Sunday, 29 September 2019

Beco do Maquinez

Vale a pena olhares êste Beco do Maquinez — diz o ilustre Norberto de Araújo — , que desce à direita [vindo do Beco da Lapa]. Repara a curiosidade do arco, do cunhal que o ampara, do enfiamento estreito em escadinhas, que morrem na Rua Jardim do Tabaco. Aquêle «Maquinez» parece, segundo um escritor olisiponense (*), ser corruptela fácil de «Mequinez», alcunha de Gaspar da Costa Ataíde, um general do mar, de D. Pedro II; não vejo lá grande justificação na conjectura, mas adeante, que afinal o interêsse desta anotação é pequeno.

Beco do Maquinez [1944]
Martinez Pozal, in AML

Neste beco, na porta n.° 10 [vd. 2ª foto], ostenta-se um simples e delicioso registo de azulejos, de guarnição policromada, que dá Nossa Senhora da Nazaré, com a representação do veado atraindo o cavaleiro para o abismo  — talvez a única figuração dêste tipo em Lisboa — , S. Marçal e S. Francisco.

(*) Gomes de Brito, Ruas de Lisboa: notas para a história das vias públicas lisbonenses

Beco do Maquinez [1944]
Registo de santos representando o milagre de Nossa Senhora da Nazaré, tendo à esquerda São Marçal e, à dir-, São Francisco
Eduardo Portugal, in AML

Beco do Maquinez [194-]
Perspectiva tomada da Rua do Jardim do Tabaco
Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 99, 1939.

Friday, 27 September 2019

Casa das 11 Portas

Onze portas? — perguntará o leitor. Mas onde, se eu só conto 10? Pois bem, também nós. Todavia, ao virarmos a esquina (à esq.), aí está ela, a 11ª porta, no nº. 42 da Rua do Monte Olivete [vd. 2ª imagem].
Edifício sóbrio, ao gosto neoclássico — onde se destacam os vãos com arcos de volta perfeita — destinado a habitação e comércio, tal como o prédio vizinho (49-53). No interior da Farmácia Albano (57-59), ainda é possível observar mobiliário e decoração do final do século XIX. Projecto de 1858 atribuível ao arq. francês P. J. Pézerat¹.

Casa das 11 Portas [post. 1901]
Rua Escola Politécnica, 53-71; Farmácia Albano (57-59, 3ª e 4ªˢ portas)
J. Artur Bárcia, in A.M.L..

Paralelamente às funções na C.M.L., Pierre-Joseph Pézerat foi nomeado, em 1853, professor de desenho na Escola Politécnica de Lisboa, sendo também o arq. responsável pelo projecto de remodelação da referida escola. 

Casa das 11 Portas [post. 1908]
Rua Escola Politécnica, 53-71 esquina com a Rua do Monte Olivete, 42, a 11ªˢ porta
 Machado & Souza, in A.M.L..

¹ Pedro Bebiano Braga, A Sétima Colina, pp. 114-115, 1994.

Wednesday, 25 September 2019

Rua dos Capelistas que foi d'El-Rei

Aos comerciantes que tinham as suas lojas no Pátio da Capela Real (depois elevada a Igreja Patriarcal de D. João V), pátio com suas arcadas e galerias [vd. Planta de Lisboa anterior ao Terramoto], chamava-lhe o povo os capelistas, e às suas lojas capellas.
As «capelas» e tendas, ou tendas da Capela — explica Norberto de Araújo — onde se «acha tudo o que de mais precioso é no mundo», foram depois do Terramoto armadas nas lojas dos prédios edificados na Rua do Comércio, e daí o chamar-se a essa artéria «Rua dos Capelistas», da mesma forma que os pequenos estabelecimentos «que vendem tudo» por êsses bairros de Lisboa, são conhecidos ainda por «capelistas», casas de «artigos de capela». Fenómenos da evolução dos vocábulos.

Rua do Comércio vulgo dos Capelistas [c. 1890]
Praça do Município e Paços do Concelho que ocupa o espaço que era o do Pátio da Capela Real
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.

Após o terramoto e a restauração da Baixa, estabeleceram-se os mesmos comerciantes na rua mais próxima do Terreiro do Paço, então designada Rua Nova de El-Rei, mas o povo chamava-lhe Rua dos Capelistas, até que, em 1910, passou a chamar-se Rua do Comércio.
Pela primeira regulamentação toponímica, o decreto régio de 05/11/1760 que consagra as denominações da Baixa Pombalina, foi atribuído o topónimo Rua Nova de El Rei. Depois, por deliberação camarária de 18/05/1889 e edital de 08/06/1889 passou a denominar-se Rua de El Rei. A última denominação desta artéria e que se mantém até aos nossos dias, Rua do Comércio, foi fixada pelo primeiro edital da vereação republicana na edilidade lisboeta, com data de 5 de Novembro de 1910, ou seja, um mês após a implantação da República em Portugal, e nesse edital se procurou substituir os topónimos

Planta de Lisboa anterior ao Terramoto
A vermelho a Capela Real e a azul o respectivo Pátio; a verde a  Rua dos Capelistas (clicar para ampliar)
«Por baixo d'estas arcadas ou galerias, em toda a circumferencia, ha muitas tendas e lojas onde se acha tudo que mais precioso ha no mundo, ouro, diamantes e outras pedras preciosas». [Serrão, 1993]
in B.N.P.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 13-14, 1939.

SENOS, Nuno, O Paço da Ribeira: 1501 - 1581, 2002.

Sunday, 22 September 2019

Lolas de antanho: Camisaria High Life

No local onde onde hoje está instalada uma loja de moda— recorda Mário Costa — existiram anteriormente três camisarias: de António Carneiro, de F. G. Coutinho e de Jacinto Bastos da Silva, esta denominada High-Life, também com chapelaria. O estabelecimento com os números 96-98 [da Rua Garrett], tem outra frente para a Rua de Serpa Pinto, n.° 42, e, quando se denominava Camisaria Borges, de Borges & Carneiro, gozou de fama pelo seu grande sortimento de «Rouparia e fazendas brancas — Enxovais para casamentos e baptizados».

Camisaria High Life [1917]
Rua Garrett, 96-98; Rua de Serpa Pinto, 42
Legenda da foto no AML: «Venda da Flor a favor das vítimas da 1ª Grande Guerra (1914-1918)»
Fotógrafo não identificado, in AML

Seguiu-se António Carneiro. E, na Camisaria Coutinho, já conhecida em recuados tempos, em Novembro de 1872 «faziam sensação duas riquíssimas camisas para senhora, destinadas a uma noiva brasileira, avaliadas, respectivamente, em 30$000 e 40$000 réis».
Guarda nas suas entranhas a história do Café do Toscano, que em 1826 pertencia a Domingos Daddi, e, em 1844, a José Marrare, sobrinho do célebre botequineiro.

Camisaria High Life [1917]
Rua Garrett, 96-98; Rua de Serpa Pinto, 42 (antiga Nova dos Mártires
Legenda da foto no AML: «Venda da Flor a favor das vítimas da 1ª Grande Guerra (1914-1918)»
Fotógrafo não identificado, in AML

Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 276, 1987.

Friday, 20 September 2019

Rua Nova da Piedade

De acordo com Luís Pastor de Macedo («Lisboa de Lés a Lés»), sabe-se que «O vulgo, durante algum tempo, designou-a por travessa de Santo Antoninho, conforme se vê num anúncio publicado em 1831 na Gazeta de Lisboa. Houve nesta rua dois moradores que não podemos deixar de mencionar: o insigne pianista e compositor João Domingos Bomtempo e o jornalista e escritor Silva Pinto, o dedicado amigo do infeliz poeta Cesário Verde». [cm-lisboa.pt]

Rua Nova da Piedade [1908]
Quarteirão entre as Ruas Manuel Bernardes e Rua dos Prazeres; ao fundo a Rua de São Bento
Machado & Souza, in A.M.L

Wednesday, 18 September 2019

Colégio Valsassina / Palácio Lousã

À época — por volta dos anos 30 do século passado — existiam em Lisboa vários locais onde os filhos de gente abastada estudavam: o Colégio Vasco da Gama, que viria da Travessa das Freiras a Arroios à actual Alameda; a Escola Académica, situada na quinta de S. João de Monte Agudo, à Penha de França, cuja publicidade elogiava os seus vastos jardins e os campos de jogos escolares e desportivos; a Escola Valsassina, instalada no antigo Palácio Lousã.

Colégio Valsassina / Palácio Lousã [1934]
Avenida António Augusto de Aguiar, 148
Palácio Lousã; à dir. a Casa José Joaquim Miguéis, projectada pelo arq. Miguel Ventura Terra (1902)
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

As origens do Colégio remontam a 1898, altura em que a Professora Susana Duarte fundou uma pequena escola primária na Rua de Santa Marinha, na parte antiga da cidade de Lisboa. Tendo casado com o Professor Frederico César de Valsassina em 12/12/1907, a então Escola Primária foi alargada ao Ensino Liceal para a preparação individual de alguns alunos.
Em Outubro de 1934 a então "Escola Valsassina", transferiu-se para o Palácio Lousã sito na Avenida António Augusto de Aguiar, 148, onde começou a verdadeira existência do Colégio Valsassina. Dispondo de magníficas instalações para a altura, permitiu o lançamento de um projecto educativo inovador, com todos os tipos de Ensino - Infantil, Primário e Liceal – para cerca de 300 alunos e com regime de internato para cerca de 80 alunos a partir dos finais dos anos 40 e até Setembro de 1959.
O Palácio Lousã foi demolido na década de 1960.

Palácio Lousã [1960]
Avenida António Augusto de Aguiar, 148
Augusto de Jesus Fernandes, in A.M.L.

Bibliografia
MADUREIRA, Arnaldo, Salazar e a Igreja (1928-1932), 2008.

cvalsassina.pt.

Sunday, 15 September 2019

Cais das Colunas: o miradouro raso e rasteirinho da cidade

Levantam voo as gaivotas à roda delas, e largam para o rio os bergantins reais e os botes catraios. Visão de séculos neste Cais das Colunas — dois blasões de pedra que nunca chega a ser morena. As colunas são um sinal de atenção, o mais lindo e recortado sinal na fronte de Lisboa ribeirinha. Fazem uma evocação da Veneza dos doges.


Em verdade estes dois pilares não levam duzentos anos, pois são invenção posterior ao Terramoto. E não são os primitivos. O Tejo divertiu-se sempre muito com as colunas, e arrebata-as várias vezes. Quando, em 1903, se preparava o desembarque de um rei inglês [Eduardo VII], que no cais havia de abicar na galeota dourada de trinta remeiros — houve que improvisar umas colunas de madeira, porque as de pedra tinham caído. Foi outro brinquedo: o rio levou as colunas no outro dia. . .

Cais das Colunas, Terreiro do Paço [1903]
Do lado esq. podem observar-se as colunas provisórias em madeira de forma quadrangular. Ampliando a foto vê-se na base dos pilares — manifestamente desalinhados —o  travessão que os unia e mantinha no lugar, supostamente..
 Fotógrafo não identificado, in AML

Este Cais das Colunas, que sucedeu ao Cais da Pedra — é o miradouro raso e rasteirinho da cidade. Um livro aberto de evocações. Viu sucessivamente as barcas, as fustas, as galeras, as caravelas, as naus; as galés e os galeões; as fragatas, as corvetas, os brigues e as escunas, depois os navios chapeados de ferro e aço, os transportes e os transatlânticos, os cruzadores e os couraçados. Guarda na retina as silhuetas da nau «S. Gabriel», que foi à Índia, do galeão «Santa Teresa», o mais imponente que cruzou os mares, da nau «D. Maria», do Marquês de Nisa, que esteve em Trafalgar, da corveta «Pero de Alenquer», e do «Adamastor».

Cais das Coluna sem colunas [c. 1900]
O Tejo divertiu-se sempre muito com as colunas, e arrebata-as várias vezes.
 José Artur Bárcia, in AML

Conheceu as velas de todo o mundo, os pavilhões de todos os povos, os alcaxas¹ de todos os marujos, e ouviu trons e salvas em todas as línguas. Da sua rampa de pedra rolada, ou da sua escadaria carcomida — viu cem gerações dizerem adeus a cem armadas que partiam. Pórtico escancarado do Terreiro do Paço, a sumir-se abaixo do nível, dir-se-á um adiantado do Arco Triunfal, o primeiro aviso de que a cidade começa.
¹  peças inconfundíveis do uniforme dos marinheiros

Cais das Colunas «Salazar» e «Carmona» [post. 1939]
As duas famosas colunas ainda têm os nomes que lhes foram dados em pleno Estado Novo, em homenagem às duas figuras mais importantes do país na altura: ««Salazar» e «Carmona».
 Garcia Nunes, in AML

De acordo com alguns autores, as colunas que pontuam a escadaria de pedra que desce até ao rio, poderão ser de inspiração maçónica e representar as duas colunas do Templo de Salomão (colunas Boaz ( B ) e Jaquim ( J ) ,ou Jerusalém e Belém, conforme as interpretações) simbolizando força e estabilidade, rigor e misericórdia, força e beleza, ciência e conhecimento, o Ocidente e o Oriente. O "estar entre colunas" maçonicamente significa estar em segredo entre irmãos
Mas o que talvez poucos saibam, é o que o lodo esconde. As duas famosas colunas ainda têm os nomes que lhes foram dados em pleno Estado Novo, em homenagem às duas figuras mais importantes do país na altura: «Salazar» e «Carmona».

Cais das Colunas «Salazar» [post. 1939]
Inscrição no pilar esquerdo (Oriental):
«A SEGUNDA VIAGEM DO CHEFE DO ESTADO ÀS TERRAS ULTRAMARINAS DO IMPÉRIO: CABO VERDE, MOÇAMBIQUE E ANGOLA. XVII DE JUNHO - XII DE SETEMBRO DE MCMXXXIX A VIAGEM DO CHEFE DO ESTADO ÀS TERRAS DO IMPÉRIO EM ÁFRICA ESTÁ NA MESMA DIRECTRIZ DAS NOSSAS PREOCUPAÇÕES E FINALIDADE, É MANIFESTAÇÃO DO MESMO ESPÍRITO QUE PÔS DE PÉ O ACTO COLONIAL»
SALAZAR
Luís Filipe de Aboim Pereira,, in AML

Acima dos nomes dessas duas importantes e polémicas personalidades da História de Portugal, estão citações que cada uma delas proferiu na sequência de duas viagens que Óscar Carmona, Presidente da República, fez às colónias.

Cais das Colunas «Carmona» [post. 1939]
Inscrição no pilar direito  (Ocidental):
«AQUI EMBARCOU O CHEFE DO ESTADO PARA A PRIMEIRA VIAGEM ÀS TERRAS 
ULTRAMARINAS DO IMPÉRIO: SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE E ANGOLA. XI DE JULHO - 
XXX DE AGOSTO DE MCMXXXVIII COM A CERTEZA DE QUE FALA PELA MINHA VOZ 
PORTUGAL INTEIRO, PROCLAMO A UNIDADE INDESTRUTÍVEL E 
ETERNA DE PORTUGAL»
GENERAL CARMONA
Luís Filipe de Aboim Pereira,, in AML


Bibbliografia
ARAÚJO, Norberto de,  Legendas de Lisboa, pp. 38-39, 1943.
lusophia.wordpress.com.

Friday, 13 September 2019

Beco do Recolhimento

A vida bairrista do Castelo é pacífica — diz Norberto de Araújo — , e com pouca expressão; o seu pitoresco é quási nulo. Mas não o é de todo. Se teus olhos estiverem «bem inspirados para ver» anotarás passagens dignas de um lápis afeito a traços finos. já reparaste, com certeza, em dois tipos de construção: o das casotas côr de rosa, século XVIII ou princípios de oitocentos, e o do urbanismo dos meados do século passado.


Beco do Recolhimento [1958]
Armando Serôdio, in AML;

Este Beco do Recolhimento que vai do Beco do Forno do Castelo à Rua do Recolhimento tem esta denominação atribuída desde 1859, na artéria até aí designada por Beco do Jardim. O topónimo deriva da proximidade ao Recolhimento de N. S. da Encarnação, «que fôra fundado, noutro sítio de Lisboa, por D. João III», destinado a «meninas órfãs da nobreza», que foi destruído pelo Terramoto, depois reedificado, «sumíra-se, de todo, antes de 1837», de acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo.
_________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 21-22, 1938.

Wednesday, 11 September 2019

Profissões de antanho: o padeiro

Manhã alta era outra a tarefa: saíam os padeiros carregando grandes cestos cheios de pão, tapados com panos brancos. Iam levar encomendas à freguesia da zona, por cujo trabalho, como hoje, cobravam uma percentagem sobre o preço fixo.

Estamos a lembrar-nos de quando, já teríamos idade para pedir uma fatia de pão com manteiga, paravam à porta da padaria na Rua da Atalaia, ao Bairro Alto, onde morávamos, as carroças que traziam grandes ramadas de pinheiro que os padeiros queimavam de noite no forno. As labaredas iluminavam o interior da padaria e a luz vermelha dançando nas paredes vinha reflectir-se nos vidros da montra. Ao mesmo tempo ouvia-se o estrondo da massa que os padeiros batiam nos amassadores e a conversa animada que o silêncio da madrugada avolumava. Muitas noites em que não dormíamos, vínhamos espreitar à janela, desejosos de saber como se fazia o pão.

Padeiros [1910]
Praça Dom Pedro IV (comummente Rossio)

Transportavam pão de quilo, meio quilo, pão de forma e pãezinhos de Viana
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Naquele tempo havia o pão de forma, como ainda há hoje; o pão de quilo, que custava noventa réis (dizia-se: quatro e meio, ou seja, um tostão menos dez réis) e o de meio quilo, pelo qual se pagava dois e cinco, ou seja, dois vinténs e mais cinco réis. Este pão era muito gostoso e seria semelhante ao actual pão caseiro. Além destes fabricavam-se pãezinhos de Viana, redondos, adocicados e vária bolaria inocente que a rapaziada adorava.

Padeiro [1910]Rua Castilho
Distribuição ao domicílio
Nota(s): o local da foto não está identificado no AML
Joshua Benoliel, in A.M.L.

As padarias eram independentes; tinham cada uma o seu proprietário e exibiam, como qualquer estabelecimento, um título: A Primavera, A Primorosa, A Nacional, ou o nome do dono. Em certa altura, talvez por 1910 a 1915, a Companhia Industrial de Portugal e Colónias, que desenvolvera todo o ramo de fabricação de farinhas, bolachas e massas alimentícias, alargou a sua actividade ao fabrico do pão, adquirindo quase todas as padarias de Lisboa e nelas instalando novo sistema de laboração, a electricidade, no qual a intervenção do homem foi praticamente substituída por grandes amassadores.

Padeiro [1939]
Costa do Castelo
Ao fundo observa-se o portal do Palácio dos Condes de Figueira
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Iniciava-se a era do papo-seco, a que o público, acostumado ao tipo de pão anterior, ao princípio resistiu. Mas o padeiro continuou a sua tarefa, agora mais aliviada na padaria. Foi então que o serviço de distribuição ao domicílio se alargou. Mas já não eram precisos os grandes cestos, porque, sendo menores os formatos do pão, se tornou menos pesada a empreitada e, assim, hoje é raro ver o padeiro à maneira antiga, como o desenho as imagens representam.

Padeiro [c. 190]
Rua da Senhora do Monte
Carregavam grandes cestos cheios de pão, tapados com panos brancos
Artur Bárcia, in A.M.L.

Bibliografia
DINIS, Calderon , Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974, p. 234, 1986.

Sunday, 8 September 2019

Lojas de antanho: Casa de modas A. Serra

Em 1916, a revista «Ilustração Portuguesa» noticiava deste modo, a abertura de mais uma «loja chic» na baixa lisboeta [foi respeitada a grafia da época]:
Lisboa vai-se tornando, incontestavelmente, uma cidade de estabelecimentos «chics», sumptuosos e elegantes. É n'eles que pelo dia adeante se reune o mundanismo. São casas que, tanto pela aparencia como pelo bom gosto na disposição do seu mostruário, fazem desviar a atenção do publico para si.
Sem favor, a  casa a  que nos referimos, é  a melhor no género e  a mais preferida pelas senhoras da nossa primeira sociedade. É ali que vão procurar as suas graciosas «toliettes» que teem um cunho de bom gosto e de distinção inegualaveis e que são um verdadeiro primor artístico. 

Casa de modas A. Serra [1916]
Rua de S. Nicolau, 121-127, Rua Nova do Almada, 54-58
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Quem dirige os seus importantes «ateliers» são duas das mais acreditadas modistas francezas diplomadas e um «coupeur». Toda a sua clientela, que de dia para dia, aumenta consideravelmente, é composta de damas de fino e apreciado gosto e quem realçam as suas «toilettes» sempre da mais requintada novidade.
Abalançar-nos-hemos até a dizer que nem mesmo em Paris ou Londres existem estabelecimentos no genero tão 1uxuosamenle montados e, se os há luxuosos, nem por sombras podem rivalisar com o de que vimos tratando. Por todas estas fotografias que ilustram este mesmo artigo, já os nossos leitores poderão avaliar o que representam á vista o  que são os seus salões de provas, de vendas, gabinetes, «ateliers», etc., etc..

Casa de modas A. Serra, salão de vendas [1916]
Rua de S. Nicolau, 121-127, Rua Nova do Almada, 54-58
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Eis, pois, Lisboa dotada de mais um estabelecimento «chic», único no género, cuja falta se sentir n'uma capital como Lisboa, felicitando nós o sr. Alfredo Balga e Serra por tão arrojada iniciativa.

Casa de modas A. Serra, um dos «ateliers» [1916]
Rua de S. Nicolau, 121-127, Rua Nova do Almada, 54-58
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Bibliografia
Ilustração Portugueza, n.º 532, 1 de Maio de 1916.

Friday, 6 September 2019

Rua Nova do Almada

Ora bem: aqui temos uma artéria vizinha do Chiado e que tem ainda tom. A Rua Nova do Almada, antiga, datava de 1665 — relembra-nos Norberto de Araújo — , e devia seu nome (como tive ocasião de te dizer) ao presidente do Senado Municipal Rui Fernandes de Almada; seguindo sensivelmente o mesmo traçado foi reurbanizada na segunda metade do século XVIII. Ao fundo dela correu o celebrado Canal da Flandres, no sopé do Monte de S. Francisco.

Rua Nova do Almada [ant. 1909]
Até aos anos 50, do século XX, também ali esteve a Igreja da Conceição Nova — cujo pórtico se pode ver à direita na foto — construída em 1698 e restaurada depois do Terramoto de 1755. O arquitecto da reconstrução foi Remígio Francisco de Abreu.
Paulo Guedes, in A.M.L.

Digna de referência, por suas tradições literárias, nos parece ser a Livraria Ferin, fundada em 1840, hoje pertencente à firma Tôrres & Comandita, casa no nosso tempo conhecida por «Viúva Ferin». A Pastelaria Ferrari, de grande nome lisboeta, foi fundada em 1846 por Matias Ferrari; eis um estabelecimento, ainda do tempo velho, e que mereceria uma croniqueta.

Demolição da igreja da Conceição Nova [195-]
Eixo Cç. de São Francisco-Rua da Conceição com a Rua Nova do Almada
 Firmino Marques da Costa, in A.M.L.

N.B. O topónimo homenageia Rui Fernandes de Almada, que sendo presidente do Senado Municipal, fez abrir em 1665 a rua Nova que tem o seu nome. Também desempenhou o cargo de provedor da Casa da Índia e por ser partidário de D. Afonso VI foi vítima de uma cilada do infante, depois D. Pedro II, deixando-o morto na rua.

Rua Nova do Almada [1918]
Rua Garrett; Armazéns do Chiado
Cortejo a caminho do Paço de Belém e das legações dos países aliados, para festejarem o final da Grande Guerra.
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa», vol. XIII, p. 30, 1939.

cm-lisboa.pt.

Wednesday, 4 September 2019

Rua Álvaro Coutinho

A celebração de figuras heróicas, a glorificação de figuras históricas, mártires da guerra, da monarquia e da religião caracterizou o período da Iª República. Uma das formas de o fazer consistiu na atribuição de topónimos.
Assim, a Rua Álvaro Coutinho, famoso cavaleiro conhecido por O Magriço, Século XV, foi atribuída à Rua de Nossa Senhora do Resgate. Martim Moniz, cujo nome está ligado á tomada de Lisboa aos Mouros ficou relembrado numa rua com a denominação de S. Vicente (À Guia).

Rua Álvaro Coutinho [196-]
[antiga de Nossa Senhora do Resgate]
Ao fundo, na Rua dos Anjos, a segunda sede do Lisboa Ginásio Clube
Fotógrafo: Estúdio Horácio Novais, in F.C.G.

Álvaro Gonçalves Coutinho, como parece era natural de Penedono e foi o chefe de Os Doze de Inglaterra, história de cavalaria de que fez eco Camões, em Os Lusíadas (I, 12;VI, 53-69). Com mais onze portugueses foi a Inglaterra vingar a afronta feita a outras tantas damas que se queixaram ao duque de Lencastre, tendo este proposto que os doze injuriados defrontassem outros tantos cavaleiros que ele conhecera em Portugal, de onde saíram vencedores os cavaleiros lusitanos.
De certo sabe-se que Álvaro Gonçalves Coutinho prestou assinalados serviços, em 1411, a João, duque de Borgonha e conde de Flandres. [cm-lisboa.pt]

Sunday, 1 September 2019

Lisboa Gymnasio Club (Lisboa Ginásio Clube)

Fundado em 4 de Novembro de 1918, o «Lisboa Ginásio Clube» depressa se transformou num alfobre de atletas.


A modesta cave da Rua Maria, 61, onde se instalara a primeira sede, depressa se mostrou acanhada demais. Dois anos depois, porém, já o «Lisboa Gymnasio Club» ocupava o edifício do antigo Teatro do Borralho (Travessa do Borralho, hoje Rua Francisco Lázaro, 4), para daí a mais algum tempo, num crescente de valorização, ser forçado a ampliar estas instalações, com o aluguer do edifício anexo que dá para a Rua dos Anjos.  O custo do imóvel e do seu recheio, condição exigida para a venda, montava a 130.000$ (c. 650€). Aprovada a operação de compra e face às compreensíveis dificuldades financeiras do Clube, foi contraído um empréstimo junto do Banco Português e Brasileiro no qual deu o seu aval Teófilo de Magalhães, à data Presidente da Assembleia Geral do Lisboa Ginásio Clube. A inauguração oficial da segunda sede teve lugar a 1 de Dezembro de 1923 com a presença do Presidente da República, Manuel Teixeira Gomes.

Lisboa Ginásio Clube [1963]
Rua dos Anjos, 63
A segunda sede do «Lisboa Ginásio Clube», fundado em 1918. A primeira sede esteve instalada na Rua Maria, 61
Armando Serôdio, in AML

A iniciativa de se fundar, em Lisboa, o «Lisboa Gymnasio Club» partiu de João de Matos Corte-Real da Câmara Mouat e de José dos Santos Cadeiras.
Deve-se ao «Lisboa Gymnasio Club» a introdução entre nós da ginástica rítmica para senhoras; cabendo-lhe também importante parcela no desenvolvimento e propaganda da ginástica educativa feminina.
Dos contactos com os melhores ginastas mundiais, nunca o «Lisboa Gymnasio Club» saiu desprestigiado; e a comprová-lo estão dezenas de saraus realizados no Coliseu dos Recreios. Também em Florença, em Roterdão e Espanha, os atletas do «Lisboa Ginásio» alcançaram posições de relevo — prestigiando o nome de Portugal. Sempre admiravelmente orientado, orgulha-se ainda o clube da sua famosa «classe maravilha» que tanto deu que falar.
Cerca de 1.400 atletas, praticando, além da Ginástica Voleibol, Basquetebol, Atletismo, Badminton, Luta, Boxe, Pesos e Halteres, Tiro ao Arco, Esgrima e Jogo do Pau, mantém presentemente [1958] o «Lisboa Ginásio Clube» em constante actividade, constante actividade, não permitindo as suas instalações que este número possa ser aumentado. Todavia, atendendo à importante dívida que o Desporto Português contraiu para com esta grande colectividade, o «Lisboa Ginásio» espera ver as suas instalações valorizadas e aumentadas dentro de pouco tempo, com a edificação de uma nova sede erguida no mesmo local onde presentemente se encontra instalado.

Edifício de gaveto onde se veio a instalar o Lisboa Gymnasio Club [1907]
Tv. do Borrralho,  hoje Rua Francisco Lázaro,  com a Rua dos Anjos
A segunda sede do «Lisboa Ginásio Clube», fundado em 1918. A primeira sede esteve instalada na Rua Maria, 61
Machado & Souza, in AML

Bibliografia
Olisipo : boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", 1958.
lgc.pt.
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