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domingo, 18 de setembro de 2016

O Largo de Arroyos e a sua Sopa

Este Largo era um verdadeiro acampamento, entre dois ou três palácios que assistiam indiferentes à cena. Mas era aqui o Largo do Cruzeiro. O padrão-cruzeiro é uma homenagem de D. João III e do senado da Câmara à memória da Rainha Santa Isabel, medianeira das pazes entre D. Afonso IV e D. Dinis prestes a entrarem em batalha no campo de Alvalade.1


O Largo de Arroios, anteriormente designado por Largo do Cruzeiro ou do Cruzeiro de Arroios, também se tornou célebre no começo do século XIX, pelas cenas populares de que foi teatro, por ocasião da terceira invasão francesa, em 1810. Encheu-se a capital, de gente fugida das diferentes terras do Reino, ao aproximar-se o exército de Massena.
Cinquenta mil pessoas, aproximadamente, entraram, por essa ocasião em Lisboa, sem contar as que ficaram nas vilas e aldeias suburbanas.

[Sopa de Arroios] Largo de Arroios, gravura [c. 1813]
No último plano, a Calçada de Arroios e a antiga Estrada das Amoreiras (Rua Carlos José Barreiros) e o antigo Palácio do Conde da Guarda;  ao lado deste a Bica nº 1 ou Chafariz de Arroios; defronte do palácio vê-se o célebre Cruzeiro de Arroios resguardado por um pavilhão envidraçado, cujo telhado piramidal descansava em pilares de cantaria. Este Cruzeiro foi erigido no reinado de D. João III, para comemorar a beatificação da Rainha Isabel de Portugal; no primeiro plano, à direita, o Palácio dos Senhores de Pancas hoje demolido.
Desenho de SEQUEIRA, Domingos (1768-1837). Gravura em buril e água forte por QUEIROZ, Gregório, in Lisboa de Antigamente

 Era necessário acudir a estes infelizes. Os governadores do Reino, o Senado da Câmara e diversos cidadãos beneméritos, organizaram várias obras sociais, entre as quais, a distribuição diária de sopas económicas, que se serviam em vários locais, onde se estabeleciam acampamentos improvisados.
 
Largo de Arroios [c. 1950]
À esquerda, a Calçada de Arroios e, ao centro, a Rua Carlos José Barreiros (antiga Estr. das Amoreiras) e o antigo Palácio do Conde da Guarda; ao lado deste a antiga Igreja de Arroios (1828-1970) e Rua Alves Torgo (antiga Estr. de Sacavém).
Judah Benoliel,
in Lisboa de Antigamente
 
O Largo de Arroios, pela sua área e também porque ficava perto de uma das entradas da cidade, foi igualmente escolhido por muitos infelizes que se estendiam a descansar em redor das poucas bagagens de que dispunham. Aí se fazia a distribuição da sopa, o que inspirou a Domingos António Sequeira, contemporâneo destes acontecimentos e morador no Largo de Arroios, o seu conhecido e excelente desenho, «Sopa de Arroios», de que, depois, Gregório Fernandes de Queiroz, discípulo do célebre Barrolozzi, fez uma boa gravura, tendo os contornos das figuras, sido abertos pelo próprio Domingos Sequeira.2

Largo de Arroios [1968]
À esquerda, a Calçada de Arroios e, ao centro, o antigo Palácio do Conde da Guarda.
Armando Serôdio,
in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 82, 1938.

2 Revista Municipal, nº 85 de 1960.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Rua de Arroios

Era para os lados de Arroios, adiante do Largo de Santa Bárbara; lembrava-se vagamente que havia ali uma correnteza de casas velhas... Desejaria antes que fosse numa quinta, com arvoredos murmurosos e relvas fofas; passeariam as mãos enlaçadas, num silêncio poético; e depois o som da água que cai nas bacias de pedra daria um ritmo lânguido aos sonhos amorosos... Mas era num terceiro andar — quem sabe como seria dentro?

(QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio,  1878)


Rua de Arroios  [1961]
Perspectiva tirada junto ao nº 120 na direcção do Largo de Santa Bárbara
Arnaldo Madureira,
in Lisboa de Antigamente
 
Antiga Rua Direita de Arroios, antes troço da Rua Direita dos Anjos e Rua Direita de Arroios. A Calçada de Arroios tal como a Rua de Arroios perpetuam na memória de Lisboa a ligação ao antigo sítio de Arroios, que indica regato e indica um local de hortas verdejantes. [cm-lisboa.pt]

Rua de Arroios  [entre 1901 e 1908]
Perspectiva tirada junto ao nº 1oo na direcção do Largo de Arroios
Machado & Souza,
in Lisboa de Antigamente

— É verdade, onde ias tu a Arroios?

Luísa passou devagar as mãos sobre o rosto para lhe cobrir a alteração. Disse, bocejando ligeiramente:

— A Arroios?

— Sim. O Saavedra, um sujeito que estava em casa do Conselheiro, diz que te via passar todos os dias para lá, de trem e a pé.

(QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Bica ou Chafariz de Arroios

Uma das mais belas curiosidades arqueológicas do sitio — desapareceu há três anos [c. 1935]. Já cá não está, e é pena. Mas vale um meio minuto de descrição.


Na velha Estr. das Amoreiras, antes da Charneca, havia voltada a Leste, uma graciosa bica ou chafariz — modesta é certo, mas histórica. Viam-se nela esculpidas as armas da cidade com seu navio, e as do Reino, com seu castelo e quinas. Tinha uma legenda que testemunhava ser a obra de 1624, mandada fazer pela «cidade à custa do Real d'Água». E por cima da vêrga que levava a mina viam-se duas inscrições, uma em letra gótica e outra em tipo corrente de inscrição, mas afirmando ambas que «na era de 1398 teve princípio esta fonte no campo de Lourenço Afonso Costas [thesoureiro do Concelho, sendo escrivão d'elle, Lourenço Duraens e mestre pedreiro do mesmo Concelho João Gialdi]». 

Bica ou Chafariz de Arroios [c. 1900]
Largo de Arroios, antiga Estrada das Amoreiras hoje Rua Carlos José Barreiros
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Até 1848 esse chafariz, n.º 1, estava colocado na frente do prédio referido atrás que foi Palácio do Conde Guarda [vd. gravura]; depois mudaram-no para outro local, a poucos metros, onde a pobre bica acabou (1935) os seus dias: exactamente o sítio da porta 3-A do prédio novo da Rua Carlos José Barreiros.
E podia ter lá ficado, encravada no edifício, e a valorizá-lo, a Bica de Arroios. Era das mais velhas fontes de Lisboa. Foi pena, repito-te. Talvez que agora nos matasse a sede, numa evocação gótica como a legenda de Arroios de há 550 anos.1

Largo de Arroios, gravura [c. 1813]
No último plano, a Calçada de Arroios e a antiga Estrada das Amoreiras (Rua Carlos José Barreiros) e o antigo Palácio do Conde da Guarda;  ao lado deste a Bica nº 1 ou Chafariz de Arroios; defronte ao palácio vê-se o célebre Cruzeiro de Arroios resguardado por um pavilhão envidraçado, cujo telhado piramidal descansava em pilares de cantaria. Este Cruzeiro foi erigido no reinado de D. João III, para comemorar a beatificação da Rainha Isabel de Portugal; no primeiro plano, à direita, o Palácio dos Senhores de Pancas hoje demolido.
[Sopa de Arroios] Desenho de SEQUEIRA, Domingos (1768-1837). Gravura em buril e água forte por QUEIROZ, Gregório, in  Biblioteca Nacional Digital

Por determinação camarária, de 9 de Março de 1848, passou a Bica de Arroios para o princípio da Estrada das Amoreiras (hoje Rua Carlos José Barreiros), a pedido do proprietário do Palácio do Conde da Guarda, Desembargador João Lopes Calheiros de Meneses, que contribuiu com a quantia de 48$000 réis. A primeira água veio a correr em 6 de Dezembro de 1848, sendo os sobejos concedidos ao Palácio dos Senhores de Pancas, mediante o foro anual de 50 réis. Possuía duas torneiras onde o povo e os aguadeiros se abasteciam e, da parte de baixo, uma bica [de água salobra] corria continuamente para um grande tanque, que servia de bebedouro para o gado.
Crê-se que as pedras de maior valor, tanto as inscrições como o escudo e a caravela, recolheram ao Museu das Galveias. 2
3

O prédio da Rua Carlos José Barreiros, antiga Estrada das Amoreiras, que tem actualmente o n.º 3, em cuja frente estava colocada a mencionada bica ou chafariz de Arroios [c. 1950]
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia:
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 85)
2 Revista Municipal, nº 50 de 1951, p. 10, in Hemeroteca Digital)
3 idem nº 85 de 1968, p. 20)

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Rua de Arroios — antiga Rua Direita de Arroios

A Rua de Arroios, tal como a Calçada de Arroios, perpetuam na memória de Lisboa a ligação ao antigo sítio de Arroios, que significa regato e local de hortas verdejantes — com “arvoredos murmurosos e relvas fofas”, refere Eça de Queiroz n’O Primo Basílio, em 1878.


Vês este prédio moderno na esquina da Rua Francisco Foreiro (também nova) e da Rua de Arroios onde tem os n.ºˢ 46 a 48, e que é hoje uma serração de madeiras?  — interpela-nos o ilustre Norberto de Araújo. Pois foi, até 1916(?), a famosa Fábrica de Cervejas «Leão», que refrescou não apenas nossos pais, mas também nossos avós. Tinha então um pátio grande, que ainda hoje se desenha, alterado na fisionomia; eram casas e terrenos dos Condes de S. Miguel.⁼⁼
[ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 79-81, 1938]

Rua de Arroios |194-|
Antiga Rua Direita de Arroios, antes troço da Rua Direita dos Anjos e Rua Direita de Arroios
À dir., em primeiro plano na esquita com a Rua Francisco Foreiro, vê-se um prédio no sítio onde foi a Fábrica de Cerveja Leão, que anteriormente tinha sido o palácio do Conde de São Miguel, à esquerda, em segundo plano, a fábrica de Lanifícios de Arroios, onde foi o palácio dos Condes de Mesquitela.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

sábado, 14 de novembro de 2015

Convento e Igreja (Hospital) de Nossa Senhora da Conceição de Arroios

Construído em 1705 a partir do financiamento de D. Catarina de Bragança, filha de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão, funcionou até 1755 nesse espaço conventual o colégio de formação dos Jesuítas, tomando o nome de colégio de São Jorge de Arroios.
Resistiu ao terramoto de 1755 mas não à expulsão dos Jesuítas em 1759, altura em que Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal (1769), determinou a ocupação do convento pelas freiras Concepcionistas Franciscanas, ficando o espaço a ser conhecido por convento de Nossa Senhora da Conceição de Arroios.

Panorâmica do Convento de Nossa Senhora da Conceição de Arroios [s.d.]
Ao longe, o cabeço da Penha de França

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O convento ficou devoluto em 1890, ano em que morreu a última freira e em 1892, o Estado decidiu que o seu espaço fosse convertido em hospital e ficasse sob a administração do Hospital Real de São José. Foi então determinado que funcionasse um hospital de isolamento para doentes com peste bubónica, cólera, varíola, lepra e tuberculose.

Convento de Nossa Senhora da Conceição de Arroios [séc. XIX]
Rua Quirino da Fonseca, antiga Estrada de Sacavém

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A partir de 1898, o antigo convento tomou o nome de Hospital Rainha Dona Amélia e destinou-se somente ao tratamento e prevenção da tuberculose, para em 1911 após a Implantação da República se passar a chamar Hospital de Arroios. Funcionou até 1993, altura em que foi definitivamente desactivado, encontrando-se actualmente devoluto.

Hospital de Arroios [1961]
Avenida Almirante Reis; Praça do Chile
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
 
A fachada principal da igreja, desenvolvida em 3 andares, rasgada por portal armoriado com as armas de Portugal e Inglaterra, é rematada por uma estrutura tripartida de frontão axial com nicho exibindo a imagem de Nª Senhora da Conceição, ladeada por duas torres sineiras.

Igreja do Convento de Nossa Senhora da Conceição de Arroios [c. 1930]
Rua Quirino da Fonseca, antiga Estrada de Sacavém

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Foi na igreja do convento que permaneceram os restos mortais do Marquês de Pombal trasladados do convento de Santo António de Coimbra, antes de serem transportados para a Igreja de Nossa Senhora das Mercês. 
(SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo (dir.), Dicionário da História de Lisboa, 1994, pp. 93, 441-442)

Igreja (Hospital) de Nossa Senhora da Conceição de Arroios, brasão [1964]
As armas que sobrepujam o pórtico são as da Rainha protectora D. Catarina.
de Bragança.
F. Gonçalves, in Lisboa de Antigamente
 

domingo, 26 de julho de 2015

Igreja de S. Jorge de Arroios

Esta igreja terá sido erguida entre 1820-1828, depois da anterior ter ficado destruída pelo sismo de 1 de Novembro de 1755. Foi demolida por volta de 1970. Eis como a descreve o mestre Norberto de Araújo nas suas «Peregrinações em Lisboa»:
   "Na sua simplicidade, fachada banal com uma única porta e com três janelas envidaraçadas, tudo liso, apenas com um apontamento arquitectónico nas pilastras de ordem jónica —  é esta a Igreja de S. Jorge de Arroios. Podemos fazer-lhe uma pequena visita.
   S. Jorge de Arroios é uma das mais pobres igrejas de Lisboa embora, cheia de claridade, e — simpática. Possue uma única nave. Ostenta quatro capelas laterais: do lado esquerdo, a começar da entrada do templo, a primeira capela é de S. Miguel, N.ª S.ª do Carmo e N. S. do Perpétuo Socôrro, e a segunda (antiga do Santíssimo) é do Senhor dos Passos e de N.ª S.ª das Dôres; do lado direito as capelas são do Sagrado Coração de Maria e de Santa Terezinha, a primeira, e do Sagrado Coração de Jesus e Santa Cecília, a segunda. Nos topos há os altares pequenos de Santo António e de N.ª S.ª de Fátima.
A capela-mór guarda hoje o Santíssimo no centro do altar, e sôbre ela a imagem, tão graciosa, embora sem valor artístico, de S. Jorge; aos lados N.ª S.ª da Conceição e S. José.
   O grande interesse da Igreja é, porém, o Cruzeiro — considerado monumento nacional."

Igreja de S. Jorge de Arroios |Início séc. XX|
Confluência da Rua Carlos José Barreiros (1916), antiga Estr. das Amoreiras e Rua de Arroios/R. Alves Torgo (1925), antiga Estr. de Sacavém.

José A. Bárcia,  in Lisboa de Antigamente

O padrão-cruzeiro é uma homenagem de D. João III e do senado da Câmara à memória da Rainha Santa Isabel, medianeira das pazes entre D. Afonso IV e D. Dinis prestes a entrarem em batalha no campo de Alvalade. É obra dum escultor portuense cujo nome se perdeu e apresenta numa face Cristo Crucificado; na outra, N. Senhora da Piedade com Jesus descido da Cruz no regaço e, por baixo, S. Vicente segurando a nau e os corvos numa mão e a palma do martírio na outra. Foi primeiramente erigido no largo, resguardado por uma cobertura em pirâmide assente em quatro pilares de cantaria, donde foi retirado em 1837. 
Em 1895 a paroquial de S. Jorge de Arroios recebeu obras e o cruzeiro passou da sacristia para o adro coberto da igreja de Arroios.

Cruzeiro da igreja de São Jorge de Arroios |Início séc. XX|
José A. Bárcia,  
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa,  vol. IV, p. 84, 1938.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Calçada e Rua de Arroios

Acerca da origem do topónimo «Calçada de Arroios», Luís Pastor de Macedo afirma que «Nos princípios do século XVIII denominavam-na calçada de Alvalade, denominação ainda em uso ao tempo do terremoto. O nome era-lhe dado em razão da calçada comunicar com [o sítio de] Alvalade (Campo Grande e Campo Pequeno).⁼⁼
(MACEDO, Luís Pastor de, Lisboa de Lés-a-Lés, vol. I, p. 180, 1940)

Calçada e Rua de Arroios |c. 1912|
Ao fundo nota-se o viaduto sob a Rua Pascoal de Melo, que se ampara a antigas edificações do arruamento; ao fundo, à direita, destaca-se a cúpula do belíssimo prédio de gaveto na Avenida Almirante Reis, 31 com Rua dos Anjos.
Joshua Benoliel,  in Lisboa de Antigamente
Nota: arruamento não identificado no arquivo.

Sobre o sítio de Arroios, o olisipógrafo Norberto de Araújo nas suas Peregrinações, refere o seguinte:
O Largo de Arroios — escuso dizer-to — era um arrabalde de Lisboa ainda há cento e cinquenta anos. Ameno, sussurrante de hortas verdejantes, como o seu nome indica, salpicado de casas e de alguns palácios seiscentistas — continuação mais pura de Santa Bárbara — Arroios, por cuja estrada se fazia a saída de Lisboa para Sacavém, tem também o seu pedaço de história fugaz a ilustrá-lo. [...]
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 82, 1938)

Rua de Arroios |1961|
Ao fundo, passado o viaduto sob a Rua Pascoal de Melo, destaca-se o Palácio do Conde da Guarda no "Largo" de Arroios.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

domingo, 2 de abril de 2017

Travessa das Freiras a Arroios

Em 1910, esta Travessa das Freiras a Arroios — era ainda parte da Azinhaga das Freiras — e foi aqui, junto a uma antiga capela, que  foi encontrado o corpo do Almirante Cândido dos Reis, como relembra o olisipógrafo Norberto de Araújo nas suas Peregrinações:
«Já agora deixa-me lembrar-te que foi numa «Azinhaga das Freiras» que existiu nesta Rua Alves Torgo, na qual se abriu há anos uma rua — travessa nova, que em 4 de Outubro de 1910 se suicidou, convencido de que o movimento revolucionário republicano ia falhar, que um dos seus organizadores, homem íntegro e sincero, o Almirante Cândido dos Reis.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, p. 85)

Esta Travessa ganhou o seu topónimo pela proximidade à antiga Azinhaga das Freiras (talvez lembrando as religiosas que passaram pelo Convento de Arroios), que antes já fora a Azinhaga do Leão, e hoje o espaço dessa Azinhaga é o das Ruas Alves Torgo e Quirino da Fonseca.(cm-lisboa.pt)

Vista aérea da Alameda Dom Afonso Henriques [c. 1935]
 Legenda:
1 - Travessa das Freiras a Arroios, vendo-se o antigo  Colégio Vasco da Gama, hoje extinto e substituído pelo Colégio do Sagrado Coração de Maria, fundado em 1941 e a  Capela da Azinhaga das Freiras; 2 - Rua Quirino da Fonseca, antiga Estr. de Sacavém; 3 - Av. Manuel da Maia e Instituto Superior Técnico; 4 - Alameda Dom Afonso Henriques.
Pinheiro Corrêa, in Lisboa de Antigamente

À laia de curiosidade, refira-se que cerca de 1900, encostado a um muro da antiga Azinhaga das Freiras, hoje travessa, encontrava-se um modesto estabelecimento conhecido pela «Tasca do Barão do Nabo».
As carroças que então encravam na cidade. estacionavam por ali, aguardando a hora da abertura das portas e, ao alvorecer, os condutores desses transportes de hortaliça, cm que predominava o nabo, entravam na loja e tomavam uma caneca de café, de dois decilitros e meio, por dez réis, um quarto de pão simples por igual quantia, acrescida de vinte réis, se levava manteiga, e um cálice de aguardente, por dez réis.

Azinhaga das Freiras a Arroios [1911]
Local onde se suicidou Cândido dos Reis; capela
Joshua  Benoliel, in Lisboa de Antigamente

"Três tiros de canhão dariam o sinal a todos os revolucionários, civis e militares. Cândido dos Reis esperava-os no Cais da Viscondessa. (...) Ouviu o primeiro e esperou longo tempo o segundo. Minutos de extrema ansiedade, em que lhe apareceram em tropel o receio do malogro e o sentimento das maiores responsabilidades (...) Chegam dois oficiais, que o enchem de pavor com a notícia de que não há movimento algum a bordo, e que está eminente uma traição! (...) Que se passou nesse momento crudelíssimo? Sabe-se que ele esteve em casa de suas irmãs, em Arroios completamente desalentado, absorto num isolamento e silêncio trágico. Saiu, e pouco depois, ao romper da manhã, estava morto numa azinhaga [das Freiras] próximo da casa [das suas irmãs que residiam naquela zona] em que se refugiara alguns momentos." 
(5 de Outubro - 80 anos,, A Memória de Relvas, Pelouro da Cultura CML, 1990)

Azinhaga das Freiras a Arroios [1911]
Lápide colocada no local onde foi encontrado morto o almirante Cândido dos Reis
Joshua  Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Capela da Azinhaga das Freiras a Arroios [s.d.]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Palácio Linhares: Calçada de Arroios, 58

Instituto Militar de Arroios para a Reeducação dos Mutilados de Guerra, Palácio dos Condes de Linhares e antigo Convento dos Padres Lazariscas.


«Nos princípios do século XVIII denominavam-na Calçada de Alvalade (Corogr. Port., vol. III, pág.293), denominação ainda em uso ao tempo do terremoto. O nome era-lhe dado em razão da calçada comunicar com Alvalade (Campo Grande e Campo Pequeno).»
(Luís Pastor de Macedo, «Lisboa de Lés-a-Lés», vol. I, p. 180, 1940)

Na Calçada de Arroios ficava a Capela de Nossa Senhora do Pópulo, pertença do Palácio dos Condes de Linhares. Por morte do último titular, foi vendido este edifício, à Casa Palmela, que o cedeu aos Padres da Congregação da Missão de São Vicente de Paulo, mais conhecidos por «Padres Lazariscas», que, na Páscoa de 1902, instalaram ali, provisoriamente, o seu colégio de preparatórios (Escola Apostólica). Por ocasião do movimento revolucionário de 5 de Outubro de 1910, estes padres foram bastante maltratados. Dois deles, O Estado tomou conta do edifício que albergou, por algum tempo, o Instituto Militar de Arroios dos Inválidos da Grande Guerra, e foi demolido em 1937, para dar lugar a uma rua e a construções modernas.
Por altura de obras efectuadas na igreja paroquial (1895-1897 ), celebraram-se lá, os actos de culto da freguesia.
Depois, na posse dos padres da mencionada congregação, a capela passou a ser dedicada a Nossa Senhora das Graças ou, melhor, à Virgem da Medalha Milagrosa, cuja Imagem estava na capela-mor. Nos altares laterais foram colocadas as de São Luís, Rei de França e da Virgem Poderosa, respectivamente do lado do Evangelho e da Epístola.

Calçada de Arroios, 58 [c. 1900]
Portão brasonado do antigo Palácio dos Condes de Linhares; ao fundo, a Rua Visconde de Santarém.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

O Instituto Militar de Arroios foi fundado em 11 de Abril de 1917 pela Comissão de Assistência aos Militares Mobilizados, da Cruzada das Mulheres Portuguesas. Regulamentado no mesmo ano e entregue à direcção do capitão-médico Alfredo Tovar de Lemosue fez a “modificação mais radical de esse labirinto de estreitos corredores, quartos, quartinhos em pisos diversos, verdadeiros remendos de construção, num edifício moderno, confortável, cheio de ar e luz”. O instituto destinava-se a receber, tratar e reeducar profissionalmente os mutilados de guerra, por forma a facilitar a sua reintrodução social e laboral. Concebido como organismo temporário, seria extinto em 1922. [Revista municipal Lisboa, 1960]

Calçada de Arroios, 58 [1917]
Portão brasonado do antigo Palácio dos Condes de Linhares; ao fundo, a Rua Visconde de Santarém.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

domingo, 11 de agosto de 2019

Mercados do Poço dos Mouros e de Arroios

Construído em 1942 pela “Sociedade de Construções Amadeu Gaudêncio” e projectado pelo arquitecto Luiz Benavente, o Mercado de Arroios veio substituir o antigo Mercado do Poço dos Mouros considerado anti-higiénico — ou mesmo "infecto" —, no dizer de alguns.

Classificado inicialmente como mercado retalhista, mais tarde desempenhou as funções de mercado abastecedor de legumes, passando á categoria de mercado misto:
“Dispunha de 31 lojas destinadas a talhos, salsicharias, venda de frutas, lacticínios, etc., e de 300 lugares de venda. No subsolo foram instalados um matadouro de aves, tulhas, cantinas e frigoríficos, para carne, peixe, caça, aves, frutas, hortaliças. Aqui também existem lavabos e chuveiros para utilização dos vendedores, público e pessoal; arrecadação para produtos e vestuários dos vendedores, devidamente numerados e uma cantina.” [Leite: 2012]

Mercado do Poço dos Mouros, inaugurado em 1927 |1927-06-20|
Rua Morais Soares com a Rua Carvalho Araújo (antiga Azinhaga do Areeiro)

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Mercado do Poço dos Mouros, inaugurado em 1927 |1939|
Rua Morais Soares com a Rua Carvalho Araújo (antiga Azinhaga do Areeiro)

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O Mercado de Arroios situa-se entre as ruas Carlos Mardel e Ângela Pinto. Com projecto do arquitecto Luís Benavente, datado de 1942, destinou-se a servir um dos bairros então em maior expansão demográfica da capital: o que ligava a cidade da viragem para o século XX (em torno de Arroios) com as novas áreas em redor da Fonte Luminosa e do Bairro dos Actores. Implanta-se na principal praça deste último bairro, dominando funcionalmente este segmento urbanístico a ponto de determinar a equipamentos comerciais nas ruas adjacentes. A partir da década de 1980, e à semelhança de muitos outros mercados tradicionais, entrou em decadência progressiva, ameaçado pelas grandes superfícies comerciais e pela redução drástica de produção local em torno de Lisboa, facilitada pelo avanço dos subúrbios e pela conversão profissional de largas faixas da população. Permanece, todavia, como um dos mercados de referência da zona oriental.


Mercado de Arroios |194-|
Rua Ângela Pinto
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O edifício segue uma planta centralizada, cujos lados são organizados uniformemente em alçados de quatro pisos, progressivamente mais pequenos à medida que se aproxima a cobertura. O registo térreo é formado por grandes arcadas de lintel recto, cobertas por superfícies de vidro que formam montras de estabelecimentos comerciais do interior. Quatro delas (abertas segundo os pontos cardeais) são as entradas principais, encimadas axialmente por brasões municipais. Os panos do segundo piso são rasgados por conjuntos de cinco janelões, solução que se repete nos dois últimos pisos, embora recorrendo a vãos mais pequenos.
O interior possui dois pisos, fazendo-se a ligação através de escadarias na quadra central. Aqui, no piso inferior, dispunham-se originalmente as floristas, enquanto as vendedoras de verduras e de frutas ocupavam a grande galeria circular junto às portas. O andar superior era reservado ao comércio de peixe. ~
[ALMEIDA, Álvaro Duarte de, Portugal património: Lisboa, 2007]

Mercado de Arroios |1942|
Rua Ângela Pinto
in Revista municipal Lisboa

Depois de dois anos de obras de requalificação e cerca de um milhão de euros depois, o Mercado de Arroios reabriu em 2017 apresentado à freguesia de cara lavada. Os postos de venda foram remodelados, o pavimento substituído e o interior pintado. Há uma nova rede de águas e melhorias na mobilidade (rampas e novos elevadores). O final desta requalificação acontece no ano em que se celebra o 75º aniversário da construção do mercado, classificado nos anos 80 como edifício com interesse cultural.
___________________
Bibliografia
cm-lisboa.pt.
Revista municipal Lisboa, 1941.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Rua de Arroios: a Fábrica de Cervejas «Leão» e a Escola Estephania

 « O sítio de Arroios — que já é senhor da categoria de bairro — e do qual nos aproximamos, ainda hoje possui, se bem te avisares ao passeá-lo, um certo ar de subúrbio urbanizado.
   Do lado direito da Rua, ou seja na linha do nascente, as edificações correspondem na sua grande maioria  ao século actual [o autor escreve em 1938].  (...) Dilecto, em menos de oitenta anos esta Rua — que é-apesar-de tudo a a única artéria resistente de toda a área dos Anjos ao Areeiro — muito se tem modificado.

Fábrica de Cervejas Peninsular, Rua de Arroios, 46-48 |1908|
Neste local existiu a Fábrica de Cerveja Leão fundada em 1878 por José Varela e Jacinto Franco; ao fundo os prédios da então Av. D. Amélia hoje Av. Almirante Reis; à direita, a antiga Tv. do Forno do Tijolo, hoje Rua Frei Francisco Foreiro, e, onde se vê a placa toponímica identificando o «Regueirão dos Anjos», o muro do Palacete Villa Braz Fernandes onde funcionava.a Escola Estephania.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

   Vês este prédio moderno na esquina da Rua Francisco Foreiro (também nova) e da Rua de Arroios onde tem os n.ºs 46 a 48, e que é hoje uma serração de madeiras? Pois foi, até 1916(?), a famosa Fábrica de Cervejas «Leão», que refrescou não apenas nossos pais mas também nossos avós. Tinha então um pátio grande, que ainda hoje se desenha, alterado na fisionomia; eram casas e terrenos dos Condes de S. Miguel.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 79-81, 1938)

Na outra esquina da Rua Francisco Foreiro, defronte à Fábrica de Cervejas Peninsular (sucessora da «Leão»?), ficava o Palacete Villa Braz Fernandes que albergava a Escola Estephania. Vale a pena a leitura do anúncio publicado no Almanak de "O Mundo" de 1908. Fica aqui um excerto para aguçar o apetite.
«[...] As línguas, no curso commercial são ensinadas praticamente. A alimentação dos alumnos internos e semi-internos é abundante, variada e preparada com generos de primeira qualidade; [...] O actual proprietário encontra-se, a toda a hora do dia ou da noite, no edifício da Escola, salvo caso de força maior; [...]»

Escola Estephania [1902]
Adjacente à fábrica de cervejas ficava o Palacete Villa Braz Fernandes, Regueirão dos Anjos
Perspectiva tirada da Rua de Arroios; à esquerda a antiga Tv. do Forno do Tijolo, hoje Rua Frei Francisco Foreiro.

Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Planta Topográfica de Lisboa: 1911, Pinto, Júlio António Vieira da Silva [Fragmento], in Lisboa de Antigamente
Legenda (clicar para ampliar):
Vermelho: Rua de Arroios
Verde: Rua Frei Francisco Foreiro (antiga Tv. do Forno do Tijolo)
Laranja: Regueirão dos Anjos
Amarelo: Fábrica de Cervejas «Leão» (Peninsular)
Azul: Escola Estephania

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Mercado de Arroios

Fui um dia visitar o mercado de Arroios, gostei da sua arquitectura, tipo de panela com a tampa em cima a fazer de telhado, a praça cheia de tudo, hortaliça, fruta de toda a qualidade, peixe fresquinho tapado de gelo, encontrei lá uma sardinha de olhos azuis que andava a passear, perguntei-lhe se havia assim sardinhas tão boas todos os dias no mercado de Arroios, respondeu-me que em em Portugal não falta nunca a boa sardinha. [Covas: 2007]

Erguido no centro de um populoso bairro lisboeta — vulgo Bairro dos Actores —, o mercado de Arroios (1942) assentou numa concepção estrutural inovadora. Com uma planta central, com um pátio central aberto, a construção articula-se em torno de uma série de grandes vigas dispostas em círculo que se estendem por três pisos. De cada lado desta estrutura matricial está suspensa uma laje que cobre o primeiro andar, onde as lojas se abrem para a rua exterior e para o pátio interior, respectivamente. Este sistema de corpos escalonados permite uma abertura de aberturas em vários níveis que convergem para alcançar uma iluminação natural cheia de força e diversificada, bem como uma espacialidade claramente inovadora para a época. [Ana Tostões]

Mercado de Arroios (construção) |1939|
Rua Ângela Pinto; ao fundo as Ruas Lucinda Simões e Carvalho Araújo.
DN, in Lisboa de Antigamente

O projecto urbanístico aprovado em sessão de Câmara de 7 de Abril de 1928 determinou o futuro da zona contida entre a Praça do Chile e a Alameda Dom Afonso Henriques, tendo a Rua Ângela Pinto (1869-1925) sido o topónimo dado à «Circular, em volta do mercado». Com a publicação do Edital de 12 de Março de 1932, ficou perpetuada a memória de uma das maiores actrizes do teatro português na toponímia da cidade de Lisboa.

Panoramica sobre o Mercado de Arroios e envolvente |1942|
Rua Ângela Pinto; Rua Carlos Mardel.
Projecto do arquitecto Luís Benavente, datado de 1938-40.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 13 de março de 2022

Panorâmica do sítio de Arroios

Eis uma fotografia deveras interessante e com mais de cem anos. Se o leitor observar atentamente, verá no canto inferior esquerdo, um troço da antiga «Avenida Dona Amélia»¹, actual Almirante Reis (já arborizada), que termina abruptamente no muro que circunda o «Convento e Igreja (Hospital) de Nossa Senhora da Conceição de Arroios»²; o seu prolongamento — paralelo ao casario da velha Estr. de Sacavém (actual Rua Quirino da Fonseca) — irá conduzir, anos mais tarde, à «Praça do Areeiro». Identificada pela letra "C" observa-se a antiga «Capela da Azinhaga das Freiras».
No local junto ao muro do hospital de Arroios nascerá a rotunda da «Praça do Chile»³, para a direita temos a «Rua Moraes Soares»⁴ e para a nossa esquerda o começo da «Rua António Pereira Carrilho»⁵ (troço da antiga Estrada da Circunvalação) na direcção do «Largo do Leão»⁶ — os edifícios assinalados com as letras "A" e "B" ainda existem.

Panorâmica do sítio de Arroios [c. 1919]
Terrenos da Avenida Almirante Reis, vendo-se ao fundo, os torreões da praça de Touros do Campo Pequeno.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Em último plano, podem ver-se os quatro torreões da «Praça de Touros do Campo Pequeno»⁷; à direita deste vêm-se as chaminés da antiga «Fábrica de Cerâmica Lusitânia»⁸ situada defronte do Palácio Távora Galveias na velhinha Estr. do Arco do Cego, localização actual do edifício-sede da Caixa Geral Depósitos e onde ainda se pode ver uma chaminé de um dos seus fornos.

Levantamento topográfico do sítio de Arroios, 1909
Legenda (clicar na imagem para ampliar):
¹ Avenida Dona Amélia actual Almirante Reis; ² Convento e Igreja (Hospital) de Nossa Senhora da Conceição de Arroios; ³ Praça do Chile; ⁴ Rua Moraes Soares; ⁵ Rua António Pereira Carrilho; ⁶ Largo do Leão; ⁷ Estr. de Sacavém.
"A" e "B" edifícios que ainda existem; "C" Capela da Azinhaga das Freiras.
Planta de Lisboa [fragmento]: Vieira da Silva Pinto, 1909, in Lisboa de Antigamente
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