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domingo, 4 de outubro de 2026

Escola Politécnica — Casa do Novlclado, Colégio dos Nobres Faculdade de Ciências e Jardim Botânico


Estamos diante de um edifício e estabelecimento de ensino superior do qual derivou o nome a esta artéria . 
A Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa — recorda Norberto de Araújo — sucedeu à Escola Politécnica como esta substituiu o Colégio dos Nobres, instalado na Casa que fôra do Noviciado da Companhia de Jesus. Só meia dúzia de notícias.
A primeira Casa do Noviciado da Companhia de Jesus existiu Casa do Noviciado em Campolide, numa desaparecida quinta que se situava abaixo da actual Penitenciária, a poente do Parque [Eduardo VII] de hoje; datava de 1595. 
Dois anos depois Fernão Teles de Menezes fez doação aos Padres da Companhia de uns terrenos neste sítio da Cotovia, e que eram da sua Quinta do Monte Olivete. A primeira pedra do edifício do Noviciado foi lançada em 26 de Abril de 1603; concluída em 1616 a Casa, do risco de Baltazar Álvares, entraram os primeiros noviços em 1619. 
A casa do Noviciado, relativamente pequena, possuía uma cerca enormíssima, que ia até ao Rato e ao fundo do Salitre. 

Escola Politécnica |c. 1945|
Rua da Escola Politécnica, 56 (vista para o nascente); Museu Nacional de História Natural.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A Companhia de Jesus foi extinta em 1759, e logo em 7 de Março de 1761 era criado o Real Colégio dos Nobres, inaugurado em 19 de Março de 1766 pelo Rei D. José, família real e Cardeal Saldanha. O Terramoto fez estragos no edifício, que foi reparado poucos anos depois. 
Em 10 de Janeiro de 1837 foi abolido o Colégio dos Nobres, e no dia seguinte criada a Escola Politécnica dependente do Ministério da Guerra, que foi instalada no velho edifício do Colégio dos Nobres, bem como a Escola do Exército.
Em 22 de Abril de 1843 um incêndio devorou em poucas horas a Escola Politécnica, ficando de pé apenas as paredes. 
Pensou-se logo em levantar um novo edifício, para o que se venderam bens que haviam pertencido ao Colégio dos Nobres e se contraíram empréstimos, funcionando entretanto a Escola Politécnica em instalações provisórias junto do prédio ardido. 
O risco do novo edifício foi do general Silva Costa e do professor Pezarat. O edifício é este que está à vista, e cujas colunas monolíticas pertenceram ao Convento de S. Francisco da Cidade (hoje Faculdade de Belas-Artes de Lisboa) destruído pelo Terramoto. Só em 1878 as obras se concluíram, mas a Escola, que perdera o carácter militar restrito em 1859, funcionava já.

Escola Politécnica |c. 1945]
Rua da Escola Politécnica, 56 (vista para o pente); entrada de acesso para o Jardim Botânico.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Quando foi criada a Universidade de Lisboa (Março de 1911) a designação de Escola Politécnica desapareceu, passando o estabelecimento a constituir a Faculdade de Ciências de Lisboa, com jardim e institutos anexos. O Jardim Botânico, um dos raros parques naturais dentro da Cidade, foi começado a plantar em 1873, por iniciativa dos professores Conde de Ficalho e Andrade Corvo, e sucedeu ao da Ajuda (1877); ocupa a encosta que desce a norte. Divide-se em duas partes, separadas por uma vistosa escadaria . É considerado por botânicos estrangeiros como uma das maravilhas do sul da Europa. São notabilíssimas as suas espécies, entre elas as palmeiras, na «Rua das Palmeiras», plantada em 1880, de cactus, de cedros, de araucárias, de chorões e bem assim as colecções de plantas de todas as partes do mundo. As estufas e os viveiros constituem uma atracção científica deste jardim. 


Jardim Botânico |1911|
Observatório Astronómico
O chorão, sobre o tanque grande
Joshua Benoliel. in LdA

Jardim Botânico |ant. 1945|
Pormenor da Estufa notando.se ao fundo o
Observatório Meteorológico Infante D. Luís
Estúdio Mário Novais., in LdA



O Observatório Meteorológico, intitulado do Infante D. Luiz, data de 1863, ficando-lhe anexo um Observatório Astronómico, de fundação de Mariano de Carvalho. Uma das instituições mais consideradas da Faculdade de Ciências é o Museu «de Barbosa du Bocage», de História natural, transferido para esta Escola Politécnica da Academia das Ciências em 1858, no qual há magníficas colecções de peixes, de crustáceos, de répteis, de aves, de insectos (em número de 50.000), de conchas, etc. São notáveis alguns dos grandes mamíferos e peixes expostos. As instalações científicas e. jardins de Faculdade de Ciências merecem demorada visita, que te recomendo quando vieres só, e não tiveres tanto a jornadear.

Escola Politécnica |c. 1907]
Rua da Escola Politécnica
Lago construído na sequência da abertura do túnel do Rossio.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 27-28, 1939.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Rua Marquês de Fronteira: «Reservatório do Pombal»

Esta Rua Marquês da Fronteira sucedeu a uma linha irregular, que não é evidentemente a de hoje — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , a qual constituía as setecentistas Estrada dos Padres da Companhia e Estrada de S. Francisco Xavier, rectificadas há meio século [c. 1890], Rua — quási Avenida — moderna, já servida de eléctricos desde Outubro de 1936. ...)
O muro que prossegue [à esquerda], até à Penitenciária, defende os terrenos da Companhia das Águas, onde se encontra o Depósito chamado do «Pombal». E do Pombal seriam porque já no começo do século passado [XIX], e certamente muito antes, quando estes chãos ainda constituíam herança da Companhia de Jesus, recebida pelo Real Colégio dos Nobres, eles eram conhecidos pela designativa de «Pombal», e um pombal haveriam tido. [...]
Em 1873 o Governo expropriou estes terrenos todos, aqui [à esquerda] para levantamento do «Cadeia Geral e Penitenciária».
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 91-92, 1939)

Rua Marquês de Fronteira |1967|
Reservatório do Pombal; Cadeia Penitenciária de Lisboa
João Brito Geraldes, in Lisboa de Antigamente

A artéria perpetua a memória de D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto (1802–1881), 8º conde da Torre, 5º marquês de Alorna e 7º marquês de Fronteira. Após a Vilafrancada viveu exilado para depois fazer toda a campanha das lutas liberais, tendo-se reformado no posto de marechal-de-campo. Foi também governador civil de Lisboa (1846-1851), par do reino e deixou 5 volumes das suas «Memórias do Marquês de Fronteira e D'Alorna».

domingo, 21 de maio de 2023

Rua Marquês de Fronteira que foi Estr. da Circunvalação

Por decreto de Setembro de 1852 a cidade passaria a ser circundada por muro alto e contínuo, feito propositadamente, até junto ao rio, tendo por únicas passagens, portões de ferro. Chamava-se Estr. de Circunvalação e para efeitos aduaneiros estava guardada pela Guarda Fiscal.
A estrada passava pelo Arco do Carvalhão (Arco pertencente às Aguas Livres) Rua D. Carlos de Mascarenhas — Rua Marquês de Fronteira — actual Avenida Duque de Ávila — Rua Visconde de Santarém — Largo do Leão — Rua Carrilho — Rua Morais Soares — Alto de S. João — Avenida Afonso III (sendo novo o último troço, evitando-se a Calçada das Lajes) Xabregas.

Rua Marquês de Fronteira |1927|
Antiga Estrada da Circunvalação
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda da foto no arquivo: «O carro celular com o preso (José Júlio da Costa), a caminho da Penitenciária de Lisboa»

A artéria perpetua a memória de D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto (180 –1881), 8º conde da Torre, 5º marquês de Alorna e 7º marquês da Fronteira. Após a Vilafrancada viveu exilado para depois fazer toda a campanha das lutas liberais, tendo-se reformado no posto de marechal-de-campo. Foi também governador civil de Lisboa (1846-1851), par do reino e deixou 5 volumes das suas «Memórias do Marquês da Fronteira e Alorna».

Eléctricos na Rua Marquês de Fronteira |1960|
Dístico de 1903. Paragem junto a Rua de Campolide.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

domingo, 7 de janeiro de 2018

A «Torrinha», a Vale de Pereiro

Também a «estampa antiga» do sítio do Parque [Eduardo VII] — recorda-nos o olisipógrafo Norberto de Araújo — foi desfigurada com o desaparecimento da «Torrinha», uma curiosa vivenda octogonal (Quinta da Torrinha, que deu nome à Estrada), situada um pouco acima do actual lago, e demolida em Abril de 1916.¹


Mereceu a Torrinha — com o seu andar «feito à romana», em forma de mirante — larga referência de Matos Sequeira em «Depois do Terramoto» onde o mestre olisipógrafo fixou algumas efemérides da dita casa «seguramente do século XVIII [1764?]», descrevendo-a como «a célebre Torrinha» que, «por tanto tempo, alindou com o seu ar um tanto ou quanto misterioso, aquele local.»
Esculápio em O Século  de 21 de Abril do ano último [1916] — prossegue o mesmo autor —, fez, como extremado amigo da cidade, o seguinte episódio ao pobre torreão setecentista do dr. José de Sousa Monteiro:
Vetusto monumento  de  fé republicana de outras eras, anda o camartelo municipal a derruí-la, para dar «seguimento ao parque Eduardo  VII,  que já se desenha «esplendoroso ao cimo da Avenida, coroando a rotunda «e o lugar onde, para as calendas gregas, se há-de erguer «a tão falada estátua ao Marquês de Pombal. O leitor amante das antiguidades de Lisboa que vá vê-la nos «seus derradeiros momentos, a célebre Torrinha onde se faziam dantes os comícios republicanos e onde os janízaros da municipal se fartaram de espadeirar o «povo e os propagandistas da ideia nova. Faz pena ver «a Torrinha a cair aos bocados, em holocausto ao progresso e ao aformoseamento da plástica citadina!

Dão-te a morte; coitadinha,
E tu morres fria e calma
Torrinha que eras  Torrinha,
Do teatro da minha alma.

A Torrinha [1888]
Parque Eduardo VII, antigo Parque da Liberdade, antes Vale de Pereiro
Legenda da foto: «Exposição Pecuária Nacional em 1888»
Augusto Bobone,in Lisboa de Antigamente

Os lisboetas das gerações mais novas, quando olham para a vasta área ajardinada e arborizada do Parque Eduardo VII, com a sua grande tira de relva ao centro, a Estufa Fria e os trechos arborizados que circundam lagos com cisnes em torno dos quais as crianças brincam sob o olhar das mães ou das nurses, o Pavilhão dos Desportos e ainda a Avenida Sidónio Pais, flanqueada de prédios de luxo, dificilmente podem imaginar o conjunto rústico de quintas e terras de semeadura, olivais e velhos casarões de tipo arrabaldino que se estendiam entre a Rua de Artilharia Um e o caminho de Andaluz até São Sebastião da Pedreira.

A Torrinha, poente [1888]
Parque Eduardo VII, antigo Parque da Liberdade, antes Vale de Pereiro
Legenda da foto: «Exposição Pecuária Nacional em 1888»
Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

Dentre essas casas edificadas nas várias quintarolas chamava as atenções a «Torrinha» não por grandiosa ou de magnificente porte ou estilo, mas pela particularidade de ter, como parte destacada, a flanco dumas casitas modestas uma torre octogonal, rasgada de janelas em dois pisos acima do rés-do-chão, coberta por um telhado em forma de pirâmide também octogonal e toda ela pintada de cor-de-rosa, constituindo um traço fisionómico muito característico de paisagem olisiponense.²

A Torrinha [entre 1885 e 1916]
Parque Eduardo VII, antigo Parque da Liberdade, antes Vale de Pereiro
Ao fundo à esq. vê-se a Cadeia Penitenciária de Lisboa
Fotógrafo não identificado, in Photographias de Lisboa, Marina Tavares Dias

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 48, 1939.
² Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa.", Volumes 21-23. 1958.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Avenida da Liberdade

Ora ahi tens tu essa Avenida! Hein?.... Já não é mau! 1


A Avenida da Liberdade, inaugurada em 1885, ou a Avenida, como quase logo passou a ser designada, foi um lugar em si mesmo. Nos últimos anos do século XIX e até à proclamação da República, «fazia-se a Avenida» como se fazia a Rua Áurea e o Chiado: para passear, ver e ser visto, numa ritualização do passeio urbano cujas características eram ainda românticas.
O ajardinamento das placas laterais (que salvaguardaram espécies do Passeio Público e alguns dos seus elementos decorativos, como os pequenos lagos), a amplitude do espaço de andar e a quase ausência de trânsito explicam que a Avenida tenha sido, de facto, a mesma espécie de palco que fora o Passeio Público, mas sem muros nem portões de acesso, democratizando o passeio e a fruição de espectáculos ocasionais de Verão. 2

Avenida da Liberdade [1955]
Panorâmica da Avenida da Liberdade com placas ajardinadas
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente


«Assim se fez a Avenida» escreve, em 1893, Fialho de Almeida — panfletário maior da literatura portuguesa — «que é como se sabe um corredor de cantaria, com altos muros cheios de buracos, palmeiras de cabellos nas pernas, e um obelisco-thermometro marcando no primeiro de Dezembro o zero da temperatura patriotica. (...)
Insisto no que poderia ter dado a Avenida, se a camara partindo d'um estudo de transformação architectonica bem guiado, e sabendo que para essa arteria convergiriam todas as novas construcções luxuosas da classe rica, dictasse a esta typos de residencia, não nos seus detalhes meúdos, que isso seria um attentado ás leis da variedade, mas dentro d'um quadro d'estilos sujeito a um ensemble, e frisando o monumental da grande rua. Eis o que teria afastado daquele sítio os prédios mercenários, os predios cómodas, com janelas de bico e platibandas de louça por vidrar, e o que multiplicaria as perspectivas por uma diversidade sem fim de tipos palaciais, dando a esse eixo novo de Lisboa a grandeza cenográfica que lhe falta, e o ar de grande terra que já agora só com um terramoto novo pode ter. 

Avenida da Liberdade [ant. 1939]
Placas ajardinada
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

É realmente mágoa olhar da praça dos Restauradores, até à Penitenciária, o bisonho canal de casarões saloios que arrotam sobre a via, chatos e altíssimos, com seus telhados opacos, lucarnas de celeiro, magras varandas, e divisórias de aluguer, cheirando a sovinice dos senhorios. Dos pouquíssimos palácios que lá restam, apenas do marquês da Foz tem grande tipo, o resto concebido num tipo de cartonagem chinfrinote, dizendo o disfrute ou a estupidez do arquitecto, a farófia patuda dos donos, e a irremissível chateza merceeiral do nosso tempo.» [3]

Avenida da Liberdade [1955]
Placa ajardinada; Monumento aos Restauradores
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

1 QUEIROZ, Eça de, Os Maias, 1888.
2 SILVA, Raquel Henriques da, O Livro de Lisboa: O Passeio Público e a Avenida da Liberdade.
3 ALMEIDA, Fialho de, Os Gatos, vol. 6, 1893.

domingo, 10 de julho de 2016

Lançamento da primeira pedra do monumento ao Marquês de Pombal

A Rotunda da Avenida, designada de Praça Marquês de Pombal desde 1882 — ano das comemorações do centenário do Marquês de Pombal — , data em que se procedeu ao lançamento da primeira pedra do monumento ao Marquês, era ainda — e foi durante largos anos — um vasto espaço aberto. O lançamento da primeira pedra, no dia 8 de Maio de 1882, «declarado por lei de grande gala», foi inaugurado pelo rei D. Luís. Ramalho Ortigão conta a imponência da cerimónia: «Junto ao pavilhão, erguido para esse fim, uma banda de música trombeteia o hino da Carta (...). Esta cerimónia, única destas festas a que o soberano se dignou assistir, verificou-se gravemente, com todo o grotesco destas praxes». Acompanhavam o rei, os membros da comissão do centenário, Rodrigues Sampaio, Moita e Vasconcelos, Emídio Navarro e Luciano Cordeiro, e «Chegado que foi o real préstito ao lugar em que tem de se erguer o monumento e onde por enquanto existe apenas um buraco» (Ortigão: 1943), colocada a primeira pedra, consumava-se a cerimónia. O concurso para o monumento só seria aberto em 1913, já com a a República, recaindo a escolha para o projecto de Adães Bermudes, António Couto e Francisco Santos. 

Lançamento da primeira pedra do monumento ao Marquês de Pombal [15 Agosto de 1917]
Panorâmica tirada da cobertura do Palacete Seixas [Instituto Camões]; à esq., por detrás do prédio de gaveto com a futura Rua Joaquim António de Aguiar, vislunbram-se as chaminés cónicas da Quinta e Pátio dos Geraldes; em último plano, a Rua de Artilharia Um e o Palácio dos Viscondes de Abrançalha; ao cimo do Parque a Rua Marquês de Fronteira e Cadeia Penitenciária de Lisboa.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Nova cerimónia de colocação da primeira pedra, em 15 de Agosto de 1917, repetindo-se a 13 de Maio de 1926. As obras arrastaram-se, por falta de verbas, e o monumento só seria inaugurado a 13 de Maio de 1934, numa cerimónia «sem a solenidade que parecia supor» (Araújo: 1993).

sábado, 23 de abril de 2016

A revolução de Sidónio Pais

A revolução de Sidónio Pais começa em 5 de Dezembro de 1917 quando as suas tropas acampam na Rotunda (hoje Pç. Marquês de Pombal) para derrubar o governo de Afonso Costa.
No período em que a participação de Portugal na I Guerra Mundial marcava a conjuntura política, económica e social do país, Sidónio Pais lidera a revolta militar triunfante, que se saldará na constituição de uma Junta Militar (a que preside), na dissolução do Parlamento, no derrube do governo de Afonso Costa e na destituição do Presidente da República Bernardino Machado. 
Faz a primeira proclamação ao País onde se propõe a criação de uma República Nova e suspende a Constituição de 1911, é eleito por sufrágio directo para a Presidência da República e cria um Senado profissional. O regime presidencialista de Sidónio Pais (1872—1918) não sobreviveria à sua morte.

Trincheiras na Rotunda [actual Praça Marquês de Pombal] construídas aquando da Revolução de Sidónio Pais a 5 de Dezembro de 1917
Parque Eduardo VII, antigo Vale de Pereiro, vendo-se ao fundo, a Cadeia Penitenciária de Lisboa na Rua Marquês de Fronteira.
Anselmo Franco, in Lisboa de Antigamente

Apesar de uma intensa actividade legislativa, a República Nova não possui um programa definido para contrapor ao regime anterior, nem quadros à altura para desempenhar a tarefa da governação. Num ano de ditadura dão-se três remodelações ministeriais, o que agrava a instabilidade governamental e introduz um princípio de caos na administração pública. A primeira, em Março de 1918, na sequência da demissão dos ministros unionistas, dá lugar ao segundo governo sidonista. A segunda, em Maio, empossa o terceiro governo de Sidónio. A terceira, em Outubro, dá posse ao quarto e último governo sidonista.

General Barnardiston, chefe da missão militar inglesa e sua esposa, percorrendo o acampamento revolucionário acompanhados por Sidónio Pais a 5 de Dezembro de 1917
Parque Eduardo VII, antigo Vale do Pereiro, vendo-se ao fundo, a Cadeia Penitenciária de Lisboa na Rua Marquês de Fronteira; Palácio Mendonça.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Durante o ano em que permaneceu no poder Sidónio Pais altera a Lei de Separação entre as Igrejas e o Estado, numa tentativa de apaziguamento das relações com a Igreja (23 de Fevereiro de 1918), estabelece o sufrágio universal (11 de Março de 1918) e consegue reatamento das relações com a Santa Sé, através do envio do Monsenhor Aloísio Mazella que assume as funções de Encarregado de Negócios da Santa Sé em Lisboa (25 de Julho de 1918).

Durante o ano em que permaneceu no poder Sidónio Pais altera a Lei de Separação entre as Igrejas e o Estado, numa tentativa de apaziguamento das relações com a Igreja (23 de Fevereiro de 1918), estabelece o sufrágio universal (11 de Março de 1918) e consegue reatamento das relações com a Santa Sé, através do envio do Monsenhor Aloísio Mazella que assume as funções de Encarregado de Negócios da Santa Sé em Lisboa (25 de Julho de 1918)
Revolução de Sidónio Pais
«Inumeras granadas se crusaram por cima da casaria tremula da cidade, entre o acampamento revolucionarios em Campolide comandados pelo major sr. Sidonio Paes [...] caindo algumas granadas no trajeto, destruindo, matando e fazendo estremecer toda a população;[...]  in Ilustração Portuguesa, 17 Dez. 1917.
 Anselmo Franco, in Lisboa de Antigamente

No dia 5 de Dezembro de 1918, durante as comemorações do golpe perpetrado por si, em 1917, Sidónio sofre o primeiro atentado mas sai ileso.
Poucos dias depois, a 14 de Dezembro de 1918, um novo atentado seria fatal. Sidónio deslocara-se à Estação do Rossio para apanhar o comboio para o Porto. É então que José Júlio da Costa, ex-sargento do exército, dispara contra o Presidente. Acaba por falecer na Sala do Banco do Hospital de S. José, em Lisboa.
O seu funeral realiza-se no dia 21 de Dezembro de 1918, no meio de enormes manifestações de pesar. O seu corpo veio a ser posteriormente a ser trasladado para o Panteão Nacional.

Revolução de Sidónio Pais, in Ilustração Portuguesa, 17 Dez. 1917
(clicar para ampliar)

segunda-feira, 21 de março de 2016

Avenida da Liberdade

Em 1879 José Gregório de Rosa Araújo (1840-1893), presidente da Câmara Municipal de Lisboa, apresenta a proposta, que se irá concretizar, de uma «Grande Avenida Passeio Publico ao Rocio» com 1.276 m de comprimento, 89,5m de largura e terminando numa «... praça circular de 200 m de diâmetro d'onde irradiam quatro ruas de 30m - uma em direcção ao Rato, outra ao local do novo edifício da Penitenciária e Entre-Muros, outra para Santa Marta e finalmente outra para os sítios do Campo Grande e Benfica»
 
Avenida da Liberdade [c. 1900]
Lavadeira saloia; ao fundo à esq. já na Rotunda vê-se o mirante octogonal da Quinta da Torrinha; o terceiro edifício — com torre ameada — é o Palacete Conceição e Silva.
Fotografia colorida anónima sobre original de Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

N.B. A Avenida da Liberdade, inaugurada em 1885, ou a Avenida, como quase logo passou a ser designada, foi um lugar em si mesmo. Nos últimos anos do século XIX e até à proclamação da República, «fazia-se a Avenida» como se fazia a Rua Áurea e o Chiado: para passear, ver e ser visto, numa ritualização do passeio urbano cujas características eram ainda românticas. [ALMEIDA, Fialho de, Os Gatos, vol. 6, 1893.

Avenida da Liberdade [c. 1900]
Lavadeira saloia; ao fundo à esq. já na Rotunda vê-se o mirante octogonal da Quinta da Torrinha; o terceiro edifício — com torre ameada — é o Palacete Conceição e Silva.
Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Cadeia Penitenciária de Lisboa: Abolição do capuz dos reclusos

Em 29 de Janeiro de 1913 é aprovado o decreto que cria a Comissão de Reforma Penal e Prisional e revoga expressamente o regulamento da Cadeia Geral Penitenciária de Lisboa de 1884, admitindo a substituição do regime penitenciário celular pelo regime de prisão maior temporária ou outra. 

A romaria das famílias dos reclusos, à porta da Cadeia Penitenciária de Lisboa [1931]
Rua Marquês de Fronteira
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente
 
Uma das consequências práticas de maior peso simbólico foi a abolição do capuz de utilização obrigatória pelos reclusos, momento retratado em reportagem fotográfica por Joshua Benoliel. Até então vigorava o «Regulamento Provisório da Cadeia Geral Penitenciária do Distrito da Relação de Lisboa, Decreto de 20 Novembro de 1884» que estipulava o seguinte:

Cadeia Penitenciária de Lisboa [1913]
Rua Marquês de Fronteira
No anfiteatro da prisão: os reclusos COM o capuz.
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

«(...) Os exercícios físicos quotidianos, a efectuar nos pátios ou dependências da cadeia, deveriam assegurar que os reclusos «não tenham entre si comunicação alguma, nem possam conhecer-se» (art. 9.º). Fundamental para manter a incomunicabilidade dos reclusos, que «não poderão, sob qualquer pretexto, ver-se nem comunicar entre si por escrito, por palavras ou sinais», é a utilização por estes, fora das celas, de «um capuz que lhes encubra o rosto e que não poderá ser levantado senão nos pátios de passeio, no anfiteatro da capela, ou em outros lugares em que não esteja presente outro preso» (art. 159.º), o mesmo valendo para os reclusos ocupados «em serviços ou trabalhos, fora das celas», que não podem «dirigir-se por palavras ou gestos aos presos que se ocupem no mesmo serviço, ou que estejam próximos.»

Cadeia Penitenciária de Lisboa [1913]
Rua Marquês de Fronteira
No anfiteatro da prisão: os reclusos SEM o capuz.
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

Mais informação sobre a Abolição do capuz dos reclusos em Portugal na Ilustração Portuguesa:
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/…/…/N365_item1/P7.html

Cadeia Penitenciária de Lisboa

De acordo com Norberto de Araújo, nas suas Peregrinações em Lisboa « A Penitenciária de Lisboa, um dos casarões mais tristes da cidade, e que bem demolida seria sem protestos de ninguém — tem sessenta e cinco anos de existência. (o autor escreve em 1939)

Construção da Cadeia Penitenciária de Lisboa |ant. 1885|
Rua Marquês de Fronteira
Redondo, o coração da estrutura Penitenciária radial

Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente
Construção da Cadeia Penitenciária de Lisboa |ant. 1885|
Rua Marquês de Fronteira
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente
Construção da Cadeia Penitenciária de Lisbo| [ant. 1885|
Rua Marquês de Fronteira
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

A lei da pena de morte foi abolida em 1 de Julho de 1867 por Joaquim António de Aguiar. Em 24 de Abril de 1873 o Governo mandava construir uma Penitenciária, mas antes já havia sido escolhido o terreno das «Terras do Seabra»,  a-par de «Entremuros» [hoje Rua Artilharia 1], existindo mesmo já um projecto, anterior à abolição da pena de morte, da autoria de Joaquim Júlio Pereira Caldas, continuado pelo engenheiro Le-Coq, do tipo francês.

Cadeia Penitenciária de Lisboa |c. 1897|
Rua Marquês de Fronteira
Fotografia onde se podem observar as torres por terminar, coroadas provisoriamente com uma espécie de cones

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1874 o engenheiro Ricardo Júlio Ferraz foi à Inglaterra e à Bélgica estudar as prisões do modêlo penitenciário, e acabou, assim, por prevalecer para a iniciativa portuguesa o sistema inglês de Birmingham; as obras principiaram naquêle ano, e só se concluíram em 1885. Os primeiros reclusos deram entrada em 2 de Setembro daquêle ano. 

Cadeia Penitenciária de Lisboa |190-|
Rua Marquês de Fronteira
Corpo central da fachada

Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

O edifício lúgubre tem a forma de uma estrela, ao centro da qual, em rotunda existia até 1910 a Capela. Possui 474 celas, 22 de enfermaria e 12 de castigo. Com a proclamação da República o regime penitenciário pendeu muito do seu rigor; converteu-se a Penitenciária num estabelecimento de expiação e de trabalho, sendo abolidos os capuzes.»  
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 91-92, 1939)

Cadeia Penitenciária de Lisboa |1913|
Rua Marquês de Fronteira
Corpo central da fachada projectado pelo eng. Luís António de Carvalho.

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Convento de São Francisco de Xabregas ou Convento de Santa Maria de Jesus de Xabregas

   Neste sitio exacto [Rua de Xabregas] se elevava na segunda metade do século XIII o Paço — melhor diríamos «pousada» — real de D. Afonso III, o Rei que fez de Lisboa capital do Reino (1255-1256), e que nela foi o primeiro a demorar —diz Norberto de Araújo.
   Este Paço foi posto em fogo pelos castelhanos do Rei D. Henrique II, que sitiaram Lisboa em 1373.
   Passados oitenta e dois anos (1455), durante os quais as ruínas se converteram em velhacouto, D. Afonso V doou estes seus terrenos e despojes de casas a D. Guiomar de Castro, Condessa de Atouguia, para esta dona fundar, como era seu desejo, um Convento de Franciscanos, da província do Algarve, intitulado de Santa Maria de Jesus; em 1460 estava a Casa construída com a ajuda de esmolas do povo, e para ela entraram em 17 de Abril nove frades vindos da Ilha Terceira. 
   A Igreja guardava algumas belas obras de arte, entre as quais um retábulo da Virgem de Guido Reni. O Terramoto reduziu tudo a cinzas. Construiu-se depois novo Convento, cuja Igreja tinha a fachada que ali vês.  

Desenho do Paço de Xabregas e parque [1571]
Da obra de Francisco de Holanda, «Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa»
   
   Em 1834 os seráficos franciscanos, como todas as congregações, foram eliminados da vida conventual. A Igreja foi profanada. Algum tempo depois o casarão serviu de quartel a Infantaria 1, depois aos artífices engenheiros, e ainda ao Batalhão Naval que, em 1839, passou para o Quartel de Alcântara. Em 29 de Julho desse ano decretou o Governo estabelecer em parte do edifício uma Penitenciária ou Casa de Correcção, projecto insólito que não teve realização; foi nessa época também arrendado o antigo Convento à Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonenses, que mal o habitou.  

A antiga Fábrica de Tabacos de Xabregas [1859]
Em primeiro plano, uma fragata com a bandeira da monarquia portuguesa, sobressaindo entre outras embarcações de pequeno porte. No lado esquerdo, vê-se o comboio a passar sobre a Ponte de Xabregas, cujo primeiro troço do Caminho-de-ferro do Norte foi inaugurado em 1856.
Óleo s/ tela, J. Pedrozo, in Palácio Pimenta

Em 12 de Janeiro de 1844 um incêndio devorou o edifício quási integralmente, escapando a Igreja, já profanada e algumas dependências. A fábrica de tecidos arrumou-se durante uns meses no vizinho Palácio Niza, e em 1846 instalou-se no princípio da Junqueira. 

Em 1845, a Fábrica dos Tabacos Lisbonense, estabeleceu-se no antigo Convento de Xabregas.

   Em 1845, enfim, estabeleceu-se neste edifício de Xabregas a Fábrica dos 'Tabacos Lisbonense, e, após o período da Regie, passou ela (1891) a ser da Companhia dos Tabacos de Portugal, e, finalmente (1927) da Companhia Portuguesa de Tabacos.
   Claro que nestes períodos o edifício beneficiou de reparos, e foi ampliado com o prédio que faz a esquina poente da Fábrica.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, pp. 56-57, 1939)

N.B.  A partir de 1962 a fábrica vai para o novo edifício na avenida Marechal Gomes da Costa. Na década de 1980 — na antiga igreja - esteve instalado o Teatro Ibérico.

Convento de S. Francisco de Xabregas, Rua de Xabregas [1944]
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Armazéns Grandella

«Sempre por bom caminho e segue»

A construção dos Armazéns Grandella, no início do séc. XX, deve-se à iniciativa do empresário que lhes deu nome, Francisco de Almeida Grandella. Projectados pelo francês Georges Demaye, especialista em arquitectura do ferro, que, inspirado nos armazéns franceses Samaritaine, adoptou para estes armazéns em Lisboa uma estrutura de ferro fundido, seguindo um gosto Arte Nova, mas sem esquecer a arte decorativa portuguesa. Envolvidos no processo de construção, estiveram, para além do arquitecto referido, o engenheiro Ângelo de Sárrea Prado (notabilizado pela construção dos caminhos-de-ferro em África) e o construtor civil João Pedro Santos (responsável pela construção da Penitenciária de Lisboa). 

Armazéns Grandella |post. 1907|
Rua Áurea, 205-217
À esquerda, a Rua da Assunção.
António Novais, in Lisboa de Antigamente

Trata-se de um edifício de duas fachadas, com acessos pela Rua Áurea (vulgo do Ouro), onde Grandella já tinha um estabelecimento comercial, e pela Rua do Carmo, desenvolvendo-se em 11 andares a partir da Rua do Ouro e em 6 pisos a contar da entrada da Rua do Carmo. A fachada da Rua do Carmo, andar nobre da casa, exibia um relógio monumental, onde duas figuras de ferreiros batiam as horas, o qual encimava dois baixos-relevos representando a Verdade e o Comércio. Por sua vez, as colunas entre as portas ostentavam medalhões esculpidos na cantaria com o lema da casa: Sempre por bom caminho e segue. 

Armazéns Grandella |início séc. XX|
Postal, 
in Lisboa de Antigamente
Armazéns Grandella |post. 1931|
Entrada dos armazéns pela Rua do Carmo, 42
Observam-se os baixos relevos representando a “Verdade” e o “Comércio”.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

À época da sua inauguração, Abril de 1907, os Armazéns Grandella foram um exemplo de engenharia e arquitectura de vanguarda, um exemplo de comércio moderno e um exemplo ímpar nas relações sociais patrão-empregado. Objecto de destruição pelo grande incêndio que devastou a zona do Chiado em 25 de Agosto de 1988, os Armazéns Grandella reabriram ao público, após a sua reconstrução, em 1996.

Armazéns Grandella |1960-12|
Rua do Carmo
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
Armazéns Grandella |1933|
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Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Após o incêndio do Chiado, em 1988, foi recuperado e reabriu em 1996, segundo um novo modelo de negócio, dedicado sobretudo ao comércio de vestuário.
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