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sexta-feira, 28 de março de 2025

A Rua do Benformoso que foi do «Boi-Formoso» e «de Bemfica»

A Rua de Bemfica é noticiada desde o século XIV e tudo indica que a sua localização era neste local. Coloca-se a hipótese, considerada por muitos como plausível, de esta rua ter sido posteriormente chamada por Rua do Boi Formoso, derivando daí a sua atual designação de Rua do Benformoso  [Azevedo 1900]
Os poucos casos estudados, um total de nove habitações, deram a entender que as casas tinham uma área correspondente a 11,29m2 e a 36,3m2, sendo muito menores do que as das mourarias situadas a norte do Tejo. [Coelho 1996]

Rua do Benformoso, 109-113 |1902|
Antiga do Boy Formoso, antes Rua Direita da 
Mouraria (séc. XVI)
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
Rua do Benformoso, 109-113 |1902|
Antiga do Boy Formoso, antes Rua Direita da 
Mouraria (séc. XVI)
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente





























Os limites da Mouraria não se podem por enquanto, determinar exactamente. Pelo sul ficava a meio da encosta do Castello, pelo poente era limitada pela rua direita da porta de S. Vicente, hoje chamada da Mouraria, e pelo nascente não passava alem da entrada da rua da Amendoeira. Da parte norte ainda é maior a dúvida, porque era aqui onde se encontravam os almocavares dos judeus e dos mouros, os quaes terrenos foram depoes cortados por diversas ruas, ao que parece. […] Do lado poente o bairro dos mouros não passava das modernas ruas da Mouraria e da rua do Benformoso. [Azevedo 1900: 270-271]

 

 
Rua do Benformoso, 101-117 |1902|
Antiga do Boy Formoso, antes Rua Direita da
Mouraria (séc. XVI)
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
 
Rua do Benformoso, 109-113 |1939|
Une maison rouge! A grandir à peu
prés comme épreuve! 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente











 

A casa mais antiga da Rua do Benformoso [v.d prédio ao centro nas imagens acima] é um edifício pertencente à denominada "Arquitectura Popular", a sua construção efectuou-se, sensivelmente, entre os séculos XVI e XVII.
De planta longitudinal, formando um trapézio irregular, este prédio possuí quatro pisos, encontrando-se os dois primeiros apartados por um diminuto pé-direito. É, aliás, no segundo piso que a sua metade esquerda apresenta janela de sacada com guardas de estrutura férrea e gradeamento de rótulas de madeira, enquanto que a outra metade encontra-se rasgada por uma fresta e um óculo. Cadência esta que vemos repetir-se ao nível dos outros dois pisos. O telhado de duas águas encontra-se sustentado por uma trave de madeira que, por seu turno, se apoia em mísulas.

Rua do Benformoso, 194 |1902-05|
Regra geral, os edifícios da Mouraria não eram muito diferentes dos seus
contemporâneos medievais, à excepção de algumas casas térreas que possuíam um
quintal fronteiriço.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Em paralelo às gentes dos ofícios e serviços e ao baixo nível socioeconómico da população, a Mouraria rapidamente se tornaria um bairro “mal afamado” e “tempestuoso” por causa da gente de “vida parasitária” e das “desordeiras”, sendo exemplo dessa condição as prostitutas e o tipo fadista. Na Lisboa boémia, a Mouraria teria um lugar cativo com as suas...

“casas suspeitas, os hotéis para pernoitar, com a sua tradicional lanterna de luz frouxa, os seus cantos e recantos que protegem baixas aventuras, as estalagens das lavadeiras saloias, os vendedores de elixires maravilhosos que pregam ao domingo, a infabilidade dos seus medicamentos nos largos do bairro; e ainda o formigar de gente baixa pelas ruelas da encosta, o Capelão, João do Outeiro e Amendoeira, tudo nos ajuda a invocar o quadro cheio de cor deste bairro popular, onde ainda se vê nas mais sujas serventias o nicho, devoto, o registo dos azulejos com St António ou S. Marçal, e um ou outro pormenor arquitectónico dos tempos idos. […] Esta história animada e pitoresca ainda hoje se reflecte na fisionomia gritadora do antigo arrabalde cedido aos muçulmanos vencidos.” 
[Guia de Portugal 1924]

Rua do Benformoso  |1925|
 Em finais do século XIX instalaram-se na Mouraria famílias ligadas à aristocracia
e à burguesia, dessa vez ocupando o troço final da
Rua do Terreirinho e da Rua do Benformoso com edifícios de traça arquitectónica
de mais qualidade e com maiores dimensões ao inverso das habitações populares.

Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), in BNP

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 12-14, 1938.
MENEZES, Marluci, Mouraria, Retalhos de Um Imaginário: Significados Urbanos de Um Bairro de Lisboa, 2023.
FERNANDES, José Ferreira, Martim Moniz - Como o Desentalar e Passar a Admirar, 2024.
MESQUITA, Alfredo. Lisboa, pp. 526-527, 1903.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Ruas do Benformoso e do Terreirinho

Quero dizer-te, apenas, que nos séculos velhos, antes de este sítio ser chamado do «Boy Formoso» foi conhecido por «Benfica» — a razão — diz Norberto de Araújo — não ta sei dar; talvez porque fosse ridente de hortas e de boa situação. O Benformoso ainda há trinta anos mostrava pitorescas casas, modestas, seiscentistas, de empena de bico, andar de ressalto, conjunto alfacinha velho e puro. Pedacinhos de Alfama limpa no Benformoso, paredes meias com a Mouraria.==
(in Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 12, 1938)

Ruas do Benformoso e do Terreirinho (antiga da Oliveira) [1950]
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Rua do Benformoso

Norberto Araújo caracteriza da seguinte forma este arruamento vizinho da Mouraria: 

Antes de existir a Rua (Nova) da Palma, que data de 1862, no troço da Guia ao Socorro, e de há cerca de setenta anos do Socorro ao Intendente era por aqui, pelo Bemformoso, que todo o trânsito se fazia.
Em verdade o sítio e a rua não são do Benformoso mas do 'Boy Formoso', designação primitiva, cuja origem deve estar, como em todas do velho tempo, num desses acidentes fortuitos ou vagas particularidades episódicas, mas que 'ficam'; numa das quintas ou restos por aqui existentes, teria havido um lindo boi, a que se poderia chamar uma 'estampa', e, corrida fama, já depois do animal haver desaparecido, o sítio ficou o de 'Boy Formoso'.

Rua do Benformoso [1950]
Antiga do Boy Formoso, antes Rua Direita da Mouraria (séc. XVI)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Quero dizer-te, apenas, que nos séculos velhos, antes de êste sítio ser chamado do «Boy Formoso» foi conhecido por «Benfica» — a razão não ta sei dar; talvez porque fôsse ridente de hortas e de boa situação. O Bemformoso ainda há trinta anos mostrava pitorescas casas, modestas, seiscentistas, de empena de bico, andar de ressalto, conjunto alfacinha velho e puro. Pedacinhos de Alfama limpa no Bemformoso, paredes meias com a Mouraria.

Rua do Benformoso |1902-05|
Antiga do Boy Formoso, antes Rua Direita da Mouraria (séc. XVI)
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 12, 1938.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Regueirão dos Anjos

A parte baixa da freguesia de Arroios abrange o troço da Avenida Almirante Reis, que lhe cabe actualmente, bem como o Intendente, as Ruas do Benformoso e dos Anjos, a do Febo Moniz e pouco mais. O Regueirão dos Anjos e a Rua do Benformoso constituem os vestígios dum talvegue, no fundo do vale, por onde corriam as águas. Júlio de Castilho diz, na sua «Lisboa Antiga», que o nível do Regueirão dos Anjos era considerado tão inferior ao das Ruas dos Anjos e de Arroios que não se podia canalizar os esgotos que aí se depositavam e que o transformavam em verdadeiro foco de infecção. Diz também que poucos anos antes (o autor escrevia em 1916), o Regueirão fora entulhado a mais de dois metros de altura para deixar de se transformar num enxurro caudaloso às mais pequenas chuvadas. Modernamente ainda o Regueirão não está de todo livre das inundações nos dias de muita chuva.

Regueirão dos Anjos |1942|
Vista do S. no sítio onde este é cortado pelo viaduto da Rua Febo Moniz (dist. 1909). 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Febo Moniz de Lusignan (1515-158-) foi um fidalgo, funcionário no Paço Real ao tempo de D. Sebastião e nomeado Procurador da Câmara de Lisboa às Cortes de Almeirim de 1580, onde se opôs à escolha de um estrangeiro para ocupar o trono português, pelo que quando Filipe II tomou o trono de Portugal, prendeu Febo Moniz, que morreu pouco depois.

Rua Febo Moniz vista do Largo de Santa Bárbara |c. 1980|
Edifício Portugal junto ao Regueirão dos Anjos.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Os «Canos da Mouraria»

O sítio é feio, desagradável, sem pitoresco, ainda que com significação bairrista, nos seus cafés de tipo antigo, botequins e tavernas de peixe frito, durante o século passado de fama equivoca.


Esta zona na antiga freguesia do Socorro fazia parte de um dédalo de arruamentos que foram alvo do camartelo camarário, cerca de 1940-50, para dar lugar à "moderníssimo" Praça do Martim Moniz [vd. carta topogáfica anotada]. O local era outrora conhecido como os «Canos da Mouraria» como nos conta, em 1938, mestre Norberto de Araújo:

Beco  dos  Álamos |c. 1940|
Esta serventia começava na Rua Silva Albuquerque e findava
na Rua do Arco do Marquês de Alegrete, que se vê ao fundo
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Tudo isto — que é um dédalo — eram os canos da Mouraria, que transmitiram o nome às nossas contemporâneas Travessa, Beco e Rua dos Canos, de dístico substituído em 1885, por este actual de Silva e Albuquerque, operário muito culto, um apóstolo da instrução primária gratuita, falecido em 1879.
Como já disse toda esta área foi alagadiça, depois de ter sido um verdadeiro rio, e assim por aí acima, pelo Benformoso e Anjos, até Arroios.
No século XVI isto por aqui eram os «Canos de S. Vicente» (da porta de S. Vicente), e no século seguinte «Canos da Mouraria».

Beco  dos  Álamos (esq,), ao fundo o arco de ligação ao Beco da Póvoa; (dir.) Rua dos Vinagres |c. 1940|
A Rua dos Vinagres começava na Rua dos Álamos e findava no Largo de Silva e Albuquerque
Fotografo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Estas horríveis serventias, Beco da Póvoa, Rua dos Vinagres (onde havia a «póvoa» dos «vinagreiros»), Rua dos Álamos, já de 1550, e mais vielas, eram tudo — os «Canos».
E esses canos eram umas valas abertas no leito da rua, escoantes das águas que, no vale, corriam das encostas de Sant'Ana e do Castelo, e vinha já de Arroios. Em 1840 ainda aqui havia sumidouros, cobertos de grades, como os do Rossio, nos passeios laterais.

Beco  da  Póvoa |c. 1940|
Este insignificante
beco ligava, através de um arco (ao fundo) com o Beco dos Álamos, a
Rua do Arco do Marquês de Alegrete ao Largo de Silva e Albuquerque
No século XVI era denominado Beco da estalagem das moças, ou do mouco.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Rua dos Álamos, demolições |c. 1950|
Perspectiva tomada da Rua do Arco do Marquês de Alegrete
Judah Benoliel,in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 79, 1938.
COSTA, António Carvalho da (Pe.), Corografia portuguesa, e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal..., vol, III,  1706-1712.

domingo, 7 de junho de 2026

Rua da Palma, esquina com o Largo do Intendente Pina Manique

Esta Rua [da Palma], desafogada, hoje constituindo uma única artéria, das traseiras de S. Domingos ao Intendente, divide-se em dois troços — recorda o ilustre Norberto de Araújo. O primeiro chega só à Guia e é muito antigo, havendo sido nos séculos velhos arruamento dos comerciantes alemães que cultivavam religiosamente a lenda da palma que florira na sepultura do cavaleiro cruzado Henrique, sacrificado na Tomada de Lisboa, em 1147; [...]

Rua da Palma, esquina com o Largo do Intendente Pina Manique |1944|
Em segundo plano observam-se os edifícios na Rua do Benformoso.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O segundo troço, «Rua Nova da Palma», data de 1862, e chegava até aqui ao Socorro, começando gradualmente a prolongar-se até ao Intendente; a Câmara começara a comprar terrenos de hortas e campos, que por aqui existiam, desde o ano de 1776.==
(ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa», vol. IV, pp. 24-25)

Rua da Palma, entrada para o Largo do Intendente Pina Manique |1969-12|
 João Goulart, in Lisboa de Antigamente

terça-feira, 25 de abril de 2017

Lisboa Vista do Cimo dos Montes

Do Castelo, da Graça, do Alto de Santa Catarina, vista do cimo dos montes, das colinas, dos miradouros, Lisboa «enfia os olhos pelo Oceano». «Poucas vezes no mundo verá o viajante, como em Lisboa, tanta magnificencia de espectaculos naturaes, e tamanha variedade de scenario!», diz-nos o olisipógrafo Júlio de Castilho, para quem Lisboa «apresenta panoramas estonteadores, pela grandeza das linhas, e pelo variegado das minucias».


É de Francesco Rocchini (1822-1895)  esta  «vista tomada do Castelo de S. Jorge» que Norberto de Araújo descreve: «O encanto de Lisboa não se procura: encontra-se. Não reside num único sítio: dir-se-ia móvel, deambulatório. Vadio — passeando por onde lhe apetece. 
Aconselha-se o romeiro a que o não rebusque. Será a melhor maneira de dar com ele. 
Os mil motivos de interesse, de sedução, de êxtase — espraiam-se, perdem-se, ocultam-se e mostram-se pelas colinas e pelas planícies ribeirinhas. 
Num parque fecundado pelo sol, poetizado pelo luar, nascido espontâneo, enobrecido pelas idades — não é possível encontrar dispostos para nossos olhos os loureiros que coroam heróis e as rosas que engrinaldam vestais. Nem os rouxinóis têm moita certa. 
As colinas de Lisboa há que trepá-las para bem as conhecer. 
Os vinte miradouros suspensos de pérgolas e de torres, dão-nos o panorama objectivo, familiar: apontam-se as coisas, sabe-se-lhes a idade e a história. As colinas — não. Rugadas de congostas [*], quelhas, linhas de desfiladeiros, planos indecisos, são subjectivas. O seu encantamento é de sonho. 

Panorâmica de Lisboa tirada do Castelo S. Jorge  |c. 1870|
Panorâmica de Lisboa tirada da Sra do Monte
Francesco Rocchini (1822-1895), in Lisboa de Antigamente
 Legenda (clicar para ampliar):


Edifícios/Monumentos:
1—Igreja do Socorro (demolida c. 1940)  2—Palácio Folgosa (Propriedade Geraz de Lima)  3—Convento (Hospital) do Desterro  4—Hospital de S. José  5—Primitiva Igreja dos Anjos (demolida em 1908)  6—Campo de Sant'Ana  7—Convento de Santo António dos Capuchos  8—Palácio Mitelo  9—Palácio da Bemposta (Academia Militar) Paço da Rainha  10—Observatório Astronómico do Paço da Bemposta  11—Hospital de D. Estefânia  12—Palácio Pombeiro  13—Chafariz do Intendente  14—Hospital Miguel Bombarda (Antigo Rilhafoles)  15—Escola Superior de Medicina Veterinária (Antigo Instituto de Agronomia e Veterinária (Actual edifício da Policia Judiciária)
Arruamentos:
A—Rua de S. Lázaro  B—Rua da Palma  C—Rua do Benformoso  D—Largo (Sítio) do Intendente  E—Largo de Santa Bárbara  F—Arroios  G—Antigo Largo do Matadouro hoje Escola Municipal n.º 1 e, logo acima deste, o Largo do Mastro e o Beco (hoje Rua) do Saco

A penha do Castelo, abarcada desde o Largo do Caldas — é uma fantasmagoria. Do Rossio — uma maravilha. De Santana — um deslumbramento. 
Vista deste lado — a colina é um santuário; adivinha-se a torrinha sineira de uma ermida. Contemplada deste outro sítio — é uma muralha. Tomada do lado do mar — é um museu; alveja o perfil manuelino de uma janela. 
Em todas as colinas, subindo, acavalgando-se, amparando-se, tocando-se nos beirais, as casas, os tugúrios, os palácios, os monumentos, os aglomerados indistintos, cinzentos ou violetas, conforme lhes dá a luz — são cenários do presépio lisboeta. 
As Colinas de Lisboa — eis o panorama sagrado de uma cidade Olimpo, que enfia os olhos pelo Oceano. Os longes mandam na alma. Nas cidades e nos homens — as distâncias ganham em saudade o que perdem em nitidez. Castelo, Graça, Penha, Estrela, S. Francisco, — ascensão ideal... » 1

Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 28-29, 1943.

* Nota(s): O Dicionário Houaiss e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam cangosta, mas remetem para congosta, portanto, o termo preferível. Trata-se de «caminho estreito e comprido, mais ou menos declivoso» (in Dicionário da Porto Editora) e «estrada estreita, rústica, entre muros ou sebes, na região periférica de uma povoação, aldeia, vila etc.; azinhaga» (in Houaiss). A palavra vem do latim hispânico 'congusta (via)', por 'coangusta (via)', «caminho estreito», de 'coangustare', «apertar».

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Rua Fernandes da Fonseca, antiga Carreirinha do Socorro

Já agora te digo que esta Rua Fernandes da Fonseca — escreve Norberto de Araújo — (que celebra a memória do fundador da Sociedade de socorro mútuo dos Artistas Lisbonenses) recebeu esta designação em 1888; antes foi a Carreirinha do Socorro, dístico de ressonância local e alfacinha, que, fazendo parte da Mouraria campestre, foi o primeiro caminho estabelecido do Socorro, pelos Cavaleiros (antes Calçada) até Santo André. Os grandes edifícios urbanos da Rua são quási todos do segundo e terceiro quartéis do século passado.

Rua Fernandes da Fonseca [c. 1900]
Convergência da Rua dos Cavaleiros (tomada da foto), Calçada da Mouraria (1ª dir.) e 
Rua do Benformoso (2ª dir.); o 3º arruamento à dir. é o Beco da Barbadela;
 ao fundo, vê-se o extinto Elevador da Graça e a Rua da Palma.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

É de típica designação bairrista o Beco da Barbadela, nesta Rua Fernandes da Fonseca, e tão antigo como a Carreirinha do Socorro, pois é registado no século de quinhentos; o seu nome de principio era o de «Barbaleda» dando-se com a designação o mesmo fenómeno de corruptela toponímica, e alternada, que se deu com «Boi e Bem Formoso».
____________________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, p. 22, 1938.

domingo, 24 de junho de 2018

Rua Correia Garção: o «Quarteirão dos padres Bentos»

Ocupando o espaço todo desse grande quarteirão, desde a moderna Rua Correia Garção [rasgada por volta de 1912] —  diz Norberto de Araújo — até à confluência dos Poiais, era a chamada «Frontaria de S. Bento», terrenos do Convento nos quais os frades nos meados do século XVII já haviam consentido a construção de casas, à margem do caminho rústico; eles próprios, depois do Terramoto (1760), fizeram erguer uma grande correnteza de prédios que foram a base dos que depois se reedificaram, e aí tens à vista. Eram as «Casas» ou «Quarteirão dos padres Bentos», representadas hoje por este enorme renque de quatro prédios contíguos, n.°” 53 a 107 [hoje n.°” 1 a 17], com 112 janelas, e o seu ar sólido de rendimento.¹

Rua Correia Garção |ant. 1938|
«Poeta Arcádico do século XVIII»
Perspectiva tomada da Rua das Francesinhas e, à direita a Calçada da Estrela; ao fundo, a Rua  de São Bento vendo-se o antigo Arco.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O topónimo Rua Correia Garção foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 20/09/1912 ao arruamento que «liga a Calçada da Estrela com a Rua de S. Bento no ponto da muralha de suporte de terraplano do Parlamento».
Foi suprimida a legenda «Poeta Arcádico do século XVIII» por parecer da Comissão de Toponímia em 16/12/1946.

Rua Correia Garção |ant. 1938|
«Poeta Arcádico do século XVIII»
Ao fundo, Rua e o antigo Arco de São Bento; por esta altura estava em construção a escadaria do Palácio de S. Bento.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Poeta português do Neoclassicismo, de nome completo Pedro António Correia Garção (1724-1772), nasceu na Rua do Benformoso em Lisboa. Frequentou o curso de Direito da Universidade de Coimbra, não chegando, contudo, a terminá-lo. Em 1756, juntamente com Cruz e Silva, Teotónio Gomes de Carvalho e Manuel Nicolau Esteves Negrão, fundou a Arcádia Lusitana, utilizando como pseudónimo arcádico Coridon Erimanteu. Foi escrivão na Casa da Índia e dirigiu a Gazeta de Lisboa de 1760 a 1762. Em 1771 foi detido no Limoeiro (onde veio a falecer) por ordem do Marquês de Pombal, por razões não esclarecidas. É considerado um dos mais importantes poetas neoclássicos da literatura portuguesa.²

Rua Correia Garção |1938|
«Poeta Arcádico do século XVIII»
Perspectiva tomada do Palácio de S. Bento da «correnteza de prédios que foram a base dos que depois se reedificaram, e aí tens à vista. Eram as «Casas» ou «Quarteirão dos padres Bentos». [Araújo:1939] 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 40, 1939.
² cm-lisboa.pt.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O «Passo» da Mouraria e a lápide da Cerca Fernandina

Fez há pouco quarenta anos que foi ordenada a demolição do Passo da Mouraria — escreve Norberto de Araújo num artigo publicado no boletim do Grupo "Amigos de Lisboa" — um dos da procissão do Senhor dos Passos, da Graça. 


Serve de pretexto a estas notas, que nenhuma novidade conterão, uma fotografia que possuímos, e na qual o «passo» se vê tal qual era no final do século passado {séc. XIX]. A estampa é inédita, e deve-se, segundo cremos, a Alberto de Oliveira, um dos fundadores do «Grupo do Leão» (1887), senão o seu principal organizador, e que cultivava as curiosidades e os tipos de Lisboa, interessando-se por assuntos de arte ligados aos progressos gráficos. Alberto de Oliveira, que figura na famosa tela de Columbano, de cujos pares hoje não resta um só, foi daquela gente da boémia do talento e do espírito o primeiro a desaparecer da vida. Já não viu demolir o velho «Passo da Mouraria», cuja fotografia teria feito há cerca de sessenta anos [c. 1887]. O pormenor não interessa demasiadamente; pela leitura do título de uma peça que se representava ao tempo no Teatro do Príncipe Real [A Filha do Snr. Chrispim] [1], e que se pode ler num cartaz que a fotografia reproduz, apurar-se-ia o ano que corresponde ao cenário.
Ao «Passo da Mouraria» está ligada a história do sítio da Saúde ou da Guia. Na conhecida gravura — e belo documento — do «Arquivo Pitoresco», volume V, pág. 377 [vd. 2ª imagem], aparecem em desenho o «Passo», o recanto do Alegrete, o Arco, rasgado num prédio dos Taroucas, o resto de um ângulo da muralha de D. Fernando, e a lápide de mármore, com inscrição em caracteres góticos maiúsculos, que atesta a construção (1373-1375) da muralha fernandina.
Na fotografia à qual nos reportamos não aparece o recanto [vd. 1ª imagem], mas distintamente se vê a lápide, aposta no lanço da muralha contigua ao «Passo», ao lado superior de uma porta que tinha o n.º 12 [da Rua da Mouraria].

O «Passo da Mouraria» e a lápide da Cerca de D. Fernando (dir.) [c. 1887?]
Rua da Mouraria; à esquerda vislumbra-se a fachada lateral da Ermida de Nossa Senhora da Saúde
Alberto de Oliveira,in Lisboa de Antigamente

1907 foi o ano da condenação do «Passo da Mouraria» que, em reconstrução, datava de 1780; o Terramoto destruíra o primitivo, que vinha de 1698-1702, e era sensivelmente da mesma idade do palácio do Conde de Vilar Maior, antecessor da Casa dos Alegretes, depois Penalvas e Taroucas. Este palácio, dito dos Marqueses do Alegrete, cujo título passou para o arco e para a rua, foi demolido neste ano corrente de 1947, sem que houvesse razão para o prantear.
Duas das relíquias do pequenino sítio desapareceram, pois, quarenta anos uma atrás da outra. Está de pé apenas o Arco, teimosamente a recordar a Porta de S. Vicente da Mouraria, que leva 574 anos de Porta, e 273 de Arco, pois foi transformada em 1674, para facilitar o trânsito dos coches.
A lápide relativa à construção da cerca de D. Fernando passou, depois de 1908, quando foi construído o grande prédio n.º 8 a 16, à esquina das Escadinhas do Marquês de Ponte de Lima Escadinhas da Saúde, para a fachada desse prédio, onde ainda se encontra. E' venerando documento da Lisboa do Rei Formoso, talvez o único de vulto, assim como o Arco, tão escarnecido e desrespeitado na sua memória, é a última das portas de Lisboa da Cerca do século XIV.

Rua da Mouraria, Arco e Palácio do Alegrete em 1862
À esquerda, na parede ao lado do  «Passo da Mouraria» vê-se a lápide comemorativa da construção da Cerca de D. Fernando
Gravura de madeira: desenho de Barbosa Lima e gravura de Coelho Júnior e Pedroso
in Arquivo Pitoresco

O «Passo da Mouraria» desapareceu em 1907-1908, como dissemos. A Câmara ofereceu à Irmandade do Senhor dos Passos da Graça, à qual o «Passo» pertencia, uma indemnização de quinhentos mil réis, que a irmandade aceitou. Dos cinco «passos» de rua da procissão dos Passos da Graça subsistem hoje apenas dois: o da «Verónica», no Largo do Terreirinho n.º 119 do começo da Calçada de Santo André, que data de 1765, e substituíra um que existiu antes na Rua do Boi Formoso [Benformoso] (1673-1675), como este substituíra um ao cimo da Rua dos Cavaleiros; e o de «Santo André», místico com o desaparecido Arco de Santo André, ampliado em 1608-1702, sito no começo da Costa do Castelo, porta n.º 106.
O famoso «Passo» do Rossio, que datava de 1700, fôra apeado em 1759, e reedificado em 1782 em terrenos da Casa dos Duques de Cadaval, novamente demolido em 18319 por ordem da Câmara, que, por sentença, teve que reedificar logo em 1841, sendo inaugurado em 1843. Pouco depois construiu-se o grande prédio Cadaval que esquina para o actual Largo de D. João da Câmara, anteriormente «Pátio do Duque». E o «passo» ficou nele encravado até 1913, ano em que a Casa Cadaval logrou por sentença, que a irmandade o entregasse, para demolição. É hoje [em 1947] «O Passo», pequena leitaria tipo Rossio.
O «Passo de S. Roque» estava embebido na face da Torre de Álvaro Pais, que se situava, como é sabido, no Largo de S. Roque [actual Trindade Coelho]; o Terramoto destruiu-o e foi reedificado em 1780-1781, até 1827, ano em que a Câmara regularizou o largo para a abertura da Rua Nova da Trindade.
A arquitectura exterior destes «passos» era sensivelmente igual: portada de volta perfeita sobre cuja cornija assenta o frontão, constituindo duas volutas a envolver um medalhão central, coroado por uma cruz simples. Estas evocações (apoiadas no estudo histórico do ilustre Padre Ernesto Sales) servem apenas de ilustração ao insignificante mas curioso documento que é a fotografia do «Passo da Mouraria». Falta somente assinalar que a história de três dos «Passos» referidos está ligada por situação à Cerca de D. Fernando: os de S. Roque, da Mouraria e de Santo André.¹

«Passo» da Mouraria e muralhas de D. Fernando no Largo da Saúde
Alfredo Roque Gameiro (1864-1937), in Lisboa Velha
 

[1] Refira-se, a título informativo, que «A Filha do sr. Chrispim» mencionada por Norberto de Araújo — e cujo cartaz se observa na 1ª imagem — foi escrita por Ludgero Viana (1842?-1934). Opereta de costumes portugueses, em 3 actos, terá estreado por volta de 1880, tendo feito furor à época com inúmeras representações em pelo menos dois teatros da capital. os já extintos Teatro do Rato e Teatro do Príncipe Real.
Ludgero Viana nasceu em Lisboa a 16 ele Março de 1842. Entrou para o jornalismo, em 1861. como redactor da época e foi durante muitos anos secretário da redacção do Diário Ilustrado. Como escritor teatral estreou-se no Teatro do Rato com a peça Os Malhados. Em 1903 entrou para a redacção do Diário de Noticias, onde se conservou durante vinte anos.
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Bibliografia
¹ARAÚJO, Norberto de. O «Passo» da Mouraria e a lápide da Cerca Fernandina, Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", 1947.
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