Sunday, 28 April 2019

Basílica dos Mártires

Estamos em face da Basílica dos Mártires, um dos templos de Lisboa de «categoria social» — que as igrejas também possuem por efeito de convenções ou da importância das suas irmandades. A Igreja dos Mártires, porém, vale pelo seu título, pela história da sua paroquial, pela sua ligação aos primeiros destinos de Lisboa.


A Igreja de Nossa Senhora dos Mártires, de tão ressonante nome olisiponense, é uma edificação integral do século XVIII, do risco do arquitecto Reinaldo Manuel dos Santos
A paróquia remonta ao ano da conquista de Lisboa; a sede principiou por ser uma pequena ermida dos Cruzados ingleses que auxiliaram D. Afonso Henriques na conquista de Lisboa, erecta no local — Monte Fragoso, que mais tarde foi o Alto de S. Francisco — onde aqueles cavaleiros tinham o cemitério dos seus «mártires», junto do acampamento situado a Poente da Lisboa sarracena.

Basílica dos Mártires [190-]
Rua Garrett
A Frontaria, constituída por dois corpos no sentido horizontal, cortados verticalmente por seis
pilastras da ordem dórica, das quais as extremas são duplas; e nela, ao cimo de alguns degraus;
 Frontão, em cujo tímpano se rasga um óculo iluminante.
Paulo Guedes, in A.M.L.

O templo primitivo de Nossa Senhora dos Mártires foi várias vezes reedificado, ampliado e restaurado, nomeadamente em 1598-1602, 1629, 1686-1692, 1710, 1746-1750; assentava ao lado, sobre o rio, do convento de S. Francisco (no sitio ocupado pelo prédio que esquina da Rua Vítor Córdon para o Largo da Biblioteca [actual Largo da Academia Nacional de Belas Artes]) e o Terramoto destruiu-o inteiramente. A paróquia estanciou depois por vários locais: numa barraca em Rilhafoles, na ermida dos Mártires, ao Rego, na de S. Pedro Gonçalves, ao Corpo Santo.
Em 1769, ou no ano seguinte, deu-se começo às obras do novo templo, situado na ma Direita das Portas de Santa Catarina, entre as ruas da Figueira e da Ametade (mas Garrett, Anchieta e Serpa Pinto actuais). Ainda por acabar foi benzida a nova sede paroquial em 18 de Março de 1774, mas só aberta ao culto em 5 de Agosto de 1786 (outros dizem em 1783). Só foi sagrada em 1866 (30 de Julho) após obras efectuadas nesse ano.

Basílica dos Mártires [1907]
Rua Garrett
O portal central, emoldurado de ombreiras trabalhadas na base do  capitel, e rematado, sobre a  verga, por  um  interes­sante baixo relevo, contido num medalhão, de mármore, obra de Francisco Leal  Gar­cia,  discípulo de  Machado de Castro, e que representa a dedicação do templo à Virgem, que a aceita de dois cavaleiros ajoelhados, um dos quais figura D. Afonso  Henriques, vendo-se ao fundo um trecho das muraÍhas ameeiadas de Lisboa.  
Joshua Benoliel, in A.M.L.

A fachada, como vês, é simples e discreta (teve em tempos um adro fechado entre grades); as pilastras da parte inferior são de ordem dórica, aos de cima, sob o frontão, de ordem jónica. Com seus três pórticos, suas três janelas iluminantes, o seu óculo gradeado no timpano — a frontaria dos Mártires parece-nos bem no semblante arquitectónico do Chiado.


Basílica dos Mártires [s-d.]
Perspectiva tirada do Largo de S. Carlos;
A torre sineira está colo­cada por detrás do edifício, sobre a Rua Serpa Pinto
Fotografia anónima



Basílica dos Mártires [195-]
Porta de ferro dourada que defende a capela baptismal
Mário de Oliveira, in A.M.L.
(clicar para ampliar)


A Basílica dos Mártires não é sumptuosa nem trivial. Impressiona bem sem deslumbrar. O tecto da igreja em pintura de Pedro Alexandrino com ornatos de Inácio de Oliveira, tem no centro a cena da dedicação do templo antigo a N. Senhora dos Mártires, e em volta os doutores da igreja.
O coro assenta sobre três arcos de pedra, sendo o do centro de volta abatida. Possue oito capelas por lado, e que vamos ver, a começar pelo lado esquerdo, logo a seguir à capela baptismal defendida por porta de ferro doirada com uma inscrição relativa ao primeiro baptismo realizado, em 1147 [vd. foto acima à dir. e NB.], no templo velho: de S. Brás, com painel de fundo dêste santo, logo de Santo António, com painel de Santa Cecília, com painel representando a Santa de Joelhos, e a do Santíssimo; pela direita: de Santa Lusia com painel representando o sacrifício da Santa, de S. José, .cujo retábulo representa Cristo no Golgota, de N. Senhora da Conceição, dando a pintura do fundo S. Miguel, e o de N. Senhora de Lourdes, com o Bom Pastor no retábulo. Todas as pinturas são de Pedro Alexandrino.

Basílica dos Mártires [195-]
Rua Garrett
O tecto em  abóbada de arco, em madeira, revestida de larga composição pictural, 
representando ao centro D. Afonso Henriques dedicando o templo à Virgem
acompanhado de um cavaleiro (Guilherme «da longa espada»), figurando-se ao alto Nossa Senhora,
 rodeada de  cruzados mártires e assistida por uma coroa de anjos, trabalho de  Pedro Alexandrino
 inspirado no desenho original do último tecto da anterior igreja, da autoria de  Vieira Lusitano.
Mário de Oliveira, in A.M.L.

NB. O baptistério, defendido por uma porta de ferro, dourada, com inscrição repartida; no  batente esquerdo lê-se em maiúsculas: «NESTA PARÓQUIA/SE ADMINISTROU O/PRIMEIRO BAPTISMO», e no batente direito «DEPOIS DA TOMADA/DE LISBOA AOS MOU/ROS, NO ANO DE1147»; no  fundo do  baptistério vê-se  um quadro «O baptismo do Salvador por S. João» pintura atribuída a Pedro Alexan­drino.

Basílica dos Mártires [1973]
Rua Garrett
No Interior, de nave única, a Igreja reveste-se de nobreza de materiais; um nicho, sobre o  arco da capela-mor, no qual se situa, orientada para o  corpo da igreja, uma imagem setecentista do Senhor Jesus dos Perdões; Nos Mártires conservam-se algumas boas imagens setecentistas, entre as quais uma, escultura de J. J. Barros Laborão, que pertenceu a uma ermida que existiu no edifício do Tesouro Velho. 
Artur Pastor, in A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 96-97, 1939.
id., Inventário de Lisboa, 1956.

Friday, 26 April 2019

Convento de S. João de Deus

As traseiras desta Casa conventual de poucas tradições lisboetas — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , são mais bonitas do que a frontaria, pelas sobreposições de acaso, panorama do claustro combinado com a arquitectura geral, um pouco confusa, e com pormenores decorativos que de todo não se perdem à distância. O Convento debruçava-se sobre o rio.¹


Convento de S. João de Deus [c. 1939]
Rua Presidente Arriaga, 9-13. Panorâmica tirada da Avenida 24 de Julho.
O Terramoto pouco dano fez ao Convento, que foi extinto em 1834. A Igreja conservou-se durante alguns anos, mas foi sacrificada às exigências de edifício publico. [Araújo: 1938]
Eduardo Portugal, in AML

Situado na Rua das Janelas Verdes [hoje Presidente Arriaga] ao lado do palácio que foi do Conde de Óbidos, e mesmo em frente ao vistoso convento de S. Francisco de Paula, encontra-se o que foi a antiga casa dos religiosos Hospitaleiros de S. João de Deus, Ordem instituída entre nós em 1617. 
Primitivamente, foi nesse local que se edificou, em 1581, o primeiro convento da Congregação de S. Filipe de Néri, dos Carmelitas Descalços, que naquele tempo era um sítio afastado da cidade, com boas vistas para o rio.

Convento de S. João de Deus
O claustro, que se vê do rio, é rasgado na frente, tendo, pois, três lados apenas, o do fundo com onze arcarias de volta perfeita e os outros com seis em cada. [Araújo: 1938]
Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755, pormenor, in Museu de Lisboa

O casario em que se edificou o convento pertencera a Francisco de Távora e a sua mulher, D. Mécia Ribeiro, que por volta de 1604 o venderam ao Dr. António Mascarenhas (Deão da Capela Real, doutor em Teologia e deputado da Mesa da Consciência e Ordens), que resolveu instituir um convento dessa invocação, com hospital acoplado.
Deu-se, pois, a sua fundação em 1629, contendo amplas instalações, grande claustro voltado para o rio e bonitas guarnições azulejadas.
Por morte de Deão fundador em 1637, viria a ser concluído posteriormente pelos religiosos.
Uma vez extintas as Ordens Religiosas em 1834, nele estiveram instalados primeiramente o Quartel da Brigada Real da Marinha, extinta com a revolução de Belém, em 1835. Depois, o Tribunal da Corte. Seguiu-se o Quartel de Infantaria n.° 2, culminando nos nossos dias, e a partir de 1919, com a Guarda Nacional Republicana, servindo o antigo claustro de parada do quartel

Convento de S. João de Deus, Enquadramento urbano [1857]
Rua Presidente Arriaga, 9-13 antiga Rua Direita de São Francisco de Paula
Legenda:  a Vermelho o claustro; a
Verde a delimitação do convento e cerca extintos em 1834Carta topográfica de Filipe Folque, 1857, in A.M.L.
(clicar para ampliar)

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 59-60, 1938.
² CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os conventos de Lisboa,  p. 120, 1989.

Wednesday, 24 April 2019

Calçada e Rua de Arroios

Acerca da origem do topónimo «Calçada de Arroios», Luís Pastor de Macedo afirma que «Nos princípios do século XVIII denominavam-na calçada de Alvalade, denominação ainda em uso ao tempo do terremoto. O nome era-lhe dado em razão da calçada comunicar com [o sítio de] Alvalade (Campo Grande e Campo Pequeno).»
(MACEDO, Luís Pastor de, Lisboa de Lés-a-Lés, vol. I, p. 180)

Calçada de Arroios [c. 19112]
Rua de Arroios; ao fundo, o viaduto sob a Rua Pascoal de Melo, que se ampara a antigas edificações do arruamento; ao fundo, à direita, destaca-se a cúpula do belíssimo prédio de gaveto na Avenida Almirante Reis, 31 com Rua dos Anjos
Joshua Benoliel, in AML
Nota: arruamento não identificado no AML

Sobre o sítio de Arroios, o olisipógrafo Norberto de Araújo nas suas Peregrinações, refere o seguinte:
«O Largo de Arroios — escuso dizer-to — era um arrabalde de Lisboa ainda há cento e cinquenta anos. Ameno, sussurrante de hortas verdejantes, como o seu nome indica, salpicado de casas e de alguns palácios seiscentistas — continuação mais pura de Santa Bárbara — Arroios, por cuja estrada se fazia a saída de Lisboa para Sacavém, tem também o seu pedaço de história fugaz a ilustrá-lo. (...)
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 82)

Sunday, 21 April 2019

Lojas de antanho: Pâtisserie Benard

Modificada, embelezada e modernnisada — noticiava a lllustração portugueza em Novembro de 1914 — abriu ha dias a antiga pastelaria Benard. de que é proprietário o sr. Casimiro Bénard. O interior da loja é revestido de elegantes vitrines de metal branco e cristal, bons espelhos que rodeiam a casa o até ao teto, tudo decorado a branco e ouro, o que a torna confortável e vistosa. A pastelaria Bénard tornou-se o ponto escolhido da boa sociedade de Lisboa para as suas reuniões, sendo o o seu proprietário, pelas belas qualidades que possue e dotes de inteligencia que o distinguem, merecedor de todas as simpatias que lhe são dispensadas

 

Pâtisserie Benard [c. 1912]
Rua Garrett, 104-106; (Hotel Borges, vd NB.))
A partir de 1926, passou a incluir o termo «pastelaria», quando os dísticos das fachadas em idiomas estrangeiros foram sujeitos a um pagamento de 500 reis à Câmara
Joshua Benoliel, in A.M.L.

A elegante Pastelaria Bénard, vizinha do Hotel Borges, — recorda-nos Mário Costa no seu Chiado pitoresco e elegante — pertence hoje à firma Manuel José de Carvalho, Ld.ª. Fundada no Calhariz [abriu primeiro como patisserie], em 1868, por Elie Bénard, passou a Pedro Bénard, Elias Bénard e ainda a Casimiro Bénard, transferindo-se para aqui no princípio do século XX, em substituição de outra fábrica de guloseimas, a Confeitaria Gratidão, de Manuel Antunes, que sucedera à firma V.ª Justo, especializada em frutas cristalizadas para exportação, e que se demorou de 1885 a 1891.


Pâtisserie Benard [1912]
Rua Garrett, 104-106
O interior da pastelaria em 1912.
A partir de 1926, passou a incluir o termo «pastelaria», quando os dísticos das fachadas em idiomas estrangeiros foram sujeitos a um pagamento de 500 reis à Câmara
Joshua Benoliel [?]

Entre 1838 e 1840 foi notória uma loja de ferragens, conhecida por Clube da Rolha, reunindo numeroso grupo de janotas, que, com a sua presença e animada conversação, afastavam muita freguesia. E, em 1873, data em que se inaugurou, o armazém de pianos, de G. Fontana & C.ª foram estes os fornecedores de grande número de discípulos dos melhores professores da época. 
A Confeitaria Gratidão lembrará duas similares, de tempos muito distantes, que por estes lados se acoutaram, tornando-se conhecidas pelos nomes dos seus proprietários, o Batalha e o Vilas. 

Rua Garrett, 104-106
Funcionários da Benard a fazer broas de Natal em 1912.
A partir de 1926, passou a incluir o termo «pastelaria», quando os dísticos das fachadas em idiomas estrangeiros foram sujeitos a um pagamento de 500 reis à Câmara.
Joshua Benoliel

NB. O Hotel Borges não tem capitulo na história antiga da artéria, mas é de citar-se como o único Hotel que o chiado possui em 1939, visto que o Aliança, na esquina da Rua Nova da Trindade, desapareceu em 1936. [Araújo: 1939]

Bibliografia
Illustração Portuguez, 9 de Novembro, 1914.
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 276-277, 1987.

Friday, 19 April 2019

Semana Santa em Lisboa

A Semana Santa no primeiro quartel do século passado tinha maior brilho e concorrência do que as actuais. Um cronista da Illustração Portugueza escrevia sobre a de 1907 (foi mantida a ortografia da época) :

Meia Lisboa accorre ás igrejas que se vestem de crepes, cumprindo a cada fiel visitar sete. É uma immensa romaria pelas ruas da cidade, a que o predominio dos fatos escuros dá um aspecto desusado. A's portas das egrejas é um vae-vem ininterrupto de gente que entra e sae, silenciosamente. Dentro, na meia treva que se mantém em todos os borborinha o rumor de orações discretas, evola-se o cheiro do incenso e as pessoas movem-se com gestos lentos e sobrios, que parecem automaticos. Ha uma onda de mulheres e homens, principalmente mulheres, que constantemente se renova. Uns vão por fé, decerto; muitos por curiosidade; outros por motivo diverso; mas o certo é que no dia da visita ás egrejas metade de Lisboa percorre os templos da capital.

Largo do Chiado [post. 1901]
Antigo Largo das Duas Igrejas; Igrejas do Loreto e da Encarnação
Joshua Benoliel[?'], in AML

No sabbado apparece a Alleluia. Jesus resuscitou. Correm-se os véos do templo, accendem-se todas as luzes, enfeitam-se os altares com flôres e toalhas brancas. Por toda a parte renasce a alegria e se espalha o ruido. Os rostos illuminam-se de satisfação, os labios sorriem sem constrangimento. Pelas ruas continua a mesma romaria interminavel, mas a onda é agora mais marulhenta. As toilettes claras da primavera, que substituem os vestidos pretos ou rôxos, incutem uma impressão de alegria e de rejuvenescimento, como a natureza nas arvores que começam a florir.

Largo do Chiado [ant- 1912]
Igreja do Loreto
Joshua Benoliel, in AML

Não ha duvida de que a ardente fé viva de outras eras se acalmou nas almas, mas ha ainda no meio do geral scepticismo dos tempos correntes crenças sinceras e verdadeira piedade. O recolhimento com que nações inteiras celebram a grande semana que vem de decorrer, a persistencia das cerimonias religiosas, cujo significado symbolico se perdeu comtudo, são prova d'isso.

Rua Garrett [24-03-1932]
Antiga Rua do Chiado; Igreja dos Mártires
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Bibliografia
Illustração Portuguez, n.º 59, 8 de Abril, 1907.

Wednesday, 17 April 2019

Palácio Sabugosa

O Palácio Sabugosa [antes S. Lourenço] situa-se na Rua Primeiro de Maio (antiga Rua de S. Joaquim, ao Calvário), n.ºˢ 120-124. A sua aparência é vulgar, notando-se a fachada forrada de azulejos, do tipo do século XVII. Os S. Lourenços (César de Menezes, descendentes de Vasco Fernandes César) possuiram uma vasta área de chãos neste sítio terminal do Calvário; foi em 'terrenos seus que se rasgou a Rua Luiz de Camões, essa grande artéria do fim do século — avenida de Santo Amaro.
No interior do Palácio Sabugosa as reminiscências seiscentistas estão representadas por alguns panos de azulejo, em regra deslocados do sítio primitivo, por alguns tectos de masseira no andar superior, e por outros pequenos pormenores, que os restauros quase encobriram.

 

Palácio Sabugosa [c. 1950]
Rua Primeiro de Maio, 120-124
Antiga de São Joaquim, ao Calvário, antes Rua direita do Calvário
Frontaria (séc. XVIII) e fachada lateral do Palácio Sabugosa, em Santo Amaro,  vendo-se a porta que conduzia à «Quinta Cesárea»; anota-se: o Andar  nobre, com seis janelas, de sacada, com  grades de varões, e  coroada de cornija; o Andar térreo, com quatro janelas de pei­toril,  centradas por dois portões triviais, de acesso
Fotografia anónima


O Palácio Sabugosa ou dos Césares, em Santo Amaro [vale recordar que Eça leu parte de Os Maias ao Conde de Sabugosa, precisamente neste palácio — protótipo do Ramalhete], remonta ao século XVI, no seu núcleo primitivo. Foi fundado por Luís César, segundo deste nome e apelido, que, como seus avós, foi do Conselho de El-Rei, Guarda-mór das Naus da Índia, Provedor dos Armazéns nos Reinos e Senhorios de Portugal, Alcaide-mór de Alenquer. Foi o primeiro administrador do Morgado dos Césares, insti­tuído na primeira metade do século XVI, por seu pai Vasco Fernandes César.
Luís César de Menezes, cativo da batalha de Alcácer-Quibir, foi um dos oitenta fidalgos res­gatados na carta régia de 10 de Outubro de 1678. Nos anos de 1583 e 1584, Luís César adquiriu várias propriedades, de algumas das quais já era senhor directo. Mas na escritura celebrada pelo tabelião de Lisboa, João Rodrigues Jacome, em 5 de Outubro de 1588 diz-se «Luís César comprou huma casa junto das suas de sua vivenda de S. Amaro» que confrontava pelo Sul com caminho de Lisboa para Belém. No quadrante de um relógio de sol existente nos jardins do palácio lê-se a data de 1605. O palácio ou vivenda de campo — qualificação que mais lhe quadraria — era, porém, quer no sem­blante, quer no interior e disposição, diferente do que veio a ser no século XVIII depois de obras de ampliação e beneficiação levadas a efeito em 1728 por Vasco Fernandes César de Menezes, quinto neto do fundador do palácio, em meados do século XVI [...].

Rua Primeiro de Maio, extracto da Carta topográfica de Filipe Folque, 1857
Legenda:  a Azul a Rua Primeiro de Maio, antiga de São Joaquim, ao Calvário, antes Rua direita do Calvário; a Vermelho o actual Palácio Sabugosa e jardins; a Laranja terrenos da antiga «Quinta Cesárea»
in A.M.L.

(clicar para ampliar)

Eis por que a vasta propriedade que se estendia à ilharga da quinta dos Césares até ao Alto de S. Amaro, e que havia sido adquirida em 1580, se chamou «Casal do Conde de S. Lourenço» em homenagem à aliança dos Césares com os Condes de S. Lourenço, família muito antiga que precedia de Pedro Pires, rico homem do século Xll, onde entroncaram os Sabugosas.
E de crer que a «Quinta Cesária» — assim foi chamada — fosse anterior à construção da primitiva casa de campo, ou palácio, pois os Césares eram possuidores de largos tratos de terrenos rústicos; quanto à casa seiscentista era um pouco mais recuada, em relação ao alinhamento que o 1º Conde de Sabugosa lhe deu, e servida por um largo portão que não é, evidentemente, o que hoje se abre na fachada principal. [...]
A «Quinta Cesária», que se dilatava para Poente até quase à Ermida de Santo Amaro, e, para Norte, até à zona onde veio a ser construído em 1904 o Palacete Valflor, foi em grande parte retalhada e alienada, para urbanismo local, pelo 3.º Marquês de Sabugosa, alguns anos antes da sua morte (1897); a Rua Luís de Camões foi, no final do século passado [XIX], aberta em terrenos da quinta.
O filho do 3.º Marquês, António Maria Vasco de Melo Silva César e Meneses, 9.º Conde de Sabugosa e 11.º Conde de S. Lourenço — o escritor e académico ilustre, mordomo-mór da Casa Real — promoveu depois de 1898 grandes obras de restauro e transformação no palácio de seus maiores, podendo dizer-se que a actual casa de Santo Amaro, à parte o semblante exterior, é outra em relação ao que teria tido mesmo no século XVIII. Foi o Conde de Sabugosa, ele próprio, o orien­tador artístico dos restauros e transformações, nas quais avultou a construção da biblioteca-livraria, ocupando o espaço de um antigo pátio, contíguo ao jardim: nas decorações trabalharam um artista Anunciação (que não Tomás da Anunciação) e Leandro Braga, mestre entalhador.

brasão de  armas dos Sabugosas tem sido alterado no  decorrer das idades; o do último Conde, e que prevalece, é  encimado pela coroa de duque com o símbolo dos Césares, esquartelado das armas dos Lencastres (armas de  Portugal com filete em  contrabanda), dos  Césares (seis  fustas), dos Melo (seis arruelas) e dos Vieiras (seis vieiras), centrado pelo escudo com leão ronmpante dos Silvas

Nota:  Como o artigo já vai longo, decidimos inserir aqui a chamada «quebra de página», caso queira continuar a ler a descrição ds algumas das salas do Palácio Sabugosa clique em «ler mais [read more]».

Sunday, 14 April 2019

De Avenida dos Anjos e Avenida Dona Amélia, a Avenida Almirante Reis

O Barão Haussman o "artista demolidor" (1809-1891) em Paris, o paisagista Humphrey Repton (1752-1818) em conjunto com o arquitecto John Nash (1752-1835) em Londres ou o urbanista Ildefonso Cerdá (1815-1876) em Barcelona, com os seus planos de carácter regulador higienista e de circulação viária, influenciaram arquitectos e projectistas por toda a Europa e América do Norte (Frampton, 1992).

Avenida Almirante Reis [c. 1911]
À dir., no n-º 2-2K, o edifico prémio Valmor de 1908; à esq. vê-se o Hospital do Desterro
Joshua Benoliel, in AML

Assim, em 1903, foi aberta a Avenida dos Anjos e a Avenida Dona Amélia, que viria a ser mais tarde designada por Avenida Almirante Reis. Foram destruídos vários quarteirões nesta área permitindo por outro lado, a construção de novos e mais modernos edifícios o longo da recente e ampla avenida (Unidade Projecto Mouraria, 2009).

Avenida Almirante Reis [c. 1911]
Fotografia original colorida por Fátima Rocha
Joshua Benoliel

Quem no dealbar do século XX, viajasse pela Rua da Palma para norte, na procura da moderna e ampla Avenida Dona Amélia (hoje Almirante Reis), acabava por deparar-se com um beco sem saída. Ali, por alturas do Intendente, onde finda a Rua da Palma e onde deveria começar a tão falada avenida, o passeante acabava por dar com o nariz na parede, literalmente. Mais exactamente, acabava por dar de caras com os muros do hospital do Desterro. Para retomar a avenida era preciso fazer um desvio à direita pelo Largo do Intendente Pina Manique — seguindo a linha do eléctrico — contornar o quarteirão, virar à esquerda na actual Travessa Cidadão João Gonçalves de volta à Almirante Reis. Para melhor compreensão deste inusitado trajecto consulte a carta topográfica (anotada) daquela zona em 1911.

Levantamento da Planta de Lisboa (fragmento [1911]
Legenda (clicar para ampliar):
Azul - Av. Almirante Reis Localização da carroça da foto
Vermelho - Desvio pelo Largo do Intendente
Verde - Hospital do Desterro
 Júlio António Vieira da Silva Pinto, in A.M.L.

Avenida Almirante Reis,2 [post. 1911]
Neste postal pode ver-se a Av. Almirante Reis já rectificada após a demolição parcial do Hospital do Desterro
Postal ilustrado em fototipia, edição de Faustino Martins
in Lisboa e Fernando Pessoa por Marina Tavares Dias

Friday, 12 April 2019

Palácio Mayer

Neste local exacto do Palácio Mayer — recorda-nos Norberto de Araújo — existia no princípio de seiscentos uma Quinta da Legacia, ao fundo da Cêrca arborizada dos Padres do Noviciado (Jardim Botânico). Estiveram nela (1639) num pequeno Hospício, os frades dominicanos irlandeses, que mais tarde, depois de correrem vários pousos de empréstimo, se instalaram no Corpo Santo. O Colégio dos Nobres (depois Escola Politécnica), como herdeiro dos bens da Companhia de Jesus, vendeu os terrenos e casas ao Arcebispo da Lacedemónia, que certamente os restaurou; um herdeiro do Arcebispo alugou sucessivamente o já então palácio ao 7.º Conde de Valadares (1822), e depois à famosa Marquesa de Aloma, D. Leonor de Almeida Lorena e Lencastre, a «Alcipe» da história da literatura, que logo aos oito anos fõra feita prisioneira no Convento de Chelas, onde permaneceu até aos 26 anos de idade. A Marquesa de Aloma morreu aqui em 11 de Outubro de 1839, à beira dos 90 anos.

Palácio Mayer [190-]
Rua do Salitre, 1-3; Travessa do Salitre, 37
De planta rectangular e volumetria paralelepipédica encontra-se implantado em gaveto cujo pano murário no ângulo se apresenta curvo.
Paulo Guedes, in AML

O Palacete que aqui vês foi edificado em 1900 por Adolfo Mayer [o arqº. foi Nicola Bigaglia (1841-1908), italiano radicado em Portugal], que adquiriu o velho palácio creio que aos descendentes da família Krus, a sua possuidora no tempo da Marquesa de Alorna.
Em 1920, por motivo de partilhas entre a família Mayer, herdeiros, o Palácio foi à Praça, adquirindo-o, com todos os seus jardins e dependências, Artur Brandão, que, pouco depois, o vendeu a uma. sociedade «Avenida Parque», como já veremos [vd. N.B.].
Entre 1918 e 1920 funcionou no Palácio um «Club Mayer», ao tipo dos clubes nocturnos de recreio e jôgo dos da Rua de Santo Antão (Palace, Monumental, Bristol).

Palácio Mayer [c. 1920]
Rua do Salitre, 1-3; Travessa do Salitre, 37
Desenvolve-se em dois pisos sobrepujados por cornija suportada por mísulas ornamentadas com folhas de acanto, que precede remate em platibanda simples articulada com balaustrada, evidenciando-se, ainda, plintos com bola nos eixos correspondentes às pilastras de compartimentação da fachada
Chaves Cruz, in AML

Finalmente em Março de 1930 o Govêmo de Espanha (Primo de Rivera), comprou, com dispensa de pagamento de siza, e por intermédio de Mateo Benito Garcia (que fêz o seu negócio, muito discutido, o que o levou ao «carcel», em Espanha), o Palácio Mayer, era então Embaixador em Lisboa D. Cris tobal de Valin. Funcionam na Casa de Espanha o Consulado Geral, a Câmara do Comércio, e outros serviços.
Sem desfigurar a arquitectura exterior fêz-se depois uma ampliação no edifício, aproveitando a antiga garagem, hoje entrada para o Consulado.

Palácio Mayer [1929]
Rua do Salitre, 1-3; Travessa do Salitre, 37
 Propriedade do Estado Espanhol, funcionando aí serviços da respectiva Embaixada/Consulado
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

N.B. Contrariando a legislação do Prémio Valmor, por não haver outro que justificasse a atribuição do Prémio no ano de 1902, este foi atribuído ao edifício em questão construído no ano anterior, tendo sido um dos melhores exemplares de arquitectura revivalista em Portugal, A propriedade incluía, para além do edifício, um extenso jardim, que, tendo sido vendido em 1921, veio a dar origem ao Parque Mayer, recinto de diversões, inaugurado em 15 de Junho de 1922.

Palácio Mayer [1937]
Rua do Salitre, 1-3; Travessa do Salitre, 37; Av. da Liberdade e Monumento aos Mortos da Grande Guerra
Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 35, 1939.
cm-lisboa.pt.

Wednesday, 10 April 2019

Inauguração do Monumento Nacional aos Mortos na Grande Guerra

No local aproximado onde se ergueu o Monumento aos Mortos da Grande Guerra funcionou o Circo Price, de que falei.

Em 22 de Janeiro de 1888 fôra lançada neste sítio a primeira pedra para um monumento a António Maria Fontes Pereira de Melo; a idéia porém, esqueceu. A iniciativa de construir o monumento que temos à vista, data de 9 de Abril de 1920, sendo nesta data nomeada urna comissão nacional, à qual presidiram, sucessivamente, o Dr. Magalhãis Lima e os generais Abel Hipólito e Roberto Baptista.
Foram os arquitectos Guilherme e Carlos Rebelo de Andrade, e o escultor Maximiano Alves, os artistas encarregados da execução do monumento. A inauguração realizou-se em 22 de Novembro de 1921 1931, com solenidade militar e civil, e com a presença do Chefe do Estado, general Óscar Carmona e a do Presidente da Câmara Municipal, general Vicente de Freitas

Inauguração do Monumento Nacional aos Mortos na Grande Guerra [1931-11-22]
O momento solene em que foi descerrado o Monumento Nacional aos Mortos na Grande Guerra
Avenida da Liberdade
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

O monumento — vigoroso no seu conjunto — tem por fulcro a legenda «Ao serviço da Pátria / O esfôrço da Grei».
A figura da Pátria, em pedra, ao alto, corôa o soldado, na escultura passada a bronze. Lateralmente duas grandes figuras plásticas, em pedra, simulam, num esfôrço supremo, sustentar a Pátria, razão do monumento.

Inauguração do Monumento Nacional aos Mortos na Grande Guerra [1931-11-22]
Desfile dos combatentes em frente do Monumento Nacional aos Mortos na Grande Guerra obervando-se o monumento ainda por descerrar
Avenida da Liberdade
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

N.B. A adjudicação da obra ao escultor Maximiano Alves e ao arquitecto Guilherme Rebelo de Andrade data de 22 de Outubro de 1925, sendo o seu custo estimado em 400 contos. Durante o período de construção do monumento, diversas cerimónias oficiais seriam realizadas no local previsto para a inauguração do mesmo.
Em reconhecimento pelo trabalho realizado, os autores do projecto receberiam a comenda da Ordem de Cristo.

Monumento Nacional aos Mortos na Grande Guerra [1931-11-22]
O momento solene em que foi descerrado o Monumento Nacional aos Mortos na Grande Guerra
Avenida da Liberdade; Palacete Lima Mayer
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 38, 1939.

Sunday, 7 April 2019

Circo Price

Do lado ocidental da actual Avenida da Liberdade — situado na esquina da antiga Travessa da Vacas (hoje «do Salitre») com a Rua do Salitre (antes «Calçada do») — erguia-se o antigo Circo Price [vd. mapa], fundado em 1860 pelo inglês Thomas Price e que teve grande aura como um dos divertimentos predilectos de Lisboa. Dele contaram histórias autores afamados. Aqui damos nota de alguns deles.

E o Circo Price  — interrogarás tu, Dilecto, que tanto tens ouvido falar dele? Ora eu te digo, em poucas palavras. 
 O Circo Price foi vizinho da velha Praça taurina [do Salitre], mas muito posterior. Assentava no eixo da Avenida [da Liberdade] de hoje, pouco mais ou menos onde está o monumento aos Mortos da Guerra.
Em parte do terreno da horta dos frades capuchos, e que êles em seu tempo traziam de renda, fêz erguer o inglês Tomás Price o seu Circo, inaugurado em 11 de Novembro de 1860, o que contribuiu para liquidar o Circo velho do Salitre. Deu espectáculos de «cavalinhos» [nome pelo qual o povo conhecia esta casa de espectáculos], de exposição de feras, e até deliciou o público com zarzuela, e da melhor de Espanha. Em 1875 o Circo Price foi hipotecado, e desapareceu, mas o simpático inglês não desanimou e instalou-se no abandonado Circo vizinho, o «do Salitre», que, assim, reviveu um tempo.
E em 1880 já não havia nada disto; teatros, praças, circos, sumiram-se.¹

Circo Price [ant. 1880]
Calçado do Salitre, esquina da  , foi demolido para abertura da Avenida da Liberdade em 1880

«Era mais amplo que o actual Colyseo dos Recreios, e a sua enorme cupula assentava sobre grossas vigas de madeira, que resistiram a todo o tempo e maus tratos que lhes deram. (I.P. 1885)
Desenho de Domingos Cazellas, gravura de Caetano Alberto

Era em 1867. Frente a frente, as Variedades [Theatro das] e o Circo Price alinhavam os seus bicos de gás festeiros, a que as vergastadas do noroeste impunham um tremelilhar inquieto. Quinta-feira — noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade. Enchente certa no Circo. De cada lado do portal da entrada, um semicírculo compacto de gente se agitava, tendo por centro cada um seu postigo de bilheteiro, e ambos por igual colados, premidos sofregamente contra a parede verdoenga do barracão, e arredondando pela rua fora, numa irregularidade gritada e confusa, a toda a largura do macadame. Tudo queria bilhete. Havia chapeus tombados, ombros que penetravam á cunha, braços arpoando vigorosamente os alizares castanhos dos postigos, mãos retirando triunfantes, muito erguidas, com um papelinho azul ao vento.²

Circo Price [ant. 1880]
Calçado do Salitre, esquina da Travessa das Vacas, foi demolido para abertura da Avenida da Liberdade em 1880
Número de equilibrismo

«O espectaculo compunha-se quasi todo de trabalhos sobre cavallos, saltos de bandeiras, arcos e fitas, e intermedios comicos pelos tres clowns Whyttoine, Secchi e Alfano. O valor da companhia aquilatava-se pelo numero de cavallos que a mesma trazia. Era parte obrigada do espectador visitar as cavallariças no intervallo do espectaculo.». (I.P. 1885)
Desenho da época, reproduzido fotograficamente por José Artur Barcia

Tinham chegado ao Price. Uma multidão de domingo, alegre e pasmada, apinhava-se até ás ultimas bancadas onde havia rapazes, em mangas de camisa, com litros de vinho; e eram grossas, fartas risadas, com os requebros do palhaço [vd. N.B.], rebocado de caio e vermelhão, que tocava nos pésinhos duma voltigeuse e lambia os dedos, de olhos em alvo, num gosto de mel... Descansando na sela larga de xairel dourado, a criatura, magrinha e séria, com flores nas tranças, dava a volta devagar, ao passo dum cavalo branco, que mordia o freio, levado à mão por um estribeiro; e pela arena o palhaço lambão e néscio acompanhava-a, com as mãos ambas apertadas ao coração, numa suplica babosa, rebolando languidamente os quadris dentro das vastas pantalonas, picadas de lantejoulas. Um dos escudeiros, de calça listrada de ouro, empurrava-o, num arremedo de ciúmes; e o palhaço caia, estatelado, com um estoiro de nádegas, entre os risos das crianças e os rantantans da charanga. O calor sufocava; e as fumaraças de charuto, subindo sem cessar, faziam uma neva onde tremiam as chamas largas do gás. Carlos, incomodado, abalou.
— Espera ao menos para ver a mulher dos crocodilos! gritou ainda o Taveira.
— Não posso, cheira mal, morro!³
     [...]
— Então de onde vem, de onde vem?
Vinha do Price. Rira muito com os palhaços. Houvera a brincadeira da pipa.
— A pipa tem muita graça! Muita graça!

[Leopoldina] Procurou na algibeira do vestido: tirou o lenço, uma carteirinha, chaves, uma caixinha de pó-de-arroz; mas encontrou apenas um programa do Price.

Programa do Circo Price [1867]
Calçado do Salitre, esquina da Travesso das Vacas, foi demolido para
abertura da Avenida da Liberdade em 1880

Do circo do Price lembro-me muito bem — diz Matos Sequeira — , como da figura do Price, sentado de chapeu alto, no pequeno salão precedido do estreito corredor de entrada, distribuindo programas do alto do seu estrado.

Levantamento topográfico de Lisboa, extracto [1878]
Legenda: a
azul o Circo Price; a azul claro a antiga Travesso das Vacas (actual «do Salitre»; a vermelho, a Avenida da Liberdade; a verde, a Praça/Circo do Salitre e o Theatro das Variedades;
a laranja, a Rua do Salitre, antiga «Calçada do»

César Goullard, in A.M.L.

N.B. O palhaço a que Eça se refere em «Os Maias» e na «brincadeira da pipa» em «O Primo Basílo»(³,), era, com grande probabilidade, o famoso Whyttoine, um dos mais aclamados clowns do panorama artístico do séc. XIX, largamente elogiado n'A Illustração portugueza de 1885:
«No Circo Price existia porém uma individualidade unica, especial, sui generis, que todos conheciam, applaudiam, estimavam e respeitavam — o velho Whyttoine, esse clown que chegou até nossos dias como um symbolo de bondade, trabalho e honradez, e como uma mimosa recordação da nossa descuidada infancia.
Whyttoine era a nota alegre do Circo Price. Perante a sua veia comica abatiam-se humilhadas as mais austeras gravidades e sorumbaticos caracteres. A scena da pipa e o morto e o viro não tornaram a ter outro interprete que melhor as desempenhasse.»
__________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 34. 
² Abel Botelho. O Barão de Lavos, 1908.
³ QUEIROZ, Eça de, Os Maias,1888.
³ idem, O Primo Basílio, 1878.
MATOS SEQUEIRA, Gustavo de, Depois do terramoto: subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa, 1967.

Friday, 5 April 2019

Palácio dos Viscondes dos Olivais

Encontramos a rua larga e arejada chamada do Pau da Bandeira — escreve Norberto de Araújo — , dístico antigo pitoresco, e cuja origem me escapa.
Êsse grande palácio, dominando a área, n.º  11, confinado entre quatro ruas, foi antiga propriedade dos  Viscondes dos Olivais, e é, desde 1927, a Legação da Alemanha.

Antigo Palácio dos Viscondes dos Olivais [1927]
Rua do Pau de Bandeira, 11
Actual Embaixada da República Popular da China 
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Esta Rua do Pau de Bandeira, das freguesias da Lapa e dos Prazeres, foi um topónimo fixado em Lisboa em data desconhecida mas certamente posterior aos séculos XVI e XVII, já que foi no decurso destes que nesta zona começaram a surgir os primeiros conventos e entre os quais se rasgaram os primeiros arruamentos a partir da 2ª metade do século XVIII, como a Rua do Meio, a Rua de S. Félix, a Rua dos Remédios ou a Rua de S. João da Mata, povoamento que se foi intensificando depois do terramoto de 1755.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 51-52, 1938.
cm-lisboa.pt.

Wednesday, 3 April 2019

Largo do Chafariz de Dentro

Ao Penabuquel — diz mestre Castilho — segue-se o largo do chafariz de Dentro. «Chafariz de Dentro» porquê? é facil a explicação. A face d'aquelle largo, ao longo da actual rua, seguia a muralha, que, mais ou menos, lá deve vir escondida dentro do grosso d'aquellas casas todas, ao nascente e ao poente do largo. O chafariz ficava da banda interior do muro, e não da exterior como o d'el-Rei, que logo estudaremos. Diz pois muito bem o autor do Aquilegio medicinal, notando que o chafariz de Dentro assim se chama, apor ficar dentro das portas da antiga muralha de Lisboa oriental, mais ficam da banda de fóra, e tão visinhos uns dos outros, que em pouco differem ás suas aguas.

Largo do Chafariz de Dentro, S↔N [1961]
Rua Terreiro do Trigo; Igreja de Santo Estêvão
Armando Serôdio, in AML

De acordo com Norberto de Araújo estamos perante «o mais pitoresco apontamento de Lisboa em dez léguas da grande póvoa. Tudo quanto é generoso de expressão popular assentou aqui arraial. Alfama tem o seu Rossio — S. Miguel; a sua Sé — Santo Estêvão; o seu Terreiro do Paço — o Largo do Chafariz de Dentro

Largo do Chafariz de Dentro, N↔S [1961]
Rua Terreiro do Trigo; Chafariz de Dentro
Armando Serôdio, in AML

Bibliografia
CASTILHO, Júlio de, A Ribeira de Lisboa, vol. p. 145, 1893.
ARAÚJO, Norberto de, «Legendas de Lisboa», p. 194, 1943.
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