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Friday, 9 May 2025

Largo do Calhariz

Calhariz (largo do) fica entre as ruas do Loreto, Chagas, Atalaya, Roza, Cruz de Pau, e calçadas da bica de Duarte Bello e Combro, freguezias da Encarnação 26 a 34, Santa Catharina A a 21, Mercês 22 a 25. 
Está n'este largo o palacio do Duque de Palmella [Palácio Calhariz-Palmela], que se torna digno de ser visto pelas bellas pinturas que contêem as salas. [Velloso: 1869]

Largo do Calhariz |1924-04|
Rua da Bica de Duarte Belo; Palácio Valada-Azambuja.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda no arquivo: «Greve dos padeiros em Abril de 1924. Uma 'bicha' numa padaria 'Aliança»
Nota(s): local da foto não está identificado no arquivo.

O Largo do Calhariz — diz Júlio de Castilho — toma o nome do antigo senhor do palácio [dos Sousas Calharizes], que era o primogénito destes Sousas, senhor da quinta célebre do Calhariz, perto de Azeitão. Chamavam-lhe a ele o Calhariz, como hoje se diria o Palmela, o Loulé, o Fronteira. Logo, vemos que essa denominação lisbonense da rua, ou largo, não passa além dos primeiros anos do século XVII. [Castilho: 1937]

Largo do Calhariz |1922-08-13|
Rua Luz SorianoPalácio Calhariz-PalmelaRua da Atalaia.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda no arquivo: «Um aspecto da Greve Geral em Lisboa»
Nota(s): local da foto não está identificado no arquivo.

Sunday, 12 May 2024

Rua Marechal Saldanha com a Rua do Almada

A Rua do Marechal Saldanha é um topónimo atribuído por edital de 31 de Dezembro de 1885 à antiga Rua da Cruz de Pao, e que assim se chamava por haver, dizem, no Alto de S.ta Catarina uma grande cruz de madeira, que servia de guia aos` navegantes até fora da barra.

Nesta artéria é homenageado o ilustre militar Duque de Saldanha (1790-1876), de seu nome João Carlos de Saldanha Oliveira e Daun que era neto materno do Marquês de Pombal. Notabilizou-se na luta contra as invasões francesas e nas guerras liberais tendo em 1833, sido nomeado por D. Pedro chefe do Estado-maior do Exército. Também se revelou como político tendo sido chefe de governo em 1835, 1846-47, 1851 e 1870.
Mais tarde, por deliberação camarária de 21 de Agosto de 1902, foi também homenageado com a Praça do Duque de Saldanha.

Rua Marechal Saldanha com a Rua do Almada |post. 1948|
Antiga da Cruz de Pau e Largo da Cruz de Pau
À dir. nota-se parte da fachada lateral do Palácio Valada-Azambuja na direcção da Calçada do Combro. 
Amadeu Ferrari, in Lisboa de Antigamente

Almada (Rua e Travessa do) — Há duas vias públicas desta denominação; uma no 3.º Bairro, freguesia de Santa Catarina [hoje Misericórdia]; outra no 2.º Bairro, freguesias de S. Julião, Conceição e Mártires [hoje Santa Maria Maior].
Quanto à origem do topónimo "Almada" as opiniões dos estudiosos dividem-se. Mestre Castilho refere que a Rua do Almada, ao Calhariz, comemora o nome do valente guerreiro, Álvaro Vaz d'Almada (Conde de Avranches), amigo dedicado e companheiro nas lides bélicas, do infante D. Pedro, duque de Coimbra, filho de el-rei D. João I, e mortos ambos cobardemente na batalha d'Alfarrobeira, próximo de Coimbra, em 20 de Maio de 1449. Os olisipógrafos Norberto de Araújo e Gomes de Brito refutam a opinião de Castilho e alegam que é Fernão Rodrigues de Almada que dá o seu apelido á rua e que foi senhor por estes sítios quinhentistas, ascendente dos Almadas-Carvalhais, provedores da Casa da Índia, que tiveram Palácio à Boa Vista  Conde-Barão).  
Como quere que seja — remata Gomes de Brito — no Arquivo da Câmara há prova de que em 1565 já esta rua se denominava «de Almada». Escolha o estimado leitor a que mais fundo lhe calhar.

Rua do Almada com a Rua Marechal Saldanha |c. 1900|
Antiga da Cruz de Pau e Largo da Cruz de Pau
Como quer que seja — remata Gomes de Brito — no Arquivo da Câmara há prova
de que  em 1565 já esta rua se denominava «de Almada»
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 69, 1939.
BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935.
CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antiga, 1885.

Friday, 11 December 2020

Largo do Calhariz

O Largo do Calhariz é um troço da seiscentista Estr. da Horta Navia, também denominada Estr. de Santos e este topónimo deriva da existência no local da residência dos Morgados do Calhariz, conforme relata Norberto Araújo:
Encontramo-nos na artéria conhecida em toda a Lisboa pelo "Calhariz", rua e sítio deste Título, e que tem origem no Palácio dos Sousas Calharizes, como diz o vulgo e como se encontra em livros antigos. 

Largo do Calhariz,  [séc. XIX]
Senhoras passeando junto ao palácio Calhariz-Palmela
 Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

É este edifício, à direita, com um pequeno jardim adjacente, e que ocupa todo o quarteirão confinado entre as Ruas do Calhariz, da Atalaia, Travessa das Mercês e Rua da Rosa.==

Largo do Calhariz [c. 1914]
Varinas; ao fundo a Cç. do Combro 
Charles Chusseau-Flaviens, in G.E.H

Sunday, 26 August 2018

Palácios do Calhariz: Palácio Sandomil

Já agora deixa-me apontar-te um curioso prédio — diz Norberto de Araújo — , este defronte do Palácio Palmela, que faz ângulo para a Rua das Chagas, pela qual tem suas entradas. 

Setecentista — é o que por aqui conserva o seu aspecto exterior mais antigo. Já existia quando do Terramoto, e sofreu dano, embora não fosse tomado por incêndio.


O Palácio Sandomil, que defronta os velhos palácios — os Calhariz-Palmela e Sobral — conserva melhor a sua definição primitiva: pertencendo, no início, aos Barros Cardoso, passou para a Misericórdia de Lisboa que, antes de 1755, o vendeu ao conde de Sandomil. Depois de 1755, foi possuído pela família Barreto e, depois, por Joaquim Pires, capitalista. É constituído por dois pavimentos com janelas de varanda no andar nobre (onde esteve instalado o «Club dos Cem à Hora»). Possui salas com tectos apainelados «de formoso sentido mitológico», obra provável de Pedro Alexandrino.

Palácio Sandomil (ou das Chagas) [c. 1960]
 Largo do Calhariz, 1-4; Rua das Chagas, 35-47
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Revestido de alguns panos de azulejos, e com pormenores interessantíssimos, o velho solar de setecentos pouco castigado de obras desfiguradoras, é um exemplar curioso, embora modesto de aparência exterior, das casas do Loreto do século XVIII — remata o olisipógrafo Norberto de Araújo.
__________________________________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, p.24, 1938.
RODRIGUES, Maria João Madeira, Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, vol. 5, p. 23, 1975.

Sunday, 27 May 2018

Calçada da Bica Pequena e Rua da Bica de Duarte Belo

A designação «Bica do Belo» — recorda-nos Norberto de Araújo — já existia no meado do século XVI (em 1554, pelo menos), como um sítio, que podia até não ser regularmente urbanizado, e se localizava à beira rio.
Um certo Duarte Belo, pessoa de situação ao que se supõe, dispunha por aqui- — Boa Vista —, em local que se chamava Portas do Pó, de umas casas e de um chão, no qual existia uma bica, mais tarde desviada uns metros para o alinhamento da Rua da Boa Vista; é a Bica dos Olhos a que adente me referirei.

Calçada da Bica Pequena [1915]
Tem início Rua de São Paulo e termina Rua da Bica de Duarte Belo;
Travessa do Cabral.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

 Nos tempos antigos eram muito mais latas as referências toponímicas locais, fosse onde fosse. O certo que à vertente das encostas entre Santa Catarina e as Chagas se passou a chamar Rua da Bica do Duarte Belo, por extensão.

Calçada da Bica Pequena [1945]
Tem início Rua de São Paulo e termina Rua da Bica de Duarte Belo
 Rua dos Cordoeiros e Largo de Santo Antoninho (dir.); Ascensor da Bica.
Martinez Pozal, Lisboa de Antigamente

Êste sítio da Bica corresponde a um vale de encosta, um como que desfiladeiro, cavado mais acentuadamente, por efeito de um desmoronamento de terras das encostas laterais. Esse cataclismo, localizado ao sítio, sucedeu às 11 da noite de 22 de Julho de 1597; foram destruídas nada menos de 110 casas, em três ruas. Precisamente vinte e cinco anos depois repetiram-se os desabamentos, mas em menor escala.

Rua da Bica do Belo [1915]
Tem início na Travessa do Cabral e termina no Largo do Calhariz (ao cimo); 
Travessa da Portuguesa.
Joshua Benoliel, Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 67, 1939.

Saturday, 13 May 2017

Estádio do Sport Lisboa e Benfica (actualizado)

O dia 1 de Dezembro de 1954 é a data que assinala um dos maiores feitos da história benfiquista  — a inauguração do Estádio do Sport Lisboa e Benfica, popularmente conhecido por Estádio da Luz.


Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.
("Eusébio"por Manuel Alegre)

A elaboração do projecto do "Novo Parque de Jogos" foi entregue ao arquitecto João Simões, antigo futebolista do Clube, nas categorias inferiores, entre 1925/26 e 1929/30, que teve a sabedoria de conceber um conjunto de recintos desportivos magnífico para o estádio principal e para os espaços desportivos envolventes, uma obra arquitectónica notável, que, apesar de concluída apenas 40 anos depois, seguiu as "linhas gerais" definidas em finais dos anos 40 por João Simões, o que enaltece a genialidade do projecto inicial.

Estádio da Luz [c. 1954]
Vista do campo de jogos. Benfica (S. Domingos) - terrenos à direita da Azinhaga da Fonte, que liga o Calhariz de Benfica ao Largo da Luz, em Carnide.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Estádio da Luz [Onze horas do dia 1.º de Dezembro de 1954]
 A mítica abertura de portas do antigo Estádio do Sport Lisboa e Benfica.
Museu Benfica - Cosme Damião, in Lisboa de Antigamente

Finalmente, às 11 horas do dia 1 de Dezembro de 1954, o emocionado líder do Clube, e maior responsável pela passagem do sonho à realidade, Joaquim Ferreira Bogalho, abre simbolicamente uma das portas de acesso ao Estádio, inaugurando um dos mais belos recintos desportivos do mundo. O Recinto viria a acompanhar o futuro crescimento desportivo e associativo do Clube. Originalmente com "dois anéis", sem iluminação e isolado, seria mais tarde dotado de torres de iluminação (1958), de um 3º anel construído em duas fases (1960 e 1985, permitindo aumentar a sua lotação para 70 000 e 120.000 pessoas, respectivamente) e de inúmeras infra-estruturas desportivas à sua volta. A 04/01/1987, por ocasião da 15.ª jornada do Campeonato Nacional de 1986/87, frente ao FC Porto, o Estádio da Luz registaria a maior assistência de sempre: 135 000 pessoas!

Estádio da Luz [1962]
Perspectiva tomada da  2-ª Circular (em construção)
Já dotado de torres de iluminação (1958) e de um 3º anel (1.ª fase).

João Goulart, in Lisboa de Antigamente
Complexo do Estádio do Sport Lisboa e Benfica, mostrando os arredores e Segunda Circular  |c. 1965|
Postal ilustrado fotográfico

Bibliografia
(slbenfica.pt)

Wednesday, 15 March 2017

Palácio Marim Olhão

O Palácio Olhão, foi solar nobre dos Condes de Castro Marim e dos Marqueses de Olhão (século XVIII). Em 1799 ali se instalou o Correio Geral do reino [ou Correio Velho], voltando depois aos antigos donos já neste século. Ocupa todo um quarteirão entre a Travessa das Mercês e a Rua do Século.
É uma grande construção à escala não nacional, dos fins do século XVIII e simultaneamente sintetiza uma influência italiana e uma influência francesa. Qualquer das três fachadas existentes, Calçada do Combro, Rua do Século, e a que dá para um jardim na Travessa das Mercês, incompleta hoje e parcialmente destruída, testemunham um sentido arquitectónico invulgar.


Vejamos agora, Dilecto, o último dos edifícios palacianos que ficam na nossa passagem pelo Calhariz: é este grande casarão à direita, já no começo da Calçada do Combro, o mais miserável de todos, mas também o mais fiel do bairro.

Palácio Marim Olhão ou do Correio Velho [1919]
Calçada do Combro, 38; Rua de O Século, 2-2E; Travessa das Mercês, 19-31
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

 

Este decrépito Palácio, hoje [1938] pouco mais do que um pardieiro imundo, é ainda rico de documentação arquitectónica.
Solar nobre dos Condes de Castro Marim e dos Marqueses de Olhão — um dos quais foi monteiro-mor da Côrte — aqui se instalou o Correio Geral, quando estes serviços públicos passaram para o Estado, vindos do sítio da Boa Morte para onde haviam transitado (1799) do tradicional edifício do «Correio Velho» às Pedras Negras.
Foi depois proprietário da casa, já no começo do século actual, D. José da Cunha, descendente dos primeiros titulares.
Aqui estiveram instaladas uma Conservatória do Registo Civil, no começo da República, e, depois, a Confederação Geral do Trabalho, o jornal «A Batalha» [vd. na 1ª imagem], as «Juventudes Monárquicas» e, em velhos tempos, com entrada pela Travessa das Mercês, a famosa «Revolução de Setembro», do grande jornalista Rodrigues Sampaio, além de outros jornais, em épocas mais recentes. (Este jornal, com várias índoles e direcções, e em diferentes locais, existiu de 22 de Junho de 1840 a 23 de Março de 1892; cinquenta e um anos de vida jornalística não é vulgar, e por isso apomos aqui esta nota).
O casarão palaciano é hoje [1938] moradia de famílias pobres, e aqui tem sua sede um sindicato da Companhia Carris.

Palácio Marim Olhão ou do Correio Velho [1919]
Calçada do Combro, 38Rua de O Século, 2-2E; Travessa das Mercês, 19-31
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Sigamos a sugestão de Norberto de Araújo e «entremos uns momentos»:  
O grande átrio é nobre, de um nobre arruinado como depois de um abalo de terra. Adivinham-se as arcadas entaipadas mas bem desenhadas na volta inteira. E contempla este arco do portal de entrada [vd. 3ª foto], largo, vistoso, assente sobre duas belas colunas de maneira italiana. [...]
As duas fachadas, em ângulo do edifício, que olham para este pátio interior, e correspondentes aos corpos da Rua do Século e da Calçada do Combro [vd. 2ª foto]são nobilíssimas, como as da frente principal; nelas se rasgam janelas e varandas, de soberbos pormenores de arquitectura. Mas tudo isto parece seguro por arames, e faz pena ver. [...]
Eu já te disse, Dilecto: acabam assim os palácios, ao mesmo tempo que, pela força do destino e pela natural evolução das sociedades, se extinguem os títulos de nobreza, que não a fidalguia, pois esta, apesar da dissolução de costumes, ainda logra manter-se em muitas famílias e em indivíduos, já pelo aprumo, já pelo carácter.

Palácio Marim Olhão ou do Correio Velho, átrio da escadaria [c. 1952]
Calçada do Combro, 38; Rua de O Século, 2-2E; Travessa das Mercês, 19-31
Salvador de Almeida Fernandes,  in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, vol. V, p. 63, 1973.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 27-28, 1938.

Saturday, 26 November 2016

Palácios do Calhariz: Palácio Calhariz-Palmela e Palácio Sobral

O Largo do Calhariz é um troço da seiscentista Estra da Horta Navia, também denominada Estrada de Santos e este topónimo deriva da existência no local da residência dos Morgados do Calhariz, conforme relata Norberto Araújo:

Encontramo-nos na artéria conhecida em tôda a Lisboa pelo «Calhariz», rua e sítio dêste título, e que tem origem no Palácio dos «Sousas Calharizes», como diz o vulgo e como se encontra em livros antigos. É este edifício, à direita, com um pequeno jardim adjacente, e que ocupa todo o quarteirão confinado entre as Ruas do Calhariz, da Atalaia, Travessa das Mercês e Rua da Rosa.
Oferece, como vês, um certo ar nobre, de transição do estilo solarengo velho para o tipo palaciano do século XVIII. É elegante o portão ladeado por duas colunas dóricas, cujo entablamento suporta a varanda de balaústres, única sacada do primeiro andar. As sete janelas de sacada de cornija saliente do andar nobre, que é o segundo, dão ao prédio uma harmonia e distinção invulgares aos edifícios desta construção. O pequeno jardim é gracioso e foi construído depois de edificado o palácio, ocupando o lugar de uma serventia que daqui saía, e que erra o prolongamento da Rua da Trombeta, que ainda se continua nas traseiras até a Fiéis de Deus, serventia vendida pela Câmara de Lisboa a D. Pedro de Sousa Holstein. por um conto de réis...

Palácio Calhariz-Palmela [ant. 1900]
Rua da Atalaia (dir.); Largo do CalharizRua da Rosa (ao fundo à dir.)
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

O palácio foi mandado erigir em 1703 pelo Morgado do Calhariz, D. Francisco de Sousa (1631- 1711). O edifício, além de moradia ducal — relembra Norberto de Araújo (1938) — tem sido de tudo um pouco: aqui esteve a Academia Real de Fortificações que precedeu a Escola do Exército e Escola Militar, em 1796 e em 1811, a Câmara Eclesiástica até 1830, a Contadoria Geral das Tropas, o Ministério dos Estrangeiros (em 1882), a Liga Naval até há poucos anos [o autor escreve em 1938], etc., ocupando quaisquer destas instituições parte do edifício, ou, por vezes, talvez todo.
Festas deslumbrantes viu o Palácio desenrolar-se nos salões, cujo recheio de arte era precioso.

Palácio Calhariz-Palmela [1929]
Rua da Atalaia (dir.); Largo do Calhariz; Rua da Rosa (ao fundo à dir.)
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Sofreu restauros e ampliações em 1843-44 dirigidas pelos artistas italianos Rambois e Cinatti,  e uma anexação ao Palácio Sobral em 1956, destruindo as obras oitocentistas (jardim e pavilhão), prolongando o corpo principal do edifício até à Rua da Atalaia, depois de em 1947 os Morgados do Calhariz, entretanto criados Duques de Palmela, o terem vendido à Caixa Geral de Depósitos para lhe servir de sede. Em 1969 está em curso a obra do passadiço sobre arco (sobre a Rua da Rosa) de ligação entre os dois palácios.
Sofreu obras de recuperação em 1997 com projecto dos arqs. Dante Macedo, Conceição Macedo e José Afonso, para albergar a Companhia de Seguros Fidelidade, o que lhe valeu a atribuição do Prémio Eugénio dos Santos referente a esse ano.

Palácio Calhariz-Palmela onde está a Caixa Geral de Depósitos,  e, ao fundo, o Palácio Sobral [1966]
Largo do Calhariz; Rua da Atalaia; Travessa das Mercês; Rua da Rosa; Rua Luz Soriano
Armando Serôdio, 
in Lisboa de Antigamente

Acerca da história do primitivo Palácio Sobral [vd. 4ª imagem] diz Norberto de Araújo: «Reconstruído modernamente — fora levantado entre 1770 e 1780, por Joaquim Inácio da Cruz Sobral, de quem descenderam os Condes de Sobral, que, para erguer o palácio, comprou o velho prédio aqui existente, pertencente a Lázaro Leitão Aranha, rico e erudito Principal da Sé, que nele fez reunir a famosa Arcádia em 1764.»
Outro ilustre olisipógrafo — mestre Júlio Castilho — apresenta uma descrição pormenorizada do antigo palácio do século XVIII na sua Lisboa Antiga (1903):
Formava o palácio um vasto paralelogramo, com a frente principal de 130 palmos (uns 29 metros e tanto) sobre a Rua Direita, ou Largo do Calhariz, a oposta sobre a Travessa das Mercês, a ocidental sobre a Rua do Carvalho [hoje Luz Soriano], e a oriental sobre a [Rua] da Rosa.

Palácio Calhariz-Palmela [post. 1901]
 Largo do Calhariz; Rua da Atalaia (ao fundo à dir.); nota para os elegantes mirantes.
Alberto Carlos Lima, 
in Lisboa de Antigamente

A fachada sobre o Calhariz era dividida em três corpos, sendo os laterais separados do central por pilastras correspondentes ás dos cunhais, e terminando ambos em feitio de torres sobrepujadas de mirantes elegantíssimos.
No corpo central dois grandes portões de entrada ornamentados, e por cima duas filas de sacadas, sendo mais nobres e altas as do andar superior.
Na aresta dos dois cunhais viam-se as Armas, que eram: escudo cortado; o 1.° de azul, cinco estreitas de seis pontas, de oiro, postas em cruz; o 2.º de prata ondado de azul; bordadura de vermelho, com as palavras Nomen honorque meis em letras de oiro. Elmo; timbre: cão de prata com coleira de vermelho, e chave de oiro na boca.
Os portões abriam para duas vastas lojas em forma de corredores, que ambas desembocavam no grande pátio, onde as carruagens davam volta, entrando por um portão e saindo pelo outro.
Ao fundo desse pátio, no interior da parte do edifício que deitava para as Mercês, ficava a entrada monumental de quatro degraus conduzindo aos vinte e dois da escadaria, bifurcada para a direita e para a esquerda em dois outros lanços, que levavam ao andar nobre, onde eram as salas.

Gravura do Palácio Sobral, no Calhariz [séc. XVIII]
in Lisboa Antiga (1903)

Em 1887, o Palácio Sobral é adquirido «por 50 contos e pico» pelo Estado para instalação da Caixa Geral de Depósitos, e de imediato, se iniciam obras de recuperação e remodelação. Em 1969, depois de uma reconstrução total, procede-se à uniformização das fachadas e efectua-se a ligação por arco dos dois paláciosCalhariz-Palmela e Sobralhoje Edifício da Caixa Geral de Depósitos, CGD, do Calhariz.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 22-26, 1938.
 Lisboa antiga, Júlio de Castilho, 1903, vol. III, p. 26.
 cm-lisboa.pt/toponimia; monumentos.pt.

Friday, 22 July 2016

Ascensor da Bica

O Ascensor da Bica, também conhecido por “Elevador da Bica”fazendo a ligação entre a Rua de S. Paulo e o Largo do Calhariz (Calçada da Bica Pequena; Largo de Santo Antoninho; Rua de São Paulo)é um dos elementos mais pitorescos da cidade de Lisboa, atravessando o popular Bairro da Bica. Construído pela Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa, sob projecto do Eng.º Mesnier du Ponsard, foi inaugurado em 1892.

Ascensor da Bica [1933]
Os novos elevadores.
  A Rua (Calçada) da  da Bica constitem o eixo central do bairro da Bica, cujo topónimo procede de uma área abundante em água distribuída por fontes e chafarizes.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Trata-se de um equipamento de transporte urbano constituído por 2 carros, ligados por um cabo subterrâneo, que sobem e descem alternada e simultaneamente ao longo de duas vias paralelas de carris de ferro. Movido inicialmente a água e pelo sistema de tramway-cab, passou da locomoção por contrapeso de água à locomoção a vapor, em 1896, conhecendo a sua total electrificação, somente, em 1914. O Ascensor da Bica e o seu meio urbano envolvente estão classificados como Monumento Nacional.

Ascensor da Bica [1909]
O velho ascensor junto ao Largo do Calhariz.
Joshua Benoliel, in Illustração Portugueza

No 10 de Junho de 1882, na sala das sessões da Câmara Municipal de Lisboa, o presidente José Gregório da Rosa Araújo, leu um ofício do engenheiro-chefe da repartição técnica, Frederico Ressano Garcia, em que se indicavam as condições a impor para se conceder, a Raul Mesnier de Ponsard, engenheiro distinto, «licença para o estabelecimento e exploração de diversos planos inclinados no interior da cidade». A vereação concordou e resolveu lavrar o termo da concessão.

Ascensor da Bica [c. 1923]
Calçada da Bica Pequena; Largo de Santo Antoninho
Fotografia anónima, in Lisboa de Antigamente

Na Bica, o assentamento da linha começou em dia de finados deste mesmo ano [1890]. Durante meses houve dificuldades e atritos com a Câmara; umas pela estreiteza e diferentes declives da rua e os outros pela construção do colector de esgotos, atrasaram muito os trabalhos; em fins de Maio, um director, em telegrama a Mesnier, dizia : «Estou em braza»; não admira: era Verão ...
Finalmente, a vistoria foi requerida em Março de 1892; e a inauguração fez-se numa terça-feira, véspera de São Pedro. Cada viagem custava : 1 vintém para cima e 10 réis para baixo. Os bancos dos carros eram colocados «em plateia» e pensava-se instalar um restaurante à entrada pela Rua de S. Paulo.

Ascensor da Bica [1945]
Calçada da Bica Pequena; Largo de Santo Antoninho (Escadinhas)
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Depois de, em 1916, se ter dado um grave acidente na Bica, vindo um carro pela linha abaixo, em grande velocidade, romper o guarda-vento de S. Paulo e atravessar a rua, este elevador esteve anos sem funcionar. Em 1923, o senado municipal convida a empresa a pô-lo de novo em movimento. A direcção ainda tentou dissuadi-lo, alegando que durante muitos anos tinha conservado o elevador em circulação, apesar do prejuízo que sofria; mas a exploração dele era muito perigosa por ser a rua muito estreita e sempre cheia de crianças.
«De resto», acrescentava a Ascensores, «o elevador da Bica aproveita a tão diminuto número de passageiros que é preferível melhorar as condições de viação de outras linhas». Falta de previsão: a «Bica», em 1952, transportou nada menos que 1 milhão e 597 mil passageiros. [1]

Ascensor da Bica [1963]
Rua de S. Paulo
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

[1] Olisipo: boletim do grupo «Amigos de Lisboa", 1954.

Wednesday, 30 December 2015

Estr. de Benfica que foi de Palhavã

Estr. de Benfica, ou de Palhavã, como se pode constatar na placa toponímica no muro do Parque José Maria Eugénio, hoje Fundação Calouste Gulbenkian na Rua Doutor Nicolau de Bettencourt, que era um troço da Estr. de Benfica, compreendido entre o Largo de S. Sebastião da Pedreira e a Praça de Espanha.

Estr. de Benfica, ou de Palhavã [1946]
Actual Rua Doutor Nicolau de Bettencourt, junto à Gulbenkian [Inundações de 1946]

Ferreira da Cunha,
in Lisboa de Antigamente
Estr. de Benfica, ou de Palhavã [1946]
Actual Rua Doutor Nicolau de Bettencourt; Av. António Augusto de Aguiar e Palácio Palhavã. Os muros do parque José Maria Eugénio [de Almeida] (dir.) que foram demolidos para prolongamento da Praça de Espanha.

Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

De acordo com a entrada BENFICA (Sítio de ), no Dicionário de História de Lisboa (Lisboa: Carlos Quintas & Associados - Consultores, Lda., 1994), « Benfica surge como aldeia desde o séc. XIII, em redor da igreja primitiva de N. S. do Amparo. Próximo do actual Sete Rios, instalaram-se em 1399 os dominicanos, nos paços reais doados pelo Rei D. João I. Havia, assim, como que dois pólos na freguesia de Benfica e, para distinguir a zona dos paços reais e depois do convento dominicano, esta vai surgir referida como Benfica-a-Nova, ou Benfica de Baixo. O crescente povoamento da região ao longo dos tempos deu origem ao aparecimento de novos lugares: Calhariz no séc. XIV, Cruz da Pedra no séc. XVI e, entre estes dois pontos da espinha dorsal que era a Estrada de Benfica, surgiram mais tarde outros núcleos». (cml-lisboa.pt)

Rua Doutor Nicolau de Bettencourt, antiga Estr. de Benfica, ou de Palhavã [1957]
À direita, o muro do parque da Fundação Calouste Gulbenkian; ao fundo, a Praça de Espanha.
Judah Benoliel,
in Lisboa de Antigamente

Saturday, 26 December 2015

Palácio dos Duques de Palmela, ao Rato

O Palácio Palmela, da  Rua da  Escola Politécnica, ou  do  Rato — como é  mais conhecido — apresenta um  semblante enobrecido pelos restauros do século XIX, coisa alguma mostrando do aspecto primitivo que  deve ter  tido no final do século XVIII. O Palácio teve aura aristocrática e mundana nos meados da  segunda metade do  século XIX, mormente desde que foi  restaurado em 1865, e  até  quase ao  final do  século passado. Pode consi­derar-se pelo seu  precioso recheio artístico — o de  maior relevo em  Lisboa — um verdadeiro museu. [ARAÚJO: 1952]

 
Edifício grandioso, de finais do século XVIII, foi projectado em 1792 pelo arqº Manuel Caetano de Sousa. Adquirido em 1823 pelo primeiro conde da Póvoa, Henrique Teixeira de Sampaio, que encarrega a arqº Luigi Chiari de efectuar uma campanha de obras. Dessa fase, resulta o actual aspecto da construção, bem como a capela e a escadaria nobre. Em 1837, por ocasião do casamento de D. Maria de Sousa, irmã do proprietário, com o filho do duque de Palmela, D. Domingos de Sousa Holstein, é despoletada uma nova campanha de obras, centrada na consolidação do andar superior.

Palácio dos Duques de Palmela [c. 1901]
Rua da Escola Politécnica, 126; ao fundo o Largo do Rato, vendo-se a Calçada Bento da Rocha Cabral
A  Fachada Principal é constituída por um  corpo único, com quatro pavimentos, revestidos de  cantaria o  andar térreo e  o primeiro andar, ou  sobreloja, e de  már­more rosa da Arrábida (1902) o  andar no­bre  e  o superior.
Fotógrafo não identificado, in AML

Nos  Jardins vêem-se também bustos e peças de  escultura ornamentais. O Pavilhão Escultórico no jardim (foto abaixo), concebido pelo escultor francês A. Calmels em 1902, assumiu um papel importante na ambiência artístico-criativa da excelente escultora que foi D. Maria de Sousa Holstein, 3ª duquesa de Palmela

Palácio dos Duques de Palmela, jardins [10 de Fevereiro de 1927]
Pavilhão Escultórico no jardim, atingido na sequência da Revolta de Fevereiro de 1927
Fotógrafo não identificado, in AML

A fachada principal, virada a Oeste, compõe-se de um corpo único, onde uma cornija saliente marca a passagem para o último piso. Rasgam-se ao longo desta fachada, janelas de secção rectangular, que ao nível do terceiro e quarto piso (ao centro) são percorridas por varandas com gradeamento em ferro forjado.

Palácio dos Duques de Palmela [10 de Fevereiro de 1927]
Paredes e as árvores caídas na sequência da Revolta de Fevereiro de 1927
Fotógrafo não identificado, in AML

O Palácio sofreu um violento incêndio, em 1981, que destruiu completamente a capela e provocou graves danos no edifício. Os trabalhos de recuperação conseguiram reconstruir o edifício, perdendo-se, no entanto, valiosas obras de arte e muitos dos trabalhos de marcenaria. O edifício e os jardins sofreram danos elevados durante a  Revolta de Fevereiro de 1927, devido ao impacto causado por granadas de artilharia (2ª e 3ª imagem).

Palácio dos Duques de Palmela [c. 1952]
O  portão principal, n.º 126 (reconstru­ção  do começo do actual século), em  altura que  atinge o  andar nobre, emoldurado de cantaria, sobrepujado de  arquivolta, rema­tada por pedra de  armas dos Sousas de Arronches (as  que usavam os  Sousas do Calhariz); ladeando o portão dois hermes monumentais, representando um  o  «Trabalho», outro a «Força moral» (Anatole Calmeis-1902).
Salvador de Almeida Fernandes, in AML

A ladear a porta principal encontramos duas esculturas alegóricas (1902), aludindo à Força Mental e ao Trabalho, da autoria de Anatole Calmels, (ainda não existentes em 1901, como comprova a 1ª imagem) sendo o remate da entrada coroado por um frontão curvo com as armas dos duques de Palmela dos Sousas de Arronches (as que usavam os Sousas do Calhariz). Actualmente encontra-se aqui instalada a Procuradoria Geral da República.

Palácio dos Duques de Palmela [c. 1945]
Rua da Escola Politécnica, ao fundo o Largo do Rato, vendo-se a Calçada Bento da Rocha Cabral
Os muros dos jardins (reconstrução de 1902), ladeando pelo Sul e Norte a frente do corpo do palácio, sobrepujado de ba­laustrada de cantaria (que substituiu a an­tecedente guarda da gradaria) e adornados de vasos também de cantaria (no muro do lado Sul situa-se uma porta, emoldurada de cantaria simples, que dá acesso aos jardins, e sobrepujada pelo brasão do armas).
Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1952.
DGPC.

Tuesday, 21 July 2015

Palácio Valada-Azambuja

Aí temos, Dilecto, ainda no Calhariz, esquina da Rua Marechal Saldanha — antiga da Cruz de Pau — este palácio, há poucos anos reedificado, e onde esteve instalado o jornal A Lucta. É este, seguramente, o monumento urbano que mais atrás recua na história do sítio.


Para quem se interessa pela história destes velhos palácios e para melhor perceber o longo e intrincado historial deste solar dos Almadas e dos Valadas, vale a pena a leitura e a descrição  detalhada feita pelo ilustre olisipógrafo Norberto de Araújo.

Aqui se erguiam no século xv, tempo de D. Afonso V, as casas e quinta de D. Álvaro Vaz de Almada, o famoso Conde de Avranches, morto com o Infante D. Pedro, «o Regente», na triste batalha de Alfarrobeira. Logo aos herdeiros de Avranches foram confiscados os bens deste sítio, e doados a Álvaro Pires de Távora, em Agosto de 1449; foi este fidalgo quem aqui fez levantar um novo palácio sobre velhas casas. Estes Távoras foram ascendentes dos Menezes, Tarocas e Castros, cujas armas campeavam num brasão, que existia sobre o portão principal, enfrentando o Largo actual do Calhariz. Por ocasião do Terramoto, o Palácio, que certamente beneficiara de obras e ampliações no decorrer de três séculos, ruiu estrondosamente e, sob os escombros, morreu o Embaixador de Espanha que nele morava. Mais obras recebeu o arruinado edifício, feitas por um dos Menezes, ascendente de D. Francisco de Menezes da Silveira e Castro, 1.º Conde da Caparica, e, em 1813, feito Marquês de Valada, e que no seu palácio habitava no começo do século passado [XIX]. Antes, em 1791, morava aqui o Marquês de Pombal, Henrique, que era casado com uma Menezes , filha de D. José. É ainda célebre «o coche do Marquês de Valada» , D. José de Menezes, como notáveis foram as recepções na sua casa e a sua vida envolvida em fausto.

Palácio Valada-Azambuja [séc. XIX]
Largo do Calhariz, 15-19; Rua da Bica Duarte Belo, 71-81; Rua Marechal Saldanha, 30-40;
Ascensor da Bica
Alberto Carlos Lima, in A.M.L.

Em 1867, era proprietário de direito deste edifício D. Francisco de Menezes, Conde de Caparica, de menor idade, e administradores e usufrutuários seus pais D. José de Menezes Silveira e Castro e D. Maria Isabel de Bragança, marqueses de Valada.
Em Janeiro desse ano, precedendo autorização do Conselho de família o palácio foi vendido por 23 contos e 500 mil réis ao conselheiro Francisco José da Silva Torre que em 1874 remiu o foro devido ao Hospital de S. José, por 48$523. 
Este Silva Torre: tinha uma enteada, casada com um Conde de Azambuja, e foi esta senhora que, depois, herdou a propriedade. Desta data em diante começou o velho solar dos Almadas e dos Valadas a ser conhecido por «Palácio Azambuja».

Palácio Valada-Azambuja [1968]
Largo do Calhariz, 15-19; Rua da Bica Duarte Belo, 71-81; Rua Marechal Saldanha, 30-40
Armando Serôdio, in A.M.L.

Em 1922, D. José de Melo, da família Azambuja, vendeu o edifício ao comerciante e antiquário Sr. Manuel Henriques de Carvalho. Já no edifício estava instalado o jornal A Lucta, em cujas salas tantos dramas políticos se conceberam. Em 1925, o proprietário mandou encurtar o átrio nobre para abrir estabelecimentos comerciais, colocando nas paredes do vestíbulo belos panos de azulejos — estes que vês — que haviam pertencido a um palácio da vila de Almada, única afinidade de procedência que eles têm com o primitivo solar dos Almada-Avranches do século XV, e adornando um pequeno pátio, à direita, com dois registos de azulejos, um datado de 1760, e que estavam numa dependência do edifício.
Em 1936, fizeram-se novas obras no antigo Palácio Azambuja (cuja frontaria ainda diz alguma coisa) respeitando-se contudo alguns pormenores interiores, e construindo-se uma Sala onde era o Jardim de  Inverno. Desapareceram as salas da Lucta e do Centro Nacionalista, e  instalaram-se o 7.º, 8.° e 9.º Juízos Criminais da Comarca de Lisboa, e uma repartição de Registo Civil. Os inquilinos multiplicaram-se.

Palácio Valada-Azambuja [1936-03-19]
Largo do Calhariz, 15-19; Rua da Bica Duarte Belo, 71-81; Rua Marechal Saldanha, 30-40
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

A Travessa Rua do Almada que aqui corre paralela à face lateral do velho Palácio, não deriva seu nome — como Júlio de Castilho supôs — do solar de D. Álvaro Vaz de Almada (Conde de Avranches), mas de um Fernão Rodrigues de Almada, homem abastado, que no meado do século de quinhentos aqui morava (Informação generosa do Sr. Luiz Pastor de Macedo; veja-se «Livro de Lançamento e serviço que a cidade de Lisboa fez a El-Rei D. João III, no ano de 1565», fol. 374, 375 e 394).

Do antigo jornal republicano de Brito Camacho, das suas tertúlias políticas e literárias, das suas congeminações conspiratórias (Sidónio Pais aqui urdiu discretamente a sua conjura de 1917) não resta mais do que a memória: «o palácio da Lucta».
Não vale a pena subirmos. Basta que observemos a fachada que olha para a Rua Marechal Saldanha [vd. imagem acima], respeitada pelas obras do século XIV e do presente, oferecendo ainda um semblante muito aproximado da arquitectura civil banalíssima posterior ao Terramoto.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 25-26, 1939)

Palácio Valada-Azambuja [1960]
Largo do Calhariz, 15-19; Rua da Bica Duarte Belo, 71-81; Rua Marechal Saldanha, 30-40
 Arnaldo Madureira, in A.M.L.

No seu interior são de destacar: o silhar de azulejos azuis e brancos, setecentistas, figurando cenas galantes, localizado no átrio de entrada; a decoração com estuques levemente relevados da escadaria de mármore; e os dois registos azulejares, figurando S. Francisco e S. Marçal, do pátio interior.

N.B. De espaço residencial converteu-se em espaço comercial, de serviços e cultural, acolhendo inclusivamente a Biblioteca Municipal Camões.

 
 
 Painel de azulejos com a imagem
de São Francisco de Borja


Painel de azulejos com a imagem
de São Marçal
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