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Sunday, 6 April 2025

Igreja de N. S. do Socorro que foi «de São Sebastião da Mouraria»

No final do Século XVI, em 1596, foi iniciada a construção da igreja da paróquia de São Sebastião da Mouraria e que viria a ser mais tarde, em 1646, renomeada para Nossa Senhora do Socorro, acabando por se tornar mais tarde na Igreja do Socorro (demolida em 1949, sensivelmente onde está agora o Centro Comercial do Martim Moniz).


Como era costume na época, a expansão urbana desenvolvia-se organicamente sem grande plano em torno dos edifícios importantes. Também na Mouraria, clero e nobreza mandaram construir uma série de edifícios de maior porte, entre eles, em 1505, a Ermida de S. Sebastião, mais tarde designada por Capela de Nossa Senhora da Saúde (no Largo do Martim Moniz, entre a Rua da Mouraria e a Rua Nossa Senhora da Saúde). (Rodrigues, 1970: 106)]
Depois de 1496, a população muçulmana foi substituída por outra cristã, que “invadiu o arrabalde, enchendo-o de templos, de ermidas, de procissões e nichos, com seus cultos e devoções” (Ribeiro, 1907). De salientar a procissão de devoção à Nossa Senhora da Saúde, iniciada no ano de construção da Ermida do mesmo nome, em1505, que é ainda actualmente celebrada todos os anos, no mês de Maio. 

Igreja de N. S. do Socorro que foi «de São  Sebastião da Mouraria» |c. 1910|
Rua de São Lázaro com Rua da Palma ao fundo e, nela, o Teatro Apolo.
Ourivesaria do Socorro
Igreja do Socorro

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Igreja de N. S. do Socorro que foi «de São  Sebastião da Mouraria» |c. 1910|
Rua da Palma co Rua de São Lázaro.
Ourivesaria do Socorro; Igreja do Socorro.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A paróquia de Nossa Senhora do Socorro foi desmembrada da de Santa Justa ao tempo em que era arcebispo de Lisboa D. Miguel da Costa. Teve o seu orago na ermida de S. Sebastião na Mouraria, que era dos artilheiros, pelos anos de 1596, e passou a chamar-se freguesia de S. Sebastião da Mouraria. Construído em 1646 outro templo maior, foi para ele transferido o Santíssimo Sacramento e a imagem de Nossa Senhora do Socorro, que lhe deu o nome. 
[COSTA, António Carvalho da Corografia Portuguesa, III, p. 104]

Igreja de N. S. do Socorro que foi «de São  Sebastião da Mouraria» |c. 1940|
Rua da Palma
Mário Novaesin Lisboa de Antigamente

N.B. Veja-se também o Cartório Paroquial da Igreja do Socorro, com 24 maços que entraram no ANTT em Janeiro de 1951.Ali se encontram muitos papéis da Irmandade do Santíssimo Sacramento ( Certidões de missas e patentes de admissão) , da Irmandade do Senhor Jesus da Compaixão ( Requerimentos e receitas e despesas), da Irmandade das Almas (Certidões de missas e despesas) e da Irmandade de Nossa Senhora da Igreja do Socorro (Assentos das obrigações de missas nas capelanias), todos referentes aos séculos XVIII e XIX, e ainda por tratar do ponto de vista arquivístico.

Igreja de N. S. do Socorro que foi «de São  Sebastião da Mouraria» |Inicio séc. XX|
Panorâmica tirada da encosta da Senhora do Monte.
José A. Bárciain Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Gésero, Paula, Configuração da paisagem urbana pelos grupos imigrantes: o Martim Moniz na migrantscape de Lisboa, 2014.
SERRÃO, Joel, Roteiro de Fones da História Portuguesa Contemporânea, 1984 , vol. I , pp . 124-125.

Saturday, 10 October 2015

Igreja do Socorro

Mas vejamos a Igreja do Socorro — convida Norberto de Araújo.
A freguesia do Socorro, desmembrada da de Santa Justa, em 1596, pelo arcebispo D. Miguel de Castro, estabeleceu primeiramente a sua sede na Ermida de S. Sebastião dos artilheiros, à Mouraria (Ermida de Nª Sª da Saúde). A igreja só se ergueu neste sítio,  em 1646, vindo para ela a imagem de Nª Sª do Socorro, a «Velha» que era a do orago da paróquia. O Terramoto quási inteiramente destruiu o templo, levantando-se, mais tarde, o actual, só concluído em 1816. 
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 16, 1938)

Igreja do Socorro, Rua da Palma [1949]
Estaleiro de demolição da Igreja do Socorro.

Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

A igreja do Socorro ficava na Rua da Palma, perto do inicio da Rua de São Lázaro. Foi demolida em 1949, na consequência do plano de demolições da Mouraria.







Igreja do Socorro [1944]
Rua da Palma
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente








Mouraria — recorda Calderon Dinis na sua Lisboa do meu tempo — , o velho bairro popular da Baixa lisboeta, embora albergasse uma população particularmente característica onde abundavam os fadistas e as prostitutas, detinha os aspectos curiosos da velha Lisboa, tão do agrado dos turistas. Ali se situou a célebre peça de Júlio Dantas — a Severa e os seus amores com o Vimioso, na Rua do Capelão.
A Rua da Palma foi passada à rasoura e lá se foi o Teatro Apolo e a antiga Igreja do Socorro, todos envolvidos pelo camartelo municipal. ==
(DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974), p. 174, 1986)

Igreja do Socorro, Rua da Palma [1923]
Altar de N.ª S.ª dos Passos
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

Sunday, 22 January 2023

Igreja do Coleginho (N. S. do Perpétuo Socorro)

A igreja do Coleginho, orientada a Poente, situa-se na Rua do Marquês de Ponte de Lima, em plena Mouraria de cima. Defronte esgueira-se, numa aberta do casario, o beco dos Três Engenhos; umas dezenas de passos a Norte rasgam-se, descendo ao vale a antiga rua Suja (Rua da Guia) e subindo para Santo André, a da Amendoeira. Mais além ficam a Rua dos Cavaleiros, o Terreirinhoe e as Olarias, onde foi o «almocavar» ou cemitério dos mouros e judeus.

 
Segundo a tradição a antiga igreja do Coleginho (Colégio velho de Santo Antão) ocupava o local da mesquita do arrabalde da Mouraria, se não o próprio templo, desafectado do culto muçulmano após a expulsão dos judeus e mouros decretada por el-rei D. Manuel em 1496. Colocada sob a invocação da Anunciação da Virgem, transformou-se em igreja conventual depois que em 1519, numas casas anexas, se instalaram as dominicanas vindas do mosteiro de Jesus, de Aveiro.

Igreja do Coleginho  (N. S. do Perpétuo Socorro) em 1922 e 1940, respectivamente
Rua do Marquês de Ponte de Lima
A Frontaria, de elegante traçado arquitectónico, de corpo único ladeado por pilastras às quais serve de remate o frontão com óculo e nela o pórtico, sem adro e cujo acesso é feito por cinco degraus, formado por duas colunas.
in Lisboa de Antigamente

As madres trocaram esta residência pela dos Cónegos regrantes de Santo Agostinho, na Corredoura, de invocação de Santo Antão (no local da actual igreja de S. José). Passaram os Agostinhos a residir no mosteiro da Mouraria, até que em 1542 o cederam aos Jesuítas, para nele instalarem uma Residência, que depois se transformou em Colégio.
Pelo aumento da população escolar a Companhia transferiu os estudos para o novo e magnífico edifício que seria o Colégio novo de Santo Antão (hospital de S. José), conservando-se. porém, em Santo Antão da Mouraria (depois de um simulacro de venda aos Gracianos em 1587) uma residência (1593) extinta quando Pombal expulsou os Inacianos (1759).

Igreja do Coleginho  (N. S. do Perpétuo Socorro) |c. 1950|
Rua do Marquês de Ponte de Lima; em cima observa-se a Igreja da Graça.
No andar superior três janelas com moldura e tímpano. Sobre elas corre a cimalha real, com friso e cornija.
Amadeu Ferrari, in Lisboa de Antigamente

Ignoram-se as obras de que o templo teria beneficiado, mormente no primeiro século da sua história (é de presumir que as tivesse havido no segundo quartel do século XVII) mas sabe-se que o Terramoto causou nele grandíssima ruína, que conduziu a uma reconstrução, concluída em 1764, e lhe imprimiu a feição actual. Já então (e até 1833) o templo estava anexo à residência dos Padres redentoristas de S. Libório, sucessores conventuais dos Jesuítas. Extintas as ordens religiosas, foi a igreja entregue à irmandade de Nossa Senhora do Bom-Despacho, sendo anos volvidos desafectada.
Reaberta ao culto em 1988, nela se instalou a sede eclesiástica da freguesia do Socorro (1951).
Apontamento a reter: Foi na igreja do Coleginho que antes de partir para o Oriente S. Francisco Xavier pregou pela última vez.

Antigo edifício do Colégio de Santo Antão em 1836, em desenho de Luís Gonzaga Pereira

igreja do Coleginho quase nada conserva da sua traça quinhentista; é um templo com as características próprias de todos os de Lisboa reedificados após o Terramoto.
Embora pequeno, é notável pela riqueza e elegância da cantaria.

Colégio de Santo Antão-o-Velho | Colégio de Santo Agostinho 
Museu de Lisboa | Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755 | Pormenor.
 
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1955.

Friday, 15 February 2019

Lojas de antanho: Ourivesaria do Socorro

Diz o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, em 1942, que esta Rua da Palma «[…] é antiquíssima, pelo menos do século XVI. Deve-se porém observar, que ela não tinha então o comprimento que hoje lhe conhecemos, mas só aquele que vai das trazeiras da Igreja de S. Domingos até ao antigo Largo de S. Vicente, à Guia [Rua Martim Moniz].[…]
Também não se julgue que ela, sendo tão estreita como actualmente é, era então tão larga. Nada disso. Ainda era mais acanhada: apenas um carreiro por onde cabia uma carruagem sem deixar espaço para outra, carreiro que chegou até ao último quartel do século XVII.»

Ourivesaria do Socorro |c. 1910|
Rua da Palma com a Rua de São Lázaro; Igreja do Socorro
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O topónimo São Lázaro está ligado ao Hospital com o mesmo nome aqui situado. Este hospital era umas das mais antigas instituições públicas de assistência de Lisboa. O documento escrito mais antigo conhecido data de 1355. O hospital foi criado para nele serem recebidos os gafados e doentes do mal de São Lázaro e esteve ao cargo dos cavaleiros hospitalários de São Lázaro, ordem religioso-militar, cuja fundação em Jerusalém é do século XII. Os leprosos estiveram em São Lázaro até 1921 ano em que foram transferidos para o Hospital do Rego.

Ourivesaria do Socorro |c- 1908|
Rua da Palma com a Rua de São Lázaro; Igreja do Socorro
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
cm-lisboa.pt.

Sunday, 1 August 2021

Ermida da Saúde

Eis-nos, agora, diante da Igreja de N. Senhora da Saúde, a da famosa procissão que constituía um dos encantos populares religiosos de Lisboa do século passado [XIX], e que perdurou até à República. 

Neste sítio se elevava no século XVI, logo no começo (1506), uma ermida da invocação de S. Sebastião, advogado contra as pestes, construção que foi da iniciativa dos artilheiros da guarnição de Lisboa.
Em 1596, por deliberação do Arcebispo D. Miguel de Castro, a igrejinha converteu-se em paroquial de S. Sebastião (da Mouraria), desanexada da de Santa Justa, e assim o bairro tomou independência como freguesia. (...)

Ermida de Nossa Senhora da Saúde [190-]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
José Artur Bárcia,
in Lisboa de Antigamente
Ermida de Nossa Senhora da Saúde [ant. 1910]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
Procissão de Nossa Senhora da Saúde
Alberto Carlos Lima,
in Lisboa de Antigamente

A sede da paróquia em 1646 foi levada para a Igreja do Socorro; a actual Igreja da Saúde continuava a chamar-se de S. Sebastião, sem honras de Paroquial, mas muito mais representativa. 
Só em 1662 a Igreja de S. Sebastião passou a chamar-se de N. S. da Saúde, quando a imagem foi transferida do Colégio de Jesus [ou dos Meninos Órfãos], de que te falei, aqui a dois passos, para a actual «residência». E de Nossa Senhora da Saúde passou a ser até hoje [1938]. S. Sebastião esqueceu.
Pelo Terramoto o templo recebeu dano, mas pouco, porque logo dois anos depois estava restaurado e aberto ao público.»
A Ermida — melhor é classificá-la assim — constitui um dos restos piedosos de Lisboa velha, embora os artilheiros hoje já se não preocupem com a devoção. Oferece uma certa ingenuidade; lembra uma capela de aldeia, pois não lembra?

Tem uma só nave, e mais não precisa. Os altares laterais são os de Nossa Senhora piedade e de Cristo Crucificado, e as imagens são em pintura e não escultura, obra do pintor setecentista António Machado Sapeiro. Na capela-mor vês as imagens de Santo António, S. Sebastião, de roca, e sempre muito alindada. O retábulo que notas é do escultor Brás de Oliveira. São interessantes os azulejos oitocentistas da Igreja.

Aí tens, Dilecto, o que é a Igreja de que falam os versos de um fado, até há dois anos, muito em voga:
Há festa na Mouraria
é dia da Procissão
da Senhora da Saúde...
Ermida de Nossa Senhora da Saúde [ant. 1910]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
Saída do andor com a imagem de Nossa Senhora da Saúde
Alberto Carlos Lima,
in Lisboa de Antigamente

Mas na Mouraria, hoje, já não há procissão. A procissão da Saúde era dos mais curiosos espectáculos da Lisboa religiosa, com um carácter diverso da dos Passos e da do Corpo de Deus ou S. Jorge.
A primeira vez que se realizou foi em 20 de Abril de 1570. A última em 20 de Abril de 1910. Saia de manhã cedo da Mouraria, ia à Sé onde se cantava um Te-Deum, e depois a S. Domingos, onde havia sermão. Recolhia ao entardecer à Mouraria — e era de ver-se.
Na procissão iam as três imagens citadas, de S. Sebastião, dos Artilheiros, e da Saúde, ambas da mesma confraria, e a de Santo António que andou sempre ligado a S. Sebastião aqui no bairro, de outra irmandade. Música religiosa, bandas militares, filarmónicas locais; foguetes, sinos, alarido típico do sítio; «anjinhos», soldados vestindo capa vermelha sobre a farda, e, nos seus últimos trinta anos, o Infante D. Afonso, como figura de destaque, simpática ao povo. O Capelão, a Amendoeira, o Outeiro, o Coleginho, os Álamos, despejavam-se sobre a Mouraria: quadro de costumes lisboetas dos mais sugestivos que pode imaginar-se, sem a grandeza da procissão do Corpo de Deus, nem a compostura fidalga da dos Passos da Graça — plebeia, original, bairrista, enternecedora.

Enquadramento da Ermida da Saúde na Pç. do Martim Moniz depois das demolições na Mouraria [post. 1949]
A igreja actual é de pequenas dimensões e data do século XVIII. É um símbolo da arquitectura religiosa barroca embora a
sua fachada principal e simples seja atribuída ainda ao mestre João Antunes dos inícios de 1700. 
Artur Pastor[?], in Lisboa de Antigamente

N.B.  Os artilheiros da Guarnição de Lisboa, denominados por bombardeiros, mandaram erguer em 1505, uma pequena ermida dedicada a São Sebastião, padroeiro e advogado da peste, em cumprimento da promessa feita ao mártir pelo fim da epidemia que nesse ano se estendeu por toda a cidade e que matou muitos habitantes.
Em Outubro de 1569, o rei D. Sebastião devido a mais um surto epidémico que matou milhares de pessoas, pede ao Senado da Câmara de Lisboa a construção de uma igreja maior, consagrada a São Sebastião, e em Dezembro, ordena que a sua edificação seja efectuada na Mouraria perto do local da antiga ermida.

Ermida de Nossa Senhora da Saúde, interior [1902-01-25]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
O culto a Nossa Senhora da Saúde é muito importante na cidade de Lisboa e anualmente realiza-se a procissão em
agradecimento e protecção à Virgem, tradição que se mantém desde o século XVI.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 76-77, 1938.
SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo (dir.), Dicionário da História de Lisboa, 1.ª ed., Sacavém, Carlos Quintas & Associados – Consultores, 1994, pp. 874-876.

Sunday, 2 May 2021

Igreja de São João de Deus

No sítio onde hoje se encontra a Igreja de São João de Deus, erguia-se outrora uma vacaria  do abastado proprietário João do Outeiro — que deu nome a um arruamento na velhinha Mouraria desde 1552 [Araújo: 1938]. Era um espaço riscado pela Estrada das Amoreiras e Rua Alves Torgo e entremeadas de outros caminhos estreitos.

Inaugurada em 1953, sob projecto do arq. António Lino, destacam-se duas particularidades: a sua estrutura em três naves separadas, convergentes para o altar-mor, iluminado por uma torre central; e ter recolhido parte do espólio da antiga Igreja do Socorro, destruída aquando das demolições do Martim Moniz (várias alfaias de culto e mobiliário, incluindo o arcaz em uso na sacristia). 

Praça de Londres, à direita da imagem a Igreja de São João de Deus [post. 1953]
Praça de Londres; Rua Brás Pacheco
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Merece ainda referência, o seu acervo artístico contemporâneo composto pela escultura de Leopoldo de Almeida e de Soares Branco — várias estátuas, incluindo a do Santo Padroeiro e dois arcanjos suspensos na parede principal exterior — pela pintura de Domingos Rebelo (tríptico do altar-mor, com episódios da vida de S. João de Deus) e pela cerâmica de Jorge Barradas — relevo em cerâmica colorida sobre a pia baptismal, representando o baptismo de Cristo.

Igreja de São João de Deus [1959]
Praça de Londres; Rua Brás Pacheco
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Na Época da construção, António Lino explicou o seu desejo de aproximar os fiéis do altar, vencendo a afastamento obrigatório que existia em relação à assembleia, circunstância que só foi alterada uma década depois com o Concílio Vaticano II. [paroquiasaojoaodeus.pt]

Igreja de São João de Deus [post. 1953]
Praça de Londres; Rua Brás Pacheco
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Friday, 13 November 2015

Palácio Geraz do Lima (Condes da Folgosa)

Sobre a origem do topónimo «Rua da Palma», refere o olisipógrafo Norberto de Araújo o seguinte: 
«Esta Rua, desafogada, hoje constituindo uma única artéria, das traseiras de S. Domingos ao Intendente, divide-se em dois troços. O primeiro chega só à Guia [Martim Moniz] e é muito antigo, havendo sido nos séculos velhos arruamento dos comerciantes alemães que cultivavam religiosamente a lenda da palma que florira na sepultura do cavaleiro cruzado Henrique, sacrificado na Tomada de Lisboa, em 1147; [...]
O segundo troço, «Rua Nova da Palma», data de 1862, e chegava até aqui ao Socorro, começando gradualmente a prolongar-se até ao Intendente; a Câmara começara a comprar terrenos de hortas e campos, que por aqui existiam, desde o ano de 1776.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 24-25)

Palácio Geraz do Lima (Condes da Folgosa) [1930]
Rua da Palma
Anterior à demolição parcial
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente


Sobre o sítio do Socorro e o palácio que aqui existiu no século XIX, citamos o olisipógrafo Júlio de Castilho, que, por volta de 1900, afirmava o seguinte:
« (...) O palácio dos Porcilles, Porsili, ou Possilli (que assim, por estas variadas formas, se escrevia e pronunciava no publico esse apelido) ficava na freguesia do Socorro. (...) É o actual palácio que pertenceu ao Barão de Folgosa, depois a sua filha a snrª. Condessa de Geraz do Lima, e hoje [1903] ao 3º. viúvo d'esta senhora. Para este palácio, cuja entrada era por um portão defronte da igreja paroquial do Socorro, antes da abertura do 2º. lanço da rua Nova da Palma foi transferido em 1813 o Colégio de Miguel Bourdiec, francês (...) O Colégio francês mudou-se em Julho de 1819 para a rua direita de S. Paulo, n.º 5, e o palácio do Socorro alugava-se ou inteiro, ou em quartos separados.»
(CASTILHO, Júlio de, Lisboa antiga, 1903, vol. III, p. 15)

Palácio Geraz do Lima (Condes da Folgosa) [1932]
Rua da Palma
Anterior à demolição parcial
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O palácio Folgosa foi mandado construir, em 1891, por António de Sousa e Sá, Conde da Folgosa. Após a sua morte, o Palacete foi adquirido pela Câmara Municipal, que mandou demolir parte do edifício para rectificação e alinhamento da Rua da Palma, cerca de 1930.

Palácio (dos Condes da) Folgosa [1939]
Rua da Palma
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente




Tuesday, 25 April 2017

Lisboa Vista do Cimo dos Montes

Do Castelo, da Graça, do Alto de Santa Catarina, vista do cimo dos montes, das colinas, dos miradouros, Lisboa «enfia os olhos pelo Oceano». «Poucas vezes no mundo verá o viajante, como em Lisboa, tanta magnificencia de espectaculos naturaes, e tamanha variedade de scenario!», diz-nos o olisipógrafo Júlio de Castilho, para quem Lisboa «apresenta panoramas estonteadores, pela grandeza das linhas, e pelo variegado das minucias».


É de Francesco Rocchini (1822-1895)  esta  «vista tomada do Castelo de S. Jorge» que Norberto de Araújo descreve: «O encanto de Lisboa não se procura: encontra-se. Não reside num único sítio: dir-se-ia móvel, deambulatório. Vadio — passeando por onde lhe apetece. 
Aconselha-se o romeiro a que o não rebusque. Será a melhor maneira de dar com ele. 
Os mil motivos de interesse, de sedução, de êxtase — espraiam-se, perdem-se, ocultam-se e mostram-se pelas colinas e pelas planícies ribeirinhas. 
Num parque fecundado pelo sol, poetizado pelo luar, nascido espontâneo, enobrecido pelas idades — não é possível encontrar dispostos para nossos olhos os loureiros que coroam heróis e as rosas que engrinaldam vestais. Nem os rouxinóis têm moita certa. 
As colinas de Lisboa há que trepá-las para bem as conhecer. 
Os vinte miradouros suspensos de pérgolas e de torres, dão-nos o panorama objectivo, familiar: apontam-se as coisas, sabe-se-lhes a idade e a história. As colinas — não. Rugadas de congostas [*], quelhas, linhas de desfiladeiros, planos indecisos, são subjectivas. O seu encantamento é de sonho. 

Panorâmica de Lisboa tirada do Castelo S. Jorge  |c. 1870|
Panorâmica de Lisboa tirada da Sra do Monte
Francesco Rocchini (1822-1895), in Lisboa de Antigamente
 Legenda (clicar para ampliar):


Edifícios/Monumentos:
1—Igreja do Socorro (demolida c. 1940)  2—Palácio Folgosa (Propriedade Geraz de Lima)  3—Convento (Hospital) do Desterro  4—Hospital de S. José  5—Primitiva Igreja dos Anjos (demolida em 1908)  6—Campo de Sant'Ana  7—Convento de Santo António dos Capuchos  8—Palácio Mitelo  9—Palácio da Bemposta (Academia Militar) Paço da Rainha  10—Observatório Astronómico do Paço da Bemposta  11—Hospital de D. Estefânia  12—Palácio Pombeiro  13—Chafariz do Intendente  14—Hospital Miguel Bombarda (Antigo Rilhafoles)  15—Escola Superior de Medicina Veterinária (Antigo Instituto de Agronomia e Veterinária (Actual edifício da Policia Judiciária)
Arruamentos:
A—Rua de S. Lázaro  B—Rua da Palma  C—Rua do Benformoso  D—Largo (Sítio) do Intendente  E—Largo de Santa Bárbara  F—Arroios  G—Antigo Largo do Matadouro hoje Escola Municipal n.º 1 e, logo acima deste, o Largo do Mastro e o Beco (hoje Rua) do Saco

A penha do Castelo, abarcada desde o Largo do Caldas — é uma fantasmagoria. Do Rossio — uma maravilha. De Santana — um deslumbramento. 
Vista deste lado — a colina é um santuário; adivinha-se a torrinha sineira de uma ermida. Contemplada deste outro sítio — é uma muralha. Tomada do lado do mar — é um museu; alveja o perfil manuelino de uma janela. 
Em todas as colinas, subindo, acavalgando-se, amparando-se, tocando-se nos beirais, as casas, os tugúrios, os palácios, os monumentos, os aglomerados indistintos, cinzentos ou violetas, conforme lhes dá a luz — são cenários do presépio lisboeta. 
As Colinas de Lisboaeis o panorama sagrado de uma cidade Olimpo, que enfia os olhos pelo Oceano. Os longes mandam na alma. Nas cidades e nos homensas distâncias ganham em saudade o que perdem em nitidez. Castelo, Graça, Penha, Estrela, S. Francisco, ascensão ideal... » 1

Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 28-29, 1943.

* Nota(s): O Dicionário Houaiss e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam cangosta, mas remetem para congosta, portanto, o termo preferível. Trata-se de «caminho estreito e comprido, mais ou menos declivoso» (in Dicionário da Porto Editora) e «estrada estreita, rústica, entre muros ou sebes, na região periférica de uma povoação, aldeia, vila etc.; azinhaga» (in Houaiss). A palavra vem do latim hispânico 'congusta (via)', por 'coangusta (via)', «caminho estreito», de 'coangustare', «apertar».

Sunday, 15 June 2025

Santo Estêvão: da Calçadinha e das Escadinhas até ao Largo

Nas suas Peregrinações em Lisboa, Norberto de Araújo — a quem vamos sempre seguindo — depois de historiar modificações anteriores, diz: «Em 1833 Alfama formava um dos quatro distritos de Lisboa — veja-se a sua largueza por extensão convencional! — com 12 freguesias, afinal todas as paroquiais em redor do Bairro alfamista puro, incluindo o Castelo, mas ficando São João da Praça integrada no distrito do Rossio. Em 1852 ainda Alfama era um dos quatro distritos da cidade, já com São João da Praça em sua área natural, mas arrebanhando os Anjos e o Socorro! 
Em 1867 desapareceram todos os bairros de distinção nominal, e só então a palavra Alfama sucumbiu, oficialmente».

Tuas vielas velhinhas
Tuas ruas tão estreitinhas
São glórias, têm fado
Tu és a Lisboa antiga
Onde há sempre uma cantiga
P’ra recordar o passado

(do fado Alfama Velhinha de Armando Santos)

Estevão (calçadinha de Santo) segunda á esquerda na rua dos Remedios, indo do largo do chafariz de Dentro e finda na rua da Regueira, freguezia de Santo Estevão 2 a 28 e 1 a 35. [Velloso: 1869]

Santo Estêvão: Calçadinha e Escadinhas |c. 1945|
Perspectiva tirada da Rua da Regueira.
Fernando Martinez Pozal,  in Lisboa de Antigamente

Descendo as Escadinhas de Santo Estêvão — recorda o ilustre Norberto de Araújo — encontramos o balneário municipal [vd. 3ª imagem], construído em 1936, e logo pequeno Largo que cai sobre a Rua da Regueira, diante do Beco do Espírito Santo, ficando-nos à esquerda a Rua dos Remédios.

Calçadinha de Santo Estêvão com a Rua da Regueira |1950|
Beco do Espírito Santo
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

enquadramento é gracioso, seja qual for o conceito que nós possamos ter de beleza nestes quadrinhos bairristas, onde — e é o caso neste sítio — o pitoresco, o religioso, o fidalgo com o solar dos Azevedos Coutinhos. se dão mãos, para que Alfama se represente nos três Estados. 
(ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 90-92, 1939)

N.B. O topónimo Santo Estêvão, na freguesia de Santo Estevão, advém da igreja do mesmo orago.

Calçadinha de Santo Estêvão |c. 1945|
À esq.no nº 19, nota-se o antigo balneário municipal.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Estevão (escadinhas de Santo) terceira á esquerda na rua dos Remedios indo de largo do chafariz de Dentro e findam na calçadinha de Santo Estevão, freguezia de Santo Estevão 2 a 18 e 1 a 23.
Estevão (largo de Santo) faz frente á egreja de Santo Estevão, e é aonde vão terminar as escadinhas de Santo Estevão, beco do Chanceller, ruas do Vigraio e Cruz do Mau, freguezia de Santo Estevão 1 a 16.
[Velloso: 1869]

Escadinhas e Largo de Santo Estêvão |1944|
Igreja de Santo Estêvão (traseiras) e Arco do Chanceler junto ao Palácio Azevedo Coutinho.
J. C. Alvarez, in Lisboa de Antigamente

Friday, 25 September 2015

Teatro Apolo ou do «Príncipe Real»

Na esquina da Rua Fernandes da Fonseca e Rua Nova da Palma— recorda Norberto de Araújo — assenta o Teatro Apolo, até 1910 chamado do Príncipe Real (D. Carlos), e que foi ali erguido em 1864 [1865] por Francisco Ruas, no local onde existiu o salão Wauxhall. Pelo velho «Príncipe Real», dos dramalhões, teatro definido, passaram grandes figuras da cena portuguesa, entre elas, mais permanentemente, Ernesto Vale. e Adelina Abranches.

Rua da Palma, Rua Fernandes da Fonseca [1956]
Em primeiro plano, um trecho da Rua da Palma com o Teatro Apolo (à esquerda).
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Rua da Palma, Rua Fernandes da Fonseca [séc. XIX]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O edifício teve há poucos anos o dístico fatal «Para demolição»; parece, porém, que a condenação está suspensa. Tem um tecto de boa pintura de José Maria Pereira.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa [1938], vol. III, p. 72, 1938)

Rua da Palma, Rua Fernandes da Fonseca [1956]
Teatro Apolo, interior, boca de cena

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
Rua da Palma, Rua Fernandes da Fonseca [1956]
Teatro Apolo, tecto, obra de de José Maria Pereira

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

«Dois Pobres E Uma Porta», em 3 actos e, «Muito Padece Quem Ama» são as comédias apresentadas na inauguração.Em 1906, Palmira Torres é a actriz principal da peça «A Severa», de Júlio Dantas. «Agulha em Palheiro», primeira revista original após a instauração da República, é aqui representada logo em 1911.

Rua da Palma [c. 1910]
Teatro Apolo, bilheteiras

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Rua da Palma [c. 1910]
Teatro Apolo, bilheteiras

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

«De Bota Abaixo», viria a ser a última revista estreada no Teatro Apolo, antes de este vir a ser demolido. O título era, aliás, um trocadilho com esse facto anunciado pela Câmara Municipal de Lisboa, então presidida por Salvação Barreto, como parte da reforma daquela zona da cidade. Um ano depois, em 1957, não obstante os inúmeros sucessos — e já rodeado pelos escombros dos prédios da Mouraria arrasados em redorcaiu o pano sobre o Apolo.

Rua da Palma, Rua Fernandes da Fonseca [1956]
Defronte ao
Teatro Apolo (onde se vê o parque de automóveis) erguia-se a Igreja do Socorro, demolida em 1949.

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
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