Sunday, 26 July 2015

Rua dos Cegos, 20-22

«Havia na fachada desta casa, há anos — e vê-se em estampas antigas — um altarzinho com o seu lampião, cousa de aguarela e de museu de humildades religiosas; o "procurador do senhorio" vendeu-o.»  (Norberto de Araújo, in Peregrinações em Lisboa, vol. II, p. 74, 1938)
Casa quinhentista da Rua dos Cegos, 20-22 [s.d. post. 1940]
Note.se o registo seiscentista de azulejos com "um altarzinho com o seu lampião".
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

De facto, foi revelado por una carta dirigida ao Diário de Noticias de 1917, de haver o proprietário desta velha casa típica da Rua dos Cegos, vendido o registo seiscentista de azulejos referido acima por mestre Araújo, que fazia parte integrante da vetusta edificação e contribuía para a valorizar sob o ponto de vista arqueológico — prossegue a notícia — "veio mais uma vez, provar quanto é sensata a disposição do art. 45 do decreto-lei de 26 de Maio de 1911, segundo a qual devem ser objecto de um. inventario especial, ficando á guarda da Comissão de Monumentos da respectiva área, certas construções, que, sem terem carácter monumental, se recomendam, no entanto, pela sua feição típica, pelo seu aspecto pitoresco, pela documentação, que oferecem, de formas architectónicas ou decorativas de outros tempos". 
Casa quinhentista da Rua dos Cegos, 20-22 [c. 1900]
Calçada do Menino Deus
O registo de azulejos retrata a apresentação do Santíssimo por dois querubins.
O pequeno elemento em ferro destinava-se à suspensão da candeia para iluminar o Santíssimo.

José Artur Leitão Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Na imagem abaixo datada de 1939 constata-se que na casa de ressalto quinhentista, rara na Lisboa pós terramoto, a ausência do dito registo seiscentista de azulejos. Foi, entretanto, aplicada uma cópia do dito registo de azulejos seiscentista, realizada por volta de 1940(?). Trata-se de uma peça policroma, sobre fundo branco, tendo representada uma custódia (alusão à Eucaristia), ladeada por dois anjos. O exemplar original pode ter constituído o elemento central de um frontal de altar reaproveitado, sendo paradigmático a passagem da peça, do espaço sagrado para o espaço profano. Os painéis daquela centúria são geralmente pintados por artesãos sem escola, tendo os desenhos contornos a manganês.[...] (n museudacidade)

Casa quinhentista da Rua dos Cegos, 20-22 [1939-03]
Observa-se ausência do registo seiscentista de azulejos.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Saturday, 25 July 2015

Praça Duque da Terceira, o Relógio de Sol e o Hotel Central

Foi no famoso Hotel Central (encerrado em 1919), o melhor hotel de Lisboa desse tempo, onde se hospedavam reis, presidentes e figuras ilustres, como Júlio Verne (que lá jantou duas vezes), que Carlos da Maia viu pela primeira vez Maria Eduarda:

        «Entravam então no peristilo do Hotel Central — e nesse momento um coupé da Companhia, chegando a largo trote do lado da Rua do Arsenal, veio estacar à porta.[...] Craft e Carlos afastaram-se, ela passou, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de oiro, e um aroma no ar.» 
(in Eça de Queiroz, Os Maias 1888)
Praça Duque da Terceira [1858]
Praça Duque da Terceira, o Relógio de Sol e o Hotel Central
Amédée de Lemaire-Ternante, 
, in Lisboa de Antigamente

De acordo com olisipógrafo Noberrto de Araújo, a configuração desta praça dos «Remolares», era muito diferente da actual: «Há sessenta anos [c. 1880] o mar chegava sensivelmente aonde corre a linha do eléctrico» [...]
«Ao centro desta Praça onde se ergueu o monumento ao Duque da Terceira, existiu até 1874 (não sei desde quando) um relógio de sol que assentava sôbre um pedestal acima de uma escadaria circular. A «Merediana dos Remolares» ou «do Cais do Sodré», que muita chalaça mereceu aos alfacinhas, era, afinal de contas, mais leal que os relógios das torres.»  
(in Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 40 [*1939])

Praça Duque da Terceira [c. 1910]
Praça Duque da Terceira e o Hotel Central
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Friday, 24 July 2015

Royal Cine

Em 1929, Agapito da Serra Fernandes, entregava ao arquitecto Norte Júnior a tarefa de conceber uma sala de cinema — o Cine Royal. Exibindo na fachada o «selo» do seu proprietário — a famosa estrela que insistentemente se reproduz nos painéis azulejares e na calçada do «Bairro Operário Estrela de Ouro» (Graça)  — é inaugurado no Natal com o filme «O Cadáver Vivo», disponibilizando ao público uma sala com espaço para orquestra e com capacidade para 900 lugares, contando com 1ª e 2ª plateias e um balcão a descrever um «U», localizando-se os camarotes lateralmente. 
O Royal Cine estabeleceu a quinta-feira como seu dia de estreias, apresentando a particularidade da realização, todas as quartas-feiras, de «matinées-dançantes», por convite.

Cinema Royal, carinhosa e popularmente conhecido como o «Rolhas» [1977]
Rua da Graça, 100
Vasques, 
in Lisboa de Antigamente

A 5 de Abril de 1930 — através duma aparelhagem «Western Electric» considerada, então, uma das marcas mais reputadas — é exibido o filme «Sombras Brancas nos Mares do Sul», de W. S. Van Dyke, apresentado pela Metro-Goldwin-Mayer, introduzindo deste modo o cinema sonoro em Portugal, facto que foi devidamente assinalado pela presença do Presidente da República.
Na década de 1980 o espaço é transformado em supermercado, o que implica demolições, restando hoje do antigo edifício apenas a fachada e o átrio da entrada.

Cinema Royal, matiné [1930-01-24]
Rua da Graça, 100
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

Publicidade ao filme  sonoro «Sombras Brancas nos Mares do Sul»

Café Royal (actualizado)

O afamado Royal, fundado em 1906, era frequentado por alguma da elite intelectual portuguesa; por ali passaram figuras como o pintor Columbano Bordalo Pinheiro ou o escritor Fernando Pessoa, entre outras.
«No predio que torneja da praça dos Remolares [Pç. Duque de Terceira] para a rua do Alecrim. encontra-se o modernissimo café Royal, no 1.º andar do qual predio existiu, em 1854, o restaurant de João da Matta, o mais espirituoso theorico da gastronomia portugueza, aquelle cujos divinos pitéus excitavam o paladar da aristocracia do garfo.»
(in Serões:revista mensal illustrada, Ferreira & Oliviera, 1909, p. 366)
Café Royal [1939]
Praça Duque da TerceiraRua Bernardino Costa
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
 Café Royal [c. 1910]
Praça Duque da TerceiraRua do Alecrim
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente


Thursday, 23 July 2015

Pátio do Carrasco (ou do Gama)

Do passado arquitectónico fala-nos ainda o Pátio do Carrasco, essa curiosidade cenográfica de Lisboa, em cuja fachada se vislumbram três janelas quinhentistas, de verga, e caneladas, com vestígios do delicioso mainel que as bipartia. Para o interesse pitoresco do sítio do Limoeiro o Pátio do Carrasco chega, mais no conjunto do que no pormenor, frentes de pardieiros disfarçados, escada decorativa sem alpendre, boca de entrada sem arco nem abóbada dois palmos de pobreza resignada, que se engrinalda pelo Santo António, e canta durante todo o ano.
(ARAÚJO, Norberto de Araújo, Legendas de Lisboa, pp. 71, 1943)
Em Lisboa, e imediatamente à frente do Largo do Limoeiro, junto à antiga Cadeia encontramos o Pátio do Carrasco, estranhamente funesto e degradado. Por aqui terá vivido temporariamente Luís António Alves dos Santos (1806–1873), «o Negro», marcado pela casualidade histórica de ter sido o último carrasco de Portugal.

Pátio do Carrasco |c. 1940|
Largo do Limoeiro, 3
Muito interessante é a fachada sobre o Largo do Limoeiro, onde se abrem em três pavimentos, janelas do séc. XVI, de verga direita canelada, com moldes e contra-moldes nas ombreiras, em algumas das quais se percebem vestígios do mainel que as bipartia ao alto. É dos poucos exemplares de casas quinhentistas existentes em Lisboa, É curioso o aspecto interior do pátio, onde há ainda pormenores construtivos dos séc. XVII e XVIII. [Proença: 1924]
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Dizem que haveria ali um túnel subterrâneo por onde Luís caminhava até à prisão do Limoeiro, mesmo ao lado. No local onde estaria essa passagem, ainda hoje se ouvem gritos.
Os moradores pensam que são do próprio Luís, atormentado pelas mortes que causou e que fizeram dele «o último carrasco de Portugal», com um salário de 4.100 réis e direito a referência num livro de Camilo Castelo Branco.

Pátio do Carrasco |c. 1960|
Largo do Limoeiro, 3
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Mas é aqui que a história se torna difícil de entender: é possível que Luís Alves nunca tenha executado ninguém. Da única vez que foi encarregue de o fazer, em Tavira, deu ao seu imediato o dinheiro que tinha consigo, para que o substituísse. Como na época os carrascos usavam capuz, era possível trocarem de lugar sem que ninguém se apercebesse. Será que Luís grita atormentado pelas mortes que causou na juventude? O carrasco lutou ao lado dos absolutistas, no século XIX, e confessou ter matado dois homens em legítima defesa. Morreu aos 67 anos, com um ataque de asma, já depois da abolição da pena de morte em Portugal.
(FIDALGO, Vanessa, 101 Lugares para Ter Medo em Portugal, 2013)
Pátio do Carrasco, Roque Gameiro, 1925
 É curioso o aspecto interior do pátio, onde há ainda pormenores construtivos dos séc. XVII e XVIII.

Almirante Reis, 2-2K

Em 1908 premiou-se, pela primeira vez, um edifício de rendimento cujo piso térreo era ocupado por estabelecimentos comerciais. Edifício de gaveto, localiza-se na Avenida Almirante Reis, 2-2K, propriedade de Guilherme Augusto Coelho com projeto de Arnaldo R. Adães Bermudes (1864-1948). De destacar a decoração em motivos Arte Nova, com elementos em ferro forjado e painéis de azulejo, e ainda a cúpula que remata o edifício.

Almirante Reis, 2-2K |c. 195-|
Prémio Valmor de 1908
Rua da Palma e início da avenida Almirante Reis. À esquerda o Chafariz do Intendente, transferido do Largo do Intendente (Pina Manique), à direita, em 1917.
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 22 July 2015

Casa do Ferreira das Tabuletas

Mandada edificar, em 1864, nos terrenos do extinto Convento da Santíssima Trindade, por Manuel Moreira Garcia, capitalista galego de fortes convicções maçónicas, a Casa do Ferreira das Tabuletas é um edifício, de feição pombalina, com a fachada dividida em três panos e quatro registos, que apresenta um revestimento azulejar da autoria do pintor e azulejador Luís António Ferreira (Fáb. Viúva Lamego), mais conhecido por Ferreira das Tabuletas, daí o nome da da casa. A composição azulejar preenche o espaço dos três pisos superiores por completo, integrando-se perfeitamente na estrutura arquitectónica como um esquema cenográfico, criando efeitos de profundidade e riqueza cromática. 

Casa do Ferreira das Tabuletas [194-]
Rua da Trindade, 28-34
Em 1834 na sequência da extinção das ordens religiosas, os terrenos e o que restava do convento da Santíssima Trindade, foram divididos pelo governo e vendidos a capitalistas. Manuel Moreira Garcia, capitalista de origem galega e de fortes convicções maçónicas, compra e constrói no local o Palácio da Trindade, a Cervejaria Trindade e esta Casa do "Ferreira das Tabuletas". 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Sendo um dos mais originais programas decorativos exteriores da arquitectura lisboeta, congrega símbolos maçónicos, ligados aos ideais do proprietário, como o Olho da Providência, com diversas alegorias. Neste caso revela a sua originalidade por integrar falsos elementos arquitectónicos, como os nichos com figuras humanas de gosto clássico, representando a Terra, a Água, a Indústria, o Comércio, a Agricultura e a Ciência, assim como por imitar a pintura em «tromp l'oeil». 
Encontra-se classificada como Imóvel de Interesse Público.

Casa do Ferreira das Tabuletas [1949]
Rua da Trindade, 28-34
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Lojas de Antanho: Rua 1.º de Dezembro

Esta artéria, na designação — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , sucedeu em 1908 à antiga Rua do Príncipe. A serventia parece que fora chamada pelo vulgo, no tempo de Pombal, depois do Terramoto, Rua Nova das Hortas e Rua das Hortas (e que constituiria referência oral à Horta da Mancebia ou a horta dos terreiros do Duque de Cadaval ou dos Condes de Faro, mais para Norte).

Rua 1.º de Dezembro  |c. 1911|
Casa Memória, aparelhos de gymnastica; Alfaiataria Leão Verde; Luvaria e  perfumaria;  Alves, rouparia e gravataria. E ainda, um dentista e um otorrinolaringologista no 2º. andar
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Antes de 1755 a Rua tinha já o traçado sensivelmente idêntico ao de hoje, e chamava-se Rua de Valverde – lindo nome.==
(ARAUJO, Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 85, 1939)

Praça de D. Pedro IV esquina com a Rua 1.º de Dezembro  |c. 190-|
CAlfaiataria Leão Verde; Luvaria e  perfumaria;  Alves, rouparia e gravataria. 
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

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