A Rua dos Fanqueiros — diz Norberto de Araújo — é o primeiro produto que eu te mostro da imaginativa simétrica dos arquitectos de Pombal.
Destinada aos mercadores de fancaria, de lençaria e de quinquilharia — se para estes houvesse espaço — começou por chamar-se Rua Nova da Princesa (e ali tens o dístico no cunhal da Rua), e, por vezes, Rua Bela da Princesa por analogia cem a Rua Bela da Rainha (Rua da Prata), ou simplesmente Rua da Princesa. Vinte anos depois do Terramoto era Rua Nova dos Fanqueiros, e, depois, Rua dos Fanqueiros.
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| Rua dos Fanqueiros [1911] Rua de Santa Justa; Comemoração do 1.º aniversário da República. António Novais, in Lisboa de Antigamente |
A estrutura urbanística da cidade de Lisboa foi largamente determinada pelo terramoto extremamente intenso que destruiu grande parte do núcleo urbano em 1 de Novembro de 1755. O sismo e o vasto incêndio que se lhe lhe seguiu causaram cerca de 10 000 mortos e perdas materiais incalculáveis em edifícios e bens patrimoniais móveis. Na ausência do Rei D. José, que temia regressar à capital, o longo e complexo processo de reconstrução foi dirigido por Sebastião José de Carvalho e Melo, ministro do Reino e futuro Marquês de Pombal.
A sua parte principal define-se entre o Terreiro do Paço e o Rossio, regularizando as duas praças tradicionais e criando, de uma para outra, uma rede de ruas longitudinais e transversais, cortando-se em ângulos rectos, com importância variada que é expressa pela largura dos seus leitos, passeios (e esgotos), inovação nos hábitos urbanos. Do terreiro ribeirinho partem três ruas «nobres»: Áurea, Augusta e Bela da Rainha (da Prata), das quais as duas primeiras desembocam no Rossio e a outra contra a fachada lateral do velho Hospital Real de Todos-os-Santos que daria sobre o Rossio mas que, não sendo reconstruido (passou ao Convento de Sant'Antão/S. José), abriu espaço para uma praça paralela a este, onde se instalou, primeiro provisória e depois definitivamente, um mercado (Praça da Figueira). Ainda duas ruas paralelas a estas, Nova da Princesa (dos Fanqueiros) e da Madalena, têm igual comprimento, enquanto outras três, na mesma direcção, se entremeiam, a partir da terceira das três grandes vias transversais a contar do Terreiro do Paço — a primeira das quais e a Rua Nova d'El-Rei (do Comércio) que adoptou, corrigindo-a geometricamente no alinhamento, a direcção da velha e famosa Rua Nova dos Ferros. Entre todas estas ruas definem-se também quarteirões longitudinais e transversais, num ritmo dinâmico que vitaliza a malha urbana, salvando-a da monotonia aparente.
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 38, 1939.
FRANÇA, José-Augusto, Lisboa: Urbanismo e Arquitectura, pp. 45-46, 1980.




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