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Friday, 2 June 2023

Palacete das Chagas (ou Viana)

No palacete n.º 7 a 15 da Rua das Chagas está instalado o Instituto Comercial de Lisboa, que resultou (1918), nas evoluções do ensino técnico, do desdobramento do antigo Instituto Industrial e Comercial de Lisboa. Foi aqui no século XVI — recorda Norberto de Araújo — o Solar dos Condes da Cunha; o palacete actual pertenceu a Gaspar Viana, foi sede da Legação de Espanha, moradia do Marquês da Foz, e sede da Sociedade de Geografia de 1891 a 1897.
O sítio a cavaleiro da Bica popular, pitoresca e tumultuosa, dá uma zona tranquila, na vizinhança do Camões e do Loreto.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 52, 1939)

Palacete das Chagas (ou Viana) |1943|
Rua das  Chagas, 7-15 (2º edifico)
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

A Rua das Chagas termina no alto do mesmo nome, cujo admirável ponto de vista foi completamente sacrificado pela construção de novos prédios. A Igreja das Chagas, ali existente, foi fund. em 1542 por pilotos e mestres da Carreira da Índia. A imagem tradicional que trouxeram da Índia, no séc. XV, os irmãos marítimos era a de N. Senhora da Piedade, chamada das Chagas de Cristo, e que acabou por se fixar na memória de Lisboa este topónimo «das Chagas.
Foi nessa igreja, segundo a lenda, que Camões viu pela primeira vez Natércia, na quarta-feira santa de 1542. [Guia Portugal: 1924]

Palacete das Chagas (ou Viana) |1959|
Rua das  Chagas, 7-15
A extremidade ocidental da rua do Ataíde, era designada antes do terramoto por calçadinha das Chagas, ou Calçadinha da Igreja das Chagas. Nos meados do século XVII era a rua da Porta das Chagas ou da Porta da Travessa das Chagas. [Macedo: 1940]
Fernando Matias, 
in Lisboa de Antigamente

Sunday, 19 April 2020

Igreja das Chagas (de Cristo)

Aqui temos a Igreja das Chagas — cujo adro foi um admirável miradouro de Lisboa. «As Chagas» é designação de ressonância bairrista, com projecção olisiponense. Anos houve em que a missa das Chagas tinha tom. Hoje, simpática, aprazível de local a-pesar-de «entaipada» de edificações, pouco mais é que uma evocação. 
A primitiva Igreja das Chagas datava de 1542, e sucedera a uma Capela que existia no Convento da Trindade, pertencente a uma Confraria das Chagas de Cristo, instituída em 1493 naquele Mosteiro por Fr. Diogo de Lisboa, e de que só eram irmãos os marítimos das Carreiras da Índia e Ultramar. O mesmo frade fez erguer aqui a Igrejinha, que era a paróquia dos homens da Índia, sujeita à Basílica romana de S. João Latrão. A imagem tradicional era a de N. Senhora da Piedade, chamada das Chagas de Cristo, que um mercador trouxera da Índia.

Panorâmica de Lisboa e do rio Tejo, vendo-se a Igreja das Chagas |1905|
Rua do Ataíde, Igreja; Rua das Chagas, 4-10
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A Igreja das Chagas tinha, em flanco, uma alta torre. O Terramoto reduziu a Igreja a escombros e o recheio a cinzas. Foi depois, reedificada como estás vendo: pobre e alegre.

Igreja das Chagas de Cristo, gravura
Rua do Ataíde, Igreja; Rua das Chagas, 4-10
in Lisboa de Antigamente

Pois entremos no pequeno templo — prossegue Norberto de Araújo — , aureolado de lendas e tradições, entre as quais aquela que nos diz que Luiz de Camões aqui se enamorou, durante uma solenidade de Sexta-feira Santa, de D. Catarina de Ataíde. A versão, sem fundamento histórico, está desfeita; nós, porém, temos uma certa ternura pelas lendas. E por isso te digo, Dilecto, com uma respeitável convicção, que «foi aqui que um grande poeta, ainda moço, se enamorou certa noite de uma linda menina, dama que foi da côrte, a lírica Natércia que havia de ser a «alma minha gentil...», etc.[...]
E êste sim, o soneto, é que não é lenda, e viverá enquanto houver literaturas no mundo!

Igreja das Chagas, fachada |1949|
Rua do Ataíde, Igreja; Rua das Chagas, 4-10
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 52-53, 1939.

Friday, 21 August 2020

Travessa do Sequeiro

As artérias que cortam a Bica, transversalmente — diz Norberto de Araújo —, são esta Travessa do Sequeiro, a da Portuguesa, a da Laranjeira e a do Cabral, tôdas com a mesma perspectiva e balanço de nivel, descendo por escadinhas das Chagas, encontrando o vale — onde corre o ascensor — e voltando a subir, sempre por escadinhas, à Rua do Marechal Saldanha.

Este arruamento que se estende da Rua das Chagas à Rua Marechal Saldanha e com escadinhas que facilitam a circulação após o aluimento do Alto das Chagas ocorrido em 1597, já aparece referenciado na freguesia de Santa Catarina nas plantas da remodelação paroquial aprovada em 1780.

Travessa do Sequeiro [194-] 
Rua Marechal Saldanha; frades de pedra
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Dados os topónimos agrícolas na zona é provável que a origem deste perpetue a memória do local, já que, nas descrições anteriores ao Terramoto, aparece o sítio do Sequeiro das Chagas e quase no seguimento deste existiu uma Travessa do Sequeiro das Chagas que, por Edital municipal de 20/08/1926, passou a denominar-se Travessa de Guilherme Cossoul.

Travessa do Sequeiro [c. 1960]
Rua Marechal Saldanha; Rua Chagas
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 68, 1939.
cm-lisboa.pt

Sunday, 26 August 2018

Palácios do Calhariz: Palácio Sandomil

Já agora deixa-me apontar-te um curioso prédio — diz Norberto de Araújo — , este defronte do Palácio Palmela, que faz ângulo para a Rua das Chagas, pela qual tem suas entradas. 

Setecentista — é o que por aqui conserva o seu aspecto exterior mais antigo. Já existia quando do Terramoto, e sofreu dano, embora não fosse tomado por incêndio.


O Palácio Sandomil, que defronta os velhos palácios — os Calhariz-Palmela e Sobral — conserva melhor a sua definição primitiva: pertencendo, no início, aos Barros Cardoso, passou para a Misericórdia de Lisboa que, antes de 1755, o vendeu ao conde de Sandomil. Depois de 1755, foi possuído pela família Barreto e, depois, por Joaquim Pires, capitalista. É constituído por dois pavimentos com janelas de varanda no andar nobre (onde esteve instalado o «Club dos Cem à Hora»). Possui salas com tectos apainelados «de formoso sentido mitológico», obra provável de Pedro Alexandrino.

Palácio Sandomil (ou das Chagas) [c. 1960]
 Largo do Calhariz, 1-4; Rua das Chagas, 35-47
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Revestido de alguns panos de azulejos, e com pormenores interessantíssimos, o velho solar de setecentos pouco castigado de obras desfiguradoras, é um exemplar curioso, embora modesto de aparência exterior, das casas do Loreto do século XVIII — remata o olisipógrafo Norberto de Araújo.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, p.24, 1938.
RODRIGUES, Maria João Madeira, Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, vol. 5, p. 23, 1975.

Friday, 3 May 2024

Travessa da Portuguesa (actualizado)

As artérias que cortam a Bica, transversalmente — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , são esta Travessa da Portuguesa, a do Cabral, a da Laranjeira e a do Sequeiro, todas com a mesma perspectiva e balanço de nível, descendo por escadinhas das Chagas, encontrando o vale — onde corre o ascensor — e voltando a subir, sempre por escadinhas, à Rua do Marechal Saldanha.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 68, 1939)

Travessa da Portuguesa |1946|
Escadinhas que ligam à Rua do Marechal Saldanha e a Santa Catarina
Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Na Travessa da Portuguesa, à Bica, houve arraial e baile, achando-se a rua embandeirada e a casa no 14, onde era o recinto da festa, guarnecida a verdura e iluminada. A comissão promotora da festa veio cumprimentar-nos, o que agradecemos (SEC, 13-6-1901). Como se pode ler, o referente desta travessa é a Bica, mas também é Santa Catarina
Ontem à noite, a Travessa da Portugueza, a Santa Catarina, estava iluminada com balões vendo-se ao centro uma coroa de flores e diversas bandeiras. Algumas raparigas moradoras na mesma rua, improvisaram um baile, dançando e cantando até bastante tarde. [Cordeiro: 2019]

 

Travessa da Portuguesa S→N |c. 1895|
Cruzamento com a R. da Bica de Duarte Belo. Perspectiva tomada da R. das Chagas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sobre este topónimo pouco se sabe. Na obra «Lisboa na 2ª metade do Século XVIII (plantas e descrições das suas freguesias)» vem mencionada a Rua dos Portuguezes situada neste mesmo local. O que provavelmente aconteceu foi uma alteração de designação para travessa e uma corrupção linguística de Portuguezes para Portuguesa.

Travessa da Portuguesa |1946|
Escadinhas que ligam à Rua das Chagas.
Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 23 June 2024

Panorâmica sobre a zona da Bica

Numa definição alargada a Bica inclui a Calçada da Bica Grande — verdadeiro caroço da vida social do bairro —, o Beco dos Aciprestes, a Travessa da Bica Grande, a Calçada da Bica Pequena, o Largo de Santo Antoninho, a Rua dos Cordoeiros, a Rua da Bica Duarte Duarte Belo e as quatro travessas que a cortam perpendicularmente: a do Cabral, da Portuguesa, da Laranjeira e do Sequeiro

Panorâmica sobre a zona da Bica |196-|
Vista tomada do Alto de Santa Catarina notando-se à esquerda a greja das Chagas de Cristo e, à direita, as torres da Igreja de São Paulo.
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Na Igreja do Convento da Trindade de Lisboa, existiu desde 1493 uma confraria chamada Chagas de Cristo, cujos devotos e confrades eram marítimos e mercadores vindos da Índia. A confraria atingiu grande prestígio na capital e Frei Diogo de Lisboa resolveu em 1542 erigir uma igreja destinada ao culto e a albergar os frades. Com o terramoto de 1755, a primitiva igreja foi arruinada, perdendo-se a valiosa imagem de Nossa Senhora da Piedade das Chagas de Cristo, padroeira do templo. A reconstrução que sofreu, devolveu-lhe um aspecto sóbrio como é comum a quase todas as igrejas pombalinas. De uma só nave e com três altares laterais é de salientar o retábulo da "Ascensão" no altar-mor.
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Bibliografia
CORDEIRO, Graça Índias e GARCIA, Joaquim, Lisboa freguesia de São Paulo, Lisboa, Contexto Editora, pp. 34, 35 1993.
idem. Um lugar na cidade: quotidiano, memória e representação no bairro da bica. Lisboa, Publicações Dom Quixote, p. 65, 1997.

Sunday, 11 April 2021

Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, antiga Casa Malhoa

A Casa-Museu Anastácio Gonçalves (antiga casa-atelier de José Malhoa) situada na Avenida Cinco de Outubro, 6-8,  obteve o Prémio Valmor de 1905. Classificada Imóvel de Interesse Público pelo Dec. 28/82 de 26 de Fevereiro. Abre ao público em 1980.


Edifício projectado pelo arquitecto Norte Júnior em 1904, foi seu construtor Frederico Ribeiro, "o constructor da primeira casa de artista que fizesse em Lisboa". Dominado pela linguagem ecléctica em voga, sobressai, no entanto, o gosto pelo neo-românico. Edificada para residência e atelier do pintor José Malhoa, foi adquirida em 1932 pelo médico oftalmologista Dr. Anastácio Gonçalves (1889-1965), que a doou ao Estado, sendo mais tarde adaptada a casa-museu e recebendo obras de ampliação em 1996 sob projecto dos arquitectos Frederico e Pedro George, anexando uma moradia contígua também da autoria de Norte Júnior [vd. 2ª imagem]

Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, antiga Casa Malhoa, Prémio Valmor de 1905 [1905]
Para os autores da A Construção Moderna o edifício encontra-se “entre essas raras manifestações de arte que hão de servir de padrão de estimulo à Lisboa estética do futuro (...)”. [A Construção Moderna, ano VI, n.º 1, Fevereiro de 1905]
Avenida Cinco de Outubro com a Rua Pinheiro Chagas (esq.)
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Edifício com dois pisos e cave, sobressai o espaço correspondente ao ateliê, denunciado exteriormente por um janelão e uma clarabóia de iluminação zenital. Identificam-se três corpos: o central, avançando a fachada principal; sobre o lado esquerdo, um corpo recuado com escada e alpendre protegendo a porta de entrada; e, do lado direito, um núcleo praticamente autónomo pertencendo à zona da sala de jantar. Sublinhando a separação dos pisos, percorre o edifício um friso de azulejos em azul com elementos vegetalistas da autoria de Jorge Pinto, interpretações livres dos desenhos de Malhoa e António Ramalho, transpostos para pintura a fresco por Eloy Amaral. As esculturas das fachadas são de António Augusto Costa Mota.

Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, antiga Casa Malhoa, Prémio Valmor de 1905 [1908]
Moradia contígua à Casa-Museu Doutor Anastácio Gonçalves, também assinada por Norte Júnior, anexada ao edifício principal, em 1987; antiga Casa António Pinto da Fonseca Mota (1908). 
Rua Pinheiro Chagas, 2-6
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

O grande janelão de sacada, correspondente ao atelier, é encimado por frontão onde se exibe a inscrição «PRO ARTE». Sobressaem ainda dois vitrais na sala de jantar e na sala anexa ao atelier. Merece menção a serralharia artística com elementos arte nova, destacando-se o portão principal em forma de borboleta, com desenho do arquitecto e execução de Vicente Esteves.
As janelas que se abrem no vão do arco dessa fachada, com as pedras de peito das laterais de forma curva, sugerem que todo o conjunto está confinado a um círculo. O gradeamento das varandas, em ferro, segue a tendência Arte Nova.

Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, antiga Casa Malhoa, Prémio Valmor de 1905 [1908]
Núcleo praticamente autónomo, do lado direito,  pertencendo à zona da sala de jantar.
Avenida Cinco de Outubro, 6-8
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

N.B. A Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves é um espaço museológico da cidade de Lisboa onde se expõe o acervo reunido pelo médico coleccionador António Anastácio Gonçalves. O conjunto de cerca de 3.000 obras de arte compõe-se por três grandes núcleos: pintura portuguesa dos séculos XIX e XX, porcelana chinesa e mobiliário português e estrangeiro. Existem ainda importantes núcleos de ourivesaria civil e sacra, pintura europeia, escultura portuguesa, cerâmica europeia, têxteis, numismática, medalhística, vidros e relógios de bolso de fabrico suíço e francês. Para além das obras reunidas pelo coleccionador, a Casa-Museu encerra ainda um significativo espólio documental e um conjunto de desenhos, aguarelas e pequenos artefactos pertencentes ao espólio do pintor Silva Porto.

Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, antiga Casa Malhoa, Prémio Valmor de 1905 [191-]
Foi descrita em 1909 como uma “(...) casa artística, o ninho feliz de um grande e genial artista. (...) Quer se analyse em conjuncto, quer em detalhe, a casa do sr. Malhôa é uma casa artística em toda a accepção da palavra, e, considerada irreprehensível sob todos os pontos de vista”. [A Arquitectura Portuguesa, Lisboa, Fevereiro de 1909]
Avenida Cinco de Outubro com a Rua Pinheiro Chagas vendo-se a moradia contígua erguida em 1908 (esq.)
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ALMEIDA, Álvaro Duarte de, Portugal património: Lisboa, 2007.
ACCIAIUOLI, Margarida, Casas com escritos: uma história de habitação em Lisboa, 2015.

Sunday, 26 March 2023

Praça de Luís de Camões com a Rua da Horta Seca

A Rua das Flores já existia antes do Terramoto, no troco até à Rua do Ataíde, ambas seiscentistas. E de igual modo existia a Rua da Horta Seca, designação, que, tal a das Flores, e a das Parreiras (sobre a qual assentou a Rua da Emenda) evocam os tempos de quinhentos em que por aqui eram quintas e chãos rústicos da herdade de Santa Catarina.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 51, 1939)

Praça de Luís de Camões com a Rua da Horta Seca |1959|
Realce para o espectacular "espada" Buick Super "The Black Beauty" (1949–1953)
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Encontramos no Arquivo Histórico Português, Vol . VIII, pág. 421, no estudo do dr. António Baião, acerca da Inquisição uma referência a este sítio, datada de 1583. É a primeira à direita na rua do Alecrim vindo do Loreto e termina na rua das Chagas, ensina o Itinerário Lisbonense, de 1818. Fora das portas de Santa Catarina. [Brito: 1935]
 
Rua da Horta Seca |1922-07-21|
Rua da Emenda;  ao fundo nota-se o Palácio do Manteigueiro; Rua e Palacete das Chagas
Legenda no arquivo: «Bodo aos pobres promovido pelo sr. governador civil»
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está «identificado no arquivo

Wednesday, 7 November 2018

Maternidade Alfredo Costa

Merece-nos uma referência a Maternidade Dr. Alfredo Costa, instituição pública de beneficência, cujos serviços são relevantes.


A iniciativa da construção desta Maternidade vem de 1908. Só em 1914 se nomeou uma comissão para fazer erguer o edificio, que teria o nome do grande médico, professor de obstectricia, Dr. Alfredo da Costa, sendo votada a verba de 250 contos. A guerra obrigou a suspender a obra. Mais tarde, por um donativo de 1.500 contos feito pelo benemérito Pais Rovisco, e, seguidamente, com uma dotação especial de 3.600 contos estabelecida pelo Ministro das Finanças, Dr. Oliveira Salazar, foi possivel concluir o grande edificio, com quatro corpos e três pavimentos, cuja entrada principal assenta na Avenida Cinco de Outubro, confluência das Ruas Pinheiro Chagas e Viriato.
A inauguração desta Matemidade realizou-se em 31 de Maio de 1932. Foi primeiro Director desta instituição o Dr. Augusto Monjardino.

Maternidade Alfredo Costa [1967]
Panorâmica tirada do antigo Aviz Hotel  vendo-se a Maternidade Dr. Alfredo da Costa e a Avenida Cinco de Outubro,
Ruas Viriato e Latino Coelho
João Brito Geraldes, in Lisboa de Antigamente

Em frente da Maternidade, numa pequena praça cu eirado triangular da Avenida Cinco de Outubro, se projectou erguer um monumento a António José da Silva, «o Judeu», escritor de comédias do século XVIIl, e que a Inquisição queimou em 1739; a idéia não prosseguiu e não vemos que se pretenda renová-la.

Maternidade Alfredo Costa [1931] 
Rua Pinheiro Chagas com a Rua Viriato
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p.81, 1939.

Sunday, 22 December 2024

Travessa da Laranjeira

As artérias que cortam a Bica, transversalmente — diz Norberto de Araújo —, são esta Travessa do Cabral, a da Portuguesa, a da Laranjeira e a do Sequeiro, todas com a mesma perspectiva e balanço de nível, descendo por escadinhas das Chagas, encontrando o vale — onde corre o ascensor — e voltando a subir, sempre por escadinhas, à Rua do Marechal Saldanha.

O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo refere que «O padre Carvalho da Costa, em 1712, lhe dá o nome de ‘travessa do Laranjeiro’ [«Corografia Portuguesa», vol. III, pp. 341] e assim lhe chama também, nos meados do século, o padre João Baptista de Castro [«Mapa de Portugal», vol. III, pp. 145].
Supomos porém, que se trata duma gralha tipográfica da ‘Corografia Portuguesa’, depois copiada, irreflectidamente pelo autor do ‘Mapa de Portugal’».

Travessa da Laranjeira |c. 196-|
Vista tomada da Rua das Chagas.
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Também as memórias paroquiais referentes ao ano de 1755 mencionam na «Freguezia de Santa Catharina» a «traveça do Laranjeiro» e o «Beco do Siqueira» e mais tarde, nas plantas da remodelação paroquial de 1780, surgem «rua das Larangeiras» e «traveça do Siqueiro». Enquanto Travessa do Sequeiro surge no levantamento topográfico de Francisco Goullard de 1883.
Pastor de Macedo diz ainda que nesta artéria nasceu o jornalista Eduardo Fernandes, também conhecido como Esculápio, em 25 de Agosto de 1870.

Travessa da Laranjeira |c. 196-|
Vista tomada da R. Marechal Saldanha, observando-se ao fundo o Palacete Viana.
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Friday, 28 September 2018

Travessa das Parreiras

Em suma — diz Mestre Júlio de Castilho — : a Rua do Carvalho, a Rua do Loureiro, a Rua dos Jasmins, a Rua da Era, a Travessa da Era (ou Hera), a Travessa das Chagas Velhas, a Travessa da Laranjeira, ou das Laranjeiras, como dantes se chamou, a Rua das Parreiras, a Rua das Flores, e talvez a Praça das Flores, são risonhas amostras de um quadro que se perdeu, um grande quadro variegado, painel muito florido, a que talvez se apegassem, aqui, ali, nalgum canteiro, nalgum alegrete, nalgum caramanchão, memórias desconhecidas das lindas mãos de Brites ou de Helena de Andrada; e digo lindas, porque Miguel Leitão lá confessa, com ar malicioso, que havia então parentas suas bem formosas.

Travessa das Parreiras [1908]
Perspectiva tomada da Calçada de Santo António na
direcção sa Rua de Santa Marta
Machado & Souza,
in Lisboa de Antigamente

Como refere Castilho, este topónimo de “parreiras” inscreve-se numa antiga tradição popular de designar topónimos indo buscar a sua identidade às disposições dos terrenos ou do local, às circunstâncias naturais, à fauna ou à flora.
Este arruamento — que era uma antiga zona rural — tem início na Calçada de Santo António e finda na Rua de Santa Marta.

Travessa das Parreiras [1908]
Ao fundo a Rua de Santa Marta
Machado & Souza,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antiga, vol. I, p.28.
cm-lisboa.pt.

Sunday, 13 December 2020

Avenida Cinco de Outubro, 9-11

Edifício do séc. XX exibindo azulejos de desenho Arte Nova com motivos florais em policromia, tendo ao centro figura de mulher com estrela por cima da cabeça. Painéis com 9 azulejos na máxima altura que decoram o nível das entradas do edifício.
Neste edifício está instalado o "Hotel Zenit Lisboa"

Avenida Cinco de Outubro [post. 1930]
Prédio que torneja a Rua Pinheiro Chagas 
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Cinco de Outubro, data da implantação da República no ano de 1910, foi fixada pela edilidade lisboeta logo no seu primeiro Edital de toponímia, um mês após a implantação da República, em 5 de Novembro de 1910.
Até aí esta artéria designava-se Rua António Maria de Avelar, por deliberação camarária de 12 de Agosto de 1897, tendo passado a Avenida, por deliberação camarária de 4 de Dezembro de 1902, homenageando um engenheiro (1854–27.10.1912) e funcionário da Câmara de Lisboa desde 1879, ligado ao plano das Avenidas Novas já que substituiu por longos períodos o director-geral das Obras Municipais, Ressano Garcia. A proposta para ser alterada para Avenida Cinco de Outubro partiu do vereador Nunes Loureiro na reunião de câmara de 6 de Outubro de 1910 e foi aprovada por aclamação. [cm-lisboa.pt]

Sunday, 15 March 2026

Sé Patriarcal (Igreja de Santa Maria Maior)

A Sé Patriarcal de Lisboa projectada pelo Mestre Roberto (séc. XII) é a única construção em estilo Românico e também a única do período de Dom Afonso Henriques que ainda existe na cidade, embora bastante alterada ao longo do tempo [vd. última imagem]. O Românico é um estilo caracterizado por formas compactas, transmitindo uma sensação de solidez e resistência.

 está classificada monumento nacional (decretos de 10 de Janeiro de 1907 e de 16 de Junho de 1910), e, excluindo os troços que ainda restam da muralha ou cerca moura — diz Mestre Castilho, a quem vamos sempre seguindo — , é incontestavelmente o edifício mais antigo da cidade.

Sé de Lisboa |1942-06-20|
Largo da Sé
Constitui a Sé de Lisboa um recinto isolado entre quatro ruas: de Augusto Rosa,
antiga Rua do Arco do Limoeiro, ao norte; as Cruzes da Sé, ao sul; o Beco do
Quebra-Costas, em escadaria, ao nascente; e o Largo da Sé (fachada principal), ao poente.
Legenda da foto no arquivo: «Os trabalhos de defesa da fachada da Sé de Lisboa, contra ataques
aéreos»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Não tem ele actualmente [em 1902], porém, o aspecto que apresentava na sua origem, porquanto, durante o volver dos séculos, foram-se-lhe fazendo acrescentamentos, modificações e sobreposições, que quási por completo lhe transformaram o facies primitivo, como se tem inferido do estudo consciencioso dos descobrimentos consequentes dos trabalhos de demolição e restauro a que no edifício se vem procedendo desde os últimos anos do século passado [XIX](Castilho: 1902)

Sé de Lisboa, obras de restauro |1913|
Sobre o eirado da torre norte (esq.) observa-se «uma pirâmide de cimento armado»;
quem assim no-lo diz é Norberto Araújo, que, mais adiante, acrescenta: «Naquela torre
do Norte, já no período das obras deste século [XX], colocou-se uma guarita oitavada,
de cimento armado, e que há poucos anos foi, como disse, demolida». [Araujo: 1938]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

No monumento nada existe, nem parece ter existido, que leve a aceitar a versão de que o templo foi erigido sobre o fundamento de uma mesquita  — recorda o ilustre olisipógrafo Norberto de Araújo.
Presume-se, aliás sem base documental, que o primeiro arqtiitecto houvesse sido um dos cavaleiros cruzados que tomaram parte no assédio à cidade sarracena, porventura «mestre» monge normando, companheiro do clérigo, cruzado inglês, Gilberto Hastings, que veio a ser (1150?} o primeiro bispo de Lisboa. Não há notícia da época da conclusão das obras do templo; não é, porém, arrojado suipôr-se que, ainda no período inicial, estivesse já dado ao culto e em parte coberto, constituindo desde logo sede de uma freguesia, cuja invocação é de Santa Maria Maior.==

Recriação da Sé de Lisboa por Alfredo Roque Gameiro (1864–1935) segundo pinturas existentes do século XVI
«[...] Estas torres [Sé], primitivamente, não tiveram sinos, os quais se situavam na torre sineira, sobre a cúpula do cruzeiro, e que o terramoto arrasou. [...]» [Araujo: 1938]
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1944.
idem, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, 1938.
CHAGAS, Manuel Pinheiro, História de Portugal, popular e ilustrada, 1899-1905

Monday, 20 July 2015

Convento do Santo Crucifixo das Capuchinhas Francesas

Sobre a ruína do mosteiro do Santo Crucifixo paira ainda hoje a aza (sic) negra da fatalidade; e, daqui a pouco, razoirado o terreno, modificado o aspecto da rua, erguidos no seu local novos edifícios, ruirá também a própria lembrança das pobres freiras francesinhas. 
Paz às suas almas! [Sequeira: 1924]

Nesta historia verá Vossa Magestade hum edificio por todas as circunstancias Real, porque lhe deu princípio a Augustissima Rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboya. [Barbosa: 17484]

O Convento do Santo Crucifixo das Capuchinhas Francesas, conhecido como das «Francesinhas» foi fundado em 1667 pela Rainha de Portugal Maria Francisca de Sabóia, esposa de D. Afonso VI e, em segundas núpcias, de D. Pedro II. Quando morreu, a rainha foi sepultada no convento que fundou. Em 1911, o corpo foi trasladado para o Mosteiro de São Vicente de Fora, dando-se então início à demolição do convento [vd. 3ª imagem].

Esquina da Calçada da Estrela e do Caminho Novo, hoje Rua das Francesinhas [1910]
Joshua Benoliel,
in Lisboa de Antigamente

A denominação de Capuchinhas Francesas ficou definitivamente associada ao Convento do Santo Crucifixo (denominação oficial do cenóbio) e adveio unicamente da origem das freiras fundadoras — quatro freiras clarissas que a tinham acompanhado de França D. Maria Francisca de Sabóia — , não constituindo qualquer ramo ou variação do instituto de religiosas denominado Capuchinhas, fundado em 1535 pela espanhola Maria Lorenza Longo, em Nápoles, ao qual pertenciam as monjas do convento.
O convento do Santo Crucifixo constitui um importante exemplo do que foi a arquitectura monástica no feminino, com as suas particulares exigências e necessidades. O conjunto formado pela parte edificada, cuja centralidade era marcada pelo claustro, a cerca conventual (com a sua importância no contacto com a natureza), a distinção funcional e predefinida entre os diferentes espaços e as relações entre eles (quer se destinem a meditação e oração, ao trabalho diário, ao lazer ou ao contacto com o exterior) fazem do espaço conventual uma unidade autónoma que se pretendia auto-suficiente.

Esquina da Calçada da Estrela e do Caminho Novo, hoje Rua das Francesinhas [1910]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Na Igreja destacava-se segundo a descrição do autor anónimo, numa data em que ainda não estava concluída a capela-mor, um grande nicho sobre o arco triunfal:

[]  e sobre ele [arco] assenta hum nicho grande com columnas de talha dourada, e dentro do nicho se deyxa ver a fermosa imagem de um crucifixo, em estatura natural de um homem, e ao pé da cruz fazem assistência à sagrada imagem do Senhor, a de sua Mãy Sanctissima e do Discipulo amado e da penitente Magdalena. Esta imagem do Sancto Crucifixo dá o titulo ao mosteyro, que he o padroeyro da casa debayxo de cuja proteccção vivem as Religiosas, que à capella mor dam o titulo das Chagas de Christo
[História dos Mosteiros, Conventos e Casas Religiosas de Lisboa, 1972] 

Este nicho terá sido posteriormente fechado e as imagens colocadas em outro altar, possivelmente no compartimento que Matos Sequeira identificou como casa mortuária, no sobre claustro, e que possuía uma capela com essa invocação. O mesmo autor, refere-se à imagem de Cristo de grandes dimensões “ (…) um madeiro enorme, com a imagem do Crucificado”, na época, já retirado do seu local e colocado na sacristia junto à capela-mor. [Tição: 2007] 

Demolição do Convento das Francesinhas [1911]  
Em baixo, onde se vê o gradeamento, observa-se a Rua Miguel Lupi.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nos jardins do Convento encontra-se actualmente o Instituto Superior de Economia e Gestão. Só em 1949 se desenhou o jardim na sua forma actual. Com uma homenagem à Família numa escultura de Leopoldo de Almeida que ornamenta um chafariz de 8 bicas. Posteriormente, foi inaugurado um monumento em homenagem a Bento de Jesus Caraça.
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