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domingo, 31 de março de 2019

Praça Afonso de Albuquerque

Praça com forma quadrangular, rematada a sul pelo Tejo e pelo antigo cais e a norte pelo Palácio de Belém. É um espaço com zonas ajardinadas, ladeadas por sebes, tendo algumas árvores como o lódão e o pinheiro-manso. Esta praça — até 1910 denominada «Dom Fernando» — era o antigo areal onde ancorava o Real Cais de Belém, assentando a estátua no local onde se situava o cais de D. João V.


Mas antes de tocarmos o primeiro edifício a visitar  — recorda o ilustre Norberto de Araújo —  rendamos aqui na sua Praça de Afonso de Albuquerque uma homenagem ao arrabaldino bairro, que foi praia do Restelo, e na qual o aziago velho, cuja legenda fatalista ao Destino coube contrariar, murmurava numa manhã de Julho de 1497, de parceria com os sinos da Ermida, quando as naus se foram à cata da índia:

Tão balalão...
Quantos lá vão
que não voltarão!

Praça Afonso de Albuquerque |1902|
Por Edital de 5 de Novembro de 1910 a Praça D. Fernando passou a denominar-se Praça Afonso de Albuquerque, com início na confluência da Rua da Junqueira, Calçada da Ajuda, Rua de Belém e Avenida da Índia.
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Vamos ver, de-perto, essa estátua-monumento a Afonso de Albuquerque; é das mais expressivas de Lisboa nas suas legendas a relevo, já que não podemos dizer das mais belas.

Deve-se a Simão José da Luz Soriano, escritor e benemérito, a iniciativa de se erigir um monumento a Afonso de Albuquerque-a iniciativa e os fundos para a realização (35 contos legados em testamento). O escultor Costa Mota e o arquitecto Silva Pinto, após concurso público, foram encarregados de pôr de pé o seu projecto; foi o monumento inaugurado em 3 de Outubro de 1902, na presença da família real, enquanto uma divisão naval, composta dos cruzadores «D. Carlos›, «D. Amélia» e «S. Rafael», e da canhoneira «Sado› e da velha corveta «Duque da Terceira», salvaram cem 21 tiros. A estátua foi fundida na velha «Fundição de Canhões» onde se conserva o modelo.O mais valioso deste monumento é constituído pelos baixos relevos com passos da vida do vice-rei da Índia: a entrega das chaves de Goa, a derrota dos mouros na ponte da Malaca, Afonso de Albuquerque recebendo o embaixador do rei de Narcinga, e a resposta de Albuquerque ante a proposta daquele embaixador: «é esta a moeda com que o rei de Portugal paga os seus tributos».

Inauguração do monumento a Afonso de Albuquerque |1902-10-03|
Praça Afonso de Albuquerque antiga de D. Fernando
O monumento inaugurado na presença da família real.
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

No segundo corpo do monumento são também de interesse escultórico os altos relevos figurando caravelas e galeões; os quatro anjos assentes no ângulo da base do monumento são decorativos. Como vês, o conjunto manuelino do monumento não é desagradável. A figura do herói, contudo, tão alta está que se não vê.

Praça de D. Fernando |post. 1902|
Por Edital de 5 de Novembro de 1910 a Praça D. Fernando passou a denominar-se Praça Afonso de Albuquerque.
Postal - Ediçao F A. Martins

Bibliografia
Belém de Isabel Corrêa da Silva e Miguel Metelo de Seixas, ed. Junta de Freguesia de Sta. Maria de Belém, 2000.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 68-69. 1939.

domingo, 31 de julho de 2022

Rua Afonso de Albuquerque

Estamos na pequena artéria que se chama, desde 1551 pelo menos, Rua (de Afonso) de Albuquerque, e que anteriormente era a Rua dos Arcos. [Araújo, X, 1939]


Informa o autor de Lisboa de Lés-A-Lés, Luiz Pastor de Macedo que « Já assim era denominada em 1554, tendo em tempos anteriores o nome de rua dos Arcos. Deram-lhe também a denominação de rua da Casa dos Bicos, segundo dois assentos paroquiais, um de 1605 e outro de 1606 e algumas vezes apontada sob o nome de rua das Canastras (1587-1600), por influência da serventia pública, propriamente com este nome, que lhe ficava vizinha. Desde 1661 designaram-lhe simplesmente por rua do Albuquerque e assim chegou até ao terremoto.
Depois tendo com o novo plano da cidade desaparecido a rua das Canastras, esta denominação passou para serventia que nesse tempo era conhecida por rua do Almargem e este escorregou para a rua do Albuquerque. A mudança, porém, só se deu depois de 1781, porque neste ano ainda se dizia: «...na rua do Albuquerque junto ás portas do Mar...» [...] 

Ao fundo, a Rua Afonso de Albuquerque vista do Arco das Portas do Mar [1945]
Ao centro, as Escadinhas das Portas do Mar e,  à esq., a Rua das Canastras.
 Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Correram anos. Em 9 de Fevereiro de 1882, por proposta do vereador Leça da Veiga, aprovada na sessão camarária daquele dia, a rua designada então sob o nome de Almargem passou outra vez a chamar-se de Afonso de Albuquerque.[...] O Afonso de Albuquerque que deu o nome à rua do século XVI, foi Braz de Albuquerque que trocou o seu nome de baptismo pelo do seu pai, conforme o determinou el-rei D. Manuel para honrar a memória do grande vice-rei da Índia. Braz de Albuquerque viveu na Casa dos Diamantes ou dos Bicos, mandada por ele construir, a qual tinha (e tem) duas faces livres que caíam, uma, a sul, sobre a praça [da Ribeira Velha] que se abria a oriente da rua da Porta do Mar (parte da actual rua dos Bacalhoeiros) e outra, a norte, sobre a rua dos Arcos [...]. 

Pátio Afonso de Albuquerque  [1899]
Final da Rua Afonso de Albuquerque; à esq., a Travessa do Almargem; ao centro observa-se a mina abastecedora de água para a antiga bica da Alfândega (local de entrada da galeria); ao fundo à dir. desemboca o Arco da Conceição que liga com a Rua dos Bacalhoeiros.
 Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Por este motivo e seguindo uma praxe estabelecida pelo povo — a de designar as serventias públicas, quando com nome de indivíduos, pelos dos seus moradores que por qualquer razão se tornaram mais notados — a rua passou a denominar-se de Afonso de Albuquerque.==

Rua Afonso de Albuquerque junto à Casa dos Bicos [1940]
Na direcção das Escadinhas das Portas do Mar e da Rua das Canastras.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

domingo, 9 de julho de 2017

Paço de Belém (Palácio Presidencial de Belém)

Ora temos diante de nós o Palácio de Belém, antigo Paço Real e, desde 1910, Palácio Presidencial. 

Este edifício, enriquecido de jardins e magnificamente situado, pertence à história política portuguesa dos últimos dois séculos. Não tendo grandeza arquitectónica é, contudo, simpático, paço arrabaldino ainda a denunciar-se através dos restauros, mesmo exteriores, de que tem beneficiado.

Umas casas que existiam aqui no século XVI, e os chãos largos que as circundavam, constituíam um prazo foreiro aos frades dos Jerónimos; D. Manuel de Portugal, comprou àqueles religiosos os terrenos, que se integraram no Morgadio dos Cortes Reais, o qual, havendo passado às mãos de D. Luiz de Portugal (1623) acabou per cair na posse da Condessa de Aveiras, D. Joana de Portugal, e desta na do 3.° Conde, seu filho, D. João da Silva Telo de Menezes.

Panorâmica de Lisboa abrangendo a Rua de Belém e o Palácio de Belém [Inicio séc. XX]
O Palácio é hoje monumento nacional e sede da Presidência da República Portuguesa. Chamado "das leoneiras" no século XVIII, parece ter como emblema o leão — símbolo solar que alia a Sabedoria ao Poder. Uma bandeira de cor verde com o escudo nacional — o estandarte presidencial.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Foi a este fidalgo, Presidente do Senado de Lisboa de 1702 a 1711, que o Rei D. João V comprou casa e quinta em 4 de Julho de 1726 por 200.000 cruzados. Ficou sendo a «Quinta de Baixo», para a distinguir da contígua «Quinta do Meio», que o mesmo soberano comprou pouco depois — para de tudo fazer uma única propriedade de granjeio — ao Conde de S. Lourenço. 
D. João V reedificou o Palácio, embelezou os jardins com plantações, estátuas, lagos, cascastes, vasos, fontes, pavilhões, ruas e curiosas escadarias, dos quais ainda existe uma boa parte, quer na reduzida área do Palácio Presidencial, quer naquela onde se instalou o Jardim Colonial.

Palácio Real de Belém
 Real Cais de Belém e Praça D. Fernando
Desenho de Cazelhas, gravura de A. Oliveira
Pertença do Gabinete de Estudos Olisiponenses, 
in Lisboa de Antigamente
Paço Real de Belém nos meados do século XIX
Litografia de Legrand, pertence à Biblioteca Nacional, 
in Lisboa de Antigamente

A história política e diplomática do Paço de Belém não se comporta, Dilecto, no nosso plano. Do mais notável quero lembrar-te que foi aqui, a 4 de Novembro de 1836, que o tribuno liberal Manuel da Silva Passos, por ocasião da célebre «Belemzada» — que do local tirou a designação — de D. Maria II conseguiu, após palavras firmes e sinceras, que a Soberana voltasse para o Palácio das Necessidades, anuindo às pretensões do povo.
Reis e príncipes, presidentes estrangeiros, instalaram-se neste Paço quer em visitas de dois dias quer em estadias demoradas; quási todos os Reis de Portugal de D. João V até D. Manuel aqui habitaram ou transitoriamente passaram dias, embora nos últimos vinte anos de monarquia o Palácio fosse mais de receber que de estar.
Na República alguns dos Chefes de Estado têm-no habitado com permanência, mais ou menos demorada, mas todos eles em Belém dão suas recepções, assistem nas solenidades diplomáticas e permanecem nas ocasiões graves de crises.

Palácio de Belém [c. 1903]
Praça Afonso de Albuquerque, antiga Praça D. Fernando (1910)
Rua da Junqueira; Palácio Nacional de Belém e - tornejando para a Calçada da Ajuda - o extinto Picadeiro Real depois Museu dos Coches (1905); em segundo plano a torre sineira da Igreja de Nossa Senhora das Dores (1787) sita na Rua do Embaixador; logo atrás o zimbório octogonal do Convento das Salésias.
 Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Palácio de Belém, Pátio dos Bichos e fachada nascente do palácio [c. 1945]
Foi para alojar os grandes felinos que no reinado de D. José foi construído um conjunto de jaulas no lado norte do pátio principal do palácio. A documentação da época refere a colocação de grades para «as casas dos bichos», e em 1772 é anotada a chegada de um leão, vindo de Angola, que terá motivado o espanto de muitos.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
 
O Palácio Presidencial de Belém, cujas Salas foram restauradas há nove anos [1930], quando da anunciada visita de Afonso XIII em retribuição à que lhe fizera o Sr. General Carmona em 1929, possui magníficas instalações palacianas, e entre elas a Sala dos Bichos, na ala poente, logo acima da escadaria que nasce do Pátio dos Bichos, este com ingresso por uma rampa, pela frente à Praça Afonso de Albuquerque.
As grandes obras de arte (pintura principalmente) do Paço antigo levou-as D. João VI quando foi para o Brasil; as peças de ourivesaria e outras obras primas estão hoje no Museu de Arte Antiga, mas as Salas ostentam ainda peças de relativo valor, mesmo em mobiliário, havendo sido no terceiro quartel do século passado e já no actual o Mácio objecto de restauro, e datando dessa época decorações e quadros de Columbano, Malhoa, João Vaz, Cotrim, Félix da Costa, e de outros artistas.
Como vês, o Palácio Presidencial de Belém, repousado, «oficial», discreto, conjuga-se admiravelmente nesta Praça, à qual faz o fundo natural norte, a toda a largura da área. Anexo ao Palácio, temos o Museu Nacional dos Coches [...].

Palácio de Belém [c. 1903]
Praça Afonso de Albuquerque
Observe-se, hasteada, a bandeira monárquica.
 Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 69-71, 1939.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Museu Nacional dos Coches Reaes

O edifício do Museu dos Coches, desintegrado do palácio, do qual fez parte, é também uma construção do começo do século actual, ampliado para Norte, sobre a Calçada da Ajuda, nos últimos meses de 1942 e em 1943.


O Museu reúne uma colecção de viaturas de gala e passeio dos séculos XVII a XIX, única no mundo. O seu espólio inclui: coches, berlindas, carruagens, seges, liteiras, carrinhos de passeio e carrinhos de crianças. Completam a colecção, arreios de tiro e cavalaria, acessórios de viatura, fardamentos, instrumentos musicais, um núcleo de armaria e uma colecção de retratos a óleo dos monarcas da Dinastia de Bragança

Museu Nacional dos Coches |c. 1909|
Praça Afonso de Albuquerque
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Anexo ao Palácio [de Belém] — recorda-nos Norberto de Araújo —, temos o Museu Nacional dos Coches, superior aos seus similares, o Trianon, de Versailles, e o de Madrid. Também merece duas palavras, antes de o visitarmos, o que não pudemos fazer ao Palácio. Onde está o Museu dos Coches foi, primitivamente, o Picadeiro do Paço de Belém, mandado construir por D. José, mas cuja obra, do risco de Jacomo Azzolini, só se concluiu em tempo de D. João VI.

Museu Nacional dos Coches [post. 1901]
Praça Afonso de Albuquerque esquina com a Cç. da Ajuda
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Foi a Rainha D. Amélia quem, em 1905, teve a iniciativa de construir o Museu dos Coches, a despeito da relutância de D. Carlos, em consentir a destruição do Picadeiro, um dos melhores da Europa; o Rei acabou por deferir a pretensão da Rainha, e logo o estribeiro-menor, coronel Alfredo de Albuquerque, se lançou à realização da obra.
A Rainha tinha razão; se o Picadeiro era, no seu género, cousa de manter-se e admirar-se, o Museu vale infinitamente muito mais.

Museu Nacional dos Coches |c. 1950|
Praça Afonso de Albuquerque
António Castelo Branco,  in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, p. 154, 1944.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 71, 1939.

domingo, 21 de setembro de 2025

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos

Não tem o bairro da Mouraria — de tão ressonante nome — o fundo sólido lisboeta do de Alfama. Não é, porém, menos característico, embora o seu pitoresco se concentre apenas em três ou quatro artérias buliçosas. Começou a povoar-se logo depois da tomada de Lisboa em 1147, quando D. Afonso Henriques para aqui atirou os mouros «forros», que ocuparam as encostas das Olarias e dos Lagares, as abas do Castelo, pelo lado N., descendo até ao vale, que é a Praça do Martim Moniz de hoje.
 
Ora, aproximando-nos do cabo da jornada, entremos no Largo Silva e Albuquerque [hoje Praça do Martim Moniz] Ponde avulta a face poente do casarão Alegrete — condenado à demolição, e muito bem. Ali, na parte que abre para a Rua da Palma — recorda o ilustre Norberto de Araújo — existiu até há dois anos [c. 1936] uma estreita serventia rasgada pela demolição já iniciada neste sítio, em obediência ao plano urbanista municipal.

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos |c. 1900|
Aguadeiro junto ao Palácio do Marquês de Alegrete.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O sítio é feio, desagradável, sem pitoresco, ainda que com signıficação bairrista, nos seus cafés de tipo antigo, botequins e tavernas de peixe frito, durante o século passado de fama equívoca.
O dístico foi substituído, em 1885, por este actual de Silva e Albuquerque, em memória de José Maria da Silva e Albuquerque, operário muito culto, um apóstolo da instrução primária gratuita, falecido em 1879.

 

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos |1938-10-12|
Palácio do Marquês de Alegrete, portal sul-poente.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O Palácio dos Marqueses de Alegrete foi construído pelos condes de Vilar-Maior, no século XVII, sobre um lanço da muralha (da cerca de D. Fernando) e sobre a porta da Mouraria. Depois, elevado o conde de Vilar-Maior ao título de Marquez de Alegrete, se ficou chamando á porta da Mouraria — Arco do Marquez de Alegrete, nome que ainda conserva, e dando-se também o de «Rua do Arco do Marquez de Alegrete, à que d'esta porta vae ao Largo do Poço do Borratem».
(in Portugal antigo e moderno, 1873)

Largo Silva e Albuquerque com a Rua da Palma em fundo |1946|
Palácio do Marquês de Alegrete (demolições)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol XV, pp. 221, 1936.
ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 78-79, 1938.

domingo, 30 de janeiro de 2022

Rua Vieira Portuense

É curiosa pelo seu pitoresco natural e semblante «muito Belém» esta ala de prédios desde a esquina da Praça [Afonso de Albuquerque], pela Rua Vieira Portuense, até à Travessa das Linheiras, dos n.°s 40 a 52; serão alindados para se integrarem, em 1940, na área da Exposição do Mundo Português. As suas colunas estão «comidas» no sopé pela areia: tem poesia bairrista, um certo ar decrépito mas que transpira verdade pitoresca.==
(ARAUJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 73)

Rua Vieira Portuense |1965|
Antiga Rua do Cais
As Casas velhas e pitorescas de Belém Velho, do lado sul, com face voltada ao mar.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

O topónimo homenageia Francisco Vieira (1765-1805), pintor, lente de desenho na Academia do Porto, cognominado «Vieira Portuense», por ter nascido nessa cidade, e para se diferençar doutro seu afamado contemporâneo, conhecido pelo nome de «Vieira Lusitano», por ter nascido em Lisboa.
Figura ímpar, entre os grandes mestres da pintura setecentista, Vieira Portuense é um exemplo a seguir pela persistência da sua actividade artística e pelo estudo aturado que o levou a todos os lugares da Europa onde a arte se sacralizava, e fez dele o maior pintor do Século XVIII, com méritos reconhecidos em Itália, Alemanha e Inglaterra, bem como em Portugal, onde D. João VI o chamou à Corte, nomeando-o primeiro pintor da Real Câmara.

Rua Vieira Portuense |1968|
Antiga Rua do Cais
À esq. nota-se um troço da Rua de Belém e, do lado oposto vislumbra-se o Monumento a Afonso de Albuquerque; no terreno baldio virá a nascer na década de 1980 o Jardim Vasco da Gama.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Mercado de Belém, Rua Vieira Portuense e Tv. da Praça

Os prédios desta Rua Vieira Portuense — a poente do antigo Mercado de Belém e da Tv. da Praça — foram demolidas em 1940. O mercado foi poupado e os prédios a nascente foram «alindados para se integrarem, em 1940, na área da Exposição do Mundo Português.

Travessa da Praça [1939]
Antiga Travessa do Mercado; ao fundo, o antigo Mercado de Belém na Rua Vieira Portuense; os prédios (dir.) desta zona de Belém — onde hoje se encontram os Jardins de Belém — foram demolidos para construção da «Exposição do Mundo Português» de 1940. O mercado foi poupado e «alindado» para se integrar na referida exposição.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O topónimo homenageia Francisco Vieira (1765-1805), pintor, lente de desenho na Academia do Porto, cognominado «Vieira Portuense», por ter nascido nessa cidade, e para se diferençar doutro seu afamado contemporâneo, conhecido pelo nome de «Vieira Lusitano», por ter nascido em Lisboa.
Figura ímpar, entre os grandes mestres da pintura setecentista, Vieira Portuense é um exemplo a seguir pela persistência da sua actividade artística e pelo estudo aturado que o levou a todos os lugares da Europa onde a arte se sacralizava, e fez dele o maior pintor do Século XVIII, com méritos reconhecidos em Itália, Alemanha e Inglaterra, bem como em Portugal, onde D. João VI o chamou à Corte, nomeando-o primeiro pintor da Real Câmara.

Rua Vieira Portuense  [1939]
Antigas ruas do Cais e da Cadeia; à esquerda, o antigo Mercado de Belém
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O Mercado de Belém — escreve Norberto de Araújo — inaugurado em 1882, e começado a construir em Junho de 1880, substituiu um outro, que existiu em plena Rua Direita de Belém, até àquele ano. Foi seu construtor Júlio César Viçoso. Representa um quadrilongo, com portas em cada uma das faces, contendo interiormente dois alpendrados. Nada tem de especial; tempo houve, no seu começo, em que a chegada do peixe a este mercado constituía um quadro típico e animado, faina que hoje [1938] passa despercebida.

Rua Bahuto Gonçalves (hoje Jardins de Belém) [post. 1901]
Ao fundo à esq., o Mercado de Belém; do lado direito, vislumbra-se a
estátua-monumento a Afonso de Albuquerque.

Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa,  vol. IX, pp. 73-74, 1939.

domingo, 13 de agosto de 2023

Antiga estação de caminhos-de-ferro de Belém

O sítio de Belém, conhecido no tempo de D. Sancho I por Reguengo de Ribamar ou de Algés, era uma zona rica em pomares e hortas. A toponímia dos seus lugares encontrava-se certamente ligada à vocação rural de então: o Restelo era o campo de produção e preparação do linho, ali se «rastelava» o linho; a Junqueira foi campos de juncos e Alcolena o sítio de fornos de cal. O sítio de Belém, povoado agrícola e piscatório, foi crescendo a partir do século XIII, sempre ligado às actividades fluviais e marítimas. A sua importância viria a aumentar com os Descobrimentos e é dessa época que data o topónimo Belém. Foi no início do século XV, com a construção da ermida da invocação de Nossa Senhora de Belém, que passou a ser conhecido por essa designação.

Antiga estação de caminhos-de-ferro de Belém |s.d. ant. 1926|
Avenida da Índia
A estação situava-se frente à Praça D. Afonso de Albuquerque, antiga de D. Fernando; a Locomotiva a vapor — linha ainda não electrificada — da Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses (futura CP). pertenceu à série CP 09 a 026 e foi construída pela empresa "Beyer Peacock".
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Por ocasião da Exposição do Mundo Português em 1940, as antigas estações de comboio de Pedrouços e Belém foram demolidas para dar lugar a outras, de acordo com a arquitectura do Estado Novo.

Antiga estação de caminhos-de-ferro de Belém, Linha já electrificada |1932|
Avenida da Índia
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

terça-feira, 19 de abril de 2016

Praça do Comércio: Iluminação pública com candeeiros a gás e a electricidade

A partir de 1902, com a generalização da electricidade, são colocados novos candeeiros no Rossio, Chiado, Praça do Comércio, e nalgumas das placas centrais das Avenidas Novas e na Avenida 24 de Julho até à Praça de Afonso de Albuquerque, em Belém. Por vezes, estes novos elementos eram colocados ao lado dos velhos candeeiros a gás — como se pode comprovar nesta imagem — , utilizando-se os dois sistemas em simultâneo, cuja diversa gramática decorativa dotava a cidade de um eclectismo formal singular. 

Praça do Comércio [190-]
Iluminação pública com candeeiros a gás e a electricidade

Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Em 1909 a Câmara decide racionalizar as despesas relativas eléctrica e a gás e melhorar a iluminação pública em geral, através da instalação de bicos incandescentes.
(in revista digital rossio, nº2)

Praça do Comércio [190-]
Iluminação pública com candeeiros a gás e a electricidade

Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Monumento da Guerra Peninsular

O Monumento da Guerra Peninsular — um dos mais interessantes e emotivos de todo o país, a despeito do seu peso escultórico — assenta admiravelmente neste começo do Parque do Campo Grande ao centro da Praça Mouzinho de Albuquerque [hoje de Entrecampos]. É uma obra de arte capaz de ser entendida por toda a gente. O povo — quer-lhe bem.


A subscrição pública  iniciou-se logo nesse ano, sendo a primeira pedra colocada em 15 de Setembro O concurso foi ganho pelos artistas J. de Oliveira Ferreira, estatuário, e F. de Oliveira Ferreira, arquitecto, que deram por concluído  o seu magnifico trabalho em 29 de Novembro de 1932. O monumento, alguns meses coberto por umas sarapilheiras, foi descerrado naturalmente — e com gáudio geral — numa noite de temerosa tempestade. 
A inauguração oficial realizou-se em 8 de Janeiro de 1933, com a presença do Chefe do Estado, general Carmona, do Presidente do Conselho, Dr. Oliveira Salazar, do general Teixeira Botelho, presidente da Comissão. e seu animador, e do presidente da Câmara Municipal, general Daniel de Sousa, que recebeu o monumento em nome da Cidade.
Esteve também presente o Embaixador da Inglaterra, Claude Russel, neto de Lord Russel que foi companheiro de Wellington na última fase da Guerra Peninsular.
Demos volta ao Monumento, que bem a merece.

Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular |entre 1940 e 1950|
Campo Grande (Entrecampos)
À direita, a embocadura da futura Avenida dos Estados Unidos da América
Judah Benoliel. in Lisboa de Antigamente

Na face principal do pedestal [S.] temos a legenda, expressão do pensamento nacional reconhecido: «Ao Povo e aos Heróis da Guerra Peninsular», e esta outra inscrição: «Levantamento popular pela Independência — Junho 1808».
O fulcro do Monumento é o seu grupo escultórico, ao alto, trabalhado em bronze, e no qual nove figuras, rodeiam a Pátria, que alça o duro gládio de Afonso Henriques, arrebatada que foi a bandeira às garras da águia napoleónica, que coroa o grupo e o monumento; os soldados e o povo da arraia miúda irmanam-se na mesma febre salvadora.

Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular em construção |c. 1932|
Campo Grande (Entrecampos)
À direita, a embocadura da futura Avenida dos Estados Unidos da América
António Passaporte. Colecção Loty, in Lisboa de Antigamente

O pedestal está todo ele guarnecido, nas quatro faces e ângulos, de grupos escultóricos, talhados em pedra. Num lado, o da frente [S.], aí temos três vigorosas figuras populares, em magníficas expressões: logo outro grupo, com seis figuras, onde se vê o general Silveira, que arrasta uma peça de artilharia; ainda, no outro ângulo, com um demasiado realismo, algumas figuras de crianças e de mulheres trucidadas, ou mortas de fome. Todas estas imagens, talhadas com vigor, no qual a tragédia e a glória de vencer se dão mãos— aformoseiam o monumento, no qual estão inscritos versos dos «Lusíadas» e se admira uma evocação, materializada numa alegoria, às glórias e relíquias do passado. ¹

Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular |entre 1940 e 1950|
Campo Grande (Entrecampos)
À esquerda, a embocadura da antiga Avenida 28 de Maio, depois de 1974, Avenida das Forças Armadas.
Estúdio Horácio Novais. in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 64-65, 1939.
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