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sábado, 5 de março de 2016

O Arco de Santo André, o Palácio dos Condes da Figueira e uma lenda

Estamos agora no local onde foi o Arco de Santo André — recorda-nos Norberto de Araújo —, demolido em 1915 [5 de Junho 1913]², para dar passagem aos carros eléctricos, ou melhor: para a montagem dos fios aéreos. Era aqui a Porta de Santo André da «Cerca Nova» de D. Fernando; as exigências do trânsito converteram a Porta, certamente de reduzidas linhas, em Arco, e este acabou por se ir embora também.

Arco de Santo André, visto do trecho final da Costa do Castelo |ant. 1913|
Palácio dos Condes de Figueira, Antigo Largo de Santo André,
hoje Largo Rodrigues de Freitas; Calçada da Graça
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
 
Sobre o Arco corria um Passadiço que ligava o edifício, hoje de esquina, ao Palácio dos Condes da Figueira, esse grande prédio que aí estás vendo, na esquina oposta para a Calçada da Graça, com seu portal nobre de estilo barroco seiscentista, a sua rijeza de aspecto, uma indiscutível austeridade arquitectónica exterior.

Arco de Santo André,  visto do trecho final da Costa do Castelo |ant. 1913|
Ao centro distingue‑se claramente a lápide glorificando a Imaculada Conceição da Nossa Senhora e que se encontra actualmente no Museu do Carmo.
Antigo Largo de Santo André, hoje Largo Rodrigues de Freitas; Calçada de Santo André
 À direita, casa senhorial que integra o Portal do 6º Passo da Procissão dos Passos da Graça mandado erigir em 1622.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Já agora devo dizer-te — prossegue o autor — que este Palácio, antes de 1755, pertencia a Félix José Machado da Casa dos «Mendoças da Avé-Maria», e o brasão que ostenta o portal ainda é dos Mendoças. [A pedra de armas da família Mendoça, colocada na arquitrave, não será a peça original — adianta mais tarde, (1949) mestre Araújo]. Nos .Mendoças entroncaram os Figueiras, cujo primeiro Conde foi D. José Maria Rita Castelo Branco Correia e Cunha de Vasconcelos e Sousa, casado em primeiras núpcias com uma senhora do morgadio da Figueira, e em segundas, com uma senhora da família Mendoça. (...)
Este portal sacro, encostado ao cunhal do desaparecido Arco, de um vermelho de capa de confraria, foi o de um dos passos da procissão dos Passos da Graça, que endoidecia Lisboa da Mouraria ao Rossio e S. Roque. Esta procissão, que acabou pela República, e datava da Quaresma de 1587, teve origem numa lenda que...

Arco de Santo André e Palácio dos Condes de Figueira [1907]
Antigo Largo de Santo André, hoje Largo Rodrigues de Freitas;
Calçada de Santo André e Elevador da Graça.
Nota(s): O desaparecido Elevador da Graça, semelhante ao da Estrela-Camões, percorria
o trajecto Largo da Graça, Largo e Calçada de Santo André (contornando o Palácio Figueira),
Calçada dos Cavaleiros, Rua da Mouraria,
Carreirinha do Socorro e Rua Nova da Palma,
surgindo a maior dificuldade na transposição do velho Arco de Santo André.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

   Mas escuta em um minuto, um minuto só, a lenda. 
Um peregrino foi certo dia bater à Casa dos Padres de S. Roque, a pedir pousada. Não o receberam. Foi depois bater ao Convento da Graça; ali foi acolhido. Entrou, mas quando foram por ele — sumira-se. Em seu lugar estava uma imagem do Santo Cristo. Houve uma demanda para se saber a qual das casas religiosas pertencia a imagem; ganharam os gracianos contra os jesuítas. Mas estes ficaram com o direito de possuir a imagem «um dia só», durante a roda do ano. Se demorasse mais um dia em S. Roque-a Graça perdia a posse. E assim em certa quinta-feira da Quaresma, à tarde, o Senhor dos Passos da Graça ia para S. Roque, e regressava na tarde de sexta-feira. 
Metia tropa e as Majestades. Iam devotos descalços — pés em sangue — sob o andor, a cumprir promessas. Esta inocência piedosa acabou, por ordem real, em 1879; as promessas, porém, continuaram, e com elas a procissão lisboeta, uma das mais populares do século passado [séc. XIX].¹

Arco de Santo André  |1907|
Calçada de Santo André; Costa do Castelo (esq.)
Em cima nota-se a Igreja de Santa Cruz do Castelo.
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 12-14, 1938.

domingo, 5 de julho de 2026

Palácio Figueira (ou de Santo André)

O Palácio Figueira, a Santo André, de sólidos cunhais nas prumadas extremas das suas faces, mas que não atingem toda a altura do edifício, assinala-se pela sua primitiva fachada principal orientada a Sul, e pelo robusto portal que a domina, caracterizadamente seiscentista, constituindo no exterior um curioso monumento de fisionomia lisboeta.

O Palácio Figueira, a Santo André, situado entre o alto da calçada desta denominação e o começo da Calçada da Graça, é uma construção pesada, acentuadamente seiscentista (c. 1563), na qual avulta o portal nobre da fachada principal.

Palácio dos Condes da Figueira, portal nobre seiscentista |193-|
Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André e, ao fundo, o trecho final da Costa do Castelo. Neste local existiu, até 1913, o Arco de Santo André. 
Portal nobre da época da fundação, em cantaria e tipologia semelhantes às das fortalezas seiscentistas. Pedra de armas da família Mendoça, que parece não ser a primitiva, franchada, com legenda, dividida por dois ângulos do brasão, AVE MARIA. (Araújo: 1949)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O seu núcleo fundamental remonta aos fins do século xv, e foi erigido por um fidalgo, João de Memdoça, cognominado «Cação», a quem D. João II, cerca de 1490, deu licença para que construísse casa junto à muralha da cerca e postigo de Santo André. A casa solarenga fora já reedificada, quasi desde os fundamentos, no meado do s4culo XVII, apenas com um andar, e em 1676, quando do casamento da senhora Mendoça com o 2.ª Montebelo, o palácio foi acrescido de um andar nobre, recebendo ainda ampliações e beneficias. É este o actual Palácio de Santo André, que pouco dano sofreu pelo Terramoto [...]
Em 1822, D. Maria Amália Machado de Mondoça casa-se com o 1º Conde da Figueira, D. José de Castelo Branco Correia e Cunha de Vasconcelos e Sousa. Assim, o Palácio dos Mendoças entra na Casa Figueira.

Palácio dos Condes da Figueira |194-|
Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André com a Calçada da Graça
A Fachada Poente, no começo da Calçada da Graça, com dois corpos distintos, sendo, o de baixo, com quatro janelas de sacada, correspondente ao edifício primitivo, e o que lhe fica contíguo, mais alto e avançado, e de uma feição diferente do palácio seiscentista, enobrecido por portal nobre, da fundação do edifício e actual acesso ao palácio) de tipo setecentista.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Em 1913 foi demolido o pitoresco Arco de Santo André, da Cerca de D. Fernando, contiguo ao palácio, e que, superiormente, punha este em ligação com as casas da entrada da Costa do Castelo.==

Nota(s): O desaparecido Elevador da Graça, semelhante ao da Estrela-Camões, percorria o trajecto Largo da Graça, Largo e Calçada de Santo André (contornando o Palácio Figueira), Calçada dos Cavaleiros, Rua da Mouraria, Carreirinha do Socorro e Rua Nova da Palma, surgindo a maior dificuldade na transposição do velho Arco de Santo André.

Calçada da Graça |c. 191-|
Palácio Figueira, portal setecentista.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

A Calçada da Graça — onde se encontra a Fachada Poente com seu portal setecentista — deve o nome do antigo Convento de N. S. da Graça, começado a construir em 1271 no local conhecido por Almofala, que era um pequeno arrabalde mourisco extramuros quando as tropas de D. Afonso Henriques aí acamparam durante o cerco de Lisboa. A Almofala mourisca tornou-se no bairro da Graça lisboeta repetida na Rua, Largo e demais topónimos que invocam aquele convento.
____________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 12-14, 1938.
idem, Inventario de Lisboa, Fasc. VI, 1949.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Presépios do Menino Deus: Casa Quinhentista

Já agora demos uns passos por estes becos e reentrâncias, bem primitivas, do Largo Rodrigues de Freitas, antigo Largo de Santo André. 


Levam, as casas quinhentistas do Menino Deus, quatrocentos anos. Sempre assim tal qual as vemos? Não seria possível que estes presépios durassem tanto em sua fisionomia primitiva, sem um restauro, sem um toque dos alvanéis. Mas assim mesmo, tal qual estão, e adoráveis, são os únicos espécimes representativos da construção popular no tempo do «Venturoso» [D. Manuel I]. Fazem parte da zona pitoresca do velho sítio de Santo André, na na encosta que tem a Igreja do Menino Deus por marco sagrado. 

Largo Menino Deus [ [c. 1900]
Casa Quinhentista no antigo Largo de Santo André; Beco dos Fróis (Froes)
José Artur Leitão Bárcia, in Lisboa de Antigamente

As casas da Rua dos Cegos e do antigo Largo de Santo André — são duas aguarelas. Dois mimos que se contemplam com veneração e ternura, aqui neste sítio — onde se topam ainda exemplares setecentistas, em casas pobríssimas, e que existem por milagre.  
As duas casas quinhentistas — monumentos da poesia urbana popular — têm «cabelos brancos, cor-de-rosa». A da Rua dos Cegos, de um andar único, já sem o painel de azulejos que perdura na aguarela de Roque Gameiro — é um apontamento ingénuo da arquitectura cenográfica bairrista, um pouco ao tipo de Alfama, conspurcada pelas idades.
A do Largo de Santo André [actual Largo Rodrigues de Freitas], a par do Menino Deus — é um amor. Pequenina, inevitavelmente cor-de-rosa, com sua escada exterior, sua antiga adufa a tocar o beiral do telhado — constitui o mais delicado esquiço urbano da Lisboa antiga. Envolve-a o Beco do Fróis [à esq.], em cotovelo, recanto humilde, do tipo pitoresco inocente, que guarda flores a espreitar das gelosias. 

Casa Quinhentista no Largo do Menino Deus [1911] 
Antigo Largo de Santo André actual Largo Rodrigues de Freitas
 É um "monumento nacional" de pôr em cima de um contador
Renascença de um Museu ainda por criar.
(Araújo, 1938)
Roque Gameiro, aguarela


Tudo isto por aqui — rescende. Evola-se das cousas um perfume de alfazema, como das roupas frescas de um bragal. E, contudo, parece que o negrume do templo setecentista escorre, extravasa, entra nas ruelas e asfixia a sensibilidade. O velho Santo André, já sem igreja e já sem arco, só existe no dístico da Calçada. Mas ainda podemos ver, pelos olhos da imaginação, as velhinhas moradoras daqueles pitorescos presépios quinhentistas, embiocadas, tairocando, rosário entre os dedos, atravessarem o empedrado do largo, cortarem o alpendre, entrarem na velha paroquial de D. Dinis — e ajoelharem diante da imagem de Nossa Senhora da Vida.

Casa Quinhentista no Largo do Menino Deus [1911]
Antigo Largo de Santo André actual Largo Rodrigues de Freitas
 É esta casita, não menos pitoresca, pequenina, inevitavelmente côr de rosa, de delicado traço,
com sua escada exterior, a sua janela, antiga adufa, encostada ao beiral do telhado,
que lhe cai como um "sombrero" curto, a sua porta esguia, monumento de
humildade encravado num prédio, quási tão modesto como ela.
(Araújo, 1938)
Roque Gameiro, aguarela

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, vol. II, pp. 162-163, 1943
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 74-77, 1938.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O «Passo» da Mouraria e a lápide da Cerca Fernandina

Fez há pouco quarenta anos que foi ordenada a demolição do Passo da Mouraria — escreve Norberto de Araújo num artigo publicado no boletim do Grupo "Amigos de Lisboa" — um dos da procissão do Senhor dos Passos, da Graça. 


Serve de pretexto a estas notas, que nenhuma novidade conterão, uma fotografia que possuímos, e na qual o «passo» se vê tal qual era no final do século passado {séc. XIX]. A estampa é inédita, e deve-se, segundo cremos, a Alberto de Oliveira, um dos fundadores do «Grupo do Leão» (1887), senão o seu principal organizador, e que cultivava as curiosidades e os tipos de Lisboa, interessando-se por assuntos de arte ligados aos progressos gráficos. Alberto de Oliveira, que figura na famosa tela de Columbano, de cujos pares hoje não resta um só, foi daquela gente da boémia do talento e do espírito o primeiro a desaparecer da vida. Já não viu demolir o velho «Passo da Mouraria», cuja fotografia teria feito há cerca de sessenta anos [c. 1887]. O pormenor não interessa demasiadamente; pela leitura do título de uma peça que se representava ao tempo no Teatro do Príncipe Real [A Filha do Snr. Chrispim] [1], e que se pode ler num cartaz que a fotografia reproduz, apurar-se-ia o ano que corresponde ao cenário.
Ao «Passo da Mouraria» está ligada a história do sítio da Saúde ou da Guia. Na conhecida gravura — e belo documento — do «Arquivo Pitoresco», volume V, pág. 377 [vd. 2ª imagem], aparecem em desenho o «Passo», o recanto do Alegrete, o Arco, rasgado num prédio dos Taroucas, o resto de um ângulo da muralha de D. Fernando, e a lápide de mármore, com inscrição em caracteres góticos maiúsculos, que atesta a construção (1373-1375) da muralha fernandina.
Na fotografia à qual nos reportamos não aparece o recanto [vd. 1ª imagem], mas distintamente se vê a lápide, aposta no lanço da muralha contigua ao «Passo», ao lado superior de uma porta que tinha o n.º 12 [da Rua da Mouraria].

O «Passo da Mouraria» e a lápide da Cerca de D. Fernando (dir.) [c. 1887?]
Rua da Mouraria; à esquerda vislumbra-se a fachada lateral da Ermida de Nossa Senhora da Saúde
Alberto de Oliveira,in Lisboa de Antigamente

1907 foi o ano da condenação do «Passo da Mouraria» que, em reconstrução, datava de 1780; o Terramoto destruíra o primitivo, que vinha de 1698-1702, e era sensivelmente da mesma idade do palácio do Conde de Vilar Maior, antecessor da Casa dos Alegretes, depois Penalvas e Taroucas. Este palácio, dito dos Marqueses do Alegrete, cujo título passou para o arco e para a rua, foi demolido neste ano corrente de 1947, sem que houvesse razão para o prantear.
Duas das relíquias do pequenino sítio desapareceram, pois, quarenta anos uma atrás da outra. Está de pé apenas o Arco, teimosamente a recordar a Porta de S. Vicente da Mouraria, que leva 574 anos de Porta, e 273 de Arco, pois foi transformada em 1674, para facilitar o trânsito dos coches.
A lápide relativa à construção da cerca de D. Fernando passou, depois de 1908, quando foi construído o grande prédio n.º 8 a 16, à esquina das Escadinhas do Marquês de Ponte de Lima Escadinhas da Saúde, para a fachada desse prédio, onde ainda se encontra. E' venerando documento da Lisboa do Rei Formoso, talvez o único de vulto, assim como o Arco, tão escarnecido e desrespeitado na sua memória, é a última das portas de Lisboa da Cerca do século XIV.

Rua da Mouraria, Arco e Palácio do Alegrete em 1862
À esquerda, na parede ao lado do  «Passo da Mouraria» vê-se a lápide comemorativa da construção da Cerca de D. Fernando
Gravura de madeira: desenho de Barbosa Lima e gravura de Coelho Júnior e Pedroso
in Arquivo Pitoresco

O «Passo da Mouraria» desapareceu em 1907-1908, como dissemos. A Câmara ofereceu à Irmandade do Senhor dos Passos da Graça, à qual o «Passo» pertencia, uma indemnização de quinhentos mil réis, que a irmandade aceitou. Dos cinco «passos» de rua da procissão dos Passos da Graça subsistem hoje apenas dois: o da «Verónica», no Largo do Terreirinho n.º 119 do começo da Calçada de Santo André, que data de 1765, e substituíra um que existiu antes na Rua do Boi Formoso [Benformoso] (1673-1675), como este substituíra um ao cimo da Rua dos Cavaleiros; e o de «Santo André», místico com o desaparecido Arco de Santo André, ampliado em 1608-1702, sito no começo da Costa do Castelo, porta n.º 106.
O famoso «Passo» do Rossio, que datava de 1700, fôra apeado em 1759, e reedificado em 1782 em terrenos da Casa dos Duques de Cadaval, novamente demolido em 18319 por ordem da Câmara, que, por sentença, teve que reedificar logo em 1841, sendo inaugurado em 1843. Pouco depois construiu-se o grande prédio Cadaval que esquina para o actual Largo de D. João da Câmara, anteriormente «Pátio do Duque». E o «passo» ficou nele encravado até 1913, ano em que a Casa Cadaval logrou por sentença, que a irmandade o entregasse, para demolição. É hoje [em 1947] «O Passo», pequena leitaria tipo Rossio.
O «Passo de S. Roque» estava embebido na face da Torre de Álvaro Pais, que se situava, como é sabido, no Largo de S. Roque [actual Trindade Coelho]; o Terramoto destruiu-o e foi reedificado em 1780-1781, até 1827, ano em que a Câmara regularizou o largo para a abertura da Rua Nova da Trindade.
A arquitectura exterior destes «passos» era sensivelmente igual: portada de volta perfeita sobre cuja cornija assenta o frontão, constituindo duas volutas a envolver um medalhão central, coroado por uma cruz simples. Estas evocações (apoiadas no estudo histórico do ilustre Padre Ernesto Sales) servem apenas de ilustração ao insignificante mas curioso documento que é a fotografia do «Passo da Mouraria». Falta somente assinalar que a história de três dos «Passos» referidos está ligada por situação à Cerca de D. Fernando: os de S. Roque, da Mouraria e de Santo André.¹

«Passo» da Mouraria e muralhas de D. Fernando no Largo da Saúde
Alfredo Roque Gameiro (1864-1937), in Lisboa Velha
 

[1] Refira-se, a título informativo, que «A Filha do sr. Chrispim» mencionada por Norberto de Araújo — e cujo cartaz se observa na 1ª imagem — foi escrita por Ludgero Viana (1842?-1934). Opereta de costumes portugueses, em 3 actos, terá estreado por volta de 1880, tendo feito furor à época com inúmeras representações em pelo menos dois teatros da capital. os já extintos Teatro do Rato e Teatro do Príncipe Real.
Ludgero Viana nasceu em Lisboa a 16 ele Março de 1842. Entrou para o jornalismo, em 1861. como redactor da época e foi durante muitos anos secretário da redacção do Diário Ilustrado. Como escritor teatral estreou-se no Teatro do Rato com a peça Os Malhados. Em 1903 entrou para a redacção do Diário de Noticias, onde se conservou durante vinte anos.
______________________________________
Bibliografia
¹ARAÚJO, Norberto de. O «Passo» da Mouraria e a lápide da Cerca Fernandina, Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", 1947.

domingo, 21 de julho de 2024

Escadinhas da Costa do Castelo

Retempera uns momentos a tua vista no trecho de panorama que daqui já se desfruta e prossigamos, Dilecto companheiro, deixando à direita as escadinhas que levam ao Largo da Rosa.

Assentou aqui a casa nobre quinhentista de Luís de Brito de Nogueira — prossegue Norberto de Araújo — , senhor dos morgados de S. Lourenço, de Lisboa, e de Santo Estêvão, de Beja, e descendente do cavaleiro, alcaide-mor de Lisboa, Afonso Ennes Nogueira, já no local proprietário da casa nobre no século XIV. 
Foi Luís de Brito o fundador (1619) do Convento da Rosa das religiosas dominicanas, que avultou à direita das actuais Escadinhas da Costa do Castelo, e que, destruído pelo Terramoto, caldo em ruínas, desapareceu de todo no começo do século passado [XIX].==

Escadinhas da Costa do Castelo |c. 1960|
Perspectiva tomada da Costa do Castelo; ao fundo vê-se o Largo da Rosa; a dir. avulta o
Palácio da Rosa (Castelo Melhor).

Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto está mal identificado no abandalhado amL.

A chamada Costa do Castelo — diz o Guia de Portugal — constitui parte da antiga estr. de circunvalação que, anteriormente à conquista de Lisboa, corria a meia altura da encosta do monte do Castelo, partindo das portas de Alfofa (no cruzamento das ruas do Milagre de Santo António e S, Bartolomeu [de Gusmão]), rodeando a antiga cerca visigótica, passando a S. Lourenço e Santo André, e vindo terminar no Largo das Portas do Sol. Paralelamente a ela e na base do monte corria na mesma época outra estr., que começava na Porta do Ferro (Largo de Santo António da Sé) e findava na de S. Vicente (arco do Marquês de Alegrete).
A Costa do Castelo termina no lugar onde se erguiam as Portas de Santo André, e onde há pouco se via o arco do mesmo nome, demolido para passagem dos eléctricos.==
 
Escadinhas da Costa do Castelo |1946|
Perspectiva tomada do Largo da Rosa com 
o Palácio da Rosa à esq..
Fernando Pozal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III,p. 16,  1938.
idem, Inventário de Lisboa, 1950.
Guia de Portugal: Generalidades. Lisboa e arredores, p. 272, 1924.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Castelo de S. Jorge: Porta (ou Portão) do Espírito Santo

Queria começar a legenda deste jeito: 

«Era uma vez uma cidade de mouras e valis...». E era. 

Foi assim a Lisboa sarracena que sucedeu à dos godos depois que se afogou no Guadalete a estrela de D. Rodrigo. Lisboa era a Alcáçova, a Kssaba mourisca, ninho de águias que fora romano e godo — o Castelo de hoje.  [...]
E lá passa ainda, esgueirando-se, e bem se vê no seu albornoz alvadio, o derradeiro mouro, talvez o filho do vali, que logrou escapar-se ao primeiro dos cavaleiros cristãos, e há oitocentos anos, todas as noitinhas, espera que o vento lhe traga desde as almenaras africanas — a canção do almuadin.

E... «era uma vez uma cidade de mouras e valis...».


De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo, tem o Castelo de S. Jorge — monumento nacional (séc. X) — sete portas: uma servindo a freguesia civil, outra dando acesso do exterior do bairro do Castelo ao «Passeio», três ligando a freguesia civil ao recinto monumental, e duas abrindo da antiga «Praça Nova» para o «Passeio». [vd. planta esquemática]

Castelo de S. Jorge: Porta ou Portão, do Espírito Santo [1906]
Esta Rua das Cozinhas que nasce junto ao nº 37 da Rua do Espírito Santo é uma artéria que surgiu após o Terramoto e recorda as cozinhas do Paço de Alcáçova medieval.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A Porta ou Portão, do Espírito Santo, situa-se no topo da Rua deste nome, já na Rua das Cozinhas, de perfil ogival e arestas chanfradas, rematado o arco por esfera armilar de D. Manuel, e em cujos muros laterais se rasgam, de um lado onze seteiras, e do outro dezassete, vendo-se, embebida no muro exterior, do lado esquerdo, uma pedra de armas reais do tempo de D. Afonso III [a primordial construção é árabe]; esta porta, com portão de ferro, conduz à antiga «Praça Nova», terreiro a Nascente do Castelejo, e está normalmente fechada.

Castelo de S. Jorge: Porta ou Portão, do Espírito Santo [c. 1900]
Ao alto ostenta a esfera armilar de D. Manuel e, a esq., as armas 
portuguesas do tempo de D. Afonso III.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Nesta plana a parle central, a branco, corresponde a lodo o recinto do Monumento, incluindo as actuais explana­das, a antiga Cidadela ou Alcáçova, o Castelejo, marcado e traço grosso negro, a muralha circundante marcada a traço mais fino, e a zona do «Passeio», assinalado a verde. Siga-se o texto, referenciado por números e por letras e círculos azuis. 

— Porta de S. Jorge (A) [já falámos dela aqui]
— Porta de Santo André (B)
— Porta  do  Sul  (C)
— Porta ou Portão, do Espírito Santo (D)
— Portão de Santa Cruz (E) [aqui]
 — Porta do Norte (F)
 — Porta de Martim Moniz (G) [já falámos dela aqui]


Planta esquemática do Castelo de S. Jorge
A  Porta ou Portão, do Espírito Santo está assinalada a vermelho,
as outras seis portas, a azul, e o «Passeio» a verde
.
ARAÚJO, Norberto de, in Inventário de Lisboa

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 10-22, 1943.
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, 1944.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O Pátio da Galega e o Beco de Francisco André, à Rua da Boavista

Ora vamos seguindo a Rua da Boa Vista, cuja fisionomia do lado Norte, como de-certo vais notando, é mais sulcada de velharia. 


Contempla êste Arco, de volta redonda, alto, que conduz ao Pátio da Galega. Ao fundo da passagem desdobra-se outro Arco ou passadiço, e então se abre o pequeno pátio, pobre e triste, sem ambiente pitoresco que não seja o que a sua grande boca, rés-vés da rua, pode sugerir. Não chega a constituir um apontamento de Alfama, na Boa Vista.  É, porém, interessantíssimo o seu exterior.

Arco, entrada para o Pátio da Galega, à Rua da Boavista (junto ao nº 120) [1953]  
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente
Arco, entrada para o Pátio da Galega, à Rua da Boavista (ao fundo) [1953]  
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

O Beco de Francisco André — escadaria entre prédios, mais nada — vale ser citado apenas porque deve o seu nome a um mesteiral que foi da Casa dos Vinte e Quatro.

Arco do Beco de Francisco André, à Rua da Boavista, n.º 130 [1953]    
Fernando Martinez Pozal, in AML

A Casa dos Vinte e Quatro foi criada em 16 de Dezembro de 1383, por D. João, Mestre de Avis (futuro D. João I) com o objectivo de permitir que os mesteirais participassem no governo da cidade.
A Casa dos Vinte e Quatro era composta por dois representantes de cada uma das doze corporações de ofícios da cidade, conhecidas por "bandeiras”, os quais colectivamente eram conhecidos pelos "Vinte e Quatro”. Cada bandeira era designada pelo respectivo santo padroeiro e incluía um ofício de cabeça, bem como outros ofícios anexos. 
As reuniões realizavam-se inicialmente na igreja de S. Domingos, os quais elegiam um juiz do povo (que presidia à casa), juízes de paz, procuradores e outros magistrados.
Na sequência da implantação do regime liberal em Portugal, as casas dos vinte e quatro foram extintas pelo Decreto de 7 de Maio de 1834.

Rua da Boavista [1883]
Legenda:
Azul: Pátio da Galega
Vermelho: Beco de Francisco André

Levantamento topográfico de Francisco Goullard n.º 313, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 79, 1939.
cm-lisboa.pt; AML

domingo, 5 de julho de 2015

Antiga Igreja de N. S. dos Anjos

A extinta Igreja dos Anjos  datava de 1568 e foi reedificada em 1758, devido a danos causados pelo Terramoto. Segundo o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, «A paroquial dos Anjos que como se sabe deu o nome à rua, levantava-se num dos seus lados, no sítio onde a rua é cortada pela avenida Almirante Reis [antiga Avenida Dona Amélia e antes Avenida dos Anjos. vd planta mais adiante]. 
A paróquia fora fundada no tempo em que o cardeal D. Henrique era arcebispo de Lisboa e teve por sede uma ermida dedicada aos Anjos, ermida que alguns anos depois, com o dinheiro havido do imposto de 5% lançado sobre os alugueres das casas existentes na freguesia, se transformou no tempo de Filipe III, em «hum dos mais lindos, & ornados Templos da Corte» no dizer de fr. Agostinho de Santa Maria». 

Primitiva igreja dos Anjos [post. a 1901 e ant. a 1908]
Rua dos Anjos e, à direita, o Regueirão dos Anjos
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Primitiva igreja dos Anjos [post. a 1901 e ant. a 1908]
Rua dos Anjos e, à direita, o Regueirão dos Anjos com alguns edifícios já demolidos.
José Artur Leitão Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Nas Memórias Paroquiais, assinadas pelo pároco António Carlos de Oliveira, em 1756. é referido que a igreja é de uma só nave, com capela-mor, onde se integra tribuna de talha dourada, fechada pro painel dos Anjos, envolvendo Nossa Senhora da Glória, surgindo, no lado do Evangelho, São Miguel e, no lado oposto, São Pedro; o altar colateral do Evangelho é o de Nossa Senhora dos Anjos, com as imagens de Santo André, Santa Catarina e Santo António; no lado oposto, Nossa Senhora da Conceição com tribuna ricamente ornada, tendo o Santíssimo e as imagens de São Sebastião, São Brás e São João Baptista; sobre o arco triunfal, a imagem de Cristo; o tecto da igreja é apainelado; tem a igreja de Nossa Senhora dos Anjos um capelão que recebe 50$000 anuais em esmolas.
O seu interior foi integralmente recuperado e transferido para o actual templo, por exemplo, os sete altares de talha dourada e o tecto com apainelado de caixotões de pintura com cenas da Vida da Virgem e alegorias bíblicas atribuíveis a Marcos da Cruz.

Localização da antiga igreja dos Anjos [1901]
A planta [fragmento] inclui [...] a rua e a igreja dos Anjos, a Rua Andrade, a Rua Maria Andrade, a Rua Palmira e a Avenida dos Anjos 
[actual Av. Almirante Reis], in Lisboa de Antigamente

Foi demolida em 1908 para abertura da Avenida Dona Amélia (actual Av. Almirante Reis), foi de seguida reconstruída no lado ocidental deste arruamento [vd. planta], conforme às exigências da cidade, tendo o arquitecto José Luís Monteiro, todavia, respeitado proporções e valores da primitiva igreja seiscentista, sem deixar de lhe conferir um carácter neoclássico, que lhe adoçou as proporções.

Antiga Igreja dos Anjos, fachada lateral 
e a imponente torre sineira virada à Rua dos Anjos [1901]
Machado & Souza., in Lisboa de Antigamente
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