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Sunday, 17 June 2018

Arco de S. Vicente

O Arco é, só por si, — recorda-nos Norberto de Araújo meia freguesia deste bairro fidalgo e popular, que se fez e cresceu à sombra do velho mosteiro dos cónegos regrantes de Santo Agostinho [refere-se Mosteiro de S. Vicente de Fora] — a mais contemplativa e arrogante das vivendas conventuais da freirática Lisboa. (...) O Arco de S. Vicente inspira uma novela de costumes, na perspectiva das vidas e das cousas que foram um dia, quadro de poesia melancólica bairrista.
Para lá do Arco, tomado desde o Largo de S. Vicente, fica o Campo de Santa Clara, com a sua largueza e a sua evocação das freiras claristas. Fica a Feira da Ladra, que remonta ao século XIII, ali desde 1882, saborosa e pitoresca, das terças-feiras e dos sábados.»¹

Arco de S. Vicente [1931]
Campo de Santa Clara (Feira da Ladra);
Mosteiro de S. Vicente de Fora; Arco Grande de Cima
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Ora retomemos o caminho do Arco Grande. Este Arco foi erguido em 180[7], um pouco adiante do sitio onde se rasgava desde 1373-1375 a Porta ou Postigo de S. Vicente, da Cerca (nova) de D. Fernando. Ligava esse Arco o Convento às suas quintas e jardins, e hoje faz ligação do Liceu [de Gil Vicente], (antigos Paços Patriarcais) à cerca-recreio dos alunos e que atrás vimos. Decorativo, com uma graciosa perspectiva tomada desde o Largo de S. Vicente, este Arco Grande é, sem dúvida, o mais romântico de Lisboa, pelo seu pitoresco natural.»²

Arco de S. Vicente, tomado desde o Largo de S. Vicente [194-]
Arco Grande de Cima
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, PP- 180-181, 1943.
² id. Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 72, 1939.

Wednesday, 9 September 2015

Panorâmica sobre São Vicente de Fora

Considerada um dos mais impressionantes edifícios lisboetas, a Igreja de São Vicente de Fora ergue-se como uma imagem emblemática do mecenato arquitectónico de Filipe I, depois de ter subido ao trono português.

Instituído por D. Afonso Henriques em 1147, decorrendo do voto feito pelo monarca caso conseguisse conquistar Lisboa, o mosteiro dedicado ao mártir, e entregue aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, simbolizou na sua essência a refundação cristã da cidade, tornando-se progressivamente uma das mais importantes casas conventuais lisboetas.

 

Em 1527, D. João III encetou uma profunda reforma no interior da ordem dos Crúzios, que estabelecia uma reformulação das regras de vida monástica, estendendo-se à arquitectura dos complexos conventuais.
No entanto, só no início do reinado de Filipe I foi iniciada a reforma do edifício da igreja e do mosteiro, numa acção em que o monarca "refazia o gesto fundacional de Afonso Henriques, sobretudo como gesto primeiro de um novo dinasta e de um novo mecenas", reforçada pela escolha do templo para panteão real (Soromenho, 1994, p. 208).
A autoria da traça do novo mosteiro continua envolta em alguma polémica, embora nos últimos anos seja consensual que as grandes figuras de destaque da reforma vicentina sejam os arquitectos Juan de Herrera e Filipe Terzi.
Se a Herrera, autor do Escorial, são atribuídos os planos do complexo mandados fazer por Filipe I, coincidindo a data dos esboços com os anos de permanência do arquitecto em Lisboa (1580-1583), de Terzi destaca-se o seu contributo nas "traças operativas", ou seja, o seu papel na condução do estaleiro de obras e a influência decisiva do seu trabalho na estrutura final (idem, ibidem, p. 210).

Panorâmica sobre São Vicente de Fora, observando-se o Mercado de Santa Clara e a Escola Secundária Gil Vicente |1940|
in Lisboa de Antigamente

Outra figura de destaque na obra de São Vicente de Fora é, sem dúvida, o arquitecto português Baltazar Álvares, que dirigiu as obras entre 1597 e 1624, e a quem se aponta a composição da fachada (idem, ibidem; Soromenho, 1995, p. 379-380). Adaptando a tradição do Maneirismo romano às tradições arquitectónicas portuguesas, o seu modelo constituiu-se como uma das géneses do estilo chão, marcando em definitivo a arquitectura maneirista, em Portugal e em todo o mundo português, durante o século XVII.
De planta longitudinal, o templo vicentino possui nave única, com transepto, capela-mor bastante profunda e retro-coro. Nas paredes laterais da nave "destaca-se a sequência rítmica de pilastras emparelhadas" (idem, ibidem), entre as quais foram rasgadas, em 1608 pequenas capelas, comunicantes entre si. O espaço, cuja iluminação é feita através de janelas termais que se distribuem pelo topo da cabeceira e do transepto, é coberto por abóbada de berço de caixotões, estando estes decorados com diferentes relevos. O cruzeiro da igreja era originalmente rematado por uma cúpula, que ficou totalmente destruída durante o terramoto de 1755.

Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora |1858|
Largo de São Vicente; Palácio Teles de Menezes (esq.)
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

A fachada apresenta uma composição muito original, de linhas sóbrias e depuradas mas repleta de monumentalidade, como convinha a uma igreja designada panteão-real, na qual se destaca a disposição das duas torres. Estas não são simplesmente justapostas como dois blocos adossados ao frontispício, mas antes plenamente integradas na estrutura, numa tipologia que recria, à luz da tratadística renascentista, a arquitectura medieval portuguesa, alcançando "um equilíbrio perfeito entre a tensão horizontal de um alçado de cinco tramos e a verticalidade sugerida pelos volumes torreados" (idem, ibidem).
(DIDA/IGESPAR/28 de Novembro de 2007)

Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora |1951|
Largo de São Vicente
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

N.B. A freguesia dita de S. Vicente, funcionou, logo desde 1147, na igreja conventual, e o seu patrono foi S. Miguel, invocação principal que se perdeu. Esteve, desde o início fora da jurisdição episcopal, e, talvez por isso, se chamou S. Vicente «de Fora». e não por estar fora dos muros da Cerca Moura. Em fins de Janeiro de 1856 foram anexadas à paróquia de S. Vicente as de S. Tomé. e do Salvador. já retinidas uma à outra desde 1836. A freguesia civil passou a chamar-se das Escolas Gerais desde 15 de Julho de 1916.
(ARAÚJO, Norberto de, IL, 1944)

Panorâmica tirada das Portas do Sol sobre São Vicente de Fora |194-|
Largo de São Vicente
Amadeu Ferrari, 
in Lisboa de Antigamente

Friday, 16 December 2016

Palácio Teles de Menezes / Palácio Alfredo da Cunha

O Palácio dos Teles de Meneses, neste século mais conhecido pelo Palácio Alfredo da Cunha, com frente sobre o Largo de S. Vicente, é uma edificação que remonta ao principio do século XVII, em casas nobres cujas características hoje mal se descortinam.


Aí temos na esquina da Rua e Largo, lado Norte, o magnífico Palacete do Dr. Alfredo da Cunha. Assenta sobre esta alta e desafogada muralha, na face do Largo, construída em 1606, isto é: quando se reedificava a Igreja de S. Vicente, pelo Senado de Lisboa, presidido por D. João de Castro. Estas duas lápides embebidas na muralha atestam o facto. Diz uma no seu latim laudatório: «Esta rua tão formosa veio acrescentar realce ao templo; eis uma obra menor que adorna outra maior...» etc; reza a mais pequena na sua legenda, de clássicos dizeres: «A Cidade mandou fazer esta obra à custa do real do povo›. 

Palácio Teles de Menezes / Palácio Alfredo da Cunha |c. 1952|
Largo de São Vicente, 5; Rua da Voz do Operário, 2-20; Telheiro de São Vicente, 1-2C
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Depois de erguida a muralha foram construídas umas casas sobre os terrenos que ela ampara, casas que em 1686 eram de Fernão Teles de Menezes, e, conservadas em família, estavam em 1816 habitadas pelo marechal Pedro Vieira da Silva Teles. Em 1902, o Palácio foi adquirido por D. Agostinho de Scusa Coutinho, Marquês do Funchal, e, em 1906, exte o vendeu ao escritor Dr. Alfredo da Cunha, que nêle habita [em 1939]. [este fez grandes obras dirigidas pelo arq.º Nicola Bigaglia]

Palácio Teles de Menezes / Palácio Alfredo da Cunha |c. 1952|
Largo de São Vicente, 5; Rua da Voz do Operário, 2-20; Telheiro de São Vicente, 1-2C
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Também o Palácio Alfredo da Cunha tem tradições em S. Vicente, fidalgas e literárias, a começarem no tempo em que o habitou, há uns setenta anos, D. Mariana de Noronha. O Palácio do Dr. Alfredo da Cunha, e que de assisadas obras tem beneficiado, está recheado de arte, emoldurado em bom gosto, transpirando a nobreza de espírito do seu possuidor.

Palácio Teles de Menezes / Palácio Alfredo da Cunha |1899|
Largo de São Vicente, 5; Rua da Voz do Operário, 2-20; Telheiro de São Vicente, 1-2C
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

O interior, profundamente alterado, ainda conserva uma feição seiscentista na escadaria e na traça de alguns tectos. A escada, ao lado do Largo de São Vicente, foi revestida a azulejos colocados durante a intervenção de Bigaglia.
O jardim surge estruturado em três planos alcandorados, valendo todo o conjunto pela excelente colecção de azulejos reunida pelo proprietário Alfredo da Cunha. provenientes da Igreja do Convento de Santa Joana e de portas e colunas de mármore vindas da Ermida das Mercês. O interesse do edifício reside no seu carácter funcional, representando um paradigma na arquitectura seiscentista da capital.
Actualmente, procura novo proprietário no portal de uma agência imobiliária por quase 8 milhões de euros.

Palácio Teles de Menezes / Palácio Alfredo da Cunha, jardim |c. 1910|
Largo de São Vicente, 5; Rua da Voz do Operário (ao fundo), 2-20; Telheiro de São Vicente, 1-2C
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, Fasc. IX, p. 147, 1950.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 59-60, 1939.
VITERBO, Sousa - Diccionario Historico e Documental dos Architectos, Engenheiros e Construtores Portuguezes ou a serviço de Portugal, vol. III, 1904.

Friday, 24 March 2023

Calçada de São Vicente

Dizia-se : «este é muito S. Vicente», como agora se diz, com menos razão: «é muito Lapa». Em verdade o sítio de S. Vicente, como expressão dum ambiente alfacinha, característico e simpático — à beira do povo da Alfama — vai muito modificado. [Araújo, VIII, 1938]

O topónimo São Vicente (além da freguesia existe um Largo, um Telheiro, uma Rua, uma Travessa e uma Calçada na toponímia de Lisboa) está indubitavelmente ligado à Igreja que aí se situa.
Este magnifico edifício [Igreja de S. Vicente] foi primitivamente erguido por D. Afonso Henriques para comemorar a tomada de Lisboa em 1147, e por ser em sitio extramuros dela, se denominou de Fora, dedicando-a esse rei ao mártir S. Vicente, que desde então ficou sendo o patrono de Lisboa. [Lacerda: 1874]

Calçada de São Vicente |1899|
Antiga Direita de São Vicente junto à Cruz de Santa Helena
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Friday, 16 April 2021

Chafariz da Infância

Nesta antiga Rua da Infância — hoje da Voz do Operário — , tornejando a Travessa de São Vicente, ficava situado o Chafariz da Infância — de data de construção e autor desconhecidos. Terá sido demolido cerca de 1912 para dar lugar à actual sede da «Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário»

A Rua da Infância — recorda o ilustre Norberto de Araújo — tem um troço moderno, que parte exactamente de onde está o edifício da Sociedade de Beneficência «Voz do Operário», e vai até à Graça; daí para baixo havia já a Travessa das Bruxas, antigamente muito estreita, à qual já aludi atrás, e que se continuava, subindo a poente, como hoje, pela actual Travessa de S. Vicente, até defronte do Convento dos Agostinhos, ou seja o dos frades da Graça.

Chafariz da Infância [centre 1903-1908]
 Actual da Voz do Operário, tornejando a Travessa de São Vicente
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Já agora outra informação te dou. Esta Travessa de S. Vicente, hoje, como vês, já com prédios modernistas (1937), e relativamente larga, era a estreita Travessa das Bruxas que ia dar ao Largo de S. Vicente, antes de se abrir a Rua da Infância. Na esquina do edifício da «Voz do Operário» desta Travessa existiu, no século XVII, uma porta vulgar de quinta, chamada de «Heliche», na citada propriedade dos Abelhas, assim conhecida porque nas casas da Quinta morou, em 1667, um Marquês, espanhol, de título Elche , nome corrompido em Elice ou Heliche.

Chafariz da Rua da Infância [c. 1900]
Actual da Voz do Operário, tornejando a Travessa de São Vicente, antiga das Bruxas
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Localização da Tv. de S. Vicente e do chafariz na antiga Rua da Infância em 1890

Bibliografia
ARAUJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 50-58, 1938.

Sunday, 5 November 2017

Campo de Santa Clara

O sítio é privilegiado — afirma Norberto de Araújo —, dos raros de Lisboa destinados ao sonho e às visões retrospectivas. O Arco é, só por si, meia freguesia deste bairro fidalgo e popular, que se fez e cresceu à sombra do velho mosteiro dos cónegos regrantes de Santo Agostinho — a mais contemplativa e arrogante das vivendas conventuais da freirática Lisboa. É certo que o Arco não é antigo; data de 1807. Substitui a velha Porta de S. Vicente da Cerca Nova, de D. Fernando.
Mas o caminho que o Arco dá é tão recuado como a imagem de Nossa Senhora da Enfermaria que — dizem — esteve no arraial de D. Afonso Henriques. [...]

Campo de Santa Clara [1858]
À direita, o Palácio Barbacena; ao fundo, do lado esquerdo o Mosteiro (e Arco) do Convento de S. Vicente de Fora
Amédée de Lemaire-Ternante, in Lisboa de Antigamente

Para lá do Arco, tomado desde o largo de S. Vicente, fica o Campo de Santa Clara, com a sua largueza e a sua evocação das freiras claristas. Ficam os palácios Barbacena e dos Avintes-Lavradios; [...] ficam o Pátio de S. Vicente, que viu rodar os coches de sete patriarcas, o amor do jardim de Santa Clara, as obras de Santa Engrácia, poema de pedra insultado nas suas estrofes, e, o amor do jardim de Santa Clara, as obras de Santa Engrácia, poema de pedra insultado nas suas estrofes, e, ao cabo e ao longe, o Tejo, largo e azul, onde apenas vogam velas brancas e a lua toma banho entre miríades de estrelas. ¹

Campo de Santa Clara [1931]
Vista de N→S; Mercado de Santa Clara
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 180, 1943.

Tuesday, 18 August 2015

Rua da Voz do Operário

A Rua Voz do Operário, situada na Freguesias de S. Vicente, é um topónimo que foi atribuído por deliberação camarária de 11 de Fevereiro de 1915 e edital municipal de 14 de Outubro de 1915, no arruamento até aí designado por Rua da Infância.
Com esta atribuição a vereação republicana procurou consagrar a Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário, fundada em 1879 e sediada nesta artéria desde 1913.

Rua da Voz do Operário [1902]
Quartel de Sapadores Bombeiros, erigido em 1890-1891
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A prestimosa instituição «Voz do Operário» foi fundada em 1879, com a publicação de um semanário com aquele título, criando-se pouco depois uma cooperativa e logo depois, a instituição de beneficência e instrução que ainda hoje existe. 
A iniciativa foi dos operários dos Tabacos e teve a sua primeira sede numa casa da Calçada de S. Vicente, transitando em 1896 para o Largo do Outeirinho da Amendoeira. O operário tabaqueiro Custódio Gomes foi quem lançou a ideia do jornal da sua classe, extensivo a todas mas foi outro operário também tabaqueiro, Custódio Brás Pacheco, o verdadeiro impulsionador da instituição. 
João Franco protegeu esta colectividade operária, tornando possível a construção do vasto edifício que lhe serve de sede desde 1913, com a sua escola central, secretaria, biblioteca, serviços de assistência e sala de conferências. Em 1925, foi considerada instituição de utilidade pública.
 
Rua da Voz do Operário, 9-17 [c.1975]
Sede da Sociedade de Instrução e Beneficência "A Voz do Operário"; no gaveto com a Tv. São Vicente, que ali se vê protegido por gradeamento, erguia-se o Chafariz da Rua da Infância.
Emídio Santana, in Arquivo Histórico-Social / Projecto MOSCA
 
Este arruamento foi aberto na antiga Quinta do Abelho [«do Abelha» ou «das Abelhas»], nos princípios do último quartel do séc. XIX e por deliberação camarária de 22 de Novembro de 1880 foi-lhe dado o nome de Rua da Infância, o qual segundo o olisipógrafo Vieira da Silva («Lisboa Antiga», vol. VII) se deve ao facto de, no n.º 19 daquela rua se ter inaugurado em 1877, uma das casas da Sociedade das Casas de Asilo da Infância Desvalida, então chamada Asilo de S. Vicente.

Rua da Voz do Operário, 19 [c. 1900]
Asilo da Infância Desvalida
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

N.B. A Voz do Operário é uma das obras maiores do arq.º Norte Júnior, albergando a escola da instituição. A implantação difícil, num terreno em declive, amplia a imponência do conjunto, construído entre 1912 e 1932. Na fachada, o característico eclectismo do arquitecto parece agigantar-se, com forte contraste entre os maciços volumes das colunas e das janelas e os delicados elementos decorativos Arte Nova[DGPC]

Friday, 10 March 2023

Largo do Outeirinho da Amendoeira

O Largo do Outeirinho da Amendoeira — ainda sitio de S. Vicente — é repousado. A um lado, sul, está o edifício novo da Fundição de Canhões, e, contiguo, um prédio n.º 1, hoje desocupado, integrado na área daquele antigo estabelecimento, e na qual no fim do século passado esteve instalada «A Voz do Operário». Foi o período animado e popular deste pequenino sitio, com as manifestações inocentes e idealistas do 1.° de Maio, os discursos românticos dos operários dos Tabacos, que a multidão aplaudia na rua. [...]
Este outro palacete à nossa direita [esq. na imagem], sobre o Largo e sob o Pátio de S. Vicente, n.º 12-13, e agora pintado de verde, assenta sobre o casco de umas casas que aqui existiram no século XVI; em 1716 pertencia ao Dr. Francisco Quintanilha, e reedificado ainda no século do Terramoto, ou logo no começo do seguinte, era propriedade de Veríssimo José de Quintanilha e Mendonça, transitando depois para a posse da família Morais Sarmento, à qual ainda pertence, e nele habita.
 
Largo do Outeirinho da Amendoeira |1918|
À dir. nota-se o antigo edifício da Fundição de Canhões (ou Fundição de Cima).
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Sigamos agora por esta rua, que é o princípio do Largo do Outeirinho da Amendoeira, antiga [Rua] do Arco Pequeno, sob o muro do Pátio de S. Vicente; assentou aqui o Postigo do Arcebispo, da muralha de D. Fernando, depois configurado num Arco, desaparecido há relativamente poucos anos.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 86, 1938)

Largo do Outeirinho da Amendoeira |1949|
Local do postigo do Arcebispo ou arco Pequeno de São Vicente da Cerca (ou muralha) Fernandina.
Eduardo Portugal,  in Lisboa de Antigamente

Sunday, 14 May 2023

Panorâmica de Lisboa tomada do Jardim de S. Pedro de Alcântara

Para lá do vale da Baixa, a colina de S. Pedro de Alcântara, «varanda do Bairro Alto», «janela de Lisboa aberta sobre Lisboa». «Grande panorama», diz-nos Norberto de Araújo, e exclama também o conselheiro Acácio. O conselheiro e Luiza «foram encostar-se às grades» e, «através dos varões, viam, descendo n'um declive, telhados escuros, intervalos de pátios, cantos de muro com uma ou outra magra verdura de quintal ressequido [...]»
Varanda dos amores românticos — prossegue o autor das Legendas—  do tempo em que era alameda — S. Pedro de Alcântara é um dos mais ternos miradouros naturais da cidade. [...]
Para nascente e sul, o Castelo, recortado sobre a peanha pintalgada da cidade velha; as torres alvíssimas de S. Vicente espreitando da linha do horizonte, acima do casario; a Graça, generosa, entregando-se toda; S. Gens, minúsculo, pousado no outeiro que cai sobra as Olarias; a , flanqueada de torres, morena, muito severa...

Panorâmica de Lisboa tomada do Jardim de S. Pedro de Alcântara
Fotografia anónima s.d., ant. a 1887

São identificáveis na fotografia (ant. a 1887): logo abaixo do gradeamento — proveniente em parte do Palácio da Inquisição (ou dos Estaus) no Rossio — o tabuleiro inferior do Jardim e miradouro de S. Pedro de Alcântara (com os bustos dos notáveis de Portugal); na extrema esquerda baixa, observa-se o Palácio dos Castello-Melhor, hoje Palácio Foz, e a antiga torre sineira da capela de N. S. da Pureza (demolida em 1902 após incêndio no palácio) virada à Calçada da Glória; acima, o Monumento dos Restauradores, em construção e com os andaimes ainda montados; para nascente do monumento ainda são visíveis os portões e a cerca do antigo Passeio Público (poente) (demolido c. 1885); no recanto ocidental dos Restauradores, onde hoje se encontra a Estação do Rossio (1890) e o Éden (1914), vê-se a cúpula do antigo Circo Whyttoyne, erguido em 1875 e demolido em 1887
Acima do obelisco vê-se o Palacete Anjos (hoje CTT), atrás deste nota-se a torre sineira da Igreja dos Franceses e acima desta a Cerca do Convento da Encarnação na Calçada de Sant'Ana e, à esquerda deste, o ingreme Beco de São Luís da Pena; em último plano, o Convento da Graça e as torres de S. Vicente de Fora e, ao centro o Castelo de S. Jorge e à direita a Sé de Lisboa.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 114.
QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878.

Sunday, 21 November 2021

Torre de Belém

Neste monumento, de maior beleza que imponência, há a considerar o Baluarte, avançado desde os extremos da frente Sul da Torre, com seis faces, e com cerca de 41 me­tros de comprimento, e a Torre, propriamente dita, vertical, com quatro faces regulares, e com cerca de 36 metros de altura.


A Torre de Belém, o mais belo monumento fortificado de todo o pais, ainda que reduzido hoje a um padrão de beleza, evocativo das glórias marítimo-militares, com reflexos dos descobrimentos e projecção da opulência quinhentista, data de 1515-1519-1521, anos respectivamente do começo da obra, da sua conclusão, e da investidura do seu primeiro alcaide-mor, Gaspar de Paiva. 
Realização do reinado de D. Manuel não resta dúvida de que foi concepção de D. João lI, destinada a defender a entrada do rio. O «Baluarte do Restelo», também chamado «Castelo de S. Vi­cente a-par de Belém». ou. simplesmente, «Torre de S. Vicente», foi executada por Francisco de Arruda, designado em 1516 o «mestre do baluarte do Restelo», lavrante de pedraria, pertencente a uma família de artistas que trabalharam em Tomar, na Batalha, nos Jerónimos, e na construção de fortalezas em Çafim e Azamor.

Torre de Belém  [c. 1866]
Antiga Praia do Restelo hoje Avenida de Brasília
Em  cada um dos vértices da face Norte uma guarita, com sua cúpula, igual às da muralha do baluarte; sobre estas dois nichos com baldaquinos, num dos quais se  vê a imagem escultórica de S. Miguel e noutro a de S. Vicente, padroeiro da Torre e da cidade de Lisboa; uma janela de perfil românico, à altura do primeiro andar; um lindo balcão, saliente da parede, apoiado em cachorros, com dois arcos assentes sobre três colunelos, com balaustrada e cúpula, no mesmo perfil do grande varandim da face principal; uma janela geminada sobre aquele  balcão.
Autor desconhecido, iin Lisboa de Antigamente

Parece incontroverso que a primeira traça ou desenho da fortaleza não foi de Francisco de Arruda, mas do cronista, também debuxador [o mesmo que desenhador], Garcia de Rezende, ainda no reinado de D. João II, e/ou, de Boytac, o insigne «mestre» dos Jerónimos, já no reinado de D. Manuel. Francisco de Arruda foi, porém, o grande arquitecto realizador desta obra, cujos planos, se os havia, ele interpretou, ou transformou na «mais graciosa, a mais elegante, e a mais encantadora das jóias cinzeladas sob a ins­piração das fantasias mouriscas» (Oliveira Merson: 1861).
A antiga fortaleza desenvolve-se, com inspiração nacional autónoma, nascida dos elementos construtivos gótico-romanos, a qual através das sugestões da Índia e da África mourisca, deram o manuelino, exuberante, neste monumento, de originalidade, de simbolismo e de fantasias, singularmente reguladas pelo poder contemporizador de Francisco de Arruda. Esteve o «Baluarte do Restelo» rodeado de água por todos os lados, até que o deslocamento do curso do Tejo o foi envolvendo de areias, prendendo-se à torre como uma nau de quinhentos encalhada, com a proa mergulhada no rio, A Torre de Belém tem expressão nacional, na evocação dos descobrimentos e dos feitos marítimos que se lhes seguiram, mas constitui também, nas suas particularidades históricas, um documento olisiponense, de formoso semblante e impecável beleza.

Torre de Belém e Forte do Bom Sucesso  [c. 1900]
Antiga Praia do Restelo hoje Avenida de Brasília
Em 1780 inicia-se a construção do forte, com projecto do engenheiro e general francês Vallerée (segundo o sistema do marquês de Montalembert); o mesmo ficava ligado à Torre de Belém por meio de um passadiço. Durante a ocupação francesa, em 1808, o general Junot determina que a bateria seja ligada à Torre de Belém por uma bateria corrida, chamada Bateria Nova do Bom Sucesso ou do Flanco Esquerdo.
Autor não desconhecido, in Lisboa de Antigamente

A iconografia do monumento é vastíssima. A sua crónica é dilatada, viva de glórias mas tam­bém testemunho de tristes factos políticos: baluarte recamado da simbólica e da mística portuguesa do mar; prisão do Estado, do século XVII ao XIX. Conta algumas vicissitudes; no tempo de Filipe II a Torre de Belém esteve pronta ser arrasada, a conselho de um arquitecto napolitano, Vicencio Cazale, que no lugar daquela jóia pretendia construir uma «grande fortaleza». Em 1780-82 foi a Torre de Belém ligada por um suporte de bataria, ao forte do Bom Sucesso, e quando, mais tarde, este forte passou a ficar isolado, a Torre sofreu em parte desmantelamento. No período das invasões francesas de 1807 a 1810, foram reduzidas as ameias e guaritas do baluarte a meia altura, e retirados os arcos do varandim e outros elementos decorativos. Em 1845, por efeito dos protestos de Almeida Garrett, e a esforços do Duque da Terceira, governador da Torre, foi o monumento reintegrado pelo engenheiro militar António de Azevedo e Cunha. Em 1865 foi nela colocado o farolim que só há poucos anos dali foi retirado, e em 1867 deu-se-lhe a vizinhança das instalações abarracadas e negras da fábrica do gás, e a sentinela obesa do gasómetro.

Torre de Belém e Fábrica de Gás de Belém e gasómetros (dir.)  [c. 1900]
Antiga Praia do Restelo hoje Avenida de Brasília
A  muralha envolvente,  hexagonal, com cerca de um quarto da altura da Torre, e 
nela: A guarda ameiada em escudos de Ordem de  Cristo; Seis guaritas (das oito que envolvem, decorativamente todo o monumento) no vértice das faces do polígono, com janela de vigia, apoio cónico, e cúpula golpeada de gomos, no estilo  bizantino; Dezassete frestas rectangulares, ou canhoneiros, abertas na  muralha um pouco acima do nível de água.
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

O monumento, constituído pela torre propriamente dita, quadrangular, e por um baluarte hex­agonal, que defende a torre por envolvimento e avança sobre o rio, forma uma peça de conjunto, na qual os elementos interdependem sem dispersão; desta sorte não comporta a anotação de espécie móveis ou soltas. Objecto de vários estudos, monografias criticas e descrições, a Torre de Belém está desde há muito inventariado em pormenor; pela sua unidade não admite neste trabalho mais que uma síntese de inventário.

Torre de Belém  [c. 1869]
Antiga Praia do Restelo hoje Avenida de Brasília
No  Baluarte há que  anotar o portal principal de acesso ao monumento, contíguo  pelo nascente ao envasamento da Torre, servido (actualmente) por ponte levadiça, ornado ao  gosto da Renascença, com arco lavrado de volta redonda, sobrepujado de escudo régio e de esferas armilares.
Jean Laurent Minier, iin Lisboa de Antigamente

N.B.  1982 — A Torre de Belém é classificada Monumento Nacional e Património Mundial (UNESCO)  2007 — Nomeada como uma das Sete Maravilhas de Portugal.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1944.

Wednesday, 13 April 2016

Largo do Salvador: Convento de São Salvador e Palácio dos Condes dos Arcos

Estamos no Largo do Salvador — diz .Norberto de Araújo E do Salvador — porquê? 
Neste sítio, que no começo da Lisboa era de todo silvestre, em encosta que acompanhava pelo exterior uma parte da muralha moura, apareceu—segundo rezam as lendas—em certa manhã, espetado no chão do matagal, um crucifixo, e perto dele uma imagem de N. Senhora com o Menino. Milagre era; naquele tempo devoto, primeiros anos após a conquista, a notícia correu célere por Lisboa. Logo se ergueu uma ermidinha a Jesus Salvador «da Mata», porque mata cerrada era tudo isto por aqui. A ermida teve, pouco depois de erguida, grande concorrência de mulheres penitentes que junto dela fizeram um Recolhimento, já levantado em 1240. O sítio foi-se desbravando, povoando, dando uma pequena freguesia, o que se explica, porque a Ermida era do priorado.

Largo do Salvador |c. 1910|
Arco do Salvador e Convento de São Salvador, fundado em 1392
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
    
Em 1392 o Bispo do Porto, D. João Esteves, da Azambuja chamado por ser natural desta vila, mais tarde (1402) arcebispo de Lisboa, e cardeal (1411), resolveu com autorização do Rei e do Papa fazer do pequeno Recolhimento um mosteiro de religiosas dominicanas; a Igreja fôra confirmada paroquial no ano anterior. Era o tempo de D. João I que cousa. alguma negava ao tratar-se de ampliar Lisboa; o mosteiro, cuja primeira abadessa se chamava Margarida Anes, foi construído com lentidão, pois só é dado por concluído em 1478, a esforços da princesa, depois Rainha D. Leonor, mulher de D. João II.

Largo do Salvador |c. 1900|
Convento de São Salvador, fundado em 1392.
Fotógrafo não identificado, iin Lisboa de Antigamente

O Terramoto destruiu o velho mosteiro, que houve de ser reedificado de alto a baixo, não estando as obras concluídas em 1762, e havendo passado a paroquial para o Menino de Deus, para só voltar, mais tarde, à sua antiga sede.
Pela extinção das Ordens, o Mosteiro conservou-se até à morte da última freira (1884), mantendo-se depois ainda o culto na Igreja, cuja paroquial, porém, como a de S. Tomé, se uniu à de S. Vicente em 1836. 
Em Outubro de 1910, quando se proclamou a República, o antigo Convento era ocupado por um Colégio religioso, cuja patrona era D. Tereza Saldanha.
Depois tudo acabou — Colégio e Igreja; esta foi profanada, recebeu obras do Estado, nela se instalando, pouco depois o Centro Republicano Magalhãis Lima, com sua escola infantil.

Largo do Salvador |c. 195-|
Convento de São Salvador, fundado em 1392 e Palácio dos Condes dos Arcos, ou de S. Miguel (ao fundo). Observe-se o brasão de armas coberto por panos.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Aí temos, à nossa esquerda, o Palácio dos Condes dos Arcos (de Val-de-Vez), hoje dos Condes de S. Miguel, cuja Condessa (Noronha) é ainda Arcos. Este Palácio histórico, n.°s 14 a 25 do Largo, é o único representativo de toda a Alfama, aquele que, a despeito de não estar ocupado pelos seus ilustres proprietários senão no andar nobre, se mantém de pé. Relíquia alfamense na nobreza, com pergaminhos e crónica fidalga, êle sobrevive à evolução do tempo e dos costumes, como os raros, seus vizinhos, de S. Vicente. O Palácio, na sua formação primitiva, data dos fins do século XVI (...)

Largo do Salvador |c. 1910|
Palácio dos Condes dos Arcos, ou de S. Miguel. Observe-se o brasão de armas coberto por panos.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

O brasão que avulta sobrepujando o pórtico nobre é o dos Arcos, com as armas de Portugal no primeiro e terceiro quartel, e as do antigo reino de Castela, com dois leões batalhantes, no segundo e quarto.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 73-78, 1939)

Pórtico nobre do Palácio dos Condes dos Arcos, ou de S. Miguel |1955|
Largo do Salvador
Brasão dos Condes dos Arcos com as armas de Portugal e as do antigo reino de Castela
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Tuesday, 21 June 2016

Rua das Farinhas

 Os Corvos de S. Vicente


O olisipógrafo Norberto Araújo recorda-nos um pouco da história desta pitoresca Rua das Farinhas com início no Beco das Farinhas e fim no Largo da Rosa — no território da actual freguesia de Santa Maria Maior e que foi de S. Cristóvão e S. Lourenço — topónimo  que terá sido fixado na Lisboa seiscentista.

«Para o lado Norte (banda do Castelo) abrem as escadinhas — sempre escadas por aqui — que levam à Rua das Farinhas, a avenida do sitio, com é o seu Rossio que é o Largo da Rosa. Subamos.

Rua das Farinhas, 1 [c. 1910]
Junta de Freguesia de São Cristóvão e São Lourenço
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

É interessante êste conjunto de três prédios, ao centro da rua, os mais típicos da artéria e do sítio. O que tem os n.°' 22 a 26, com empena de bico, mostra uma pedra com um corvo [nº. 24], em relêvo, e uma legenda «Sam Vecête», vestígio do culto vicentino e da predilecção popular pelos corvos que acompanharam o corpo do Santo a Lisboa desde o Cabo Sacro.

Rua das Farinhas, 24 [c. 1900]
Pedra com um corvo
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O outro prédio, n.° 28 a 30 [32], mostra-nos um registo de S. Marçal *[vd. foto abaixo], dos mais antigos entre as centenas que Lisboa possue. O prédio seguinte, n.°* 32 e 34, é curiosíssimo: alto, esguio, «aguarelado» de si próprio, com seus canteiros de flores e a face da sua modéstia.

Rua das Farinhas, 22-32, prédio (nº 26) com empena de bico [c. 1900]
*O registo de S. Marçal encontra-se no nº 32 e não no  n.° 28 a 30 como refere o autor
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Por quanto tempo viverá isto? Eu não tenho, e tu também não, apêgo a estes versos soltos de redondilha urbanista; confesso porém que se amanhã por aqui passasse e isto já não existisse — tinha pena.» [1]

Rua das Farinhas, 22-32 [c. 1900]
Ao fundo, o Largo da Rosa e o Palácio Rosa
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

« Conserva o sítio de S. Cristóvão, no meio do seu encanto de pitoresco alfacinha, uma pedra esculpida que representa um corvo da nau da heráldica olisiponense. Tem este corvo movimento, pisar lesto e olho alerta; sobre a sua silhueta fina lê-se SÃM VECÊTE.
Neste muito alfacinha bairro de S. Cristóvão, vizinho da Madalena e da Mouraria, no sopé dos muros do Castelo, com os seus becos das Flores, os seus largos da Achada, de cazitas de andar de ressalto e janelas ogivais, e dos Trigueiros, fantasia do acaso urbanista, com a Rua das Fontaínhas e o Largo da Rosa — a pedra do corvo de S. Vicente do prédio de empena de bico, n.° 22 [n.º 24] da Rua das das Farinhas, é uma preciosidade de pitoresco.
Nada em Lisboa assim. Deve ter sido o prédio foreiro aos cónegos regrantes de Santo Agostinho. O foro passou; o corvo não. » [2]

Rua das Farinhas, 24 [c. 1950]
«Pedra com um corvo, em relêvo, e uma legenda «Sam Vecête»,
vestígio do culto vicentino e da predilecção popular pelos corvos
que acompanharam o corpo do Santo a Lisboa desde o Cabo Sacro»

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente


[1] ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 56, 1938.
[2] idem, Legendas de Lisboa, pp. 80-81, 1943.
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