Sunday, 26 March 2017

Real Fábrica das Sedas

Neste ângulo recto que fazem as Ruas da Escola e do Rato, e de todo ainda não desfigurado, existiu a célebre Real Fábrica das Sedas, cujas oficinas, secções, anexos e armazéns em parte aqui se situavam, em ligação pelo interior rústico com a Rua — que se rasga defronte de S. Mamede — ainda hoje chamada da Fábrica das Sedas.


A Real Fábrica das Sedas — relembra-nos Norberto de Araújofoi criada, com organização própria oficial, pelo Marquês de Pombal em 1757, sucedendo à Fábrica fundada, em tempos de D. João V, por Ricardo Godin, um industrial francês que primeiramente instalara o seu estabelecimento fabril na Fonte Santa, de onde transitou para o fundo da Rua de S. Bento e finalmente para o Rato; não foi feliz no empreendimento e já em 1750 o Estado deitara mão à sua fábrica. 
A Real Fábrica conheceu períodos de prosperidade, durante a administração pombalina sendo grande a sua influência na sumptuária portuguesa da época, fornecendo paços, palácios, conventos e igrejas, clientes que crivaram, por vezes, a Fábrica de dividas. 
Morto Pombal, a Fábrica decaiu, arrastando-se contudo até 1855, ano em que D. Maria II mandou vender tudo, edifícios, oficinas, teares, existência; uma parte foi ainda explorada por um industrial particular, e mais tarde multiplicaram-se mesmo os pequenos industriais da seda, nas Amoreiras, mas sem sinal de desafogo, havendo dessas fabriquetas ainda vestígios como veremos noutro passo.

Real Fábrica das Sedas [entre 1901 e 1908]
Rua da Escola Politécnica, antiga Rua direita da Fábrica das Sedas

Machado & Souza, in AML

Antes da criação de Real Fábrica estes terrenos por aqui, entre o Rato e a Rua da Imprensa Nacional (então Travessa do Pombal) até S. Bento faziam parte da Quinta do Morgado dos Soares [de Noronha] à Cotoviaa quinta de D. Rodrigo da primeira metade do século XVIIIe de que adeante te falarei.
Fez-se então a fábrica com suas dependências, vendidas no século passado como já te disse. Tudo foi depois parar às mãos de um Francisco Ferrari, de quem transitou para três filhas, duas das quais, que houveram a parte de um sobrinho, filho da outra irmã, casaram uma com o Visconde Silva Carvalho, outra com Guilherme Shindler; foi desta senhora que os imóveis da antiga Real Fábrica passaram para sua filha D. Lívia Ferrari Shindler de Castelo Branco, e desta para sua filha D. Maria Livia Shindler Castelo Branco viúva do estadista João Franco, actual [em 1939] proprietária de todas estas edificações, correspondentes à desaparecida Fábrica, quer as com frente para a Rua da Escola quer as com frente para o Rato.

Real Fábrica das Sedas [entre 1901 e 1908]
Rua da Escola Politécnica, antiga Rua direita da Fábrica das Sedas
Corpo central mais destacado e rematado por frontão triangular,
em cujo tímpano sobressai a pedra de armas de D. José I

Machado & Souza, in AML

Classificada como Imóvel de Interesse Público, esta é uma das mais importantes manufacturas de fundação joanina, constituindo um marco na história industrial portuguesa dos séculos XVIII e XIX. Com proposta apresentada pelo tecelão francês Robert Godin em 1727, a sua construção foi autorizada pela Resolução Real de 13 de Fevereiro de 1734. Construído no Rato, segundo o risco do arq. Carlos Mardel, o edifício ficou concluído em 1741.

Instalações dos trabalhadores da Real Fábrica das Sedas [1910]
Antiga
Rua da Fábrica das Sedas, desde 1968.Rua Maestro Pedro de Freitas Branco
Joshua Benoliel, in AML

Ocupando todo o quarteirão, a Fábrica desenvolve-se longitudinalmente com planta em L. De volumetria paralelepipédica uniforme, a sua fachada principal é composta por dois torreões avançados nos extremos ligados por duas alas recuadas a um corpo central mais destacado e rematado por frontão triangular, em cujo tímpano sobressai a pedra de armas de D. José I [vd. 2ª foto]. Estruturada em dois pisos, os panos murários surgem compartimentados em cinco corpos por pilastras e cunhais de cantaria, ritmados pelo rasgamento de 14 janelas em cada um dos registos. Tendo passado por vários proprietários desde o segundo quartel do séc. XIX, a fábrica sofreu um incêndio de grandes proporções, em Agosto de 1897, que destruiu o edifício quase na sua totalidade. Objecto de reconstrução posterior, sem qualquer afinidade com o uso para que fora criado, manteve a traça exterior, mas foi adaptado a novas funcionalidades no interior.

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 17-18)

(cm-lisboa.pt)

No comments:

Post a Comment

Web Analytics