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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Avenida Dom Vasco da Gama

Em 8 de Abril de 1948, a Comissão de Toponímia reuniu-se para avaliar uma lista de personalidades a serem homenageadas nos arruamentos da Encosta da Ajuda, entre elas Vasco da Gama. Após visita aos arruamentos, as designações foram aprovadas em 12 de abril de 1948. O topónimo Avenida Dom Vasco da Gama foi oficializado por edital em 29 de Abril de 1948, substituindo a antiga “avenida A.B.”. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

Avenida Dom Vasco da Gama |195-|
Perspectiva tomada da Av. do Restelo na direcção do rio.
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Vasco da Gama nasceu em Sines por volta de 1468, foi filho do marinheiro de D. João II Estêvão da Gama, e entrou para a História de Portugal como o navegador a quem se ficou a dever a descoberta do caminho marítimo para a Índia.
Vasco da Gama (1468?-1524) repousa no Mosteiro dos Jerónimos juntamente com os reis D. Manuel I e D. João III, Luís de Camões, Alexandre Herculano e Fernando Pessoa. Uma estátua sua, em conjunto com as de Nuno Álvares Pereira, Viriato e Marquês do Pombal, encima o Arco da Rua Augusta, terminado em 1875.

Avenida Dom Vasco da Gama, na direcção da Av. do Restelo |1961|
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

domingo, 25 de agosto de 2024

O Sítio de Belém

Assinala Norberto de Araújo que Belém — orgulhoso sítio da antiga Lisboa arrabaldina — nasceu do Restelo, praia e lugar, Barra ou Surgidouro do Restelo, ao qual as navegações do século XV emprestaram notoriedade, ainda que o Restelo já de si falasse nos séculos anteriores. [...]

Rua de Belém |1930-11-09|
Legenda no arquivo: «A chegada do príncipe do Japão ao palácio de Belém».
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1835 tornou-se concelho independente do de Lisboa, e assim, com sua Câmara Municipal, viveu até 1885, ano de reorganização administrativa, ficando, então, como hoje, Belém a constituir uma freguesia senhora de si.

Rua de Belém |1939-02|
Lado S. antes das demolições de prédios e de alguns arruamentos por ocasião da Exposição do Mundo Português que teve lugar em 1940. Ao fundo nota-se o Mosteiro dos Jerónimos.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

No quarteirão entre as Travessas das Linheiras e da Praça na esquina poente, podes observar esse prédio altaneiro, com ar solarengo vencido pela desfortuna, e que contribui para tornar simpático este troço da velha Belém.

Rua de Belém com a Tv. da Praça |193-|
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 67-73, 1939.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

As Torres da Igreja de Santa Maria de Belém

O Monumento dos Jerónimos, opulenta jóia  quinhentista de arquitectura e de estatutária representa na realização global uma projecção das glórias marítimas portuguesas. É certo que não foi concebido e projectado para celebrar essas glórias. pois a bula de Alexandre VI (1496) que aprovou a construção do mosteiro é anterior à largada das naus de Vasco da Gama para a India (1497), e a doação, por escambo com os freires de Cristo, da pequena ermida quatrocentista, fundada pelo Infante D. Henrique, de N. Senhora do Restelo, aos frades de S. Jerónimo, precedeu no ano de 1499 (Janeiro) a boa nova trazida pela «Berrio» (Julho) da chegada da frota a Calicut.
No fim do século o monumento não estava, porém, ainda lançado, o que só sucedeu  em 1502, ano da primeira pedra.

Igreja de Santa Maria de Belém, fachada Sul |ant. 1878|
Mosteiro dos Jerónimos
A Torre, erguida no ângulo sudoeste, rematado o seu corpo central sineiro por um elegante coruchéu piramidal (da primitiva traça).
Fotógrafo não identificado in Lisboa de Antigamente

O Mosteiro dos Jerónimos está localizado na margem direita do rio Tejo e é composto por dois grandes espaços: a Igreja e Claustros e os dormitórios (actualmente Museu da Marinha e Museu Etnográfico de Arqueologia).
Este conjunto monumental estende-se numa área aproximada de 300X50 m2 com uma altura média de cerca de 20 m (50 m nas torres). A sua construção iniciou-se nos primórdios do século XVI tendo-se prolongado durante aproximadamente um século. Não se conhecem os documentos originais do seu projecto. Foi construído em calcário de Lioz com materiais provenientes, segundo documentos históricos, dos arredores de Lisboa e da pedreira de Belém adjacente ao monumento.

Igreja de Santa Maria de Belém, fachada Sul |c. 1881|
Mosteiro dos Jerónimos
A Torre, erguida no ângulo sudoeste, rematado o seu corpo central sineiro por uma cúpula em rotunda octogonal interiormente (que substituiu no século passado e elegante coruchéu piramidal da primitiva traça), aberta de cinco ventanas emolduradas, adornada de oito pináculos e coroada por esfera armilar.
Fotógrafo não identificado in Lisboa de Antigamente

A Igreja é constituída por uma nave principal, um transepto com duas capelas laterais, uma capela-mor e uma torre sineira, no canto da fachada Sul com a fachada poente. A volumetria da Igreja apresenta dimensões consideráveis, com 70 m de comprimento, 23 m de largura na nave (40 m no transepto) e uma altura média de 24 m.
Entre 1867 e 1878 os cenógrafos do Teatro de S. Carlos, Rambois e Cinatti, vão reformular profundamente o anexo e a fachada da igreja, dando ao monumento o aspecto que conhecemos hoje. Vão, assim, demolir a galilé e a Sala dos Reis, construir os torreões em cada extremo Nascente e Poente do dormitório (em construção na 1ª foto), a rosácea do coro-alto e substituir a cobertura piramidal da torre sineira (vd. 1ª imagem) por uma cobertura mitrada (vd. 2ª imagem).
______________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1944.
ROQUE, J. A,.bibliotecadigital.ipb.pt/, 2007

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Mosteiro dos Jerónimos: Túmulo de Luiz de Camões

No túmulo de Luiz de Camões, assim está escrito: "Aqui jaz Luís de Camões, Príncipe dos poetas de seu tempo. Viveu pobre e miseravelmente e assim morreu."

 
Em 1880, as ossadas de Vasco da Gama e do poeta Luiz de Camões foram trasladadas para o Mosteiro dos Jerónimos. Os seus túmulos, da autoria do escultor Costa Mota tio, encontram-se no sob-coro da igreja. Vasco da Gama (do lado norte) e Luís de Camões (do lado sul) foram os dois representantes máximos da epopeia lusíada, que mereceram a honra de repousar ao lado de reis. Luiz de Camões, filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá Macedo, nasceu em 1524(?), tendo feito os seus estudos em Coimbra.
 
Túmulo de Luiz de Camões [ant. 1946]
Mosteiro dos Jerónimos
Fotografia anónima, in Lisboa de Antigamente

Em Ceuta, onde combateu os Mouros, perde um dos olhos. De regresso a Lisboa, é preso, em 1552, devido a uma rixa com um funcionário da Corte. Em 1553 é perdoado pelo rei e parte para a Índia, onde tomou parte em várias expedições militares. Segundo alguns autores compôs nesta altura o primeiro canto de Os Lusíadas. Em Macau exerceu o cargo de provedor-mor de defuntos e ausentes. Em 1569 regressa a Lisboa, publicando a obra Os Lusíadas três anos mais tarde. Morre em 10 de Junho de 1580, doente e na miséria.

Túmulo de Luiz de Camões [ant. 1946]
Mosteiro dos Jerónimos
Inscrição no túmulo: « PARA SERVIR-VOS, BRAÇO ÀS ARMAS FEITO;
PARA CANTAR-VOS, MENTE ÀS MUSAS DADA.
*LUSÍADAS * CANTO X * ESTANCIA CLV »
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

domingo, 14 de junho de 2020

Mosteiro dos Jerónimos: desabou tudo com estampido idêntico ao do trovão subterrâneo

Parte do antigo mosteiro arruinado ameaçava desabar: havia anos que tinham resolvido reedificá-lo. Era um corredor comprido e estreito que nos tempos primitivos deveria ter servido de passeio reservado aos frades. A Casa Pia, que ocupa , como já disse, o antigo claustro, destinava as novas construções para aumento do seu pessoal (...) 
A direcção dos trabalhos foi conferida a um pintor cenógrafo do Teatro de S. Carlos, o sr. Cinati, sem dúvida homem de talento, mas que, inexperiente no género de trabalhos que era chamado a superintender; traçou um plano fantástico e deficiente e imaginou levantar na base desse organismo decrépito uma enorme torre quadrada, pesada, maciça, ornamentada de decorações incorrectas e absolutamente deslocada [vd. 2ª foto] e alheia às prescrições.

Mosteiro dos Jerónimos, ruínas causadas pelo desmoronamento do corpo central [1878]
Praça do Império, antig
a de Dom Vasco da Gama, antes Largo dos Jerónimos
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

No dia 18 de Dezembro [de 1878], às 9 horas da manhã, desabou tudo com estampido idêntico ao do trovão subterrâneo, soterrando e matando nos escombros do desmoronamento nove ou dez operários. Se o sinistro tivesse ocorrido durante o grande desenvolvimento dos trabalhos, o número de vítimas ascenderia a cem ou cento e cinquenta. Acto contínuo propalou-se o boato de que ia proceder-se a um inquérito. A notícia fez sorrir maliciosamente os que sabiam avaliá-la e conheciam a índole do país. Se algum crédulo teve a ingenuidade de acreditar que desse inquérito resultaria a punição dos culpados, ou mesmo a simples demonstração pública da sua incompetência responderei certificando que não houve inquérito nem solução de espécie alguma.

Mosteiro dos Jerónimos, durante a construção do corpo central [1877]
Praça do Império, antig
a de Dom Vasco da Gama, antes Largo dos Jerónimos
Fotógrafo não identificado
, in Lisboa de Antigamente

N.B. Em 1882 propunha-se a construção de uma nova torre central de 60 metros de alto, projecto que não prosseguiu; em 1891-92 dirigia as obras de restauro o arquitecto Domingos Parente, depois Raimundo Valadas, e finalmente Rosendo Carvalheira. Foi este arquitecto que fez concluir um corpo central mais modesto, mas mesmo assim desproporcionado, o qual em 1940 foi reduzido de altura nos pináculos [vd. imagem abaixo] pela Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais (arquitecto Baltazar de Castro). [Araújo: 1944]

Mosteiro dos Jerónimos, vista de nascente para poente, da fachada sul [c. 1930]
Praça do Império, antig
a de Dom Vasco da Gama, antes Largo dos Jerónimos
Destaque para o corpo central antes de reduzido de altura nos pináculos para as dimensões actuais.
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
RATATZZI, Maria (1833 - 1902), Portugal de Relance, 1879.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Mosteiro dos Jerónimos, Sala do Capítulo: Túmulo de Alexandre Herculano

A Sala do Capítulo tem esta denominação por servir às reuniões periódicas dos monges, as quais tinham o seu início com a leitura de um capítulo da Regra. Nessas reuniões, discutia-se a eleição dos priores, a recepção dos noviços e procedia-se à confissão pública das faltas.

Originalmente pensada para este efeito, a Sala do Capítulo nunca teve tal utilização pois a abóbada e decoração interior só foi completada no séc. XIX. A porta foi concluída nos anos de 1517-1518, tendo sido executada por Rodrigo de Pontezilha. Na sua decoração destacam-se duas imagens representando S. Bernardo e S. Jerónimo.


No centro da sala foi colocado, no século XIX, o túmulo de Alexandre Herculano delineado por Eduardo Augusto da Silva. Em 1940 é modificado, sendo deixada singelamente apenas a arca tumular. 
 
A singela arca tumular de Alexandre Herculano [séc- XIX]
Sala do Capítulo, Mosteiro dos Jerónimos
Domingos Alvão, in Lisboa de Antigamente

A Sala do Capítulo foi também utilizada como panteão de outros escritores e presidentes da República, até à finalização das obras na Igreja de Santa Engrácia. Convertida em Panteão Nacional, foram então para aí trasladadas as personalidades mais recentes da História de Portugal.
A trasladação do corpo de Herculano, que se encontrava no jazigo da Família Gorjão, em Santa Iria da Azóia, para a sala do capítulo nos Jerónimos ocorreu em 1888.

Túmulo de Alexandre Herculano [1934]
Sala do Capítulo, Mosteiro dos Jerónimos
Domingos Alvão, in Lisboa de Antigamente

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, escritor e historiador, nasceu em Lisboa a 28/3/1810 e morreu em Vale de Lobos, a 13/9/1877.
Obras: A harpa do crente (1838); O bobo (1843); Eurico, o presbítero (1844); O monge de Cister (1848); Lendas e narrativas (1851); História de Portugal (em quatro volumes, o último publicado em 1853).
No túmulo está gravado um excerto do poema «A harpa do Crente» que reza assim: 
Dormir? Só dorme o frio
Cadáver que não sente
Alma voa e se abriga
Aos pés do Omnipotente.

Túmulo de Alexandre Herculano [c. 1910]
Sala do Capítulo, Mosteiro dos Jerónimos
Poema inscrito na arca tumular
Garcia Nunes, in A.M.L.

sábado, 11 de junho de 2016

Convento de Sant'Anna, sepultura de Luiz de Camões

Diz-se que as ossadas de Luíz Vaz de Camões, que se encontram no Mosteiro dos Jerónimos, foram retiradas de um túmulo da Igreja do antigo Convento de Sant'Anna (vd. Fig. 1), onde terá estado depositado o corpo do poeta de 1595 a 1737. Na tentativa de encontrar os ossos do grande épico foram  criadas duas comissõoes: a primeira em 1836 e a  segunda em 1856. Ambas asseguraram ter descoberto os restos mortais de Camões, se bem que em diferentes locais do convento.(vd. Fig 2). Subsistem dúvidas sobre se serão mesmo do autor de "Os Lusíadas", já que não foi encontrado no local qualquer inscrição que o indicasse.

Convento de Sant'Anna, igreja [ant. 1900]
Antiga Rua do Convento de Sant'Anna [actual Rua do Instituto Bacteriológico]
com a antiga Travessa do Convento de Sant'Anna [Rua Câmara Pestana].
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O Convento pertencia à Ordem dos Frades Menores (Ordem de São Francisco), estava situado junto ao  antigo Campo de  Sant'Anna (hoje Campo dos Mártires da Pátria), na freguesia da Pena. Foi extinto em 4 de Maio de 1884, por morte da última religiosa madre Maria da Conceição, tendo sido demolido em 1899 para a construção do Instituto Bacteriológico de Câmara Pestana.

Convento de Sant'Anna [ant. 1900]
Antiga Rua do Convento de Sant'Anna [actual Rua do Instituto Bacteriológico]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1561, «vinte freiras penitentes que habitavam, em  regra religiosa de Santo Agostinho, um Recolhimento no Castelo, fundado — diz a tradição — por uma prêta chamada simplesmente Ana» (ARAÚJO, 1939), acordaram com a Real Irmandade dos Escravos do Santíssimo Sacramento de edificar o mosteiro junto às paredes da pequena Ermida de Sant'Anna, de que aquela se dizia proprietária, sob a protecção da rainha D. Catarina, mulher de D. João III, lavrando-se escritura da concordata, em 21 de Julho de 1561.

Fig. 1 - Carta topográfica de Folque, Filipe, 1858 [Fragmento ]
Legenda (clicar para ampliar):
Vermelho: Convento de Santana, igreja
in Lisboa de Antigamente

Quando se instalaram as freiras, surgiram discórdias de parte a parte, dissolvidas pelo Terramoto de 1755, visto que destruiu a ermida e desmoronou parte do Convento, obrigando as religiosas a abrigarem-se em barracas feitas na cerca, indo os irmãos de Sant'Anna para São Crispim, à Sé, onde trataram de reedificar a capela com a mesma invocação.

Fig. 2 - Planta do Convento de Santana, igreja [30 Out. 1899]
Legenda (clicar para ampliar):
Azul: O local das ossadas de Luiz de Camões determinado pela segunda comissão em 1836
Vermelho: O local das ossadas de Luiz de Camões determinado pela segunda comissão em 1856
in O Occidente

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Mosteiro dos Jerónimos, Portal Sul

Construído entre 1516 e 1518, rasgado a Sul, ergue-se o esplendoroso portal da autoria de João de Castilho e seus oficiais, segundo o projecto de Diogo de Boitaca, constitui o centro visual da fachada do Mosteiro que se desenvolve paralelamente ao rio. Apesar da sua grande sumptuosidade é apenas uma entrada lateral.
A figura central deste pórtico é Nossa Senhora de Belém com o Menino, que é a invocação desta Igreja e Mosteiro, ostentando na mão o vaso das oferendas dos Reis Magos. Ladeando a Virgem, uma multidão de estátuas representa os Profetas, os Apóstolos, os Doutores e Padres da Igreja e algumas santas (ou talvez sibilas).

Mosteiro dos Jerónimos, portal sul |1867|
Praça do Império
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente
 
Nos tímpanos figuram duas cenas da vida de S. Jerónimo – com vestes de cardeal arrancando o espinho da pata do leão e como penitente no deserto. Sobre o tímpano estão representadas as Armas de Portugal.

Mosteiro dos Jerónimos, portal sul |1867|
Praça do Império
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

Mais abaixo, entre as portas geminadas da Igreja, uma estátua representa o Infante D. Henrique armado cavaleiro, em memória deste antepassado de D. Manuel I, fundador da Ermida do Restelo e grande impulsionador dos Descobrimentos. A porta, separada por um mainel, é sobreposta nos tímpanos por baixos relevos e pelas armas reais ladeados por esferas armilares. A parede sul é rasgada por amplas janelas e janelões que ladeiam o portal e deixam penetrar, no interior, a luz filtrada pelos vitrais coloridos de execução recente (séc. XIX-XX).
Dominando este conjunto, ao alto, a imagem do Arcanjo São Miguel. (mosteirojeronimos.pt)

Mosteiro dos Jerónimos, portal sul |c. 1900|
Praça do Império
Chaves Cruzi, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 2 de março de 2016

Rua de Belém

Da fábrica (confeitaria) dos Pastéis de Belém à Farmácia Franco (onde nasceu o Sport Lisboa, mais tarde Sport Lisboa e Benfica)


O olisipógrafo Norberto Araújo caracteriza da seguinte forma este arruamento da antiga Lisboa arrabaldina:
Nesta Rua de Belém [antiga Direita de Belém até 1889] verifica-se o que tantas vezes temos notado: prédios que se encostam, uns sólidos e burgueses, outros pequenos e antigos, em confraria arruada. Nenhum é, porém, deste século, e, por consequência, a linha «modernista» não apareceu ainda por aqui, embora já campeie, ofegante de progresso, pela Boa Hora, Ajuda, e bairro novo do Almargem. 

Rua de Belém [1910]
Fábrica (confeitaria) dos «Pastéis de Belém», 84-86-92 (1º edifício a esq.)
Legenda da foto no arquivo: «Comemorações do centenário de Alexandre Herculano (1810-1877), cortejo a chegar aos Jerónimos»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Ora vejamos este prédio grandioso [na 2ª foto], para a sua época, desafogado, que é aquele que se confina entre as Travessas dos Ferreiros e de Marta Pinto, n.° 26. Foi construído entre 1881 e 1884 por Pedro Augusto Franco, Conde do Restelo, que adquiriu uma velhas casas que no local existiam, e que haviam sido, até 1834, as «Mercearias›» de Belém. [...)]
Pois o 1.° Conde de Restelo, Pedro Augusto Franco, adquiriu essas Casas e — «demolindo-as quási inteiramente — «elevou» o seu prédio. Ainda hoje num pátio interior, com serventia pela Farmácia, Franco, sobre um arco antigo, existe uma lápide que reza: «Mercearias da Rainha D. Catarina, que Deus tem, instituída para 20 cavaleiros de África. Em Maio de 1619». A data é da reconstrução da casa, pois a fundadora morreu em 1578.

Rua de Belém [1910]
O piso térreo do 2º edifício à esq. era ocupado pela Farmácia Franco
Legenda da foto no arquivo: «Comemorações do centenário de Alexandre Herculano (1810-1877), cortejo a chegar aos Jerónimos»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

   
Quanto à Farmácia Franco é dos mais antigos estabelecimentos de toda a Lisboa; foi fundada em 1821 por Inácio José Franco, pai de Pedro Augusto, o construtor do prédio (a farmácia já existia no lugar), avô do 2.° Conde, também Inácio José, bisavô de outro Pedro Augusto Franco, actual proprietário do prédio e farmácia.
Já agora, Dilecto, uma curiosidade: esta Fábrica (confeitaria) dos «Pastéis de Belém», n.° 84 e 86 92, é centenária; foi fundada por Domingos Rafael Alves, depois pertenceu ao filho Mário Benjamim Ramos Alves, que em 1920 a trespassou a uma sociedade. Os «pastéis» vieram à casa por compra do segredo da receita (outorgada em escritura), compra feita em 1879 a um tal José Vicente da Silva Pinto. A escritura não previa — «os plagiatos» da fórmula. [...] ¹ 

Rua de Belém [1916]
No piso térreo do 1º edifício à dir. vê-se a Farmácia Franco; ao fundo, o Mosteiro dos Jerónimos

Legenda da foto no arquivo: «Preparativos para o embarque das tropas que vão combater na Primeira Guerra Mundial»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente




 
Bibliografia
¹  ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 74-75, 1939.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Capela de Santo Amaro

A ermida de Santo Amaro é um caso único: renascentista, com planta centrada, uma galilé decorada com belos panos de azulejos do Rato, portais de ferro arrendados com vista para o Tejo. O terreno da base termina em quilha, qual proa de navio pretendendo soltar-se da colina e navegar mar fora atrás dos mareantes que a fundaram, segundo a lenda iconografada num dos painéis de azulejo. Historicamente sabe-se que em 1542 já existia uma ermida da Ordem de Cristo, que pagava foro à Basílica de S. João de Latrão, em Roma.¹
 
Reza a lenda que uma capela foi fundada no Alto de Santo Amaro por alguns frades da Ordem de Cristo que, no regresso de Roma (no século XVI), apanharam temporal no mar e, perante o receio de perecerem no naufrágio, prometeram a Santo Amaro levantar uma ermida no local onde dessem à costa, sãos e salvos. A capela referida na lenda foi, ao que se julga, transformada em sacristia da actual ermida, representativa do estilo renascentista, embora incorpore soluções estruturais góticas.³

Ermida de Santo Amaro, datada de 1549
Vista de Santo Amaro e Perspectiva do Lugar de Belém
 Vue du Port &de l'Eglise de Bellem [Mosteiro dos Jerónimos.]& de celle de S.Amat, Les Delices De l'Espagne & du Portugal, 1707
COLMENAR, Juan Alvarez de; Aa, Pieter van der (1659-1733)

 
Implantada numa colina sobranceira ao Rio Tejo, perto do vale de Alcântara, a Capela de Santo Amaro foi edificada em 1549, conforme indica a inscrição colocada sobre a porta principal do templo. O projecto desta ermida de planta centralizada, única na cidade de Lisboa, é atribuído a Diogo de Torralva, um dos grandes arquitectos do século XVI português, que tão bem explorou e entendeu o novo gosto do Maneirismo, nomeadamente as vias da tratadística italiana da época.

Capela de Santo Amaro, Alto de Santo Amaro, traseiras [entre 1962 e 1966]
Portal de pedra no adro da Ermida de Santo Amaro
Ao fundo nota-se a Ponte 25 de Abril em construção.
Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente

Na verdade, a Capela de Santo Amaro destaca-se pela singular, e erudita, estrutura centralizada, composta por "(...) dois cilindros secantes de inspiração serliana, a que se agrega uma original galilé de planta semicircular (...)" (CORREIA, 1991). Espaço ímpar no panorama arquitectónico português, este templo terá sido inspirado numa gravura do tratadista Sebastiano Serlio, que representa o mausoléu dos Crescenzi, na Via Appia, em Roma (MOREIRA, 1995, p. 352).

Capela de Santo Amaro, Alto de Santo Amaro, fachada [ant. 190-]
Portal de pedra no adro da Ermida de Santo Amaro
Paulo Guedes,in Lisboa de Antigamente

A par com a capelinha de Bom Jesus de Valverde, em Évora, e a capela do Paço de Salvaterra de Magos, é um dos poucos espaços religiosos quinhentistas a explorar a planta centralizada, que voltará ao panorama arquitectónico português apenas na segunda metade da centúria seguinte.
O núcleo da estrutura é o espaço circular do oratório, envolvido em metade da sua área pela galilé semicircular, que compõe a fachada, à qual corresponde, do lado oposto, a pequena capela-mor, também cilíndrica.

Portal de pedra no adro da Capela de Santo Amaro  [ant. 1966]
Portal de pedra no adro da Ermida de Santo Amaro
Artur Inácio Bastos,in Lisboa de Antigamente

Aberta por uma arcada de cinco vãos, dois dos quais são cegos, a galilé é coberta por abóbada de nervuras abatida, com fechos decorados com símbolos alusivos ao santo padroeiro, cruzes de Cristo, florões e estrelas. Os três arcos principais foram fechados, no século XVIII, com portões de ferro forjado.
As paredes deste espaço estão totalmente revestidas por azulejos polícromos tardo-maneiristas, organizados em dois registos, cujas figurações centrais, alusivas a Santo Amaro, são envoltas por ferroneries, putti, motivos de grutesco e pendurados. Nos vãos cegos da arcada foram erigidos dois altares de estrutura maneirista, em trompe l'oeil, executados em azulejo policromo.

Escadinhas e Cruzeiro de Santo Amaro [c. 1940]
Portal de pedra no adro da Ermida de Santo Amaro
Fernando Martinez Pozal,in Lisboa de Antigamente

O acesso ao interior é feito através de três portas, abertas na galilé, estando gravada sobre a porta principal uma inscrição alusiva à data de fundação da capela. A nave circular é coberta por cúpula semi-esférica com lanternim, possuindo coro-alto, ao qual se acede pelo terraço. Um arco de volta perfeita, sem qualquer decoração, abre para a capela-mor, também coberta por cúpula semi-esférica, que ao centro alberga retábulo de talha azul e dourada em estilo nacional. Contígua à capela-mor foi construída a sacristia.
Celebrada a 15 de Janeiro, a romaria de Santo Amaro era uma das mais concorridas da cidade, tendo sido realizada pela última vez em 1911. Com o advento da República, a ermida foi abandonada e saqueada, chegando a servir de carvoaria. Em 1927 foi entregue à Irmandade do Santíssimo Sacramento, e no ano seguinte o espaço foi reabilitado para o culto.³
  
Cruzeiro de Santo Amaro [s.d.]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
¹ ADRAGÃO, José Victor; PINTO (Natália); RASQUILHO, Rui, Lisboa, 1985.
³ Bonneville, Maria do Rosário Santos, Bellem/Belém, Reguengo da Cidade, 1991
³ "IGESPAR)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Palácio Marialva (Quinta Real da Praia)

Aí temos — diz Norberto de Raujo — , à esquina da Rua de Bartolomeu Dias e da Praça Dom Vasco da Gama [hoje «do Império»], e até há um mês [1939] dentro de um recinto circundado de muros a cair e de vedações provisórias, demolidos já, um edifício, precedido de um Pátio, pelo qual se entra por um portal antigo, armoriado, que se mantém de pé, por milagre.


O antigo palácio, ou casa de campo, da «Quinta Real da Praia», dito também «de Marialva» e, depois, «de Loulé» [onde é hoje o Centro Cultural de Belém], na Praça do Império em Belém, tornejando do lado Sul-Poente para a Rua Bartolomeu Dias, é uma fundação, de seu irreconhecível núcleo primitivo, do século XVI, transformada no século XVII. Pertenceu esta quinta ribeirinha a D. Manuel de Portugal, filho do l.º Conde Vimioso, poeta, amigo de Camões, e que morreu em 1606; este D. Manuel de Portugal foi também o possuidor (1669) da quinta que chegou aos Condes de Aveiras, adquirida por D. João V. De D. Mam1el passou a uma filha, D.  Joana, e  depois foi comprada por Rui da Silva, sogro do l.º Conde de S. Lourenço, Pedro da Silva, do qual transitou para sua filha D. Madalena, que casou com seu primo Martins Afonso de Melo, 2.° Conde de S. Lourenço, falecido em 1671. Era então chamada a  Quinta de S. Lourenço. A viúva do 5.º Conde, D. Rodrigo de Melo e Silva, vendeu esta quinta com casa nobre a D. João V, passando a propriedade a ser conhecida por «Quinta Real da Praia».

Palácio Marialva (Quinta Real da Praia) [1931]
Rua Bartolomeu Dias/Praça do Império

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Depois do Terramoto o Rei D. José presenteou o seu amigo D. Pedro de Meneses, seu estribeiro-mor, e 4.º Marquês de Marialva, com esta agradável estância solarenga e quinteira, e deste fidalgo foi herdada por seu filho D. Diogo José, 6.º Marquês, casado com D. Margarida, filha do 8.º Duque de Cadaval, entrando a  seguir na posse do 6.º Marquês, D. Pedro José, falecido sem descendência, e transitando assim para uma filha do 5.º Marquês, D. Maria Margarida, que era Marquesa de Loulé.

Panorâmica sobre Belém, vê-se o palácio da Marialva, o mercado e a fábrica de gás de Belém [ant. 1949]
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Nesta família se conservou, chegando a  José Pedro Folque, que foi quem em 1929 vendeu ao Estado toda a propriedade — então muito diferente do que fôra, já sem torreões, mas ainda com seu pátio orientado a Nascente — para ali se instalar a Faculdade de Letras, ideia posta de parte, passando a ocupar o palácio, em Fevereiro de 1929, o Liceu D. João de Castro, que pouco tempo ali demorou. Logo em Março instalou--se no velho palácio o Comissariado da Exposição do Mundo Português, sendo eliminado o pátio fidalgo, e  o edifício sujeito a obras sumárias no exterior. Em 1941 o edifício passou a sede da extinta comissão administrativa das obras da Praça do lmpério, e em 1946 instalou-se nele a comissão administrativa das obras da Universidade de Coimbra.
A casa nobre «da Praia» foi restaurada ou reedificada nos meados do século X\VII, e, depois, em 1727. Hoje [1939] é apenas uma sombra setecentista, com raros documentos de seiscentos.

N.B. Foi demolido em 1962.
 
Panorâmica sobre Belém tomada do Mosteiro dos Jerónimos, vê-se o palácio da Marialva [1937]
Praça do Império  com a Rua Bartolomeu Dias
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1946.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Edifício Ramiro Leão

O Chiado teve e tem os seus escritores, artistas e figuras típicas, tal como tem os seus edifícios emblemáticos. O Ramiro Leão é um deles. Distingue-se da diversidade que caracteriza,  anacronicamente,  a unidade deste lugar e do conjunto de armazéns, como o Grandella, o Chiado ou o Eduardo Martins, todos eles com origem anterior ao Ramiro Leão. Durante décadas, esta foi uma das casas comerciais mais cosmopolitas de Lisboa.

Edifício Ramiro Leão |séc. XIX|
Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3
Fotógrafo não identificado [P.M.], in Lisboa de Antigamente

Na década de 1880, um jovem comerciante de Lisboa, Ramiro Leão, nascido em 1857 na aldeia de Degracias, no concelho de Gavião, avançou para a fundação de uma grande casa comercial num dos locais mais nobres da cidade. Vindo muito novo para Lisboa, Ramiro Leão cedo se dedicou à actividade comercial, desde que abriu com seu irmão António um primeiro estabelecimento na Rua Nova do Almada. 

Edifício Ramiro Leão |c. 1910|
Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3;  [Rua Paiva de Andrada]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A passagem para o edifício do Chiado processou-se por duas fases: as primeiras instalações não iam para além de uma loja e 1.º andar, mas depressa a fraternal sociedade se assenhoreou de todo o prédio, após a saída do Hotel Borges, que ocupava dois pisos, e dos demais inquilinos das lojas aí existentes. A abertura e expansão desta casa, no Chiado, trouxe fama e riqueza aos seus proprietários, tendo Ramiro Leão chegado a director da Associação Comercial, mantendo-se como tal durante largo tempo.

Edifício Ramiro Leão |c. 1910|
Rua Paiva de Andrada; Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Ramiro Leão, interior da loja |c. 1910|
Rua Paiva de Andrada; Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na parede que envolve a escada, foram executadas pinturas murais da autoria do pintor João Vaz (1859-1931), figurando o Palácio de Queluz, a Boca do Inferno, a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos e a Basílica da Estrela e um vitral ao estilo Arte-Nova figurando motivos vegetalistas e animais; contava também com um elevador ao mesmo estilo e com pinturas a óleo no tecto realizadas por alunos da Escola Afonso Domingues com base em cartões de João Vaz. Em 2001, estas pinturas foram retiradas e doadas ao Museu da Cidade em Lisboa

Edifício Ramiro Leão, incêndio  [1927]
Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3;  Rua Paiva de Andrada
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1927, após o incêndio que vitimou parcialmente o imóvel, foi realizado um projecto de recuperação pelo arqº Norte Júnior, que também trabalhou noutras obras nesta área. A intervenção do arqº no Ramiro Leão consistiu essencialmente na construção de uma mansarda em substituição do sótão que ardeu. Numa altura em que estas decorriam, foi proposta a construção do torreão de gaveto, ainda durante o ano de 1927. Este torreão foi concebido totalmente em cimento armado, sendo a parte superior montada directamente sobre o cunhal.  Em 2001, instalou-se no prédio a «Loja United Colors of Benetton».
(Cadernos do Arquivo Municipal, Nº4, 2000, Arquitecturas de esquina em Lisboa, Jorge Mangorrinha)

Edifício Ramiro Leão |c. 1950|
 Torreão NO. construido em 1927 sob a orientação do arqº Norte Júnior
Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
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