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domingo, 25 de novembro de 2018

Largo do Rato: antes e após as demolições na década de 1930

Rato foi e Rato é —  diz Norberto de Araújo; só os dísticos municipais e os letreiros dos eléctricos dizem Praça do Brasil, titulo pomposo com o qual a República portuguesa nascente em 1910 quis consagrar a República irmã mais velha de Além Atlântico.[...]


De um padroeiro [Luís Gomes de Sá e Meneses], do Convento das freiras da Santíssima Trindade [Convento das Trinas] se trespassou para a casa religiosa e para o sítio do seu eirado o nome de «Rato», que era um cognome, quási apelido pessoal.

Largo do Rato, do nascente para o poente [1929]
 Antiga Praça do Brasil, antes Largo do Rato, antes Rua do Rato, antes Rua Direita do Rato
Ao fundo, a Rua do Sol ao Rato e o antigo Teatro Joaquim de Almeida (1925-1930); em último plano fundo, à direita, vislumbra-se o telhado do Convento das Trinas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 Largo do Rato, do poente para o nascente [1929]
 Antiga Praça do Brasil, antes Largo do Rato, antes Rua do Rato, antes Rua Direita do Rato
Esquina com a Rua de S. Bento; ao fundo, a Rua do Salitre e, à esq., por detrás doa edifícios marcados para  demolição, vê-se o o Palácio do Marquês da Praia e Monforte (actual sede do P.S.).
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Já antes do Terramoto o Largo do Rato crescia em póvoa, em tumulto de tendas ao ar livre, e algum casario; (...) Depois do cataclismo, o sítio converteu-se em acampamento de foragidos, de tal modo que, em 1759, se determinou dar ao eirado ou largo a forma urbanística que perdurou até 1937; abriram-se depois, em rectificação de caminhos entre quintas, a Rua da Fábrica da Louça [Calçada Bento da Rocha Cabral], a Praça das Amoreiras, e a Rua de S. Filipe Nery, esta mais tardia.

Largo do Rato [1937]
Antiga Praça do Brasil, antes Largo do Rato, antes Rua do Rato, antes Rua Direita do Rato
Do lado esq., o Palácio do Marquês da Praia e Monforte.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Largo do Rato [1937]
Antiga Praça do Brasil, antes Largo do Rato, antes Rua do Rato, antes Rua Direita do Rato
Do lado dir., o Palácio do Marquês da Praia e Monforte e o
Convento das Trinas
 Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto deo, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 11-12, 1939.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Rua do Sol ao Rato

Pois subamos a Rua do Sol — convida Norberto de Araújo. Esta, sim, que é artéria muito antiga – em relação à idade da freguesia – a velha Rua do Rato para o Salitre, descendo desde a extrema de S. João dos Bem-Casados [R. Silva Carvalho], ainda quando esta artéria não tinha a orientação actual. Os prédios desta Rua do Sol, do lado esquerdo, acusam quási todos cabelos brancos, na sua modéstia. Do lado direito, no começo, ficavam os amplos terrenos da Cêrca do Convento das Trinitárias do Rato, e que no meado do século passado [XIX] foram sendo retalhados para construções, que orlam a rua no primeiro trôço.

Rua do Sol ao Rato |post. 1933|
Junto à Rua da Páscoa
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente
 
O sol de Lisboa está presente na toponímia de diversos arruamentos da cidade e, um deles é este que liga o Largo do Rato à Rua Silva Carvalho e, que desde a década de cinquenta do século XX também refere a sua proximidade ao Largo do Rato: a Rua do Sol ao Rato.

Antiga Rua Direita do Rato (hoje Largo do Rato) e Rua do Sol ao Rato esquina com a Rua de S. Bento |1911|
Cantina escolar de São Mamede
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 67, 1939.

domingo, 12 de abril de 2020

Chafariz do Rato

É curioso este Chafariz do Rato — recorda-nos Norberto de Araújo — , com fundo natural do muro dos jardins Palmela, e cujo nicho decorativo foi mutilado numa revolução, o célebre 7 de Fevereiro de 1927. No estado em que ainda sobrevive, o Chafariz data de 1794, embora desde meio século antes aqui perto, corresse água.


Chafariz localizado  na esquina entre a Rua da Escola Politécnica e a Rua de Salitre foi edificado em Março de 1794, de acordo com os planos de Carlos Mardel. Durante o dia era proibido por decreto real, os carreiros encherem pipas de água para as obras e regas das hortas, caso o fizessem pagariam uma multa de 4$000 réis na cadeia.

Chafariz do Rato e aguadeiros |Início séc. XX|
Largo do Rato; Ruas do Salitre e da Escola Politécnica

No início do século a maioria da população para se abastecer de água tinha de o fazer nos chafarizes, bicas ou fontes, pois eram poucos os edifícios particulares que a tinham canalizada.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Este foi o primeiro chafariz a ser construído, integrado nos planos do Aqueduto das Águas Livres. Era abastecido pela Mãe de Água das Amoreiras. Os seus sobejos eram para o arquitecto Manuel Caetano de Sousa e depois passaram a ser para o conde da Póvoa, sucedendo-se o marquês do Faial.

Chafariz do Rato e aguadeiros |1907|
Largo do Rato

Tanque e bica do lado esquerdo destinados a particulares e aguadeiros.
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Chafariz do Rato e aguadeiros |post. 1901|
Largo do Rato

Tanque ao nível térreo com um bebedouro destinado a animais..
  Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
É um chafariz de espaldar em estilo barroco, construído em pedra lioz, encimado por arco de volta perfeita, formando um nicho, gradeado a ferro e integrado na balaustrada do Palácio dos Duques de Palmela.
A água corre em 2 níveis, um mais elevado, onde dois tanques semicirculares, de perfil galbado e bordo boleado, chapeado a ferro recebe água de 2 bicas destinadas a particulares e aguadeiros, e um tanque rectangular, com os ângulos exteriores côncavos, de bordo saliente e chapeado a ferro de proporções menores, ao nível térreo, utilizado para bebedouro dos animais. Este chafariz era alimentado por um encanamento especial, que saía directamente da Mãe de Água das Amoreiras.
Tinha em meados do século XIX (1851) 3 bicas, 3 Companhias de Aguadeiros, 3 capatazes e 99 aguadeiros e 1 ligeiro.

Chafariz do Rato |c. 1952|
Largo do Rato; Palácio dos Duques de Palmela

Salvador de Almeida Fernandes,in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 34, 1939.
VELOSO DE ANDRADE, José Sérgio , Memória sobre Chafarizes, Bicas, Fontes e Poços Públicos de Lisboa, Belém e muitos lugares do Termo., 1851.
OLIVEIRA, Eduardo Freire de, Elementos para a História do Município de Lisboa, Vol. XV, 1882.

domingo, 20 de julho de 2025

Largo do Rato que foi «Praça do Brasil»

Conforme refere Norberto Araújo, nas suas «Peregrinações em Lisboa», «só os dísticos municipais e os letreiros dos eléctricos dizem Praça do Brasil; título pomposo com o qual a República portuguesa nascente em 1910 quis consagrar a República irmã mais velha de Além Atlântico».

O nome desta zona tem origem na alcunha que popularizou o esquecido patrono do Convento Trino, que domina o largo, e até finais do século XIX o único edifício de características nobres fundado em 1621 por Manuel Gomes de Elvas, influente cristão-novo de Lisboa. Depois da sua morte continuou a ser apadrinhado pelos seus descendentes, um deles, Luís Gomes de Sá e Meneses, tinha por alcunha “o Rato”, alcunha que se apegou ao convento e estendeu-se ao largo fronteiro.

Largo do Rato |1937-04-08|
Antiga Praça do Brasil, antes Largo do Rato, antes Rua do Rato, antes Rua Direita do Rato. Mais tarde, por edital de 23/12/1948, regressou ao topónimo Largo do Rato. |
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

«Desce a Rua das Amoreiras, deserta. Ao entrar no Rato é como se entrasse noutra cidade, noutro dia. Todas as pessoas e veículos que não estavam nas ruas vazias estão aqui, num mar de cabeças onde flutuam os carros parados, eléctricos, autocarros. Centenas, milhares de pessoas, a andar para todos os lados e paradas a conversar, numa azáfama de feira». (NOGUEIRA: 2012)

Largo do Rato |194-|
Perpectiva tomada da Rua das Amoreiras.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Teatro do Rato

No centro desse quarteirão sul [do Largo do Rato] referido — recorda Norberto de Araújo — chãos e casas que primitivamente foram da Real Fábrica de Sedas — rasga-se um Arco, que leva a uns terrenos (antiga Quinta do Ferreira, ou do Ferrari, o que julgo mais acertado) nos quais à esquerda está de pé a adega e casa de pasto conhecida pela designação de «Parreirinha», e ao fundo se construíram em 1907 uns barracões sólidos, que pertencem, como oficinas, à Sociedade Portuguesa. de Automóveis, com entrada pela Rua da Escola Politécnica; uns quintalórios denunciam ainda a antiga feição rústico-fabril do local.

Largo do Rato [195]
Ao centro vê-se o arco de acesso à antiga Quinta do Ferreira, ou do Ferrari depois Teatro do Rato
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Aqui, precisamente no sítio dos barracões, assentou o Teatro do Rato, inaugurado em 27 de Março de 1880 e que ardeu em 1906, afinal também um grande barracão de zinco e tijolo, mas por cujo tablado passaram algumas notáveis figuras da cena portuguesa, entre as quais Adelina Abranches, felizmente ainda sobrevivente de uma geração de artistas eminentes.

Arco do Largo do Rato [1944]
Acesso à antiga Quinta do Ferreira, ou do Ferrari e ao Teatro do Rato
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Comício republicano realizado no antigo recinto do Teatro do Rato [1907-05-01]
Largo do Rato
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 15, 1939.

domingo, 23 de maio de 2021

Largo do Rato com a Avenida Álvares Cabral

Rato foi e Rato é — diz Norberto de Araújo; só os dísticos municipais e os letreiros dos eléctricos dizem Praça do Brasil, titulo pomposo com o qual a República portuguesa nascente em 1910 quis consagrar a República irmã mais velha de Além Atlântico. 

 
Irregular sob todos os pontos de vista, desnivelada a despeito da sua transformação em 1937-1938, a Praça do Brasil nem por isso deixa de oferecer um certo interesse paisagista. Terreiro natural, ou eirado, largo ou simples logradouro, o Largo da Rato é anterior à tessitura urbanística do sítio. 

Largo do Rato |1943|
Avenida Álvares Cabral, rasgada entre 1906 (Norte) e 1930 (Sul)
Duas imagens tiradas do mesmo ângulo mas separadas por um ano. Descubra as diferenças.
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente
 
«Rato» é designação que não adveio do começo da tímida póvoa, e só apareceu na terceira década do século XVII; antes foi «Campolide» — o que hoje se atesta numa lápide foreira no começo da Rua das Amoreiras — , depois «Cotovia», quási no nosso tempo, designações genéricas que chegaram aqui por extensão.
De um padroeiro [Luís Gomes de Sá e Meneses], do Convento das freiras da Santíssima Trindade [Convento das Trinas] se trespassou para a casa religiosa e para o sítio do seu eirado o nome de «Rato», que era um cognome, quási apelido pessoal.==

Largo do Rato |1944|
Avenida Álvares Cabral, rasgada entre 1906 (Norte) e 1930 (Sul)
Duas imagens tiradas do mesmo ângulo mas separadas por um ano. Descubra as diferenças.
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 11-12, 1939.

domingo, 25 de agosto de 2019

Palácio Praia

O Palácio dos Marqueses da Praia, no Largo do Rato — entre a Rua das Amoreiras e a Calçada Bento da Rocha Cabral — , é uma edificação de 1784, ou de pouco antes. Ergueu-o, em primeira traça, Luís José de Brito, contador do Real Erário, e tesoureiro das contribuições para a superintendência das Obras das Aguas Livres, sobre chão rústico e casas que pertenceram à famosa fábrica da louça do Rato.

No começo de oitocentos era da viúva Brito, andou depois alugado, e foi mais tarde comprado pelo Barão de Quintela, do qual passou por herança ao Conde da Cunha e deste ao Marquês de Viana, que já o possuía em 1828, e cuja esposa era neta do Barão de Quintela.
Em 1876 o palácio foi vendido ao Visconde de Monforte, Luiz Coutinho de Albergaria Freire, deste passou a sua sobrinha, D. Maria José, que casou com o Conde da Praia, depois Marquês, António Borges de Medeiros Dias da Câmara e Sousa; deste transitou a seus filhos, 2.º Marquês da Praia e Monforte, D. Duarte, e Condessa de Cuba. Presentemente [em 1939] o Palácio do Rato pertence, em partes iguais, à Senhora Condessa de Cuba, que ocupa a parte sobre a Calçada da Louça [hoje de Bento da Rocha Cabral], e ao 3.° Marquês, D. António, filho de D. Duarte, que detém a parte sobre a Praça.

Palácio do Marquês da Praia e Monforte |1945|
Largo do Rato, 2; Calçada Bento da Rocha Cabral, 1
André Salgado, 
in Lisboa de Antigamente

Foram famosas no meado do século passado [XIX] as festas no Palácio do Rato, do tempo dos Marqueses de Viana, constituindo deliciosos motivos de crónicas lisboetas, tais as dos Condes de Farrobo, de Penafiel, do Carvalhal, paradas de aristocracia, cheias de beleza e opulência, bom gosto e aprumo; deram-se aqui deslumbrantes bailes de máscaras, a um dos quais pelo menos (1855) assistiram D. Pedro V, D. Fernando, e os infantes. 

Palácio do Marquês da Praia e Monforte [1950]
Largo do Rato, 2; Calçada Bento da Rocha Cabral, 1
Horácio Novais, 
in Lisboa de Antigamente

A Capela da Casa é fundação do Marquês de Viana, 1839, sendo o risco do arquitecto da Casa do Infantado Joaquim de Sousa; o pequeno templo da Calçada da Louça [hoje Calçada Bento da Rocha Cabra], propriedade da Condessa de Cuba, é dedicado hoje a N. Senhora da Bonança. Possue esta Igreja duas capelas laterais além da principal.

N.B. Este belo edifício, cedido em 1975 e depois arrendado, foi mais tarde adquirido pelo Partido Socialista (31 de Dezembro de 1986) aos descendentes do 4.º Marquês da Praia e Monforte, e passou a integrar, desde então, o seu património.

Palácio do Marquês da Praia e Monforte [1910]
Largo do Rato, 2; Calçada Bento da Rocha Cabral, 1
Legenda de arquivo: Bando precatório a favor das vítimas da revolução republicana.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, Fasc. VIII, Lisboa, 1950.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Convento das Trinas do Rato (Convento das Trinitárias de Campolide)

O convento — que tinha a invocação de N. Senhora dos Remédios — foi fundado em 1633, por Manuel Gomes Elvas para recolhimento de senhoras de linhagem, e em número de 40, como revela a lápide de 1637, que se encontra sobre o portal maneirista. Instalado num local, considerado como zona de retiro, o edifício confinava com os terrenos dos padres oratorianos da Congregação de São Filipe de Neri. Teve como principais mecenas e responsáveis pela conclusão das obras, Manuel Correia de Lacerda  e Luís Gomes de Sá e Meneses, por alcunha «O Rato», que deu o nome ao recolhimento e ao actual largo. A decoração da igreja e do convento deveu-se à acção de D. Tomás de Almeida, 1º Cardeal Patriarca  de Lisboa, responsável também pela criação da actual freguesia de Santa Isabel.  Salienta-se o conjunto maneirista da capela-mor da igreja, em pedraria lavrada, com pinturas alusivas à Paixão de Cristo. [Caeiro: 1989]

Convento das Trinas do Rato, fachada principal [c. 1900]
Largo do Rato
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo  «o edifício, que pelo Terramoto alguma cousa sofreu, sendo prontamente reparado, foi reconstruído em 1885 pelo arquitecto Luiz Caetano Pedro de Ávila; em 1937-1938 novas transformações sofreu na fachada, desaparecendo então o ante-pátio fronteiro, que fora  o terreiro do «Jôgo da Péla›, peculiar nas clausuras, e que chegara aos nossos dias transfigurado em serventia pública (ainda em 1936) com a esquadra, a taverna do «João do Canto›, e casas de habitação.[Araújo: 1939]

Convento das Trinas do Rato, fachada principal [1968]
Largo do Rato
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

domingo, 26 de março de 2017

Real Fábrica das Sedas

Neste ângulo recto que fazem as Ruas da Escola e do Rato, e de todo ainda não desfigurado, existiu a célebre Real Fábrica das Sedas, cujas oficinas, secções, anexos e armazéns em parte aqui se situavam, em ligação pelo interior rústico com a Rua — que se rasga defronte de S. Mamede — ainda hoje chamada da Fábrica das Sedas.


A Real Fábrica das Sedas — relembra-nos Norberto de Araújo — foi criada, com organização própria oficial, pelo Marquês de Pombal em 1757, sucedendo à Fábrica fundada, em tempos de D. João V, por Ricardo Godin, um industrial francês que primeiramente instalara o seu estabelecimento fabril na Fonte Santa, de onde transitou para o fundo da Rua de S. Bento e finalmente para o Rato; não foi feliz no empreendimento e já em 1750 o Estado deitara mão à sua fábrica. 
A Real Fábrica conheceu períodos de prosperidade, durante a administração pombalina sendo grande a sua influência na sumptuária portuguesa da época, fornecendo paços, palácios, conventos e igrejas, clientes que crivaram, por vezes, a Fábrica de dividas. 
Morto Pombal, a Fábrica decaiu, arrastando-se contudo até 1855, ano em que D. Maria II mandou vender tudo, edifícios, oficinas, teares, existência; uma parte foi ainda explorada por um industrial particular, e mais tarde multiplicaram-se mesmo os pequenos industriais da seda, nas Amoreiras, mas sem sinal de desafogo, havendo dessas fabriquetas ainda vestígios como veremos noutro passo.

Real Fábrica das Sedas [entre 1901 e 1908]
Rua da Escola Politécnica, antiga Rua direita da Fábrica das Sedas

Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Antes da criação de Real Fábrica estes terrenos por aqui, entre o Rato e a Rua da Imprensa Nacional (então Travessa do Pombal) até S. Bento faziam parte da Quinta do Morgado dos Soares [de Noronha] à Cotovia — a quinta de D. Rodrigo da primeira metade do século XVIII — e de que adeante te falarei.
Fez-se então a fábrica com suas dependências, vendidas no século passado como já te disse. Tudo foi depois parar às mãos de um Francisco Ferrari, de quem transitou para três filhas, duas das quais, que houveram a parte de um sobrinho, filho da outra irmã, casaram uma com o Visconde Silva Carvalho, outra com Guilherme Shindler; foi desta senhora que os imóveis da antiga Real Fábrica passaram para sua filha D. Lívia Ferrari Shindler de Castelo Branco, e desta para sua filha D. Maria Livia Shindler Castelo Branco viúva do estadista João Franco, actual [em 1939] proprietária de todas estas edificações, correspondentes à desaparecida Fábrica, quer as com frente para a Rua da Escola quer as com frente para o Rato.

Real Fábrica das Sedas [entre 1901 e 1908]
Rua da Escola Politécnica, antiga Rua direita da Fábrica das Sedas
Corpo central mais destacado e rematado por frontão triangular,
em cujo tímpano sobressai a pedra de armas de D. José I.

Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Classificada como Imóvel de Interesse Público, esta é uma das mais importantes manufacturas de fundação joanina, constituindo um marco na história industrial portuguesa dos séculos XVIII e XIX. Com proposta apresentada pelo tecelão francês Robert Godin em 1727, a sua construção foi autorizada pela Resolução Real de 13 de Fevereiro de 1734. Construído no Rato, segundo o risco do arq. Carlos Mardel, o edifício ficou concluído em 1741.

Instalações dos trabalhadores da Real Fábrica das Sedas [1910]
Antiga
Rua da Fábrica das Sedas, desde 1968, Rua Maestro Pedro de Freitas Branco
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Ocupando todo o quarteirão, a Fábrica desenvolve-se longitudinalmente com planta em L. De volumetria paralelepipédica uniforme, a sua fachada principal é composta por dois torreões avançados nos extremos ligados por duas alas recuadas a um corpo central mais destacado e rematado por frontão triangular, em cujo tímpano sobressai a pedra de armas de D. José I [vd. 2ª foto]. Estruturada em dois pisos, os panos murários surgem compartimentados em cinco corpos por pilastras e cunhais de cantaria, ritmados pelo rasgamento de 14 janelas em cada um dos registos. Tendo passado por vários proprietários desde o segundo quartel do séc. XIX, a fábrica sofreu um incêndio de grandes proporções, em Agosto de 1897, que destruiu o edifício quase na sua totalidade. Objecto de reconstrução posterior, sem qualquer afinidade com o uso para que fora criado, manteve a traça exterior, mas foi adaptado a novas funcionalidades no interior.

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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 17-18, 1939.

cm-lisboa.pt.

domingo, 25 de março de 2018

Ermida de Nossa Senhora de Monserrate

Diz-nos alguma coisa de saboroso esta Ermida de Nossa Senhora de Monserrate, nas Amoreiras. Encravada no vão do quinto arco do Aqueduto, logo a nascer na Casa da Água, com o seu corpo saliente do altar-mor caindo sobre a velha «Rua do Rato para Campolide», a Ermida evoca-nos um pedaço da vida setecentista lisboeta, e um qua-drinho animado do século XIX.


Erigiram a Ermida neste sítio, em 1768, os fabricantes da seda, que tiveram o Rei D. José por seu lado. Na gracilidade do seu recheio e decoração, na singularidade da sua forma oitavada, na humildade rural em que se envolve — a Ermida das Amoreiras é uma estampazinha antiga.

Ermida de Nossa Senhora de Monserrate |1938|
Praça e Jardim das Amoreiras (Jardim Marcelino de Mesquita, vd. nota)

A arborização do antigo Largo dos Fabricantes, com amoreiras (331 pés) fez-se em 1771, plantando o próprio Marquês de Pombal a primeira árvore, que dava ainda sombra em 1863.
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

Ela viu o Marquês de Pombal, ele próprio, em 1771, plantar a primeira amoreira das trezentas que engrinaldaram a praça; viu subir, em 1767, o primeiro fumo dos fornos da Fábrica da Louça, de Tomás Brunetto e Salvador Inácio; assistiu ao alvoroço popular quando correu água, pela primeira vez, no chafariz do Rato; seguiu, dia a dia, o retalhar de quintas, o abrir de ruas, o crescimento do bairro nascido de um sítio por influência das «reais manufacturas», e viu, numa manhã de Abril de 1851, chegar aqui, vinda dos Prazeres, a Feira das Amoreiras — a avó das feiras de Belém, de Alcântara e de Santos — com o seu arraial, os seus teatrinhos pitorescos, as suas figuras de cera, os «robertos» e os irmãos Dallot.

Ermida de Nossa Senhora de Monserrate. traseiras |1959|
Corpo saliente da Ermida, cachorrada e Cruz de azulejo e uma data: 1768
Rua da Amoreiras; Praça das Amoreiras
Fernando de Jesus Matias, 
in Lisboa de Antigamente

E viu acabarem a Real Fábrica das Sedas, a Fábrica da Louça, a Fábrica dos Pentes, irem-se embora as amoreiras todas, ir-se embora a Feira, irem-se embora os frades oratorianos de S. Filipe Néri e as freirinhas endiabradas do convento do «Rato». De tudo, o que a ingénua ermida das Amoreiras mais pena teve foi dos seus fabricantes da seda, devotos da Senhora de Monserrate e dos arraiais da Senhora Santana, aqueles operários de mãos finas que lhe legaram, a ela, o terreno sob o Arco em domínio perpétuo.
Ela ali está, voltada ao jardim pequenino de tílias, robínias e tamarinas, mostrando a quem passa pela Rua das Amoreiras a sua cruz suspensa de azulejos do Rato. O ajardinamento desta Praça é posterior à sua construção; no tempo velho apenas as amoreiras, e depois os ulmeiros alegravam o largo, que fora dos fabricantes da seda.

Fábrica das Sedas |1961|
Actual Museu Arpad Szènes-Vieira da Silva
Tv. Fábrica dos Pentes (esq.); Praça das Amoreiras
Arnaldo Madureira, 
in Lisboa de Antigamente

Interiormente, a Ermida de Monserrate é simpática, a-pesar-de pequena. É de forma oitavada, cortado o tecto a meio pelo coro posterior, que assenta em um arco de volta abatida. A Capela-Mor, além de uma teia, apoia-se sobre o corpo saliente da Ermida, que ressalta, amparado a uma cachorrada, para a Rua das Amoreiras, e no qual, exteriormente se marca, sob Cruz de azulejo, uma data: 1768. 

Ermida de Nossa Senhora de Monserrate, altar |1938|
Praça e Jardim das Amoreiras

Na capela-mor, além do altar onde se ostenta a imagem de N. Senhora do Monserrate, há mais dois altares; no corpo da Ermida existem também o de N. Senhora das Dores e o do Coração de Jesus, e ainda uma imagem do Senhor dos Passos. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
 

O corpo do pequeno templo é revestido de silhares de azulejos, muito belos, da Fábrica do Rato, constituindo sete painéis com legendas latinas. Na capela-mór, além doaltar onde se ostenta a imagem de N. Senhora do Monserrate, há mais dois altares; no corpo da Ermida existem também o de N. Senhora das Dores e o do Coração de Jesus, e ainda uma imagem do Senhor dos Passos. 
No tecto em apainelados convergentes está uma pintura de Pedro Alexandrino, que representa o orago; na parte que assenta sobre o arco da capela-mor vêem-se as armas de D. José. 

Praça das Amoreiras |Início séc. XX|
Círio das Amoreiras saindo da Ermida de Monserrate durante a procissão do Círio de Nossa Senhora da Atalaia.
Paulo Guedes, 
in Lisboa de Antigamente

N.B. O nome deste jardim é uma homenagem a Marcelino de Mesquita, dramaturgo, poeta e escritor. Este espaço encontra-se rodeado por habitações setecentistas, que se destinavam na maioria ao alojamento dos fabricantes de seda actual Museu Arpad Szènes-Vieira da Silva.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 110-111.
ibid, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 99-100, 1939.
cm-lisboa.pt.

domingo, 27 de setembro de 2015

Capela de N. Senhora do Monte Carmo no Palácio Faial

O muro, que ampara jardins, e o Palácio Faial que a ele se segue, são da Casa Palmela, cuja Duquesa é também Marquesa do Faial.
Estes terrenos todos para a nossa direita (nascente) até à Rua das Amoreiras pertenciam no século XVII à Quinta do Pé de Mu, confrontando com a cerca das freiras do Rato, quinta depois chamada do Fetal ou Feital. (...) Em 23 de Junho de 1890 adquiriu-os o Duque de Palmela, e datam dessa época, tal qual os vemos agora, o Palácio Faial e anexos.

Capela de N. Senhora do Monte Carmo no Palácio Faial |1958|
Rua do Sol ao Rato
Armando Serôdio, iin Lisboa de Antigamente

A Capela de N. Senhora do Monte Carmo, que aí vemos, foi edificada pela Duquesa de Palmela, D. Maria Luíza, em 1905, aproveitando algumas imagens e materiais sacros da capela do mesmo orago do palacete da Rua Formosa (desde 1892 propriedade de «O Século»), do Visconde da Lançada (Pina e Brederode, Duque de Palmela por seu casamento). Esta Ermida ostenta belos azulejos, que toda a revestem em altos silhares de três metros de altura, dando quadros bíblicos de bom desenho cerâmico do final de setecentos. No altar-mor está a Imagem de N. Senhora do Carmo; (...) É este um pequeno templo, bem diferenciado, no semblante, das velhas ermidinhas pobres ou palacianas de Lisboa.

Capela de N. Senhora do Monte Carmo no Palácio Faial |1958|
Rua do Sol ao Rato
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

No prédio que se segue à Capela, e também da mesma propriedade, habitou, e morreu a 18 de Junho de 1875, o Poeta António Feliciano de Castilho, 1.º Visconde de Castilho, pai do insigne escritor e investigador da «Lisboa Antiga». Aí tens uma lápide que atesta o facto. Falta dizer-te, Dilecto, que em Março deste ano de 1939 a Câmara Municipal adquiriu por 1.450 contos grande parte dos terrenos rústicos e urbanos desta Casa, a norte e por trás do Palácio (33.600 metros quadrados).»
(Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 68)

Capela de N. Senhora do Monte Carmo no Palácio Faial |1916|
Rua do Sol ao Rato
 Holstein Beck, in Lisboa de Antigamente

domingo, 16 de junho de 2024

Rua do Salitre, ao Rato

Rua do Salitre, artéria que em muitos anos precedeu o Terramoto, a qual como sabes, foi chamada Rua da Palmeira no troço que ainda subsiste, pois já disse que ela chegava a S. José. 


Até ao séc. XIX a Calçada do Salitre ainda guardava muito do seu passado rural — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , logo a começar pelo seu topónimo derivado das nitreiras das hortas dos frades Cartuxos e será após a construção da Avenida da Liberdade que, gradualmente, passará a ter antes a categoria de Rua. Este topónimo nasceu das nitreiras ou salitrais que os frades de São Bruno – conhecidos como Cartuxos ou Brunos – tinham nas suas hortas, nos terrenos que detinham nesta artéria, já que salitre é o nome vulgar do nitrato de potássio, um adubo. O Salitre ganhou ao topónimo anterior, do séc. XVI, que era Horta da Palmeira. 

Rua do Salitre, ao Rato |1908-05|
Prédio — já demolido — para abertura do troço final da Rua Alexandre Herculano (c. 1910)
e que fazia gaveto com a Rua São Filipe Neri. A linha do eléctrico seguia para a Rua da Escola Politécnica.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A Rua do Salitre cujo lado esquerdo constituía a orla exterior do fundo da cerca do Noviciado da Companhia de Jesus, depois Colégio dos Nobres, que vendeu os terrenos para edificações — foi sítio onde habitaram muitos lisboetas de destaque, entre eles Garrett.
Em cima corria o Vale Pereiro, do qual existe, em reminiscência, uma parcela da Rua com aquele dístico, e que leva do Salitre a Alexandre Herculano. No alto da Rua do Salitre, n.º 148 residiu de 1816 para 1817 o general Gomes Freire de Andrade, ali preso em 26 de Maio daquele último ano; uma lápide foi colocada na fachada em 20 de Outubro de 1917.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, 1939)

Largo do Rato e Rua do Salitre |c. 1900|
Salitre (  direita ) principia no Largo do Rato, e termina na Av. da Liberdade.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Durante o séc. XIX, em diversos documentos municipais, plantas, requerimentos ou licenças para construção ou obras em prédios esta artéria tanto é assinalada quer como Calçada quer como Rua, mesmo que na 2ª metade do século seja mais usado Rua, sendo exemplo maior dessa dupla grafia um processo de expropriação de 1881- para a abertura da Avenida da Liberdade- em que a planta do local de Ressano Garcia refere Calçada e no texto do Presidente José Gregório Rosa Araújo se menciona Rua. [cml]

sexta-feira, 17 de março de 2017

Avenida Álvares Cabral

«Considerando que foi por esta Camara deliberado construir o mais rapidamente possível a Avenida que vae ligar directamente o Largo do Rato com o da Estrella e que essa Avenida terá a denominação de Pedro Alvares Cabral; Considerando que com essa construcção o Largo do Rato será transformado n'uma das mais  bellas praças de Lisboa.»


Apesar desta decisão da vereação camarária, tomada em 1910, a abertura da actual Avenida Álvares Cabral só se viria a concretizar por volta de 1930. Até esta data, o acesso à Estrela — para aqueles que vinham do Largo do Rato — fazia-se pela Rua de Dom Dinis e pela Travessa das Terras de Santana e Rua de Santa Isabel, desembocando na alameda fronteira ao Liceu Pedro Nunes e à Escola João de Deus.

Avenida Álvares Cabral [1939]
Ao fundo, o Liceu Pedro Nunes (1906) e a Praça da Estrela; à direita, a Rua de Santa Isabel

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Desviemo-nos agora — sugere Norberto de Araújo —, pela Travessa de Santa Quitéria, cortada há uma dezena de anos [c. 1929/30] no seu troço central para abertura da Avenida Álvares Cabral, até esta nova e desafogada artéria, rasgada em terrenos adquiridos pelo Estado (para o Liceu [Pedro Nunes]) em 1906 e depois em parte cedidos à Câmara Municipal.

Avenida Álvares Cabral [195-]
Junto ao Jarim Cinema

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Avenida Álvares Cabral [195-]
À direita, a Travessa de Santa Quitéria; ao fundo, o Largo Rato

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
TORRES, João Romano, A Revolução Portuguesa, 1911.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p, 65, 1939.
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