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sábado, 29 de agosto de 2015

Praça da Alegria: a Feira da Ladra e o Palácio Azul


A razão porque se chama «da Alegria» não a sei — diz Norberto de Araújo — , nem creio que alguém a conheça. Matos Sequeira, que muito estudou (não se limitou a apontar) estes sítios, não nos diz algo; conjectura. Por o local ser ameno, lavado de ares, ridente por natureza?

 

Eu lembro que as designações de sítios partiam quasi sempre de lindas invocações religiosas, tal a «Glória», a «Estrela». Ora eu adquiri, há anos, uma imagem de N.ª Sr.ª da Alegria, e que bem pode corresponder a uma invocação pessoal, caprichosa, pois «Alegria» não consta dos oragos de qualquer região do país. Mas também pode suceder que a poética religiosa se comprazesse numa invocação, que não chegou até nós em documento vivo.

 
A Alegria, pois, é posterior ao Terramoto; a razão porque a Basílica de Santa Maria Maior era a detentora de grande parte dos domínios directos por aqui, não a sei. Lisboa está cheia de lapides foreiras à «Basílica», a «S. M. M.», à «Sé».
Os prédios por aqui datam, os mais antigos, do princípio do século passado, ou da agonia do século XVIII, e a maioria deles são de 1840-1850. [...]
Cabe aqui dizer-te, Dilecto, ou lembrar-te, que um tempo houve — ainda isto por aqui mal povoado andava (em 1778 havia apenas oito prédios formais de feição pombalina) — em que este largo ou praça se chamou «do Suplício». Uma certa Dona, Izabel Xavier Clesse, além de atraiçoar seu marido, o marchante Tomaz Goilão, lembrou-se de - o envenenar. Foi neste local enforcada em 31 de Março de 1771. O povo durante três anos designou a Praça pelo sucesso que a infamara; depois, esqueceu-se.

Palácio Azul Praça da Alegria, Feira da Ladra na (1809-1818) da autoria de Nicolas Delerive
Actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga

Oferece uma certa curiosidade na sua fisionomia e desenho o prédio do lado nascente, caindo sobre o Sul, n.°' 9 a 11, no qual está instalada a esquadra da Polícia «da Alegria» que teve há anos a sua sede na Rua das Portas de Santo Antão. Foi este o famoso «Palácio Azul», de que muito se falava (apenas por estar pintado de azul) há cem anos. Construiu-o, pouco mais ou menos em 1796, D. Álvaro de Távora, Conde de S. Miguel, que casou com D. Luiza de Pilar de Noronha, filha dos Condes dos Arcos; em 1832 foi Quartel do Estado Maior General, e no ano seguinte sede dos Conselhos de Guerra. Em 1840 pertencia a propriedade ao Barão de Alrneirim, pai de Anselmo Braamcamp Freire, que nesta casa nasceu; em 1845 sofreu transformações que não lhe alteraram o curioso semblante. E ai está hoje quasi como há cem anos, no seu exterior.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 29, 1939)

[Inscrição na gravura] «Vista da antiga praça da Alegria, com a feira da ladra; aguarela comprada* por 1:000 reis ao saloio Aniceto da quinta das Córtes aos Olivaes em 22 de Fevereiro de 1882.»
*terá sido adquirida pelo Visconde Júlio de Castilho (nota consta no AML)

Ainda de acordo com o mesmo autor «a Feira da Ladra (ou da Lada?), é um mercado lisboeta que remonta ao século xII, e cuja avó foi aquela que se realizava, um dia por semana, no Chão da Feira, ao Castelo, com carácter muito diverso do que oferece hoje. Em 1430 estava no Rossio; onde perdurou até ao Terramoto, passando depois para as antigas hortas de Valverde (Praça da Alegria de Cima, imagem acima), mas irradiando depois, por abuso dos feirantes, até aos Restauradores de hoje. Em Fevereiro de 1823, transferiram-na para o Campo de Sant'Ana, de onde após cinco meses de mal contente pousio voltou para o Passeio Público (Alegria). Em Maio de 1835, tomou para Sant'Ana, onde esteve até Abril de 1882, que foi quando a Câmara a fez rodar para o Campo de Santa Clara, por poucos dias, é certo, pois os feirantes protestaram, talvez por ficar longe, tornando a Feira a Sant'Ana. Finalmente —  decorridas apenas algumas semanas — em l de Julho de 1882, velha Feira da Ladra teve em definitivo seu lugar marcado neste sítio, e em Santa Clara se conserva desde há cinquenta e sete anos [cento e quarenta] .==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 72-73, 1938)
 

Palácio Azul |1968|
Praça da Alegria, 9-11
«Hoje há-as de todas as cores, desde o amarelo-canário ao verde-salsa, e ninguém faz disso
maior reparo. Num anúncio de 1836, lê-se :
«Vende-se uma parelha de cavalos de sege e traquitana que se podem ver na praça da
Alegria, nas «cavalariças do Palácio Azul, e ajustar com o dono na «rua nova da
Alegria n.° 11, 2.° andar».
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Campo de Santa Clara: Feira da Ladra

«(...) a velha Feira da Ladra alfacinha, das velharias e das utilidades, do que não presta e pode vir a prestar um dia, [...] é um ingénuo repositório de ferro-velho, de trapo velho, de bagatelas velhas, de tudo quanto já serviu um dia e enferrujou, e se cobriu de azebre, ou ficou numa renda poída, numa «migalha de cousa nenhuma».  
(ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa», vol. VIII, p. 73, 1938)

Campo de Santa Clara,  Feira da Ladra |c. 1950|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Campo de Santa Clara,  Feira da Ladra |1959|
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

domingo, 1 de março de 2026

Feira da Ladra ao Campo de Santa Clara que foi Campo da Forca

Nas traseiras do convento de São Vicente de Fora estende-se o Campo de Santa Clara (vulgarmente designado por Feira da Ladra), cujo mercado remonta a tempos muito antigos.
Nos primórdios fazia-se no chamado «Chão de Feira»; em tempos de D. Afonso llI, na Ribeira Velha; com D. Manuel l, junto ao Paço da Ribeira e, no séc. XVl, no Rossio. Após o terramoto de 1755, teve lugar na Praça da Alegria, depois à Bemposta (Sant'Ana) e Passeio Público e só em 1882 se instalou definitivamente aqui. Por outro lado, foi o Campo de Santa Clara palco, no séc. Xlll, de execuções capitais e daí ser conhecido também por Campo da Forca, que se manteve até ao séc. XVI.==
(in Os conventos de Lisboa, Baltazar Mexia de Matos Caeiro, 1989, p. 149)

Feira da Ladra |séc. XIX|
Campo de Stª. Clara: à dir. vê-se parte do Palácio dos Condes Almirantes de Rezende vulgo Casão Militar.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Feira da Ladra |séc. XIX|
Campo de Stª. Clara: à esq. nota-se a cortina que suporta o Jardim Botto Machado.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 17 de junho de 2018

Arco de S. Vicente

O Arco é, só por si, — recorda-nos Norberto de Araújo — meia freguesia deste bairro fidalgo e popular, que se fez e cresceu à sombra do velho mosteiro dos cónegos regrantes de Santo Agostinho [refere-se Mosteiro de S. Vicente de Fora] — a mais contemplativa e arrogante das vivendas conventuais da freirática Lisboa. (...) O Arco de S. Vicente inspira uma novela de costumes, na perspectiva das vidas e das cousas que foram um dia, quadro de poesia melancólica bairrista.
Para lá do Arco, tomado desde o Largo de S. Vicente, fica o Campo de Santa Clara, com a sua largueza e a sua evocação das freiras claristas. Fica a Feira da Ladra, que remonta ao século XIII, ali desde 1882, saborosa e pitoresca, das terças-feiras e dos sábados.»¹

Arco de S. Vicente [1931]
Campo de Santa Clara (Feira da Ladra);
Mosteiro de S. Vicente de Fora; Arco Grande de Cima
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Ora retomemos o caminho do Arco Grande. Este Arco foi erguido em 180[7], um pouco adiante do sitio onde se rasgava desde 1373-1375 a Porta ou Postigo de S. Vicente, da Cerca (nova) de D. Fernando. Ligava esse Arco o Convento às suas quintas e jardins, e hoje faz ligação do Liceu [de Gil Vicente], (antigos Paços Patriarcais) à cerca-recreio dos alunos e que atrás vimos. Decorativo, com uma graciosa perspectiva tomada desde o Largo de S. Vicente, este Arco Grande é, sem dúvida, o mais romântico de Lisboa, pelo seu pitoresco natural.»²

Arco de S. Vicente, tomado desde o Largo de S. Vicente [194-]
Arco Grande de Cima
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, PP- 180-181, 1943.
² id. Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 72, 1939.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Rua do Chão da Feira e Porta de São Jorge

A Rua do Chão da Feira, que se situa em frente à porta principal do Castelo de São Jorge1, foi anteriormente designada apenas como Chão da Feira. Cristóvão Rodrigues de Oliveira regista-a no seu Sumário de Lisboa em 1551, incluindo-a na antiga freguesia de São Bartolomeu.

Rua do Chão da Feira [c. 1900]
Muralha do Castelo antes das obras de restauro (1938-40)
Ao fundo, a Porta de São Jorge, entrada para o Castelo de São Jorge.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O ilustre olisipógrafo Norberto de Araújo refere que «Chão da Feira ainda se chama ao local pela força de realismo toponímico: no tempo de D. Afonso II, entre 1212 e 1223, aqui se realizava uma feira semanal, avó da «Feira da Ladra», que do Rocio, da Alegria, de Campo de Santana, foi parar ao Campo de Santa Clara, onde perdura às terças-feiras e sábados. O dia tradicional desta Feira da Ladra era, porém, a terça-feira.

Rua do Chão da Feira [c. 1900]
Muralha do Castelo antes das obras de restauro (1938-40)
Ao fundo a entrada para o Pátio de D. Fradique.

Lima, Alberto Carlos, in Lisboa de Antigamente

Aí temos a porta do Castelo que, sendo chamada «da Alcáçova» até ao tempo de Mestre de Aviz, 1385, recebeu depois, também, o nome de S. Jorge. Esta actual, escancarada, esburacada, já quási uma «ruína nova», é de 1846, tempo de D. Maria II, como podes ler na inscrição sobre a fachada exterior. Antes desse ano, o vão de ingresso teve portões com seus postigos.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 17-20, 1938)

Rua do Chão da Feira [c. 1900]
 Porta de São Jorge, entrada para o Castelo de São Jorge
José Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente

O arco da Porta de São Jorge, é semelhante a um arco de triunfo, com arco pleno em fiadas adornada com mármore, sobre o fecho do qual se pode ler «4-4º-1846 — D. Maria II», sendo rematada com pedra de armas reais. Lateralmente, em letras de bronze, uma dedicatória ao Duque da Terceira, Ministro da Guerra. Esta porta dá acesso à Esplanada.

1 Fotos posteriores às obras de restauro do Castelo de S. Jorge (1938-40) podem ser vistas aqui)

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Profissões de antanho: o trapeiro

Coêvo dos ferros-velhos e dos cães vadios   —  diz Alfredo Mesquita  —  a que a Providencia confiou por muitos annos em exclusivo privilegio a missão hygienica de devorar, com uma ou outra barriga de perna ao viandante, as imundícies esparsas nas estreitas e empinadas ruas da Mouraria e de Alfama, o trapeiro de Lisboa encarrega se de levantar e recolher da via publica o que nella sobeja da voracidade dos rafeiros. Por um complicado desenvolvimento de transações subsequentes, exerce elle a sua industria separando, classificando e vendendo em cada manhã a colheita de cada noite. 

Rua Castilho [1912]
Nota: O local não se encontra identificado no arquivo
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Nessa coleção entra tudo ou quasi tudo o que a vida de uma cidade segrega pelo monturo como documento da sua historia intima: os ossos descarnados, as flores murchas, as porcelanas quebradas e os vidros partidos dos seus banquetes; as botas arrombadas, os chinelos moídos e os farrapos despegados da sua indigência; a renda desfeita, a joia desengastada, o dinheiro perdido dos seus ébrios, dos seus batoteiros e das suas cortezãs; as lentejoilas caídas do ouropel dos seus histriões e dos seus saltimbancos; os manuscritos inutilisados dos seus lettrados e dos seus poetas; os fragmentos das suas cartas de empenho, de negocio e d’amor; mil restos, finalmente, anonymos, truncados, confundidos, de obscuras tragédias, de ignorados martyrios, de acerbas lutas, de ardentes paixões, de inveterados vicios, de lindos madrigaes ou de inocentes idilios.

Travessa João Vaz [1961]
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Como typo popular, o trapeiro foi, em tempo que não vae longe, característico entre os mais característicos. Na incerteza de encontrar sempre pelas ruas da capital alimento ao seu principal negocio, o trapeiro acumulava com elle a magra industria da venda de mechas a retalho. Veio o fosforo, e matou ainda este inocente e pouco lucrativo commercio. Quando a industria do trapeiro prosperava, e as imundícies fertilisadoras da capital não achavam ainda quem as arrematasse em publico leilão, o trapeiro era também negociante. O trapeiro fez-se arrematante do espolio dos finados do Hospital! Era a miséria traficando com a túnica de Job ! Ao fundo, como scenario d’este grande drama de abandono, surgia a Feira da Ladra, o sorvedouro insaciável de todas as relíquias, a exposição cosmopolita de todos os infortúnios . . .

Avenida 24 de Julho [ant. 1908]
Ao fundo, o jardim do Largo de Santos
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MESQUITA, Alfredo. Lisboa, pp. 356-357, 1903.

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Rua Engenheiro Vieira da Silva que foi Estr. das Picoas

Augusto Vieira da Silva (1869-1951). Historiador e engenheiro, concluiu o curso de Engenharia na Escola do Exército em 1893. Foi sócio efectivo da Associação dos Arqueólogos Portugueses, membro da Academia de História, sócio honorário e primeiro presidente do grupo Amigos de Lisboa. Foi nomeado para a Comissão de Toponímia da Câmara Municipal de Lisboa em 1943. 

Rua Engenheiro Vieira da Silva |1965|
Olisipógrafo 1869-1951
Antigo troço da Rua das Picoas (antes Estr. das Picoas), compreendido entre a Praça José Fontana e a Avenida Fontes Pereira de Melo; Cine-Teatro Monumental.
Armando Maia Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Alguns dos seus textos foram editados sob o título Dispersos. Encontra-se colaboração da sua autoria nas revistas Feira da Ladra (1929-1943), Revista de Arqueologia (1932-1938), Boletim dos Museus Nacionais de Arte Antiga (1939-1943) e na Revista Municipal (1939-1973) publicada pela Câmara Municipal de Lisboa.

Rua Engenheiro Vieira da Silva |1960|
Olisipógrafo 1869-1951
Antigo troço da Rua das Picoas (antes Estr. das Picoas), compreendido entre a Praça José Fontana. Perspectiva tomada da Avenida Fontes Pereira de Melo; Antigo Mercado 31 de Janeiro (dir.) e Matadouro Municipal.
Filipe Morgado Romeiras, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Edifício no Campo de Santa Clara, 124

Edifício oitocentista com fachada totalmente revestida por azulejos, traduz vincado gosto romântico e cenografia com efeitos de trompe-l'oeil, apresentando um programa decorativo revivalista, de inspiração barroca. 
O piso térreo apresenta um revestimento azulejar em trompe-l'oeil a imitar apainelados de cantaria, marmoreados em tons de manganês e branco, enquadrados por moldura azul, que lhe confere um ar rústico. Os restantes pisos evidenciam um revestimento azulejar sobre fundo azul, a imitar mármore, com falsos elementos arquitectónicos a amarelo, destacando-se as molduras dos vãos das janelas de sacada, na forma de pilastras, assim como os falsos frontões curvilíneos recortados, que rematam os referidos vãos, decorados por volutas e folhas de acantos, enquadrando grinaldas e cabeças humanas.
 
Campo de Santa Clara, 124 | Inicio do séc. XX|
O Campo de Santa Clara foi buscar o nome ao antigo mosteiro de freiras de Santa Clara que aqui existiu.
Relojoeiro na Feira da Ladra.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

A ladear os conjuntos de vãos centrais observam-se apainelados recortados, com decoração barroca, que integram medalhão central ovalado, com efígie antropomórfica, de inspiração clássica, emoldurada por elementos vegetalistas. Por sua vez, a delimitar o edifício surgem outros apainelados recortados, que traduzem composições vegetalistas. Este trabalho, da autoria do pintor de azulejos Luís Ferreira, mais conhecido por "Ferreira das Tabuletas", foi produzido, por volta de 1860, na Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego.

Campo de Santa Clara, 124 | 1945|
O Campo de Santa Clara foi buscar o nome ao antigo mosteiro de freiras de Santa Clara que aqui existiu.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 8 de março de 2017

Profissões de antanho: o azeiteiro

– Aazêêite dôôôce! Óh-pritróliine!

– Azêite dôôc´i bom vináágre!


Grande parte dos produtos de consumo normal continuavam nas mãos dos vendedores ambulantes que os iam apregoando pelas ruas ou ofereciam-nos de porta em porta. Constituíam os vendilhões, com os seus trajes próprios, os seus pregões, e até a variedade dos seus produtos, uma das notas mais castiças e mais vivas do folclore lisboeta. Eram numerosos, cruzando as ruas em todas as direcções, parando nas praças, de giga à cabeça ou trazendo um burro pela arreata, sucedendo-se uns aos outros durante o dia, em cumprimento dos horários mais favoráveis à venda dos produtos de cada um, ou reaparecendo com as estações do ano.

Mouraria [Início séc. XX]
Vendedor ambulante de azeite
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Rua da Imprensa Nacional [entre 1903-1908]
(Antiga Travessa do Pombal; ao fundo o Instituto Politécnico)
Vendedor ambulante de azeite

Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Obs: o local não se encontra identificado pelo fotógrafo

O Azeiteiro que também vendia vinagre e petroline, com o fato cheio de manchas de óleo, transportava as grandes almotolias de folha, às duas e três, suspensas dos braços, e outras às costas. Se tinha carroça, podia trazer um maior número de unidades. Era um tipo geralmente pacato, sério no seu negócio que reclamava com um pregão banal:

– Aazêêite dôôôce! Óh-pritróliine!
– Azêite dôôc´i bom vináágre!

Rua da Prata com a Rua de Santa Justa [entre 1903-1908] 
Vendedor ambulante de azeite
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Obs: o local não se encontra identificado pelo fotógrafo
Campo de Santa Clara [Início séc. XX]
Vendedor ambulante de azeite na Feira da Ladra,
Campo de Santa Clara.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
(O povo de Lisboa: tipos, ambiente, modos de vida, mercados e feiras, divertimentos, CML, 1978)

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Jardim de Santa Clara / Jardim Botto Machado

Ora se aqui não devia de haver um miradouro! Qual é o sitio de Lisboa que o não possui?
Aí o temos: o Jardim do Campo de Santa Clara construído em 1862 [ou Jardim Botto Machado (1865)], mas muito melhorado depois. Daqui tiramos urna vista panorâmica do rio, tranquilo e azulado.
E desçamos, cortando ainda a Feira da Ladra.

Jardim de Santa Clara ou Jardim Botto Machado [c. 1930] 
Em frente aos Palácios Lavradio e Sinel de Cordes
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Esta parte baixa do Campo de Santa Clara intitula-se desde há poucos anos Praça Dr. Bernardino António Gomes, que foi notável médico da Marinha de Guerra, e cujo busto, sobre plinto, se ergue no centro da Praça, diante do Hospital, de que êle foi Director. Êste médico, verdadeiro homem de ciência, foi querm em Portugal aplicou pela primeira vez a anestesia pelo clorofórmio (1848).

Campo de Santa Clara  [1929]
Do lado esq. vê-se a cortina do Jardim de Santa Clara ou Jardim Botto Machado (1865)

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Baptizado, em 1865, com o nome de Botto Machado em homenagem ao político português Pedro do Amaral Botto Machado. Pequeno espaço verde municipal, gradeado e com ruas asfaltadas com um estrato arbustivo e arbóreo bem desenvolvido. 
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 77-78, 1939.
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