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sexta-feira, 6 de julho de 2018

Rua Alexandre Herculano (Palacete da Condessa de Edla)

Sobre esta zona da cidade relembra-nos o olisipógrafo Norberto de Araújo que «Aqui, no começo de Conde Redondo e Santa Marta, do lado poente, existiu, no fundo de um jardim, o Palacete da Condessa de Edla [vd. 2.ª foto], a esposa morganática de D. Fernando, marido de Maria II; foi tudo demolido para dar lugar (1938) ao prolongamento da Rua Alexandre Herculano, que ai tens, já terraplanada, inaugurada em 25 de Outubro deste ano de 1939».

Rua Alexandre Herculano [1940]
Observa-se  à dir. a Rua Camilo Castelo Branco e, à esq., a Rua Rodrigues Sampaio; em último plano a Avenida da Liberdade
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

N.B.: Alexandre Herculano de Carvalho Araújo (1810-1877) nasceu no Pátio do Gil, na Rua de São Bento. Foi poeta, romancista, historiador e ensaísta. Juntamente com Almeida Garrett, é considerado o introdutor do Romantismo em Portugal. Foi o renovador do estudo da História de Portugal. 

Rua Alexandre Herculano [1938]
Palacete da Condessa de Edla
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Palacetee (terrenos, a azul) da Condessa d'Edla (demolido em 1938)
Legenda:
Vermelho (cheio): Rua Alexandre Herculano; Vermelho (tracejado) Prolongamento da Rua Alexandre Herculano (1939); Amarelo: Rua de Santa Marta; Verde: Rua do Conde Redondo
Levantamento topográfico de 1910, autor: Pinto, Júlio António Vieira da Silva [pormenor], 
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 88-89, 1939.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Mosteiro dos Jerónimos, Sala do Capítulo: Túmulo de Alexandre Herculano

A Sala do Capítulo tem esta denominação por servir às reuniões periódicas dos monges, as quais tinham o seu início com a leitura de um capítulo da Regra. Nessas reuniões, discutia-se a eleição dos priores, a recepção dos noviços e procedia-se à confissão pública das faltas.

Originalmente pensada para este efeito, a Sala do Capítulo nunca teve tal utilização pois a abóbada e decoração interior só foi completada no séc. XIX. A porta foi concluída nos anos de 1517-1518, tendo sido executada por Rodrigo de Pontezilha. Na sua decoração destacam-se duas imagens representando S. Bernardo e S. Jerónimo.


No centro da sala foi colocado, no século XIX, o túmulo de Alexandre Herculano delineado por Eduardo Augusto da Silva. Em 1940 é modificado, sendo deixada singelamente apenas a arca tumular. 
 
A singela arca tumular de Alexandre Herculano [séc- XIX]
Sala do Capítulo, Mosteiro dos Jerónimos
Domingos Alvão, in Lisboa de Antigamente

A Sala do Capítulo foi também utilizada como panteão de outros escritores e presidentes da República, até à finalização das obras na Igreja de Santa Engrácia. Convertida em Panteão Nacional, foram então para aí trasladadas as personalidades mais recentes da História de Portugal.
A trasladação do corpo de Herculano, que se encontrava no jazigo da Família Gorjão, em Santa Iria da Azóia, para a sala do capítulo nos Jerónimos ocorreu em 1888.

Túmulo de Alexandre Herculano [1934]
Sala do Capítulo, Mosteiro dos Jerónimos
Domingos Alvão, in Lisboa de Antigamente

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, escritor e historiador, nasceu em Lisboa a 28/3/1810 e morreu em Vale de Lobos, a 13/9/1877.
Obras: A harpa do crente (1838); O bobo (1843); Eurico, o presbítero (1844); O monge de Cister (1848); Lendas e narrativas (1851); História de Portugal (em quatro volumes, o último publicado em 1853).
No túmulo está gravado um excerto do poema «A harpa do Crente» que reza assim: 
Dormir? Só dorme o frio
Cadáver que não sente
Alma voa e se abriga
Aos pés do Omnipotente.

Túmulo de Alexandre Herculano [c. 1910]
Sala do Capítulo, Mosteiro dos Jerónimos
Poema inscrito na arca tumular
Garcia Nunes, in A.M.L.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Sinagoga Shaaré Tikva (Portas da Esperança)

A sinagoga Shaaré Tikvá (“Portas da Esperança"), na Rua Alexandre Herculano, abrira em 1904 longe da vista pública, porque a Carta Constitucional proibia templos não-católicos. Desde Outubro de 1910, com a República laica, o gregarismo hebraico tendeu a aumentar, embora a aprovação dos estatutos da CIL , submetidos ao Parlamento em Junho de 1911, levasse quase um ano, até Maio de 1912. Vigorava já a Lei da Separação das Igrejas do Estado (1911) e proclamara-se a liberdade dos cultos. [Edeline: 2002]


Existiam em Lisboa, desde 1810, várias casas de oração, mas dificilmente reuniam as condições necessárias ao culto, pois situavam-se em modestos andares. Assim apesar das dificuldades ocasionadas pela falta de reconhecimento oficial, a Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) consegue comprar, em nome de particulares, um terreno para a construção de um edifício de raiz, próprio e condigno.

Sinagoga Shaaré Tikvá («Portas da Esperança», do hebraico) |c. 1903|
Primeiro templo não católico em Portugal continental desde 1497; Casa Ventura Terra, Prémio Valmor de 1903.
Rua Alexandre Herculano, 59
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

O projecto da sinagoga foi da autoria de um dos maiores arquitectos da época, Miguel Ventura Terra. Situada no n.º 59 da Rua Alexandre Herculano, teve de ser construída dentro de um quintal murado (contigua à Casa Ventura Terra, atelier do arquitecto), dado que não era permitida a construção com fachada para a via pública de um templo que não fosse de religião católica, então religião oficial do estado.

Sinagoga Shaaré Tikvá («Portas da Esperança», do hebraico) |c. 1903|
Primeiro templo não católico em Portugal continental desde 1497; Casa Ventura Terra, prémio Valmor de 1903.
Rua Alexandre Herculano, 59
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Lançada a Primeira Pedra em 1902, a Sinagoga Shaaré Tikvá é finalmente inaugurada em 1904, culminando um esforço de mais de 50 anos dos judeus de Lisboa.

Sinagoga Shaaré Tikvá («Portas da Esperança», do hebraico) |c. 1903|
Primeiro templo não católico em Portugal continental desde 1497; Casa Ventura Terra,
Prémio Valmor de 1903.
Rua Alexandre Herculano, 59
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Avenida da Liberdade, esquina com a Rua Alexandre Herculano

Em 1941, a Associação Industrial Potuguesa (A.I.P.) adquiriu nova sede, desta feita na Avenida da Liberdade, num amplo palacete onde se manteve até 1958. Foi demolido em 1963/64..

Avenida da Liberdade, esquina com a Rua Alexandre Herculano [Início séc. XX]
Palacete onde esteve instalada a sede da Associação Industrial Portuguesa (A.I.P.) entre 1941-1958.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

O topónimo Rua Alexandre Herculano foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa, através de Deliberação Camarária de 06/05/1882, à “perpendicular à Avenida da Liberdade, em direcção ao Largo do Rato”. Pela mesma deliberação foram atribuídas na mesma área a Rua Castilho, a Rua Barata Salgueiro, a Praça do Marquês de Pombal e a Rua Mouzinho da Silveira. 

Rua Alexandre Herculano com a Avenida da Liberdade [1961]
Palacete sede AIP
Augusto Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, escritor e historiador, nasceu em Lisboa a 28/3/1810 e morreu em Vale de Lobos, a 13/9/1877.
Juntamente com Almeida Garrett, é considerado o introdutor do Romantismo em Portugal. Foi o renovador do estudo da História de Portugal. [cm-lisboa.pt]

Palacete sede AIP, fachada sobre a Rua Rodrigues Sampaio [1961]
Augusto Fernandes,
in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 4 de março de 2022

Ruas Alexandre Herculano e Castilho

O topónimo Rua Alexandre Herculano foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa, através de Deliberação Camarária de 06/05/1882, à “perpendicular à Avenida da Liberdade, em direcção ao Largo do Rato”. Pela mesma deliberação foram atribuídas na mesma área a Rua Castilho, a Rua Barata Salgueiro, a Praça do Marquês de Pombal e a Rua Mouzinho da Silveira.

Rua Alexandre Herculano [Início séc. XX]
Éh! galinhas!  Mérca frangos! Galinhas! Quem nas quér i com ôvo?
O prédio de dois pisos (já demolido) — e que fazia esquina com a Rua Castilho foi residência de João Franco Castelo Branco, último Presidente do Conselheiro do Rei D. Carlos I, entre 1906 e 1908: o edifício contiguo, que torneja para a Rua Mouzinho da Silveira, ainda existe.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

O topónimo Rua Castilho foi atribuído pela edilidade em 1882, homenageia António Feliciano de Castilho, um dos grandes escritores da primeira época do romantismo em Portugal, em conjunto com Garrett e Herculano. Notabilizou-se especialmente pela riqueza e expressão artística da linguagem. Castilho nasceu em Lisboa a 28/01/1800 e morreu em Lisboa a 18/06/1875.

Rua Castilho [ant. 1907]
Venda ambulante de toalhas
Cruzamento com a Rua Alexandre Herculano; ao fundo, o antigo Quartel do Vale de Pereiro (Quartel de Caçadores 2) na actual Rua Braamcamp.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

Nota(s): Infelizmente as duas últimas imagens são de baixa qualidade/resolução, graças ao paupérrimo trabalho de digitalização efectuado pelo Arquivo Municipal de Lisboa (amL).

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Casa Ventura Terra

O Prémio Valmor de Arquitectura de 1903 coube a um edifício, a Casa Ventura Terra, na Rua Alexandre Herculano, 57, do qual Miguel Ventura Terra (1866-1916) foi o arquitecto e proprietário.
Edifício com decoração sóbria, vãos esguios com persianas articuladas de recolha lateral, elementos que o distinguiram dos edifícios da altura.
Destaque ainda para o friso superior de azulejos pintados no estilo Arte Nova. Mantém a função original, habitação para rendimento.

Casa Ventura Terra |c. 1903-1904|
Rua Alexandre Herculano, 57;
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Miguel Ventura Terra nasceu em Seixas do Minho, Caminha, a 14 de Julho de 1866. Frequentou o curso de Arquitectura da Academia Portuense de Belas Artes entre 1881 e 1886. Nesse ano, viajou até Paris como pensionista do Estado, na classe de Arquitectura Civil. Na capital francesa estudou na École Nationale et Speciale des Beaux-Arts e no atelier de Victor Laloux. Regressou a Portugal em 1896 e foi nomeado arquitecto da Direcção de Edifícios Públicos e Faróis. Nessa altura, triunfou no concurso para a reconversão do edifício das Cortes na Câmara dos Deputados e Parlamento, em Lisboa. Foi autor de palacetes, de habitações de rendimento mais qualificadas, essencialmente na capital portuguesa, construções eclécticas, cosmopolitas e utilitárias, mas também de importantes equipamentos urbanos como a primeira creche lisboeta (1901), da Associação de Protecção à primeira Infância; a Maternidade Dr. Alfredo da Costa (1908) e os liceus Camões (1907), Pedro Nunes (1909) e Maria Amália Vaz de Carvalho (1913). Projectou, igualmente, dois pavilhões da representação portuguesa na Exposição de Paris, de 1900, bem como o pedestal do monumento ao Marechal Saldanha (em Lisboa), com o escultor Tomás Costa (1900); a Basílica de Santa Luzia, de Viana do Castelo (1903); a Sinagoga de Lisboa (Shaaré Tikvá ou Portas da Esperança, vd. imagem acima) inaugurada em 1904 na Rua Alexandre Herculano; o edifício do Banco Lisboa & Açores, na Rua do Ouro, Lisboa (1906); o Teatro Politeama, Lisboa (1912-1913), representativo da Arte do Ferro; e o Palace Hotel de Vidago. Alcançou quatro vezes o Prémio Valmor de Arquitectura (1903, 1906, 1909 e 1911) e uma Menção Honrosa, no mesmo concurso (1913).

Casa Ventura Terra |c. 1903-1904|
Rua Alexandre Herculano, 57
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Também trabalhou na área do urbanismo, nomeadamente com projectos para o Parque Eduardo VII (em Lisboa), planos para a zona ribeirinha da capital (1908) e o plano de urbanização do Funchal (1915). Ventura Terra foi um dos grandes responsáveis pela criação da Sociedade dos Arquitectos Portugueses, em actividade desde 1903, e da qual foi o primeiro presidente. Exerceu o cargo de vogal do Conselho dos Monumentos Nacionais e foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa até 1913. Morreu em Lisboa a 30 de Abril de 1919.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Garagem Auto-Palace

Construída para a Sociedade Portuguesa de Automóveis, segundo projecto de Vieillard & Touzet, datado de 1906, trata-se de um edifício de planta quadrada, desenvolvido em dois pisos encimados por frontão curvo ladeado por duas pilastras. Classificado como Imóvel de Interesse Público, traduz uma arquitectura civil de equipamento ecléctica e dos raros exemplares da arquitectura do ferro em Lisboa, observando-se a permanência dos esquemas arquitectónicos oitocentistas com recurso a uma gramática decorativa de cariz neoclássico, visível na entrada tripartida, a par de uma linguagem Arte Nova patente na utilização do ferro associado ao vidro, no grafismo ondulante da palavra Auto-Palace do frontão, assim como nos vitrais do 2º piso, datados de 1907 e assinados por C. Martins, que têm como temática principal o automóvel, enquadrado por uma malha fina e sinuosa de motivos florais.
Foi considerado uma das 100 Obras de Engenharia mais relevantes do século passado. [icm-lisboa.pt]

Garagem Auto-Palace [1908]
Rua Alexandre Herculano
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Esta Rua de Alexandre Herculano — recorda o ilustre Norberto de Araújo — pertence já à urbanização de Lisboa do fim do século passado [XIX]- moderna , desafogada , de construções sólidas, e algumas dignas de uma capital, e que sucederam a antigos prédios e casebres.

Garagem Auto-Palace [1907]
Rua Alexandre Herculano
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Transporte colectivo em experiência. À data da 1ª imagem o edifício é ocupado pela "Portuguese Motor & Machinery Company, Ltd"- Sucessores; no local actualmente ocupado pela entrada do Mercado do Rato, havia então a carpintaria Mechanica Portugueza; o veículo a sair do salão, faz uma demonstração, como se infere da placa existente na sua dianteira.

Garagem Auto-Palace [1908]
Rua Alexandre Herculano
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Rua Alexandre Herculano, 25

Prémio Valmor em 1911


O Prémio Valmor, em 1911, foi atribuído a um edifício de habitação. Este situa-se no nº 25 da Rua Alexandre Herculano. O projecto é da autoria do arq. Miguel Ventura Terra (1866-1919) e o proprietário era António Tomás Quartim.

Rua Alexandre Herculano, 25 |c. 1911|
Prémio Valmor em 1911
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Considerado um excelente modelo de arquitectura urbana, este edifício apresentava um nobre estilo, incorporando diversos materiais e demonstrando uma notória influência parisiense.
Actualmente encontra-se em bom estado e funciona aqui uma Conservatória do Registo Civil.

Rua Alexandre Herculano, 25  |c. 1952|
Prémio Valmor em 1911
Gustavo de Matos Sequeira, in Lisboa de Antigamente

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Sítio do Vale de Pereiro

Em cima — refere Norberto de Araújo — corria o Vale Pereiro, do qual existe, em reminiscência, uma parcela da Rua com aquele dístico, e que leva do Salitre a Alexandre Herculano.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 38, 1939)

A primitiva Rua  do abarracamento de Vale de Pereiro (1859) que hoje liga as Ruas Alexandre Herculano e do Salitre, passava a S. do Parque do Parque Eduardo VII (onde hoje se encontra a Praça Marquês de Pombal), e findava no Largo de Andaluz/São Sebastião da Pedreira (vd. mapa abaixo). 

Rua do Vale de Pereiro |c. 1903|
Demolição do muro do antigo Quartel do Vale de Pereiro (Caçadores 2); o troço que se vê na imagem corresponde actualmente à Rua Braamcamp (1887) rasgada na viragem do séc. XX; ao fundo, à direita, a «Casa Ventura Terra, Prémio Valmor de 1903» sita na Rua Alexandre Herculano, 57.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nesta rua que foi "do abarracamento" de Vale do Pereiro — diz o olisipógrafo Matos Sequeira — , em frente do quartel, ficava em 1819 a afamada Casa de Pasto do Freixo, uma das hortas mais concorridas pela boémia popular desse tempo e, é de crer, pela tropa que transbordava do quartel.

Carta topográfica de 1888 [fragmento]
Legenda:
A vermelho a Rua do Vale de Pereiro
A amarelo a Rua Braamcamp
A verde a Rua Alexandre Herculano
A azul Quartel do Vale de Pereiro (Caçadores 2)
in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Leiteiros na Rua Alexandre Herculano

Às vezes, ainda a manhã vinha longe, já se ouvia pela rua o passar do leiteiro e das vacas [e cabras]. Avisava a freguesia batendo-lhe às portas e anunciando-se;
— Leitii ... leiti ... i
Ao mugir dos animais tinha sempre uma fala amiga e paciente:
— Eh ! ... "Linda" ... Vá, "Galante" ...
E na manhã que despontava, quando o sol começava doirando os topos das torres das igrejas, o leiteiro e as vacas, com o seu pregão, os seus gritos e o chocalhar das campainhas, emprestavam às ruas e aos largos a nota pitoresca com a qual o progresso da Lisboa de hoje há muito se não conforma.

Leiteiros na Rua Alexandre Herculano |1956|
Distribuição do leite aos leiteiros junto à Garagem Auto-Palace (esq.), construída
para a Sociedade Portuguesa de Automóveis, segundo projecto de Vieillard & Touzet, datado de 1906.

Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL.

Também mulheres ou homens vendiam leite, de porta em porta, carregando as bilhas e medidas que deixavam nos passeios para não ter de as levar até aos andares. Se passava canito rafeiro, vira-latas, era certo e sabido que não deixaria de assinar o ponto com uma mijinha... 
Pelo que se vê, a higiene da venda do leite não seria a mais própria, e quando vieram as disposições camarárias regulamentando a sua venda muita gente protestou, como é hábito entre nós... 

Leiteiros na Rua Alexandre Herculano |1909|
Esquina com Rua Castilho
E o leite, quente, espumava para dentro das vasilhas e cheirava que era um regalo. E a rapaziada logo se refastelava com aquele lanche magnífico que as mães lhes dava, ignorando que a falta de fervura o tornava pouco higiénico.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no arquivo. Infelizmente a imagem é de baixa qualidade/resolução, graças ao paupérrimo trabalho de digitalização efectuado pelo arquivo municipal de Lisboa (amL).

Bibliografia
CÂNCIO, Francisco, Arquivo alfacinha, 1953
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Rua Braamcamp

Saem-nos, a poente, a Rua Braamcamp que por Alexandre Herculano leva ao Rato, e a Rua Joaquim António de Aguiar. (...) São artérias novas, com menos de trinta anos [c. 1910] de edificadas, desafogadas, mas nas quais nada encontramos que mereça especial referência.»
(ARAÚJO. Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 51, 1939)

Rua Braamcamp, junto da Rua Rodrigo da Fonseca |1950|
Em primeiro plano, a Rua Alexandre Herculano.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Este arruamento com início na Praça Marquês de Pombal e fim na Rua Alexandre Herculano, homenageia Anselmo José Braamcamp que nasceu em Lisboa em 23/10/1819 onde faleceu em 13/11/1885.
Político alfacinha, licenciou-se em Direito em 1840 na Universidade de Coimbra e foi nomeado delegado do procurador régio em Almada, cargo que exerceu até 1845, ano em que foi nomeado para idêntico lugar em Lisboa vindo a exercer as funções de secretário geral. Quando o Marquês de Sá da Bandeira desembarcou no Algarve, já Anselmo Braamcamp lá estava ao lado da divisão militar como governador civil dos distritos do Sul.

Rua Braamcamp no cruzamento com a Rua Rodrigo da Fonseca |1943|
À esquerda vê-se o edifício Heron Castilho.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Acabadas as lutas com a entrada de Saldanha em Lisboa, foi eleito Deputado por um dos círculos desta cidade, ocupando o lugar por vários círculos até 1884. Foi ministro da Fazenda (1862), da Marinha e Ultramar (1866) e da Marinha (1868). Foi ainda líder do Partido Progressista (1875), ministro dos Negócios Estrangeiros (1879), para além ter orientado com Oliveira Martins, em 1885, o movimento político Vida Nova, de oposição a Fontes Pereira de Melo.
Tinha as grã-cruzes das Ordens da Torre e Espada e Nª Srª da Conceição, várias condecorações estrangeiras e a Grã-cruz da Legião de Honra.
A família Braamcamp é de origem holandesa. O primeiro a exercer cargos políticos em Portugal foi Hermano José Braamcamp, embaixador prussiano em Lisboa, no reinado de D. José. (cm-lisboa.pt)

sábado, 1 de outubro de 2016

Rua de São Bento

Vamos entrar na Rua de S. Bento, que bem corrida dá pelo menos dez tostões por dia. 


Isto dizia-se há cinquenta anos — escreve Norberto de Araújo em 1939 — acerca dos mendigos de profissão; tão comprida é a rua que, com método e paciência, um «pobre», começando cedo, e recolhendo um óbulo de de cinco réis em cada uma das duzentas portas onde batesse, ganhava a sua jorna. 
Pois não vamos percorrer esta extinta extensa artéria como o faziam os pedintes de há meio século, embora mesmo sem bater a porta alguma, muito ganhássemos em curiosidade satisfeita. 

Rua de São Bento, 181, esquina com a Rua de Santo Amaro, 1 [1908]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A Travessa de Santa Quitéria (1759), tal como a Rua de Santo Amaro, as Travessas de Santa Gertrudes (hoje Rua de Teófilo Braga), de S. Plácido, de Santa Escolástica (hoje Rua dos Ferreiros [à Estrela]), de Santo Ildefonso (todas datando de 1763), e a Rua de S. Bernardo, trinta anos mais moderna do que as anteriores, foram talhadas na cêrca do Convento de S. Bento; os nomes, postos pelos frades, são os dos santos da sua Ordem.

Rua de São Bento, 458 [c 1910]
Pátio do Gil — casa onde nasceu a 29 de Abril de 1810,
e viveu muitos anos, Alexandre Herculano; demolido na década de 1950.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Esta Rua de S. Bento do nosso lado esquerdo [de quem desce] — recorda-nos Norberto de Araújo —, era cheia de pátios, muitos desaparecidos; (...) o Pátio do Gil, que se rasga no prédio nº 458, este que vês com sete varandas no primeiro andar, acusando velhice, e um arco com passadiço ao fundo do qual está o mísero pátio, com seus casebres, que fazem um todo com a propriedade fronteira à rua. Conforme atesta a lápide colocada, em 26 de Abril de 1910, sobre a verga da porta, aqui nasceu a 29 de Abril de 1810, e viveu muitos anos  Alexandre Herculano, em casa mais tarde transfigurada do velho jeito de setecentos. O Gil, que deu nome ao Pátio, foi um António Rodrigues Gil, mestre carpinteiro, tio-avô, por parte da mãe, do grande historiador, e que principiou por construir aqui umas pequenas casas em 1756, no prédio habitou também o Arquitecto Manuel Caetano de Sousa, irmão do avô materno de Herculano.

Rua de São Bento, 634 [ant. 1908]
O Music-Hall de S.Bento-Rato funcionou como recinto de variedades na primeira década
do século XX.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
Nesta extensa artéria — e já muito próximo do Largo do Rato — existiu até c. 1910(?) o Music-Hall de S.Bento-Rato. um recinto de variedades ou «Casino», como eram  denominados à época este tipo de casas de espectáculos. E como na realidade se trata de uma rua «tão comprida», voltaremos a palmilhá-la em futuras «Peregrinações», sempre na companhia do ilustre mestre Norberto de Araújo. Até lá.
____________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 29-31, 1939.

domingo, 16 de junho de 2024

Rua do Salitre, ao Rato

Rua do Salitre, artéria que em muitos anos precedeu o Terramoto, a qual como sabes, foi chamada Rua da Palmeira no troço que ainda subsiste, pois já disse que ela chegava a S. José. 


Até ao séc. XIX a Calçada do Salitre ainda guardava muito do seu passado rural — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , logo a começar pelo seu topónimo derivado das nitreiras das hortas dos frades Cartuxos e será após a construção da Avenida da Liberdade que, gradualmente, passará a ter antes a categoria de Rua. Este topónimo nasceu das nitreiras ou salitrais que os frades de São Bruno – conhecidos como Cartuxos ou Brunos – tinham nas suas hortas, nos terrenos que detinham nesta artéria, já que salitre é o nome vulgar do nitrato de potássio, um adubo. O Salitre ganhou ao topónimo anterior, do séc. XVI, que era Horta da Palmeira. 

Rua do Salitre, ao Rato |1908-05|
Prédio — já demolido — para abertura do troço final da Rua Alexandre Herculano (c. 1910)
e que fazia gaveto com a Rua São Filipe Neri. A linha do eléctrico seguia para a Rua da Escola Politécnica.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A Rua do Salitre cujo lado esquerdo constituía a orla exterior do fundo da cerca do Noviciado da Companhia de Jesus, depois Colégio dos Nobres, que vendeu os terrenos para edificações — foi sítio onde habitaram muitos lisboetas de destaque, entre eles Garrett.
Em cima corria o Vale Pereiro, do qual existe, em reminiscência, uma parcela da Rua com aquele dístico, e que leva do Salitre a Alexandre Herculano. No alto da Rua do Salitre, n.º 148 residiu de 1816 para 1817 o general Gomes Freire de Andrade, ali preso em 26 de Maio daquele último ano; uma lápide foi colocada na fachada em 20 de Outubro de 1917.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, 1939)

Largo do Rato e Rua do Salitre |c. 1900|
Salitre (  direita ) principia no Largo do Rato, e termina na Av. da Liberdade.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Durante o séc. XIX, em diversos documentos municipais, plantas, requerimentos ou licenças para construção ou obras em prédios esta artéria tanto é assinalada quer como Calçada quer como Rua, mesmo que na 2ª metade do século seja mais usado Rua, sendo exemplo maior dessa dupla grafia um processo de expropriação de 1881- para a abertura da Avenida da Liberdade- em que a planta do local de Ressano Garcia refere Calçada e no texto do Presidente José Gregório Rosa Araújo se menciona Rua. [cml]

quarta-feira, 2 de março de 2016

Rua de Belém

Da fábrica (confeitaria) dos Pastéis de Belém à Farmácia Franco (onde nasceu o Sport Lisboa, mais tarde Sport Lisboa e Benfica)


O olisipógrafo Norberto Araújo caracteriza da seguinte forma este arruamento da antiga Lisboa arrabaldina:
Nesta Rua de Belém [antiga Direita de Belém até 1889] verifica-se o que tantas vezes temos notado: prédios que se encostam, uns sólidos e burgueses, outros pequenos e antigos, em confraria arruada. Nenhum é, porém, deste século, e, por consequência, a linha «modernista» não apareceu ainda por aqui, embora já campeie, ofegante de progresso, pela Boa Hora, Ajuda, e bairro novo do Almargem. 

Rua de Belém [1910]
Fábrica (confeitaria) dos «Pastéis de Belém», 84-86-92 (1º edifício a esq.)
Legenda da foto no arquivo: «Comemorações do centenário de Alexandre Herculano (1810-1877), cortejo a chegar aos Jerónimos»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Ora vejamos este prédio grandioso [na 2ª foto], para a sua época, desafogado, que é aquele que se confina entre as Travessas dos Ferreiros e de Marta Pinto, n.° 26. Foi construído entre 1881 e 1884 por Pedro Augusto Franco, Conde do Restelo, que adquiriu uma velhas casas que no local existiam, e que haviam sido, até 1834, as «Mercearias›» de Belém. [...)]
Pois o 1.° Conde de Restelo, Pedro Augusto Franco, adquiriu essas Casas e — «demolindo-as quási inteiramente — «elevou» o seu prédio. Ainda hoje num pátio interior, com serventia pela Farmácia, Franco, sobre um arco antigo, existe uma lápide que reza: «Mercearias da Rainha D. Catarina, que Deus tem, instituída para 20 cavaleiros de África. Em Maio de 1619». A data é da reconstrução da casa, pois a fundadora morreu em 1578.

Rua de Belém [1910]
O piso térreo do 2º edifício à esq. era ocupado pela Farmácia Franco
Legenda da foto no arquivo: «Comemorações do centenário de Alexandre Herculano (1810-1877), cortejo a chegar aos Jerónimos»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

   
Quanto à Farmácia Franco é dos mais antigos estabelecimentos de toda a Lisboa; foi fundada em 1821 por Inácio José Franco, pai de Pedro Augusto, o construtor do prédio (a farmácia já existia no lugar), avô do 2.° Conde, também Inácio José, bisavô de outro Pedro Augusto Franco, actual proprietário do prédio e farmácia.
Já agora, Dilecto, uma curiosidade: esta Fábrica (confeitaria) dos «Pastéis de Belém», n.° 84 e 86 92, é centenária; foi fundada por Domingos Rafael Alves, depois pertenceu ao filho Mário Benjamim Ramos Alves, que em 1920 a trespassou a uma sociedade. Os «pastéis» vieram à casa por compra do segredo da receita (outorgada em escritura), compra feita em 1879 a um tal José Vicente da Silva Pinto. A escritura não previa — «os plagiatos» da fórmula. [...] ¹ 

Rua de Belém [1916]
No piso térreo do 1º edifício à dir. vê-se a Farmácia Franco; ao fundo, o Mosteiro dos Jerónimos

Legenda da foto no arquivo: «Preparativos para o embarque das tropas que vão combater na Primeira Guerra Mundial»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente




 
Bibliografia
¹  ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 74-75, 1939.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Profissões de antanho: o leiteiro

Ordenhavam-nas diante de nós, nas vacarias. E algumas vezes, até, ao ar livre das ruas, pois nesses tempos a cidade e o campo ainda se confundiam na igual doçura de trabalho espreguiçado (...) Mal ouviu a minha encomenda, o homem agachou-se e, de cócoras, pôs-se a afagar as tetas do animal como se tocasse um instrumento luminoso, donde os dedos, com a leveza de gás, extraíam uma melodia branca, a acompanhar não sei que flauta de sonho pastoril. 
(FERREIRA, José Gomes (1900-1985),  O Irreal Quotidiano, Um instrumento maravilhoso atravessa a cidade)
Rua Castilho [1909]
(...) Mal ouviu a minha encomenda, o homem agachou-se...

 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Rua Castilho [1909]
... e, de cócoras, pôs-se a afagar as tetas do animal como se tocasse um instrumento luminoso...

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Rua Castilho [1909]
Ao fundo, o antigo Quartel do Vale de Pereiro (Quartel de Caçadores 2) na actual Rua Braamcamp.
 ... donde os dedos, com a leveza de gás, extraíam uma melodia branca, a acompanhar não sei que flauta de sonho pastoril.(...)
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente


Nota(s): O local onde o fotógrafo Joshua Benoliel captou estas magníficas imagens não se encontra identificado no arquivo. Todavia, tendo como referência outras duas fotos catalogadas como prédios para demolir sitos na Rua Castilho, constata-se que os edifícios em ambas coincidem com os das fotografias (1ª e 2ª) de Benoliel. Comparando, então, a moldura da porta e das janelas do 1º prédio na 1ª foto com a desta imagem, e a varanda do prédio ao centro na 2ª foto, com esta outra, facilmente se  comprova tratar-se do mesmo local: Rua Castilho. 
Como a qualidade da digitalização das fotos para comparação é de péssima qualidade, torna difícil a leitura dos números de polícia, inviabilizando, assim, apontar com maior exactidão o troço da rua onde se erguiam estes edifícios. De qualquer modo, e levando em consideração outros registos fotográficos deste arruamento, arriscaria para local desta bucólica cena de rua, um dos quarteirões entre as Ruas Alexandre Herculano e do Salitre. Contudo, devo confessar, que aqueles prédios ao fundo na última imagem, não me calham, não sei por quê, mas não me calham... Por via disso, se algum  leitor tiver outras sugestões,  saiba que serão muito bem-vindas.

ADENDA: Já depois de publicado este artigo deparei-me com estas imagens da demolição do antigo Quartel do Vale de Pereiro (Quartel de Caçadores 2). Como se pode comprovar pela planta do projecto de abertura da Rua Castilho (que reproduzo abaixo), o «prédio que não me calhava» — e que se vê ao fundo na 3ª foto — é, nem mais nem menos, o referido Quartel do Vale de Pereiro, que se situava entre as futuras Ruas Braancamp e  Joaquim António de Aguiar. Donde se conclui que esta cena de rua se desenrola junto ao cruzamento da actual Rua Castilho com a Rua Braamcamp, no troço entre esta e a Rua Alexandre Herculano. Mistério resolvido!

Projecto de abertura da Rua Castilho, 1915
Legenda: a Vermelho, a Rua Castilho; a Verde, o antigo Quartel do Vale do Pereiro; a Azul, o local da cena de rua captada pelo fotógrafo.
Silva, Alberto Pedro da, in Lisboa de Antigamente

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