Sunday, 9 September 2018

Pátio de D. Fradique e Palácio Belmonte

Um recanto aberto, impregnado de melancolia, é este do Pátio de D. Fradique. Nado e criado à sombra do Castelo, passagem do Chão da Feira para o Menino Deus, este Pátio tem qualquer cousa de original na Lisboa do pitoresco urbano. De seu título ele evoca um D. Fradique Manuel, que teve aqui casa, e da qual advém o Palácio dos Condes de Belmonte, senhores no sítio, cujo pórtico brasonado de Figueiredos e Cabrais, se abre numa lateral do primeiro compartimento [vd. 2ª foto].¹

 

Pátio de D. Fradique [ant. 1938]
Portal de acesso ao pátio de D. Fradique na Travessia do Funil, 12; [Rua do Chão da Feira]
Eduardo Portugal, in AML

Uma curiosidade lisboeta é êste Pátio de D. Fradique. Êle constitui o prolongamento natural do Chão da Feira, que acabamos de ver com a sua Porta de S. Jorge e os seus dois cubelos circulares decorativos, e do qual se passa ao Contador Mór através de três serventias curtas e estreitas: as travessas de S. Bartolomeu, do Chão da Feira, e do Funil, está já contígua ao Pátio. [...]
Contém-se o "sítio" numa área pequena que abre com um portal simples, aqui no tôpo do Chão da Feira, e fecha com outro na Rua dos Cegos; êste recinto logo da entrada é que constitui propriamente o Pátio, pois que o recinto mais largo, passado o arco ou passadiço, bem pode chamar-se um terreiro, como dantes se chamou "Hortas de D. Fradique".

Palácio Belmonte no pátio de D. Fradique «de Cima» [1907]
Portal nobre do solar dos antigos senhores da Ota e de Belmonte,  janela central da 
fachada sul encimada pelas armas dos Figueiredos  — cinco folhas de figueira, em aspa,
em campo rodeado da legenda «Pro Deo et Pro Patria. P.N.A.M»
Travessa do Funil, 12; à direita
observa-se o passadiço, de acesso ao terreiro ou Pátio
de D. Fradique «de Baixo»
Machado & Souza, in AML

Êste recinto, no seu todo, constitui serventia pública de passagem, com portas sempre escancaradas, embora seja de propriedade particular.  
Quem deu nome ao Pátio? Supôs-se, com certa verosimilhança, que fôsse um D. Fradique de Toledo, comandante general das tropas de Filipe IV, de Espanha, e comandante geral de uma esquadra saída de Lisboa, e que, em 1625, tomou a cidade da Baía aos holandeses.

Pátio de D. Fradique [1907]
A antiga "Porta de D. Fradique" é hoje um passadiço abobadado (com 22 metros 

de comprimento por 3 e meio de largura) que liga os dois pátios:
o Pátio «de Cima» (Palácio Belmonte) e o Pátio «de Baixo» ([Pátio de D. Fradique).
Pode ver-se no topo do passadiço, de lado a lado, um oratório/capela
dedicado a Nosso Senhor do Livramento
, ali colocado em 1878 e por onde se
chegava pelas duas escadas laterais que se vêem na foto.
Machado & Souza, in AML

Êste D. Fradique, Marquês de Valdueza, tinha um irmão, D. Fernando, homem de ruins fígados, que foi, aqui no Castelo, comandante dos presídios castelhanos, os quais situados na Praça Nova deitavam sôbre a área do actual Pátio; D. Fradique talvez aqui tivesse morado, e tem-se escrito que êle próprio foi comadante dos presídios.  
Parece, porém, incontroverso que o D. Fradique, que deu nome ao local, tivesse sido D. Fradique Manuel, em 1518 moço fidalgo do Rei Venturoso, pois é certo que antes do domínio espanhol em Portugal já a êste Palácio, «senhor» do Pátio, andava ligado o nome de «Fradique».²

Pátio de Dom Fradique «se Baixo» [c. 1940]
A fachada do Palácio Belmonte virada para o rio e para o Pátio d«e Baixo», evidencia as sobreposições e acrescentamentos a que o edifício foi submetido ao longo dos séculos, destacando-se o amplo terraço, sobre uma casa térrea do Pátio de D. Fradique «de Baixo», guarnecido de uma fina balaustrada, ao centro da qual blasona a pedra de armas dos Figueiredos e Cabrais

 O caminho à esquerda conduz ao portal na Rua dos Cegos
Eduardo Portugal, in AML

Com efeito no meado do século XV, um corregedor de Lisboa, Brás Afonso Correia, possuía neste sitio uns terrenos e casas que comprara (1449) a um Aires da Silva, e meio século depois (1508) adquiriu à Câmara mais um pedaço de chão e quintal. Esta propriedade de Brás Correia, que foi instituída em cabeça de vinculo pelo mesmo Brás em 1520, situava-se no que veio a ser depois o Pátio de D. Fradique «de Cima», que é aquele onde se rasga o portal do palácio.
Foi no final ainda do século XVI o no começo do século XVII que um descendente do corregedor do Lisboa (Rui de Figueiredo?) teria dado às suas casas quinhentistas, encostadas ao muro da Alcáçova, a forma apalaçada que em parte ainda hoje ostenta, no Pátio «de Cima». Em 1684 um descendente do fundador da Casa, Pedro de Figueiredo Alarcão, comprou umas casas e hortas, contíguas ao seu palácio pelo Nascente (Pátio de Baixo), ao 4.º Conde de Atalaia, D. Luís Manuel de Távora, quarto neto de um D. Fradique Manuel, descendente em linha directa, por bastardia, de um D. João Manuel, bispo de Ceuta e capelão mar de D. Afonso V, e filho natural do Rei D. Duarte.

Pátio de D. Fradique «de Baixo» [1968]
 À esquerda vê se parte final da fachada sul do Palácio Belmonte; o carreiro à direita conduz ao portal na Rua dos Cegos [vd. foto seguinte]
Armando Serôdio, in AML

Fora aquele D. Fradique o transmissor de seu nome ao Pátio «de Baixo», denominação também atribuída a uma porta da Cerca Moura, situada onde existe hoje o corredor abobadado que faz ligação com os dois pátios [vd. 3ª foto], ou, melhor com os dois recintos do Pátio de D. Fradique, e ainda às «Hortas de D. Fradique». Desapareceram pois os Manuéis (Atalaias) desta sitio, ficando toda a propriedade unida no vinculo dos Figueiredos (1684), no Pátio de D. Fradique.O Palácio sofreu pelo Terramoto (era então de Rodrigo António de Figueiredo Alarcão) bastantes estragos, cujas obras de restauro o devem tem em parte desfigurado. Andou depois, em vários períodos, arrendado totalmente, quer na sua parte nobre quer suas dependências modestas.
O seu maior interesse histórico-arqueológico reside no facto de nele estarem integrados, e com nitidez, elementos de muros da Alcaçova e das torres e muralhas da Cerca Moura.³

Pátio de D. Fradique «de Baixo» [1961]
Portal na Rua dos Cegos, 44
 Ao fundo vê-se o Palácio Belmonte e passadiço abobadado que liga os dois pátios
Arnaldo Madureira, in AML

No interior do Palácio Belmonte cumpre salientar as salas temáticas, os tectos apainelados ornamentados e o património azulejar. Classificado como Imóvel de Interesse Público é, actualmente, uma unidade hoteleira (Palácio Belmonte, no Pátio «de Cima» [vd. 1ª foto]. O Pátio de de D. Fradique «de Baixo» é propriedade da edilidade e encontra-se em ruínas (e ao abandono).
_________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, Vol. III, p. 47-48, 1938.
² idem, Legendas de Lisboa, p. 186, 1943.
³
idem, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, pp. 39-41, 1947. 
monumentos. pt; igespar.pt.

4 comments:

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