domingo, 17 de julho de 2022

Atêrro da Bôa-Vista

Remolares, Cata-que-farás, Ribeira Nova, S. Paulo, Boa Vista, foram tudo praias ribeirinhas que acabaram por dar - na conquista do rio - o que principiou por se chamar genericamente o Aterro, designação extensiva que depois se formalizou em Avenida 24 de Julho». (Araújo: 1993)


Despediu-se da senhora Marquesa e dos netos, pôs o chapéu na cabeça e desceu a escada, irresoluto na direcção a dar à passeata. Ainda bem longe de decidido, chegou à porta na ocasião em que, puxado por muitas mulas, começava um americano a subir vagarosamente a rampa de Santos. Saiu o Marquês para a rua. Foi logo muito cumprimentado pelos cocheiros e moços do Pingalho, que no fronteiro pátio do Visconde de Asseca tinha carruagens de aluguer. Correspondeu civilmente à cortesia e, tomando à esquerda, dirigiu-se para o Atêrro, pensando que ainda havia gente bem criada e que o dia realmente estava muito ameno. Avista o americano; veio-lhe logo à ideia um passeio de carro. Era barato, e não fazia frio mesmo nenhum.
— Para onde irá êle?... .Ah! lá parou... j Olha! vai para Belêm...
Apeiam-se umas senhoras; tenho lugar.
(Braamcamp Freire: 1927)

Atêrro da Bôa Vista |c. 1895|
Actual Av. 24 de Julho, antiga Rua 24 de Julho: Rampa de Santos, actual Calçada Ribeiro Santos e Palácio Abrantes (dir.); carro americano.
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

Informa o autor das Peregrinações que se pode datar o Atêrro, com o possível rigor, a 1867, tendo-se as obras iniciado em 1858. A designação de Rua 24 de Julho é anterior à conclusão do Atêrro e o topónimo "24 de Julho" evoca a entrada em Lisboa das tropas do Duque da Terceira em 24 de Julho de 1833.

Atêrro da Bôa Vista |post. 1867 e ant. a 1872!
Actual Av. 24 de Julho, antes Rua 24 de Julho junto da Ribeira Nova.
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

Júlio de Castilho, que se faz acompanhar do fotógrafo Francesco Rocchini [vd. imagem acima], comunica-nos que «Lisboa toda, desde 1867, se acostumara com gosto ao desafogado terreiro marginal», o «mais belo dos passeios públicos», recordando que «a sociedade concorria ali, àquele salão enorme, a ver o Tejo, que é o amigo de nós todos, e a contemplar as magnificências da grande orquestra de tons luminosos com que o sol se despedia» até que, «anos depois, abriu-se a Avenida da Liberdade; e o Aterro... nem mais sequer lembrou.»
(JANEIRO, Maria João, Lisboa: histórias e memórias, pp. 130-132)
 
Atêrro da Bôa Vista |c. 1895|
Actual Av. 24 de Julho, antes Rua 24 de Julho; carros americanos.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 10 de julho de 2022

Rua de São Bernardo, 33

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, nas suas Peregrinações em Lisboa, o topónimo desta rua terá sido estabelecido em 1793, conforme se pode ler na seguinte passagem: «Esta Travessa de Santa Quitéria (1759), tal como a Rua de Santo Amaro, as Travessas de Santa Gertrudes (hoje Rua Teófilo Braga), de S. Plácido, de Santa Escolástica (hoje Rua dos Ferreiros), de Santo Ildefonso (todas datando de 1763), e a Rua de S. Bernardo, trinta anos mais moderna que as anteriores, foram talhadas na cerca do Convento de S. Bento; os nomes, postos pelos frades, são dos santos da sua Ordem».

Rua de São Bernardo, 33 [post. 1888]
O edifício, profundamente desfigurado, alberga actualmente a Embaixada do Reino Unido; antigo Parque Vacinogénico de Lisboa, sob a Inspecção do Instituto Central de Higiene. Foi Fundado em Janeiro de 1888.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. São Bernardo, um dos santos louvados pela Ordem de São Bento, passou também a topónimo numa das ruas construídas na antiga cerca do Convento de São Bento, que hoje reconhecemos como a artéria que liga a Calçada da Estrela à Avenida Álvares Cabral.

domingo, 3 de julho de 2022

Calçada do Lavra

Daqui, da Rua de Câmara Pestana — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , nasce, ou finda, a Calçada do Lavra, cujo elevador foi construído em Abril de 1884. Esta Calçada do Lavra chamava-se anteriormente de "Damião de Aguiar", pessoa importante do século XVI, desembargador e chanceler mor do Reino. Passou a chamar-se do Lavra ou do Lavre pela circunstância de, no edifício apalaçado, ao Largo da Anunciada, onde hoje está a Escola Nacional, ter morado o tesoureiro da Rainha Maria Francisca de Saboia, Manuel Lopes do Lavre, como, antes dele, morava o citado Damião de Aguiar . A Calçada acompanhou em seu nome, durante três séculos, a evolução da propriedade do palácio, mas fixou-se em Lavra.
Assim fosse sempre em Lisboa.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 38-39, 1938)

Calçada do Lavra [c. 1945]
Pozal, Fernando Martinez, in Lisboa de Antigamente
Calçada do Lavra [c. 1945]
Pozal, Fernando Martinez, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Rua Dom Duarte

Pelo edital da CML de 3 de Novembro de 1949, o troço da Rua dos Fanqueiros, compreendido entre a Praça da Figueira e a Rua da Palma, passou a denominar-se: Rua de Dom Duarte.

Dom Duarte, filho de D. João I, Mestre de Avis e de D. Filipa de Lencastre, nasceu em Viseu, a 31 de Outubro de 1391 e faleceu em Tomar, a 13 de Setembro de 1438. Foi o décimo primeiro rei de Portugal e o segundo da segunda dinastia tendo ascendido ao trono com a morte de seu pai em 1433.
Em relação à política interna promulgou a Lei Mental, medida de centralização que se destinava a defender o património da coroa. O seu curto reinado, de apenas cinco anos, ficou também marcado pela passagem do cabo Bojador por Gil Eanes, feito que permitiu uma mais rápida exploração da costa africana.
Com o apoio da sua mulher a rainha D. Leonor de Aragão e dos seus irmãos infantes D. Fernando a D. Henrique e a oposição dos irmãos infantes D. Pedro a D. João, lançou-se na política de conquistas em Marrocos, que se saldou pelo desastre militar de Tânger e pela morte de D. Fernando no cativeiro.

Rua Dom Duarte |195-|
Ao fundo nota-se a Rua da Palma; à dir., a extinta Rua Silva e Albuquerque; o sentido do trânsito foi alterado durante
o período em que tiveram lugar as demolições na Mouraria (para construção da Praça Martim Moniz).

Judah Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

domingo, 12 de junho de 2022

Rua do Açúcar, 16: Palácio Bettencourt / Pátio do Beirão

No início da Rua do Açucar, alinha-se um conjunto de habitações destinadas a operários. Destacam-se o Pátio do Beirão, nascido a partir do solar da antiga Quinta do Bettencourt. A Rua do Açúcar é um topónimo cuja data de atribuição se desconhece mas que será seguramente a partir do século XVI, já que a denominação deriva, como refere Ralph Delgado, de uma refinaria de açúcar existente nesta rua, num dos prédios colocados a seguir à segunda Quinta da Mitra. Esta indústria era pertencente, em 1763, a um súbdito inglês, Christian Smith que morava na Quinta do Bettencourt, e ainda existia em finais do século XVIII (quando integrava o morgadio do Esporão), como nos refere a obra Pelas Freguesia de Lisboa – Lisboa Oriental. [cm-lisboa.pt]

Rua do Açúcar, 16: Palácio Bettencourt / Pátio do Beirão [1967]
Antiga Direita do Açúcar
Palácio Bettencourt / Pátio do Beirão
Vasco Gouveia de Figueiredo, in Lisboa de Antigamente

Da refinaria não subsistem vestígios. Sucessivamente arrendada, a quinta acabou por ser ocupada por trabalhadores das fábricas, mantendo o portal setecentista como testemunho do seu passado nobre.

Rua do Açúcar, 16: Palácio Bettencourt / Pátio do Beirão [1967]
Antiga Direita do Açúcar
Palácio Bettencourt / Pátio do Beirão, portal setecentista
Vasco Gouveia de Figueiredo, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Quiosque da Rua da Palma

A Morte dos Quiosques
No vasto plano de remodelação citadina o camartelo municipal entendeu que devia demolir vestígios da antiga cidade. Procurou fazê-lo com bom senso. (...) Alguns, senão todos, de inestética memoria, lá foram ao garrote e deles existe hoje somente o sítio onde se ergueram, onde a concorrência heterogénea acampou durante muitos anos, gostando principalmente das suas libações.
(in O Notícias Ilustrado de 6 de Janeiro de 1929)

Quiosque da Rua da Palma [1929]
Ourivesaria Cunha; edifícios e arruamentos extintos aquando das demolições na Mouraria nas décadas de 1930-40.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 5 de junho de 2022

Rua de São João da Mata, 92

Quem só o olha de frente talvez nem se dê conta, mas, visto de lado, este prédio na Rua de São João da Mata, entre os bairros da Lapa e de Santos, em Lisboa, é espantosamente estreito. Actualmente, depois de outros terem sido demolidos, este, com o número de policia 92, está identificado pelo Gabinete de Estudos Olisiponenses como o prédio mais estreito da capital. Imaginar o interior, a organização das divisões e a disposição de mobiliário é um exercício com resultado inglório, a não ser que se use de muita criatividade, algo que, afinal de contas, foi conseguido pelos actuais proprietários, donos de uma marca de alojamento local.

Rua de São João da Mata, 92 [c. 1900]
O prédio mais estreito da cidade
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A fachada deste prédio mede 17 metros e a parede lateral direita não vai além do 1,65 metros, menos que a altura de um adulto médio. À esquerda, a parede é mais larga, visto que a fachada tardoz vai ganhando espaço ao terreno das traseiras, pertencente ao Instituto Hidrográfico. (jn DN)

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Rua de Buenos Aires

Eis-nos na Rua de Buenos Aires — diz Norberto de Araujo — , que nasce dos Navegantes e pela qual a linha de eléctrico até Garcia de Orta, continuando Buenos Aires até às terras que deram o nome ao Chafariz das Terras. Também esta artéria tem pouco que referir, pois não leva mais que oitenta anos (*), de seu começo mal edificada.==
(Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 49, 1938)

Rua de Buenos Aires [ant. 1895]
Francesco Rocchini, n Lisboa de Antigamente
(*) O autor escreve em 1938

Desconhece-se quando e porquê se fixou este topónimo na memória de Lisboa, apenas se sabendo, de acordo com Gomes de Brito, que era o “Sítio de Bonés Ares” tal como é referido na Relação universal de 1786 e mais tarde, surge também no Itinerário lisbonense de 1818 como «Rua de Buenos Ayres». 
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