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domingo, 7 de maio de 2023

Jardim de Campo de Ourique (da Parada ou Teófilo Braga): biblioteca municipal ao ar livre

O Jardim de Campo de Ourique, no encontro da Rua de Infantaria 16 com as de 4 de Infantaria e Tomás da Anunciação, é recente, posterior alguns anos ao começo da urbanização. Ali tens, no centro do  Jardim, — recorda o autor das Peregrinações —  uma escultura, em pedra, que representa a figura popular da Maria da Fonte [vd. 3ª imagem]; é obra de Costa Mota, tio, e foi inaugurada em 1920. O jardinzito é simpático — única mancha de vegetação em todo o Campo de Ourique, velho e novo.

Jardim de Campo de Ourique (da Parada ou Teófilo Braga) |1959|
Biblioteca municipal ao ar livre e sequóia —  árvore classificada.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

As bibliotecas ao ar livre sem chaves ou cadeados com livros constantemente disponíveis à comunidade, eram, para a população que vivia e trabalhava na cidade, um recurso fundamental para a criação de hábitos de leitura, para o desenvolvimento harmonioso de crianças e jovens, para a aquisição de competências de leitura e utilização de informação indispensáveis ao exercício da cidadania e para um conhecimento mais amplo da nossa e de outras culturas.

Jardim de Campo de Ourique, fotógrafo “à la minute” |1948|
Por ter sido o antigo terreiro da parada do quartel, começou por se chamar Jardim da Parada, mas todos o conhecem simplesmente como o Jardim de Campo de Ourique, já que não há outro. Tem parque infantil, belas árvores — uma sequóia e um cipreste-dos-pântanos — inúmeros pombos incrivelmente mansos e dois lagos e uma fonte-cascata.
Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

N.B. Teófilo Braga (1843-1924). Fundador do Partido Republicano, foi nomeado presidente da República por via constitucional em 1915. É conhecido pela grande variedade de actividades e pela riqueza prolífica da sua obra, que constitui uma abordagem pioneira na História da Literatura portuguesa. Em consequência da morte da mulher e de todos os filhos, retira-se para uma vida solitária, após o fim da presidência.

Jardim de Campo de Ourique, monumento a Maria da Fonte |1920|
Em Setembro de 1920, Teófilo Braga preside à inauguração da estátua de Maria da Fonte, da autoria de Costa Mota, (tio). A heroína popular que deu o nome ao jardim, representa «uma mulher como as mais», gadanha ao ombro, braço erguido de revolta, expressão exaltada, «pistola à cinta» — toda em pedra , que é uma maneira de não fazer mal a ninguém e de se aproximar da eternidade.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 74, 1939.
ADRAGÃO, José Victor, PINTO, Natália & RASQUILHO, Rui, Lisboa. 1985.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Mercado de Campo de Ourique

Estamos à entrada de Campo de Ourique. Sob o ponto de vista urbano, é uma Lisboa de há pouco mais de sessenta anos [c. 1880].


O sítio de Campo de Ourique logra porém possuir uma designação que blasona de antigüidade; terras de pão e de oliveiras nos séculos velhos, quintas, terrenos para merendas e passeio no século de seiscentos — subúrbios de Campolide com título próprio — , só no ciclo posterior ao Terramoto começou a desenhar-se em póvoa rudimentar, pela fôrça da lei demográfica, apressada pelo arrasamento de uma parte de Lisboa.

Mercado de Campo de Ourique |post. 1934|
Rua Coelho da Rocha
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Ao fundo da Rua Coelho da Rocha ainda se vêem pedaços de terreno rústico, isto é: por rasgar, mas que dentro de anos estarão integrados no todo urbanista. Aqui, na confluência da Rua Francisco Metrass se construiu em 1933 este Mercado que que vês, já de certo modo aceitável, fundação de José Dionísio Nobre, e que em 1936 passou para a Câmara Municipal, que o arrematou em hasta pública; antes de 1936 existia um pequeno mercado nesta Rua Francisco Metrass, a cem passos do mercado novo.

Mercado de Campo de Ourique |c. 1970|
Rua Coelho da Rocha
Vasco Gouveia de Figueiredo, in Lisboa de Antigamente

Em 2013 foi renovado com um conceito gourmet, inspirado no modelo do Mercado de San Miguel, em Madrid. Foram criados quiosques com capacidade para 16 lojas especializadas em diversas áreas como o bacalhau, as francesinhas, o marisco, o sushi ou a pastelaria. O conceito vai ser copiado em Londres e Nova Iorque, o que só prova que uma boa ideia pode chegar bem longe! É importante dizer que estes novos espaços vão ser concebidos e geridos pelo mesmo português que criou o novo Mercado da Ribeira — João Cepeda,
Em Campo de Ourique, como nos outros mercados, continua a ser possível comprar fruta e legumes frescos da melhor  qualidade.

Mercado de Campo de Ourique, interior |post. 1934|
Rua Coelho da Rocha
Vasco Gouveia de Figueiredo, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 70-75, 1939.
FONSECA, Maria Ribeiro, Tudo Sobre Lisboa, p. 78, 2016.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Rua Ferreira Borges

Entramos agora no Bairro (novo) de Campo de Ourique — diz Norberto de Araújo — pela sua Rua mais representativa, a de Ferreira Borges, e que é a Avenida do sítio. Fica-nos à [direita] o muro da parada do Quartel de Sapadores de Caminhos de Ferro, cujo portão principal de ingresso se rasga, ao fundo de uma passagem entre muretes, na extrema nascente da Rua de Infantaria 16.¹

Rua Ferreira Borges  [c. 1940]
Antiga Avenida do Campo de Ourique, antes Rua do Campo da Parada
À direita, o antigo lanço do Aqueduto das Águas Livres, ramal da Estrela e, acima deste, o Quartel de Campo de Ourique, mandando construir em 1762 pelo Conde de Lippe, a pedido do Marquês de Pombal; ao fundo, as Amoreiras.
Eduardo Portugal. in Lisboa de Antigamente

Neste arruamento (1880) consagra-se José Ferreira Borges (1786-1838), jurisconsulto e político, formado em Cânones pela Universidade de Coimbra que foi o autor do primeiro Código Comercial Português.²

Rua Ferreira Borges  [post. 1952]
Antiga Avenida do Campo de Ourique, antes Rua do Campo da Parada
À direita, a Rua de Campo de Ourique; ao fundo, à esquerda, o «Lycée Français Charles Lepierre» (1952). À sua direita, a Estação da Carris, inaugurada em 1938 e demolida em 1981 para dar lugar ao Complexo das Amoreiras, inaugurado em 1985. Em frente, os terrenos da EPAL onde, em 1998, começou a ser construído o Clube de Golfe das Amoreiras, nunca utilizado e desde então ao abandono.
Judah Benoliel. in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa», vol. XI, p. 74, 1939.
² cm-lisboa.pt.

domingo, 12 de novembro de 2023

Igreja do Santo Condestável

A igreja paroquial do Santo Condestável, moderna mas com reminiscências de ogival, situa-se na encruzilhada das ruas Saraiva de Carvalho e Francisco Metrass, nos limites de Campo de Ourique, e é orientada sensivelmente a Nascente.


A Igreja do Santo Condestável, com traça em forma de cruz latina, cuja construção se concluiu em 1951 em terrenos vizinhos das ruas Saraiva de Carvalho e Francisco Metrass, inspira-se nos templos portugueses da fase final do gótico, o flamejante no seu período embrionário, expressivamente representados em Lisboa pela Igreja do Carmo e em Santarém pela da Graça. Mas à parte o fundamental e típico, a Igreja do Santo Condestável afasta-se nos pormenores mínimos dos seus modelos, de que conserva porém, e inteiramente, a espiritualidade. Todo o edifício se assinala pela simplicidade e pela alvura, onde sobressai num contraste feliz o granito de Sintra. Há um misto de nobreza e de humildade na aliança dos paramentos de simples reboco branco com as cantarias cinzentas, trabalhadas a pico fino. Templo erguido a um dos maiores de Portugal, recorreu-se para a execução da estrutura ao processo tão português da alvenaria de pedra e cal.

Igreja do Santo Condestável |1953|
Ruas Saraiva de Carvalho e Francisco Metrass; ao fundo nota-se o Mercado de Campo de Ourique erguido em 1933.
A Fachada, com um corpo central no qual se rasga o grande p6rtico de arco em ogiva, e duas torres simétricas.
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente
Igreja do Santo Condestável |195-|
Ruas Saraiva de Carvalho e Francisco Metrass
O pórtico com adro sobrelevado ao nível da praça, ao qual se acede por quatro degraus, dando serventia à galilé. Gradeamento de ferro forjado em ponta de lança. Sobre o pórtico o brasão das Armas Reais de Portugal, tal como se usava no começo da 2ª Dinastia.
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

A autoria da igreja pertence ao arq-º Vasco de Morais Palmeiro (Regaleira) que teve como colaboradores na parte ornamental os escultores Leopoldo de Almeida, Veloso da Costa e Soares Branco, e os pintores José de Almada Negreiros, Portela Júnior e Joaquim Rebocho, e na construção o eng.º Santos Fernandes e Mestre Cipriano. Os trabalhos de serralharia artística foram executados pela Serralharia Artística do Corvo.
Dirigiu administrativamente a erecção do edifício uma comissão designada pelo Patriarca de Lisboa e de que fizeram parte o falecido Prior P.• Francisco Maria da Silva, o Marquês de Abrantes, o arquitecto Regaleira e Alberto Portugal da Silveira. A Comissão de Honra pertenceram, entre outros, S. A. a Infanta D. Felipa de Bragança, e o Ministro da Defesa, coronel Santos Costa.
 
Campo de Ourique e a Igreja do Santo Condestável, fotografia aérea |1956|
Ruas Saraiva de Carvalho e Francisco Metrass
A Fachada posterior, tendo no centro da parede (onde se unem o Presbitério e Patronato) um apoio ou mísula, destinado à estátua de Nossa Senhora de Fátima. Aqueles anexos, nos topos exteriores, estão ligados por muro com janelões com grelhagem de tijolo à meia esquadria, e cancelo de ferro forjado, de acesso a pequeno pátio.
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

A inauguração do templo teve lugar em 14 de Agosto de 1951, aniversário de Aljubarrota, com a presença do Chefe do Estado, do Cardeal-Patriarca. A urna, com as relíquias de Nun'Alvares, foi então trazida num ·armão de artilharia, com escolta de honra, da capela da Venerável Ordem Terceira do Carmo (0onde se guardava desde 1834) para o novo templo, em aparatoso cortejo.

Igreja do Santo Condestável, inauguração  |1951-08-14|
Rua Saraiva de Carvalho; Rua Francisco Metrass
Duas torres de secção quadrada com encostos de granito de Sintra e silhares
que prolongadas verticalmente em forma de pilastras terminam fazendo
moldura às ventanas; cantoneiras nas esquinas, terminadas por coruchéus,
igualmente de granito; a cobertura em grimpa acoruchada, que assenta em sobre-beira
dupla de telha portuguesa, rematada airosamente por pára-raios decorativos (Cruz dos Pereiras).
Só a torre Norte (a da direita) tem ventanas sineiras.
Firmino M. Costa, in Lisboa de Antigamente


Por decreto patriarcal de 21 de Maio de 1984 foi criada a freguesia eclesiástica do Santo Condestável, começando as funções paroquiais em 8 de Junho imediato. A área da nova freguesia foi constituída à custa das de Alcântara e Santa Isabel. Até 1951 serviu de igreja paroquial a capela setecentista da Senhora das Dores (mais exactamente «do Amor da Virgem Senhora Nossa das Dores»)
na Rua do Patrocínio, construída com material sobejado da edificação da Basílica do Coração de Jesus (Estrela). 

Igreja do Santo Condestável, pórtico  |1956|
Rua Saraiva de Carvalho; Rua Francisco Metrass
O portal em ogiva chanfrada aberta em frontal de pedra, no estilo gótico flamejante
com o escudo de armas dos Pereiras a fazer remate. Cornija com legenda camoneana
e 
sobre ela um grupo escultórico ornamental representando o beato frei Nuno de Santa
Maria entre dois Anjos orantes (S. Miguel e o («Anjo de Portugal») (Leopoldo de Almeida).
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

No Interior, assinala-se o Corpo da igreja, de três naves (a central sobrelevada) e transepto, e nele:
O tecto de dois tramos, de falsa abóbada de aresta estucada de branco.
As naves separadas por quatro grupos de pilares formando arcada em ogiva, a nave central ocupando toda a1tura, as laterais correndo por baixo do trifório. A iluminação das naves laterais é feita por duas frestas de cada lado, com caixilhos de chumbo e vidros de cor. A meio das naves portas laterais, cada qual com sobreporta, nicho e nele imagem de pedra.

 

Igreja do Santo Condestável, perspectiva, Altar-mor  |1956|
Rua Saraiva de Carvalho; Rua Francisco Metrass
A Capela-mor, prolongamento da nave central e cujo acesso se faz por um arco chanfrado
de ogiva deprimida, iluminada lateralmente por dois pares de janelas de arco de dupla curva,
com vidros de cor montados em armadura de chumbo. Todo o fundo é ocupado por grande
retábulo de pintura a fresco (Portela e Rebocho) representando a glorificação de Nun'Alvares).
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1956.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Cinema Europa

O novo Cinema Europa, foi inaugurado 1958, com projecto da autoria do arqº. Antero Ferreira, tendo a sua fachada incluído uma escultura em alto-relevo da autoria do escultor Euclides Vaz. Esta sala veio substituir o primitivo Europa Cinema (inicialmente tinha previsto o nome Astória), um dos edifícios mais emblemáticos do bairro de Campo de Ourique, inaugurado em 14 de Fevereiro de 1931 e projectado pelo arqº. Raul Martins.


O Cinema Europa, situado no Bairro de Campo de Ourique, na confluência das Ruas Almeida e Sousa e Francisco Metrass, foi traçado pelo arq.º Raul Martins, em 1929. O Cinema Europa parece definir o moderno através da adopção de uma linguagem formal expressa ou entendida dentro de um gosto Arts Déco, que se afirmava exteriormente nas grandes superfícies de ferro e vidro martelado, incrustadas numa estrutura onde a decoração se afirmava subtilmente. O facto de o edifício se situar na confluência de duas ruas e a circunstância pouco comum de se ter tirado partido dessa situação, no inteligente tratamento das suas fachadas, contribuíram em grande medida para quebrar a monotonia geral do edifício e a austeridade das suas linhas. 

Europa Cinema [1932]
Rua Francisco Metrass
Este cinema Europa parece definir o moderno através da adopção de uma linguagem formal [...] que se afirmava exteriormente nas grandes superfícies de ferro e vidro martelado.
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente
Europa Cinema [1932]
Rua Francisco Metrass com a Rua Almeida e Sousa
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente
Europa Cinema, sala [1932]
Rua Francisco Metrass com a Rua Almeida e Sousa
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Por outro lado, a sala, traçada de forma trapezoidal e dotada de tectos de masseira pintados em azul e prata, que contrastavam com os tons das paredes em verde mate e ouro, garantia uma boa acústica elemento que ganhava uma progressiva importância, graças ao novos requisitos que o cinema sonoro trazia. Mas também, e necessariamente, se havia assegurado uma boa visibilidade no desenho do recinto, que se desenvolvia em três pisos, com plateia, primeiro e segundo balcão, e com camarotes laterais ao nível do primeiro, unidos pelo serviço de um buffet de acesso fácil que estava orientado para o contexto particular de um cinema de bairro que se cumpria ali nos seus 878 lugares. De modo previdente, prepara-se ainda o edifício para que, dentro das suas dimensões, a sala pudesse ser ampliada, previsão que se mostrou acertada na sua remodelação em 1936, com risco de João Carlos Silva, embora não tivesse sido suficiente para impedir a sua demolição e posterior reconstrução, sob o novo desenho do arq.º Antero Ferreira, em 1958. 

Cinema Europa [c. 1967]
Rua Francisco Metrass com a Rua Almeida e Sousa
Alto-relevo alusivo ao Rapto de Europa, obra que singularizou o edifício, autoria do escultor Euclides Vaz.
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente
Cinema Europa, nova sala [c. 1965]
Rua Francisco Metrass com a Rua Almeida e Sousa
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

A sala seria ainda melhorada, em 1965, pelo arqº. Rodrigues Lima, que lhe introduz significativas modificações que se estenderam ao bar, ao mesmo tempo que se enfatizava a importância do átrio com um painel de azulejos de Fred Kradolfer [vd. imagem abaixo], expressamente concebido para o local. 
Encerrado em 1981 [com o filme “Annie Hall” de Woody Allen], e desactivado em 2004, depois de ter sido adaptado a estúdio de televisão, a recente notícia da sua demolição e substituição por um complexo onde se prevê um espaço cultural (2017) mais moderno retoma as razões antigas que levaram à destruição do edifício de Raul Martins, embora a inevitabilidade desta solução tenha sido contrariada por um movimento de cidadãos que insistentemente tem reclamado o direito à existência do lugar e ao seu uso.

Cinema Europa, átrio com painel de azulejos assinado por Fred Kradolfer [c. 1965]
Rua Francisco Metrass com a Rua Almeida e Sousa
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

N.B. A 23 de Abril de 2017, sob a gestão da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, abre portas a Biblioteca/Espaço Cultural Cinema Europa, uma autêntica Biblioteca de Bairro, que serve dia-a-dia a comunidade que por ela tanto lutou.
_________________________________
Bibliografia
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa, 2012
Publicações online

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Rua de Campo de Ourique

No século XVIII esta artéria, já desenhada e edificada — recorda Norberto de Araújo — , chamava-se dos «Pousos» –, pela proximidade com a quinta dêste nome dos Rebelos Palhares, depois dos Sás (Anadias). [...]
O sítio de Campo de Ourique logra porém possuir uma designação que blasona de antiguidade; terras de pão e de oliveiras nos séculos velhos, quintas, terrenos para merendas e passeio no século de seiscentos — subúrbios de Campolide com título próprio — , só no ciclo posterior ao Terramoto começou a desenhar-se em póvoa rudimentar, pela força da lei demográfica, apressada pelo arrasamento de uma parte de Lisboa.

Rua de Campo de Ourique |1908|
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente
Rua de Campo de Ourique |1908|
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 70-74, 1939.

domingo, 6 de junho de 2021

Rua Tomás da Anunciação, 153

O pintor Tomás da Anunciação, que se destacou sobretudo pela pintura paisagista e de animais, está desde o ano seguinte à sua morte perpetuado numa rua de Campo de Ourique, até aí denominada Rua nº 3 dos terrenos da antiga parada de Campo de Ourique.

Tomás José da Anunciação (1818–1879) nasceu na Ajuda e, iniciou a sua carreira como desenhador de estampas no Museu de História Natural do Palácio da Ajuda para, a partir dos 19 anos, frequentar a Real Academia de Belas-Artes de Lisboa, instalada no Convento de S. Francisco, onde a partir de 1852 se tornou professor da nova cadeira de Pintura de Paisagem, Animais e Produtos Naturais. Em 1857, com o seu quadro Vista de Penha de França, assumiu as funções de professor catedrático e, a partir de 1878, tornou-se Director da Academia. Distinguiu-se como pintor paisagista e animalista, sendo de realçar na sua obra de mais de 500 quadros, alguns títulos como O sendeiro (1856), Vitelo (1873), Perdidos do Rebanho, Ovelhas e Borregos e Rebanho Passando Um Riacho. Refira-se ainda que foram seus alunos José Malhoa e Silva Porto, bem como que deu aulas de pintura à Rainha D. Maria Pia. [cm-lisboa.pt]

Rua Tomás da Anunciação, 153 [191-]
Junto à Rua de Campo de Ourique
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Palácio Anadia

A Casa Anadia é que ainda está de pé, esse palácio à esquina das Ruas das Amoreiras e de Silva Carvalho (antiga de de São João dos BemCasados), com largo brasão armoriado dos Sás, no alto da fachada. [Araújo: 1939]


O núcleo original do Palácio Anadia remonta ao séc. XVII, correspondendo ao solar da Quinta de Recreio de São João dos Bemcasados. Objecto de ampliações, demolições e remodelações ao longo dos tempos (final do séc. XVII, séc. XIX e séc. XX), somente no 1º quartel do séc. XVIII, esta propriedade foi parar às mãos dos Senhores de Anadia, advindo daí o nome do Palácio. 
 
Aquela quinta e mais duas do mesmo Palhares (a dos Pousos, que chegava a Campo de Ourique, e a do Pé do Mu (por muro?) ou do Fetal, que se prolongava até à cerca do convento das trinas do Rato) — recorda Norberto de Araújo — , foram à praça, por dividas, em 6 de Outubro de 1700, adquirindo-as Francisco Duarte de Almeida e Sousa, bailio do Acre da Ordem de Malta, que delas tomou posse formal em 1706 (papéis do arquivo da Casa Anadia), doando logo casas e quinta de S. João (dos Bemcasados) a seu irmão Aires de Almeida e Sousa. Um descendente deste, Manuel de Sousa e Almeida, casou com D. Violante Engrácia de Sá, filha de Aires de Sá e Melo e de D. Isabel de Melo, Senhores da Anadia, e eis como o solar arrabaldino de S. João dos Bencasados principiou por se ligar aos Anadias.

Palácio Anadia [195-]
Rua Silva Carvalho, 345-347
O Palácio Anadia situado na Rua Silva Carvalho, onde tem a sua fachada principal, e contornando para a Rua das Amoreiras, é ainda uma vistosa edificação de tipo solarengo, valorizada pelo seu alçado nobre e por alguns pormenores interiores. Pode ser considerado um dos poucos. palácios de Lisboa ainda na posse, posto que por linhas indirectas, da família dos primeiros reedificadores. [Araújo: 1950]
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Palácio Anadia [1908]
Rua Silva Carvalho, 345-347
O Palácio Anadia, no antigo sítio de S. João dos Bemcasados, é uma construção setecentista, mas com transformações radicais no decorrer do século passado [XIX]. Contudo o seu núcleo fundamental recua, pelo menos, ao último quartel do século XVII, representado por umas casas nobres, integradas na quinta de S. João, que aqui possuía José Rebelo Palhares, de uma dinastia de comerciantes destes apelidos que se instalaram em Lisboa noprimeiro terço daquele século
. [Araújo: 1950]
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Classificado como Imóvel de Interesse Municipal, trata-se de um exemplar de arquitectura residencial barroca palaciana, de planta longitudinal, composto pela articulação de 3 corpos rectangulares, separados por pilastras de cantaria, demarcando-se o corpo central, mais estreito e destacado, no qual se rasga o portal nobre, de verga curva larga, com base de cantaria e guarda em ferro forjado, de finais de Setecentos. Este eixo central surge coroado por frontão triangular com pináculos nos acrotérios e a pedra de armas dos Sás-Anadias ao centro do tímpano. 

Palácio Anadia [1967]
Rua Silva Carvalho, 345-347
Frontão triangular com pináculos nos acrotérios e a pedra de armas dos Sás-Anadias — escudo com o campo enxadrezado de seis peças em cinco palas, tendo no centro, ao alto, um pelourinho (ou coluna coroada dos Colonas?), com coroa condal sob o timbre expresso por um búfalo. [Araújo: 1950]

Augusto Fernandes, in Lisboa de Antigamente

No interior merecem destaque: os silhares de azulejos e pinturas murais do núcleo seiscentista; o programa decorativo novecentista de estuques polícromos da Sala de Bilhar e da galeria do 1º piso; e a actual capela, construída em 1884, que integra alguns elementos da anterior capela de São João dos Bemcasados (demolida para corrigir o alinhamento da rua), nomeadamente a porta de acesso do exterior datada de 1689, o altar em talha e as guardas em madeira entalhada e polícroma, que protegem o coro e o altar, sendo já de finais do séc. XVIII o seu retábulo-mor. (cm-lisboa.pt)

Palácio Anadia, jardins [195-]
Rua Silva Carvalho, 345-347
O antigo jardim e mata, hoje muito reduzidos, são defendidos da rua por um muro, com janela gradeada, que se segue à fachada Nascente, que, contornando a Rua das Amoreiras, fecha a vedação. [Araújo: 1950]
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Rua Ferreira Borges com a Rua de Campo de Ourique

Arruamento construído no prolongamento da Rua D. João V, situado entre a Rua Silva Carvalho e a Avenida Engº Duarte Pacheco. Também designado por sua Rua A da urbanização das Amoreiras e antiga Rua dos Pousos (1859).
Aquele que no seu Panfleto Mágico ousou avisar «É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir» – o escritor José Gomes Ferreira — , desde o próprio ano da sua morte que está perpetuado na artéria de Campo de Ourique que liga a Rua Joshua Benoliel à Avenida Engº Duarte Pacheco.

Rua Ferreira Borges com a Rua de Campo de Ourique |1966|
A esq., a Rua José Gomes Ferreira (Poeta 1900-1985) e, acima, o Liceu Francês Charles Lepierre (1952). À sua direita, a Estação da Carris, demolida em 1981 para dar lugar ao Complexo das Amoreiras, inaugurado em 1985. Em frente, os terrenos e reservatório da EPAL.
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Rua Saraiva de Carvalho

No último quartel do século XIX, as Ruas de Santa Isabel e de S. Miguel da Boa Morte, no bairro de  Campo de Ourique, passaram a constituir um arruamento único com a denominação de Rua Saraiva de Carvalho, através da publicação do Edital de Municipal de 16/11/1885, em homenagem ao jurisconsulto Saraiva de Carvalho.

Antiga de «Santa lzabel»
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

N.B. Augusto Saraiva de Carvalho (1839-1882). Advogado. Parlamentar. Reformista. Ramalho Ortigão chama-lhe pimpolho ilustre e rebento florescente da janeirinha. Em 1864 é um dos fundadores, no Pátio do Salema, do Clube dos Lunáticos com José Elias Garcia e Latino Coelho.

Ministro da justiça do governo de Ávila, desde 29 de Outubro de 1870 a 30 de Janeiro de 1871. Sai então do governo, juntamente com Alves Martins, quando os deputados reformistas liderados por Latino Coelho, lançam um ataque ao governo. Com efeito, Saraiva de Carvalho levou ao rei, sem passar por Ávila, a nomeação do bispo do Algarve, D. Inácio do Nascimento Morais Cardoso, considerado liberal, capelão de D. Pedro V, em vez da do arcebispo de Goa, D. João Crisóstomo de Amorim Pessoa, apoiado por Ávila, acusado de congreganismo romano e ultramontanismo.
Ministro das obras públicas, comércio e indústria do governo de Braamcamp (de 1 de Junho de 1879 a 25 de Março de 1881). [Maltez]

Antiga de «Santa lzabel»
Direcção Praça São João Bosco (Cemitério dos Prazeres).
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Rua de Silva Carvalho, antiga de São João dos Bem Casados

Atentemos agora na Rua de São João dos Bem Casados. A primeira notícia que temos do lugar, que não da rua é de 1712: «o lugar de S. Joaõ dos Bem Casados, aonde está húa Ermida de S. Joaõ Bautista» pertencia então à freguesia de S. Sebastião da Pedreira; por 1755, indica-se S. João dos Bem-Cazados, talvez também como nome de lugar e não de rua; todavia, 1763 já se encontra S. Joaõ dos Bemcasados como nome de rua da freguesia de Santa Isabel. No mesmo livro, se indica a existência da referida ermida de S. Joaõ dos Bemcasados (já incluída naturalmente na freguesia de Santa Isabel), acrescentando-se a propósito dela: «Edificou-a António Simões, official de Dourador no anno de 1580». 
Em 1804, regista-se a Rua de S. Joaõ dos Bem-Casados, como principiando no Largo da Páscoa e terminando na Estrada de Campollide, hoje Rua das Amoreiras; ao longo do século XIX, encontra-se às vezes a variante de Rua Direita de S. João dos Bem Casados.
(in Anais - Academia Portuguesa da História, p. 360, 1994)

Rua de Silva Carvalho, 110 [1912]
Troço da antiga Rua de São Luís, 10, junto ao cruzamento com as Ruas do Sol ao Rato e de Campo de Ourique.
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no amL

N.B. Por edital camarário de 1920, a Rua de S. João dos Bem Casados, o Largo da Páscoa e a Rua de S. Luís passaram a constituir um só arruamento a que se deu a denominação de «Rua de Silva Carvalho».

terça-feira, 7 de junho de 2016

Rua de Santo António à Estrela: demolição de um arco do Aqueduto das Águas Livres

Este arco sito na do Rua de Santo António à Estrela era parte do Aqueduto do Convento da Estrela, ramal subsidiário do Aqueduto das Águas Livres ou Galeria das Necessidades, que conduzia a água para os chafarizes de Campo de Ourique, da Estrela, da Praça da Armada e das Terras. 

Convento do Santíssimo Coração de Jesus e Arco do Aqueduto sobre a Rua de Santo António à Estrela [ant. 1885]
Em 1885, as dependências conventuais são entregues à Fazenda Nacional, para instalação dos Serviços Geodésicos, depois Instituto Geográfico e Cadastral.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente


Partia do Arco do Carvalhão terminando na Tapada das Necessidades, onde nascia outro ramal à superfície, que atravessava o Vale da Cova da Moura, actualmente a Avenida Infante Santo, até às Janelas Verdes, abastecendo o respectivo chafariz; a abertura da Avenida implicou a sua demolição. 

Rua de Santo António à Estrela: demolição de um arco do Aqueduto [10 de Abril de 1897]
O último prédio alto à esquerda [vd. 3ª imagem], com portal abobadado, era o edifício
utilizado para recolha dos ascensores Estrela-Camões; à direita, a antiga Cerca do
Convento da Estrela (ou Sagrado Coração de Jesus, hoje pavilhão do Hospital Militar);
ao fundo, a Igreja e Antigo Convento de Nossa Senhora da Estrela (Hospital Militar Principal).

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Foto, inscrição no original: «Demolição do Arco Grande do Aqueduto, na Rua de Santo António à Estrela, arriado em 10 de Abril de 1897 pelos operários da secção de obras da Exma Câmara Municipal de Lisboa, foram entregues no depósito do Edificio da Estrela em 10 de Agosto do mesmo anno duas torneiras de bronze que pezavam a 1.ª 117,0 Kilos e a 2.ª 115,0 Kilos no total de 232,0 kilos.»

Levantamento topográfico de Francisco Goullard (1882)]: n.º 163
Planta referente ao estado da Rua de Santo António à Estrela, em Outubro de 1890. Localização do Arco Grande do Aqueduto do Convento da Estrela
(Clicar para ampliar)

Recolha dos elevadores Estrela-Camões, demolido em finais de 1941
Praça da Estrela; a esq., a Rua Domingos Sequeira e, à dir., a Rua da Estrela

(Este prédio é aquele que se pode observar do lado esquerdo na 2.ª imagem). 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 9 de março de 2018

Rua das Amoreiras antiga «Rua do Rato para Campolide»

Pois, Dilecto, a Rua das Amoreiras, larga nesta artéria até ao estrangulamento do antigo Palácio Anadia [vd. 2ª e 3ª imagens], é muito antiga, como caminho ao menos, e foi — já o disse — de S. João dos Bemcasados, antes de existir a outra, hoje Rua Silva Carvalho. A designação «das Amoreiras» — projecção da Praça e Jardim acima do Rato — data de 1874. Também foi «Rua do Rato para Campolide», chamada simultaneamente «das Águas Livres».


Dentro de poucos anos, Dilecto, — prossegue Mestre Araújo — esta Rua das Amoreiras, que estará desfigurada no seu traçado; as transformações das cidades, riscadas em plantas, quando chega a hora das realizações fazem sempre vítimas: alguns prédios desta artéria, de um lado e outro, desaparecerão.¹

Rua das Amoreiras N→S [1944]
Esquina da Rua Silva Carvalho junto ao Palácio Anadia
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

No prédio n.° 42-44 da R. das Amoreiras, passado o Arco, um belo registo de azulejos [vd. 4ª imagem], composto de três painéis de moldura polícroma, representando os dois que ficam superiormente a Epifania e a Fuga para o Egipto, e o inferior St.° António e S. Pedro. Continuando a subir esta rua, encontra-se à esq. a rua de Silva Carvalho, antiga de S. João dos Bemcasados, na esquina da qual se eleva o palácio dos duques do Cadaval, depois dos condes da Anadia. Os carros da carreira da Estrela [hoje cancelada] seguem pela R. de Silva Carvalho, em direcção ao Campo de Ourique, enquanto os de Campolide continuam a percorrer a R. das Amoreiras [troço que corresponde actualmente a R. Prof. Sousa da Câmara], entre arvoredos e jardins, até ao ponto em que, inflectindo à dir., metem pela R. de Campolide..²

Rua das Amoreiras S←N [1944]
Esquina da Rua Silva Carvalho junto ao Palácio Anadia (esq.)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Rua das Amoreiras N→S [1932]
Junto ao Palácio Anadia (dir.)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O topónimo Rua das Amoreiras foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa, através de Edital do Governo Civil de 03/02/1874, e posterior Deliberação Camarária de 18/05/1889 e respectivo Edital de 08/06/1889, ao «arruamento que surgiu da junção das Ruas do Arco das Águas Livres, de São João dos Bem Casados e dos Arcos das Águas Livres que principiam no Largo do Rato e terminam nas Portas da Cidade».³


Rua das Amoreiras [1908]
Troço ant. ao alargamento da rua e que, mais tarde passou a denominar-se R. Prof. Sousa da Câmara, in LdA


 
Rua das Amoreiras, 44 [1969]
Registo de Santos [demolido]
Garcia Nunes, in LdA



Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 80-81. 1939.
² Guia de Portugal: Generalidades. Lisboa e arredores, vol 1º, p. 320, 1924.
³ cm-lisboa.pt.
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