Wednesday, 11 September 2019

Profissões de antanho: o padeiro

Manhã alta era outra a tarefa: saíam os padeiros carregando grandes cestos cheios de pão, tapados com panos brancos. Iam levar encomendas à freguesia da zona, por cujo trabalho, como hoje, cobravam uma percentagem sobre o preço fixo.

Estamos a lembrar-nos de quando, já teríamos idade para pedir uma fatia de pão com manteiga, paravam à porta da padaria na Rua da Atalaia, ao Bairro Alto, onde morávamos, as carroças que traziam grandes ramadas de pinheiro que os padeiros queimavam de noite no forno. As labaredas iluminavam o interior da padaria e a luz vermelha dançando nas paredes vinha reflectir-se nos vidros da montra. Ao mesmo tempo ouvia-se o estrondo da massa que os padeiros batiam nos amassadores e a conversa animada que o silêncio da madrugada avolumava. Muitas noites em que não dormíamos, vínhamos espreitar à janela, desejosos de saber como se fazia o pão.

Padeiros [1910]
Praça Dom Pedro IV (comummente Rossio)

Transportavam pão de quilo, meio quilo, pão de forma e pãezinhos de Viana
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Naquele tempo havia o pão de forma, como ainda há hoje; o pão de quilo, que custava noventa réis (dizia-se: quatro e meio, ou seja, um tostão menos dez réis) e o de meio quilo, pelo qual se pagava dois e cinco, ou seja, dois vinténs e mais cinco réis. Este pão era muito gostoso e seria semelhante ao actual pão caseiro. Além destes fabricavam-se pãezinhos de Viana, redondos, adocicados e vária bolaria inocente que a rapaziada adorava.

Padeiro [1910]Rua Castilho
Distribuição ao domicílio
Nota(s): o local da foto não está identificado no AML
Joshua Benoliel, in A.M.L.

As padarias eram independentes; tinham cada uma o seu proprietário e exibiam, como qualquer estabelecimento, um título: A Primavera, A Primorosa, A Nacional, ou o nome do dono. Em certa altura, talvez por 1910 a 1915, a Companhia Industrial de Portugal e Colónias, que desenvolvera todo o ramo de fabricação de farinhas, bolachas e massas alimentícias, alargou a sua actividade ao fabrico do pão, adquirindo quase todas as padarias de Lisboa e nelas instalando novo sistema de laboração, a electricidade, no qual a intervenção do homem foi praticamente substituída por grandes amassadores.

Padeiro [1939]
Costa do Castelo
Ao fundo observa-se o portal do Palácio dos Condes de Figueira
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Iniciava-se a era do papo-seco, a que o público, acostumado ao tipo de pão anterior, ao princípio resistiu. Mas o padeiro continuou a sua tarefa, agora mais aliviada na padaria. Foi então que o serviço de distribuição ao domicílio se alargou. Mas já não eram precisos os grandes cestos, porque, sendo menores os formatos do pão, se tornou menos pesada a empreitada e, assim, hoje é raro ver o padeiro à maneira antiga, como o desenho as imagens representam.

Padeiro [c. 190]
Rua da Senhora do Monte
Carregavam grandes cestos cheios de pão, tapados com panos brancos
Artur Bárcia, in A.M.L.

Bibliografia
DINIS, Calderon , Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974, p. 234, 1986.

2 comments:

  1. Nao sabia que o papo-seco era tao recente.

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