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Tuesday, 16 May 2017

Ermida do Espírito Santo ou dos Remédios de Alfama

Do Espírito Santo é a sua verdadeira e primitiva evocação, pois ao «Santo Espírito» foi dedicada quando da sua fundação em 1551, posto que haja quem o suponha mais antigo. [1]


Os navegantes e pescadores da Alfama, em irmandade, tinham neste sítio um pequeno hospital para os irmãos, com capela própria, que é aquela á que estamos fazendo referência. A Irmandade, porém, era mais antiga, havendo sido instituída na paroquial de S. Miguel, antes mesmo de se criar a Misericórdia; neste local foi erigida depois a Ermida privativa, porque os empertigados homens do mar, cujo juiz era o corregedor do crime no bairro, não se quiseram sujeitar ao prior de S. Miguel, proclamando deste modo a sua independência, e obtendo mesmo da cúria romana várias bulas de privilégios. [...]

Ermida do Espírito Santo ou dos Remédios de Alfama  [1899]
Rua dos Remédios; Rua da Regueira; Beco do Espírito Santo
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Agora cabe perguntar, e a curiosidade admite-se: como se transmudou o orago, de Espírito Santo, em Nossa Senhora dos Remédios? Parece que foi como passo a dizer; a lenda é um subsidio irresistível.
Nesta Ermida do Espírito Santo havia um poço, onde certo dia apareceu uma imagem de Nossa Senhora, a qual, a-pesar-de ser tirada da água, vinha enxuta em sua pintura e tecido. Milagre foi! E acorriam os pescadores e famílias a implorar à Virgem remédio a seus males, e Nossa Senhora os curava. Daí a receber a imagem a invocação de Nossa Senhora dos Remédios foi um salto de barca atracada ao cais da Ribeira.
E nunca mais se falou no Espírito Santo. Ninguém como os pescadores e mareantes para realizar estes milagres. [...]

Ermida do Espírito Santo ou dos Remédios de Alfama  [1899]
Rua dos Remédios; Rua da Regueira; Beco do Espírito Santo
Machado & Souza,
in Lisboa de Antigamente

O Pórtico desta Ermida [3ª foto], considerado monumento nacional, esculpiu-se em estilo manuelino, sobrepujado por cartel onde se vê a pomba simbólica do Espírito Santo. Sobre a porta travessa da Ermida aí tens uma data: 1757, a do restauro [foi quase totalmente destruída pelo Terramoto]. A Ermida dos Remédios é agora pobre, mas simpática; casa onde os pescadores iam orar de muito não precisava. De que precisará hoje? Uma vista de olhos nos basta.

Ermida do Espírito Santo ou dos Remédios de Alfama  [c. 1900]
Rua dos Remédios; Rua da Regueira; Beco do Espírito Santo
Portal manuelino, classificado como Monumento Nacional.
José A. Bárcia,
in Lisboa de Antigamente

O corpo da Ermida [4ª foto] ostenta dois altares apenas, o de Nossa Senhora da Conceição. com Santo António e S. José, e o de S. Joaquim, com Nossa Senhora da Piedade e S. Sebastião. No altar-mór vê-se Nossa Senhora dos Remédios, ingénua imagem de agradável semblante — pequenina, de andor de aldeia —, e ao lado S. Pedro e S. Pedro Gonçalo. A Capela-mór é de boa pedra, mas a sua modesta figuração não desdiz do abandono a que o pequeno templo tem sido votado, a-pesar-de nele, uma vez ou outra, se fazer o culto.

Ermida do Espírito Santo ou dos Remédios de Alfama, interior  [1963]
Rua dos Remédios; Rua da Regueira; Beco do Espírito Santo
Armando Serôdio,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia 
[1] ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 95 a 97, 1939.

Sunday, 4 June 2017

Palácio dos Teles de Melo

O antigo Palácio dos Teles de Melo — recorda Norberto de Araújo — é um casarão interiormente incaracterístico, mas apresenta na sua linha quebrada de quatro faces, da Rua dos Remédios à Calçada do Cascão, uma aparência nobre embora adulterada, que explica a sua inclusão no «Inventário de Lisboa», justificada ainda pelo passado histórico.


Construído em 1701, o Palácio dos Teles de Melo foi a habitação urbana de uma família pertencente à alta nobreza, à data secretários de guerra dos reis D. João V e D. José I: os Teles de Melo [Secretários da Guerra].
Na sequência do terramoto que abalou Lisboa em 1755 sofreu várias modificações, nomeadamente a abertura de uma porta de serviço na Calçada do Cascão e o acesso à capela pelo portal nobre. Mais tarde, em 1868, o palácio é convertido em prédio de rendimento através de remodelações sucessivas no seu interior.

Palácio Teles de Melo [1944]
Rua dos Remédios, 191-203; Calçada do Cascão, 1-23
Eduardo Portugal,in Lisboa de Antigamente

A vida desta casa nobre de Alfama é acompanhada — a partir do momento em que é transformada em propriedade horizontal — por uma constante diversificação social dos seus ocupantes.
O Palácio Teles de Melo tem quatro fachadas, duas delas que acompanham e definem o limite oriental da Rua dos Remédios e o recorte do troço inicial da Calçada do Cascão.
Destaca-se em Alfama pelas suas dimensões e pela disposição fora do comum das suas quatro fachadas.

Palácio Teles de Melo [c. 1900]
Rua dos Remédios, 191-203; Calçada do Cascão, 1-23
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente


 
Palácio dos Teles de Melo [c. 1952]
Fachada virada a Rua dos Remédios, 191-203
Vasco Figueiredo, in Lisboa de Antigamente



Palácio dos Teles de Melo [1942]
Fachada virada à Rua do Cascão, 1-23
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente


O Palácio dos Teles de Melo — prossegue o olisipógrafo — , foi, quando da sua construção (1701), encavalgado, parte no exterior e parte no interior, no muro da Cerca Fernandina. Na parede da Calcada do Cascão, que faz esquina para a Rua dos Remédios [foto abaixo], está encastrada uma inscrição latina, de onze linhas, em mármore rosa com emolduração, que desde 1656 decorava as Portas ou Porta da Cruz da citada Cerca de D. Fernando, situadas no começo da Rua dos Remédios, e demolidas em 1755. A tradução da inscrição é a seguinte:
"Memória consagrada à Eternidade. A Imaculadíssima Conceição de Maria, João IV Rei de Portugal, de acordo com as cortes gerais, publicamente devotou a sua pessoa e os seus reinos por tributarios de um censo annual; e com juramento se confirmou — a si próprio para todo o sempre como defensor da Mãe de Deus, eleita padroeira do Reino, e imune do pecado original. Para que tão piedoso sentimento português se perpetuasse, mandou exarar esta memória perene em viva pedra no ano de Cristo de 1646, sexto do reinado do mesmo senhor".

Palácio dos Teles de Melo [c. 1952]
Lápide comemorativa da eleição da Virgem Maria Padroeira do reino nas Portas da Cruz
Ferreira da Cunha, 
Fachada virada a Rua dos Remédios, 191-203
Vasco Figueiredo, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, Fasc. VII, p. 184, C.M.L., 1950.

Thursday, 28 January 2016

Palácio de Dona Rosa

Ora eis-nos no Largo de D. Rosa [hoje Rua dos Remédios], que deriva o nome desse prédio, também de solar antigo, sob o qual se abre o Arco e sobem as Escadinhas daquela designação. Quem foi essa D. Rosa — custa-me confessar-to — não o sei, e já o soube; [...]»¹


Norberto de Araújo poderá ter-se esquecido quem foi a Dona Rosa que deu nome ao sítio. Cabe-nos, pois, na medida do possível, tentar lançar alguma luz sobre este tema.  
Este prédio setecentista, solar antigo — conhecido por Palácio Dona Rosa — assente sobre uma estrutura pré-pombalina, terá pertencido a Dona Rosa Mello de Castro da Costa Mendonça e Sousa, Morgada do Alcube e de Colares, detentora do ofício hereditário de Porteiro-mor do Reino, senhora de enorme fortuna e «bem conhecida da alta sociedade lisbonense»,² que, além desta Casa em Alfama, era igualmente proprietária do Palácio do Cunhal das Bolas, ao Bairro Alto e o das Portas do Sol (Palácio Azurara) onde estão as Oficinas da Fundação Ricardo Espírito Santo.³

Palácio da Dona Rosa, arco e capela [1899-05-28]
Rua dos Remédios, 139-139A; à esquerda a antiga capela depois taverna; Escadinhas do Arco da Dona Rosa.
De acordo com Norberto de Araújo, «Morta D. Rosa (…) seus herdeiros venderam em 1882 o prédio a Francisco Cândido Máximo de Abreu que dos baixos (incluindo a Capela) fez um armazém de linho».
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente


Um olhar mais atento à fachada exterior do nº 139 da Rua dos Remédios deixa antever que, no séc. XVIII, ostentava notória beleza arquitectónica. Um interessantíssimo exemplar de casa apalaçada urbana sobretudo pela articulação dos dois corpos da fachada (habitação e capela) através do Arco de  Dona Rosa e Escadinhas daquela designação. A cruz e os pináculos que coroavam a fachada foram retirados. Cerca 1880, o púlpito e o tecto de madeira com pinturas em tela foram transferidas para uma igreja em Alhandra, ficando apenas com os painéis de azulejos barrocos das antigas capela (depois taverna) e sacristia. 
E aqui está uma curiosidade da Rua dos Remédios, da Alfama. Esta taverna — recorda o ilustre Norberto de Araújo — está toda revestida de magníficos silhares altos de azulejos, melhor direi: painéis, que ocupam todas as paredes. São historiados, com assunto relativo à Virgem, representando-se num dos painéis — segundo me parece — a Anunciação. O da parede da esquerda é mais curioso numa das suas histórias: num leito está uma parturiente e ao lado algumas donas lavam o menino numa bacia, enquanto outra aquece ou enxuga as roupas numa lareira.
Digno de registo é a circunstância de os azulejos se conservarem em óptimo estado numa taverna! Num aposento interior da casa, antiga sacristia, há também paredes forradas de azulejos «de navio», e, numa reentrância semi-circular, outro painel de óptimo desenho.¹==

Palácio de Dona Rosa, arco  [1945]
Rua dos Remédios, 139-139A; Escadinhas (antiga Calçada) do Arco da Dona Rosa.

Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Do portal principal, flanqueado por dois grandes vãos de janelas gradeadas, acede-se ao pátio que foi nobre, e que, por sua vez, abre sobre um logradouro: o Largo de D. Rosa [hoje integrado na Rua dos Remédios]. Em 1924, o prédio (já desfigurado) foi vendido a outros proprietários, tendo sido transformado num conjunto de habitações. Actualmente decorre uma empreitada de recuperação, restauro e reabilitação do conjunto de edifícios destinados a habitação.

Rua dos Remédios, 139-139A [c. 1900]
Escadas de acesso ao pátio e terreiro do Palácio de Dona Rosa

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X p. 100, 1939.
² CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antiga, 1901.
³ CASSIANO NEVES, Pedro Mascarenhas, Casas e Palácios de Lisboa: Pedras d'Armas, 2014.

Friday, 15 April 2016

Rua do Vigário (actualizado)

O olisipógrafo Norberto Araújo descreve do seguinte modo este arruamento da velha Alfama:
Quem fosse o Vigário que se celebra nesta velha artéria de Santo Estêvão, ignoro. À direita [esquerda na imagem], até aos Remédios, toda a rua se desdobra em prédios de dois tipos: século XVIII e século passado [XIX], estes renovados de anterior tessitura construtiva. É cheia de bizarria, policroma, aguarelada de seu natural, esta face norte da muito antiga serventia, que do lado sul, à nossa direita, beneficiou de demolições já no actual século, e que dão largueza à rua.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 89, 1939)

Rua do Vigário [c. 1900]
À esquerda, o Beco do Vigário.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Em ternos documentais, a Rua do Vigário surge nas descrições paroquiais anteriores ao terramoto de 1755 na freguesia de S. Estêvão de Alfama e nas plantas após a remodelação paroquial de 1780, bem como em 1858 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, e a partir da 2ª metade do século XIX encontra-se na documentação municipal prova de bastantes prédios a ruir nesta artéria e consequentes pedidos de reconstrução dos mesmos ou de construção de novos prédios.

Rua do Vigário [c. 1950]
Varredor de ruas
Alvarez, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

Encontramos ainda com data de 25 de maio de 1897 a indicação de uma propriedade a expropriar para alargamento da Rua do Vigário e um plano para o seu alargamento, da autoria do arqº José Luís Monteiro, de 7 de Julho de 1907. [cm-lisboa.pt]

Rua do Vigário [c. 1940]
Ao fundo, a Rua dos Remédios.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 22 May 2022

Palácio do Manteigueiro

Também conhecido como Palácio Condeixa, foi edificado em finais do séc. XVIII (1787). Deve-se ao arquitecto pombalino Manuel Caetano de Sousa o seu plano de construção [Eduardo de Noronha atribui a obra ao arquitecto Altronochi, Milionário. Artista, p.184]. Com uma arquitectura setecentista imponente, o palácio passou de residência a sede da Assembleia Lisbonense (1836) e, actualmente, é ocupado pelo Ministério da Economia.
Leia a agitada história deste celebrado palácio que vale bem a pena.


O Palácio do Manteigueiro, na Rua da Horta Seca à esquina da Rua da Emenda (que foi Travessa do Mel), foi edificado por volta de 1787 por uma curiosa personagem que Lisboa em peso conheceu, um certo Domingos Mendes Dias, transmontano, enriquecido no Brasil com géneros de mercearia, que transitara de aguadeiro a merceeiro, volvido depois em grande negociante de manteigas: daí a alcunha. Este homem — que se não fora a riqueza acumulada não passaria dum ignorado e humilde cidadão, chegou a fidalgo da Casa Real — era de uma sordidez tão engenhosa que fazia servir o jantar dentro de uma gaveta para a fechar rapidamente se alguém aparecesse, levantou, todavia, um palácio maravilhoso com incrível prodigalidade. Foi a sua criação. Morreu deixando toda a fortuna a António Pereira Coutinho, da velha família dos Pereiras Coutinhos, morgado de Vilar de Perdizes, a favor de quem, e querendo mostrar-se de origem fidalga, fizera testamento, com a condição de este se deixar tratar por primo — e o palácio veio a pertencer a João Fletcher, inglês de tanta preponderância na sociedade portuguesa do seu tempo, talvez a partir de 1826, época em que o palácio se transformou num grande centro de reuniões, principalmente da colónia inglesa. Mais tarde, em 1860, passou aos Condes de Condeixa [vd. imagem abaixo]No segundo ano da República habitou neste palácio o Presidente Manuel de Arriaga.

Palácio do Manteigueiro [1970]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91; possui outro meio de comunicação na Rua das Chagas, onde um portão de ferro, com o n.º 18, abre para um extenso corredor, que liga com o jardim, nas traseiras do edifício, e que servia à criadagem e dava passagem às carruagens.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Palácio do Manteigueiro [1970]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
 As actuais pedras de armas que coroam a janela de tribuna da entrada do palácio, são da família Condeixa.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Domingos Mendes Dias era considerado um dos maiores capitalistas do seu tempo e deixou uma fortuna que, na data do falecimento, foi avaliada em seis e meio milhões de cruzados, correspondentes a dois mil e seiscentos contos de réis. Apesar disso, até ao fim da sua vida, revelou-se um espírito tacanho, peculiar à sovinice de que deu bastas provas. Vivia com uma preta de avançada idade, que lhe preparava os alimentos, tudo do que havia de mais barato.
Devido ao seu feitio miserável, este estranho milionário chegou a ser preso pela ronda, por se tornar suspeito, uma noite em que transportava às costas a fruta verde que apanhara do chão, numa das suas quintas dos arredores. 
Contava-se que, nas longas noites de Inverno, o seu prazer favorito consistia em «formar cartuchos de cem peças de oiro». Jamais soube tirar do dinheiro o bom partido que ele pode dar, esse ricaço asqueroso, que faleceu nos princípios do século XIX (2), em consequência de um ataque de ladrões, à punhalada, pois que, mesmo nessa emergência, achando os gastos exagerados, implorou do médico que o tratava, que fosse mais comedido nos remédios... Da poupança surgiu a gangrena, que o levou como a qualquer pobre de Cristo.

Palácio do Manteigueiro, fachada principal na fase primitiva [c. 1900]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
Primitivamente de um só andar, águas-furtadas e dois pisos térreos, de janelas gradeadas,
que o declive do terreno permitiu edificar, correspondendo a loja e sobre-loja, do lado
da Rua da Emenda, tem hoje três pavimentos superiores.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Contrastando com a sua manifesta avareza, o milionário-«manteigueiro» vivia num ambiente de riqueza. Os interiores do palácio eram de um «luxo asiático», expressão de que se serviu Tinop. As quatro salas (branca, vermelha, verde e amarela), com os tectos pintados por Pedro Alexandrino (1730-1810) e ricas portas de madeira do Brasil, estavam forradas de damasco, recheadas de colgaduras e de «Opulenta mobília». Os espelhos eram de boas chapas de cristal e tanto as molduras como os tremós estavam dourados com «peças d'ouro derretidas». O salão de baile, como a sala de jantar, corriam ao longo da fachada virada à Rua da Horta Seca.

Palácio do Manteigueiro, escada nobre [2020]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
Fotógrafo Hélder Carita, Tiago Molarinho, in A Casa Senhorial

A Assembleia Lisbonense — também chamada Assembleia da Horta Seca, considerada durante os catorze anos da sua vigência, o melhor centro da plutocracia e da alta política, que constituíam a nata dos partidários da «Carta» — instalou-se em 1836, no Palácio do Manteigueiro; quando para lá foi, mutilou-o de cima a baixo. Mandou arrancar os tectos de excelente madeira de teca, todas as portas e ombreiras de magnifica madeira do Brasil. e vendeu tudo a ferros-velhos: o estuque igualitário destruiu, de vez, a preciosa concepção do velho Altronochi, arquitecto que ali pusera o melhor da sua arte. Ficou um casarão incaracterístico, de gosto duvidoso, mobilado á feição de Poisignon, com todas as chinesices então muito em moda no boulevard dos Italianos.
Por aqui passou, todavia, o que em Lisboa posava e orientava.

Palácio do Manteigueiro, capela [1966]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
Desmontado e guardado no Patriarcado de Lisboa, o oratório do palácio constituía  uma das peças mais elaboradas de todo o programa interior.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

No 1.º andar, merece especial referência a linda capela, com rica obra de talha e elegante cúpula, de um só altar, figurando no retábulo a imagem de Nossa Senhora. Não sabemos se é contemporânea das fundações do palácio, ou se teria sido mandada construir pelo visconde de Condeixa. No ano de 1913 instalou-se aqui a sede da Vacuum Oil Company acabando por comprar o edifício em 1920. É esta empresa que realiza as grandes obras do edifício acrescentando um andar nobre ao edifício. Se a morfologia do palácio é assim radicalmente alterada, as escadarias nobres foram preservadas protegendo-se uma estrutura arquitectónica de inequívoco valor estético. Nestas obras é igualmente desarmado o oratório da casa e guardado no Patriarcado de Lisboa.
_________________________________________
Bibliografia
ALMEIDA, Mário de. LISBOA do Romantismo, 1917.
COSTA, Mário, O Palácio do Manteigueiro, in Olisipo, Abril de 1958.
acasasenhorial.org.

Friday, 4 March 2016

Cais da Lingueta e Beco do Penabuquel

Este arruamento Cais da Lingueta, noutros tempos era mencionado como «Boqueirão da Lingueta» ou «Travessa do Cais da Lingueta».
Lingueta é o nome dado à pequena ladeira ou rampa ao pé da qual se arrima a embarcação para receber ou despejar gente nos embarcadouros, pelo que o arruamento Cais da Lingueta, que liga a Rua do Jardim do Tabaco à Avenida Infante Dom Henrique fixa na memória de Lisboa o antigo Cais do tempo em que o mar aqui chegava.

Cais da Lingueta [1944]
Ao fundo, do lado de lá da Rua Jardim do Tabaco, vê-se o arco do 
Beco do Penabuquel, uma das antigas portas da muralha Fernandina.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Sigamos os passos do olisipógrafo Norberto de Araújo e «Enfiemos agora pelo Beco do Penabuquel, palavra que — pelo que anda escritodeve ser corruptela de qualquer vocábulo árabe, ou de outra expressão portuguesa, cujo sentido original se perdeu. 
Aqui todo o pitoresco se dilui, e compreende-se: de um lado são as traseiras dos prédios edificados depois do Terramoto para alargamento dos Remédios, do outro as traseiras dos prédios da face norte da Rua do Jardim do Tabaco, da mesma idade aproximada.
Numa reentrância, vão entre prédios pertencentes à Câmara, vê-se esta data: 1891.
O mais curioso e decorativo do Beco é o seu arco de comunicação, última reminiscência, talvez, dos restos da muralha da Cerca de D. Fernando, que corria do Chafariz de Dentro até ao Postigo da Pólvora, situado no actual Largo do Museu de Artilharia, para subir às Portas da Cruz.»

Arco e Beco do Penabuquel [c. 1900]
Acesso à Rua do Jardim do Tabaco através da Cerca de D. Fernando
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 98, 1939.

Friday, 21 November 2025

Rua dos Remédios que foi «das Portas da Cruz»

Descendo as escadinhas de Santo Estêvão, entra-se numa das mais importantes e populosas ruas da Alfama, a dos Remédios, assim chamada desde 1859, e antes Rua das Portas da Cruz, invocação tradicional, justificada pela existência, no seu cabo, de uma das mais importantes portas naturais de Lisboa, que se integrou na Cerca de D. Fernando, no século XVIII foi chamada também, no seu troço inicial pelo menos, Calçada dos Remédios.

Rua dos Remédios |1962|
Troço junto ao Beco da Maria Guerra.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL.

Logo ao princípio da rua, para quem vem do Chafariz de Dentro [vd. imagem adiante], à esq., a ermida dos Remédios do Espírito Santo de Alfama, fund. em 1551 para capela do hospital dessa denominação pelos navegantes e pescadores do bairro.
No Itinerário lisbonense, de 1818, figuram duas Ruas dos Remédios: uma que principia no Largo do Terreiro do Trigo e termina na Rua das Portas da Cruz, e outra que é a quarta à esquerda, entrando pela Rua da Lapa. [Guia de Portugal: 1924]

Rua dos Remédios |1949|
Vista tomada do Largo do Chafariz de Dentro.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Friday, 2 May 2025

Escadinhas dos Remédios (arco das)

A Rua dos Remédios segue no seu último troço, à esquerda, até à confluência do Paraíso; nós enfiamos — na companhia de Mestre Araújo  — por este pitoresco arco das Escadinhas dos Remédios – tão pintado por artistas poetas – com a nesga do Tejo ao fundo.
O arruamento faz referência à ermida de Nossa Senhora dos Remédios. Esta ermida chamou-se do Espírito Santo. Como se passou de um orago a outro: “Nesta Ermida do Espírito Santo havia um poço, onde certo dia apareceu uma imagem de Nossa Senhora, a qual apesar de ser tirada da água, vinha enxuta em sua pintura e tecido. Milagre foi! E acorriam os pescadores e famílias a implorar à Virgem remédio a seus males, e Nossa Senhora os curava. Daí a receber a imagem a invocação de Nossa Senhora dos Remédios foi um salto.” [Araújo: X, 1939]

Escadinhas dos Remédios |c. 1945|
(Dístico de 1879)
Perspectiva tirada do Beco da Lapa.
Fernando Martinez Pozal,  in Lisboa de Antigamente

N.B. No Itinerário lisbonense, de 1818, figuram duas Ruas dos Remédios: uma que principia no Largo do Terreiro do Trigo e termina na Rua das Portas da Cruz, e outra que é a quarta à esquerda , entrando pela Rua da Lapa, vindo dos Navegantes e termina na Rua da Santíssima Trindade (actual Garcia de Orta).

Escadinhas dos Remédios |meado séc. XX|
(Dístico de 1879)
Perspectiva tomada da Rua dos Remédios.
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 15 July 2018

Rua dos Remédios à Lapa

Topónimo atribuído por Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 para denominar a até aí designada Rua dos Remédios, conforme refere o olisipógrafo Pastor de Macedo:
Aparece em 1759 sob o nome de Rua de Nossa Senhora dos Remédios, nome que depois se simplificou para Rua dos Remédios. Este foi substituído pelo de Rua dos Remédios da Lapa (e não à Lapa) por edital do Governo Civil de 1 de Setembro de 1859. Conforme diz G. de B. [Gomes de Brito] o nome desta artéria foi dado "em homenagem a Nossa Senhora dos Remédios, padroeira do convento de carmelitas descalços, fundado em 1582 na rua larga que vai de Santos para Alcântara" (actual Rua das Janelas Verdes).
(MACEDO, Luís Pastor de, Lisboa de Lés-a-Lés, vol. IV, 1938)

Rua dos Remédios à Lapa [c. 1900]
Ao fundo, a Rua Garcia de Orta
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Rua dos Remédios à Lapa [c. 1900]
Serralharia Jacob Lopes da Silva; ao fundo, a Rua Garcia de Orta
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Friday, 5 April 2019

Palácio dos Viscondes dos Olivais

Encontramos a rua larga e arejada chamada do Pau da Bandeira — escreve Norberto de Araújo — , dístico antigo pitoresco, e cuja origem me escapa.
Êsse grande palácio, dominando a área, n.º  11, confinado entre quatro ruas, foi antiga propriedade dos  Viscondes dos Olivais, e é, desde 1927, a Legação da Alemanha.

Antigo Palácio dos Viscondes dos Olivais [1927]
Rua do Pau de Bandeira, 11
Actual Embaixada da República Popular da China 
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

Esta Rua do Pau de Bandeira, das freguesias da Lapa e dos Prazeres, foi um topónimo fixado em Lisboa em data desconhecida mas certamente posterior aos séculos XVI e XVII, já que foi no decurso destes que nesta zona começaram a surgir os primeiros conventos e entre os quais se rasgaram os primeiros arruamentos a partir da 2ª metade do século XVIII, como a Rua do Meio, a Rua de S. Félix, a Rua dos Remédios ou a Rua de S. João da Mata, povoamento que se foi intensificando depois do terramoto de 1755.

Antigo Palácio dos Viscondes dos Olivais [1937]
Rua do Pau de Bandeira, 11
Actual Embaixada da República Popular da China 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 51-52, 1938.
cm-lisboa.pt.

Thursday, 6 August 2020

Beco de Maria da Guerra

Ora aqui temos, à esquerda — diz Norberto de Araújo —, o Beco da Maria Guerra, que leva a Santo Estêvão; é uma linha quebrada cheia de reentrâncias, e que abre por umas escadinhas. Nele podes observar apenas umas bizarras moradias no n.° 20, tipo Santo Estêvão.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, 1939)

Beco de Maria da Guerra [1945]
Vista tomada da Rua do Remédios
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Este Beco de Maria da Guerra, que liga a Rua dos Remédios à Rua de Santo Estêvão, já aparece referido nas plantas da freguesia de Santo Estêvão após a remodelação paroquial de 1780 embora se desconheça quem tenha sido a figura de que a artéria guardou a memória.
O olisipógrafo Gomes de Brito aventou que esta Maria da Guerra seria a mãe do poeta Gregório de Matos Guerra, que vivia na Baía em 1630. Por seu turno, o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo discordou dessa ideia e apontou que seria mais plausível uma Maria da Guerra mencionada na freguesia da Sé em 1651. [cm-lisboa.pt]

Beco de Maria da Guerra [c. 1900]
Vista tomada da Rua do Remédios
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 15 June 2025

Santo Estêvão: da Calçadinha e das Escadinhas até ao Largo

Nas suas Peregrinações em Lisboa, Norberto de Araújo — a quem vamos sempre seguindo — depois de historiar modificações anteriores, diz: «Em 1833 Alfama formava um dos quatro distritos de Lisboa — veja-se a sua largueza por extensão convencional! — com 12 freguesias, afinal todas as paroquiais em redor do Bairro alfamista puro, incluindo o Castelo, mas ficando São João da Praça integrada no distrito do Rossio. Em 1852 ainda Alfama era um dos quatro distritos da cidade, já com São João da Praça em sua área natural, mas arrebanhando os Anjos e o Socorro! 
Em 1867 desapareceram todos os bairros de distinção nominal, e só então a palavra Alfama sucumbiu, oficialmente».

Tuas vielas velhinhas
Tuas ruas tão estreitinhas
São glórias, têm fado
Tu és a Lisboa antiga
Onde há sempre uma cantiga
P’ra recordar o passado

(do fado Alfama Velhinha de Armando Santos)

Estevão (calçadinha de Santo) segunda á esquerda na rua dos Remedios, indo do largo do chafariz de Dentro e finda na rua da Regueira, freguezia de Santo Estevão 2 a 28 e 1 a 35. [Velloso: 1869]

Santo Estêvão: Calçadinha e Escadinhas |c. 1945|
Perspectiva tirada da Rua da Regueira.
Fernando Martinez Pozal,  in Lisboa de Antigamente

Descendo as Escadinhas de Santo Estêvão — recorda o ilustre Norberto de Araújo — encontramos o balneário municipal [vd. 3ª imagem], construído em 1936, e logo pequeno Largo que cai sobre a Rua da Regueira, diante do Beco do Espírito Santo, ficando-nos à esquerda a Rua dos Remédios.

Calçadinha de Santo Estêvão com a Rua da Regueira |1950|
Beco do Espírito Santo
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

enquadramento é gracioso, seja qual for o conceito que nós possamos ter de beleza nestes quadrinhos bairristas, onde — e é o caso neste sítio — o pitoresco, o religioso, o fidalgo com o solar dos Azevedos Coutinhos. se dão mãos, para que Alfama se represente nos três Estados. 
(ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 90-92, 1939)

N.B. O topónimo Santo Estêvão, na freguesia de Santo Estevão, advém da igreja do mesmo orago.

Calçadinha de Santo Estêvão |c. 1945|
À esq.no nº 19, nota-se o antigo balneário municipal.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Estevão (escadinhas de Santo) terceira á esquerda na rua dos Remedios indo de largo do chafariz de Dentro e findam na calçadinha de Santo Estevão, freguezia de Santo Estevão 2 a 18 e 1 a 23.
Estevão (largo de Santo) faz frente á egreja de Santo Estevão, e é aonde vão terminar as escadinhas de Santo Estevão, beco do Chanceller, ruas do Vigraio e Cruz do Mau, freguezia de Santo Estevão 1 a 16.
[Velloso: 1869]

Escadinhas e Largo de Santo Estêvão |1944|
Igreja de Santo Estêvão (traseiras) e Arco do Chanceler junto ao Palácio Azevedo Coutinho.
J. C. Alvarez, in Lisboa de Antigamente

Saturday, 14 May 2016

Largo do Chafariz de Dentro (ou dos Cavalos)

O olisipógrafo Norberto de Araújo refere-se a este local como «o mais pitoresco apontamento de Lisboa em dez léguas da grande póvoa. Tudo quanto é generoso de expressão popular assentou aqui arraial. Alfama tem o seu Rossio — S. Miguel; a sua Sé — Santo Estêvão; o seu Terreiro do Paço — o Largo do Chafariz de Dentro. (...) este sítio chama-se «de Dentro», porque ficava dentro das muralhas do século XIV, que passavam um pouco mais recuadas, e em recta, em relação à linha de trânsito Terreiro do Trigo-Jardim do Tabaco.
O mesmo autor considera ainda este Largo de Alfamana confluência entre a Ruas do Terreiro do Trigo, do Jardim do Tabaco, dos Remédios e de São Pedro — , como «o Rossio de tôda a Alfama, e melhor diria o seu Terreiro do Paço pois muitos séculos não há que o mar aqui chegava.¹
 
Largo do Chafariz de Dentro [Início séc. XX]
Chafariz de Dentro ou dos Cavalos
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
Largo do Chafariz de Dentro [Início séc. XX]
Chafariz de Dentro ou dos Cavalos
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Lera Calisto Elói que também o chafariz dos cavalos da rua Nova tinha prodigiosas virtudes em cura de moléstias de olhos. Procurou a rua Nova, que o terramoto de 1755 soterrara; procurou o chafariz, que, segundo ele, devia estar na rua dos Capelistas [actual do Comércio] ou Algibebes [actual de S. Julião] sucessoras daquela rua. Ninguém lhe dava conta do chafariz dos cavalos; e alguns lojistas interrogados supuseram que o provinciano não podia beber em fonte que não tivesse aquela aplicação.
O erudito respondia aos chacoteadores:
— Pois saibam que se perdeu um mirífico chafariz! Rezam os meus livros que as salubérrimas águas desta fonte perdida tinham a propriedade oculta de engordar as carruagens que bebiam dela; e acrescenta Marinho de Azevedo, textualíssimas palavras: e quando ela faz tão conhecidos efeitos nos animais, os fizera nos corpos humanos, se a beberam na sua fonte.
— Este homem parece que tem uma carruagem magra no corpo!
Com estas zombarias é que em Portugal os sábios são premiados. Se Calisto fosse um parvo, o Governo dava-lhe um subsídio até ele achar o chafariz dos cavalos.
(Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo, 1866)

Largo do Chafariz de Dentro [1961]
Chafariz de Dentro ou dos Cavalos
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

O Chafariz de Dentro, que não teve sempre esta disposição, (...) existia já no século XIV, com fartas águas que brotam do seu manancial vetusto, e foi objecto de arranjos em 1494. A sua principal reforma parece ser aquela a que se refere a inscrição em mármore rosa, colocada na frontaria e que reza na letra e ortografia da época: «Êste Chafariz mandou a Câmara desta Cidade reformar no ano de 1622, sendo presidente dela João Furtado de Mendonça do Conselho de Sua Magestada, e mais abaixo: «O qual se reformou com o dinheiro do real d'agua».»

Largo do Chafariz de Dentro [1929]
Chafariz de Dentro ou dos Cavalos
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Acrescenta Norberto Araújo que este «Chafariz chamou-se primitivamente «dos Cavalos» por motivo de as águas abundantes jorrarem da boca de cavalos de bronze que adornavam a frontaria; esses bronzes tê-los-iam levado os castelhanos, como recordação, quando levantaram o cerco a Lisboa (3 de Setembro de 1384), isto na interpretação dos dizeres de Fernão Lopes, o que não se concilia com a descrição que do chafariz faz Damião de de Góis (meados do século XVI), e na qual dá os cavalos existentes ainda. Há destas frequentes disparidades nos nossos livros velho[s].2

Largo do Chafariz de Dentro [c. 1950]
Chafariz de Dentro ou dos Cavalos
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. É provavelmente o chafariz mais antigo de Lisboa, também designado por Chafariz N.º 19. As águas deste chafariz abasteciam o Chafariz da Praia [de Alfama] e os seus sobejos iam para um tanque de lavadeiras no Cais da Lingueta. No século XIX, tinha quatro bicas, quatro companhias de aguadeiros, quatro capatazes, cento e trinta e dois aguadeiros e um ligeiro. (ANDRADE: 1851)
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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, «Legendas de Lisboa», p. 194, 1943.
2 idem, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 66-67, 1939. 
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