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Friday, 21 June 2024

Rua Luz Soriano com a Travessa dos Fiéis de Deus: Palácio Ficalho

Palácio setecentista(?), casa nobre dos Condes de Ficalho, um edifício enorme, de largas janelas, pintado de cor-de-rosa, estendendo-se ao longo de três grandes blocos entre as ruas Luz Soriano, 47-53, dos Caetanos, 19-20, e Travessa dos Fiéis de Deus, 92-106. 
Rezam as crónicas que no solarengo palácio dos Melos de Serpa, "aos Caetanos", a condessa de Ficalho reunia a fina flor da elegância em certos dias da semana (segundas-feiras). Beneficiou de restauros no decorrer dos séculos XVIII e XIX.

Rua Luz Soriano com a Travessa dos Fiéis de Deus |ant. 1900|
Palácio Ficalho (esq.)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): data e local da foto não estão identificados no abandalhado arquivo da cml.

Biografia arquitectónica do Palácio Ficalho: fundação num momento posterior a 1603; reconstrução na sequência de um projecto de 1882; separação do módulo da Rua Luz Soriano c. 1940; intimação camarária à realização de obras em 1968 desencadeada pela Polícia Municipal; projecto (não completamente concretizado nas partes exteriores) de profundas alterações, visando a “divisão do prédio [de 1600 m2] em várias habitações independentes, funcionais e de dimensões razoáveis (…)” (Arquitecto Manuel de Mello, 1980).
É, actualmente — do pouco que conserva da sua coerência arquitectónica de outrora — , composto por apartamentos de luxo.

Rua Luz Soriano |1968|
Palácio Ficalho
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Saturday, 26 November 2016

Palácios do Calhariz: Palácio Calhariz-Palmela e Palácio Sobral

O Largo do Calhariz é um troço da seiscentista Estra da Horta Navia, também denominada Estrada de Santos e este topónimo deriva da existência no local da residência dos Morgados do Calhariz, conforme relata Norberto Araújo:

Encontramo-nos na artéria conhecida em tôda a Lisboa pelo «Calhariz», rua e sítio dêste título, e que tem origem no Palácio dos «Sousas Calharizes», como diz o vulgo e como se encontra em livros antigos. É este edifício, à direita, com um pequeno jardim adjacente, e que ocupa todo o quarteirão confinado entre as Ruas do Calhariz, da Atalaia, Travessa das Mercês e Rua da Rosa.
Oferece, como vês, um certo ar nobre, de transição do estilo solarengo velho para o tipo palaciano do século XVIII. É elegante o portão ladeado por duas colunas dóricas, cujo entablamento suporta a varanda de balaústres, única sacada do primeiro andar. As sete janelas de sacada de cornija saliente do andar nobre, que é o segundo, dão ao prédio uma harmonia e distinção invulgares aos edifícios desta construção. O pequeno jardim é gracioso e foi construído depois de edificado o palácio, ocupando o lugar de uma serventia que daqui saía, e que erra o prolongamento da Rua da Trombeta, que ainda se continua nas traseiras até a Fiéis de Deus, serventia vendida pela Câmara de Lisboa a D. Pedro de Sousa Holstein. por um conto de réis...

Palácio Calhariz-Palmela [ant. 1900]
Rua da Atalaia (dir.); Largo do CalharizRua da Rosa (ao fundo à dir.)
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

O palácio foi mandado erigir em 1703 pelo Morgado do Calhariz, D. Francisco de Sousa (1631- 1711). O edifício, além de moradia ducal — relembra Norberto de Araújo (1938) — tem sido de tudo um pouco: aqui esteve a Academia Real de Fortificações que precedeu a Escola do Exército e Escola Militar, em 1796 e em 1811, a Câmara Eclesiástica até 1830, a Contadoria Geral das Tropas, o Ministério dos Estrangeiros (em 1882), a Liga Naval até há poucos anos [o autor escreve em 1938], etc., ocupando quaisquer destas instituições parte do edifício, ou, por vezes, talvez todo.
Festas deslumbrantes viu o Palácio desenrolar-se nos salões, cujo recheio de arte era precioso.

Palácio Calhariz-Palmela [1929]
Rua da Atalaia (dir.); Largo do Calhariz; Rua da Rosa (ao fundo à dir.)
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Sofreu restauros e ampliações em 1843-44 dirigidas pelos artistas italianos Rambois e Cinatti,  e uma anexação ao Palácio Sobral em 1956, destruindo as obras oitocentistas (jardim e pavilhão), prolongando o corpo principal do edifício até à Rua da Atalaia, depois de em 1947 os Morgados do Calhariz, entretanto criados Duques de Palmela, o terem vendido à Caixa Geral de Depósitos para lhe servir de sede. Em 1969 está em curso a obra do passadiço sobre arco (sobre a Rua da Rosa) de ligação entre os dois palácios.
Sofreu obras de recuperação em 1997 com projecto dos arqs. Dante Macedo, Conceição Macedo e José Afonso, para albergar a Companhia de Seguros Fidelidade, o que lhe valeu a atribuição do Prémio Eugénio dos Santos referente a esse ano.

Palácio Calhariz-Palmela onde está a Caixa Geral de Depósitos,  e, ao fundo, o Palácio Sobral [1966]
Largo do Calhariz; Rua da Atalaia; Travessa das Mercês; Rua da Rosa; Rua Luz Soriano
Armando Serôdio, 
in Lisboa de Antigamente

Acerca da história do primitivo Palácio Sobral [vd. 4ª imagem] diz Norberto de Araújo: «Reconstruído modernamente — fora levantado entre 1770 e 1780, por Joaquim Inácio da Cruz Sobral, de quem descenderam os Condes de Sobral, que, para erguer o palácio, comprou o velho prédio aqui existente, pertencente a Lázaro Leitão Aranha, rico e erudito Principal da Sé, que nele fez reunir a famosa Arcádia em 1764.»
Outro ilustre olisipógrafo — mestre Júlio Castilho — apresenta uma descrição pormenorizada do antigo palácio do século XVIII na sua Lisboa Antiga (1903):
Formava o palácio um vasto paralelogramo, com a frente principal de 130 palmos (uns 29 metros e tanto) sobre a Rua Direita, ou Largo do Calhariz, a oposta sobre a Travessa das Mercês, a ocidental sobre a Rua do Carvalho [hoje Luz Soriano], e a oriental sobre a [Rua] da Rosa.

Palácio Calhariz-Palmela [post. 1901]
 Largo do Calhariz; Rua da Atalaia (ao fundo à dir.); nota para os elegantes mirantes.
Alberto Carlos Lima, 
in Lisboa de Antigamente

A fachada sobre o Calhariz era dividida em três corpos, sendo os laterais separados do central por pilastras correspondentes ás dos cunhais, e terminando ambos em feitio de torres sobrepujadas de mirantes elegantíssimos.
No corpo central dois grandes portões de entrada ornamentados, e por cima duas filas de sacadas, sendo mais nobres e altas as do andar superior.
Na aresta dos dois cunhais viam-se as Armas, que eram: escudo cortado; o 1.° de azul, cinco estreitas de seis pontas, de oiro, postas em cruz; o 2.º de prata ondado de azul; bordadura de vermelho, com as palavras Nomen honorque meis em letras de oiro. Elmo; timbre: cão de prata com coleira de vermelho, e chave de oiro na boca.
Os portões abriam para duas vastas lojas em forma de corredores, que ambas desembocavam no grande pátio, onde as carruagens davam volta, entrando por um portão e saindo pelo outro.
Ao fundo desse pátio, no interior da parte do edifício que deitava para as Mercês, ficava a entrada monumental de quatro degraus conduzindo aos vinte e dois da escadaria, bifurcada para a direita e para a esquerda em dois outros lanços, que levavam ao andar nobre, onde eram as salas.

Gravura do Palácio Sobral, no Calhariz [séc. XVIII]
in Lisboa Antiga (1903)

Em 1887, o Palácio Sobral é adquirido «por 50 contos e pico» pelo Estado para instalação da Caixa Geral de Depósitos, e de imediato, se iniciam obras de recuperação e remodelação. Em 1969, depois de uma reconstrução total, procede-se à uniformização das fachadas e efectua-se a ligação por arco dos dois paláciosCalhariz-Palmela e Sobralhoje Edifício da Caixa Geral de Depósitos, CGD, do Calhariz.
____________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 22-26, 1938.
 Lisboa antiga, Júlio de Castilho, 1903, vol. III, p. 26.
 cm-lisboa.pt/toponimia; monumentos.pt.

Monday, 9 November 2015

Palácio do Cunhal das Bolas

É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o Sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

O Palácio do Cunhal das Bolas foi construído no séc. XVI por um judeu abastado, subsistindo da sua construção primitiva dois cunhais incompletos com decoração de pedra relevada em meias esferas, no sentido de representar pomos de ouro, inserida nos conceitos arquitectónicos da época (Casa dos Bicos, Casa das Conchas). Pensa-se que as ''bolas'' teriam sido pintadas a ouro, no entanto o tempo encarregou-se de fazer desaparecer a pintura.

Palácio do Cunhal das Bolas [c. 1900]
Rua de São Boaventura com a Rua Luz Soriano
Hospital de S. Luís (Asile de Saint-Louis)
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

No séc. XVII, o palácio era propriedade da família Melo e Castro e o Conde da Ericeira, seu inquilino, em 1696, converteu-o em local de tertúlias culturais e literárias. Depois de ter acolhido, no início do séc. XIX, o Geral do Cunhal das Bolas, estabelecimento de ensino secundário, e o Colégio de Madame Lima, é em finais do século, convertido no Hospital de S. Luís, função que mantém até hoje. De salientar que as intervenções sucessivas de que o imóvel foi objecto desde o séc. XVII ao XX não alteraram as suas características arcaicas predominantes na tipologia erudita da construção, conservando o palácio o acesso principal por um pátio, a formação de corpos de construção separados e a harmonia ritmada dos vãos nas fachadas do palácio conserva a "harmonia ritmada" dos vãos".
(SANTANA e SUCENA Dicionário da História de Lisboa, 1994)

Palácio do Cunhal das Bolas  [1959]
Rua Luz Soriano
Hospital de S. Luís (Asile de Saint-Louis)
Fernando Jesus Matias, in Lisboa de Antigamente

Em 1866 D. Maria-Rosa de Melo e Castro vendeu o Palácio ao Governo Imperial Francês para lá ser instalado o Asyle de Saint-Louis e, que ainda hoje é o Hospital de S. Luís dos Franceses.
Foi aqui, no quarto 30, que morreu Fernando Pessoa a 30 de Novembro de 1935. Neste local escreveu o poeta intemporal as suas últimas palavras, que estão afixadas numa placa no muro desta instituição:

«I know not what tomorrow will bring» 
(Não sei o que o amanhã trará) 



Thursday, 20 October 2016

Local do antigo Cemitério das Mercês

Aqui temos à esquina da Travessa das Mercês o prédio, alindado há meia dúzia de meses [1939], feitio prático de oficina e de estabelecimento industrial, e que constitue a Fábrica União, de espelhos e vidros pulidos. Dispõe de três fachadas: Luz Soriano, Travessa das Mercês, Rua dos Caetanos.
Pois é precisamente a área ocupada pelo antigo Cemitério das Mercês. «Vê-te neste espelho» — dizem os mortos aos vivos. E aí temos uma fábrica de espelhos no sítio do antigo Cemitério. Mas não tão recuado que não existissem dêle vestígios ainda há quarenta anos — ante ontem... 

Travessa Mercês com a Rua dos Caetanos [1932]
Fábrica União, local do antigo Cemitério das Mercês

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Como particularidade — e só por isso o evoco — digo-te que aqui foi enterrado Manuel Maria Barbosa du Bocage, que morreu a dois passos na Travessa André Valente a 21 de Dezembro de 1805. Foi seu companheiro, vizinho de tumba, o que fôra também um pouco seu par na vida: Nicolau Tolentino.
(...) Os vestígios do cemitério — que findara sua missão em 1834 — desapareceram então de todo, e as ossadas - eram sessenta e nove as lousas, sendo a do Poeta a n.° 36 - levaram-nas para a vala comum do Alto de S. João ou dos Prazeres.

Travessa Mercês com a Rua Luz Soriano [1932]
Fábrica União, local do antigo Cemitério das Mercês

Fotógrafo não identificado, iin Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VI, pp. 43-44, 1938.

Sunday, 3 November 2019

Igreja de São Luiz, dos Franceses

Neste pedacinho [da Rua das Portas de Santo Antão] até à Anunciada do Convento das dominicanas, erigido sobre a casa dos agostinhos de Santo Antão de 1400 — e eis a razão do nome da rua — chegaram a contar-se sete palácios, desde o dos Condes de Almada, a par de S. Domingos, até ao dos Condes da Ericeira, passando pelo primeiro dos Castelo Melhor, pelo dos Pais do Amaral Barberini, pelos do Conde de Povolide e dos Morgados de Oliveira. Igrejas, só uma, a de S. Luiz, dos franceses, que recua a 1552, e ali está ela ainda, com as suas flores de lis e as armas dos Bourbons sobre o pórtico.


Eis-nos defronte da pequena Igreja de S. Luiz, dos franceses — diz Norberto de Araújo — , erecta extramuros, e que teve contíguo um Hospital, de certo modo no século passado [XIX] substituído pelo «Asyle de Saint-Louis» — Hospital de S. Luiz — na Rua Luz Soriano.

Rua das Portas de Santo Antão |1909|
Igreja de São Luiz, dos Franceses; Palácio Alverca (Casa do Alentejo)
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

É simples a fachada, na qual apenas o pórtico, com as armas dos Bourbons e o escudo da flor de lis, tem algum interesse arquitectónico.
Na sobreporta ali vês a legenda latina, que afirma, na tradução, que «a S. Luiz foi dedicado este templo pelos franceses habitantes nesta real cidade, no ano do Senhor de 1552. Conclui-se e acrescentou-se em 1622».
Parece, porém, que a inscrição não é de todo exacta ou suficientemente explicita. Eu julgo — talvez — mais acertada a versão de que a Confraria é que foi criada em 1552, instalada na Ermida de N. Senhora da Oliveira a S. Julião, onde estaria ainda em 1558, começando em 1563 a construir-se o templo neste lugar, concluído em 1572, na sua primeira fase. A reconstrução ampliada é que será de 1622.
Depois do Terramoto voltou esta Igreja a receber benefícios (1766), aliás repetidos sumariamente no século passado.

Igreja de São Luís dos Franceses |c. 1914|
Perspectiva tomada da Travessa  de Santo Antão
Beco de São Luís da Pena, 34-34A; Rua das Portas de Santo Antão
Por cima da inscrição da fachada atrás transcrita vêem-se as armas dos Bourbons;
o escudo da flor de liz, tendo por suporte dois anjos. O escudo é circundado por
dois colares dax ordens francesas, sendo o inferior o da ordem do Espírito Santo.
[Castilho: 1935]
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Interiormente a Igreja de S. Luiz, muito ao tipo francês, pouco oferece de notável; não posso dela dar uma resumida descrição que seja — como o tenho feito de uma centena de igrejas e ermidas de Lisboa — porque, nos meus passos de ensaio, não me foi consentido tomar notas e colher informações directas, o que registo sem acrimónia embora com estranheza.
Posso dizer que o altar-mór e as capelas colaterais no corpo da igreja foram construídos em Genebra, por um artista italiano; são em mármore de Carrara [Pasquale Bocciardo (1705-1791)].
E pois que interessa à iconografia de Lisboa anotemos êste grande quadro, à esquerda da parede no corpo da Igreja. É uma «Vista de Lisboa», da primeira metade de seiscentos, muito deteriorada.
O terreno da cortina defronte de S. Luiz, sobre a Rua, pertence à Igreja; os seus três estabelecimentos são deste século.

Igreja de São Luís dos Franceses |c. 1914|
Perspectiva tomada da Rua do Jardim do Regedor
Beco de São Luís da Pena, 34-34A; Rua das Portas de Santo Antão
Tinha esta igreja uma cruz no adro; em Junho de 1887 oficiou a Câmara Municipal ao capelão
para ser removida a dita cruz. [Castilho: 1935]
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente
 
N.B. No século XIX o imóvel passa para a posse do Estado Francês e em 1882 é instalado o órgão realizado em Paris por Aristide Cavaillé-Coll. No andar superior, em três salas, funcionava o hospital de São Luís, da Confraria do Bem-aventurado São Luís, que socorria todos os franceses pobres e necessitados de auxílio médico.
___________________________________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 207.
ibid, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 102-103, 1939.
SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo. Dicionário da História de Lisboa, pp. 808-810, 1994.

Sunday, 2 July 2017

Profissões de Antanho: o rendeiro

É  considerado vendedor ambulante, o indivíduo que por conta própria ou alheia, vende pelos lugares do seu trânsito os objectos do comércio que exerce, a quem .aparece a comprá-los, e não um indivíduo que, por conta própria ou alheia, distribui os objectos do seu comércio por clientes certos e determinados, conforme instruções recebidas do respectivo estabelecimento comercial. 

(Portaria n.º 4.887 de 6 de Maio de 1927)


A classe de mais valor, era noutro tempo, a dos profissionais, da qual faziam parte: vendedores, que numa giga traziam vários cestos pequenos, com boa fruta., e na outra, boa. hortaliça, isto é, tudo o que traziam, era bom, pelo que, vendiam mais caro.

Profissões de Antanho: o rendeiro |1907|
Rua dos Caetanos
Largando para o negócio
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Uma outra, a dos rendeiros (espanhóis de origem) — que eram o encanto das noivas e das donas de casa — que também se dividia em duas partes. A primeira composta por vendedores de bordados, rendas, mantilhas, écharpes, sedas, etc., que eram transportadas em fardo, a dorso, e a segunda, composta por vendedores (homens ou rapazes) portugueses que apenas vendiam, uma ou duas qualidades de rendas ou fitas, que traziam estendidas em um dos braços, apregoando o preço de cada metro, acompanhando sempre o ·pregão, da frase: «é p'rácabar, ou «é mais barato que na «loje»

Profissões de Antanho: o rendeiro [|907|
— A vintém o metro, mais barato não há!
— Que tentação...
— Quantos metros vão ser, freguesa?

Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente
Profissões de Antanho: o rendeiro |1907|
Travessa dos Inglesinhos com a  Rua Luz Soriano; ao fundo a Rua da Atalaia
— Então? Vendeste muito?
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O espanholito passa, curvado, sob o fardo coberto de riscado azul e enfiado no metro. Aos bandos pelas ruas, os pequenos espanhóis da Extremadura, com a mão espalmada ao canto da boca, atiravam o pregão "Saiotes, manas, saiotes!", "a vintém o metro não há nada mais barato". É um delírio cor-de-rosa afogado num oceano de rendas. "Rendas! Rendas! Rendas baratas!".

Profissões de Antanho: o rendeiro |1907|
Rua dos Caetanos
Já se pode descansar «un rato!»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Illustração Portugueza, 1907.
LOPES, Alfredo  Augusto,  Boletim do Grupo «Amigos de Lisboa», 1943.

Friday, 22 August 2025

Travessa dos Inglesinhos com a Rua da Atalaia

Esta artéria do Bairro Alto que liga Rua da Atalaia à Rua dos Caetanos tem o seu topónimo – Travessa dos Inglesinhos – devido à existência no local do Colégio de São Paulo e São Pedro, conhecido como Convento dos Inglesinhos, que entre 1632 e 1644 foi erguido em terras doadas por D. Pedro Coutinho.
Após o Ultimatum inglês de 1890, a população alfacinha passou a apelidar esta artéria como “Travessa dos Ladrões”; o mesmo com a Rua da Estrela ou a devido a presença do Cemitério dos Ingleses[Machado: 1998]

Travessa dos Inglesinhos com a Rua da Atalaia |1923|
Sede da Associação de Classe das Empregadas Domésticas de Hotéis e Casas Particulares de Lisboa.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): A Travessa do Enviado de Inglaterra, a Santa Marta, foi apelidada pelos populares como a “Travessa do Diabo que o Carregue”, por existir neste local um palacete onde habitou o Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário, Lorde Robert Stephen Fitzgerald (1765-1833), entre 1802 e 1806.
 
Travessa dos Inglesinhos |1902|
Quarteirao entre as Ruas Luz Soriano e da Rosa tendp ao fundo a Rua da Atalaia.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente


Friday, 9 May 2025

Largo do Calhariz

Calhariz (largo do) fica entre as ruas do Loreto, Chagas, Atalaya, Roza, Cruz de Pau, e calçadas da bica de Duarte Bello e Combro, freguezias da Encarnação 26 a 34, Santa Catharina A a 21, Mercês 22 a 25. 
Está n'este largo o palacio do Duque de Palmella [Palácio Calhariz-Palmela], que se torna digno de ser visto pelas bellas pinturas que contêem as salas. [Velloso: 1869]

Largo do Calhariz |1924-04|
Rua da Bica de Duarte Belo; Palácio Valada-Azambuja.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda no arquivo: «Greve dos padeiros em Abril de 1924. Uma 'bicha' numa padaria 'Aliança»
Nota(s): local da foto não está identificado no arquivo.

O Largo do Calhariz — diz Júlio de Castilho — toma o nome do antigo senhor do palácio [dos Sousas Calharizes], que era o primogénito destes Sousas, senhor da quinta célebre do Calhariz, perto de Azeitão. Chamavam-lhe a ele o Calhariz, como hoje se diria o Palmela, o Loulé, o Fronteira. Logo, vemos que essa denominação lisbonense da rua, ou largo, não passa além dos primeiros anos do século XVII. [Castilho: 1937]

Largo do Calhariz |1922-08-13|
Rua Luz SorianoPalácio Calhariz-PalmelaRua da Atalaia.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda no arquivo: «Um aspecto da Greve Geral em Lisboa»
Nota(s): local da foto não está identificado no arquivo.

Sunday, 31 March 2019

Praça Afonso de Albuquerque

Praça com forma quadrangular, rematada a sul pelo Tejo e pelo antigo cais e a norte pelo Palácio de Belém. É um espaço com zonas ajardinadas, ladeadas por sebes, tendo algumas árvores como o lódão e o pinheiro-manso. Esta praça — até 1910 denominada «Dom Fernando» — era o antigo areal onde ancorava o Real Cais de Belém, assentando a estátua no local onde se situava o cais de D. João V.


Mas antes de tocarmos o primeiro edifício a visitar  — recorda o ilustre Norberto de Araújo —  rendamos aqui na sua Praça de Afonso de Albuquerque uma homenagem ao arrabaldino bairro, que foi praia do Restelo, e na qual o aziago velho, cuja legenda fatalista ao Destino coube contrariar, murmurava numa manhã de Julho de 1497, de parceria com os sinos da Ermida, quando as naus se foram à cata da índia:

Tão balalão...
Quantos lá vão
que não voltarão!

Praça Afonso de Albuquerque |1902|
Por Edital de 5 de Novembro de 1910 a Praça D. Fernando passou a denominar-se Praça Afonso de Albuquerque, com início na confluência da Rua da Junqueira, Calçada da Ajuda, Rua de Belém e Avenida da Índia.
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Vamos ver, de-perto, essa estátua-monumento a Afonso de Albuquerque; é das mais expressivas de Lisboa nas suas legendas a relevo, já que não podemos dizer das mais belas.

Deve-se a Simão José da Luz Soriano, escritor e benemérito, a iniciativa de se erigir um monumento a Afonso de Albuquerque-a iniciativa e os fundos para a realização (35 contos legados em testamento). O escultor Costa Mota e o arquitecto Silva Pinto, após concurso público, foram encarregados de pôr de pé o seu projecto; foi o monumento inaugurado em 3 de Outubro de 1902, na presença da família real, enquanto uma divisão naval, composta dos cruzadores «D. Carlos›, «D. Amélia» e «S. Rafael», e da canhoneira «Sado› e da velha corveta «Duque da Terceira», salvaram cem 21 tiros. A estátua foi fundida na velha «Fundição de Canhões» onde se conserva o modelo.O mais valioso deste monumento é constituído pelos baixos relevos com passos da vida do vice-rei da Índia: a entrega das chaves de Goa, a derrota dos mouros na ponte da Malaca, Afonso de Albuquerque recebendo o embaixador do rei de Narcinga, e a resposta de Albuquerque ante a proposta daquele embaixador: «é esta a moeda com que o rei de Portugal paga os seus tributos».

Inauguração do monumento a Afonso de Albuquerque |1902-10-03|
Praça Afonso de Albuquerque antiga de D. Fernando
O monumento inaugurado na presença da família real.
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

No segundo corpo do monumento são também de interesse escultórico os altos relevos figurando caravelas e galeões; os quatro anjos assentes no ângulo da base do monumento são decorativos. Como vês, o conjunto manuelino do monumento não é desagradável. A figura do herói, contudo, tão alta está que se não vê.

Praça de D. Fernando |post. 1902|
Por Edital de 5 de Novembro de 1910 a Praça D. Fernando passou a denominar-se Praça Afonso de Albuquerque.
Postal - Ediçao F A. Martins

Bibliografia
Belém de Isabel Corrêa da Silva e Miguel Metelo de Seixas, ed. Junta de Freguesia de Sta. Maria de Belém, 2000.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 68-69. 1939.
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