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Wednesday, 25 September 2019

Rua dos Capelistas que foi d'El-Rei

Aos comerciantes que tinham as suas lojas no Pátio da Capela Real (depois elevada a Igreja Patriarcal de D. João V), pátio com suas arcadas e galerias [vd. Planta de Lisboa anterior ao Terramoto], chamava-lhe o povo os capelistas, e às suas lojas capellas.
As «capelas» e tendas, ou tendas da Capela — explica Norberto de Araújo — onde se «acha tudo o que de mais precioso é no mundo», foram depois do Terramoto armadas nas lojas dos prédios edificados na Rua do Comércio, e daí o chamar-se a essa artéria «Rua dos Capelistas», da mesma forma que os pequenos estabelecimentos «que vendem tudo» por êsses bairros de Lisboa, são conhecidos ainda por «capelistas», casas de «artigos de capela». Fenómenos da evolução dos vocábulos.

Rua do Comércio vulgo dos Capelistas [c. 1890]
Praça do Município e Paços do Concelho que ocupa o espaço que era o do Pátio da Capela Real
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Após o terramoto e a restauração da Baixa, estabeleceram-se os mesmos comerciantes na rua mais próxima do Terreiro do Paço, então designada Rua Nova de El-Rei, mas o povo chamava-lhe Rua dos Capelistas, até que, em 1910, passou a chamar-se Rua do Comércio.
Pela primeira regulamentação toponímica, o decreto régio de 05/11/1760 que consagra as denominações da Baixa Pombalina, foi atribuído o topónimo Rua Nova de El Rei. Depois, por deliberação camarária de 18/05/1889 e edital de 08/06/1889 passou a denominar-se Rua de El Rei. A última denominação desta artéria e que se mantém até aos nossos dias, Rua do Comércio, foi fixada pelo primeiro edital da vereação republicana na edilidade lisboeta, com data de 5 de Novembro de 1910, ou seja, um mês após a implantação da República em Portugal, e nesse edital se procurou substituir os topónimos

Planta de Lisboa anterior ao Terramoto
A vermelho a Capela Real e o respectivo Pátio; a verde a  Rua dos Capelistas (clicar para ampliar)
«Por baixo d'estas arcadas ou galerias, em toda a circumferencia, ha muitas tendas e lojas onde se acha tudo que mais precioso ha no mundo, ouro, diamantes e outras pedras preciosas». [Serrão, 1993]
in Lisboa de Antigamente



Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 13-14, 1939.

SENOS, Nuno, O Paço da Ribeira: 1501 - 1581, 2002.

Wednesday, 11 May 2016

Rua do Comércio, inundações

Pela primeira regulamentação toponímica, o decreto régio de 1760 que consagra as denominações da Baixa Pombalina, foi atribuído o topónimo Rua Nova de El Rei. Depois, por deliberação camarária de 1889 passou a denominar-se Rua de El Rei. A última denominação desta artéria e que se mantém até aos nossos dias, Rua do Comércio, foi fixada pelo primeiro edital da vereação republicana na edilidade lisboeta, com data de 5 de Novembro de 1910.

Rua do Comércio [1945]
Antiga de El-Rei vulgo dos Capelistas; Sé de Lisboa
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Rua do Comércio com a Rua Áurea [1932-09-21]
Antiga de El-Rei vulgo dos Capelistas. Ao fundo note-se a Praça do Município
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Thursday, 10 September 2015

Rua do Comércio

Chamava-se Rua Nova de El-Rei, por decreto régio de 05/11/1760 que consagrava as denominações da Baixa Pombalina e onde foram arruados os «comerciantes da capela ou dos capelistas, e o que sobejar para os as vendas dos outros mercadores de louça da India, de Chá e das mais fazendas de seu tráfico.» 
A última denominação desta artéria e que se mantém até aos nossos dias, Rua do Comércio, foi fixada pelo primeiro edital da vereação republicana na edilidade lisboeta, com data de 5 de Novembro de 1910.
 
Rua do Arsenal Rua do Comércio |c. 1900|
Antiga  Rua de El-Rei, antes Rua Nova de El-Rei; vulgo Rua dos Capelistas
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 25 May 2018

Profissões de Antanho: o capelista-ambulante

Ainda hoje — diz Calderon Dinis — se vêem por aí, sobretudo nas feiras, estas carripanas muito bem ordenadas de capelistas-ambulantes, onde nada falta, das agulhas e alfinetes ao retrós e às linhas de alinhavar e coser botões, de mistura com bonés e chapéus-de-chuva, colares, rendas ou entremeios, meias para homem ou senhora, canivete e limpa-unhas, calçadeiras e atacadores, lâminas de barbear, pincéis e outras coisas que não nos ocorre mas são sempre de utilidade. 

Capelista-ambulante |1908|
Praça do Comércio vulgo Terreiro do Paço
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Estes vendedores não apregoam; instalam-se num local certo, correm os taipais do seu estabelecimento-ambulante e esperam a clientela.
No nosso tempo pairavam muito à volta da Praça da Figueira, quando ali existia o mercado que o camartelo camarário destruiu para realizar a actual praça onde preside, a cavalo, o Mestre de Avis, D. João I. Anteriormente estaria indicado para ali Nun'Álvares Pereira, mas desinteligências políticas, que sempre as houve, desde que o Mestre se arvorou em defensor do reino, levaram o Condestável, amuado, para junto do Mosteiro da Batalha, onde dizem que está melhor, à espera da Ala dos Namorados!

Capelista-ambulante |c. 1940|
Largo do Chafariz de Dentro - "Casa das Colunas"
 Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Voltando aos capelistas-ambulantes, se tiverem muito interesse em os procurar, dêem um salto pela Ribeira Nova, que ainda por lá encontrarão um, à beira do mercado.

Capelista-ambulante |c. 1940|
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

fBibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.

Sunday, 7 March 2021

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa»

Pode São Bento ter-se convertido no símbolo da Política; o Terreiro do Paço no símbolo da Burocracia; a Rua dos Capelistas no símbolo da Finança; o Chiado alcançou o privilégio de os superar a todos, porque se converteu no símbolo do Bom-Tom. Passando a pontificar na Literatura e na moda, consequentemente os homens de letras passaram a escrever para o Chiado, os janotas a apurar-se para o Chiado, as Senhoras a vestir-se para o Chiado. Mais do que uma rua, ainda que das mais afortunadas de Lisboa, o Chiado tornou-se uma verdadeira instituição nacional  quase que um autêntico Estado dentro do Estado, com o seu Governo, o seu Parlamento, a sua Academia, a sua Catedral. Eça de Queiroz não hesitou mesmo em afirmar: «o que um pequeno número de jornalistas, de políticos, de banqueiros, mundanos decide no Chiado que Portugal seja — é o que Portugal é.»¹


Quem está neste Largo do Chiado — relembra Mário Costa — , pode dar um saltinho até à Praça de Luís de Camões, e é justo que se atreva a essa pressuposta acrobacia, para trazer à lembrança os traços pitorescos que o progresso apagou, a começar na eliminação dos típicos quiosques com venda de refrescos, onde se bebia o melhor capilé de Lisboa. [vd. 3ª imagem]

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [séc. XIX]
Largo do Chiado, que já foi Largo das Cavalariças Reais, Largo do Loreto e Largo das Duas Igrejas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Ajudavam a compor o singelo friso, os esfuziantes vendedores das popularíssimas castanhas assadas no forno — quentes e boas, dé réis vinte! — ; o pictural homem do realejo, acompanhado do urso amestrado, que dançava ao som do toque de pandeireta; a sugestiva tela que conglobava as incomparáveis cenas interpretadas pelos inimitáveis pantomineiros de praça pública  empoleirados em pequena tripeça, fazendo uso do mais cómico palavreado, uma arenga às massas ingénuas — às vezes também desfrutadoras – propagandeando milagrosos produtos, tudo maravilhoso, elixires da longa vida, para fazer crescer o cabelo e extrair calos sem dor, os únicos para tirar as nódoas do fato.

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [séc. XIX]
Largo do Chiado, que já foi Largo das Cavalariças Reais, Largo do Loreto e Largo das Duas Igrejas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 Foi-se toda essa colorida pintura, muito século XIX, quadros que enterneciam, pela ingenuidade do desenho. Também certo dia se arrancaram os utilíssimos bancos de duas tábuas, que foram o consolo de velhos reformados; e, em nome da civilização, se demoliu outro estilo de quiosque, todo de ferro e em forma cilíndrica, disfarçado por grande biombo, com entrada só para homens. [vd. 3ª imagem]

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [1912]
Ao fundo notam-se os antigos bancos de duas tábuas e o desaparecido urinol
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, pp. 90-102, 1987.

Sunday, 1 June 2025

Rua da Boavista

A origem do nome do sítio é projecção toponímica do Alto da Boa Vista, ou seja, ou Alto do Belver ou Belveder actual Alto de Santa Catarina. Não quero deixar de observar-te — recorda o ilustre Norberto de Araújo — que as edificações desta artéria da Boa Vista, do lado Sul, não levam cem anos (c. 1840). O edifício da Companhia do Gás sucedeu ao antigo Quartel da Brigada Real de Marinha. Foi aqui a primeira Fábrica do Gás, cujo privilégio concedido a Claudio Adriano da Costa e ao francês José Detry, datava de 3 de Maio de 1846

Rua da Boavista |ant. 1914|
O edifício do lado esq., até à esquina com o Boqueirão dos Ferreiros pertencia à «Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz»; em ampliando a foto observam-se, ao fundo, os sete arcos do do prédio nº 67 erguido pelo industrial Ferreira Pinto em meados do séc. XIX para «palacete de família, e constitui ainda a única nota decorativa urbana da Rua da Boa Vista.» [Araújo, 1939]
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

De facto, foi junto ao rio, meio de transporte privilegiado, que a «Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz» instalou, em 1846, a sua primeira fábrica de Gás; e, dois anos depois, em 1848, já Lisboa inaugurava a iluminação a gás, com 28 candeeiros, nas ruas da Baixa (Rua dos Capelistas, Rua do Ouro e Rua da Prata), no Chiado, na Rua do Alecrim, no Cais do Sodré, em S. Paulo e na Boavista.

Rua da Boavista |1940|
Companhias Reunidas de Gás e Electricidade: fachadas Norte e OesteBoqueirão dos Ferreiros.
Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

Em 1914 deu-se na fábrica a formidável explosão que originou dezanove mortes, e o fabrico do gás passou então, inteiramente, para o Bom Sucesso — vizinhança da Torre de Belém — , onde ase manteve até 1949.

Rua da Boavista |1914|
Topónimo anterior ao terramoto de 1755, como vem mencionado nas Memórias Paroquiais.
Incêndio no edifício da Companhia de Gás.
Anselmo Franco, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 8 March 2026

Chafariz de Dentro que foi Fonte dos Cavalos

O Chafariz de Dentro ou Fonte dos Cavalos — assim cognominado por causa dos cavalos de bronze, que os Castelhanos levaram quando cercaram Lisboa deixando lá dois buracos no lugar das equestres bicas de onde a água jorrava — é uma nascente mui antiga, e a data mais remota a que lhe encontramos referência é do ano 1285. Também o denominavam Fonte ou Chafariz de Alfama (1384 e 1650). [Silva: 1998]

Parece, porém — conta Camilo no seu romance satírico A Queda de um Anjo — , que ele [Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda] andava aporfiado em afogar o seu recto juízo nas águas de Lisboa. Lera o deputado que também o chafariz dos cavalos da rua Nova tinha prodigiosas virtudes em cura de moléstias de olhos. Procurou a rua Nova [d'El-Rei], que o terramoto de 1755 soterrara; procurou o chafariz, que, segundo ele, devia estar na rua dos Capelistas ou Algibebes sucessoras daquela rua.

 

Chafariz de Dentro ou dos Cavalos |1929|
Largo do Chafariz de DentroIgreja de Santo Estêvão.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 

Ninguém lhe dava conta do chafariz dos cavalos; e alguns lojistas interrogados supuseram que o provinciano não podia beber em fonte que não tivesse aquela aplicação.
O erudito respondia aos chacoteadores:
—  Pois saibam que se perdeu um mirífico chafariz! Rezam os meus livros que as salubérrimas águas desta fonte perdida tinham a propriedade oculta de engordar as carruagens que bebiam dela; e acrescenta Marinho de Azevedo, textualíssimas palavras: e quando ela faz tão conhecidos efeitos nos animais, os fizera nos corpos humanos, se a beberam na sua fonte.

Chafariz de Dentro ou dos Cavalos |1931|
Largo do Chafariz de Dentro

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente


Um bacharel, que ouvira as lástimas de Calisto, disse a um vizinho a meia-voz:
— Este homem parece que tem uma carruagem magra no corpo!
Com estas zombarias é que em Portugal os sábios são premiados. Se Calisto fosse um parvo, o Governo dava-lhe um subsídio até ele achar o chafariz dos cavalos.==
(CASTELO BRANCO, Camila A Queda de um Anjo, 1866)


Chafariz de Dentro ou dos Cavalos |c. 1930|
Largo do Chafariz de Dentro
Horácio Novais., in Lisboa de Antigamente

Sunday, 10 June 2018

Palácio Sinel de Cordes

Poucos sitios se adornam, como este, de tantos palácios nobres — diz mestre Castilho — : o dos Marquezes do Lavradio, erigido pelo Cardeal D. Thomás de Almeida, o da familia Sinel de Cordes, o dos Viscondes e Condes de Barbacena, o dos Condes de Rezende, o do Cardeal Mendoça, etc.


O Palácio Sinel de Cordes é uma construção palaciana de meados de setecentos mandada construir pela família Sinel de Cordes, que segundo os genealogistas consultados provém de uma nobreza flamenga chegada a Portugal no início do século XVII.
Em meados do século XIX o imóvel é adquirido pelo Visconde de Correia Godinho, Juiz do Supremo Tribunal Militar que foi quem lhe fez acrescentar a balaustrada na platibannda, adornando-a de quatro estátuas.

Palácio Sinel de Cordes [c. 1940]
Campo de Santa Clara; Travessa do Conde de Avintes
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

No início do século XX funcionava no Palácio a Legação de Itália, época em que ocorreu um violento incêndio que destruiu grande parte do seu interior, posteriormente reconstruido. Em 1939, de acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo, a propriedade pertencia aos descendentes de Carlos Ribeiro Ferreira, «que foi conhecido na gíria bairrista e da Rua dos Capelistas por «Ribeiro do Campo Grande».
A partir dos anos 30 passaria a funcionar no palácio uma escola primária, ocupação que se prolongou até 2006. Fechado desde então, o Palácio Sinel de Cordes veio a ser redescoberto no início de 2012 com a chegada da Trienal de Arquitectura.

Palácio Sinel de Cordes [1900]
Campo de Santa Clara; Travessa do Conde de Avintes
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Castilho, Júlio de, A ribeira de Lisboa, 1893.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, 1939.

Saturday, 14 May 2016

Largo do Chafariz de Dentro (ou dos Cavalos)

O olisipógrafo Norberto de Araújo refere-se a este local como «o mais pitoresco apontamento de Lisboa em dez léguas da grande póvoa. Tudo quanto é generoso de expressão popular assentou aqui arraial. Alfama tem o seu Rossio — S. Miguel; a sua Sé — Santo Estêvão; o seu Terreiro do Paço — o Largo do Chafariz de Dentro. (...) este sítio chama-se «de Dentro», porque ficava dentro das muralhas do século XIV, que passavam um pouco mais recuadas, e em recta, em relação à linha de trânsito Terreiro do Trigo-Jardim do Tabaco.
O mesmo autor considera ainda este Largo de Alfamana confluência entre a Ruas do Terreiro do Trigo, do Jardim do Tabaco, dos Remédios e de São Pedro — , como «o Rossio de tôda a Alfama, e melhor diria o seu Terreiro do Paço pois muitos séculos não há que o mar aqui chegava.¹
 
Largo do Chafariz de Dentro [Início séc. XX]
Chafariz de Dentro ou dos Cavalos
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
Largo do Chafariz de Dentro [Início séc. XX]
Chafariz de Dentro ou dos Cavalos
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Lera Calisto Elói que também o chafariz dos cavalos da rua Nova tinha prodigiosas virtudes em cura de moléstias de olhos. Procurou a rua Nova, que o terramoto de 1755 soterrara; procurou o chafariz, que, segundo ele, devia estar na rua dos Capelistas [actual do Comércio] ou Algibebes [actual de S. Julião] sucessoras daquela rua. Ninguém lhe dava conta do chafariz dos cavalos; e alguns lojistas interrogados supuseram que o provinciano não podia beber em fonte que não tivesse aquela aplicação.
O erudito respondia aos chacoteadores:
— Pois saibam que se perdeu um mirífico chafariz! Rezam os meus livros que as salubérrimas águas desta fonte perdida tinham a propriedade oculta de engordar as carruagens que bebiam dela; e acrescenta Marinho de Azevedo, textualíssimas palavras: e quando ela faz tão conhecidos efeitos nos animais, os fizera nos corpos humanos, se a beberam na sua fonte.
— Este homem parece que tem uma carruagem magra no corpo!
Com estas zombarias é que em Portugal os sábios são premiados. Se Calisto fosse um parvo, o Governo dava-lhe um subsídio até ele achar o chafariz dos cavalos.
(Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo, 1866)

Largo do Chafariz de Dentro [1961]
Chafariz de Dentro ou dos Cavalos
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

O Chafariz de Dentro, que não teve sempre esta disposição, (...) existia já no século XIV, com fartas águas que brotam do seu manancial vetusto, e foi objecto de arranjos em 1494. A sua principal reforma parece ser aquela a que se refere a inscrição em mármore rosa, colocada na frontaria e que reza na letra e ortografia da época: «Êste Chafariz mandou a Câmara desta Cidade reformar no ano de 1622, sendo presidente dela João Furtado de Mendonça do Conselho de Sua Magestada, e mais abaixo: «O qual se reformou com o dinheiro do real d'agua».»

Largo do Chafariz de Dentro [1929]
Chafariz de Dentro ou dos Cavalos
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Acrescenta Norberto Araújo que este «Chafariz chamou-se primitivamente «dos Cavalos» por motivo de as águas abundantes jorrarem da boca de cavalos de bronze que adornavam a frontaria; esses bronzes tê-los-iam levado os castelhanos, como recordação, quando levantaram o cerco a Lisboa (3 de Setembro de 1384), isto na interpretação dos dizeres de Fernão Lopes, o que não se concilia com a descrição que do chafariz faz Damião de de Góis (meados do século XVI), e na qual dá os cavalos existentes ainda. Há destas frequentes disparidades nos nossos livros velho[s].2

Largo do Chafariz de Dentro [c. 1950]
Chafariz de Dentro ou dos Cavalos
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. É provavelmente o chafariz mais antigo de Lisboa, também designado por Chafariz N.º 19. As águas deste chafariz abasteciam o Chafariz da Praia [de Alfama] e os seus sobejos iam para um tanque de lavadeiras no Cais da Lingueta. No século XIX, tinha quatro bicas, quatro companhias de aguadeiros, quatro capatazes, cento e trinta e dois aguadeiros e um ligeiro. (ANDRADE: 1851)
____________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, «Legendas de Lisboa», p. 194, 1943.
2 idem, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 66-67, 1939. 

Friday, 6 November 2015

Lojas de Antanho: Rua da Prata, 261

O plano de Eugénio dos Santos e Carlos Mardel da reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755, aprovado pelo Marquês de Pombal, apresentava uma rede de ruas longitudinais e transversais, cortadas em ângulos rectos, com importância diferente que é traduzida pela largura das suas ruas e passeios.

Casa das Manteigas, Rua da Prata, 261 [1910]
Antiga  Rua Bela da Rainha

Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

Mas Pombal quis ainda prestar homenagem à família real, fazendo baptizar quatro ruas do novo bairro; a Rua Nova d'El-Rei — hoje Rua do Comércio, a Rua Bela da Rainha hoje Rua da Prata, a Rua Nova da Princesa — hoje Rua dos Fanqueiros e a Rua do Príncipe, paralela ao Rossio — hoje Rua Primeiro de Dezembro. À terceira rua principal, mais chegada ao lado do nascer do Sol, chamar-se-ia Rua Bela da Rainha. Não que a Rainha fosse particularmente bela. Mas uma rainha é sempre um obstáculo incontornável mexerico do Paço e nas tramóias do governo, e é bom que tenha rua de nome, para boas graças próximas e distantes do ministro.
Em breve, porém, estas ruas (as três primeiras) receberam outros nomes, segundo os ofícios que nelas se exerciam — capelistas, ourives de prata e fanqueiros. (FRANÇA, José Augusto, Lisboa pombalina e o Iluminismo, 1987, p.117)
 

Monday, 24 August 2015

Companhias Reunidas de Gás e Electricidade e Fábrica de Gás da Boavista

Com armazéns arrendados na «Praia da Boavista» desde 1847, a «Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz» possuía, em 1852, cinco gasómetros e duas baterias de fornos. Entre 1875 e 1877 mandou construir a fachada neogótica que ocultava as instalações da fábrica do lado do Aterro da Boavista. 
 
A Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz (fábrica da Boavista) e a Companhia Gaz de Lisboa (fábrica em Belém) fundem-se, em 1891, passando a designar-se Companhias Reunidas de Gás e Electricidade - C.R.G.E., Inicia-se, assim, um ciclo de produção de gás de cidade, igualmente conhecido como gás iluminante, que vem beneficiar a população, melhorando as suas condições de vida em vários níveis.
 
Companhias Reunidas de Gás e Electricidade [193-]
Avenida 24 de Julho
Kurt Pinto, in Lisboa de Antigamente
Companhias Reunidas de Gás e Electricidade [Inicio séc. XX]
Avenida 24 de Julho

Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

A iluminação a gás inaugurou-se em Lisboa em Julho de 1848, com os primeiros 28 candeeiros, nas ruas da Baixa (Rua dos Capelistas [hoje do Comércio], Rua do Ouro e Rua da Prata), no Chiado, na Rua do Alecrim, no Cais do Sodré, em S. Paulo e na Boavista.  
[in Lisboa: histórias e memórias, Maria João Janeiro, 2006, p. 130]
 
Panorâmica sobre o rio Tejo, vê-se a fábrica de Gás da Boavista [1906]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

No dia 10 de Outubro  de 1914 uma violenta explosão na casa das caldeiras da Fábrica do Gás, localizada na Rua da Boavista, provocou 18 mortos, cerca de 60 feridos e elevados danos materiais. Este trágico acontecimento deu origem a severas críticas acerca da localização de tão perigoso equipamento numa zona tão densamente povoada da cidade.
A cobertura que a revista Ilustração Portuguesa deu a este acontecimento pode ser aqui revisitada.

Rua da Boavista [1914]
Incêndio no edifício da Companhia de Gás e Electricidade.
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente
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