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Friday, 24 January 2025

Jardim Nove de Abril que foi das Albertas

É um dos mais belos logradouros da cidade, miradouro natural, do qual se desdobra do panorama do rio, do porto, seus cais, e oficinas do Aterro [actual Av. 24 de Julho], e, à distância, dos montes da outra margem.

Actualmente conhecido por Jardim 9 de Abril, é conhecido também por Albertas ou Jardim da Rocha do Conde de Óbidos. Situa-se na antiga Cerca do Convento das Albertas (Convento das Freiras Carmelitas), de onde advém o primeiro nome, estando assente sobre a Rocha do Conde de Óbidos, de onde deriva a segunda denominação em homenagem às tropas portuguesas que participaram na 1ª Guerra Mundial e que a 9 de Abril de 1918 sofreram o embate de uma grande ofensiva lançada pelos alemães sobre as linhas aliadas, incidindo todo o esforço inicial sobre o sector português. Foi o começo da chamada Batalha de La Lys.

Jardim 9 de Abril que foi das Albertas |c. 194-|
Rua Presidente Arriaga, antiga de São Francisco de Paula, antes Rua Direita de São Francisco; Rio Tejo
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Contiguo ao Museu de Arte Antiga, para a banda de O., ficava o convento das Albertas, de freiras carmelitas descalças, fund. em 1584 pelo arquiduque Alberto. Na pequena cerca do convento se fez o Jardim das Albertas — lê-se no Guia de Portugal de 1924 — , assentando sobre a chamada Rocha do conde de Óbidos, um dos mais afamados miradouros citadinos, com tamareiras, uma Washingtonia [vd. 3º imagem], etc., e cujo panorama para a branca casaria de Almada e as águas azuis do Tejo, é um dos mais belos da cidade. Desse terrapleno ajardinado desce-se para o Aterro por duas bem lançadas escadarias vestidas de trepadeiras. Em frente do jardim, onde se acha hoje uma repartição de finanças, o palácio que foi de D. Braz da Silveira e depois dos marqueses de Minas (belos azulejos). Do outro lado do jardim, para O., o palácio brasonado que pertenceu aos Mascarenhas, conde de Óbidos, e onde estão hoje vários serviços da Cruz Vermelha.

Jardim 9 de Abril que foi das Albertas |c. 194-|
Rua Presidente Arriaga; Porto de Lisboa
Amadeu Ferrariin Lisboa de Antigamente
 
Com a construção do anexo poente do Museu de Arte Antiga (arqº Guilherme Rebelo de Andrade) em  1939/40, o desenho paisagístico do antigo Jardim foi bastante alterado.

Jardim 9 de Abril que foi das Albertas |1939-11|
Rua Presidente Arriaga - 1º Presidente da República 1840-1917
Washingtonia e Museu de Arte Antiga, fachada poente.
Eduardo Portugalin Lisboa de Antigamente

Bibliografia
PROENÇA, Raul, Guia de Portugal, Generalidades: Lisboa e arredores, 1924.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 61 1939.

Sunday, 18 June 2017

Bairro das Janelas Verdes

Um momento caminharam em silêncio. Depois, na Rua das Janelas Verdes, o Alencar quis refrescar. Entraram numa pequena venda, onde a mancha amarela de um candeeiro de petróleo destacava numa penumbra de subterrâneo, alumiando o zinco húmido do balcão, garrafas nas prateleiras, e o vulto triste da patroa com um lenço amarrado nos queixos. (QUEIROZ,  Eça de, Os Maias, 1888)


Falar da Rua das Janelas Verdes é também falar da Lisboa Queirosiana — e da casa dos Maias: «A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete

Rua do Sacramento, a Alcântara Rua Presidente Arriaga [ant. 1901]
Quartel da Guarda Municipal de Lisboa depois Guarda Republicana: Carro do «Salazar»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Campos Matos, em Imagens do Portugal Queirosiano, Lisboa, 1876, livro de reconhecida importância sobre o tema, assinala: «Quanto ao Ramalhete, sabemos que fica às Janelas Verdes, cerca da Rua de S. Francisco de Paula [hoje Rua Presidente Arriaga], embora se atribua ao solar do conde de Sabugosa, em Santo Amaro, a sua fonte de inspiração».

Rua das Janelas Verdes [entre 1901 e 1908]
Cruzamento das ruas de São João da Mata e de Santos-O-Velho vendo-se o Palácio Murça.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Aqui quási defronte da Igreja de S. Francisco de Paula — relembra Norberto de Araújo — se ergue o conjunto de edifícios, onde estão desde 1919 instalados uma companhia da Guarda Republicana e o Comando do Batalhão. (...) Depois de 1834 — em que esta casa deixou de ser o Convento de S. João de Deus — instalaram-se nela o Quartel de Marinha, e mais tarde o Tribunal da Corte.

Visita do Rei Dom Manuel II, a guarda de honra formada na Rua das Janelas Verdes Rua Presidente Arriaga [1908]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 59, 1939.

Friday, 26 April 2019

Convento de S. João de Deus

As traseiras desta Casa conventual de poucas tradições lisboetas — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , são mais bonitas do que a frontaria, pelas sobreposições de acaso, panorama do claustro combinado com a arquitectura geral, um pouco confusa, e com pormenores decorativos que de todo não se perdem à distância. O Convento debruçava-se sobre o rio.¹


Convento de S. João de Deus [c. 1939]
Rua Presidente Arriaga, 9-13. Panorâmica tirada da Avenida 24 de Julho.
O Terramoto pouco dano fez ao Convento, que foi extinto em 1834. A Igreja conservou-se durante alguns anos, mas foi sacrificada às exigências de edifício publico. [Araújo: 1938]
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Situado na Rua das Janelas Verdes [hoje Presidente Arriaga] ao lado do palácio que foi do Conde de Óbidos, e mesmo em frente ao vistoso convento de S. Francisco de Paula, encontra-se o que foi a antiga casa dos religiosos Hospitaleiros de S. João de Deus, Ordem instituída entre nós em 1617. 
Primitivamente, foi nesse local que se edificou, em 1581, o primeiro convento da Congregação de S. Filipe de Néri, dos Carmelitas Descalços, que naquele tempo era um sítio afastado da cidade, com boas vistas para o rio.

Convento de S. João de Deus
O claustro, que se vê do rio, é rasgado na frente, tendo, pois, três lados apenas, o do fundo com onze arcarias de volta perfeita e os outros com seis em cada. [Araújo: 1938]
Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755, pormenor, in Museu de Lisboa

O casario em que se edificou o convento pertencera a Francisco de Távora e a sua mulher, D. Mécia Ribeiro, que por volta de 1604 o venderam ao Dr. António Mascarenhas (Deão da Capela Real, doutor em Teologia e deputado da Mesa da Consciência e Ordens), que resolveu instituir um convento dessa invocação, com hospital acoplado.
Deu-se, pois, a sua fundação em 1629, contendo amplas instalações, grande claustro voltado para o rio e bonitas guarnições azulejadas.
Por morte de Deão fundador em 1637, viria a ser concluído posteriormente pelos religiosos.
Uma vez extintas as Ordens Religiosas em 1834, nele estiveram instalados primeiramente o Quartel da Brigada Real da Marinha, extinta com a revolução de Belém, em 1835. Depois, o Tribunal da Corte. Seguiu-se o Quartel de Infantaria n.° 2, culminando nos nossos dias, e a partir de 1919, com a Guarda Nacional Republicana, servindo o antigo claustro de parada do quartel

Convento de S. João de Deus, Enquadramento urbano [1857]
Rua Presidente Arriaga, 9-13 antiga Rua Direita de São Francisco de Paula
Legenda:  a Vermelho o claustro; a
Verde a delimitação do convento e cerca extintos em 1834. Carta topográfica de Filipe Folque, 1857, in Lisboa de Antigamente
(clicar para ampliar)

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 59-60, 1938.
² CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os conventos de Lisboa,  p. 120, 1989.

Sunday, 19 May 2019

Palácio de D. Braz da Silveira ou do Marquês das Minas

Agora vejamos para último elemento dêste passo — escreve Norberto de Araújo —, êsse velho Palácio da esquina da Travessa de D. Braz serventia rectificada há três anos [vd. N.B.], e com frente ao ângulo poente do jardim [9 de Abril]: é representativo da época de seiscentos, e tem ainda qualquer cousa de Lisboa velha.


Foi pertença de D. Brás da Silveira, da casa e família dos Marqueses das Minas; mais tarde, no século passado [XIX], veio à posse dos Viscondes de Tojal, aos quais, após um interregno em que pertenceu ao capitalista Quaresma, voltou à posse, que subsiste.
Estão nele instalados [em 1938] vários serviços públicos, da Direcção Geral dos Impostos, e em parte tem habitado, de há longos anos, o diplomata conselheiro Dr. Arenas de Lima.
Os altos deste palácio e dos prédios vizinhos, numa amálgama de planos, oferecem desde o alto do edifício novo do Museu [de Arte Antiga] curiosas perspectivas.
E agora te digo, Dilecto: e se descançássemos uns momentos?

Palácio de D. Braz da Silveira ou do Marquês das Minas [entre 1902 e 1908]
Rua Presidente Arriaga, 2-6, tornejando para a Travessa de D. Braz, n.º 1-7 e Rua do Olival, 21 
Observe-se a originalidade das chaminés, entretanto 
apeadas, quando foram acrescentadas as trapeiras.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A cobertura do palácio foi bastante alterada por diversos usos. Volumes articulados com coberturas diferenciadas em telhados de 2 águas, rasgadas por trapeiras. Possui dois corpos distintos: um na Rua Presidente Arriaga [antiga de S. Francisco de Paula (até 1920)], de dois pisos (onde se localiza o piso nobre) evidenciando traços da origem seiscentista, outro na Travessa de D. Braz, de quatro pisos, com características posteriores. Edifício ritmado por 13 janelas de sacada com guardas em ferro forjado, no piso nobre, ao longo da fachada marcada pela sucessão de 13 trapeiras (inicialmente era composto por 6 chaminés). 
O acesso ao interior é feito através de um átrio com tecto em estuque decorativo. No interior encontram-se azulejos de figura avulsa, do 2º quartel do séc. 18, na escadaria principal e azulejaria pombalina nos pisos superiores (antigos estúdios de gravação); sala no piso nobre com tecto setecentista em estuque estilo "rocaille" e azulejaria pombalina do 2º período; tecto brasonado na entrada, com armas dos Sousa do Prado e coroa de Marquês.

Palácio de D. Braz da Silveira ou do Marquês das Minas [1938]
Um aspecto do velho Palácio do Marquês das Minas, do lado da Travessa de D. Braz, às Janelas Verdes.  — Observe-se a originalidade dos telhados e das chaminés
Desenho de Martins Barata, in Peregrinações em Lisboa

N.B. O homenageado Dom Brás, da íngreme ruela, é Dom Brás Baltasar da Silveira, nascido a 3 de Fevereiro de 1674. Foi Senhor de S. Cosmado, na comarca de Lamego, Comendador de Ranhados, e teve as Comendas de seu pai, D. Luís Baltasar da Silveira, casado com Dona Luísa Bernarda de Lima, filha das 2." núpcias do 1.° Marquês das Minas, D. Francisco de Sousa, décimo neto de Afonso III, de Portugal.Dom Brás consorciou-se com Dona Joana Inês Vicência de Meneses, filha de Aleixo de Sousa da Silva, 2.° Conde de Santiago. Os linhagistas tecem loas a Dom Brás, que acompanhou seu avô, o Marquês das Minas, até à Catalunha, ficando prisioneiro em Almanza. Regressado a Portugal, foi Mestre de Campo e General dos Exércitos, e governou as armas da Beira.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 61-62, 1938.
monumentos.pt.
SANTOS,Domingos Maurício Gomes, Brotéria, p. 206, 1952.

Friday, 10 July 2015

Rua de S. Francisco de Paula

«A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete.»

(in Eça de Queirós, Os Maias, 1888)


Rua Presidente Arriaga |ant. 1908|
Dístico de 1920, antiga Rua de São Francisco de Paula e antes Rua Direita de São Francisco
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

A Igreja de São Francisco de Paula foi fundada em 1719 e construída, na sua feição actual, em 1753 por Inácio de Oliveira Bernardes. A fachada é rematada por duas fortes torres. O interior, forrado de ricos materiais, contém o túmulo da rainha, mulher de Dom José. O túmulo da rainha Dona Mariana Vitória, esculpido por Machado de castro e existente na igreja, está classificado como Monumento Nacional.

Thursday, 16 February 2017

Igreja de S. Francisco de Paula

E chegámos à Igreja conventual de São Francisco de Paula, agora considerada, no seu todo, monumento nacional. Foi aqui o convento dos Religiosos Mínimos de S. Francisco de Paula, fundado em 1719 por Fr. Ascenso Vaquero, um leigo andaluz, e engrandecido. em 1753, por assistência de D. Mariana Vitória, Rainha, mulher de D. José I, cuja igreja quási totalmente se lhe deve. O Terramoto em pouco ou nada danificou Convento e templo. Quando da extinção das Ordens já os frades mínimos aqui não estavam desde 24 de Julho do ano anterior; a igreja não foi profanada, mas a casa conventual, nova quási em folha, foi vendida a particulares.
A fachada de S. Francisco de Paula, como vês, tem elegância e certa imponência decorativa; é obra do arquitecto Inácio Oliveira Bernardes, sendo as formosas torres devidas a Diogo Azzolini. Duas portas laterais conduzem por uma escada dupla, coberta e já integrada no edifício, até ao adro no qual se abre a porta da igreja; nos patins superiores da escadaria há dois nichos por banda, vazios, coroados por ática.

Igreja de São Francisco de Paula |c. 1860|
Rua Presidente Arriaga¹
Amédée de Lemaire-Ternante, 
in Lisboa de Antigamente

O interior, forrado de ricos materiais, contém o túmulo da rainha, mulher de Dom José. O túmulo da rainha Dona Mariana Vitória, esculpido por Machado de Castro e existente na igreja, está classificado como Monumento Nacional.

Túmulo da rainha Dona Mariana Vitória

Nota(s):
¹ «Igreja de São Francisco de Paula» e não «Igreja de S. Paulo» como refere o arquivista do CPF. Infelizmente os dislates não se ficam por aqui, prossegue o dito cujo: «Nesta fotografia não estava ainda aberta a Rua Direita de S. Paulo ou a Travessa de S. Paulo. É possível ver as pessoas na varanda da casa ao lado, bem como um carro de bois à entrada da mesma». E o tuga paga ao incompetente funcionário e não bufa!
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII pp. 57-58, 1938.
monumentos.pt.

Friday, 5 January 2024

Assentamento de linhas de tracção eléctrica: Alcântara

A 5 de Junho de 1897 foi assinado um contrato entre a Câmara Municipal de Lisboa e a CARRIS para substituir o sistema de tracção animal por um sistema de tracção eléctrica por condutores aéreos.
No ano de 1900, iniciaram-se os trabalhos de modificação e assentamento de linhas, de instalação da rede aérea e de construção na zona de Santos da Central Eléctrica Geradora destinada a fornecer energia para o novo sistema de tracção. A 31 de Agosto de 1901 foi inaugurado o serviço de eléctricos.

Rua Prior do Crato, 134 |c. 1900|
Assentamento de linhas de tracção eléctrica.
Nota(s): local da foto não está identificado no arquivo da Carris.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Rua Presidente Arriaga, 124 |c. 1900|
Assentamento de linhas de tracção eléctrica.
À esq. nota-se a Igreja de São Francisco de Paula e, bem ao fundo à dir., vislumbra-se o Convento de S. João de Deus (GNR)
Nota(s): local da foto não está identificado no arquivo da Carris.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 22 August 2018

Calçada da Pampulha

[...] eis-nos no sitio da Pampulha — para o qual a Lapa é uma criança — e que remonta ao século XVI. (...) A Calçada da Pampulha — diz Norberto Araújohoje é a continuação da Rua do Presidente Arriaga, nome que depois de 1917 foi dado à Rua de S. Francisco Paula. Em verdade, oficializada, a Pampulha não tem mais que duzentos metros, mas a designação extravasa, possui ressonância bairrista além do limite municipal do dístico.
«Pampulha» porquê? Não o sei eu, nem os mestres que têm. até agora, escrito acerca das origens dos nomes das ruas de Lisboa. Julgo, porém, que problema não é insolúvel, e creio até que estará para breve o desvendar deste mistério toponímico.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 55-56, 1938)

Calçada da Pampulha [ant. 1939]
Cruzamento com a Rua Tenente Valadim; anterior à construção do viaduto sobre a Avenida Infante Santo, em 1949 (vd. 2ª foto)
Eduardo Portugal, in in Lisboa de Antigamente

Em relação à etimologia da palavra «Pampulha», José Pedro Machado no seu Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa (1984) avançou a hipótese de a origem estar em «pão da Apúlia» (pan no português arcaico), indicando o local onde era recebido o trigo vindo da Apúlia italiana.
Gomes de Brito refere que «Pampulha» já surge num Assento da Vereação de 1636: «Nas travessas que há do Corpo Santo até á Pampulha». Em 1786, na Relação Universal figura este arruamento ora como Rua Fresca da Pampulha, ora como Rua Direita da Pampulha. E como Calçada da Pampulha aparece primeiro no Itinerário lisbonense de 1818 e no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de 1857. No entanto, num documento de 1875 ainda é referida a denominação genérica da zona, numa planta da Praia da Pampulha.

Calçada da Pampulha [c. 1949]
Construção do viaduto sobre a Avenida Infante Santo no cruzamento com a Rua Tenente Valadim
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
Refira-se ainda que a Fábrica de Bolachas da Pampulha, a primeira fábrica de bolachas em Portugal, fundada por Eduardo Costa na década de 1870, referenciava a sua localização entre a Pampulha e a Rua 24 de Julho (hoje Avenida 24 de Julho). [cm-lisboa.pt]

Publicidade da Fábrica de Bolachas da Pampulha em 1907

Sunday, 22 May 2022

Palácio do Manteigueiro

Também conhecido como Palácio Condeixa, foi edificado em finais do séc. XVIII (1787). Deve-se ao arquitecto pombalino Manuel Caetano de Sousa o seu plano de construção [Eduardo de Noronha atribui a obra ao arquitecto Altronochi, Milionário. Artista, p.184]. Com uma arquitectura setecentista imponente, o palácio passou de residência a sede da Assembleia Lisbonense (1836) e, actualmente, é ocupado pelo Ministério da Economia.
Leia a agitada história deste celebrado palácio que vale bem a pena.


O Palácio do Manteigueiro, na Rua da Horta Seca à esquina da Rua da Emenda (que foi Travessa do Mel), foi edificado por volta de 1787 por uma curiosa personagem que Lisboa em peso conheceu, um certo Domingos Mendes Dias, transmontano, enriquecido no Brasil com géneros de mercearia, que transitara de aguadeiro a merceeiro, volvido depois em grande negociante de manteigas: daí a alcunha. Este homem — que se não fora a riqueza acumulada não passaria dum ignorado e humilde cidadão, chegou a fidalgo da Casa Real — era de uma sordidez tão engenhosa que fazia servir o jantar dentro de uma gaveta para a fechar rapidamente se alguém aparecesse, levantou, todavia, um palácio maravilhoso com incrível prodigalidade. Foi a sua criação. Morreu deixando toda a fortuna a António Pereira Coutinho, da velha família dos Pereiras Coutinhos, morgado de Vilar de Perdizes, a favor de quem, e querendo mostrar-se de origem fidalga, fizera testamento, com a condição de este se deixar tratar por primo — e o palácio veio a pertencer a João Fletcher, inglês de tanta preponderância na sociedade portuguesa do seu tempo, talvez a partir de 1826, época em que o palácio se transformou num grande centro de reuniões, principalmente da colónia inglesa. Mais tarde, em 1860, passou aos Condes de Condeixa [vd. imagem abaixo]No segundo ano da República habitou neste palácio o Presidente Manuel de Arriaga.

Palácio do Manteigueiro [1970]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91; possui outro meio de comunicação na Rua das Chagas, onde um portão de ferro, com o n.º 18, abre para um extenso corredor, que liga com o jardim, nas traseiras do edifício, e que servia à criadagem e dava passagem às carruagens.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Palácio do Manteigueiro [1970]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
 As actuais pedras de armas que coroam a janela de tribuna da entrada do palácio, são da família Condeixa.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Domingos Mendes Dias era considerado um dos maiores capitalistas do seu tempo e deixou uma fortuna que, na data do falecimento, foi avaliada em seis e meio milhões de cruzados, correspondentes a dois mil e seiscentos contos de réis. Apesar disso, até ao fim da sua vida, revelou-se um espírito tacanho, peculiar à sovinice de que deu bastas provas. Vivia com uma preta de avançada idade, que lhe preparava os alimentos, tudo do que havia de mais barato.
Devido ao seu feitio miserável, este estranho milionário chegou a ser preso pela ronda, por se tornar suspeito, uma noite em que transportava às costas a fruta verde que apanhara do chão, numa das suas quintas dos arredores. 
Contava-se que, nas longas noites de Inverno, o seu prazer favorito consistia em «formar cartuchos de cem peças de oiro». Jamais soube tirar do dinheiro o bom partido que ele pode dar, esse ricaço asqueroso, que faleceu nos princípios do século XIX (2), em consequência de um ataque de ladrões, à punhalada, pois que, mesmo nessa emergência, achando os gastos exagerados, implorou do médico que o tratava, que fosse mais comedido nos remédios... Da poupança surgiu a gangrena, que o levou como a qualquer pobre de Cristo.

Palácio do Manteigueiro, fachada principal na fase primitiva [c. 1900]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
Primitivamente de um só andar, águas-furtadas e dois pisos térreos, de janelas gradeadas,
que o declive do terreno permitiu edificar, correspondendo a loja e sobre-loja, do lado
da Rua da Emenda, tem hoje três pavimentos superiores.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Contrastando com a sua manifesta avareza, o milionário-«manteigueiro» vivia num ambiente de riqueza. Os interiores do palácio eram de um «luxo asiático», expressão de que se serviu Tinop. As quatro salas (branca, vermelha, verde e amarela), com os tectos pintados por Pedro Alexandrino (1730-1810) e ricas portas de madeira do Brasil, estavam forradas de damasco, recheadas de colgaduras e de «Opulenta mobília». Os espelhos eram de boas chapas de cristal e tanto as molduras como os tremós estavam dourados com «peças d'ouro derretidas». O salão de baile, como a sala de jantar, corriam ao longo da fachada virada à Rua da Horta Seca.

Palácio do Manteigueiro, escada nobre [2020]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
Fotógrafo Hélder Carita, Tiago Molarinho, in A Casa Senhorial

A Assembleia Lisbonense — também chamada Assembleia da Horta Seca, considerada durante os catorze anos da sua vigência, o melhor centro da plutocracia e da alta política, que constituíam a nata dos partidários da «Carta» — instalou-se em 1836, no Palácio do Manteigueiro; quando para lá foi, mutilou-o de cima a baixo. Mandou arrancar os tectos de excelente madeira de teca, todas as portas e ombreiras de magnifica madeira do Brasil. e vendeu tudo a ferros-velhos: o estuque igualitário destruiu, de vez, a preciosa concepção do velho Altronochi, arquitecto que ali pusera o melhor da sua arte. Ficou um casarão incaracterístico, de gosto duvidoso, mobilado á feição de Poisignon, com todas as chinesices então muito em moda no boulevard dos Italianos.
Por aqui passou, todavia, o que em Lisboa posava e orientava.

Palácio do Manteigueiro, capela [1966]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
Desmontado e guardado no Patriarcado de Lisboa, o oratório do palácio constituía  uma das peças mais elaboradas de todo o programa interior.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

No 1.º andar, merece especial referência a linda capela, com rica obra de talha e elegante cúpula, de um só altar, figurando no retábulo a imagem de Nossa Senhora. Não sabemos se é contemporânea das fundações do palácio, ou se teria sido mandada construir pelo visconde de Condeixa. No ano de 1913 instalou-se aqui a sede da Vacuum Oil Company acabando por comprar o edifício em 1920. É esta empresa que realiza as grandes obras do edifício acrescentando um andar nobre ao edifício. Se a morfologia do palácio é assim radicalmente alterada, as escadarias nobres foram preservadas protegendo-se uma estrutura arquitectónica de inequívoco valor estético. Nestas obras é igualmente desarmado o oratório da casa e guardado no Patriarcado de Lisboa.
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Bibliografia
ALMEIDA, Mário de. LISBOA do Romantismo, 1917.
COSTA, Mário, O Palácio do Manteigueiro, in Olisipo, Abril de 1958.
acasasenhorial.org.
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