Wednesday, 31 December 2025

Ano Novo: a Moda em Lisboa

A moda feminina mudara radicalmente durante a Grande Guerra, perdendo os contornos ditados pelo espartilho.
Pilar da coesão social própria comunicação gestual, a roupa determinou completa a postura, o movimento e a atitude, sociabilizando o corpo. No jogo das aparências, qualquer requinte de uma toilette elegante foi, durante largos anos, mais rigoroso dos que os próprios preceitos da higiene íntima. Até à segunda metade deste século, e apesar do culto oitocentista de "mente sã em corpo são", era mais importante ostentar o último capricho da moda do que tomar banho diariamente. O gosto aristocrático e refinado podia coabitar com a falta de asseio, mas nunca com a ausência da representação social do trajo. 

Praça Dom João da Câmara que foi Largo de Camões |1921-12-29|
Elegantes da década de 20, de estola e chapéu, passeando no antigo Largo de Camões — hoje Praça D. João da Câmara — com o afamado Café Martinho e o luxuoso hotel Avenida Palace como pano de fundo.  
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A linguagem da aparência vai até onde chegam os olhos alheios. Por isso se queixa o autor português Alfredo Gallis (1859-1910):
«Quantas, às nove da manhã, espera à janela, lindamente penteadas, o seu namorado, no entanto ainda não lavaram os pés nem tencionam levá-los?» (O Que as Noivas Devem Saber, 1910) 

N.B. Foi neste arruamento próximo do Teatro D. Maria II que a edilidade decidiu perpetuar como Praça, o nome do dramaturgo D. João da Câmara, com a legenda «Figura Gloriosa do Teatro Português, 1852–1908», embora o edital de 1924 tenha por lapso mencionado Largo e, durante décadas, se tenha mantido a duplicação de referências, ora como Largo ora como Praça.

Praça Dom João da Câmara que foi Largo de Camões |1921-12-31|
Depois de passar, provavelmente, pela Kermesse de Paris para fazer umas compras de
última hora. vamos lá preparar a passagem de ano. 
Ano Novo. Há concertos, fogos de artifício, inúmeras manifestações de alegria.
No convívio da família e  família e cumprindo tradições, também se vive a
passagem do ano, desejando saúde, dinheiro e realização
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 28 December 2025

Cena de rua no antigo Largo de Camões

Há quem suponha que este Camões é o nosso épico Luiz de Camões. Errada suposição. João Paulo Freire — jornalista, poeta, ensaísta, novelista — esclarece o motivo das trocas e baldrocas com este topónimo:
O Camões do Rossio nada tem que ver com o Camões das Duas Igrejas [actual Praça de Luís de Camões]. Este é o épico. Aquele é apenas o seu homónimo por antonomásia — Caetano José da Silva Souto Mayor, poeta epigramático, muito espirituoso, e que foi corregedor da corte de D. João V, juiz do Crime do Bairro da Mouraria, e corregedor do Bairro do Rossio, onde morava, pois residiu sempre no prédio onde mais tarde se construiu o actual que é ocupado pela Brasileira.
(FREIRE, João Paulo, Lisboa do meu tempo e do passado, Lisboa, 1931-1939)

Praça Dom João da Câmara que foi Largo de Camões — cena de rua |1908|
Uns quantos eléctricos e carroças, um cavaleiro, os peões domingueiros e um dos raros automóveis existentes em Lisboa na época. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Esta artéria, até 1924, era o Largo de Camões, já assim denominado em 1858 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque.

Praça Dom João da Câmara que foi Largo de Camões — cena de rua |c. 1920|
Encimando a imagem observa-se o Castelo ainda povoado por edifícios dos aquartelamentos militares.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 26 December 2025

Jardim de São Pedro de Alcântara: tabuleiro inferior

Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. [...] Cobardemente, por inércia, enervada pela voz pomposa do conselheiro, Luísa foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim.
(QUEIROZ Eça de, O Primo Basílio, 1878)

O tabuleiro inferior foi ajardinado à francesa, com os arbustos e canteiros de flores desenhados geometricamente, da mesma forma foi erguido um tanque de repuxo de pequenas dimensões e outro em cascata imbuído na muralha. Nas bordas dos passeios de areia, assentes em altos plintos, podemos observar bustos de deuses e heróis da mitologia greco-romana, como também figuras históricas dos nossos anos de descobridores. [...] O tabuleiro inferior acabou por ser fechado ao público, proibindo-se o acesso sob a vigilância de um guarda municipal. Tal ficou a dever-se ao facto de muitos utilizarem aquele espaço para pôr termo à vida, lançando-se do tabuleiro inferior e caindo na Rua das Taipas. O número destas ocorrências aumentou significativamente com o fecho do Aqueduto das Águas Livres, curiosamente devido às mesmas razões. Em 1864 foi colocada uma grade, exigida desde 1852. [paleolisboa.com]

Jardim de São Pedro de Alcântara/Jardim António Nobre |1949|
Rua de São Pedro de Alcântara 
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Esta esplanada, com a sua legião de bustos brancos orlando as aleias e os canteiros, é um dos mais belos miradoiros de Lisboa.
O passeio de S. Pedro de Alcântara, levantado sobre a muralha, de que em outros artigos já falámos, é, deslumbrante pelo panorama que descobre. O jardim, que fica subposto, tem muitos e viçosos canteiros, copada vegetação, uma cascata, e está adornado com bustos de romanos [e portugueses] célebres. (Portugal antigo e moderno, 1874)

N.B. O Jardim de São Pedro de Alcântara foi construído em Oitocentos sobre os restos de muralhas levantadas durante as obras das Águas Livres. O nome deste espaço de lazer deriva do Convento de Frades Arrábidos situado nas proximidades do jardim. [...]

Jardim de São Pedro de Alcântara/Jardim António Nobre |entre 1918 e 1922|
Rua de São Pedro de Alcântara 
João José Penha, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 24 December 2025

Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal

O Rossio só me confrange uma vez por ano, justamente na época que atravessamos, quando em contraste com a sua toilette cada vez mais cuidada, ali tomba, em vésperas do Natal, a ronda soturna, o rosário deselegante e miserável dos vendedores de brinquedos «a dez tostões».

É já um lugar-comum chamar à Praça do Rossio a sala de visitas de Lisboa. Concedamos que todo o vasto recinto tem hoje, efectivamente, o caracter peculiar a uma capital. Mas é talvez o pombalino, beliscado aqui e ali por incómoda alteração, é o Arco do Bandeira, serão mesmo os dois «pastiches» do Teatro Nacional e da estátua de D. Pedro, que ao local dão uma presença, um estilo nitidamente lisboeta, como não é possível encontrar em outra parte. O Rossio, a Praça do Rossio, a que o povo, com instinto seguro, nunca chamou a Praça de D. Pedro, desprende da sua perspectiva, do recorte regular dos seus prédios e janelas, sobretudo quando se vem de fora, quando se vem do Norte, uma serena e cariciosa amabilidade, que eu só com paro ao conforto do lar, depois de um dia de trabalho.

 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1964-12|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

A Praça do Rossio, nesses momentos, quando no ar tern seu quê de amigo, e nos trata por tu, e nos acolhe com sua graça alfacinha, - é o local de privilégio de Lisboa, o lugar-bruxo que nos sabe sempre bem atravessar, mesmo sem pretexto aparente, sem necessidade. 
Pincelada à noite, em suas mansardas, pelo vermelho, o azul, o verde luminoso dos tubos neon, dir-se-á que a Praça do Rossio, escovada e moderna, ganha outro caracter. Os novos estabelecimentos e cafés, decorados por uma publicidade bela, desenhados por luz sapiente, colorida e bem distribuída, como que surgem transformando o estilo, o caracter antigo, imprimindo a sua nota internacional.

 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1965-12|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1966-01|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Muito embora a instalação de todo esse cenário venha pintalgando lojas e telhados, o Rossio resiste, permanece pombalino, reserva-nos sempre a sua serenidade cariciosa. O seu estilo guarda sempre o segredo que nele adivinhamos, sem o desvendar.
Lisboa, a bela, não perdeu ainda, no pormenor do seu toucado, um certo desprendimento, um descuido peculiar que vive paredes meias com o desleixo. Um pouco mais e esta cidade constituiria o burgo mais aprazível da Europa do Sul. [Luíz Moita: 1939]

 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1959-12|
Lagos do Rossio
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Imbuídos no espírito natalício decidimos inserir abaixo as mesmas imagens do fotógrafo Armando Serôdio mas coloridas e geradas por IA com a chamada «quebra de página». Caso queira continuar e visualizar clique em «ler mais [read more]»

Sunday, 21 December 2025

Monumento ao Marquês de Pombal

Em 1910, poucos anos depois das comemorações das comemorações do Centenário da Índia, a Praça Marquês de Pombal estava edificada como hoje [em 1939].
Quedemo-nos uns momentos diante do monumento ao Marquês de Pombal. 


A ideia de se erguer um monumento ao estadista, reedificador de Lisboa, é antiga, mas só lhe foi dada expressão pública em 1882, ano em que o Parlamento autorizou o Estado a ceder o bronze necessário. Em Abril daquele ano — recorda o ilustre olisipógrafo Norberto de Araújo — constituiu-se uma comissão encarregada de promover a subscrição nacional, presidida por Rodrigues Sampaio.
Os trabalhos não tiveram sequência, e só em 1905 se voltou a um plano prático, constituindo-se nova comissão, presidida pelo Conselheiro Veiga Beirão, havendo a subscrição pública sido iniciada a 6 de Maio. Contudo, ainda desta vez a iniciativa não foi coroada de êxito, talvez porque logo em 1906 começou a agitação política que dominava todos os pensamentos.
Proclamada a República, a ideia de dar realização séria à iniciativa de havia quarenta anos, ressurgiu. Em 1913 realizou-se o concurso para o monumento, sendo apresentados catorze projectos, e aprovados quatro; destes, acabou por ser preferido (5 de Abril de 1914) aquele que sob a legenda «Gloria Progressus - Delenda reactio» era assinado por Adães Bermudes, António Couto e Francisco Santos. A escolha, feita por um júri idóneo, ao qual presidia o professor e director da Escola de Belas Artes, José Luiz Monteiro, provocou enorme celeuma, havendo muitas personalidades de categoria artística e intelectual que preferiam o projecto do arquitecto José Marques da Silva e do escultor António Alves de Sousa (ambos artistas portuenses).
A primeira pedra para o Monumento foi colocada em 15 de Agosto de 1917, mas em 13 de Maio de 1926 a cerimónia repetiu-se, havendo discursado o Dr. Bernardino Machado, Presidente da República, e D. Tomaz de Vilhena, descendente do «Grande Marquês» qualificativo tradicional da família — , e ao tempo deputado monárquico.

Monumento ao Marquês de Pombal
Fundações da estátua |1927|
Fotógrafo não identificado, in LdA

Monumento ao Marquês de Pombal
Obras de desaterro |1924|
Fotógrafo não identificado, in LdA




















As obras vinham-se arrastando, por falta de verba, desde 1914. Em Março de 1924 foi nomeada uma nova comissão, à qual presidia o Dr. Magalhães Lima, estando na vice-presidência o general Vieira da Rocha; o rendimento dos selos emitidos em Dezembro de 1924 não satisfez, mas as obras de 1925 para diante entraram na fase definitiva da sua actividade. Em 13 de Maio de 1930 o Presidente da República, general Oscar Carmona, visitou as obras, já em vulto neste local. A grande estátua foi completamente assente sobre o alto fuste em 2 de Dezembro de 1933.
Finalmente em 13 de Maio de 1934 foi inaugurado o monumento, sem a solenidade que parecia de supor; assistiram o Ministro das Obras Públicas, engenheiro Duarte Pacheco, o presidente da Câmara Municipal, tenente-coronel Linhares de Lima, o governador civil, tenente-coronel João Luiz de Moura, e o presidente da Comissão, general Vieira da Rocha.
Estas anotações cronológicas, apesar de deficientes, reputo-as necessárias, pois andavam dispersas. Dêmos volta ao monumento.
Vejamos primeiramente o pedestal. Essa figura de mulher, constituída por dois blocos de pedra que pesam 17.250 quilos, na frente do monumento, representa «Lisboa reedificada»; tem cinco metros de altura — não o dirias. Sob o plinto em que ela assenta, vemos a proa de uma nau simbolizando a libertação da marinha mercante. Em baixo, dos lados, representa-se o cataclismo que assolou Lisboa na terra e no mar; destacam-se as esculturas de Plutão e Poseidon, este simbolizado num cavalo-marinho.

Monumento ao Marquês de Pombal
Ao fundo nota.se o estaleiro de obra |1934|
Tomada da Braamcamp para a Av. Fontes.
Fotógrafo não identificado, in LdA
Monumento ao Marquês de Pombal
Cabeça da figura do Marquês |1934|
Ao fundo ve-se a R. Braamcamp.
Ferreira da Cunha, in LdA



























Analisemos agora os grupos escultóricos laterais do pedestal, em seu conjunto admiráveis, apesar de algum senão que lhes possas notar. No grupo da esquerda, lado nascente, simboliza-se a agricultura, com o trabalho da lavoura, através de uma junta de bois, e de figuras bem tratadas escultoricamente, e das quais sobressaem o homem que sustenta o arado e a mulher que transporta o cabaz com uvas. O grupo do lado oposto simboliza a indústria e a pesca: um cavalo arrasta as redes, e um operário sopra o vidro; eis um conjunto também de merecimento, não apenas pela disposição mas pelo lavor das várias figuras.
Os escultores, professor Simões de Almeida e Leopoldo Neves de Almeida, que já eram colaboradores do ilustre Francisco Santos, falecido em Abril de 1930, foram os realizadores destes trabalhos, como aliás de outros que valorizam o monumento.
Na face norte (posterior) do monumento construiu-se uma alegoria objectiva à reforma da Universidade de Coimbra [vd. imagem seguinte]. Destaca-se — nota — essa figura de Minerva, em bronze, sentada, adiante do pórtico da «Universitas Conimbricensis».


Monumento ao Marquês de Pombal, face norte (posterior) |1953|
Destaca com a presença, na fachada, de um edifício clássico que simboliza a Universidade de Coimbra, à frente do qual está uma estátua de Minerva, sentada, em bronze.
Em primeiro plano nota-se o Lago do Parque Eduardo VII.
Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

No fuste, de grande superfície, vêem-se nas suas quatro faces legendas que exaltam o estadista e reformador; na face principal lês, comigo: «Ao genial estadista Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal — a Pátria reconhecida — MCMXXXIV».
O capitel do obelisco ostenta quatro medalhões, enlaçados nos cunhais por quatro águias; no medalhão da frente enquadra-se  a efigie de Machado de Castro, no do poente as de D. Luiz da Cunha, Eugénio dos Santos e Manuel da Maia, no posterior a de Ribeiro Sanches, e no do lado nascente as de Luiz Verney, Serra da Silva e Conde de Lipe. Foram estes os principais colaboradores de Pombal.
Finalmente, ao alto, está o grupo fulcro do monumento — que mede, de alto abaixo, 36 metros: o Marquês, de corpo inteiro, assenta o braço sobre o dorso de um leão, na simbólica da serenidade e da força. Este grupo, de grandes dimensões (basta dizer que tem a altura de cinco homens) é de realização primorosa, prejudicada contudo na visão perspectival à distância, quando tomada do Norte e do Poente.

Monumento ao Marquês de Pombal (em obra) |1934-04-05|
No topo do monumento, sobressaem quatro medalhões que retratam os principais colaboradores de Pombal, incluindo Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Machado de Castro.
Perspectiva tomada da Av. da Liberdade.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Também este grupo principal foi concluído por Simões de Almeida; a cabeça da figura do Marquês [vd. imagem acima], ainda em formação no barro, com 1,80 de altura , de enorme peso, ruíra no atelier de Francisco Santos no próprio dia em que o artista morrera (29 de Abril de 1930).
Quatro grandes colunas de mármore nobre , cada uma com quatro candelabros de braço, em bronze, decoradas com florões e laços — bom trabalho de «atelier» e de fábrica , mas de gosto discutível — guarnecem o monumento.
E aí tens num dos degraus da escadaria do sopé: «Autores: Adães Bermudes, arquitecto; António Couto, arquitecto; Francisco Santos, estatuário; colaboradores, Leopoldo de Almeida, estatuário; Simões de Almeida, estatuário».

 

Inauguração do monumento ao marquês de Pombal |1934-05-13|
 O Marquês, de corpo inteiro, assenta o braço sobre o dorso de um leão, na simbólica da serenidade e da força.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

E, Dilecto, com paz na consciência, e sem beliscadura de sectarismo, digamos adeus ao monumento a Pombal. Antes, porém, anota as legendas cronológicas da vida do Marquês, e que no empedrado à portuguesa ilustram as placas que compõem a Praça.

Monumento ao Marquês de Pombal |1938-10-06|
Na base, várias figuras alegóricas dão vida à cena, como uma figura feminina que simboliza Lisboa reconstruída e três grupos escultóricos que representam as reformas de Pombal na agricultura, indústria e ensino.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa», vol. XIV, pp. 44-48, 1939.
BRITO, Francisco Nogueira de, Roteiro ilustrado de Lisboa e arredores, 1935.

Friday, 19 December 2025

Travessas do Forte e do Meio do Forte

Forte (travessa do) Principia no fim da travessa da Cruz ao Desterro e finda na travessa das Salgadeiras, freguezia da Pena 2 a 40 e 1 a 7. [Velloso: 1896]
Saiba mais aqui e aqui.

Travessa do Forte |1907-06|
À dir. abre-se a Travessa do Meio do Forte (v. imagem seguinte) e, ao fundo,
nota-se o arco — já demolido — na embocadura da Travessa das
Salgadeiras/Pátio do Sequeira. Não encontrámos referências bibliográficas para a origem
deste topónimo. O edifício a dir. é revestido por azulejos serigrafados com desenho centrado.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Forte (travessa do Meio do) primeira á direita na travessa de Santa Anna da Cruz, indo da travessa da Cruz e finda na travessa do Forte, freg. da Pena 21a 56 e 1 a 35. [Velloso: 1896]

Travessa do Meio do Forte |1964|
Ao fundo observa-se a Tv. Santana da Cruz.
Fernandes, Augusto de Jesus, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 14 December 2025

Estr. Marginal: o Convento e o Forte da Boa Viagem

O Convento da Boa Viagem, cujas ruínas chegaram aos nossos dias — tendo desaparecido os vestígios mais importantes quando se construiu a Estrada Marginal Lisboa-Cascais e o Estádio Nacional — era tido como localizado na margem direita do Jamor, no sítio ainda boje conhecido pela Boa Viagem em cujo alto se conservou, por memória, uma pequena ermida. 

Estr. Marginal, Alto da Boa Viagem |c. 194-|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente, in Lisboa de Antigamente

Era aqui, também, que estava o Forte da Boa Viagem, e em todas as cartas antigas onde se traça a barra do Tejo, lá aparece assinalado tanto este forte como um edifício com uma cruz — indicativo de igreja, ermida ou convento[Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa, 1961]

Estr. Marginal, Alto da Boa Viagem |ant. 1952|
Vista da Avenida Marginal e da linha de Cascais, anterior a 31 de Março de 1952, em fundo o Farol da Gibalta (Oeiras). Restaurante Boa Viagem.
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Friday, 12 December 2025

Mercado de Arroios

Fui um dia visitar o mercado de Arroios, gostei da sua arquitectura, tipo de panela com a tampa em cima a fazer de telhado, a praça cheia de tudo, hortaliça, fruta de toda a qualidade, peixe fresquinho tapado de gelo, encontrei lá uma sardinha de olhos azuis que andava a passear, perguntei-lhe se havia assim sardinhas tão boas todos os dias no mercado de Arroios, respondeu-me que em em Portugal não falta nunca a boa sardinha. [Covas: 2007]

Erguido no centro de um populoso bairro lisboeta — vulgo Bairro dos Actores —, o mercado de Arroios (1942) assentou numa concepção estrutural inovadora. Com uma planta central, com um pátio central aberto, a construção articula-se em torno de uma série de grandes vigas dispostas em círculo que se estendem por três pisos. De cada lado desta estrutura matricial está suspensa uma laje que cobre o primeiro andar, onde as lojas se abrem para a rua exterior e para o pátio interior, respectivamente. Este sistema de corpos escalonados permite uma abertura de aberturas em vários níveis que convergem para alcançar uma iluminação natural cheia de força e diversificada, bem como uma espacialidade claramente inovadora para a época. [Ana Tostões]

Mercado de Arroios (construção) |1939|
Rua Ângela Pinto; ao fundo as Ruas Lucinda Simões e Carvalho Araújo.
DN, in Lisboa de Antigamente

O projecto urbanístico aprovado em sessão de Câmara de 7 de Abril de 1928 determinou o futuro da zona contida entre a Praça do Chile e a Alameda Dom Afonso Henriques, tendo a Rua Ângela Pinto (1869-1925) sido o topónimo dado à «Circular, em volta do mercado». Com a publicação do Edital de 12 de Março de 1932, ficou perpetuada a memória de uma das maiores actrizes do teatro português na toponímia da cidade de Lisboa.

Panoramica sobre o Mercado de Arroios e envolvente |1942|
Rua Ângela Pinto; Rua Carlos Mardel.
Projecto do arquitecto Luís Benavente, datado de 1938-40.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 7 December 2025

Avenida de Brasília: Forte do Bom Sucesso

Junto das magníficas e nunca bastante exaltadas pedras da Torre de Belém, construiu-se, em 1780, o Forte do Bom Sucesso pelo risco do exímio Valleré. Bom Sucesso, porquê? Porque os barcos quando ali chegavam, ao cabo de longas ou pequenas travessias, estavam em bom resguardo, no abrigo, livres das tormentas. Assim seria bom o seu sucesso.
Junot mandou ligar uma bateria corrida à Torre de Belém. Muito mais tarde foi alterado o risco pelo capitão Sanches de Castro, depois general e Ministro da Guerra. Começaram as obras em 6 de Abril de 1870. [Martins: 1945]

Forte do Bom Sucesso [entre 1926 e 1936]
Avenida de Brasília (dist. 1960)
No espaço fronteiro está instalado o Museu do Combatente, erguido em homenagem aos combatentes portugueses mortos na Guerra do Ultramar.
António Passaporte (Colecção Loty), in Lisboa de Antigamente

N.B. O topónimo "Av. de Brasília" nasceu de um pedido do Almirante Sarmento Rodrigues – Ministro do Ultramar de Salazar, de 1950 a 1955 – ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que era então António Vitorino França Borges, para se fixar em Lisboa a nova capital brasileira que iria suceder ao Rio de Janeiro (1763 a 1960), que por sua vez já sucedera a Salvador (1549 a 1763). O dístico foi atribuído pela edilidade em 1960.

Forte do Bom Sucesso [entre 1926 e 1936]
Avenida de Brasília (dist. 1960)
Perspectiva tomada da Torre de Belém observando-se ao fundo a Serra de Sintra.
António Passaporte (Colecção Loty), in Lisboa de Antigamente

Friday, 5 December 2025

Avenida de Roma

A Avenida de Roma — espinha dorsal do Bairro de Alvalade — é um verdadeiro livro aberto da história da arquitectura e do urbanismo do século XX. Nela, encontramos edifícios de grande qualidade arquitectónica, projectados por alguns dos melhores arquitectos da época, como Cassiano Branco, Joaquim Bento de Almeida, José de Lima Franco, Licínio Cruz, Formosinho Sanches, Filipe Figueiredo e José Segurado.

Avenida de Roma |195-|
Perspectiva tomada da Praça Alvalade
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

A novíssima Avenida de Roma, topónimo que presta homenagem à capital da Itália, foi atribuído a 27 de Dezembro de 1930 à antiga Avenida nº 19 do plano de melhoramentos aprovado por deliberação camarária de 7 de Abril de 1928.

Avenida de Roma S→N |195-|
Perspectiva tomada junto ao extinto Cinema Roma (dir.) com a Av. Óscar Monteiro
Torres na primeira transversal á 
esquerda.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 30 November 2025

Rua da Palma que foi «Nova» e «da Imprensa»

As principais alterações urbanísticas no bairro da Mouraria iniciaram-se na segunda metade do século XIX. Uma das intervenções que mais contribuíram para a nova feição urbana da área foi a abertura da Rua Nova da Palma, alterando a malha e a dinâmica urbana da zona da Baixa da Mouraria. Para tal, foram destruídos um troço da Cerca Fernandina e a Ermida de Nossa Senhora da Guia (de 1759). Por detrás da antiga Igreja da Nossa Senhora do Socorro estava a famosa horta das Atafonas, expropriada em 1859. 

Rua da Palma e Av. Alm. Reis |c. 1940|
Procissão Nossa Senhora da Saúde. [vd. N.B]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Inicialmente, o novo trecho da rua chamou-se da Imprensa, mas no edital de 1859 “foi trocada em Rua Nova da Palma, e incorporada a nova artéria no primeiro troço quinhentista que já tinha esse nome. […] Em 1889 passou esta via pública, de extremo a extremo, a chamar-se Rua da Palma” (Silva: 1987). Contudo, as construções que deveriam “marginar a artéria” decorreram com lentidão, tendo tido início somente em 1852. Surgiram então o Teatro do Príncipe Real (1865) – depois chamado Teatro Apolo –, o Real Coliseu de Lisboa (de 1887), o Paraíso de Lisboa (local para realização de espectáculos) e o Circo Popular Lisbonense. [Menezes: 2023]

Rua da Palma, 238 |1927|
Novo edifício das encomendas postais (o anterior ocupou o espaço do Real Coliseu de Lisboa,  depois Garagem Liz.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. A procissão da Saúde era dos mais curiosos espectáculos da Lisboa religiosa, com um carácter diverso da dos Passos e da do Corpo de Deus ou S. Jorge.
primeira vez que se realizou foi em 20 de Abril de 1570. A última em 20 de Abril de 1910. Saia de manhã cedo da Mouraria, ia à Sé onde se cantava um Te-Deum, e depois a S. Domingos, onde havia sermão. Recolhia ao entardecer à Mouraria — e era de ver-se. [Araújo: 1989]

Friday, 28 November 2025

Jardim Augusto Rosa (Largo da Sé)

Já agora, no Jardim do Largo [da Sé], admiremos o busto em bronze de Augusto Rosa, uma das mais belas figuras da cena portuguesa de todos os tempos; é escultura de Teixeira Lopes. Foi colocado aqui por uma vereação de 1925, ano em que à antiga Rua do Limoeiro, e antes Rua do Arco do Limoeiro, foi dado o nome do excelso artista. [Araújo, II, 1938]

Jardim Augusto Rosa (Largo da Sé) [entre 1926 e 1936]
Por edital de 8 de Janeiro de 1925 o jardim do Largo da Sé passa a denominar-se
Jardim Augusto Rosa.
António Passaporte (Colecção Loty), in Lisboa de Antigamente

Sunday, 23 November 2025

Avenida da República: viadutos ferroviários de Entrecampos

A Avenida — que em linha recta, é de 1.509 metros — é uma avenida moderna, macadamizada. Havia uma grande dificuldade a vencer — diz Pimentel na sua Lisboa — , quasi a meio trajecto dessa avenida, e que era a passagem de nível para a linha em frente do Mercado Geral de Gados, mas para essa faz-se um desvio, constrói-se um viaduto correspondente, e está vencida a dificuldade. O caminho de ferro de cintura virá a passar do lado da estrada de Entre Campos, onde actualmente passa; daí em diante é que começa a operar-se o desvio, cortando a linha a Avenida Ressano Garcia [hoje Av. da República] em terrenos que pertencem ainda ao Mercado Geral, em seguida esses terrenos, e logo depois a Avenida António Maria d'Avellar [hoje Av. Cinco de Outubro]. (Lisboa, Por Alberto Pimentel, 1903, p. 507)

Avenida da República |195-|
Viaduto ferroviário de Entrecampos inaugurado a 17 Novembro de 1950Rua Visconde de Seabra.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

N.B. O topónimo Rua Visconde de Seabra perpetua na toponímia de Lisboa o nome de António Luís de Seabra (1798-1895), 1º visconde de Seabra, com título atribuído em 25 de Abril de 1865, responsável pela organização do projecto de Código Civil que foi promulgado por Carta de Lei em 1 de Julho de 1867.
Formado em 1820, a sua carreira desenvolveu-se como deputado, membro da Câmara dos Pares, Ministro da Justiça (1852 e 1868), reitor da Universidade de Coimbra (1866-68) e juiz do Supremo Tribunal de Justiça. [cm-lisboa]

Viaduto ferroviário de Entrecampos, lado N. |1944|
 Em cima à esq., o antigo apeadeiro ferroviária; à dir. nota-se o edifício na Avenida da República, 97.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Em 1956, dá-se uma alteração no esquema de circulação da Avenida da República. Em 1968/1969 novo desenho de circulação automóvel é introduzido na Avenida da República, devido ao aumento do tráfego automóvel, reprojectando-se um novo viaduto ferroviário para Entrecampos.

Viaduto ferroviário de Entrecampos, lado S. |1968|
Até 1970, do lado do Campo Pequeno e da Avenida Cinco de Outubro, o trânsito automóvel e pedonal, processava-se através de pequenos túneis sob a Avenida da República. Esta situação altera-se radicalmente com a construção de um novo tabuleiro ferroviário.
Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente

Friday, 21 November 2025

Rua dos Remédios que foi «das Portas da Cruz»

Descendo as escadinhas de Santo Estêvão, entra-se numa das mais importantes e populosas ruas da Alfama, a dos Remédios, assim chamada desde 1859, e antes Rua das Portas da Cruz, invocação tradicional, justificada pela existência, no seu cabo, de uma das mais importantes portas naturais de Lisboa, que se integrou na Cerca de D. Fernando, no século XVIII foi chamada também, no seu troço inicial pelo menos, Calçada dos Remédios.

Rua dos Remédios |1962|
Troço junto ao Beco da Maria Guerra.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL.

Logo ao princípio da rua, para quem vem do Chafariz de Dentro [vd. imagem adiante], à esq., a ermida dos Remédios do Espírito Santo de Alfama, fund. em 1551 para capela do hospital dessa denominação pelos navegantes e pescadores do bairro.
No Itinerário lisbonense, de 1818, figuram duas Ruas dos Remédios: uma que principia no Largo do Terreiro do Trigo e termina na Rua das Portas da Cruz, e outra que é a quarta à esquerda, entrando pela Rua da Lapa. [Guia de Portugal: 1924]

Rua dos Remédios |1949|
Vista tomada do Largo do Chafariz de Dentro.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 16 November 2025

Profissões de antanho: o cauteleiro

— Quem é que se habilita à sorte, é o 1469 que anda amanhã a roda!

É profissão que jamais acabará. É vê-los por aí, sobretudo pela Baixa, oferecendo a fortuna a toda a gente. No nosso tempo, a cautela, cremos que a vigésima parte do bilhete inteiro, vendia-se por três vinténs!
E não havia barbeiro que, pelo Natal ou Páscoa, não tivesse colado no espelho, em frente do freguês, o bilhete da sorte, para que bem o observasse e comprasse enquanto lhe escanhoava os queixos.
O grande actor Estêvão Amarante, criador admirável de tantos tipos populares de Lisboa, também fez o cauteleiro num quadro de revista, cantando um fado que ficou, como todas as suas criações, na alma do povo, imitando um cauteleiro que era muito conhecido pelo pregão harmonioso e nostálgico com que oferecia a Sorte Grande!

— Quem é que se habilita à sorte, é o 1469 que anda amanhã a roda!

Profissões de antanho: o cauteleiro |entre 1908 e 1914|
Largo de Dom João da Câmara, antigo «de Camões».
Ao fundo observa o afamado Café Suisso.
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Nesse tempo, e hoje também, os cauteleiros apregoam por Lisboa e por todo o País, mas sem a cantoria de então.
A dada altura apareceu pelas ruas da Baixa, sem apregoar, um cauteleiro fardado, que oferecia o jogo quase sempre pelos estabelecimentos. Exibia boné agaloado a ouro, sobrecasaca preta com botões amarelos, galões dourados na gola e pasta debaixo do braço, cautelosamente segura por corrente. Era um indivíduo gordo, à volta dos quarenta anos e que, no seu jeito amável, aconselhava, como quem conversa, a jogar na lotaria. Hoje os cauteleiros usam boné de pala e a profissão, aparentemente, deve ser rendosa. Haja em vista o desafogo de certas casas de lotaria! 

— Quem é que se habilita à sorte, é o 1469 que anda amanhã a roda!

Profissões de antanho: o cauteleiro |1922-3-8|
Calçada do Duque com a Rua da Condessa.
Legenda no arquivo: «O coxo das cautelas na Escadinhas do Duque»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente? Questiona-se o Desassossegado Bernardo Soares. O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? O velho sem interesse das polainas sujas que cruzava frequentemente comigo às nove e meia da manhã? O dono pálido da tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros, [e das Escadinhas do Duque, porque não?]. Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu — a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim — sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um “o que será dele?”. E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.
(Fernando Pessoa / Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 1931)

Profissões de antanho: o cauteleiro |início séc. XX|
Aguadeiro e cauteleiro junto ao fontanário do Largo Trindade Coelho, antigo de S. Roque. 
Ao centro vê-se a Coluna mandada erguer pela colónia italiana, comemorando o casamento do 
Rei Dom Luís I com Dona Maria Pia de Sabóia em 1862.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
(DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974), p. 276, 1986).
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