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Wednesday, 9 October 2019

Estação do Cais do Sodré

A Estação do Cais do Sodré — linha de Cascais — que aqui vês, foi inaugurada em 18 de Agosto de 1928, e dela foi arquitecto Pardal Monteiro, que adoptou êste estilo prático e desafogado, decente mas sem cousa alguma de monumental. Substituiu uma estação ferroviária que levava 32 anos [vd. 4ª e 5ª  foto].


A ligação ferroviária do Cais do Sodré a Cascais data de 1896, «antes ia-se a Cascais partindo da estação de Pedrouços, que servia de testa de linha» [Araújo: 1939]. «O comboio abranda» ao chegar ao Cais do Sodré. Nele vem Bernardo Soares. Fora «pagar a Cascais uma contribuição do patrão Vasques, de uma casa que tem no Estoril», gozando «o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica».

Panorâmica sobre o Cais do Sodré [1944]
Estação do Cais do Sodré, Praça Duque da Terceira e Avenida 24 de Julho
Estátua de António José de Menezes Severin de Noronha, 1792-1860, 1º duque da Terceira; Jardim Roque Gameiro.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A Estação de Caminho-de-Ferro do Cais do Sodré é a primeira grande construção do seu autor, o arq. Porfírio Pardal Monteiro. Trata-se de um projecto executado para a Sociedade Estoril, que ambicionava desenvolver turisticamente o território favorecido pela exploração desta linha férrea. A Estação foi desenhada como se de um empreendimento público se tratasse, antevendo por certo esse estatuto posterior, na sua utilização efectiva e importância social.

Estação do Cais do Sodré [1963]
Praça Duque da Terceira
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
Estação do Cais do Sodré [1928]
Praça Duque da Terceira; Av. 24 de Julho
Porfírio Pardal Monteiro, in Lisboa de Antigamente

Trata-se de uma construção moderna de transição, de acordo com a própria modernização da linha operada em 1926, com a sua electrificação, e com uma proposta estilística assente nos ensinamentos da «Art-Déco». Abre-se ao espaço exterior através de grande superfícies de iluminação em ferro e vidro e de um grande arco envidraçado inserido num corpo que articula as fachadas laterais. Esta relação com a Praça marca efectivamente a modernidade deste edifício, servindo para tal a sua situação privilegiada em esquina. 

Bilheteiras da Estação do Cais do Sodré [195-]
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

A expressão formal decorre das possibilidades do novo material, o betão armado. Os seus motivos decorativos abundam em detrimento dos trabalhos em ferro e avançam para uma ideia de novo progresso (em contraponto ao progresso oitocentista) decorrente do desenvolvimento pretendido, tanto para o país, como também para o território entre Lisboa e Cascais. Simultaneamente, esta obra anuncia a caracterização depurada da arquitectura que Pardal Monteiro viria a projectar e que contribuiu decididamente para uma renovação da linguagem da arquitectura portuguesa.

Panorâmica sobre o Cais do Sodré [c. 1896]
Antiga Estação do Cais do Sodré (esq.), Praça Duque da Terceira. Partindo ainda do Cais do Sodré, junto ao rio e em direcção paralela à deste, estende-se a grande Avenida 24 de Julho, ou, mais vulgarmente o Aterro.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

«Um dia, ao comprar o bilhete do caminho de ferro na estação do Cais de Sodré, colocou em cima do guichet a importância da passagem em terceira classe e, quando o empregado lhe perguntava qual a classe desejada, respondeu irónico: «La que Usted quiera!»

Estação do Cais do Sodré [1908]
Legenda da foto no arquivo:«Eleições legislativas em Lisboa: condução de presos para a estação do Cais do Sodré com destino a Caxias»
António Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 40-41, 1939.
PESSOA, Fernando, O Livro do Desassossego, 1982.
CML-Cadernos do Arquivo Municipal, nº4, pp. 24-25, 2000.
Portucale. Revista ilustrada de cultura literária, scientífica e artística, 1943.

Friday, 21 July 2017

Cais do Sodré: Padrão da Hora Legal, edifício da Administração Geral do Porto de Lisboa

As designações «Cais do Sodré» e «Praça dos Remolares» foram comuns durante muito tempo, antes de se erguer a Estátua do Duque de Terceira, em 1877. Conhecida por «Remolares», por «ter havido em eras passadas lugares designados para os trabalhadores carpinteiros de remos, denominados «remoladores»,1 esta área ribeirinha foi — e ainda hoje o é — de semblante muito marítimo.

Cais do Sodré |1939|
Ao centro, o edifício da Administração Geral do Porto de Lisboa e o  Posto do Relógio Padrão da Hora Legal.
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

A Praça tem, como diz o autor das Peregrinações «um "tic" especial — único em Lisboa — marítimo e comercial, com a sua frequência parada de embarcadiços, homens do mar, arrais em descanso, capitães de bordo, e com a presença de escritórios, tabuletas longas, ao tipo das praças nas cidades portos de mar.». 
Há sessenta anosconta Norberto de Araújo em 1939 o mar chegava sensivelmente aonde corre a linha do eléctrico; o edifício da esquina, da Administração Geral do Porto de Lisboa — onde está o relógio reguladorfoi construído entre 1906 e 1907, e houve de o assentar sobre estacaria. 2

Cais do Sodré |1913|
Edifício da Administração Geral do Porto de Lisboa construído entre 1906 e 1907.
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

O Dec. Lei nº 1469, de 30 de Março de 1915, regulamenta o Serviço da Hora Legal «relativo ao novo relójio público (no Cais do Sodré) e outros meios de difusão da hora». Diz no seu ponto 1.º (primeiro): “Ao Observatório Astronómico de Lisboa compete enviar constantemente os sinais para a regulação do relójio público…“. Com o fim de emitir a Hora Legal para a cidade e, especialmente, para os navios ancorados no Tejo, foi construída em 1914 uma guarita na zona do Cais do Sodré, equipada de relógio mecânico ligado directamente por cabo eléctrico ao Observatório Astronómico de Lisboa (OAL), situado na Tapada da Ajuda. Da guarita partia um sistema semafórico, ao longo da costa, até Belém, para indicação luminosa da Hora a quem estava ancorado no rio.
A guarita do Cais do Sodré exibiu, até 2008, o título de «Hora Legal». No entanto, o Observatório pediu que esta designação fosse retirada, pois o relógio nunca tinha funcionado em condições. O local está sujeito a grandes amplitudes térmicas e nem a pala que foi acrescentada à estrutura impediu que o mecanismo sofresse com isso. Por outro lado, as trepidações cada vez mais fortes, fruto da passagem do trânsito rodoviário, também afectavam a marcha do mecanismo.

Cais do Sodré |1914|
Posto do Relógio Padrão da Hora Legal e o edifício da Administração Geral do Porto de Lisboa.
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

Em 2009, a guarita do Cais do Sodré passou a estar equipada com um relógio de quartzo vulgar que está ligado em rede aos servidores da Hora Legal através de um sistema NTP (Network Time Protocol). O relógio do Cais do Sodré recebe sistematicamente a Hora Legal e processa um ajuste automático da hora interna, garantindo, assim, a sua exactidão. Esta interface tem um relógio electrónico próprio, com uma unidade de energia eléctrica independente. Deste modo, se houver um corte de energia na zona, os ponteiros param, mas reposicionam-se na hora correcta assim que seja restabelecido o fornecimento de energia. A única desvantagem é que o aparelho não tem ponteiros dos segundos. Se quiser acertar o seu relógio, terá que esperar atentamente pelo movimento do ponteiro dos minutos. ³
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Bibliografia
¹ VIDAL, Angelina, Lisboa antiga e Lisboa moderna, p. 123-124, 1900.
² ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 39-40, 1939.
³ História da Hora Legal, Observatório Astronómico de Lisboa.

Wednesday, 26 July 2017

Monumento ao Duque da Terceira

Se a Praça Duque da Terceira já não tem os famosos cafés do tempo de Eça de Queirós, toda a zona é rica de edifícios e monumentos do século XIX. No centro daquela praça foi erigido em 1877 o monumento ao general conde de Vila Flor, duque da Terceira que libertou Lisboa do governo absoluto em 1833, obra do escultor Simões de Almeida.


Sigamos o olisipógrafo Norberto de Araújo em mais uma Peregrinação e «enfiemos ao Cais do Sodré, que aí temos alguma cousa que ver e outras para lembrar.
A Praça do Duque da Terceira é do meado do século passado [séc. XIX], e assenta sabre chãos que eram praia há menos de um século. A Praça Duque da Terceira constitui uma parte do Cais do Sodré, e não logrou absorver a velha designação mesmo na limitada área em que a Praça, com sua estátua, rigorosamente se contém». Recorda-nos ainda o mesmo autor que na denominação municipal «Cais do Sodré é a larga zona que abrange o Jardim Roque Gameiro e vai desde a Estação da linha do Estoril-Cascais até ao Corpo Santo»,  e ainda que as «designações «Cais do Sodré» ou «Praça dos Remolares» foram comuns durante muito tempo, antes de se erguer a Estátua; «Remolares», perdeu-se na oralidade. Há no povo uma atracção particularíssima para os vocábulos sonantes. «Sodré» — canta».
No local onde hoje se ergue a estátua ao Duque da Terceira existiu até 1874  um relógio de sol conhecido como a «Merediana dos Remolares».

Praça Duque da Terceira |c. 1890|
Cais do Sodré, antiga Praça dos Remolares
Monumento ao Duque da Terceira
À direita vê-se parte do prédio onde existiu o famoso Hotel Central, imortalizado por Eça de Queiroz em «Os Maias»; no piso térreo, o «jacobino» Café do Grego (depois Café Londres); ao centro,  no  gaveto nascente  da Praça com a Rua do Alecrim vê-se o toldo do Alfaiate Rego (depois Café Royal). Como era costume naquela época, as inscrições do toldo e da fachada exibiam publicidade em inglês: Rego Tailor. O mesmo se pode constar do lado poente: Barbear Shaving
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A primeira pedra deste monumento foi lançada em 24 de Julho de 1875; a inauguração solene realizou-se em 24 de Julho de 1877, no 44.° aniversário do desembarque do Duque da Terceira em Lisboa. A estátua é do cinzel de José Simões de Almeida, e o risco do monumento de José António Gaspar. 
 O monumento é simples, discreto de linhas, com as suas quatro inscrições: «Guerra Peninsular 1808 a 1814» — «Campanhas da Liberdade 1826 a 1834» — «24 de Julho de 1833» — «Ao Duque da Terceira 1877», esta na face principal, sul.

Praça Duque da Terceira |c. 1877|
Cais do Sodré, antiga Praça dos Remolares
Monumento ao Duque da Terceira; coreto
Observe-se a guia e gradil de protecção em redor das árvores com aspecto de terem sido 
plantadas recentemente
in Archivo Panoramico e Artístico

A estátua homenageia o Duque da Terceira, António José de Sousa Manuel Menezes Severim de Noronha, herói das guerras liberais, natural de Lisboa, Trata-se de uma estátua de bronze, com altura de 3,30m, onde a figura do duque é representada em traje militar, de rosto sóbrio e numa posição de chefia e comando. O plinto de pedra em forma de prisma tem uma base mais alargada com friso saliente junto ao chão de empedrado artístico de vidraço e friso duplo saliente no final desta parte. No pedestal foi colocada uma folha de palmeira e na parte superior deste plinto um brasão de armas coroado e ladeado por ramos de oliveira. Este conjunto, de estátua e plinto, tem a altura total de 9m.
A estátua ao Duque da Terceira sofreu recentemente uma intervenção de conservação e restauro, patrocinada pela Renault. O projecto, acompanhamento e fiscalização da obra, da responsabilidade da Divisão de Salvaguarda de Património Cultural/DPC/DMC da Câmara da Municipal de Lisboa, ficou concluída em Fevereiro de 2015.

Praça Duque da Terceira |post. 1877|
Cais do Sodré, antiga Praça dos Remolares
Monumento ao Duque da Terceira, face norte
No centro da Praça a estátua do duque olha a direito o rio.
Fotógrafo: não identificado,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Monumentos e edifícios notáveis do distrito de Lisboa, vol. 5, Junta Distrital de Lisboa, p. 19, 1962.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 37-40. 1939.

Wednesday, 29 March 2017

Panorâmica do Largo do Corpo Santo e do Cais do Sodré

Deste Largo do Corpo Santo fala-nos Norberto de Araújo nas suas Peregrinações: «A origem deste nome está no culto de São Telmo, padroeiro dos pescadores, ao qual os devotos chamavam "Corpo Santo"; a imagem venerava-se numa ermidinha quinhentista de Nossa Senhora da Graça que ficava no princípio da Travessa do Cotovelo, já na proximidade do Largo actual, do lado norte. O nome de Corpo Santo passou ao sítio, ao Arco, ao Largo, e ao Convento dos dominicanos.» [ARAÚJO:1939]


Panorâmica do Largo do Corpo Santo, do Cais do Sodré e do Aterro [post. 1895]
O 3º prédio a seguir ao Largo na direcção da Praça do Duque de Terceira (Cais do Sodré) é o do Hotel Central.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Conta Alfredo Mesquita que Trindade Coelho (1861-1908) «Farto de duas horas aborrecidas de intriga na Arcada, e de vêr os fatos de algibebe, entalando os pretendentes da província que por ali enxameiam, bocejando e lendo os cartazes, á espera do "Sr. Ministro"» mete pela Rua do Arsenal em direcção ao Cais do Sodré, passa o Largo do Corpo Santo «onde, sob um alpendrico de ferro, a Sociedade Protectora dos Animaes metteu ao abrigo do tempo os cavallos e os trens da viação, e entro afinal no Caes do Sodré, passando logo de entrada, em frente da filleira pitoresca das carroças de aluguer, cujas alimarias, cavalicagem de todo o feitio, atreladas, tasquinham á minha esquerda a palha dos ceirões, relinchando, ora um ora outro, ás vezes uns poucos, a alguma egua mais luzidia que passa, trotando, sob um calção de pampilho.»
 (MESQUITA, Alfredo, Lisboa, 1903)

Vista sobre o Largo do Corpo Santo [c. 189-]
À esquerda,  o Arsenal da Marinha
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Ficou célebre, na crónica lisboeta, o Hotel Central ao Cais do Sodré (edifício que se pode ver parcialmente na 1ª foto). Eça de Queiroz aí se hospedou e aí «hospedou» algumas das suas personagens. É o caso de Carlos da Maia, que assomando a uma janela do referido hotel num «dia d'inverno suave e luminosos», se depara com esta vista «sobre o rio, no céu largo, a tarde morria, sem uma aragem, n'uma paz elysea, com nuvenzinhas muito altas, paradas, tocadas de cor de rosa; as terras, os longes da outra banda já se iam afogando n'um vapor aveludado, do tom de violeta; a água jazia liza e luzidia como uma bela chapa d'aço novo; e aqui e alem, pelo vasto ancoradouro, grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraçados ingleses, dormiam, com as mastreações imóveis, como tomados de preguiça, cedendo ao afago do clima doce...»
(QUEIROZ, Eça de, Os Maias, 1888)


Largo do Corpo Santo [1935/36 ou 1942/43]
À esquerda, junto ao Arsenal da Marinha, o abrigo para animais e carruagens da Sociedade Protectora dos Animais.
As datas prováveis para a imagem foram estabelecidas levando em conta os cartazes para a reeleição do General Carmona, afixados na parede do lado direito do edifício que faz esquina com a Rua Bernardino Costa.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 28 June 2020

Tragédia no Cais do Sodré

Uma das maiores tragédias vividas no Cais do Sodré: o abatimento da cobertura de betão da estação dos comboios, a 28 de Maio de 1963. Por entre os escombros. bombeiros e voluntários da Cruz Vermelha tentar ajudar as vitimas. Muitas delas receberam ali mesmo, dos padres entretanto chamados, a extrema-unção.


Os relógios pararam quando, a 28 de Maio de 1963, a cobertura da gare do Cais do Sodré desaba. Por isso, a hora do colapso é a primeira certeza sobre a tragédia: passavam sete minutos das quatro da tarde. Ao final do dia já é conhecido o número de vítimas. Entre homens, mulheres e crianças, contam-se 49 mortos e 61 feridos. São empregados de escritório, domésticas, enfermeiros, reformados, funcionários da companhia que explora a linha, a Sociedade Estoril, e muitos outros, todos apanhados de surpresa. A ajuda não tarda. Entre bombeiros, equipas médicas, militares, a Cruz Vermelha e civis, mais de 400 pessoas acorrem à estação. Cerca de um quarto são operários que trabalham na construção da ponte sobre o Tejo, enviados por ordem do ministro das Obras Públicas. Levam gruas, martelos pneumáticos, apoios decisivos na remoção dos escombros. Sacerdotes consolam os feridos e ministram a extrema-unção aos que não vão conseguir sobreviver.

Estação do Cais do Sodré, 28 de Maio de 1963
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

Pela cidade multiplicam-se as teorias especulativas. Uns apontam a falha às fundações. Outros falam num comboio que chocara contra a plataforma. Os mais imaginativos apostam num atentado à bomba. A comissão de inquérito nomeada pelo ministro das Obras Públicas. Arantes de Oliveira começa a trabalhar nessa noite. Recolhe depoimentos e envia fragmentos da placa e das vigas para o Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Os jornais fazem as suas próprias inquirições. Trabalhadores da estação e passageiros frequentes contam ao Diário de Noticias que as fendas e os ruídos suspeitos eram frequentes. Por isso é que ninguém ligou quando se ouviu o som de vidro estilhaçado momentos antes da derrocada.
A 3 de Junho, a Policia Judiciária divulga os resultados preliminares da investigação. "O ruído ou som ouvido minutos antes da catástrofe, semelhante ao estampido de impacto de uma lâmpada eléctrica" — cita o Diário de Noticias — "terá resultado do movimento de fractura do sistema de cobertura." Dois inspectores da Sociedade Estoril ainda avançaram para vedar a zona na altura em que a pala desabou. Nenhum sobreviveu.

Estação do Cais do Sodré, 28 de Maio de 1963
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

No fim, a comissão de inquérito responsabiliza a construtora MANIL pelo acidente. Acusa a empresa de negligencia e incompetência. Falhara na construção das juntas previstas no projecto e na obra de ampliação da cobertura das gares. Como punição ficará sem os alvarás de empreiteiro de obras publicas. Quanto à Estação do Cais do Sodré, já está em pleno funcionamento. O serviço ferroviário recomeçará cinco dias apenas depois da tragédia.
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Bibliografia
Marina T. Dias, Lisboa Desaparecida, vol. 6, 2000.
Joana Stichini Vilela e Nick Mrozowski, LX60: A Vida em Lisboa Nunca Mais Foi a Mesma, 2012.

Sunday, 25 February 2024

Hotel Central

Estamos de volta ao velhinho Sitio dos Remolares, e ao afamado Hotel Central, desta vez na companhia de Marina T. Dias e de Eça de Queiroz.  Delineada pelos engenheiros do Marquês de Pombal, a futura Praça do Duque da Terceira permaneceu quase deserta até ao início do século XIX, constituindo então apenas parte dos vastos areais que delimitavam sul de Lisboa. Mesmo após a construção dos primeiros quarteirões a nascente e a poente, o rio chegava até ao extremo sul do largo, formando uma pequena praia no local onde mais tarde seria construída a estação de caminho de ferro da linha de Cascais. Contígua à praia, a Praça dos Remolares tinha já sido ampliada pelas obras de construção do Aterro, mantendo na tradição oral o nome do antigo cais: Sodré.
Falar do Cais do Sodré é também falar da Lisboa queirosiana — e do seu Hotel Central, Eça refere-o em Os Maias, A Capital, O Primo Basílio e A Correspondência de Fradique Mendes. A primeira hospedaria que ocupou o quarteirão com os números 20-27 do Largo (antigos números 3 a 11) chamava-se Estrella Branca (c. 1835). Em 1838 fora já trespassada à francesa Madame Lenglet que lhe deu o título de Hotel de France

(Grand) Hotel Central |c. 1875|
A oitocentista praça dos Remolares ainda sem a estátua do Duque da Terceira (1877) vendo-se ao fundo a primeira ponte de acesso aos barcos; no local onde se vê um candeeiro existiu, até 1874, um relógio de sol, conhecido por Meridiana dos Remolares. 
Rua Bernardino Costa antiga do Corpo Santo; à esq. nota-se a embocadura da Rua do Alecrim com o Alfaiate Rego (Rego Tailor) no gaveto leste.
J.. Laurent, in Lisboa de Antigamente

Sobre o rio, a tarde morria numa paz elísia. O peristilo do Hotel Central alargava-se, claro ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no colo. Uma mulher passava, alta, com uma carnação ebúrnea, bela como uma deusa, num casaco de veludo branco de Génova. O Craft dizia ao seu lado: Très chic. E ele sorria, no encanto que lhe davam estas imagens, tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloração de coisas vivas.
(Eça de Queiroz, ln Os Maias, 1888)

Com uma sólida fama e um excelente serviço de mesa, o hotel recebeu hóspedes ilustres, entre eles o compositor Franz Liszt, na temporada de 1844-1845. Novamente trespassado (c. 1855), transforma-se no Hotel Central, supra-sumo da possível opulência lisboeta, com as suas ceias elegantes e as suas belas janelas então viradas para o Tejo.
O Central foi,  na Lisboa da segunda metade de Oitocentos, aquilo que o Avenida Palace viria a ser na Belle-Époque, ou o Aviz no tempo da Segunda Grande Guerra. Recebeu reis e diplomatas famosos, figuras mundanas e celebridades do universo das artes. Foi também num dos seus quartos que o próprio Eça de Queiroz terá pedido ao conde de Resende a mão da irmã deste, Emília de Castro Pamplona, sua futura mulher. O episódio é narrado por Luís Pastor de Macedo. 

Hotel Central |c. 1904|
Praça Duque da Terceira: Cais do Sodré. Ao fundo observa-se o extinto Arsenal de Marinha que deu lugar à Av. Ribeira das Naus.
Postal ilustrado, edição da Casa Gonçalves, in Lisboa de Antigamente
Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Praça Duque da Terceira
No gaveto norte deste edifício estiveram vários botequins célebres. À O primeiro foi o «jacobino» Café do Grego; o último foi o Café Londres, encerrado em 1935.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

«Numa das suas vindas a Portugal, informado que o conde, vindo do Porto, se hospedara em Lisboa no Hotel Central, e apreciando em extremo a convivência daquele seu grande amigo, [Eça] mandou também as suas malas para o mesmo hotel e ali ficou durante largos dias.
Certa manhã, quando [...] se encontrava no quarto do seu amigo, justamente na ocasião em que este, de cara ensaboada, se dispunha, com a navalha na mão, a barbear-se, o criado, pedindo licença, entrou e entregou uma carta que viera pelo correio. 
   — Vê lá, menino, o que aí vem -—- diz o conde a Eça de Queiroz.
   — É uma cartada tua irmã.
   — Faze favor, abre-a e vê o que diz essa teimosa.
   O grande escritor obedeceu e ao terminar a sua leitura, depois de a dobrar vagarosamente, diz a Rezende:
   — Peço-te mão de tua irmão».
(Luís Pastor de Macedo notas em A Ribeira de Lisboa por Júlio de Castilho, vol. 4)

Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Praça Duque da Terceira; Cais do Sodré
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

O Hotel Central encerrou em 1919, após um breve período de crise económica, distantes que iam já os hábitos de convívio da Lisboa queirosiana. A Sociedade Estoril, nova arrendatária, mandou então proceder a obras de vulto na fachada e interiores do edifício, cujas características gerais pouco têm agora a ver com a da casa que albergou Eça, Ramalho ou Guerra Junqueiro. O próprio Cais do Sodré sofrera enormes alterações ao longo do meio século de existência do Hotel Central. Por volta de 1880 a praia chegava ainda sé ao larguinho posteriormente ajardinado (Jardim Rogue Gameiro, plantado entre 1912 e 1915), e alguns quartos do Central estavam, como era uso dizer-se, «sobre o no». Perderam esse privilégio em 1907, vendo erguer-se-lhes à frente o edifício da Administração do Porto de Lisboa (onde está o célebre relógio com a «Hora Legal»). O terreno era tão incerto (basicamente areia da praia, movimentada pelas marés) que foi necessário fazer assentar todas as paredes desse prédio sobre estacaria. Ao centro da praça esteve, até 1874,um relógio de sol muito célebre e muito troçado: a «Meridiana dos Remolares», apeada para que desse lugar ao monumento em homenagem ao Duque da Terceira.

Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Fachada S. sobre o Cais do Sodré e Travessa do Corpo Santo; Praça Duque da Terceira.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MARINA, Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, vol. 6, pp. 179-184, 1989.

Thursday, 9 February 2017

Estação da Parceria dos Vapores Lisbonenses

A Estação da Parceria dos Vapores Lisbonenses — ainda rudimentar, deve dizer-se — data neste sitio de 1904 e substitue uma primitiva ponte, com seu barracão, e cujos restos ainda ali vês, cem metros a nascente, junto ao terreno marginal das «carreiras» do antigo Arsenal de Marinha.

 

Ponte de acesso à Estação da Parceria dos Vapores Lisbonenses  [1912]
Cais do Sodré
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Era, então, o Cais do Sodré uma pequena praça à beira-Tejo, na qual se situava a Parceria dos Vapores Lisbonenses, de onde partiam os vapores para Cascais e para a outra banda. Aqui encontramos Ramalho Ortigão e Trindade Coelho. O primeiro, junto à ponte dos vapores, acaba de adquirir um bilhete de ida e volta no vapor de Cascais. Setenta minutos dura a viagem e custa dez tostões. «Embarcamos (...) Magnífico espectáculo. Diante de nós estende-se em toda a sua majestade, como um pequeno Mediterrâneo, o belo Tejo, que cintila sob a bruma aquática como um peito de aço coberto por um véu de gaze, batido pelo largo sol».  

Estação da Parceria dos Vapores Lisbonenses  [Início séc. XX]
Cais do Sodré
Estúdio Novais,
in Lisboa de Antigamente
O cacilheiro a vapor Victoria da Parceria dos Vapores Lisbonenses que fazia a carreira Cais do Sodré-Cacilhas [1912]
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente
 
O primeiro «vapor lisbonense», o Alcântara, foi construído em 1860, nos estaleiros de Hugh Parry situados em Alcântara e destinou-se à nova carreira fluvial entre o Cais do Sodré e Pedrouçoscom escalas em Alcântara e Belém, que seria inaugurada em Janeiro de 1861. Era propriedade de Frederico Guilherme Burnay que, em 1899, juntamente com Hersen, funda a «Parceria dos Vapores Lisbonenses».

Enquadramento da  Estação da Parceria dos Vapores Lisbonenses  [1950]
Cais do Sodré; Jardim Roque Gameiro
Eduardo Portugal,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 41, 1939.

Saturday, 10 June 2017

Avenida da Ribeira das Naus

A historia da Ribeira das Naus — diz mestre Castilho — se alguém a pudesse escrever completa, seria um dos capítulos mais interessantes da nossa crónica nacional, com as apreciações do computo das despesas feitas, o desenho da fisionomia da arte náutica ao longo dos sucessivos reinados, a crónica fidedigna da valente Marinha militar portuguesa, a nomenclatura dos navios ali construídos, e a biografia dos nossos habilissimos mestres. [Castilho, 1893]


Lisboa estende-se ao longo do Rio Tejo, concentrando as múltiplas actividades ligadas à navegação, à pesca, ao comércio das mais diversas mercadorias.
A zona, designada de Ribeira das Naus, organizava-se, ontem como hoje, em torno do Cais do Sodré, e incluía também os estaleiros de uma importante construção naval que marcou durante vários séculos a economia portuguesa.

Vista aérea da Avenida da Ribeira  das Naus (poente) [1952]
Praça do Comércio; Cais do Sodré; Avenida 24 de Julho; em baixo à direita, a Estação Fluvial Sul e Sueste.
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

Conquanto já desde longo tempo houvesse nesta zona marinha da cidade uma fama construtiva de embarcações, foi só no reinado de D. Manuel, por 1501, que essa actividade.de se acentuou, e começou-se a chamar ao local Ribeira das Naus, correspondendo cm situação e em funções ao actual Arsenal da Marinha, como passou a denominar-se desde 1774. O Decreto n.º 29.595, de 13 de Maio de 1939, extinguiu a Direcção das Construções Navais, e com ela o Arsenal da Marinha, que se encerrou nessa data.

Doca da Ribeira  das Naus (actual Praça Europa) [c. 1918]
Lançamento à água da navio "Mandovi", construído no Arsenal da Marinha, navegou como canhoneira da Classe Beira desde 1918 a 1056.
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

Seguida, mas vagarosamente, começaram a ser demolidos os barracões das instalações fabris e a terraplanou-se o terreno para a construção duma avenida marginal entre a Praça do Duque da Terceira e o canto sudoeste da Praça do Comércio, ao sul do torreão do Ministério da Guerra.

(Avenida) Ribeira  das Naus [c. 1939]
À direita e ao fundo vêem-se os edifícios fabris do Arsenal da Marinha antes das demolições
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

A avenida marginal referida, que foi construída com carácter provisório, recebeu o nome de Avenida da Ribeira das Naus1, e foi aberta ao público em 9 de Agosto de 1948.
A sua largura é de 12m na faixa de rodagem, calçada com paralelepípedos de granito e alcatroada, e de 1,5m nos passeios laterais.
Tem, da banda do rio, uma cortina de alvenaria com capeamento de betão, e a cortina de vedação do lado do recinto do Arsenal está feita provisoriamente com um muro de tijolo com pilastras divisórias e de reforço.

Avenida Ribeira  das Naus [195-]
À esquerda o local do antigo Arsenal da Marinha que se  vêem na foto acima; à direita o Largo do Corpo Santo; ao fundo o Cais do Sodré
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Para memória de que havia sido aí o local onde se construíram quase todas as caravelas, naus e outros barcos de guerra desde o século XVI até aos meados do XX [2] , e que por todos os mares do mundo tornaram conhecido e afamado o nome de a Câmara Municipal de Lisboa mandou afixar no topo da ala da Sala do Risco, uma nau esculpida em pedra, do brasão de armas da cidade, e por baixo dela a seguinte inscrição:
NESTE LOCAL | CONSTRUIRAM-SE AS NAUS | QUE DESCOBRIRAM NOVAS | TERRAS E NOVOS MARES E | LEVARAM A TODO O MUNDO | O NOME DE PORTUGAL | MANDADA COLOCAR PELA C. M. L. NO ANO DE 1948.

[1] Edital de 22 de Junho de 1948, e Diário Municipal de 25 do mesmo mês. 
[2] As últimas naus portuguesas construidas na Ribeira das Naus, foram, nos  meados do século XIX, a D. João VI e a Cidade de Lisboa (1841) que depois se crismou em Vasco da Cama (Anais das Bibliotecas, Arquivo, etc., n.º 12, 19Sl, pág. 28); o último barco de guerra construido no Arsenal da Marinha foi o aviso de 2.ª classe João de Lisboa, lançado à água em 21 de Maio de 1936. 
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Bibliografia
(CASTILHO, Júlio de) A Ribeira de Lisboa, p. 461, 1893)
(VIEIRA DA SILVA, Augusto, Dispersos vol. I, pp. 389-391, 1968, Biblioteca de Estudos Olisiponenses)

Monday, 10 August 2015

Verões Lisboetas: as Barcas de Banhos

Os banhos de mar tomavam-se apenas como tratamento prescrito pelos médicos e era na Fundição ou na Praia de Santos que de manhã se ia mergulhar na lama ou na água suja de toda a imundície que naqueles locais se despejava.
Mais tarde, apareceram as Barcas de Banhos com os pomposos nomes de Deusa dos Mares, Flor da Praia, etc.. Como essas barcas estavam amarradas à terra, ou ancoradas muito próximo, as águas eram iguais e ainda por cima o banho tomava-se dentro de verdadeiras gaiolas; mas, por muito tempo, foi moda "ir às barcas" que além do mais serviam para o cultivo do namoro.

Mal se entrava no Verão encontravam-se atracadas no rio as célebres Barcas de Banhos, para ser mais preciso, no cais de Santos, na margem do Tejo, pouco mais ou menos onde hoje fica a estação da linha de Cascais. Assim que a canícula se tornava insuportável o alfacinha ocorria às Barcas; efectivamente os lisboetas não eram muito dados a idas à praia, porque os transportes eram caros e escassos e quanto muito ia-se até Algés, Belém ou Pedrouços. Equivaleriam hoje as Barcas de Banhos às nossas actuais praias.

Terreiro do Paço e as Barcas de Banhos, em 1848
À popa de uma delas vê-se um pontão com o enxugador para as roupas de banho.

Três delas, encontravam-se atracadas perto uma das outras, sendo a primeira, a contar do Cais de Sodré para o Terreiro do Paço, a Lisbonense, pintada de negro com vivos brancos; seguindo-se a Vinte e Quatro de Julho. pintada de azul e a terceira, a Feliz Destino, toda de verde. A primeira era frequentada por gente do povo, a outra pelos remediados e a terceira pelos de mais posses.
Mas, a meio do rio, mesmo em frente ao Terreiro do Paço, fundeava mais uma que se chamava Deusa dos Mares e que se destinava aos mais abastados, onde inclusivamente se ensinava natação. Era esta uma barca ou casco muito grande e com uma história curiosa, que contarei um pouco mais abaixo; acrescia ao preço do banho o transporte em catraio a partir do Cais das Colunas. Acontecia que os banhos ali tomados tinham a vantagem de a água ter maior corrente, ser mais transparente e menos vasa, o que não sucedia com os utentes das outras que estavam atracadas na margem ou muito perto dela.

Uma Barca de Banhos em frente do Terreiro do Paço [1862-1873]
À popa do
pontão com o enxugador para as roupas de banho-vê-se o catraio de transporte dos banhistas.
“Black Horse Square, Lisbon” with the Rua Augusta arch under construction"
T. W. Langton

Sensivelmente entre o ano de 1872 e o de 1874 as condições da água do rio devem-se ter alterado, assim como as instalações da barca se devem ter deteriorado, talvez por falta de manutenção, assunto esse que foi remediado dando origem a um curioso anúncio publicado no Diário Ilustrado de Agosto de 1874, que diz o seguinte:                                   
"Esta barca acha-se fundeada defronte do Arsenal da Marinha, no local, onde a corrente da água é puríssima, mesmo na baixa-mar, por estar convenientemente afastada da canalização dos despejos da cidade. Depois dos melhoramentos que a empresa, como costuma, realizou este ano, foi a Barca vistoriada pelos peritos do Arsenal da Marinha, em virtude do que o Ilm.º e Exm.º Sr. Capitão do Porto deu o seguinte despacho ao requerimentos que nessa ocasião se fez.

Tendo-se passado vistoria e sendo esta de parecer que a barca se acha em boas condições, para o serviço a que é destinada, concedo a licença pedida para vir para a sua amarração. - Departamento do Centro, 26 de Julho de 1874.- Kol.  
A publicação deste despacho garantiu a solidez das obras realizadas e desvanece quaisquer dúvidas, que por ventura houvessem a tal respeito. A boa ordem, asseio e comodidade são rigorosamente observados, como convêm em estabelecimento de tal ordem.
PREÇOS: Primeiro banho de proa, $120 réis; Banho de proa, $100; Banho de chuva, $160; Banho reservado, $200; Banho grande, $120; Banho de ré, $080; Banho geral, $060.    
Obs.: O banho geral para homens corre em volta da popa da barca e mede 102 pés, sendo por tal motivo apropriado para o exercício de natação, sem que haja perigo. A bordo alugam-se roupas, assim como se ministram banhos mornos. No Terreiro do Paço, encontram as pessoas que quiserem frequentar a barca, botes sólidos e expressamente construídos para o serviço de conduzir a bordo."  
As barcas menores tinham a forma de uma pequena vivenda de madeira, construídas sobre enormes faluas, para as quais se entrava por meio de um pontão que vinha da embarcação para o cais, onde se vendiam os bilhetes e alugavam os lençóis, os fatos de banho e as bóias, porque quem sabia nadar tinha autorização para se banhar, fora das gaiolas reservadas aos banhistas, em volta da construção.

Barca menor ligada por um pontão ao cais

O preço do banho variava conforme os lados de bombordo ou estibordo, ou segundo os quartos com poços especiais, onde podia cada qual despir-se; à ré, encontrava-se o "banho geral", onde os utentes se agarravam a uma corda, que um marítimo experiente vigiava, banho este que se pagava com um pataco.

A Barca DEUSA DOS MARES

Tem esta barca uma história curiosa e digna de menção. Pertenceu outrora à praça de Lisboa e fazia a carreira da Índia debaixo do nome «Maia Cardoso». Mais tarde, foi armada em vaso de guerra, e por esse motivo mudou de feição e de nome. Passou a chamar-se «Trovoada» e assistiu impassível, no alto mar, à desencadeada luta dos elementos, pois era feita de teca e da melhor construção, prestando serviços à armada e ganhando mais um título à estima pública.  

Seguiram-se os anos e o vaso de guerra voltou ao Tejo. Cansado já da glória, e depois de se ter tornado útil ao comércio e à marinha, desarmou-se dos apetrechos bélicos, e ataviou-se elegantemente como "Barca de Banhos", e hoje mais do que nunca se acha bem conceituada, porque tem ido de melhoramento em melhoramento, a ponto da barca conter agora 31 banhos a estibordo e bombordo, sendo estes divididos em banhos diferentes, como por exemplo: 4 banhos de chuva, 2 reservados e 3 grandes, havendo a facilidade de reunir 3 banhos num só, quando se dá o caso da família ser numerosa. Como se todos estes atractivos não fossem bastantes, tem mais 2 magníficos banhos gerais com o comprimento de 102 pés ingleses, e a conveniência de servir um dos banhos de escola de natação, descobrindo-se metade, e tornando-se por tanto muito mais claro do que os outros. Davam-se, também  banhos quentes em tinas e igualmente mornos de chuva.


O que sobretudo demonstrava claramente a excelência desta barca era o estar colocada na corrente da água e os banhos de proa serem "tão fortes e cristalinos como o das praias". A bordo, ainda havia um "bufete", onde os banhistas encontravam sempre um bom serviço e preços acessíveis. Havia sempre à disposição dos frequentadores da "Deusa dos Mares" 3 botes no cais do Terreiro do Paço e 2 no Cais do Sodré. Em remate direi que a barca media da proa à popa 156 pés ingleses e 61 de boca, sendo por conseguinte a maior embarcação, ao seu tempo, surta no Tejo.

                                            COMO ERAM AS BARCAS DE BANHOS?  


Nada como o Eng.º Vieira da Silva, que frequentou estas barcas em 1875, na companhia de sua mãe, para nos descrever que: "Tratavam-se de velhos cascos de barcos que se adaptavam a essa nova aplicação. Para esse efeito, ao longo de uma coxia longitudinal de circulação no convés, adaptava-se, a cada um dos costados, de proa à popa, uma estrutura de madeira semelhante a uma longa caixa, com tecto, dividida interiormente por tábuas transversais em celas ou compartimentos, com uma porta para o convés na parede anterior. Constituíam essas celas as barracas, para os banhistas se vestirem e despirem.
Os compartimentos alongavam-se para fora do convés do barco, e as suas paredes laterais e as posteriores, que desciam vedadas até ao nível da água, prolongavam-se para baixo deste nível com a forma de gaiolas, com três das suas paredes feitas de grades de sarrafos, e com o fundo de tábuas de soalho, que ficava cerca de 1,30m abaixo do nível normal da água nos compartimentos.

Panorâmica do rio Tejo vista do Cais do Sodré [séc XIX] 
Ao centro observa-se uma Barca de Banhos
Fotógrafo não identificado, , in Lisboa de Antigamente

Deste modo, cada barraca podia considerar-se formada por dois compartimentos sobrepostos: um aéreo, com o pavimento ou estrado a nível do convés, no qual os banhistas se preparavam para o banho; outro aquático ou submerso, ou poço onde se tomava banho, limitado pelo gradeamento de sarrafos e pelo costado do barco. Como os barcas estavam fundeadas, a água corrente do rio atravessavam os diversos compartimentos, pelos intervalos das grades de madeira o que proporcionava aos banhistas água corrente, com alguns encontros inesperados com peixes, alforrecas e uma ou outra imundície que vagueava pelo rio". (in coisasdeantigamente)

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