A apresentar mensagens correspondentes à consulta antão ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta antão ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de março de 2018

Rua das Portas de Santo Antão

Mas era à boca de Santo Antão — refere o olisipógrafo Norberto de Araújo — que começava esta movimentada «rua dereyta» de palácios e jardins. conventos e igrejas, pátios e eirados. Neste pedacinho até à Anunciada [largo da] do Convento das dominicanas, erigido sobre a casa dos agostinhos de Santo Antão de 1400 — e eis a razão do nome da rua [...].¹ 


Rua das Portas de Santo Antão [1938]
Largo de S. Domingos; Teatro D. Maria
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Remotamente foi aqui, e por aí fora, «Corredoura» — que é como se dissesse «rua direita» — era então Lisboa, logo adiante do Rossio de Valverde, «terra de arrabalde». A «Corredoura» servia para corridas e s e, assim, logo no século XIV a designação passou a ser de «Carreira de Cavalos». Em 1373-1375 construiu-se a nova Cerca muralhada de D. Fernando, abrindo-se neste sitio uma das portas. primeiro chamada de «S. Domingos» e logo no principio do século XV «de Santo Antão». [...]

Rua das Portas de Santo Antão [191-]
Igreja de São Luís dos Franceses; ornamentações na antiga Rua de Santo Antão
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Depois do Terramoto a velha Porta, ou Arco, de Santo Antão sofreu demolição, como quási todas as da Cerca de D. Fernando, pois ficara muito arruinada. O dístico de Rua das Portas de Santo Antão não ia além de S. Luiz [igreja de], e perdurou até Setembro de 1859, entrando depois a artéria a chamar-se simplesmente Rua de Santo Antão até ao Largo da Anunciada. Em 3 de Agosto de 1911 o nome tradicional modificou-se para o de Rua Eugénio dos Santos [até 1956] (o arquitecto da nova Cidade).²
_______________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 207, 1943.
² ibid., Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 103-104, 1939.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

A velha Rua das Portas de Santo Antão que foi da «Corredoura»

Remotamente foi aqui, e por aí fora, «Corredoura» — que é como se dissesse «rua direita» — era então Lisboa, logo adiante do Rossio de Valverde, «terra de arrabalde». A «Corredoura» — recorda Norberto de Araújo — servia para corridas e, assim, logo no século XIV a designação passou a ser de «Carreira de Cavalos».

Rua das Portas de Santo Antão |c. 1910|
Antiga de Eugénio dos Santos, antes de Santo Antão  da Corredoura no século XIV)
Ali onde se vê a loja de móveis «O Barateiro» vai erguer-se, em 1913, o Teatro Politeama; no gaveto com a Rua dos Condes vê-se a fachada da Drogaria Ferreira fund. em 1755, depois, em 1927, Cinema Odeon.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

O dístico de Rua das Portas de Santo Antão não ia além de S. Luiz [igreja de], e perdurou até Setembro de 1859, entrando depois a artéria a chamar-se simplesmente Rua de Santo Antão até ao Largo da Anunciada. Em 3 de Agosto de 1911 o nome tradicional modificou-se para o de Rua Eugénio dos Santos [até 1956] (o arquitecto da nova Cidade).
(ARAÚJO, Norberto de,  Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 103-104, 1939)

Rua das Portas de Santo Antão (N→S) |c. 1910|
Antiga de Eugénio dos Santos, antes de Santo Antão da Corredoura no século XIV)
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

domingo, 10 de março de 2024

Palácio Alverca: O Magestic Club e o Monumental Club

Dois dos clubes em foco, o Magestic, entre 1917 e 1920, e depois o Monumental, até 1928, ocupam o edifício do Palácio Alverca, também conhecido por Palácio de São Luís ou Palácio Paes do Amaral, situado na via hoje identificada por Rua das Portas de Santo Antão. [...]

A construção da mansão da família Paes de Amaral, viscondes de Alverca, é datada, por diferentes olisipógrafos, dos finais do século XVII. Desconhece-se, no entanto, uma data precisa ou fontes que comprovem esta datação. A fundamentar esta hipótese são evocados alguns elementos arquitectónicos presentes no edifício, anteriores à transformação do Palácio Alverca em 1917-1919. O edifício terá sido erguido, após o terramoto, no espaço liberto das muralhas [Cerca Fernandina] da cidade e sobre parte das suas ruínas.

Palácio Alverca |1968|
Casa do Alentejo desde 1932. Rua das Portas de Santo Antão
Armando Serôdio ,in Lisboa de Antigamente

Segundo o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, no local onde foi erguido o Palácio, e onde funciona depois o Magestic Club e, posteriormente, o Monumental Club, existira antes um curral de porcos:
«No chão onde esteve o curral dos porcos, edificou-se, muitos anos depois, o palácio de Miguel Pais do Amaral, no qual, já nos nossos dias, esteve o clube mais chique de Lisboa – O Monumental. Quem pensaria então, naquelas noites lilases ou azuis, com tangos rosas ou verdes, que ali, no mesmo sítio, também já tinham chafurdado porcos? [...]
Entre 1917 e 1919, o Palácio Alverca é objecto de uma profunda intervenção, a fim de acolher o Magestic Club. No processo de obras salienta-se que nos trabalhos serão utilizados unicamente materiais de «primeira qualidade» e que todas as obras seriam «executadas conforme preceitos técnicos de construção e com os cuidados e fiscalização que a importância das obras do club reclamam». [...]

Palácio Alverca: O Magestic Club e o Monumental Club |c. 1930|
Rua das Portas de Santo Antão
Pátio estilo neo-árabe risco do arquitecto Silva Júnior (1918)  e escadaria.
Naturalmente em «pastiche», transpira certa frescura mourisca, mesmo nas varandas, escadaria e galerias. [Araújo: 1939]
Fotografia: Casa do Alentejo 

Segundo a descrição feita na época pela revista A Arquitectura Portuguesa, que pela grandiosidade da obra lhe dedica dois números seguidos, o projecto da Sociedade do Magestic Club não tinha como objectivo único ganhar fortuna: era antes uma empresa com fins patrióticos, que ambicionava abrir, em local apropriado, um «club de primeira ordem, para ser apresentado pela primeira sociedade e onde, os estrangeiros que visitassem o nosso país, pudessem ser condigna e luxuosamente recebidos».
A revista descreve ainda a «grandiosa escadaria» que uma porta vulgar não deixa adivinhar, a sala de bilhar, a «sala de Bridge e outros jogos de vaza», o bengaleiro, o vestiário de homens e senhoras, as casas de banho, o Toilette das senhoras em estilo Luís XV, a barbearia e o gabinete do director, mencionando ainda sete gabinetes reservados ainda não concluídos na altura da publicação do artigo. É de referir a menção ao cuidado sistemático para que toda a decoração e mobiliário destes espaços estejam de acordo com a decoração e o estilo arquitectónico adoptado.

Palácio Alverca: O Magestic Club e o Monumental Club |c. 1930|
Rua das Portas de Santo Antão
Salão dos espelhos em estilo neo-barroco (Salão de Baile e Restaurante).
A. sala de baile é toda decorada no tecto e nas paredes por Bemvindo Ceia, e outra sala contigua apresenta pinturas de Domingos Costa. [Araújo: 1939]
Fotografia: Casa do Alentejo 
Palácio Alverca: O Magestic Club e o Monumental Club |c. 1930|
Rua das Portas de Santo Antão
Sala de Bridge e outros jogos de vaza com pinturas de Domingos Costa
.
Fotografia: Casa do Alentejo 
Palácio Alverca: O Magestic Club e o Monumental Club |c. 1930|
Rua das Portas de Santo Antão, 44-60
Pormenor  de uma das pinturas de Domingos Costa que cobrem as paredes da Sala de Bridge e outros jogos de cartas.
Fotografia: Casa do Alentejo 

O Monumental procura manter essa imagem de exclusividade, luxo, elegância e respeitabilidade sendo, nos anos seguintes, palco de diversos almoços e banquetes, alguns dos quais verdadeiramente luxuosos. Contudo, tal não impede a sua associação ao jogo e a outras actividades consideradas por alguns como imorais. A 24 de Novembro de 1928, um correspondente em Lisboa do jornal O Provir de Beja dá notícia de um fogo ocorrido no clube em meados desse mês, comentando que a Natureza, indignada com as imoralidades ali praticadas, se revoltou e «pegou fogo ao antro».
Em 1928 o clube é encerrado pelas autoridades, em consequência das medidas legislativas tomadas pelo Estado Novo para a repressão do jogo. O edifício mantém-se fechado nos quatro anos seguintes, na esperança de poder voltar a explorar o negócio dos jogos de azar. Em 1932, confrontados com a impossibilidade desta hipótese, os proprietários do Monumental Club procuraram transaccionar com o Grémio Alentejano todos os direitos que possuíam sobre o imóvel, bem como o recheio de que são donos.

Palácio Alverca: O Magestic Club e o Monumental Club |c. 1930|
Rua das Portas de Santo Antão, 44-60
Sala de Bilhar decorado com azulejos de Jorge Colaço.
São de ver-se outras salas, tais as de <estar», «de fumo», de jogos de vasa, com magníficas decorações em azulejos de Jorge Colaço (1918), uma delas dando, a azul, cenas dos «Lusíadas», outra, em pintura policroma, reproduzindo quadros de romaria e feiras de todo o país, outro ainda figurando em grandes painéis caçadas aos javalis, uma da çaçada real do século xv, uma cena medieval de perseguição de touros a rojão. [Araújo: 1939]
Fotografia: Casa do Alentejo

Nota(s): A agora denominada Casa do Alentejo ainda hoje tem sede neste palácio e no interior do edifício continuamos a poder ver o trabalho de remodelação que aí foi realizado.
Mais imagens aqui.




Palácio Alverca: O Magestic Club e o Monumental Club |c. 1930|
A barbearia (esq.) e o bar com painel da autoria de José Ferreira Bazaliza (dir.).
Fotografia: Casa do Alentejo







Bibliografia
 VAZ, Cecília Santos, Clubes nocturnos modernos em Lisboa: sociabilidade, diversão e transgressão (1917-1927.
ARAÚJO, Norberto de,, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 105.

domingo, 3 de setembro de 2017

O Colyseo dos Recreios e o Elevador de S. Sebastião

O Colyseo dos Recreios  —  no dizer de Alfredo Mesquita  —  é a maior casa de espectáculos que se tem construído em Lisboa. Está situado na Rua das Portas de Santo Antão, próximo da Igreja de S. Luiz Rei de França [refere-se à Igreja de São Luís dos Franceses]. Para a realização do projecto do architeto Goulard, foi necessário fazer naquelles terrenos um desaterro de 16 metros de altura, construindo-se muralhas de suporte que têm 6 metros de espessura. 
O circo apresenta um grandioso aspecto, podendo comportar 8.000 pessoas, em 110 camarotes, 1.500 cadeiras, duas enormes galerias, um vasto promenoir, e uma muito espaçosa geral em toda a volta do circo. Cobre o edifício uma formidável cúpula de ferro, construída por Hein Lehmann, de Berlim. O palco é de amplas dimensões, e presta-se a ser explorado com peças de grande espectáculo. Em parte do edifício, á frente, está instalada a Sociedade de Geographia de Lisboa, com o seu muito interessante museu colonial e a sua grande sala de conferencias. A inauguração do Coliseo dos Recreios foi no dia 14 de Agosto de 1890, com a opera cómica de Suppé — Boccacio, cantada por uma companhia italiana.

Coliseu dos Recreios [entre 1899 e 1901]
 Rua das Portas de Santo Antão
Nesta imagem são visíveis as «calhas» do antigo «Elevador de S. Sebastião».
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Hoje — prossegue o mesmo autor em 1903 —. a grande afluência do povo converge para o Colyseo dos Recreios. De inverno, são os cavallinhos, os acrobatas, os clowns, os animaes sábios, os palhaços excêntricos, as pantomimas, as cantoras de café-concerto, que constituem os atrativos d’aquelle circo. No verão, são as companhias italianas e hespanholas de opera e de zarzuela que lhe proporcionam as enchentes. O alfacinha teve sempre uma viva sympathia pelos circos de cavallinhos, e pelos theatros de canto.

Coliseu dos Recreios, fachada e interior [c. 1890]
 Rua das Portas de Santo Antão
  in Lisboa de Antigamente
Coliseu dos Recreios, cúpula de ferro [c. 1890]
 Rua das Portas de Santo Antão
  in Lisboa de Antigamente

Vem a-propósito lembrar que, episodicamente, correu aqui há quarenta anos [c. 1900] uma linha dupla de viação por cabo subterrâneo» — escreve Norberto de Araújo nas suas Peregrinações — referindo que «Lisboa conheceu ainda uma «Companhia de Viação Funicular» que montou uma única linha — o «Elevador de S. Sebastião» [vd. 1ª foto].
Esta linha dupla de viação por cabo subterrâneo saía do Largo de S. Domingos, junto à caixa do Teatro D. Maria II, e seguia por Santo Antão, S. José, Santa Marta, Largo do Andaluz, Rua de S. Sebastião, até às «portas» de S. Sebastião da Pedreira. Esta iniciativa teve, porém, a duração das rosas: inaugurada a carreira em 15 de Janeiro de 1899, a companhia abria falência em 1901.

Coliseu dos Recreios [1960]
 Rua das Portas de Santo Antão
Arnaldo Madureira, i
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MESQUITA, Alfredo. Lisboa, p. 622, 1903.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 104, 1939.

domingo, 22 de janeiro de 2023

Igreja do Coleginho (N. S. do Perpétuo Socorro)

A igreja do Coleginho, orientada a Poente, situa-se na Rua do Marquês de Ponte de Lima, em plena Mouraria de cima. Defronte esgueira-se, numa aberta do casario, o beco dos Três Engenhos; umas dezenas de passos a Norte rasgam-se, descendo ao vale a antiga rua Suja (Rua da Guia) e subindo para Santo André, a da Amendoeira. Mais além ficam a Rua dos Cavaleiros, o Terreirinhoe e as Olarias, onde foi o «almocavar» ou cemitério dos mouros e judeus.

 
Segundo a tradição a antiga igreja do Coleginho (Colégio velho de Santo Antão) ocupava o local da mesquita do arrabalde da Mouraria, se não o próprio templo, desafectado do culto muçulmano após a expulsão dos judeus e mouros decretada por el-rei D. Manuel em 1496. Colocada sob a invocação da Anunciação da Virgem, transformou-se em igreja conventual depois que em 1519, numas casas anexas, se instalaram as dominicanas vindas do mosteiro de Jesus, de Aveiro.

Igreja do Coleginho  (N. S. do Perpétuo Socorro) em 1922 e 1940, respectivamente
Rua do Marquês de Ponte de Lima
A Frontaria, de elegante traçado arquitectónico, de corpo único ladeado por pilastras às quais serve de remate o frontão com óculo e nela o pórtico, sem adro e cujo acesso é feito por cinco degraus, formado por duas colunas.
in Lisboa de Antigamente

As madres trocaram esta residência pela dos Cónegos regrantes de Santo Agostinho, na Corredoura, de invocação de Santo Antão (no local da actual igreja de S. José). Passaram os Agostinhos a residir no mosteiro da Mouraria, até que em 1542 o cederam aos Jesuítas, para nele instalarem uma Residência, que depois se transformou em Colégio.
Pelo aumento da população escolar a Companhia transferiu os estudos para o novo e magnífico edifício que seria o Colégio novo de Santo Antão (hospital de S. José), conservando-se. porém, em Santo Antão da Mouraria (depois de um simulacro de venda aos Gracianos em 1587) uma residência (1593) extinta quando Pombal expulsou os Inacianos (1759).

Igreja do Coleginho  (N. S. do Perpétuo Socorro) |c. 1950|
Rua do Marquês de Ponte de Lima; em cima observa-se a Igreja da Graça.
No andar superior três janelas com moldura e tímpano. Sobre elas corre a cimalha real, com friso e cornija.
Amadeu Ferrari, in Lisboa de Antigamente

Ignoram-se as obras de que o templo teria beneficiado, mormente no primeiro século da sua história (é de presumir que as tivesse havido no segundo quartel do século XVII) mas sabe-se que o Terramoto causou nele grandíssima ruína, que conduziu a uma reconstrução, concluída em 1764, e lhe imprimiu a feição actual. Já então (e até 1833) o templo estava anexo à residência dos Padres redentoristas de S. Libório, sucessores conventuais dos Jesuítas. Extintas as ordens religiosas, foi a igreja entregue à irmandade de Nossa Senhora do Bom-Despacho, sendo anos volvidos desafectada.
Reaberta ao culto em 1988, nela se instalou a sede eclesiástica da freguesia do Socorro (1951).
Apontamento a reter: Foi na igreja do Coleginho que antes de partir para o Oriente S. Francisco Xavier pregou pela última vez.

Antigo edifício do Colégio de Santo Antão em 1836, em desenho de Luís Gonzaga Pereira

A igreja do Coleginho quase nada conserva da sua traça quinhentista; é um templo com as características próprias de todos os de Lisboa reedificados após o Terramoto.
Embora pequeno, é notável pela riqueza e elegância da cantaria.

Colégio de Santo Antão-o-Velho | Colégio de Santo Agostinho 
Museu de Lisboa | Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755 | Pormenor.
 
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1955.

domingo, 3 de novembro de 2019

Igreja de São Luiz, dos Franceses

Neste pedacinho [da Rua das Portas de Santo Antão] até à Anunciada do Convento das dominicanas, erigido sobre a casa dos agostinhos de Santo Antão de 1400 — e eis a razão do nome da rua — chegaram a contar-se sete palácios, desde o dos Condes de Almada, a par de S. Domingos, até ao dos Condes da Ericeira, passando pelo primeiro dos Castelo Melhor, pelo dos Pais do Amaral Barberini, pelos do Conde de Povolide e dos Morgados de Oliveira. Igrejas, só uma, a de S. Luiz, dos franceses, que recua a 1552, e ali está ela ainda, com as suas flores de lis e as armas dos Bourbons sobre o pórtico.


Eis-nos defronte da pequena Igreja de S. Luiz, dos franceses — diz Norberto de Araújo — , erecta extramuros, e que teve contíguo um Hospital, de certo modo no século passado [XIX] substituído pelo «Asyle de Saint-Louis» — Hospital de S. Luiz — na Rua Luz Soriano.

Rua das Portas de Santo Antão |1909|
Igreja de São Luiz, dos Franceses; Palácio Alverca (Casa do Alentejo)
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

É simples a fachada, na qual apenas o pórtico, com as armas dos Bourbons e o escudo da flor de lis, tem algum interesse arquitectónico.
Na sobreporta ali vês a legenda latina, que afirma, na tradução, que «a S. Luiz foi dedicado este templo pelos franceses habitantes nesta real cidade, no ano do Senhor de 1552. Conclui-se e acrescentou-se em 1622».
Parece, porém, que a inscrição não é de todo exacta ou suficientemente explicita. Eu julgo — talvez — mais acertada a versão de que a Confraria é que foi criada em 1552, instalada na Ermida de N. Senhora da Oliveira a S. Julião, onde estaria ainda em 1558, começando em 1563 a construir-se o templo neste lugar, concluído em 1572, na sua primeira fase. A reconstrução ampliada é que será de 1622.
Depois do Terramoto voltou esta Igreja a receber benefícios (1766), aliás repetidos sumariamente no século passado.

Igreja de São Luís dos Franceses |c. 1914|
Perspectiva tomada da Travessa  de Santo Antão
Beco de São Luís da Pena, 34-34A; Rua das Portas de Santo Antão
Por cima da inscrição da fachada atrás transcrita vêem-se as armas dos Bourbons;
o escudo da flor de liz, tendo por suporte dois anjos. O escudo é circundado por
dois colares dax ordens francesas, sendo o inferior o da ordem do Espírito Santo.
[Castilho: 1935]
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Interiormente a Igreja de S. Luiz, muito ao tipo francês, pouco oferece de notável; não posso dela dar uma resumida descrição que seja — como o tenho feito de uma centena de igrejas e ermidas de Lisboa — porque, nos meus passos de ensaio, não me foi consentido tomar notas e colher informações directas, o que registo sem acrimónia embora com estranheza.
Posso dizer que o altar-mór e as capelas colaterais no corpo da igreja foram construídos em Genebra, por um artista italiano; são em mármore de Carrara [Pasquale Bocciardo (1705-1791)].
E pois que interessa à iconografia de Lisboa anotemos êste grande quadro, à esquerda da parede no corpo da Igreja. É uma «Vista de Lisboa», da primeira metade de seiscentos, muito deteriorada.
O terreno da cortina defronte de S. Luiz, sobre a Rua, pertence à Igreja; os seus três estabelecimentos são deste século.

Igreja de São Luís dos Franceses |c. 1914|
Perspectiva tomada da Rua do Jardim do Regedor
Beco de São Luís da Pena, 34-34A; Rua das Portas de Santo Antão
Tinha esta igreja uma cruz no adro; em Junho de 1887 oficiou a Câmara Municipal ao capelão
para ser removida a dita cruz. [Castilho: 1935]
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente
 
N.B. No século XIX o imóvel passa para a posse do Estado Francês e em 1882 é instalado o órgão realizado em Paris por Aristide Cavaillé-Coll. No andar superior, em três salas, funcionava o hospital de São Luís, da Confraria do Bem-aventurado São Luís, que socorria todos os franceses pobres e necessitados de auxílio médico.
___________________________________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 207.
ibid, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 102-103, 1939.
SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo. Dicionário da História de Lisboa, pp. 808-810, 1994.

sábado, 24 de outubro de 2015

Ateneu Comercial de Lisboa

A fachada do antigo Palácio Povolide não é famosa, mas distingue-se da trivialidade aqui na velha artéria de Santo Antão. Teve catorze sacadas, que, depois das transformações, (...) foram reduzidas às nove janelas que ali vês.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 98, 1939)

O Ateneu Comercial de Lisboa foi fundado por um grupo de empregados do comércio, em 10 de Junho de 1880, com as seguintes finalidades:
•  A organização de uma biblioteca.
•  A fundação de aulas diurnas de instrução primária para os filhos dos sócios e crianças pobres.
• Aulas nocturnas de gramáticas portuguesa, francesa e inglesa e de escrituração comercial para os sócios.
•  Realização de conferências científicas.

Ateneu Comercial de Lisboa [Início séc. XX]
Rua das Portas de Santo Antão, 110
Paulo Guedes in Lisboa de Antigamente

A partir de Julho de 1895, instala-se num palácio pertencente ao conde de Burnay, o antigo Palácio dos Condes de Povolide na Rua das Portas de Santo Antão, 110.
Este palácio foi inicialmente pertença do 8º Conde de Povolide, Tristão da Cunha de Ataíde e Melo e a primeira referência que se conhece das actuais instalações, remonta a finais do século XVI, como residência daquele nobre, na então Rua da Anunciada.

Ateneu Comercial de Lisboa, Rua das Portas de Santo Antão [1927]
«Palace Stand»
, concessionário da marca de automóveis Chevrolet
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

No início do século XX foi adquirido por uma Sociedade Hoteleira, da qual entre outros, fazia parte Anastácio Fernandes, comerciante local, para ser destinado a hotel, mas acabou por ser definitivamente adquirido pelo Ateneu em 9 de Outubro de 1926.
O piso térreo albergou durante alguns anos o «Palace Stand» (na foto acima), concessionário da marca de automóveis Chevrolet.
A partir de 1956 instalou-se no local a Cervejaria Solmar.

Ateneu Comercial de Lisboa [1960]
Rua das Portas de Santo Antão, 110
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 17 de março de 2023

Largo da Anunciada às Portas de Santo Antão

No Largo da Anunciada que – em 1884 foi palco da inauguração do primeiro elevador de Lisboa (o elevador do Lavra) – onde hoje se situa a igreja de S. José e prédios contíguos, existiu um convento dessa invocação e que deu o nome ao arruamento. Algumas paredes daquela ainda são restos da edificação conventual. Porém, do antigo convento já nada existe. [Caeiro: 1989]

Largo da Anunciada com a Rua das Portas de Santo Antão |1960|
Venda ambulante de fruta.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Mas era à boca de Santo Antão — refere o olisipógrafo Norberto de Araújo — que começava esta movimentada «rua dereyta» de palácios e jardins. conventos e igrejas, pátios e eirados. Neste pedacinho até à Anunciada [largo da] do Convento das dominicanas, erigido sobre a casa dos agostinhos de Santo Antão de 1400 — e eis a razão do nome da rua [...]. [Araújo, XIV, 1939]
 
Largo da Anunciada às Portas de Santo Antão |1964|
Perspectiva tomada da Avenida da Liberdade. Encimando a Calçada do Lavra destaca-se o Palacete Alfredo de Andrade (ou do Lavra).
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Convento da Anunciada

Eis-nos no Largo da Anunciada — outra invocação de ressonância lisboeta, que deriva do nome do Convento que neste sítio existiu. De tudo te vou dar breves notícias. 
No local, onde está a paroquial de S. José — relembra-nos Norberto de Araújo —, para norte e para nascente, caindo sobre as hortas, onde hoje passa a Avenida, levantava-se o Mosteiro, com sua Igreja e Cerca, das religiosas dominicanas; a Casa fora reedificada, senão edificada, por D. Manuel, em 1539, sobre um anterior Convento de frades Agostinhos descalços de Santo Antão que datava de 1400 —, e foi dele que derivou o nome à Rua das Portas de Santo Antão. As religiosas da Anunciada já tinham desde 1519 a sua casa conventual, na Mouraria (Coleginho) — em local que fora de uma mesquita moura.
No citado ano de 1539 os frades e as freiras trocaram a sede das suas casas: assim os Agostinhos de Santo Antão foram para o Coleginho, e as religiosas da Anunciada vieram para este sitio, que passou por isso a ser chamado Anunciada; a Rua é que se manteve fiel a Santo Antão.
Igreja Paroquial de São José da Anunciada [c. 1902]
Largo da Anunciada
Emilio Biel, in Lisboa de Antigamente

O Convento da Anunciada, muito ligado à nobreza, foi dos mais importantes de Lisboa, até pela austeridade de que gozava fama, e pelo bom nome de suas religiosas, algumas delas escritoras e artistas.
O Terramoto destruiu quasi inteiramente o Convento e Igreja, rompendo-se a abóbada, e morrendo dez religiosas, entre elas uma filha do Marquês de Távora. As freiras passaram para Santa Joana — e acabou-se o Convento da Anunciada. Dele fora grande protector Fernão Alvares de Andrade, o fundador de um palácio vizinho, pelo sul, e que veio a ser o dos Condes da Ericeira  [ocupava o actual quarteirão que se estende da Rua dos Condes ao Largo da Anunciada]. 
Nada existe do velho Convento, neste sitio em que se ergueu a paroquial de S. José. Esta porta da igreja, no Largo da Anunciada, que leva a um pátio de ingresso ao templo, não corresponde a ruína alguma, ou a vestígio do Mosteiro; equivale a obras da frontaria da Igreja, e que não prosseguiram.  
Não deixa de ser curiosa esta troca de Casas dos frades e freiras de Santo Antão e da Anunciada; quem ganhou foram as dominicanas, ou melhor: a nobreza de que elas faziam parte. 

Igreja Paroquial de São José da Anunciada [1929]
Vista tomada do miradouro do Torel; no primeiro plano vê-se a cúpula e a torre sineira da Igreja Paroquial de São José da Anunciada; logo acima. a Avenida da Liberdade
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Edificada pela irmandade do Santíssimo Sacramento para sede da paróquia, que desde 1567 estivera na Igreja de São José dos Carpinteiros, a construção da Igreja Paroquial de São José da Anunciada teve início em 1863, prolongando-se até 1883, altura em que foi benzida no mês de Agosto, embora os trabalhos não estivessem concluídos na sua totalidade. O projecto inicial, riscado por Tomás da Fonseca, foi objecto de alterações, em 1868, por Domingos Parente, traduzindo uma igreja sem nave. Este último foi responsável pela fachada lateral de três corpos sobre a Rua de São José. A obra passou para a direcção de José Monteiro entre 1881 e a sua conclusão. O resultado final do templo pouco tem a ver com o projecto original.

Igreja Paroquial de São José da Anunciada [1953?]
Largo da Anunciada
Armando Maia Serôdio,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 95, 1939.
cm-lisboa.pt.

terça-feira, 17 de maio de 2016

O Club Palace e a Associação Comercial de Lisboa

Atentemos no que o olisipógrafo Norberto Araújo tem para nos dizer sobre o  historial deste edifício sito na Rua das Portas de Santo Antão, antiga  corredoura medieval: 

Vejamos, já agora, nesta Rua Eugénio dos Santos [actual Rua das Portas de Santo Antão], a Associação Comercial de Lisboa, instalada num pequeno prédio n.° 89, de fachada moderna, a destoar, pela novidade relativa, do semblante urbano da artéria. 
É esta a transformação de um prédio antigo de dois andares, pertencente a Carlos Ribeiro Ferreira, e que, arrendado em 1917 por João Rosado, negociante alentejano para um clube de recreio e de jogo, beneficiou de obras interiores, havendo sido então construida a fachada; foi este o Palace Clube, que durou apenas até fins de 1919 [1920?]. 
No ano seguinte instalou-se aqui a Associação Comercial de Lisboa, (Câmara de Comércio), poucos meses depois do incêndio da parte da ala do Terreiro do Paço, e que atingiu o torreão da Bolsa, onde a Associação tinha sua sede. A Associação Comercial de Lisboa data de 12 de Junho de 1834, intitulando-se Associação Mercantil Lisbonense, nome que persistiu até 1855, passando depois a denominar-se como ainda hoje [o autor escreve em 1939]. Desde 1903 que exerce funções de Câmara do Comércio.»1
Associação Comercial de Lisboa (antes Club Palace)  [1929]
Rua das Portas de Santo Antão, 89
Antiga Rua Eugénio dos Santos; perspectiva tirada do Beco de São Luís da Pena.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O Club Palace — ou Palace Clube, como é acima referido por Norberto Araújo — abriu no local onde se pensara fazer um cinema, num lote que era propriedade do capitalista do Banco Lisboa & Açores, Carlos Francisco Ribeiro Ferreira, e onde havia um prédio em ruínas. O projecto para o cinema, Salão Animatográfico, fora desenhado pelo arq.º Álvaro Machado (1874-1944).
Em 1916, Machado procedeu a algumas alterações da fachada e o projecto foi aprovado em 1917. Desistindo-se da ideia de edifício comercial, fizeram-se nesse ano obras no interior, ficando o primeiro andar totalmente ocupado por um salão para festas e jogo de um night-club: o Palace. O salão foi então profusamente decorado com estuques formando grinaldas. No vestíbulo, cupidos alados encimaram as portas laterais de mármore vermelho, acompanhadas por oito baixos-relevos esculpidos por Simões de Almeida sobrinho (1880-1950), professor da Escola de Belas Artes. O clube durou três anos, até 1920. Segundo Reinaldo Ferreira (Repórter X) foi no Palace que apareceu a primeira retalhista de cocaína de Lisboa, uma francesa. Tango, jogo e cocaína deram o tom característico a este novo espaço concebido para lisboetas privilegiados. Em 1921, a Associação Comercial de Lisboa ocupou o edifício, instalando-se num lugar que a orgia construíra, como então foi dito.2
________________________________________
Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 101, 1939.
2 VILLAVERDE, Manuel, RUA DAS PORTAS DE SANTO ANTÃO e a singular modernidade lisboeta (1890–1925): arquitectura e práticas urbanas, 2006.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Pátio do Tronco

Com entrada pela Rua das Portas de Santo Antão existe o Pátio do Tronco. Neste Pátio existiu no século XVI a Cadeia Municipal do Tronco.
Diz-nos a história que, com 28 anos de idade, em 15 de Junho de 1552 dia do Corpo de Deus, Luís de Camões passeava entre o Rossio e as Portas de Santo Antão. Tinha regressado um ano antes de Ceuta, onde num combate com os Mouros perdera uma vista. Em dado momento repara numa briga e reconhece que nela estavam dois amigos seus; não hesitou em envolver-se na desordem, ferindo com um golpe de espada na nuca um criado do Paço, de nome Gonçalo Borges.

Pátio do Tronco [c. 1940]
Traseiras do Cinema Odeon; Rua das Portas de Santo Antão

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Camões foi preso e levado para a Cadeia do Tronco de Lisboa, onde permanece largos meses (apesar de perdoado pelo ofendido) foi libertado em 24 de Março de 1553 por carta régia do dia 7 desse mês. A carta dizia «Mancebo pobre que me vai este ano servir à Índia».
Pela passagem do nosso poeta por esta prisão, o túnel que dá acesso ao Pátio do Tronco está assinalada por um painel de azulejos de Leonel Moura, inaugurado em 1992.

Túnel de acesso ao Pátio do Tronco [post. 1992]
Rua das Portas de Santo Antão

domingo, 24 de abril de 2022

Palácio Almada (ou da Independência)

A celebridade do Palácio adveio da circunstância de o seu proprietário e morador, em 1640, ser D. Antão Vaz de Almada, um dos conjurados a favor da Restauração. É tradição mantida, e sustentada, que foi nestas nobres casas, em certo pavilhão que durante muito tempo foi respeitado e hoje ainda identificado nos seus vestígios, que os conspiradores reuniam, e que foi daqui que saíram para o Terreiro do Paço. 
O facto histórico de este Palácio haver sido o «quartel general» exclusivo da conjura, está hoje muito abalado, mas parece incontroverso, com apoio na verosimilhança, que nele se realizaram conciliábulos, sendo o principal em 12 de Outubro.


O Palácio dos Condes de Almada, no Largo de S. Domingos, é um dos mais representativos espécimes seiscentistas da área urbana de Lisboa, ainda que de linhas simples, e com tradições que justificam a classificação de «monumento nacional». 

Palácio Almada (ou da Independência) [1939]
Largo de S. Domingos
A Frontaria Principal, voltada a Sul, precedida de um terreiro guarnecido de cortina de gradeamento, e nela o portal seiscentista emoldurado, sobreposto de varanda de balaústres a guarnecer a janela central, das onze de sacada do andar nobre que a fachada apresenta, engrinaldada de renques e sobrepujada de brasão (armas dos Almadas e Avranches, abertas e floretadas, com duas águias na contrabanda).
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente 
Palácio Almada (ou da Independência) [1939]
Largo de S. Domingos
No Palácio dos Condes de Almada, apenas com o andar nobre acima do andar inferior, há a considerar, designadamente, a frontaria principal. No canto superior direito notam-se as chaminés oitavadas — torreões — que davam tiragem às cozinhas.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente 

Os Almadas remontam pelo menos ao século XIV; nesta família entrou o condado de Avranches, na Normandia, com honras e título concedidos pelo Rei Henrique VI de Inglaterra ao famoso e lealíssimo D. Álvaro Vaz de Almada, que sucumbiu com o Infante D. Pedro cm Alfarrobeira (12 de Maio de 1449). Não tem fundamento a versão de que no final do século XIV ou princípios do século XV havia no «Rossio de Valverde» um solar dos Almadas. (Uns Paços de Valverde», da família Almada, leriam existido, mas perto do Mosteiro de Alcobaça).
O fulcro da história do palácio é a conspiração de 1640. Não é apenas tradição, mas facto comprovado, que os conjurados se reuniram «também» na casa de D. Antão Vaz de Almada (num pavilhão dos jardins, que não nas salas), embora não fosse ali, por precaução, o centro conspiratório, sendo positivo, porém, que no palácio se realizou a última e decisiva reunião na madrugada do l.º de Dezembro.

Palácio Almada (ou da Independência) [1939]
Largo de S. Domingos
A fachada lateral com sete janelas de sacada, sobre a Rua das Portas de Santo Antão (antiga de Eugénio dos Santos), apoiada numa baixa e sólida arcaria (1940) de sete arcos de volta redonda. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente 

Quanto aos dois chamados «torreões históricos» (e que não passam de chaminés de cozinha), muito decorativos. situados na ala Nascente sobre as Escadinhas da Barroca, eles remontam, pelo menos, ao terceiro quartel do século XVI, pois já aparecem na planta «Olissippo quae mmc Lisboa...», de Georgio Braunio, de 1572.

Palácio Almada (ou da Independência) [c. 1946]
Largo de S. Domingos
As Duas Chaminés do palácio (século XVI), que davam tiragem às cozinhas
(até 1940 habitação de famílias pobres com entrada pelas Escadinhas da Barroca, n.º 1,
hoje dependências nuas e limpas, com acesso por um dos corredores da Sociedade
Histórica); nelas, e desiguais, há a considerar os remates ameados dos cones oitavados,
e, acima deles, um coroamento canudado, circundado de cimalha decorativa.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente 

No palácio, no qual durante vários períodos da sua história não residiram os Almadas (em principio de Julho de 1883 abandonaram-no definitivamente como moradia de família), instalou-se o Depósito Público em 1756, o Senado Municipal em fins de 1757 ou princípios de 1758 (até 1766), e o Tribunal da Relação em 1758, este hóspede durante bastantes anos, chegando mesmo o actual Largo de S. Domingos a ser denominado «Largo da Relação» (1775). No final da primeira década do século que decorre [XX] ocupava o edifício o Quartel General da l.ª Divisão. que ali estava já desde,
pelo menos, 1896, e pouco depois de 1911 o palácio começou a ser distribuído por inquilinato comercial, da mesma maneira que, na segunda metade do século passado [XIX], e mesmo antes, recebera vários inquilinos particulares. A Comissão Central 1.º de Dezembro, fundada em 1861, logo nesse ano ali se instalou. Nos baixos do palácio, na Rua Eugénio dos Santos [hoje das Portas de Santo Antão], existiu, de 1924 até 1938, um «Café Comercial» [vd. 3ª imagem].

Palácio Almada (ou da Independência) [ant. 1944]
Largo de S. Domingos
O Pátio Nobre, antecedido de uma passagem sob três arcos de volta abatida, sucessivamente desenvolvidos no sentido da largura.
Fotografia Alvão,  in Lisboa de Antigamente 
Palácio Almada [c. 1900]
Largo de S. Domingos
Antigos jardins com tanque e panos de azulejos - um deles descrito abaixo.
José Leitão Bárcia, in Lisboa de Antigamente 
Palácio Almada (ou da Independência), jardim [1960]
Largo de S. Domingos
Recanto Histórico, no qual se reuniram pela última vez os conjurados de 1640, guarnecido pela frente por duas pequenas colunas e grade de ferro, tendo ao fundo um lindo tanque de jardim; e nele três painéis de azulejos, representando cenas da Restauração, que sumariamente se descreve o do centro: A cena do assalto ao Paço da Ribeira; D. Miguei de Almeida solta de uma janela do palácio real o grito (legenda em fita) «Liberdade, Liberdade, Viva El-Rei D. João IV »; em baixo numa legenda lê-se: «Redempsão de Portugal, A Fidelidade e o Amor triunfão».
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente 

O edifício, já património nacional (comprado por 2.800 contos), foi entregue à Sociedade Histórica em cerimónia pública, que se efectuou na Praça do Comércio em 24 de Novembro de 1940, e nessa mesma tarde aquela Sociedade Histórica e o Comissariado da Mocidade Portuguesa — aos quais o palácio se destinou — receberam no Salão Nobre as chaves das salas. Oficialmente a posse realizou-se no dia 1 de Dezembro daquele ano dos Centenários.==

Palácio Almada [190-]
Fundado em 1467, por D. Fernando de Almada, a sua traça medieval primitiva foi conhecendo ampliações em 1509, alterações nos séculos XVII e XVIII e restauros em 1940. 
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente 

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 82, 1939.
idem, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1946.
Web Analytics