fachada Principal, muito decorativa, sobre o Campo de Santa Clara, constituída por um corpo central, com portal, andar nobre com duas janelas de varandas e quatro de peitos, e andar superior de sete janelas, e por corpos laterais, rasgados cada um por uma janela em cada andar e rematados por ventanas.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

O 1.º Visconde de Barbacena foi (1661) D. Afonso Furtado do Mendonça, e o último, 7.º Visconde e 2.º Conde, Francisco Furtado Castro do Rio de Mendonça e Faro, falecido no palácio de Santa Clara em 1854, extinguindo-se então a família. A propriedade passou a parentes muito afastados, fidalgos das Ilhas, e, anos depois, foi o palácio a leilão, sendo adquirido pelo Estado, com o produto da venda do Palácio da Mitra a Marvila (1864), com destino a palácio residencial dos prelados de Lisboa, ficando desde então conhecido por «Palácio da Mitra» — denominação esta menos própria e que ainda perdura. Habitou nele, transitoriamente, o 10.º Patriarca D. Manuel Bento Rodrigues, pois os prelados, até 1910, residiram nos Paços de S. Vicente.

Palácio Barbacena [1900]
Campo de Santa Clara esquina com a Rua da Verónica
A Fachada Nascente, sobre a Rua da Verónica, com duas ordens de oito janela divididas por três corpos, com a mesma uniformidade e tipo das janelas da fachada principal. e todas também coroadas de ática.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

No final do século passado [XIX] o palácio, que fora entregue ao Ministério da Guerra, serviu algum tempo de hospital militar de emergência, e, já no actual século, instalou-se nele a Manutenção Militar e a «Messe» dos Oficiais do Exército (1926), que ainda o ocupa.

Palácio Barbacena [1959]
Campo de Santa Clara
; Rua da Verónica
No intervalo das duas varandas centrais do andar nobre avulta o brasão 
dos Barbacenas, com as armas dos Castros do Rio, duas faixas de água ondeada 
entre nove arruelas, e o dos Mendonças, franchado com a legenda «Ave Maria».
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

No interior, inteiramente desfigurado em relação ao que teria sido, destaca-se o Vestíbulo, revestido de silhares de azulejos setecentistas, monocromos, em painéis soltos, de tipo palaciano, e, ao fundo, com portal emoldurado abrindo para a escadaria com azulejos decorativos e alguns de figuras recortadas «de cumprimento» nos dois patamares, e com bons painéis revestindo as paredes cm todos os lanços (princípios do século XVIII).

Palácio Barbacena [1946]
Campo de Santa Clara; Rua da Verónica
Painel de azulejos com figura recortada «de cumprimento» ou «de convite».
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1946.

Friday, 21 May 2021

Liceu Gil Vicente

Liceu fundado em 1914 como “secção oriental do Liceu Passos Manuel”, zona de S. Vicente. Em 1915 tornou-se autónomo com o nome de Gil Vicente, sendo o primeiro liceu criado pela República. A denominação inicial foi de Liceu Central e funcionou nos claustros do Mosteiro de São Vicente de Fora até 1949. Nesse ano, com o nome de Liceu Nacional, foram inauguradas as actuais instalações na antiga cerca deste mosteiro.

Rua da Verónica, 37 [1950]
À dir. a entrada do Liceu Gil Vicente
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

A Rua da Verónica, que segue à Graça — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , deve o seu nome a uma Ermida deste nome, que ainda hoje existe.
(Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 75, 1938)

Vista aérea de Lisboa, vendo-se ao centro o novo liceu Gil Vicente [1953]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 6 December 2020

Rua da Graça

Todos os bairros ou sítios de Lisboa — recorda o ilustre Norberto de Araújo — têm o seu encanto especial, sobretudo para quem neles se a fez ou neles vive. Este da Graça é, com efeito, e sem devoção bairrista da nossa parte, um dos mais alegres e desafogados da Cidade. Populosa, animada, característica do Oriente de Lisboa, sem cair no pitoresco velho, nem, em verdade, oferecer particularidades olisiponenses ou apontamentos de artista — a Graça remonta aos primeiros tempos de Lisboa. [...]

Rua da Graça, 80 |195-|
Antiga Rua Direita da Graça, até 1889.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A Rua da Graça é uma linha recta que vem dos Quatro Caminhos, de saudosa memória alfacinha, e de que te falei, ao Largo da Graça, que data na actual feição de há cento e tal anos. Desta linha descem para sul e nascente várias serventias, como a Rua das Beatas, a Rua do Sol, a Travessa da Pereira, e a Rua da Verónica — todas antigas, e anteriores à Graça do século passado.

Rua da Graça, 80 |195-|
Antiga Rua Direita da Graça, até 1889.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 41-50, 1939.

Thursday, 4 August 2016

Largo da Graça: Regimento de Sapadores Bombeiros

Os mouros, que seus arredores ocupavam antes da conquista cristã, chamavam a este sítio «Almafala» — recorda Norberto de Araújo — e foi aqui que pousaram, para o cerco de Aschbouna — a Lisboa mourisca — as gentes portuguesas de Afonso Henriques. A designação «de Graça» data precisamente de 1305, nem mais ano nem menos ano.

Largo da Graça [1935]
Rua da Verónica; Regimento de Sapadores Bombeiros, 4ª Companhia, Quartel da Graça
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Aí temos o quartel n.º 5 dos Bombeiros. Foi construído em 1890-1891, ao tempo em que era Inspector dos Incêndios o Chefe Ferreira, o animador destas edificações municipais, e cuja obra está patente no Quartel da Avenida Presidente Wilson [hoje Av. D. Carlos]. Antes havia uma pequena estação, a «Bomba 15», no Largo da Graça, a oitenta passos do actual Quartel, onde está hoje [em 1939], n.º 44, uma pequena marcenaria.═
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 41-51, 1938)

Largo da Graça [1935]
Regimento de Sapadores Bombeiros, 4ª Companhia, Quartel da Graça; Rua da Voz do Operário
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Largo da Graça [1935]
Regimento de Sapadores Bombeiros, 4ª Companhia, Quartel da Graça
Casa esqueleto destinada aos treinos.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Friday, 10 August 2018

Igreja da Ordem Terceira do Carmo

Já agora, que estamos a discorrer do que não existe, e constituiu um dia o Carmo nobre — diz Norberto de Araújo — , olha êste vulgar prédio onde está instalada, desde 1780, a Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. Foi no século XVII dos Teives, depois dos Fernandes de Elvas, a seguir dos Silvas Coutinhos - pertencia a D. Rui da Silva por ocasião do Terramoto -, e foram êstes que o doaram aos irmãos terceiros do Carmo.


A Ordem Terceira de N. Sr.ª do Monte do Carmo, data de 1629, embora seus Estatutos fôssem estabelecidos em 1665; teve sua capela privativa no Convento do Carmo e fêz erguer seu Hospital entre 1700 e 1706 no sopé do Convento, edifício que se situava no comêço da actual Rua Primeiro de Dezembro, naquele tempo Rua de Valverde. Chegou a reunir 9.000 irmãos. O Terramoto destruiu o Hospital, como destruiu o grandioso Convento fundado por Nuno Álvares, onde os terceiros tinham sua capela, como se fôsse uma igreja. Houve que se construir uma muralha para amparar o combalido edifício conventual; assim não foi mais possivel reconstruir o Hospital. 

Igreja da Ordem Terceira do Carmo  |195-|
Largo do Carmo, 25; Rua da Oliveira do Carmo; Rua da Condessa
António Castelo Branco, in Lisboa de Antigamente

Chegou a ser doado aos Terceiros do Carmo um terreno para construírem nova Casa, mas até 1780 nada estava feito. Foi então que os Terceiros receberam dos Silva Coutinhos a mercê do prédio onde hoje se encontram, havendo instalado sua Igreja, ou capela, numa sala do primeiro andar. Antes da República era desta Igreja que saia, em Domingo de Ramos, a «Procissão do Triunfo», cujo dia tradicional, porém, tinha sido o da última sexta feira de Quaresma.

Procissão do Triunfo ou dos Santos Nus saindo da igreja da 
Ordem Terceira do Carmo, a Verónica  |1907-03|
Largo do Carmo, 25; Rua da Oliveira do Carmo; Rua da Condessa
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O prédio do Largo do Carmo, no seu interior, não perdeu ainda o ar palaciano, ou burguês, decrépito, com sua escadaria, seus emblemas da Ordem Terceira, sobrepujados de coroa real, tudo vulgar, adaptado, provisório.
A Ordem na sua Igreja e Sacristia, possue muitas imagens, alguns quadros, num conjunto que parece de «bric-à-brac».
Mas é respeitável esta Venerável Ordem dos Terceiros de N. Sr.ª do Monte do Carmo — e muito lisboeta.
Nela se conservam os ossos de D. Nuno Álvares Pereira, objecto de devoção patriótica.== [actualmente (desde 1953) na Igreja do Santo Condestável]

N.B. ARQUITECTO: Manuel Caetano de Sousa (1780). ESCULTOR: José de Almeida (1755). PINTOR: Francisco Borja Gomes (séc. 19). PINTOR de AZULEJOS: Fábrica Viúva Lamego (1992).

Igreja da Ordem Terceira do Carmo  |1948|
Largo do Carmo, 25; Rua da Oliveira do Carmo; Rua da Condessa
Eduardo Portugalin Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VI, p. 78, 1938.

Thursday, 2 July 2015

Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos

Nesta estação terminava o Aqueduto do Alviela, que trazia a água para Lisboa das nascentes dos Olhos de Água a 10 Km de Pernes e a 2 km do sítio de Amiais. Esta água era conduzida para o reservatório da Verónica e para a cisterna do Monte. Esta estação foi inaugurada pelo Rei D. Luiz em 3 de Outubro de 1880.

Edificações da Companhia das Águas na cerca dos Barbadinhos - Chegada do Alviela no dia 3 do corrente 1880
Desenho do natural por Isaiais Newton, in O Ocidente: revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, 15 Out. 1880

Permitiu abastecer as zonas altas e baixas da cidade através de um sistema de sifões. Funcionava através de máquinas a vapor fabricadas nas oficinas de E. W. Windsor, em Ruão. Tinha cinco caldeiras. Esta estação esteve activa até 1928. Foi depois substituída por uma Estação Elevatória Eléctrica. Actualmente funciona neste espaço o Museu da Água, inaugurado em 1 de Outubro de 1987. Este Museu estando sediado na Estação dos Barbadinhos engloba também o Aqueduto das Águas Livres, a Mãe de Água das Amoreiras e o Reservatório da Patriarcal. Em 1990, o Museu da Água recebeu o prémio do Museu do Conselho da Europa.

Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos [1880]
Rua do Alviela
Estabelecimento das machinas da Companhia das Águas de Lisboa, fachada principal, Sul.
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

 

A capacidade do tanque deste Reservatório — magnífica construção abobadada em quadrilongo com arcadas de volta abatida — é de 12.000 metros cúbicos; o fundo do tanque está 28 metros abaixo do nível do mar. Os engenheiros que dirigiram esta obra foram José Joaquim de Paiva Cabral Couceiro e Joaquim Pires de Sousa Gomes.
(ARAÚJO,  Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, p. 26, 1939)
 
Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos [1906]
Rua do Alviela
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 20 September 2017

O «Passo» da Mouraria e a lápide da Cerca Fernandina

Fez há pouco quarenta anos que foi ordenada a demolição do Passo da Mourariaescreve Norberto de Araújo num artigo publicado no boletim do Grupo "Amigos de Lisboa" — um dos da procissão do Senhor dos Passos, da Graça. 


Serve de pretexto a estas notas, que nenhuma novidade conterão, uma fotografia que possuímos, e na qual o «passo» se vê tal qual era no final do século passado {séc. XIX]. A estampa é inédita, e deve-se, segundo cremos, a Alberto de Oliveira, um dos fundadores do «Grupo do Leão» (1887), senão o seu principal organizador, e que cultivava as curiosidades e os tipos de Lisboa, interessando-se por assuntos de arte ligados aos progressos gráficos. Alberto de Oliveira, que figura na famosa tela de Columbano, de cujos pares hoje não resta um só, foi daquela gente da boémia do talento e do espírito o primeiro a desaparecer da vida. Já não viu demolir o velho «Passo da Mouraria», cuja fotografia teria feito há cerca de sessenta anos [c. 1887]. O pormenor não interessa demasiadamente; pela leitura do título de uma peça que se representava ao tempo no Teatro do Príncipe Real [A Filha do Snr. Chrispim] [1], e que se pode ler num cartaz que a fotografia reproduz, apurar-se-ia o ano que corresponde ao cenário.
Ao «Passo da Mouraria» está ligada a história do sítio da Saúde ou da Guia. Na conhecida gravura — e belo documento — do «Arquivo Pitoresco», volume V, pág. 377 [vd. 2ª imagem], aparecem em desenho o «Passo», o recanto do Alegrete, o Arco, rasgado num prédio dos Taroucas, o resto de um ângulo da muralha de D. Fernando, e a lápide de mármore, com inscrição em caracteres góticos maiúsculos, que atesta a construção (1373-1375) da muralha fernandina.
Na fotografia à qual nos reportamos não aparece o recanto [vd. 1ª imagem], mas distintamente se vê a lápide, aposta no lanço da muralha contigua ao «Passo», ao lado superior de uma porta que tinha o n.º 12 [da Rua da Mouraria].

O «Passo da Mouraria» e a lápide da Cerca de D. Fernando (dir.) [c. 1887?]
Rua da Mouraria; à esquerda vislumbra-se a fachada lateral da Ermida de Nossa Senhora da Saúde
Alberto de Oliveira,in Lisboa de Antigamente

1907 foi o ano da condenação do «Passo da Mouraria» que, em reconstrução, datava de 1780; o Terramoto destruíra o primitivo, que vinha de 1698-1702, e era sensivelmente da mesma idade do palácio do Conde de Vilar Maior, antecessor da Casa dos Alegretes, depois Penalvas e Taroucas. Este palácio, dito dos Marqueses do Alegrete, cujo título passou para o arco e para a rua, foi demolido neste ano corrente de 1947, sem que houvesse razão para o prantear.
Duas das relíquias do pequenino sítio desapareceram, pois, quarenta anos uma atrás da outra. Está de pé apenas o Arco, teimosamente a recordar a Porta de S. Vicente da Mouraria, que leva 574 anos de Porta, e 273 de Arco, pois foi transformada em 1674, para facilitar o trânsito dos coches.
A lápide relativa à construção da cerca de D. Fernando passou, depois de 1908, quando foi construído o grande prédio n.º 8 a 16, à esquina das Escadinhas do Marquês de Ponte de Lima Escadinhas da Saúde, para a fachada desse prédio, onde ainda se encontra. E' venerando documento da Lisboa do Rei Formoso, talvez o único de vulto, assim como o Arco, tão escarnecido e desrespeitado na sua memória, é a última das portas de Lisboa da Cerca do século XIV.

Rua da Mouraria, Arco e Palácio do Alegrete em 1862
À esquerda, na parede ao lado do  «Passo da Mouraria» vê-se a lápide comemorativa da construção da Cerca de D. Fernando
Gravura de madeira: desenho de Barbosa Lima e gravura de Coelho Júnior e Pedroso
in Arquivo Pitoresco

O «Passo da Mouraria» desapareceu em 1907-1908, como dissemos. A Câmara ofereceu à Irmandade do Senhor dos Passos da Graça, à qual o «Passo» pertencia, uma indemnização de quinhentos mil réis, que a irmandade aceitou. Dos cinco «passos» de rua da procissão dos Passos da Graça subsistem hoje apenas dois: o da «Verónica», no Largo do Terreirinho n.º 119 do começo da Calçada de Santo André, que data de 1765, e substituíra um que existiu antes na Rua do Boi Formoso [Benformoso] (1673-1675), como este substituíra um ao cimo da Rua dos Cavaleiros; e o de «Santo André», místico com o desaparecido Arco de Santo André, ampliado em 1608-1702, sito no começo da Costa do Castelo, porta n.º 106.
O famoso «Passo» do Rossio, que datava de 1700, fôra apeado em 1759, e reedificado em 1782 em terrenos da Casa dos Duques de Cadaval, novamente demolido em 18319 por ordem da Câmara, que, por sentença, teve que reedificar logo em 1841, sendo inaugurado em 1843. Pouco depois construiu-se o grande prédio Cadaval que esquina para o actual Largo de D. João da Câmara, anteriormente «Pátio do Duque». E o «passo» ficou nele encravado até 1913, ano em que a Casa Cadaval logrou por sentença, que a irmandade o entregasse, para demolição. É hoje [em 1947] «O Passo», pequena leitaria tipo Rossio.
O «Passo de S. Roque» estava embebido na face da Torre de Álvaro Pais, que se situava, como é sabido, no Largo de S. Roque [actual Trindade Coelho]; o Terramoto destruiu-o e foi reedificado em 1780-1781, até 1827, ano em que a Câmara regularizou o largo para a abertura da Rua Nova da Trindade.
A arquitectura exterior destes «passos» era sensivelmente igual: portada de volta perfeita sobre cuja cornija assenta o frontão, constituindo duas volutas a envolver um medalhão central, coroado por uma cruz simples. Estas evocações (apoiadas no estudo histórico do ilustre Padre Ernesto Sales) servem apenas de ilustração ao insignificante mas curioso documento que é a fotografia do «Passo da Mouraria». Falta somente assinalar que a história de três dos «Passos» referidos está ligada por situação à Cerca de D. Fernando: os de S. Roque, da Mouraria e de Santo André.¹

«Passo» da Mouraria e muralhas de D. Fernando no Largo da Saúde
Alfredo Roque Gameiro (1864-1937), in Lisboa Velha
 

[1] Refira-se, a título informativo, que «A Filha do sr. Chrispim» mencionada por Norberto de Araújo — e cujo cartaz se observa na 1ª imagem — foi escrita por Ludgero Viana (1842?-1934). Opereta de costumes portugueses, em 3 actos, terá estreado por volta de 1880, tendo feito furor à época com inúmeras representações em pelo menos dois teatros da capital. os já extintos Teatro do Rato e Teatro do Príncipe Real.
Ludgero Viana nasceu em Lisboa a 16 ele Março de 1842. Entrou para o jornalismo, em 1861. como redactor da época e foi durante muitos anos secretário da redacção do Diário Ilustrado. Como escritor teatral estreou-se no Teatro do Rato com a peça Os Malhados. Em 1903 entrou para a redacção do Diário de Noticias, onde se conservou durante vinte anos.
______________________________________
Bibliografia
¹ARAÚJO, Norberto de. O «Passo» da Mouraria e a lápide da Cerca Fernandina, Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", 1947.

Sunday, 14 August 2022

Igreja (e convento) da Graça

A Igreja da Graça situa-se numa alta posição privilegiada de Lisboa. Orientada a Poente, o seu adro constitui um miradouro natural da cidade; o perfil da sua torre, com a extensão conventual, a Norte; a fachada do antigo Convento, contígua à da igreja com orientação a Sul.


A igreja da Graça, tal qual hoje se encontra, é uma reedificação da segunda metade do século XVIII, completada com reconstruções e restauros do final do século passado para os princípios do actual. integrou-se no convento dos religiosos eremitas descalços de Santo Agostinho, que para o sítio de Almofala vieram em 1271, transferidos do seu primitivo eremitério do Monte de S. Gens. A primeira igreja, certamente modesta, foi substituída por um majestoso templo, de três naves, dos maiores e mais ricos de Lisboa, pela diligência do vigário perpétuo da Ordem, o espanhol Frei Luís de Motoya, durando as obras nove anos (1556-1565). 
Logo de começo esta Casa religiosa teve relativa imponência na Igreja, e largueza no Convento que —  acomodava 1.600 pessoas — intitulado de Santo Agostinho até 1305; nesse ano todos os Conventos da Ordem passaram a ter a invocação de N. Senhora da Graça.

Igreja da Graça [c. 1900]
Panorâmica sobre a zona da Graça tirada do Castelo de São Jorge
Largo da Graça; Calçada da Graça
O conjunto constituído pelo convento e pela Igreja remonta ao início da nacionalidade, ganhando maior importância no século XVI.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Igreja da Graça [c. 190-]
Panorâmica sobre a zona da Graça tirada do miradouro junto à Rua Damasceno Monteiro
Largo da Graça; Calçada da Graça; à dir. nota-se a Igreja de Santa Cruz do Castelo
Da ordem de Santo Agostinho, a Igreja da Graça situa-se no antigo local conhecido por Almofala, onde D. Afonso Henriques acampou com as suas tropas, durante o cerco a Lisboa em 1147.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

No segundo quartel do século XVIII a igreja beneficiou de restauros importantes, dirigidos pelo arquitecto Custódio Vieira; pouco tempo depois, pelo Terramoto a igreja foi quase totalmente arruinada, assim como o convento, começando em 1765 a reconstrução, que equivale a uma reedificação integral, sob o risco de Manuel Caetano de Sousa, e prolongando-se, numa primeira fase, até 1785. No final do século passado [XIX] tratou-se novamente de completar a igreja segundo o plano reedificador, aliás alterado, de Caetano de Sousa, e de a restaurar no que fora feito anteriormente; estas obras duraram de 1896 a 1905.

Igreja e convento da Graça [1960]
Panorâmica sobre a zona da Graça tirada do Castelo de São Jorge
Largo da Graça; Calçada da Graça
A Fachada Principal da igreja, (século XVIII) é composta de três corpos, unidos por frontão curvilíneo, continuados no mesmo alçado por um lateral a Sul. Destaca-se recuada, ao centro alto do corpo da fachada conventual, a torre setecentista (Manuel da Costa Negreiros).
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
Convento da Graça, claustro nobre [1954]
Largo da Graça; Calçada da Graça
Este claustro, que se pode classificar como integrado no estilo toscano, é dos mais interessantes da Lisboa conventual desaparecida. Apresenta cinco arcadas de volta perfeita, assentes sobre colunas duplas de vão aberto. No segundo pavimento notam-se em cada lado do quadrado cinco elegantes janelas janelas, coroadas de ática, com placas de mármore rosa nos intervalos dessas janelas. No alto, corre uma balaustrada com adornos flamejantes.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

A igreja apareceu então, aparentemente ostentosa, mas com um merecimento artístico muito aquém do que tivera nos séculos anteriores.
A decorativa torre da igreja, assente sobre o corpo da fachada do convento, pertence à reedificação que de poucos anos precedeu o Terramoto, e deve-se a Manuel da Costa Negreiros, que morreu em 1750.
A igreja da Graça é, no seu interior, das mais vastas de Lisboa, com boa expressão arquitectónica, na qual predominam, porém, os materiais pobres (madeira e estuques).
De uma só nave, possui o corpo da Igreja quatro capelas por lado. Pela direita: S. Tomaz, N. Senhora de Fátima, Santa Rita e S. José, e Santo António com S. Sebastião; pela esquerda: N. Sr.ª do Rosário da Verónica, Santa Mónica e N. Sr.ª das Dores, Sagrado Coração e Santíssimo.
O tecto do corpo da Igreja é dividido em cinco secções e nelas podes ver pinturas de João Vaz (1903) , representando as cinco primeiras frases da «Avé-Maria»; trabalhou também nele o decorador Elói Ferreira do Amaral.
Igreja da Graça, nave e capela-mor [1962]
Largo da Graça; Calçada da Graça
De planta em cruz latina, composta por nave de cinco tramos, definidos por oito capelas
laterais profundas e anexos, transepto saliente, capela-mor, tendo, em eixo, os corpos de
duas capelas e os de acesso à tribuna; sacristia desenvolvida perpendicularmente ao lado
esquerdo da capela-mor e, no lado direito, as dependências da Irmandade do Senhor
dos Passos.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

A Sacristia — considerada «monumento nacional» (11-12-918) — , dependência de interesse na igreja, antiga Capela das Relíquias; e, nela:

O tecto, em pintura larga de perspectiva arquitectónica, representando a Assunção de Nossa Senhora, pintura identificada de Pedro Alexandrino, e tendo nos topos os retratos de Frei António Botado e do irmão deste, Mendo de Foios Pereira, custeadores das obras deste quadro; dois grandes altares, em mármore, um em cada topo, com coroamento arquitectónico, situando-se no altar do fundo um grande relicário de madeira dourada [esq. na imagem abaixo], e no do lado da entrada o túmulo, em rico sarcófago de mármore, com inscrição de Mendo de Foios Pereira, que foi secretário de estado de D. Pedro II; sete painéis de azulejos historiados, em silhares circundantes (princípio do século XVIII), representando passos da vida da Virgem.

Igreja da Graça, sacristia [1960]
Largo da Graça; Calçada da Graça
A Sacristia é monumento nacional por excelência. Os seus azulejos são de tradição de seiscentos. É hoje um documento frio e sombrio, com valor mas sem expressão. As suas riquezas  de significado histórico, estão hoje quási todas no Museu de Arte Antiga.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 41, 1938.
idem, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1946.
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