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Wednesday, 29 June 2016

Rua Braamcamp

Saem-nos, a poente, a Rua Braamcamp que por Alexandre Herculano leva ao Rato, e a Rua Joaquim António de Aguiar. (...) São artérias novas, com menos de trinta anos [c. 1910] de edificadas, desafogadas, mas nas quais nada encontramos que mereça especial referência.»
(ARAÚJO. Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 51, 1939)

Rua Braamcamp, junto da Rua Rodrigo da Fonseca |1950|
Em primeiro plano, a Rua Alexandre Herculano.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Este arruamento com início na Praça Marquês de Pombal e fim na Rua Alexandre Herculano, homenageia Anselmo José Braamcamp que nasceu em Lisboa em 23/10/1819 onde faleceu em 13/11/1885.
Político alfacinha, licenciou-se em Direito em 1840 na Universidade de Coimbra e foi nomeado delegado do procurador régio em Almada, cargo que exerceu até 1845, ano em que foi nomeado para idêntico lugar em Lisboa vindo a exercer as funções de secretário geral. Quando o Marquês de Sá da Bandeira desembarcou no Algarve, já Anselmo Braamcamp lá estava ao lado da divisão militar como governador civil dos distritos do Sul.

Rua Braamcamp no cruzamento com a Rua Rodrigo da Fonseca |1943|
À esquerda vê-se o edifício Heron Castilho.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Acabadas as lutas com a entrada de Saldanha em Lisboa, foi eleito Deputado por um dos círculos desta cidade, ocupando o lugar por vários círculos até 1884. Foi ministro da Fazenda (1862), da Marinha e Ultramar (1866) e da Marinha (1868). Foi ainda líder do Partido Progressista (1875), ministro dos Negócios Estrangeiros (1879), para além ter orientado com Oliveira Martins, em 1885, o movimento político Vida Nova, de oposição a Fontes Pereira de Melo.
Tinha as grã-cruzes das Ordens da Torre e Espada e Nª Srª da Conceição, várias condecorações estrangeiras e a Grã-cruz da Legião de Honra.
A família Braamcamp é de origem holandesa. O primeiro a exercer cargos políticos em Portugal foi Hermano José Braamcamp, embaixador prussiano em Lisboa, no reinado de D. José. (cm-lisboa.pt)

Friday, 19 January 2024

Ruas Braamcamp e Rodrigo da Fonseca

Cena de rua nos alvores do séc. XX no encontro das ruas Braamcamp e Rodrigo da Fonseca — ainda pouco mais do um beco sem saída, por esta altura — , em que participam o padeiro, a criada de servir, o vendedor de hortaliças no seu burrico; o trolha e o pintor dando os últimos retoques no prédio nº 84 da Braamcamp, e, em primeiro plano, o omnipresente leiteiro.

Ruas Rodrigo da Fonseca e Braamcamp (gaveto sul) |c. 190-|
Estas novas artérias foram rasgadas por no final do séc. XIX.  Era a R. do Vale do Pereiro cujo nível foi materialmente dragado até encontrar no seu próprio fundo o actual pavimento da R. Braamcamp.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Vinte e seis anos após o seu falecimento foi o político liberal Rodrigo da Fonseca (1787-1858) fixado como topónimo na antiga Azinhaga do Abarracamento do Vale de Pereiro por Edital camarário de 4 de Março de 1884, artéria que só ficou completamente concluída no séc. XX, na década de trinta.

Ruas Rodrigo da Fonseca e futura Braamcamp vista da actual R. Alexandre Herculano |c. 1900|
A casa apalaçada e o prédio com o actual n.º 15 foram demolidos para implantação das novas vias, sendo que o prédio à dir. ainda se mantinha de pé nos anos de 1960. Neste local, além de nova construção, existe hoje um pequeno espaço verde separando aqueles dois arruamentos.
Machado & Souzas, in Lisboa de Antigamente

A CML, através do seu Edital de 10/01/1888, consagrou na sua toponímia o político alfacinha Anselmo José Braamcamp (1819-1885) atribuindo o seu nome ao arruamento da cidade com início na Praça Marquês de Pombal e fim na Rua Alexandre Herculano.

Saturday, 5 December 2015

Rua Braamcamp, 5 e 7

O topónimo homenageia Anselmo Braamcamp Freire (1849-1921). Político, foi ministro da Fazenda (1862), da Marinha e Ultramar (1866) e da Marinha (1868). Foi ainda líder do Partido Progressista (1875), ministro dos Negócios Estrangeiros (1879), para além ter orientado com Oliveira Martins, em 1885, o movimento político Vida Nova, de oposição a Fontes Pereira de Melo.

Rua Braamcamp, 5 [Início séc. XX]
Palacete «Casa da Cerâmica»

Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Na esquina com a Rua Mouzinho da Silveira, a «Casa da Cerâmica», um palacete a fazer lembrar a Lisboa da «Belle Époque», demolido por volta de 1950.

Rua Braamcamp, 7 com a Rua Castilho [Início séc. XX]
Neste local encontra-se actualmente o Edifício Braamcamp ou Franjinhas, prémio Valmor de 1971.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na imagem acima, além da Rua Braamcamp, vê-se ao fundo, a Rotunda — hoje Praça Marquês de Pombal — e a Avenida Fontes Pereira de Melo, e, no começo desta, do lado direito, o palácio Sabrosa e o palacete Gabriel José Ramires.

Sunday, 4 August 2019

Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 (actualizado)

Edifício para habitação destinado a Emílio Leguori, construído por Augusto Carlos da Cunha, a partir de um projecto do arquitecto Ventura Terra (1902).
Este edifício foi desenhado de uma forma simétrica, nos seus aspectos relacionados com a métrica de vãos e desenho de varandas. Duas faixas de azulejo, no topo e ao nível do piso térreo, conferem-lhe horizontalidade em contraponto com a verticalidade dos vãos. A zona de esquina é marcada exteriormente por três varandas sobrepostas, unidas por um pano de marquise em dois níveis na continuidade e largura do vão principal constituído pela entrada e respectivo desenho em pedra.

Edifício na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [c. 1910]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa [vd. N.B.]; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso»; ao fundo vê-se o palacete «Casa da Cerâmica».
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Uma proposta de 1940, tendo em vista retirar os envidraçados das marquises por se encontrarem em mau estado, não foi aceite por parte da Câmara, apesar de um primeiro parecer estar de acordo com a supressão dos mesmos, já que "em nada afectaria a expressão arquitectónica do edifício em questão, que segundo se julga só lucrará com essa circunstância", refere o texto da proposta. 
A necessidade de realizar obras por parte de um novo proprietário, a partir de 1940, levou a que o mesmo se dirigisse à Câmara solicitando a sua anulação relativamente ao interior das habitações. Curiosamente, refere o proprietário que "as rendas são antiquíssimas e de reduzido valor, para habitações de dezoito amplíssimas divisões, todas elas habitadas por gente rica. (...) Presentemente encontro-me exausto de recursos por muito tempo assim permanecerei, por os encargos dos empréstimos que contraí me absorverem todas as economias que venha fazer. Não seria justo que, para beneficiar inquilinos ricos, satisfeitos com a sua habitação, fosse obrigado a fazer obras desnecessárias, gastando nelas dinheiro que não tenho, forçando-me a usar novamente o crédito,aumentando mais os encargos, já neste momento preocupante, pelo seu montante". 

Edifício sito na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [1917]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa [vd. N.B.]; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso»; manifestação.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em 1946, foram substituídas as marquises de ferro, que se encontravam em ruína, para outras construídas em estrutura de betão [vd. última imagem]. Este projecto foi assinado pelo arquitecto Norte Júnior e pelo engenheiro Francisco Ventura Rego.
Em 1972, a Sojornal, proprietária do jornal Expresso, instala-se neste edifício, ocupando-o na totalidade. Em 1990, esta sociedade solicita uma remodelação do imóvel, com ampliação em altura, construção de 4 caves para estacionamento e conservação da fachada. O projecto foi reprovado pela Câmara Municipal em função dos planos urbanísticos em vigor para a zona e do estudo volumétrico do quarteirão, aprovado em 1980. Apesar do protesto do interessado, com base em pareceres jurídicos, a obra nunca se concretizou.

Rua Braamcamp vista da Praça do Marquês de Pombal [194-]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso».
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

N.B. Afonso Costa (1871-1937) foi Presidente do Conselho de Ministro, ministro, dirigente do Partido Republicano e do Partido Democrático.
Em Outubro de 1910, um levantamento popular conseguiu implantar a República, não tendo havido uma resposta determinada do Exército. Formou-se um Governo provisório chefiado por Teófilo Braga, tentando impor um regimento com apoios unicamente na população urbana num país rural. Afonso Costa ficou com a pasta da Justiça: fez uma revolução num ministério que primava pela discrição. Iniciou reformas claramente anti-clericais, que contribuíram para o aumento da impopularidade do novo regime junto da população e da ala conservadora do republicanismo. Mas o ministro da Justiça e dos Cultos não cedeu às pressões e continuou com a política de afirmação dos valores laicos da República e de separação do Estado das igrejas, instituindo também o registo civil obrigatório.  
 
Edifício na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [1961]
Observam-se as novas marquises em betão construidas em 1946. Em 1972 albergou o semanário «Expresso».
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MANGORRINHA, Jorge, Arquitecturas de esquina em Lisboa, 2014.

Wednesday, 27 June 2018

Praça Marquês de Pombal, 1-2: Palacete de António de Sousa Carneiro Lara / Clube Militar Naval

Estamos na Praça Marquês de Pombal, vulgarmente denominada «Rotunda», que constitue o eixo de irradiação de avenidas e grandes artérias, projectadas já em 1882, mas cuja execução muito se fêz demorar. [Araújo: 1939]


Logo no final do século XIX (1894), acompanhando o impulso construtivo da avenida e da rotunda é projectada uma residência unifamiliar, tipo palacete, que pertencia ao homem de negócios António de Souza Carneiro Lara.

Praça Marquês de Pombal, 1-2: Palacete de António de Sousa Carneiro Lara  [1899]
Clube Militar Naval a partir de 1935
Fachada sobre a Praça Marquês de Pombal e Av. Liberdade, 261 (esq.)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O Clube Militar Naval esteve instalado no nº. 1-2 da Praça Marquês de Pombal cerca de cinquenta anos. O palacete foi adquirido em 1935 ao conde de Castelo Mendo, que por sua vez aqui passara a residir em 1929. Naquela data o proprietário passou a ser o Crédito Predial Português, que o arrendou à Marinha. Em 1989 foi demolido após uma violenta polémica entremeada com um pedido de classificação ao Instituto Português do Património Cultural. O clube veio a ser transferido, aproveitando alguns elementos decorativos, para a Avenida Defensores de Chaves, nº. 3.

Praça Marquês de Pombal, 1-2: Palacete de António de Sousa Carneiro Lara  [1899]
Clube Militar Naval a partir de 1935

Fachada virada à Rua Braamcamp
 Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

O palacete terá sido o primeiro prédio a ser construído, na recém-criada Praça Marquês de Pombal, logo em 1894. Já que a construção do que vem a ser o Palacete Sabrosa se projectava na Fontes Pereira de Mello, em 1886 abre-se oficialmente a avenida e o desfile de casamento de D. Carlos (1857-1945) efectua-se também aqui. O Dr. António de Lencastre (1857-1945) era o médico dos príncipes e a escolha do lugar para vir a construir a sua residência não deve estar desligada desta ocorrência, onde a expansão da cidade se desenha e a oportunidade de novos espaços necessariamente surge.

Enquadramento do Clube Militar Naval na Praça Marquês de Pombal, 1-2 [1934]
Esquina com a Rua Braamcamp
Pinheiro Correia,in Lisboa de Antigamente

O edifício exteriormente ecoava um equilíbrio francês na linha do gosto Luís XVI, em combinação com pormenores vernaculares como sejam as pequenas aletas do óculo sobrepujante da entrada principal, obviamente tributária da arquitectura chã. No interior, pelas fotografias publicadas no suplemento do Diário de Notícias, 2 de Junho de 1985, por certo produto de enriquecimentos artísticos posteriores vemos alguns ornatos manuelinos muito carregados e uns vitrais de tema mitológico encomendados em 1894 na Suíça, Zurique, a Adolf Kreuzer.

Praça Marquês de Pombal, 1-2 com a Rua BraamcampClube Militar Naval [1937]
Desfile da Mocidade Portuguesa durante as comemorações do 28 de Maio de 1926.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia 
MONTERROSO, José de, Rotunda do Marquês: «a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível, 2002.

Friday, 19 April 2024

Rua Castilho esquina com a Rua Braamcamp: Edifício Castil

O topónimo Rua Castilho foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa, através de Deliberação Camarária de 06/05/1882.
 
António Feliciano de Castilho, foi um dos grandes escritores da primeira época do romantismo em Portugal, em conjunto com Garrett e Herculano. Notabilizou-se especialmente pela riqueza e expressão artística da linguagem. Castilho nasceu em Lisboa a 28/01/1800 e morreu em Lisboa a 18/06/1875.
 
Rua Castilho esquina com a Rua Braamcamp |1964|
Prédio demolido por volta de 1970. No mesmo local ergue-se, desde 1972, o Edifício Castil. 
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

O Edifício Castil, projectado no início dos anos 70, do séc. XX, (1970-1972), com risco do atelier de Conceição Silva, no qual também participou o arq. Tomás Taveira, surge como o primeiro grande centro comercial de Lisboa, afirmando-se pelo carácter pioneiro da sua concepção arquitectónica, ao estabelecer o diálogo entre o uso do vidro, que cobre a fachada do edifício, com linhas de acentuada verticalidade estrutural. Entre 1973 e 1988 albergou o cinema Castil
Este imóvel encontra-se classificado como Monumento de Interesse Público.

Edifício Castil |1976|
Rua Castilho, 39-39B; Rua Braamcamp, 42-46
Álvaro Campeão, in Lisboa de Antigamente

Friday, 22 December 2017

Praça Marquês de Pombal, 3-4

O prédio da esquina da Rua Braamcamp, que aqui mostrava uma grande fachada era a construção de maior envergadura da rotunda. A cota regulava pelo anterior prédio de rendimento de Ventura Terra e pela sua monumentalidade e curvatura delicada do alçado principal, conferia uma marca urbana de presença discreta. Prédio de habitação tornou-se, com a evolução da cidade, em lugar de consultórios médicos e empresas de serviços. Sendo na prática uma justaposição de duas unidades, a sua impressiva extensão poderá ter introduzido a seriação repetitiva de fachadas que o projecto de Carlos Ramos vem a adoptar.
No rés-do-chão foi instalada, em 1963, uma loja da TAP, principal centro de vendas da Companhia Aérea Nacional num momento de prosperidade comercial da empresa.

Praça Marquês de Pombal, 3-4  [193-]
Prédio que tornejava para a Rua Braamcamp
Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

Em 1989 entrou na Câmara Municipal de Lisboa um pedido de demolição do edifício e actualmente (2003) encontra-se em construção um novo prédio que ocupa gigantesca área da praça e segue uma vez mais o macro plano de Carlos Ramos. Como exercício de disciplina e de cumprimento de uma proposta unificadora com cinquenta anos não deixa de ser surpreendente.

Enquadram do prédio com o n-º 5 na Praça do  Marquês de Pombal [1934]
Monumento ao Marquês de Pombal em construção 
Pinheiro Corrêa, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
TEIXEIRA, José de Monterroso, Rotunda do Marquês:«a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível, 2002.

Thursday, 14 July 2016

Profissões de antanho: o leiteiro

Ordenhavam-nas diante de nós, nas vacarias. E algumas vezes, até, ao ar livre das ruas, pois nesses tempos a cidade e o campo ainda se confundiam na igual doçura de trabalho espreguiçado (...) Mal ouviu a minha encomenda, o homem agachou-se e, de cócoras, pôs-se a afagar as tetas do animal como se tocasse um instrumento luminoso, donde os dedos, com a leveza de gás, extraíam uma melodia branca, a acompanhar não sei que flauta de sonho pastoril. 
(FERREIRA, José Gomes (1900-1985),  O Irreal Quotidiano, Um instrumento maravilhoso atravessa a cidade)
Rua Castilho [1909]
(...) Mal ouviu a minha encomenda, o homem agachou-se...

 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Rua Castilho [1909]
... e, de cócoras, pôs-se a afagar as tetas do animal como se tocasse um instrumento luminoso...

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Rua Castilho [1909]
Ao fundo, o antigo Quartel do Vale de Pereiro (Quartel de Caçadores 2) na actual Rua Braamcamp.
 ... donde os dedos, com a leveza de gás, extraíam uma melodia branca, a acompanhar não sei que flauta de sonho pastoril.(...)
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente


Nota(s): O local onde o fotógrafo Joshua Benoliel captou estas magníficas imagens não se encontra identificado no arquivo. Todavia, tendo como referência outras duas fotos catalogadas como prédios para demolir sitos na Rua Castilho, constata-se que os edifícios em ambas coincidem com os das fotografias (1ª e 2ª) de Benoliel. Comparando, então, a moldura da porta e das janelas do 1º prédio na 1ª foto com a desta imagem, e a varanda do prédio ao centro na 2ª foto, com esta outra, facilmente se  comprova tratar-se do mesmo local: Rua Castilho
Como a qualidade da digitalização das fotos para comparação é de péssima qualidade, torna difícil a leitura dos números de polícia, inviabilizando, assim, apontar com maior exactidão o troço da rua onde se erguiam estes edifícios. De qualquer modo, e levando em consideração outros registos fotográficos deste arruamento, arriscaria para local desta bucólica cena de rua, um dos quarteirões entre as Ruas Alexandre Herculano e do Salitre. Contudo, devo confessar, que aqueles prédios ao fundo na última imagem, não me calham, não sei por quê, mas não me calham... Por via disso, se algum  leitor tiver outras sugestões,  saiba que serão muito bem-vindas.

ADENDA: Já depois de publicado este artigo deparei-me com estas imagens da demolição do antigo Quartel do Vale de Pereiro (Quartel de Caçadores 2). Como se pode comprovar pela planta do projecto de abertura da Rua Castilho (que reproduzo abaixo), o «prédio que não me calhava» — e que se vê ao fundo na 3ª foto — é, nem mais nem menos, o referido Quartel do Vale de Pereiro, que se situava entre as futuras Ruas Braancamp Joaquim António de Aguiar. Donde se conclui que esta cena de rua se desenrola junto ao cruzamento da actual Rua Castilho com a Rua Braamcamp, no troço entre esta e a Rua Alexandre Herculano. Mistério resolvido!

Projecto de abertura da Rua Castilho, 1915
Legenda: a Vermelho, a Rua Castilho; a Verde, o antigo Quartel do Vale do Pereiro; a Azul, o local da cena de rua captada pelo fotógrafo.
Silva, Alberto Pedro da, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 8 April 2018

Edifício Heron Castilho

Projectado em 1921 pelo arq. Norte Júnior, este edifício de gaveto e planta em L, com uma feição marcadamente ecléctica, associa elementos decorativos tardios ao gosto Arte Nova, patentes nas mísulas talhadas de carácter antropomórfico (figurando cabeças femininas), que suportam as varandas de grandes dimensões da fachada principal, a uma linguagem classicizante, patente nas balaustradas e no monumental arco de volta perfeita, que remata o corpo do gaveto, assim como nas pilastras, que marcam o ritmo e definem a espacialidade exterior do imóvel. Os planos das fachadas surgem rasgados por fenestrações, isoladas ou agrupadas pelos emolduramentos de cantaria e reboco, cuja verticalidade e grande dimensão acentuam a sua monumentalidade e volumetria. 

Edifício Heron Castilho [c. 1930]
Rua Braamcamp, 40-40D; Rua Castilho, 42-42B
F.S. Cordeiro, in Lisboa de Antigamente

Após um processo crescente de abandono e obsolescência, que culminou na sua quase total demolição, este edifício foi objecto de um projecto de reconstrução a partir de 1985, segundo o risco dos arquitectos Henrique Tavares Chicó, João Pedro Conceição Silva e Francisco Manuel Conceição Silva. Reabriu, em 1992, como centro de serviços terciários, conservando apenas os muros exteriores do primitivo imóvel, sendo que as características técnicas e formais de todo o edifício, incluindo dos 4 pisos novos, nada têm a ver com a construção inicial. Fenómeno bem visível nos alçados completamente envidraçados dos últimos pisos, com terraço de cobertura, que foram erguidos acima do remate da fachada, num plano ligeiramente recuado. [cm-lisboa.pt]

Edifício Heron Castilho [1960]
Rua Braamcamp, 40-40D; Rua Castilho, 42-42B
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 5 February 2023

Sítio do Vale de Pereiro

Em cima — refere Norberto de Araújo — corria o Vale Pereiro, do qual existe, em reminiscência, uma parcela da Rua com aquele dístico, e que leva do Salitre a Alexandre Herculano.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 38, 1939)

A primitiva Rua  do abarracamento de Vale de Pereiro (1859) que hoje liga as Ruas Alexandre Herculano e do Salitre, passava a S. do Parque do Parque Eduardo VII (onde hoje se encontra a Praça Marquês de Pombal), e findava no Largo de Andaluz/São Sebastião da Pedreira (vd. mapa abaixo). 

Rua do Vale de Pereiro |c. 1903|
Demolição do muro do antigo Quartel do Vale de Pereiro (Caçadores 2); o troço que se vê na imagem corresponde actualmente à Rua Braamcamp (1887) rasgada na viragem do séc. XX; ao fundo, à direita, a «Casa Ventura Terra, Prémio Valmor de 1903» sita na Rua Alexandre Herculano, 57.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nesta rua que foi "do abarracamento" de Vale do Pereiro — diz o olisipógrafo Matos Sequeira — , em frente do quartel, ficava em 1819 a afamada Casa de Pasto do Freixo, uma das hortas mais concorridas pela boémia popular desse tempo e, é de crer, pela tropa que transbordava do quartel.

Carta topográfica de 1888 [fragmento]
Legenda:
A vermelho a Rua do Vale de Pereiro
A amarelo a Rua Braamcamp
A verde a Rua Alexandre Herculano
A azul Quartel do Vale de Pereiro (Caçadores 2)
in Lisboa de Antigamente

Sunday, 21 December 2025

Monumento ao Marquês de Pombal

Em 1910, poucos anos depois das comemorações das comemorações do Centenário da Índia, a Praça Marquês de Pombal estava edificada como hoje [em 1939].
Quedemo-nos uns momentos diante do monumento ao Marquês de Pombal. 


A ideia de se erguer um monumento ao estadista, reedificador de Lisboa, é antiga, mas só lhe foi dada expressão pública em 1882, ano em que o Parlamento autorizou o Estado a ceder o bronze necessário. Em Abril daquele ano — recorda o ilustre olisipógrafo Norberto de Araújo — constituiu-se uma comissão encarregada de promover a subscrição nacional, presidida por Rodrigues Sampaio.
Os trabalhos não tiveram sequência, e só em 1905 se voltou a um plano prático, constituindo-se nova comissão, presidida pelo Conselheiro Veiga Beirão, havendo a subscrição pública sido iniciada a 6 de Maio. Contudo, ainda desta vez a iniciativa não foi coroada de êxito, talvez porque logo em 1906 começou a agitação política que dominava todos os pensamentos.
Proclamada a República, a ideia de dar realização séria à iniciativa de havia quarenta anos, ressurgiu. Em 1913 realizou-se o concurso para o monumento, sendo apresentados catorze projectos, e aprovados quatro; destes, acabou por ser preferido (5 de Abril de 1914) aquele que sob a legenda «Gloria Progressus - Delenda reactio» era assinado por Adães Bermudes, António Couto e Francisco Santos. A escolha, feita por um júri idóneo, ao qual presidia o professor e director da Escola de Belas Artes, José Luiz Monteiro, provocou enorme celeuma, havendo muitas personalidades de categoria artística e intelectual que preferiam o projecto do arquitecto José Marques da Silva e do escultor António Alves de Sousa (ambos artistas portuenses).
A primeira pedra para o Monumento foi colocada em 15 de Agosto de 1917, mas em 13 de Maio de 1926 a cerimónia repetiu-se, havendo discursado o Dr. Bernardino Machado, Presidente da República, e D. Tomaz de Vilhena, descendente do «Grande Marquês» qualificativo tradicional da família — , e ao tempo deputado monárquico.

Monumento ao Marquês de Pombal
Fundações da estátua |1927|
Fotógrafo não identificado, in LdA

Monumento ao Marquês de Pombal
Obras de desaterro |1924|
Fotógrafo não identificado, in LdA




















As obras vinham-se arrastando, por falta de verba, desde 1914. Em Março de 1924 foi nomeada uma nova comissão, à qual presidia o Dr. Magalhães Lima, estando na vice-presidência o general Vieira da Rocha; o rendimento dos selos emitidos em Dezembro de 1924 não satisfez, mas as obras de 1925 para diante entraram na fase definitiva da sua actividade. Em 13 de Maio de 1930 o Presidente da República, general Oscar Carmona, visitou as obras, já em vulto neste local. A grande estátua foi completamente assente sobre o alto fuste em 2 de Dezembro de 1933.
Finalmente em 13 de Maio de 1934 foi inaugurado o monumento, sem a solenidade que parecia de supor; assistiram o Ministro das Obras Públicas, engenheiro Duarte Pacheco, o presidente da Câmara Municipal, tenente-coronel Linhares de Lima, o governador civil, tenente-coronel João Luiz de Moura, e o presidente da Comissão, general Vieira da Rocha.
Estas anotações cronológicas, apesar de deficientes, reputo-as necessárias, pois andavam dispersas. Dêmos volta ao monumento.
Vejamos primeiramente o pedestal. Essa figura de mulher, constituída por dois blocos de pedra que pesam 17.250 quilos, na frente do monumento, representa «Lisboa reedificada»; tem cinco metros de altura — não o dirias. Sob o plinto em que ela assenta, vemos a proa de uma nau simbolizando a libertação da marinha mercante. Em baixo, dos lados, representa-se o cataclismo que assolou Lisboa na terra e no mar; destacam-se as esculturas de Plutão e Poseidon, este simbolizado num cavalo-marinho.

Monumento ao Marquês de Pombal
Ao fundo nota.se o estaleiro de obra |1934|
Tomada da Braamcamp para a Av. Fontes.
Fotógrafo não identificado, in LdA
Monumento ao Marquês de Pombal
Cabeça da figura do Marquês |1934|
Ao fundo ve-se a R. Braamcamp.
Ferreira da Cunha, in LdA



























Analisemos agora os grupos escultóricos laterais do pedestal, em seu conjunto admiráveis, apesar de algum senão que lhes possas notar. No grupo da esquerda, lado nascente, simboliza-se a agricultura, com o trabalho da lavoura, através de uma junta de bois, e de figuras bem tratadas escultoricamente, e das quais sobressaem o homem que sustenta o arado e a mulher que transporta o cabaz com uvas. O grupo do lado oposto simboliza a indústria e a pesca: um cavalo arrasta as redes, e um operário sopra o vidro; eis um conjunto também de merecimento, não apenas pela disposição mas pelo lavor das várias figuras.
Os escultores, professor Simões de Almeida e Leopoldo Neves de Almeida, que já eram colaboradores do ilustre Francisco Santos, falecido em Abril de 1930, foram os realizadores destes trabalhos, como aliás de outros que valorizam o monumento.
Na face norte (posterior) do monumento construiu-se uma alegoria objectiva à reforma da Universidade de Coimbra [vd. imagem seguinte]. Destaca-se — nota — essa figura de Minerva, em bronze, sentada, adiante do pórtico da «Universitas Conimbricensis».


Monumento ao Marquês de Pombal, face norte (posterior) |1953|
Destaca com a presença, na fachada, de um edifício clássico que simboliza a Universidade de Coimbra, à frente do qual está uma estátua de Minerva, sentada, em bronze.
Em primeiro plano nota-se o Lago do Parque Eduardo VII.
Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

No fuste, de grande superfície, vêem-se nas suas quatro faces legendas que exaltam o estadista e reformador; na face principal lês, comigo: «Ao genial estadista Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal — a Pátria reconhecida — MCMXXXIV».
O capitel do obelisco ostenta quatro medalhões, enlaçados nos cunhais por quatro águias; no medalhão da frente enquadra-se  a efigie de Machado de Castro, no do poente as de D. Luiz da Cunha, Eugénio dos Santos e Manuel da Maia, no posterior a de Ribeiro Sanches, e no do lado nascente as de Luiz Verney, Serra da Silva e Conde de Lipe. Foram estes os principais colaboradores de Pombal.
Finalmente, ao alto, está o grupo fulcro do monumento — que mede, de alto abaixo, 36 metros: o Marquês, de corpo inteiro, assenta o braço sobre o dorso de um leão, na simbólica da serenidade e da força. Este grupo, de grandes dimensões (basta dizer que tem a altura de cinco homens) é de realização primorosa, prejudicada contudo na visão perspectival à distância, quando tomada do Norte e do Poente.

Monumento ao Marquês de Pombal (em obra) |1934-04-05|
No topo do monumento, sobressaem quatro medalhões que retratam os principais colaboradores de Pombal, incluindo Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Machado de Castro.
Perspectiva tomada da Av. da Liberdade.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Também este grupo principal foi concluído por Simões de Almeida; a cabeça da figura do Marquês [vd. imagem acima], ainda em formação no barro, com 1,80 de altura , de enorme peso, ruíra no atelier de Francisco Santos no próprio dia em que o artista morrera (29 de Abril de 1930).
Quatro grandes colunas de mármore nobre , cada uma com quatro candelabros de braço, em bronze, decoradas com florões e laços — bom trabalho de «atelier» e de fábrica , mas de gosto discutível — guarnecem o monumento.
E aí tens num dos degraus da escadaria do sopé: «Autores: Adães Bermudes, arquitecto; António Couto, arquitecto; Francisco Santos, estatuário; colaboradores, Leopoldo de Almeida, estatuário; Simões de Almeida, estatuário».

 

Inauguração do monumento ao marquês de Pombal |1934-05-13|
 O Marquês, de corpo inteiro, assenta o braço sobre o dorso de um leão, na simbólica da serenidade e da força.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

E, Dilecto, com paz na consciência, e sem beliscadura de sectarismo, digamos adeus ao monumento a Pombal. Antes, porém, anota as legendas cronológicas da vida do Marquês, e que no empedrado à portuguesa ilustram as placas que compõem a Praça.

Monumento ao Marquês de Pombal |1938-10-06|
Na base, várias figuras alegóricas dão vida à cena, como uma figura feminina que simboliza Lisboa reconstruída e três grupos escultóricos que representam as reformas de Pombal na agricultura, indústria e ensino.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa», vol. XIV, pp. 44-48, 1939.
BRITO, Francisco Nogueira de, Roteiro ilustrado de Lisboa e arredores, 1935.

Sunday, 16 February 2020

Rua da Conceição vulgo dos Retroseiros

Sobre a Rua da Conceição refere a Portaria pombalina de 5 de Novembro de 1760 que «Assim se denominará a segunda das referidas seis traveças, e nella se acommodorão os Mercadores de logens de retroz.». A escolha do topónimo deriva da proximidade à [Igreja da Conceição (Nova), demolida].

Encontrou-se uma inscrição, que ainda em 1883 existia, e eu vi — diz mestre Castilho — , numa parede do armazém de retroseiro de Manuel Pereira Bastos [em 1909, Fernandes & Cardoso], na rua dos Retroseiros (ou da Conceição), com porta para a escada n.° 83 [11ª porta à esq.]; (...) Diz assim : SSACRVM / AESCVLAPIO / M[arcus] . AFRANIVS . EVPORIO / ET / L[ucius] . FABIVS DAPHNVS / AVG[ustales] / MVNICIPIO . D(ono) . D(ederunt) »
(CASTILHO, Júlio de, Lisboa antiga:Segunda parte: Bairros orientais, Vol. 1, 1884, pp.154-155)

Rua da Conceição vulgo dos Retroseiros |1915|
Esquina com a Rua da Prata, antiga Bella da Rainha [vd. N.B.]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Esta dedicatória na lápide de mármore dedicada AESCVLAPIVS (deus da Medicina) não está necessariamente associada ao culto imperial, apesar dos cargos religiosos nesse âmbito desempenhados por Marcus Afranius Euporio e por Lucius Fabius Daphnus.
Tradução: «Consagrado a Aesculapio. Marco Afranio Euporio e Lúcio Fábio Daphno, augustais do município, deram e dedicaram»

N.B. A «Rua da Prata» foi chamada durante os anos de 1760 a 5 de Novembro de 1910 de «Rua Bella da Rainha» em memória da Rainha «D. Mariana Vitória (1718-1781)», mulher do Rei D. José I, e filha de Filipe V de Espanha. A «Rua da Prata» adquiriu este nome porque no período que antecedeu o terramoto de 1755 existiu próximo a «Rua Dos Ourives Da Prata», ou ainda dos «Prateiros» rua muito característica e concorrida na época.
Em Reunião na Câmara Municipal de Lisboa, em 6 de Outubro de 1910, presidida por Anselmo Braamcamp Freire, [...] a Rua Bela da Rainha passa a denominar-se Rua da Prata;[...]
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