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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Avenida Dom Vasco da Gama

Em 8 de Abril de 1948, a Comissão de Toponímia reuniu-se para avaliar uma lista de personalidades a serem homenageadas nos arruamentos da Encosta da Ajuda, entre elas Vasco da Gama. Após visita aos arruamentos, as designações foram aprovadas em 12 de abril de 1948. O topónimo Avenida Dom Vasco da Gama foi oficializado por edital em 29 de Abril de 1948, substituindo a antiga “avenida A.B.”. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

Avenida Dom Vasco da Gama |195-|
Perspectiva tomada da Av. do Restelo na direcção do rio.
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Vasco da Gama nasceu em Sines por volta de 1468, foi filho do marinheiro de D. João II Estêvão da Gama, e entrou para a História de Portugal como o navegador a quem se ficou a dever a descoberta do caminho marítimo para a Índia.
Vasco da Gama (1468?-1524) repousa no Mosteiro dos Jerónimos juntamente com os reis D. Manuel I e D. João III, Luís de Camões, Alexandre Herculano e Fernando Pessoa. Uma estátua sua, em conjunto com as de Nuno Álvares Pereira, Viriato e Marquês do Pombal, encima o Arco da Rua Augusta, terminado em 1875.

Avenida Dom Vasco da Gama, na direcção da Av. do Restelo |1961|
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Rua de São Lázaro, 100: Maternidade Magalhães Coutinho

Data, pois, de há sete anos — escreve Norberto de Araújo em 1938 e a quem vamos sempre seguindo — a instituição «Maternidade Magalhães Coutinho», a primeira organizada, em linhas científicas, em Portugal.

O Dr. Magalhães Coutinho (1815-1895) foi uma figura notável da medicina portuguesa, professor de obstetrícia, Director da Escola Médica, Director Geral da Instrução Pública, médico da Real Câmara, Biblotecário-mor do reino, amigo intimo do Rei D. Luiz e de Alexandre Herculano, homem de ciência, de espírito e de carácter. Morreu em 1895, com ostenta anos, pobríssimo e esquecido, e repousou no cemitério da Ajuda. As suas cinzas levou-as o vento; a sua memória está aqui: «Maternidade Magalhães Coutinho». [Araújo: 1938]

Maternidade Magalhães Coutinho |1931|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 29 de dezembro de 2024

Avenida Fontes com a Rua Camilo

Como estes dois últimos nomes são enormes! Mas parece que em certa época presidiu à denominação das ruas esse critério dos nomes grandes: Avenida de Fontes Pereira de Melo, Rua de Camilo Castelo Branco, etc. Pois não poderia dizer-se Avenida de Fontes e Rua de Camilo? Ou teme alguém que se confundem os nomes do estadista e do escritor com o de qualquer merceeiro?! [A.P. 1914]

A Avenida Fontes Pereira de Melo integra-se no projecto de crescimento da Cidade para Norte, aprovado em 1888, plano intitulado: "Avenida das Picoas ao Campo Grande" da autoria do Engenheiro Ressano Garcia. As terraplanagens iniciam-se cerca de 1897. 

Avenida Fontes Pereira de Melo com a Rua Camilo Castelo Branco |ant. 1940|
Palacete Sabrosa; Praça Marquês de Pombal
Kurt Pinto in Lisboa de Antigamente

O Palacete Sabrosa impressionava pela área da sua implantação distribuída por um quarteirão inteiro: Rotunda do Marquês, Avenida Fontes Pereira de Melo, Rua Camilo Castelo Branco e Avenida Duque de Loulé. Perfilava-se a residência no gaveto do Marquês com a Fontes Pereira de Melo com duas fachadas extensas, mas a principal projectava-se nesta avenida ou, como se dizia na altura, gozava de vista para o Parque. Foi demolido por volta de 1940. [Monterroso: 2002]

 

Rua Camilo Castelo Branco no sentido Avenida Fontes Pereira de Melo |195-|
Perspectiva tomada da Av. Duque de Loulé onde existe, desde 1950, o Monumento a Camilo Castelo Branco [vd. imagem abaixo].
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O topónimo «Rua Camilo Castelo Branco» presta tributo ao insigne Romancista (1825-1890) e foi atribuído por deliberação camarária de 24 Julho de 1890 — logo no mês seguinte ao seu falecimento — , ao arruamento que ligava a Rua Alexandre Herculano à então Rua Fontes (a partir de 1902, Avenida Fontes Pereira de Melo).

Camilo Castelo Branco (1825-1890) foi um dos maiores escritores portugueses do século XIX. "Amor de Perdição" foi sua novela mais importante. Suas novelas passionais fazem do escritor o representante típico do Ultra Romantismo em Portugal. Foi um dos primeiros escritores portugueses a viver exclusivamente do que escrevia. Recebeu o título de Visconde concedido pelo rei de Portugal, D. Luís I. [+ info]

Monumento a Camilo Castelo Branco |196-|
Perspectiva tomada da Av. Duque de Loulé com a Rua Camilo Castelo Branco (esq.) onde existe desde 25 de Outubro de 1950 a estátua do escritor — obra do escultor António Duarte.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 16 de junho de 2024

Rua do Salitre, ao Rato

Rua do Salitre, artéria que em muitos anos precedeu o Terramoto, a qual como sabes, foi chamada Rua da Palmeira no troço que ainda subsiste, pois já disse que ela chegava a S. José. 


Até ao séc. XIX a Calçada do Salitre ainda guardava muito do seu passado rural — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , logo a começar pelo seu topónimo derivado das nitreiras das hortas dos frades Cartuxos e será após a construção da Avenida da Liberdade que, gradualmente, passará a ter antes a categoria de Rua. Este topónimo nasceu das nitreiras ou salitrais que os frades de São Bruno – conhecidos como Cartuxos ou Brunos – tinham nas suas hortas, nos terrenos que detinham nesta artéria, já que salitre é o nome vulgar do nitrato de potássio, um adubo. O Salitre ganhou ao topónimo anterior, do séc. XVI, que era Horta da Palmeira. 

Rua do Salitre, ao Rato |1908-05|
Prédio — já demolido — para abertura do troço final da Rua Alexandre Herculano (c. 1910)
e que fazia gaveto com a Rua São Filipe Neri. A linha do eléctrico seguia para a Rua da Escola Politécnica.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A Rua do Salitre cujo lado esquerdo constituía a orla exterior do fundo da cerca do Noviciado da Companhia de Jesus, depois Colégio dos Nobres, que vendeu os terrenos para edificações — foi sítio onde habitaram muitos lisboetas de destaque, entre eles Garrett.
Em cima corria o Vale Pereiro, do qual existe, em reminiscência, uma parcela da Rua com aquele dístico, e que leva do Salitre a Alexandre Herculano. No alto da Rua do Salitre, n.º 148 residiu de 1816 para 1817 o general Gomes Freire de Andrade, ali preso em 26 de Maio daquele último ano; uma lápide foi colocada na fachada em 20 de Outubro de 1917.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, 1939)

Largo do Rato e Rua do Salitre |c. 1900|
Salitre (  direita ) principia no Largo do Rato, e termina na Av. da Liberdade.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Durante o séc. XIX, em diversos documentos municipais, plantas, requerimentos ou licenças para construção ou obras em prédios esta artéria tanto é assinalada quer como Calçada quer como Rua, mesmo que na 2ª metade do século seja mais usado Rua, sendo exemplo maior dessa dupla grafia um processo de expropriação de 1881- para a abertura da Avenida da Liberdade- em que a planta do local de Ressano Garcia refere Calçada e no texto do Presidente José Gregório Rosa Araújo se menciona Rua. [cml]

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Ruas Braamcamp e Rodrigo da Fonseca

Cena de rua nos alvores do séc. XX no encontro das ruas Braamcamp e Rodrigo da Fonseca — ainda pouco mais do um beco sem saída, por esta altura — , em que participam o padeiro, a criada de servir, o vendedor de hortaliças no seu burrico; o trolha e o pintor dando os últimos retoques no prédio nº 84 da Braamcamp, e, em primeiro plano, o omnipresente leiteiro.

Ruas Rodrigo da Fonseca e Braamcamp (gaveto sul) |c. 190-|
Estas novas artérias foram rasgadas por no final do séc. XIX.  Era a R. do Vale do Pereiro cujo nível foi materialmente dragado até encontrar no seu próprio fundo o actual pavimento da R. Braamcamp.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Vinte e seis anos após o seu falecimento foi o político liberal Rodrigo da Fonseca (1787-1858) fixado como topónimo na antiga Azinhaga do Abarracamento do Vale de Pereiro por Edital camarário de 4 de Março de 1884, artéria que só ficou completamente concluída no séc. XX, na década de trinta.

Ruas Rodrigo da Fonseca e futura Braamcamp vista da actual R. Alexandre Herculano |c. 1900|
A casa apalaçada e o prédio com o actual n.º 15 foram demolidos para implantação das novas vias, sendo que o prédio à dir. ainda se mantinha de pé nos anos de 1960. Neste local, além de nova construção, existe hoje um pequeno espaço verde separando aqueles dois arruamentos.
Machado & Souzas, in Lisboa de Antigamente

A CML, através do seu Edital de 10/01/1888, consagrou na sua toponímia o político alfacinha Anselmo José Braamcamp (1819-1885) atribuindo o seu nome ao arruamento da cidade com início na Praça Marquês de Pombal e fim na Rua Alexandre Herculano.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Leiteiros na Rua Alexandre Herculano

Às vezes, ainda a manhã vinha longe, já se ouvia pela rua o passar do leiteiro e das vacas [e cabras]. Avisava a freguesia batendo-lhe às portas e anunciando-se;
— Leitii ... leiti ... i
Ao mugir dos animais tinha sempre uma fala amiga e paciente:
— Eh ! ... "Linda" ... Vá, "Galante" ...
E na manhã que despontava, quando o sol começava doirando os topos das torres das igrejas, o leiteiro e as vacas, com o seu pregão, os seus gritos e o chocalhar das campainhas, emprestavam às ruas e aos largos a nota pitoresca com a qual o progresso da Lisboa de hoje há muito se não conforma.

Leiteiros na Rua Alexandre Herculano |1956|
Distribuição do leite aos leiteiros junto à Garagem Auto-Palace (esq.), construída
para a Sociedade Portuguesa de Automóveis, segundo projecto de Vieillard & Touzet, datado de 1906.

Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL.

Também mulheres ou homens vendiam leite, de porta em porta, carregando as bilhas e medidas que deixavam nos passeios para não ter de as levar até aos andares. Se passava canito rafeiro, vira-latas, era certo e sabido que não deixaria de assinar o ponto com uma mijinha... 
Pelo que se vê, a higiene da venda do leite não seria a mais própria, e quando vieram as disposições camarárias regulamentando a sua venda muita gente protestou, como é hábito entre nós... 

Leiteiros na Rua Alexandre Herculano |1909|
Esquina com Rua Castilho
E o leite, quente, espumava para dentro das vasilhas e cheirava que era um regalo. E a rapaziada logo se refastelava com aquele lanche magnífico que as mães lhes dava, ignorando que a falta de fervura o tornava pouco higiénico.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no arquivo. Infelizmente a imagem é de baixa qualidade/resolução, graças ao paupérrimo trabalho de digitalização efectuado pelo arquivo municipal de Lisboa (amL).

Bibliografia
CÂNCIO, Francisco, Arquivo alfacinha, 1953
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Sítio do Vale de Pereiro

Em cima — refere Norberto de Araújo — corria o Vale Pereiro, do qual existe, em reminiscência, uma parcela da Rua com aquele dístico, e que leva do Salitre a Alexandre Herculano.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 38, 1939)

A primitiva Rua  do abarracamento de Vale de Pereiro (1859) que hoje liga as Ruas Alexandre Herculano e do Salitre, passava a S. do Parque do Parque Eduardo VII (onde hoje se encontra a Praça Marquês de Pombal), e findava no Largo de Andaluz/São Sebastião da Pedreira (vd. mapa abaixo). 

Rua do Vale de Pereiro |c. 1903|
Demolição do muro do antigo Quartel do Vale de Pereiro (Caçadores 2); o troço que se vê na imagem corresponde actualmente à Rua Braamcamp (1887) rasgada na viragem do séc. XX; ao fundo, à direita, a «Casa Ventura Terra, Prémio Valmor de 1903» sita na Rua Alexandre Herculano, 57.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nesta rua que foi "do abarracamento" de Vale do Pereiro — diz o olisipógrafo Matos Sequeira — , em frente do quartel, ficava em 1819 a afamada Casa de Pasto do Freixo, uma das hortas mais concorridas pela boémia popular desse tempo e, é de crer, pela tropa que transbordava do quartel.

Carta topográfica de 1888 [fragmento]
Legenda:
A vermelho a Rua do Vale de Pereiro
A amarelo a Rua Braamcamp
A verde a Rua Alexandre Herculano
A azul Quartel do Vale de Pereiro (Caçadores 2)
in Lisboa de Antigamente

domingo, 15 de janeiro de 2023

Sinagoga Shaaré Tikva (Portas da Esperança)

A sinagoga Shaaré Tikvá (“Portas da Esperança"), na Rua Alexandre Herculano, abrira em 1904 longe da vista pública, porque a Carta Constitucional proibia templos não-católicos. Desde Outubro de 1910, com a República laica, o gregarismo hebraico tendeu a aumentar, embora a aprovação dos estatutos da CIL , submetidos ao Parlamento em Junho de 1911, levasse quase um ano, até Maio de 1912. Vigorava já a Lei da Separação das Igrejas do Estado (1911) e proclamara-se a liberdade dos cultos. [Edeline: 2002]


Existiam em Lisboa, desde 1810, várias casas de oração, mas dificilmente reuniam as condições necessárias ao culto, pois situavam-se em modestos andares. Assim apesar das dificuldades ocasionadas pela falta de reconhecimento oficial, a Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) consegue comprar, em nome de particulares, um terreno para a construção de um edifício de raiz, próprio e condigno.

Sinagoga Shaaré Tikvá («Portas da Esperança», do hebraico) |c. 1903|
Primeiro templo não católico em Portugal continental desde 1497; Casa Ventura Terra, Prémio Valmor de 1903.
Rua Alexandre Herculano, 59
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

O projecto da sinagoga foi da autoria de um dos maiores arquitectos da época, Miguel Ventura Terra. Situada no n.º 59 da Rua Alexandre Herculano, teve de ser construída dentro de um quintal murado (contigua à Casa Ventura Terra, atelier do arquitecto), dado que não era permitida a construção com fachada para a via pública de um templo que não fosse de religião católica, então religião oficial do estado.

Sinagoga Shaaré Tikvá («Portas da Esperança», do hebraico) |c. 1903|
Primeiro templo não católico em Portugal continental desde 1497; Casa Ventura Terra, prémio Valmor de 1903.
Rua Alexandre Herculano, 59
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Lançada a Primeira Pedra em 1902, a Sinagoga Shaaré Tikvá é finalmente inaugurada em 1904, culminando um esforço de mais de 50 anos dos judeus de Lisboa.

Sinagoga Shaaré Tikvá («Portas da Esperança», do hebraico) |c. 1903|
Primeiro templo não católico em Portugal continental desde 1497; Casa Ventura Terra,
Prémio Valmor de 1903.
Rua Alexandre Herculano, 59
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 4 de março de 2022

Ruas Alexandre Herculano e Castilho

O topónimo Rua Alexandre Herculano foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa, através de Deliberação Camarária de 06/05/1882, à “perpendicular à Avenida da Liberdade, em direcção ao Largo do Rato”. Pela mesma deliberação foram atribuídas na mesma área a Rua Castilho, a Rua Barata Salgueiro, a Praça do Marquês de Pombal e a Rua Mouzinho da Silveira.

Rua Alexandre Herculano [Início séc. XX]
Éh! galinhas!  Mérca frangos! Galinhas! Quem nas quér i com ôvo?
O prédio de dois pisos (já demolido) — e que fazia esquina com a Rua Castilho foi residência de João Franco Castelo Branco, último Presidente do Conselheiro do Rei D. Carlos I, entre 1906 e 1908: o edifício contiguo, que torneja para a Rua Mouzinho da Silveira, ainda existe.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

O topónimo Rua Castilho foi atribuído pela edilidade em 1882, homenageia António Feliciano de Castilho, um dos grandes escritores da primeira época do romantismo em Portugal, em conjunto com Garrett e Herculano. Notabilizou-se especialmente pela riqueza e expressão artística da linguagem. Castilho nasceu em Lisboa a 28/01/1800 e morreu em Lisboa a 18/06/1875.

Rua Castilho [ant. 1907]
Venda ambulante de toalhas
Cruzamento com a Rua Alexandre Herculano; ao fundo, o antigo Quartel do Vale de Pereiro (Quartel de Caçadores 2) na actual Rua Braamcamp.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

Nota(s): Infelizmente as duas últimas imagens são de baixa qualidade/resolução, graças ao paupérrimo trabalho de digitalização efectuado pelo Arquivo Municipal de Lisboa (amL).

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Avenida Casal Ribeiro, 50

Este prédio de rendimento, construído no início do século XX, com elementos de Arte Nova, foi demolido em meados do séc. XX para a construção do edifício que acolheu a Companhia Nacional de Electricidade.

José Maria Caldeira do Casal Ribeiro (Lisboa, 1825-1896) – faz jus à diversidade de actividades que pautaram a sua vida. Licenciado em Direito, começou por ser um revolucionário republicano, inspirado pelos ideais da Segunda República Francesa. Colaborou no jornal O Atheneu, na Revista Universal Lisbonense, n’A Semana de Lisboa e fundou A Civilização (1856-1857).
Ao longo da sua vida relacionou-se com diversas figuras nacionais e internacionais, mantendo relações de duradoura amizade com Alexandre Herculano, Oliveira Martins ou António José de Ávila.
D. Luís agraciou-o com o título de conde de Casal Ribeiro em 1870. O conde de Casal Ribeiro foi um proprietário abastado, ligado pelo casamento à rica família Farrobo Quintela. Foi agraciado com a grã-cruz da Ordem de Cristo e com numerosas condecorações estrangeiras, entre as quais a Grã-Cruz de Alberto, o Valoroso (Saxónia), a Legião de Honra (França), a cruz de São Gregório Magno (Roma), da Ordem da Rosa (Brasil) e da Ordem de Carlos III (Espanha). Foi sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa e da Academia de História de Madrid. [fcsh.unl.pt]

Avenida Casal Ribeiro, 50 [post. 1902]
Prédio erguido quarteirão entre a Praça do Duque de Saldanha e a Av. Defensores de Chaves. 
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Avenida Casal Ribeiro, 50 [post. 1902]
Topónimo atribuído pela CML em 1902 à nova via que liga a Praça do Duque de Saldanha ao Largo de D. Estefânia. Em 2º plano as traseira dos prédios da Rua de D. Estefânia.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Rua Rosa Araújo, 49

Datam daquele ano de 1882 as designações dadas às artérias do bairro [Barata Salgueiro]: Alexandre Herculano, Passos Manuel, (logo convertida em Rosa Araújo) e Barata Salgueiro, no sentido Poente-Nascente, e Castilho, Mouzinho da Silveira e Castilho, Mouzinho da Silveira e Duque de Palmela (esta mais tarde) na orientação Norte-Sul. [Araújo: 1939]


O «Rosa Araújo 49», edifício Arte Nova, datado de 1905 — uma das últimas obras do famoso arquitecto italiano Nicola Bigaglia (1841-1908), diversas vezes distinguido com o prémio Valmor  — é representativo do período romântico do início do séc. XX e é um exemplo de habitação colectiva para a classe média/alta da época. O projecto de requalificação e ampliação da autoria dos arquitectos Frederico Raúl Tojal Valsassina Heitor e Manuel Rocha de Aires Mateus, foi distinguido com uma Menção Honrosa do Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura de 2012.

Rua Rosa Araújo, 49-49B (ao centro) [1952]
[Rua Castilho]
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Legenda da imagem no arquivo: «Chegada do Rally de Monte-Carlo»

N.B. O primeiro monumento de gratidão que a cidade devia a Rosa Araújo (1921-201) foi reduzido a um busto num recanto e se alguém repara no nome da Rua Rosa Araújo, ou naquela estátua, pouco ficará a saber sobre aquele homem e que enorme contribuição deu para deu para fazer de Lisboa uma cidade melhor. Finalmente, m 1946, o monumento do «criador» da Avenida da Liberdade foi transferido para a esta, frente à rua a que deu o nome.

Rua Rosa Araújo, 49-49B [1952]
Edifício «Rosa Araújo 49»
Fernandes, Augusto de Jesus, in Lisboa de Antigamente

domingo, 5 de julho de 2020

Sessão de patinagem na Garagem Auto-Palace

A patinagem é o género de sport que mais tem custado a aclimar entre nós — noticiava a Ilustracao Portugueza em 1908 — , tendo falhado sempre as tentativas que com esse fim têm sido feitas em varias ocasiões. Desta vez, porém, torna-se muito provável que ela crie definitivos foros de cidade em Lisboa. Pelo menos as sessões de patinagem, que se realizam desde há algum tempo no Auto-Palace, entusiástica concorrência de amadores, que parece nas melhores disposições de manter-se.
A patinagem é sempre um sport dos mais elegantes, e é por isso com satisfação que o vemos em vésperas de conquistar um papel preponderante nos hábitos da nossa sociedade mundana, que começa a reunir-se já no Auto-Palace em grande numero para o praticar.[...]

Sessão de patinagem na Garagem Auto-Palace [1908]
Rua Alexandre Herculano
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Entre os cultores mais ferventes que a patinagem tem já contam-se, como mostram as nossas fotografias, as sr." condessa de Jimenez y Molina e sua filha D. Angela, as sr." D. Maria Guell y Bourbon, D. Mercedes Macuriges, D. Marjorie Villiers e D. Guadalupe de Castro, e os srs. barão de Wredenburch, José de Sousa Alte, Eduardo Romero, Jorge Bleck, E. Maia Cardoso, Eduardo Ferreira, Castro Silva, Carlos Maria, etc.. [Ilustração Portuguesa, 1908, 9 de Março]

Sessão de patinagem na Garagem Auto-Palace [1908]
Rua Alexandre Herculano
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

N.B. Em Portugal a notícia mais remota de uso de Patins é-nos relatada por Paulo Soromenho, que nos meados do ano 1873, a D. Maria Pia apresentou os primeiros patins de rodas que se conheceram. Outros relatos dessa época dão-nos conta da existência de patins no Palácio de Mafra trazidos de Paris. Dizem que o quarto de D. Maria II ficava tão longe da biblioteca que a Rainha fazia o percurso de patins. Mais tarde, o Rei D. Carlos também se tornou adepto da modalidade.
Desde as suas origens a patinagem está directamente ligada aos elegantes e aristocráticos da sociedade Portuguesa, que se juntavam em ringues públicos para deslizar ao som de música.

A patinagem artística entrou em Portugal no século XIX e cativou logo a elite, que se juntava em ringues públicos para deslizar ao som de música [s.d.]
Fotografia anónima

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Rua Alexandre Herculano, 25

Prémio Valmor em 1911


O Prémio Valmor, em 1911, foi atribuído a um edifício de habitação. Este situa-se no nº 25 da Rua Alexandre Herculano. O projecto é da autoria do arq. Miguel Ventura Terra (1866-1919) e o proprietário era António Tomás Quartim.

Rua Alexandre Herculano, 25 |c. 1911|
Prémio Valmor em 1911
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Considerado um excelente modelo de arquitectura urbana, este edifício apresentava um nobre estilo, incorporando diversos materiais e demonstrando uma notória influência parisiense.
Actualmente encontra-se em bom estado e funciona aqui uma Conservatória do Registo Civil.

Rua Alexandre Herculano, 25  |c. 1952|
Prémio Valmor em 1911
Gustavo de Matos Sequeira, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 20 de março de 2019

Profissões de antanho: a galinheira

— Éh! Galliiiiiiiii...nhas! Quem nas quér i com ôvo?!

Era assim o pregão esganiçado e arrastado, os ii muito agudos e longos, o bastante para se ouvir, e ouvia-se mesmo, como se fosse um apito. E melhor quando as freguesas as esperavam. Claro que não havia então os ruídos que atormentam hoje os moradores de Lisboa.
Quase sempre eram varinas as vendedeiras, trajando como tal. Habituadas ao negócio, conheciam bem a clientela, pois, naquele tempo, só comia galinha quem estava doente ou em dia de festa!...

Galinheira na Rua Rodrigo da Fonseca [1906]
Antiga do Abarracamento do Valle Pereiro; à direita, a Rua Barata Salgueiro e, ao fundo, a Rua Alexandre Herculano e o Parque; o prédio com mansarda, no nº 15 da Rodrigo da Fonseca, ainda existe e data de 1883.

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

— Éh! Galliiiiiiiii...nhas! Quem nas quér i com ôvo?!

Traziam os animais em canastras armadas em gaiolas com rede de cordel esticada em forma de barraca, e garantiam às freguesas que todas as galinhas eram boas poedeiras!... Muitas pessoas, nesse tempo, criavam ou compravam criação para ter em casa, como reserva alimentar, sucedendo, à falta de espaço dentro da habitação, armarem pequenas gaiolas sobre os telhados, junto às águas-furtadas.

Galinheira na Rua Rosa Araújo Rua Barata Salgueiro [1906]
A galinheira trajava camisa de chita, cintada e estampada com flores miúdas; saia de seriguilha azul, com pregas, muito rodada e quase arrastando no chão, tapando as tamancas de cabedal; lenço claro envolvendo todo o rosto e atado sob o queixo; na cabeça, uma minúscula rodilha onde pousa o canastrão onde carregava as galinhas.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Mosteiro dos Jerónimos, Sala do Capítulo: Túmulo de Alexandre Herculano

A Sala do Capítulo tem esta denominação por servir às reuniões periódicas dos monges, as quais tinham o seu início com a leitura de um capítulo da Regra. Nessas reuniões, discutia-se a eleição dos priores, a recepção dos noviços e procedia-se à confissão pública das faltas.

Originalmente pensada para este efeito, a Sala do Capítulo nunca teve tal utilização pois a abóbada e decoração interior só foi completada no séc. XIX. A porta foi concluída nos anos de 1517-1518, tendo sido executada por Rodrigo de Pontezilha. Na sua decoração destacam-se duas imagens representando S. Bernardo e S. Jerónimo.


No centro da sala foi colocado, no século XIX, o túmulo de Alexandre Herculano delineado por Eduardo Augusto da Silva. Em 1940 é modificado, sendo deixada singelamente apenas a arca tumular. 
 
A singela arca tumular de Alexandre Herculano [séc- XIX]
Sala do Capítulo, Mosteiro dos Jerónimos
Domingos Alvão, in Lisboa de Antigamente

A Sala do Capítulo foi também utilizada como panteão de outros escritores e presidentes da República, até à finalização das obras na Igreja de Santa Engrácia. Convertida em Panteão Nacional, foram então para aí trasladadas as personalidades mais recentes da História de Portugal.
A trasladação do corpo de Herculano, que se encontrava no jazigo da Família Gorjão, em Santa Iria da Azóia, para a sala do capítulo nos Jerónimos ocorreu em 1888.

Túmulo de Alexandre Herculano [1934]
Sala do Capítulo, Mosteiro dos Jerónimos
Domingos Alvão, in Lisboa de Antigamente

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, escritor e historiador, nasceu em Lisboa a 28/3/1810 e morreu em Vale de Lobos, a 13/9/1877.
Obras: A harpa do crente (1838); O bobo (1843); Eurico, o presbítero (1844); O monge de Cister (1848); Lendas e narrativas (1851); História de Portugal (em quatro volumes, o último publicado em 1853).
No túmulo está gravado um excerto do poema «A harpa do Crente» que reza assim: 
Dormir? Só dorme o frio
Cadáver que não sente
Alma voa e se abriga
Aos pés do Omnipotente.

Túmulo de Alexandre Herculano [c. 1910]
Sala do Capítulo, Mosteiro dos Jerónimos
Poema inscrito na arca tumular
Garcia Nunes, in A.M.L.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Avenida da Liberdade, esquina com a Rua Alexandre Herculano

Em 1941, a Associação Industrial Potuguesa (A.I.P.) adquiriu nova sede, desta feita na Avenida da Liberdade, num amplo palacete onde se manteve até 1958. Foi demolido em 1963/64..

Avenida da Liberdade, esquina com a Rua Alexandre Herculano [Início séc. XX]
Palacete onde esteve instalada a sede da Associação Industrial Portuguesa (A.I.P.) entre 1941-1958.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

O topónimo Rua Alexandre Herculano foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa, através de Deliberação Camarária de 06/05/1882, à “perpendicular à Avenida da Liberdade, em direcção ao Largo do Rato”. Pela mesma deliberação foram atribuídas na mesma área a Rua Castilho, a Rua Barata Salgueiro, a Praça do Marquês de Pombal e a Rua Mouzinho da Silveira. 

Rua Alexandre Herculano com a Avenida da Liberdade [1961]
Palacete sede AIP
Augusto Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, escritor e historiador, nasceu em Lisboa a 28/3/1810 e morreu em Vale de Lobos, a 13/9/1877.
Juntamente com Almeida Garrett, é considerado o introdutor do Romantismo em Portugal. Foi o renovador do estudo da História de Portugal. [cm-lisboa.pt]

Palacete sede AIP, fachada sobre a Rua Rodrigues Sampaio [1961]
Augusto Fernandes,
in Lisboa de Antigamente

sábado, 15 de setembro de 2018

1.000.000 de visitas! Acaba de franquear a porta deste Tasco o milionésimo freguês

Cerca de 3 anos após o início desta aventura "blogo-literária", este pictórico boteco atingiu 1.000.000 de acessos conforme atesta o contador temporariamente trasladado para o topo  da página. Um milhão de estímulos que nos encorajam a continuar viagem nesta espécie de máquina do tempo.
Aos nossos dilectos leitores (e a um ou outro troll vulgo grunho, monte de esterco, DDT ou pedaço de asno), aos que aqui vêm em procura de informação e inspiração para criarem outras publicações e aos que partilham, comentam, copiam ou descarregam conteúdos sobre a nossa amada Lisboa —  um milhão de obrigados.
Pel'A gerência do Tasco, DA

Largo do Rato e Rua Alexandre Herculano [1927-02-14]
Multidão acorre ao Tasco em busca das últimas publicações de Lisboa de Antigamente
(Agora mais a sério) Legenda no arquivo:«O povo vendo os destroços da revolução [Revolta de Fevereiro de 1927, vd. N.B.]»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. A Revolta de Fevereiro de 1927, por vezes também referida como Revolução de Fevereiro de 1927, foi uma rebelião militar que ocorreu entre 3 e 9 de Fevereiro de 1927, centrada no Porto, cidade onde estava instalado o centro de comando dos insurrectos e se travaram os principais recontros. A revolta, liderada pelo general Adalberto Gastão de Sousa Dias, terminou com a rendição e prisão dos revoltosos e saldou-se em cerca de 80 mortos e 360 feridos no Porto e mais de 70 mortos e 400 feridos em Lisboa. Foi a primeira tentativa consequente de derrube da Ditadura Militar que então se consolidava em Portugal na sequência do Golpe de 28 de Maio de 1926, ocorrido nove meses antes, iniciando um conjunto de movimentos insurreccionais que ficaram conhecidos pelo Reviralhismo. [Wikipedia]

ADENDA: Em Março de 2026 ultrapassámos os 5.000.000 de visitas.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Café Martinho

Depois diante do Martinho, fallou em irem tomar neve [nome que se dava ao gelo em rama, sorvete]; mas D. Felicidade receava a frialdade, Luiza tinha vergonha. Pelas portas do café abertas, viam-se sobre as mesas jornais enxovalhados; e algum raro indivíduo, de calça branca, tomava placidamente o seu sorvete de morango.

Eça de Queiroz (1845-1900) O Primo Basílio, 1878.


De mais marcante no local, — recorda-nos Norberto de Araújo — e com saborosas tradições políticas e literárias, ai temos o Café Martinho, fundado por Martinho Bartholomeu Rodrigues em 1846, transformado já no actual século [XX], e que foi objecto de uma consagração evocativa na noite de 26 de Dezembro de 1936 pelo grupo «Amigos de Lisboa».

A fama do Café Martinho excedeu todas as expectativas anteriores à sua celebrada inauguração. Mas o certo é que contava já, à partida, com um fundador célebre na praça de Lisboa: Martinho Bartolomeu Rodrigues, proprietário — pelo menos desde 1829 — do Café da Arcada e contratador oficial da neve que se vendia na cidade. Presumir-se-ia que os gelados do Martinho viriam a ser — como de facto foram — cobiçados por Lisboa inteira.
(Marina Tavares Dias, Os cafés de Lisboa, 1999)

Café Martinho, a fachada inicial tal como Eça de Queiroz a conheceu [1909]
— Quer você vir tomar o seu chá ao Martinho? — É a melhor torrada de Lisboa. [Eça de Queiroz, A Relíquia]
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões

 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O Largo [antigo de Camões hoje Praça D. João da Câmara] que separa a Estação do Rossio do teatro ex-D. Maria, ex-Nacional, hoje Garrett, deveria chamar-se, se houvesse justiça nos nomes das ruas e praças, Largo dos Cafés. Tem nas suas margens os dois maiores cafés de Lisboa, o Suisso e o Martinho. Defronte tem outro pequeno: o da Gare, que, coitado, já está todo amachucado. Também quem se lembra de pôr um prédio daquele tamanho em cima dum café tão pequenino!

(André Brun (1881-1926), A Baixa às 4 da tarde, 1910)


Café Martinho, a entrada de ferro e vidro, após o restauro [ca. 1910]
Ainda me lembro que há dois anos o café Martinho foi respeitosamente de chapéu na mão pedir ao senado lisbonense licença para colocar algumas cadeiras e umas modestas mesas em face das suas portas, no grande largo deserto que lhe fica defronte.
O senado rejeitou o pedido, vendo nas ambições do café Martinho um perigo para o trânsito público.
[Guilherme de Azevedo, Crónicas de Paris: 1880-1882]

Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões
Alberto Carlos Lima,
in Lisboa de Antigamente
Café Martinho, a entrada de ferro e vidro, após o restauro [1909]
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões
Joshua Benoliel,
in Lisboa de Antigamente
Café Martinho, após o restauro [1909]
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões
No Martinho, já silencioso, o gás ia adormecendo entre os espelhos baços; e havia apenas numa mesa do fundo um moço triste, com a cabeça enterrada entre os punhos, diante de um capilé. [Eça de Queiroz, A Relíquia]
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Foi o café mais importante de Lisboa e, como tal, aparece referido por vários autores ao longo da sua existência, como se pode constatar em alguns excertos que aqui publicamos. Nele se reuniram gerações de intelectuais. O Café Martinho era famoso pelas suas deliciosas confecções culinárias, pelas torradinhas de Meleças, pelo chá verde com limão e pela neve, a par das desinteligências políticas e literárias que nele ocorreram. Foi palco logo no ano seguinte da peleja entre o batalhão Académico e os Batalhões do Algarve e da Carta, vendo esvoaçar pelo ar copos, chávenas, garrafas, pratos, açucareiros, bandejas, espelhos, tampos de mármore e bancos, desacato este que só findou com a intervenção da cavalaria municipal. Tal ocorrência justificou-se pelo facto de o filho do proprietário pertencer à quarta companhia do Batalhão Académico. Augusto Zeferino Rodrigues cursou direito.

Café Martinho, a sala de café e galeria da sobreloja onde ficava o restaurante [1909]
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões

 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

 

Foi no café Martinho — unico, n'essa epocha, que as senhoras atravessavam até à sala interior, para tomarem neve n'uma estufa!
Bulhão Pato (1829-1912), Memórias II [c. 1854]


Sucedeu a seu pai como proprietário do Café Martinho da Arcada e do Café Martinho do antigo Largo Camões. Este café tinha uma ampla sala com arcarias, cujas colunas eram revestidas com espelhos de Veneza. As mesas eram rectangulares com tampo em mármore branco. Os bancos do lado da parede eram de espaldar presos à parede. Ao fundo desta sala existia uma estreita e reservada sala de senhoras, onde as damas se deliciavam a saborear a famosa neve, ou seja, os sorvetes da época.
Personagens ilustres frequentavam este café. Alexandre Herculano ia lá sempre às quintas-feiras à tarde. Eça de Queiroz, Almeida Garrett, Bulhão Pato, o actor Tasso, o livreiro Zeferino Albuquerque, Pedro Lopes de Mendonça, Zacarias de Aça, Júlio de Castilho, Camilo Castelo Branco, Júlio César Machado, José Estêvão, Mendes Leal, Guerra Junqueiro entre tantos outros também figuram no leque da clientela assídua deste café. Célebres se tornaram também alguns dos seus criados, é o caso do Fagundo e do galego Valentim este último retratado inclusivamente em O António Maria, de Rafael Bordalo Pinheiro, graças ao seu enorme nariz.

Café Martinho, salão de restaurante na galeria da sobreloja [1909]
Ao fundo, um quarteto com piano de cauda animava almoços e jantares.
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões

 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em 1909, o café foi remodelado. A antiga fachada foi substituída por uma entrada de ferro e vidro [vd. 2ª e 3ª fotos]. O interior do café decorado com arte-nova. A decoração e pinturas eram do artista João Vaz e as esculturas de Josef Füller. Mário de Sá Carneiro e Fernando Pessoa aí se encontravam para rever as provas tipográficas dos livros do último e da própria revista Orpheu.
Entre 1950 e 1953, o Café Martinho foi transformado em cervejaria, pertencendo à data à Companhia de Cervejas Estrela. A sua clientela passou a ser a geração académica dos anos 50 e 60, e o seu petisco o bife especial. Em Maio de 1968 o café encerrou portas e em Outubro desse ano reabriu como dependência bancária do Banco do Alentejo. É actualmente uma dependência do Banco Português de Investimento.

Café Martinho [ant. 1968]
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões

Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Na «sentença de partilhas» dos bens de Martinho Bartholomeu Rodrigues (falecido a 22 de Abril de 1881) — refere Marina T. Dias — figura uma dívida de 1.214 réis, contraída pela Casa Real em vários fornecimentos de neve. A relação dos bens do antigo neveiro prossegue, depois, ao longo de oito páginas, indicando valores tão díspares como acções e obrigações, jóias  e peças de ouro, propriedades urbanas e terrenos agrícolas. [...] Um pormenor, contudo, atesta o verdadeiro luxo praticado no serviço dos dois cafés: o valor dos talheres e outros utensílios de prata (que serviam às mesas) que vem mencionado na relação dos bens. 422..618 réis valiam as pratas do Martinho da Arcada e ainda mais — 467.684 — as do Martinho do antigo Largo Camões [uma verdadeira fortuna para aquela época].
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Bibliografia
QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 84, 1939.
DIAS, Marina Tavares, Os cafés de Lisboa, 1999.
AMIGOS DE LISBOA, Evocação do Café Martinho, 1936.
SUCENA, Eduardo, «Cafés» in SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo, 1994.
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