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sexta-feira, 28 de junho de 2019

Rua dos Fanqueiros

A Rua dos Fanqueiros — diz Norberto de Araújo — é o primeiro produto que eu te mostro da imaginativa simétrica dos arquitectos de Pombal.
Destinada aos mercadores de fancaria, de lençaria e de quinquilharia — se para estes houvesse espaço — começou por chamar-se Rua Nova da Princesa (e ali tens o dístico no cunhal da Rua), e, por vezes, Rua Bela da Princesa por analogia cem a Rua Bela da Rainha (Rua da Prata), ou simplesmente Rua da Princesa. Vinte anos depois do Terramoto era Rua Nova dos Fanqueiros, e, depois, Rua dos Fanqueiros.

 

Rua dos Fanqueiros [1911]
 Rua de Santa Justa; Comemoração do 1.º aniversário da República.
António Novais, in Lisboa de Antigamente

A estrutura urbanística da cidade de Lisboa foi largamente determinada pelo terramoto extremamente intenso que destruiu grande parte do núcleo urbano em 1 de Novembro de 1755. O sismo e o vasto incêndio que se lhe lhe seguiu causaram cerca de 10 000 mortos e perdas materiais incalculáveis em edifícios e bens patrimoniais móveis. Na ausência do Rei D. José, que temia regressar à capital, o longo e complexo processo de reconstrução foi dirigido por Sebastião José de Carvalho e Melo, ministro do Reino e futuro Marquês de Pombal.

Rua dos Fanqueiros, 39-40 [c. 1910]
«Drogaria e perfumaria Dias»
Após a requalificação toponímica de 1950, este troço foi integrado na actual Praça da Figueira, 11.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A sua parte principal define-se entre o Terreiro do Paço e o Rossio, regularizando as duas praças tradicionais e criando, de uma para outra, uma rede de ruas longitudinais e transversais, cortando-se em ângulos rectos, com importância variada que é expressa pela largura dos seus leitos, passeios (e esgotos), inovação nos hábitos urbanos. Do terreiro ribeirinho partem três ruas «nobres»: Áurea, Augusta e Bela da Rainha (da Prata), das quais as duas primeiras desembocam no Rossio e a outra contra a fachada lateral do velho Hospital Real de Todos-os-Santos que daria sobre o Rossio mas que, não sendo reconstruido (passou ao Convento de Sant'Antão/S. José), abriu espaço para uma praça paralela a este, onde se instalou, primeiro provisória e depois definitivamente, um mercado (Praça da Figueira). Ainda duas ruas paralelas a estas, Nova da Princesa (dos Fanqueiros) e da Madalena, têm igual comprimento, enquanto outras três, na mesma direcção, se entremeiam, a partir da terceira das três grandes vias transversais a contar do Terreiro do Paço — a primeira das quais e a Rua Nova d'El-Rei (do Comércio) que adoptou, corrigindo-a geometricamente no alinhamento, a direcção da velha e famosa Rua Nova dos Ferros. Entre todas estas ruas definem-se também quarteirões longitudinais e transversais, num ritmo dinâmico que vitaliza a malha urbana, salvando-a da monotonia aparente.

Rua dos Fanqueiros, 152-160 [c. 1910]
Após a requalificação toponímica de 1950, estes prédios correspondem aos números de polícia 34-44, junto à Rua do Comércio.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 38, 1939.
FRANÇA, José-Augusto, Lisboa: Urbanismo e Arquitectura, pp. 45-46, 1980.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Antiga Casa do Chocolateiro

Este troço da Rua dos Fanqueiros, antes Rua [Nova] da Princesa, está incluído, actualmente, na Praça da Figueira. O troço da Rua do Amparo, hoje Rua João das Regras, correspondia ao troço compreendido entre as Ruas dos Fanqueiros e do Arco do Marquês de Alegrete, actualmente Poço do Borratém.

Rua dos Fanqueiros, 366-370 [hoje Praça da Figueira] esquina com a Rua João das Regras [1930]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 5 de Novembro de 1760, foi inaugurada em Lisboa a prática de atribuição de nomes de ruas por decreto. Neste diploma D. José estabelece a denominação dos arruamentos localizados entre a Praça do Comércio e o Rossio, ao mesmo tempo que regulariza a distribuição dos ofícios e ramos do comércio. Esta rua denominava-se Rua Nova da Princesa e nela ficaram arruados os «Mercadores de Lançaria ou Fancaria, destinando-se os sobejos della se os houver, às lojas de quinquilharia». [in cm-lisboa.pt]

domingo, 16 de novembro de 2025

Profissões de antanho: o cauteleiro

— Quem é que se habilita à sorte, é o 1469 que anda amanhã a roda!

É profissão que jamais acabará. É vê-los por aí, sobretudo pela Baixa, oferecendo a fortuna a toda a gente. No nosso tempo, a cautela, cremos que a vigésima parte do bilhete inteiro, vendia-se por três vinténs!
E não havia barbeiro que, pelo Natal ou Páscoa, não tivesse colado no espelho, em frente do freguês, o bilhete da sorte, para que bem o observasse e comprasse enquanto lhe escanhoava os queixos.
O grande actor Estêvão Amarante, criador admirável de tantos tipos populares de Lisboa, também fez o cauteleiro num quadro de revista, cantando um fado que ficou, como todas as suas criações, na alma do povo, imitando um cauteleiro que era muito conhecido pelo pregão harmonioso e nostálgico com que oferecia a Sorte Grande!

— Quem é que se habilita à sorte, é o 1469 que anda amanhã a roda!

Profissões de antanho: o cauteleiro |entre 1908 e 1914|
Largo de Dom João da Câmara, antigo «de Camões».
Ao fundo observa o afamado Café Suisso.
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Nesse tempo, e hoje também, os cauteleiros apregoam por Lisboa e por todo o País, mas sem a cantoria de então.
A dada altura apareceu pelas ruas da Baixa, sem apregoar, um cauteleiro fardado, que oferecia o jogo quase sempre pelos estabelecimentos. Exibia boné agaloado a ouro, sobrecasaca preta com botões amarelos, galões dourados na gola e pasta debaixo do braço, cautelosamente segura por corrente. Era um indivíduo gordo, à volta dos quarenta anos e que, no seu jeito amável, aconselhava, como quem conversa, a jogar na lotaria. Hoje os cauteleiros usam boné de pala e a profissão, aparentemente, deve ser rendosa. Haja em vista o desafogo de certas casas de lotaria! 

— Quem é que se habilita à sorte, é o 1469 que anda amanhã a roda!

Profissões de antanho: o cauteleiro |1922-3-8|
Calçada do Duque com a Rua da Condessa.
Legenda no arquivo: «O coxo das cautelas na Escadinhas do Duque»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente? Questiona-se o Desassossegado Bernardo Soares. O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? O velho sem interesse das polainas sujas que cruzava frequentemente comigo às nove e meia da manhã? O dono pálido da tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros, [e das Escadinhas do Duque, porque não?]. Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu — a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim — sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um “o que será dele?”. E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.
(Fernando Pessoa / Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 1931)

Profissões de antanho: o cauteleiro |início séc. XX|
Aguadeiro e cauteleiro junto ao fontanário do Largo Trindade Coelho, antigo de S. Roque. 
Ao centro vê-se a Coluna mandada erguer pela colónia italiana, comemorando o casamento do 
Rei Dom Luís I com Dona Maria Pia de Sabóia em 1862.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
(DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974), p. 276, 1986).

sábado, 29 de julho de 2017

Igreja dos Freires da Conceição Velha ou Conceição Velha (antiga da Misericórdia)

Ora bem, Dilecto — expressão com que habitualmente Norberto de Araújo interpela o leitor — mais tem que ver a Rua dos Bacalhoeiros, em 1755 designada Rua de Cima da Misericórdia, e depois, e até à dos Arameiros, aberta depois do Terramoto, chamada dos Confeiteiros.
E da Misericórdia, porquê? Porque no chão onde se eleva hoje um quarteirão de propriedades sólidas, entre as Ruas dos Bacalhoeiros e da Alfândega, se ergueu no começo do século de quinhentos a Igreja do Recolhimento da Misericórdia.
Pois metamos já por esta transversal da Rua dos Arameiros, e vamos ver o que resta desse templo manuelino, chamando, desde a segunda metade do século XVIII, da Conceição Velha. Quedemo-nos sob o majestoso pórtico. Duas breves notícias de história, que é simples, afinal.
   A instituição das Misericórdias foi obra, como já disse quando passámos pela Sé, e por S. Roque, da Rainha D. Leonor. A primeira Confraria, instalou-se na Capela de N. Senhora da Piedade, vulgo da Terra Sôlta no claustro ogival da Sé, em 15 de Agôsto de 1498.
   Prosperou a Confraria, ou seja a Misericórdia de Lisboa, reconhecendo-se pouco depois que a capela claustral da Sé era mesquinha para sede da instituição. D. Manuel, irmão da Rainha fundadora, viúva de D. João II, projectou, não se sabe ao certo o ano, mas seguramente depois de 1510, erguer neste chão — que era ocupado por vários edifícios públicos, como o Paço do Trigo, a Portagem, o Paço da Madeira — um majestoso templo e Casa para Misericórdia, a obra querida de sua irmã, inspirada por freire Miguel Contreiras.
   Era o tempo opulento da Índia e do Brasil, caracterizado pela sumptuosidade na arquitectura religiosa. A obra — templo, Recolhimento das Orfãs e Casas da Misericórdia — só se concluiu em 1534, tempo de D. João III, já havia falecido (1525) D. Leonor. A Igreja ostentava-se de três naves, sendo a abóbada apoiada ao centro por seis colunas monolíticas (de mármore?) e por mais catorze laterais, pilares de sustentação da cobertura; as casas anexas ocupavam quatro pavimentos.
   Obra notável era, de precioso recheio. Orientada no sentido poente-nascente, a porta principal com seu adro rasgava-se, de começo, para o Largo da Portagem, prolongamento, então da Rua da Padaria; a sua porta travessa, a sul, é hoje o portal desta Conceição Velha (já vou dizer, porque se chama Conceição Velha).

Igreja da Conceição Velha [ant. 1900]
À esquerda, a Rua dos Arameiros em direcção ao Campo das Cebolas
Rua da Alfândega, 112-114 
Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

   Veio o Terramoto. Aluiu e incendiou tudo. Do templo escaparam este pórtico magnífico, a Capela do Espírito Santo, hoje Capela-mor, e uma ou outra imagem.
   D. José ordenou que se reedificasse a Igreja, mas a Misericórdia andou de empréstimo por aqui e por ali, até que ocupou a Casa dos Jesuítas de S. Roque.
   A nova igreja, já num estilo bastardo da arquitectura religiosa, cujo risco é de Francisco António Ferreira, o «Cangalhas», foi entregue aos freires de Cristo de Nossa Senhora da Conceição, cuja Casa e templo haviam ardido também.
   Aquela Igreja da Conceição [vd. gravura] que ocupava uma antiga sinagoga dos judeus, situava-se próximo à Madalena, caindo sobre a actual Rua dos Fanqueiros junto ao quarteirão cujas traseiras são a Rua dos Douradores; fora N. Senhora da Conceição dada aos freires de Cristo em troca da Ermida do Restelo, derrubada para se erguer os Jerónimos, e chamava-se, por oposição, «a Velha» (paroquial em 1568), porque em 1698 se construíra outra sede paroquial de N. S. da Conceição «Nova» — desaparecida também pelo, Terramoto — e que se localizava onde passa hoje a Rua da Prata, segundo quarteirão do sul, então Rua Nova dos Ferros.
   E como foram os freires da Conceição Velha que para a antiga Misericórdia vieram em 1770, esta Igreja que temos à vista se passou também a chamar da Conceição Velha.
   Falta dizer que nunca estes chãos foram de sinagoga e de judeus, (como anda escrito), ou sítio de uma Vila Nova de Gibraltar, que nunca existiu, versão esta que corre derivada de um dos raros erros do grande Herculano, e que mestre Vieira da Silva teve a felicidade de poder desfazer, sem deixar qualquer espécie de dúvida.
Ficaste sumariamente a par do que isto foi, e como e porque foi.

Vista de Lisboa [1598?-1610?]
(clicar para  ampliar)
Olissippo quae nunc Lisboa, civitas amplissima Lusitaniae ad Tagum, totius orientis... emporium nobilissimum
Autores: Georg Braun, gravador (1542-1622) e Franz Hogenberg, geógrafo (1535-1590)
Esta gravura, colorida à mão e gravada em cobre, faz parte da colecção "Civitates Orbis Terrarum" publicada entre 1572 e 1618. Representa  a cidade de Lisboa com Armas Reais e as Armas de Lisboa ladeando uma rosa dos ventos e com os edifícios e espaços públicos numerados correspondente a uma legenda na parte inferior e superior..

Assinalados no mapa: 
Antiga Igreja da Misericórdia, actual Conceição Velha
Primitiva Igreja da Conceição
Terreiro do Paço, actual Praça do Comércio
Sé Patriarcal de Lisboa

Agora contempla o Pórtico — antiga porta travessa lateral —, obra de peregrinos lavrantes da pedra: ali tens, sobre a porta geminada, dentro do arco, o quadro escultórico, pormenor largo historiado desta bela peça arquitectónica, e que representa N. Senhora da Misericórdia, de manto aberto [sustido por dois anjos], tendo de joelhos, a seus pés, de um lado D. Manuel, D. Leonor, e alguns príncipes, e do outro o Pontífice Leão X, freire Miguel Contreiras — o inspirador das Misericórdias —, e algumas figuras da Igreja. Este quadro admirável esteve retirado deste seu lugar, desde 1818 a 1880, substituído por uma grade iluminante da Igreja, e colocado numa capela da nave, então de N. Senhora das Mercês.

Igreja da Conceição Velha, aguarela [s.d.]
Pórtico de estilo manuelino
Rua da Alfândega, 112-114 
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

De cada um dos lados do Pórtico rasga-se uma formosa e decorativa janela, avolumando a beleza deste conjunto plástico, que o frontão alto de remate avilta até à mesquinhez.
Como observas, esta peça solta de arte, encravada entre prédios vulgares do século passado [XIX], é de puro estilo manuelino, do tipo dos pórticos dos Jerónimos, posto que menos grandioso e exuberante.
A-pesar-de, aparte o pórtico, a Conceição Velha não ser famosa, ela merecia mais dilatada visita; se deste templo mais quiseres saber recomendo-te o livro «A Igreja da Conceição Velha», de Filipe Nery de Faria e Silva (1900).

Igreja da Conceição Velha [c. 1940]
Capela de Nossa Senhora do Restelo ou do Parto, quadro
oferecido pelo Infante D. Henrique aos freires.
Rua da Alfândega, 112-114 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Vejamos agora o templo no seu interior — prossegue o autor das Peregrinações — obra do final de setecentos, cuja torre sineira se encrava em propriedades particulares. (...)
À direita vemos a Capela de N. Senhora do Restelo  [vd. imagem acima], ou do Parto — pela circunstância de a Virgem, sentada numa cadeira (esta de madeira) ter o Menino Jesus nu sobre os joelhos. Esta imagem, em pedra pintada, é o venerando monumento dêste templo, relíquia da imaginária religiosa portuguesa; pertenceu à primitiva Ermida de N. Senhora do Restelo, doada em 1460 pelo Infante D. Henrique aos freires de Cristo, e adveio de Sagres onde o Infante teve sua Casa, sendo por consequência anterior à Ermida, podendo atribuír-se-lhe meio milhar de anos de idade (há receio de se lhe tocar por correr o perigo de se desfazer).
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 16-19, 1939.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Lojas de Antanho: Rua da Prata, 261

O plano de Eugénio dos Santos e Carlos Mardel da reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755, aprovado pelo Marquês de Pombal, apresentava uma rede de ruas longitudinais e transversais, cortadas em ângulos rectos, com importância diferente que é traduzida pela largura das suas ruas e passeios.

Casa das Manteigas, Rua da Prata, 261 [1910]
Antiga  Rua Bela da Rainha

Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

Mas Pombal quis ainda prestar homenagem à família real, fazendo baptizar quatro ruas do novo bairro; a Rua Nova d'El-Rei — hoje Rua do Comércio, a Rua Bela da Rainha — hoje Rua da Prata, a Rua Nova da Princesa — hoje Rua dos Fanqueiros e a Rua do Príncipe, paralela ao Rossio — hoje Rua Primeiro de Dezembro. À terceira rua principal, mais chegada ao lado do nascer do Sol, chamar-se-ia Rua Bela da Rainha. Não que a Rainha fosse particularmente bela. Mas uma rainha é sempre um obstáculo incontornável mexerico do Paço e nas tramóias do governo, e é bom que tenha rua de nome, para boas graças próximas e distantes do ministro.
Em breve, porém, estas ruas (as três primeiras) receberam outros nomes, segundo os ofícios que nelas se exerciam — capelistas, ourives de prata e fanqueiros. (FRANÇA, José Augusto, Lisboa pombalina e o Iluminismo, 1987, p.117)
 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Santa Justa

Rua de Santa Justa. Assim se denominará a sexta, e ultima das referidas travessas, e nella se alojaráõ os mercadores de lã, e seda, que naõ tiveram bastante accomodaçaõ na Rua Augusta.1


A remodelação paroquial de 1770 menciona esta artéria ora como Travessa ora como Rua, já que a descrição da Freguesia de Nª Srª da Conceição e a de Santa Justa a referem como «nova traveça de S. Justa» e nas plantas dessas mesmas freguesias surge como «Rua de S. Justa». E finalmente, o Edital municipal de 12 Novembro de 1892 retomou as nomenclaturas pombalinas e passou as Travessas de Santa Justa, da Assunção, de São Nicolau e da Vitória a Ruas.
Luís Pastor de Macedo sublinha ainda que «os nomes de S. Julião, da Conceição, de S. Nicolau, da Vitória e de Santa Justa, foram dados às ruas que mais perto passavam das igrejas e ermidas que com aquela invocação, segundo o plano estabelecido, se haviam de erguer ou se estavam já construindo.» 3

Rua de Santa Justa [c. 1906]
Ao fundo, O elevador de Santa Justa — ou do Carmo — inaugurado em 10 de Julho de 1902.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

De acordo com Norberto Araújo existiu aqui, à entrada das Escadinhas de Santa Justa na esquina da Rua dos Fanqueiros (vd. 2.ª imagem), a «paroquial de Santa Justa, uma das primeiras de Lisboa, fundada — crê-se — em 1166». Por sua vez, o Pe. João Baptista de Castro escreve, em 1870, que «Uma das tres freg«ezias primitivas, que formou, e instituiu n'esla cidade o bispo D. Gilberto, logo que o inclyto D. Afonso Henriques a conquistou aos mouros, foi a de Santa Justa: e segundo consta das nossas Historias correndo o anno de 1173, a primeira igreja, para onde foi conduzido o sagrado corpo do invicto martyr S. Vicente, assim que chegou do Promontório sacro do Algarve a este porto, foi para esta de Santa Justa, para cuja lembrança permanecia na porta principal da igreja um nicho de pedra da parte do Evangelho com a imagem do santo.» 2

Rua de Santa Justa [c. 1930]
Ao fundo, na Rua dos Fanqueiros — antiga Nova da Princesa — o prédio da «Companhia do Papel do Prado», mais tarde edifício da «Pollux», casa fundada em 1936
.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

A igreja sofreu um incêndio aquando do Terramoto. Pensou-se em construir outra, precisamente onde se ergueu depois o prédio da «Companhia do Papel do Prado», mais tarde edifício da «Pollux» (casa fundada em 1936),  mas com a transição da paroquial para igreja de S. Domingos a ideia gorou-se. Ainda segundo Norberto de Araújo, o edifício «converteu-se em teatro, o «Teatro de D. Fernando», que existiu até 1860. Só depois se realizou a urbanização do local (1863-1864).» 4
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Bibliografia:
1 CASTRO, João Baptista, Mappa de Portugal antigo e moderno, 1870, Vol. 3, Parte V, p. 57.
2 idem, p. 182.
3 cm-lisboa.pt.
4 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 40-41, 1939.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Rua dos Fanqueiros, 226-232

Em 5 de Novembro de 1760, foi inaugurada em Lisboa a prática de atribuição de nomes de ruas por decreto. Neste diploma D. José estabelece a denominação dos arruamentos localizados entre a Praça do Comércio e o Rossio, ao mesmo tempo que regulariza a distribuição dos ofícios e ramos do comércio. Esta rua denominava-se Rua Nova da Princesa e nela ficaram arruados os «Mercadores de Lançaria ou Fancaria, destinando-se os sobejos della se os houver, às lojas de quinquilharia».

 
 
 
 
Rua dos Fanqueiros, 226-232 [1932]
«Armazéns Azevedo», perspectiva tirada da Rua da Assunção
Fotógrafo não identificado,in Lisboa de Antigamente
(clicar para ampliar)





sexta-feira, 29 de abril de 2016

Profissões de antanho: o moço de fretes

O moço de fretes ou moço de esquina, como também era conhecido, foi uma instituição de Lisboa. Normalmente eram homens oriundos da Galiza, embora entre eles se contassem muitos elementos das nossas Beiras. Gente pacífica, honrada e mansa no tracto, a esses homens podia entregar-se, utilizando os seus serviços, uma carta confidencial que, pressurosos, iam levar ao seu destino; valores ao penhor, de gente de bom-tom que se escondia; transporte de mobílias e outros carregos e até puxar as pequenas bombas de incêndio pelas ruas estreitas dos bairros populares. 

Profissões de antanho: o moço de fretes |1912|
Largo do Chiado, esquina com a Rua Nova da Trindade
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Todavia, a sua maior actividade era transportar mobílias, de casa para casa, nas mudanças que os lisboetas então faziam com frequência, porque havia casas para alugar! Era vulgar ver-se escritos nas janelas, sinal de que as casas estavam devolutas, e os alfacinhas, sobretudo as senhoras, adoravam mudar de domicílio. Bons tempos!

Profissões de antanho: o moço de fretes |1907|
Calçada do Combro
Joshua Benoliel, iin Lisboa de Antigamente

Os moços de fretes, os galegos como eram conhecidos, encarregavam-se desses serviços, desarmando em casa os móveis e acomodando-os nas padiolas, amarrados com boas cordas. Depois de tudo empoleirado, dois ou quatro homens, consoante o volume e o peso, a passo certo, cadenciado, mas alternado, seguiam com a tralha para a nova residência onde rearmavam tudo com muito cuidado, no que eram mestres. Só que quando algo se partia, logo tinha justificação: — Tenha paxiêrixia, acontexe!...

Profissões de antanho: o moço de fretes |1908|
Rua Rodrigo da Fonseca com a Rua Barata Salgueiro
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Profissões de antanho: o moço de fretes |entre 1908 e 1914|
Calçada do Carmo
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Era curiosa a forma como se auxiliavam no transporte com a padiola: dois à frente e dois atrás, com um grosso pau de carga que eles suportavam aos ombros, adoçando o incómodo com chinguiços  — pequenas almofadas em forma de ferradura que ajustavam ao pescoço — e assim aguentavam o peso bem equilibrado.

Profissões de antanho: o moço de fretes |1910|
 Rua do Comércio com a Rua dos Fanqueiros
Joshua Benoliel,in Lisboa de Antigamente
Profissões de antanho: o moço de fretes |c. 1930|
Rua de São Lázaro
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Os moços de fretes ou de esquina agrupavam-se em vários locais da cidade nas praças principais, como o como o Rossio, Terreiro do Paço, Chiado, Graça, Alcântara e outros, e também pelas esquinas das ruas, onde eram procurados para ajustar os serviços que deles se pretendia

Profissões de antanho: o moço de fretes |1908|
 Largo do Chiado: A Ilha dos Galegos
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Profissões de antanho: o moço de fretes |post. 1902|
Rua do Arco do Marquês de Alegrete, Palácio do Marquês de Alegrete (Martim Moniz)
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

É de salientar um serviço que era sempre muito bem pago porque obrigava a discrição: levar cartas confidenciais, naquele tempo em que ter telefone era um luxo!
— Leva esta carta e entrega-a só à própria. Entendido?
— Xagrado! — respondia o Xoaquim.
 E pelo serviço cauteloso pagava-se cinco tostões de boa prata!

Profissões de antanho: o moço de fretes |190-|
 Largo de São Domingos
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
DINIS, Calderon , Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974), p. 216.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Rua (da) Augusta (Figura do Rei)

O olisipógrafo Norberto Araújo caracteriza da seguinte forma este arruamento da Baixa de Lisboa:
A Rua Augusta foi destinada, de seu começo, aos mercadores de tecidos de seda e de lanifícios, e cinco anos depois do Terramoto era já citada; foi das mais apressadas em fazer-se «cidade», pois onze anos depois do cataclismo já possuía trinta e um prédios, e dez anos acrescentados as suas edificações perfaziam o número de cinquenta e três.
Este pormenor — que devemos a Luiz Pastor de Macedo, investigador conscienciosíssimo, e especialista na complexa matéria da história das ruas de Lisboa — dá-nos bem a impressão do quadro evolutivo da nova Baixa, terraplanada que foi a ruína imensa que o Terramoto provocou.

Rua (da) Augusta (Figura do Rei) [1930]
A Rua da Augusta Figura do Rei leva-nos a direito para a estátua do monarca
que homenageia: D. José I, o soberano que inaugurou em Lisboa a prática
da atribuição de nomes de ruas por decreto de 5 de Novembro de 1760.
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

Esta Rua Augusta — menos do que a Rua do Ouro se tem modernizado; menos pombalina que a Rua da Prata, e sobretudo do que as dos Douradores e Fanqueiros, a sua fisionomia transpira o jeito da transição de setecentos para oitocentos. Se a olhares, em perspectiva, aos domingos ao fim da tarde, quando ela vai deserta, e se pelo poder da imaginação lhe puseres no meio uma traquitana e suspensos das paredes dois candeeiros de cegonha — terás Lisboa do tempo dos franceses.==

Rua (da) Augusta (Figura do Rei) [1911]
Cortejo comemorativo da proclamação da República.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 47-48, 1939.

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