Friday, 18 October 2019

Rua do Barão

Eis-nos no cimo da Rua do Barão, artéria do século passado [XIX], e que sucedeu a uma muito mais estreita Rua do Barão Velho, designação do século de quinhentos, e cujo titulo derivou do 1.° Barão de Alvito, João Fernandes da Silveira, chanceler-mór de D. Afonso V e de D. João II.
Confessa, Dilecto, que estes desvios contribuem para amenizar o passeio: vamos dar sempre ao mesmo sítio, que é o que sucede em todos os burgos velhos.

Rua do Barão |1908|
 Confluência com a Rua de Augusto Rosa, antiga do Arco do Limoeiro
Machado & Souza, 
in Lisboa de Antigamente

Em 1554 a artéria designava-se por Rua do Barão Velho, o que Pastor de Macedo interpreta como «O adjectivo deveria ter sido aposto ao nome da rua, quando o Barão deixou de lá morar». Mais esclarece o olisipógrafo que «Em 1486 vemos designá-la por rua que vay pera a porta d`alfama, depois, conforme já se disse, por Rua do Barão em 1552, e por Rua do Barão Velho em 1554. Desde então até hoje foi sempre a Rua do Barão ou do Varão, e uma vez, em 1684, chegou a ser a Rua do Verão.»

Rua do Barão \1901|
 Junto à Igreja de S. João da Praça
Machado & Souza, 
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XX, p. 40, 1939.

Wednesday, 16 October 2019

Merceeiras d'el Rei D. Afonso IV

Aqui temos agora uns passos andados à direita da rua [de Augusto Rosa], este prédio pequeno, chamado, e justamente, das "Merceeiras". Foi, e é, a sede de uma instituição fundada por D. Afonso IV e por D. Beatriz [ou Brites]¹, sua mulher (cujos túmulos, reconstruídos, estão na capela-mór da Sé).

 

"Merceeiras" provêm de "mercê" e não de "merce" — mercadoria — ; eram instituições de assistência onde aqueles que recebiam mercê ficavam com certos encargos espirituais ou religiosos. Nesta casa se recolheram, segundo a disposição real de 1343, vinte e quatro criaturas, "doze homens bons e doze mulheres de bons costumes, fama e vergonha", que, havendo tido honra e alguma cousa de seu, caísse depois em penúria.
De seu começo a Casa, que tinha carácter de hospício, não assentava neste sítio, mas mais baixo para a banda do rio, a encostar à muralha que corria onde é hoje o Campo das Cebolas; mais tarde esteve nas traseiras de Santo António, à Sé.

Edifício das Merceeiras  [1902]
Rua de Augusto Rosa, 15; Beco das Merceeiras; Travessa das Merceeiras 
Sobre a porta principal pode ler-se a seguinte inscrição: "Cazas para a habitação dos Merceeiros do Snr. Rey D. Afonso IV e Merceeiras da Snrª Raynha D. Beatris sua mulher Novvamte edificadas pelo favor e ordem da Raynha fidelissima D. Maria I nossa senhora em o Anno de MDCCLXXXV sendo Provedor D. Caetano de Noronha.".
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Data de 1785 a construção dêste prédio, por ordem de D. Maria I. Em 1851 a instituição foi incorporada na Assistência Oficial, e passou a ser dependência do Asilo da Mendicidade: actualmente [1938] está integrada no Ministério do Interior, Direcção Geral da Assistência, fazendo parte do grupo de recolhimentos (e não asilos), e que são ao todo sete: este das "Merceeiras", onde habitam vinte e quatro senhoras de boas famílias de oficiais superiores do Exército, o das Comendadeiras de Avis, no antigo Convento da Encarnação, o das Comendadeiras de Santiago, no antigo Convento de Santos-o-Novo (ambos desanexados arranjos da Administração das Ordens Militares em 17
de Agosto de 1934), o de Lázaro Leitão, a Santa Apolónia, o do Grilo, ao Beato, o de Campolide, fundado em 1931 no prédio n..º 161 desta rua, e o de S. Cristóvão, antigo recolhimento do Amparo
arruinado, e que vai ser demolido.
Entremos uns momentos, com a devida vénia, não perturbar o remanso destas velhinhas.

Edifício das Merceeiras, traseiras  [1902]
Travessa das Merceeiras; Rua de Augusto Rosa, 15; Beco das Merceeiras
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A casa é decrépita mas asseada, em seus dois pavimentos, sendo os aposentos independentes — uma casa separada para cada recolhida. Nenhum aspecto de albergue; cada senhora se mantém à sua custa. podendo sair quási todas, só recolhendo para dormir.
Ao todo estas sete casas recolhem 196 senhoras e 70 agregadas (criadas ou parentes de auxilio). A maioria das senhoras recolhidas recebe 105$00 por mês, e outras o  dobro, segundo o rendimentos próprios daquelas instituições.
Deixemo-las em paz. Quero dizer-te ainda que neste edifício, no meado do século passado (em 1845 pelo menos), foi instalada a filial oriental do Liceu Central de Lisboa, cuja sede era na Rua de S. João de Nepomuceno; a filial ocidental era na Casa Pia.
Por trás do prédio corre a Travessa das Merceeiras, sem saída desde 1837, e que morre no Pátio do Marechal, onde, a certa altura, se encontra o muro alto que apoia uma parte do pátio do Limoeiro.

Edifício das Merceeiras  [1945]
Rua de Augusto Rosa, 15; Beco das Merceeiras; Travessa das Merceeiras 
Afonso IV instituiu numa capela da Sé de Lisboa uma mercearia, com missa cantada diariamente por sua alma e pela Rainha D. Beatriz.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

¹ Afonso IV (Lisboa, 8 de Fevereiro de 1291– Lisboa, 28 de Maio de 1357), apelidado de '''Afonso, o Bravo''', foi o Rei de Portugal e Algarve de 1325 até sua morte. Era um dos filhos do Rei D.Dinis de Portugal e sua esposa Isabel de Aragão — canonizada como Santa Isabel. Casou a 12 de Setembro de 1309 com D. Brites ou Beatriz de Castela, que nasceu em Toro em 1293 e morreu em Lisboa a 25 de Outubro de 1359.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 53-55, 1938.
CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antigs. Segunda Parte. Bairros Orientais, vol. VI, 2ª edição Revista e ampliada pelo autor e com anotações do Eng. Augusto Vieira da Silva, 1936.

Sunday, 13 October 2019

Cadeia do Aljube e o «Celeiro da Mitra»

Subindo, na linha dos carros eléctricos da Graça, a Rua do Arco do Limoeiro — pode ler-se no Guia de Portugal — vê-se, à esq., a cadeia do Aljube, que serve de prisão para mulheres. É um velho edifício de janelas gradeadas, em cujo pavimento térreo era o antigo celeiro da Mitra. Foi palácio do arcebispo de Lisboa D. Miguel de Castro (séc. XVI), tendo servido no séc. XVII de palácio arquiepiscopal.


O que teria sido o edifício actual do Aljube, situado na Rua de Augusto Rosa [antiga do Arco do Limoeiro], em frente da fachada norte da Sé, e quem o teria mandado erigir?
O edifício actual não oferece aspecto de haver servido de palácio ou paço episcopal, mas é natural que tenha havido nesse local alguma dependência do mesmo.
Que por ali foi uma dependência do paço mostra-o o escudo de armas do arcebispo D. Miguel de Castro (1668 a 1625) colocado sobre a porta principal do edifício [vd. 4ª foto], o que faz supor, se não a sua fundação, pelo menos obras na época deste prelado, ou remodelação do edifício que anteriormente tivesse existido nesse sítio.

Cadeia do Aljube [post. 1914]
Rua de Augusto Rosa, antiga do Arco do Limoeiro
Em cima, à esq., pode ver-se o topo da pirâmide que encimava a torre 

Norte da Sé Patriarcal antes das obras de restauro.
Charles Chusseau-Flaviens,  in Lisboa de Antigamente

A sua arquitectura exterior, assim como a sua estrutura interior, não revelam grande antiguidade, parecendo serem obra da segunda metade do século XVIII, não falando dos andares superiores, que são relativamente modernos.
Tem uma loja abobadada, um rés-do-chão, e mais quatro andares. O rés-do-chão é dividido em poucos compartimentos, todos abobadados, com abóbadas de aresta que tomam apoio nas paredes exteriores, em pilares centrais, e noutras paredes interiores; o primeiro andar tem alguns compartimentos cobertos com abóbada, e outros com tecto plano estucado; os andares superiores não apresentam cousa digna de menção.
No edifício se instalou, ignoramos desde quando, a prisão designada por Aljube.

Cadeia do Aljube, Pátio do Aljube [c. 1900]
Rua de Augusto Rosa, antiga do Arco do Limoeiro

Escadaria de pedra entre os dois edifícios: o Aljube e o «Celeiro da Mitra»; do lado esq. vê.se a antiga entrada sobrepujada pelo escudo de armas do arcebispo D. Miguel de Castro (1568-1625)
 José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Era o Aljube a prisão dos delinquentes em matéria eclesiástica. Assim o diz Bluteau em 1712.
Este cárcere é porém muito antigo, pois já as constituições do arcebispado de Lisboa de 1536, publicadas em 1588, estabeleciam a pena de prisão dos ministros da igreja no Aljube.
O alvará de D. João III, de 16 de Janeiro de 1554, determinava que os presos no Aljube do arcebispado de Lisboa, condenados para o Brasil, ou para as galés, fossem recebidos na Cadeia da dita cidade, para serem embarcados quando houvesse leva de outros presos.
Não dizem porém os autores antigos onde era situada esta prisão. Antes de 1755, do lado esquerdo da Rua Nova do Almada, na sua base, ficava o Largo do Aljube, que devia o nome a umas casas, naquele ano pertencentes ao visconde de Barbacena, e que anteriormente serviram de aljube. Na prisão do Aljube estavam encarcerados, em 1848, os forçados a trabalhos públicos; mais tarde foi o cárcere privativo das mulheres; actualmente (1936) serve de prisão a presos políticos.

Cadeia do Aljube [1901]
O edifício apresentava apenas um andar sobre o térreo
Machado & Souza


Cadeia do Aljube, portão [1959]
Pedra de armas de D. Miguel de Castro
Machado & Souza


Noutros tempos era a passagem para o pátio do Aljube feita por uma escada com seu adro, defronte da porta travessa da Sé, que a Câmara Municipal mandou demolir em Junho de 1836 substituindo-a pela escadaria de pedra entre os dois edifícios, que lá está.
Apenas separado do Aljube pela escada de pedra citada, fica um outro edifício conhecido por celeiro da mitra [vd. foto abaixo], actualmente com rés-do-chão e dois andares. Sobre a porta principal vêm-se, em alto relevo, as armas do arcebispo D. Afonso Furtado de Mendoça, que governou a diocese de Lisboa de 1627 a 1630. Este emblema heráldico indica, se não a construção original, ao menos obras de reconstrução ou remodelação no 2.° quartel do século XVII, e, em qualquer dos casos, que o edifício era uma dependência do paço dos arcebispos, que lhe ficava fronteiro.

Cadeia do Aljube e o Celeiro da Mitra [1971]
Rua de Augusto Rosa, antiga do Arco do Limoeiro

À altura das janelas do 2º andar observa-se a Pedra de Armas do arcebispo D. Afonso Furtado de Mendoça, encimada
por um chapéu com 3 ordens de borlas pendentes.

 Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Por cima deste escudo existiu a seguinte inscrição, que o visconde de Castilho copiou, e deixou nos seus apontamentos para uma 2.ª edição da sua obra:
FOREIRO
AS CADEIRAS SU
PREMIDAS, HOJE
ENCORPORADAS
NO R SIMINARIO
DO PATRIARCA
DO EXIST.E NA V.ª
DE SANTARÉM
1....3
Já lá não está.
As paredes do rés-do-chão e primeiro andar são grossíssimas, e aquele só tinha originariamente um compartimento único, abobadado, sem apoios intermédios.
O rés-do-chão foi uma cavalariça, e ainda lá se conservam vinte e nove manjedouras, em frente de outros tantos nichos abertos nas paredes dianteira e posterior da casa, correspondentemente às quadras do gado [os tristemente célebres «curros»].
O edifício ainda em 1914 tinha apenas um andar sobre o térreo, o qual servia então de Teatro do Aljube. Sobre ele foi construído, há poucos anos, um 2.° andar, e nos dois está instalada actualmente (1936) uma oficina de maleiro.

Rua do Arco do Limoeiro, desde 1924 Rua Agusto Rosa [post. 1906]
Do lado esq.  — fronteiro à Cadeia do Aljube — observa-se o portão, do estilo de Renascença, que dava entrada para o antigo Paço dos Arcebispos.
Segundo Norberto de Araújo, este portão foi construido no tempo do arcebispo D. Luiz de Sousa. no final do século XVII; em último plano vê-se a torre Norte da Sé Patriarcal encimada por pirâmide derribada por volta de 1930.
 José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

N. B. A 25 de Abril de 2015 foi inaugurado neste edifício o Museu do Aljube, cumprindo o dever de gratidão e de memória da cidade de Lisboa e do país às vítimas da prisão e da tortura. A reabilitação e adaptação do imóvel a espaço museológico esteve a cargo do arq-º Graça Dias.
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Bibliografia
Guia de Portugal: v. Generalidades. Lisboa e arredores, p. 279, 1924.
CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antigs. Segunda Parte. Bairros Orientais, vol. VI, 2ª edição Revista e ampliada pelo autor e com anotações do Eng. Augusto Vieira da Silva, 1936.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, 1938.

Friday, 11 October 2019

Livraria Barateira (Palácio Trindade)

Fundada por Salvador Santos Romana em 1914, na Rua do Duque, esta pequena casa veio a mudar em 1930 para este prédio datado de 1835. Ocupava duas salas — espaço que outrora funcionou como cavalariça do antigo Convento da Trindade. Uma pedra gravada na base de coluna aflora numa das paredes a atestar a antiguidade do local. 
Encerrou portas em 2012.

Livraria Barateira (Palácio Trindade) [1968]
Rua Nova da Trindade, 16-20, perspectiva tomada do Largo da Trindade.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Conhecido por Palácio Trindade, foi antiga residência de Manuel Moreira Garcia. A fachada principal abre-se para o Largo da Trindade e na fachada posterior encontramos o jardim delimitado por um muro de alvenaria e pelas fachadas posteriores dos prédios da Rua da Trindade, nomeadamente a Casa do Ferreira das Tabuletas, também propriedade daquele capitalista galego.

Rua Nova da Trindade [c. 1940]
A Rua Nova da Trindade foi aberta depois de 1836 no espaço ocupado por parte do Convento da Trindade. Cervejaria Trindade e o Palácio Trindade (ao fundo).
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 9 October 2019

Estação do Cais do Sodré

A Estação do Cais do Sodré — linha de Cascais — que aqui vês, foi inaugurada em 18 de Agosto de 1928, e dela foi arquitecto Pardal Monteiro, que adoptou êste estilo prático e desafogado, decente mas sem cousa alguma de monumental. Substituiu uma estação ferroviária que levava 32 anos [vd. 4ª e 5ª  foto].


A ligação ferroviária do Cais do Sodré a Cascais data de 1896, «antes ia-se a Cascais partindo da estação de Pedrouços, que servia de testa de linha» [Araújo: 1939]. «O comboio abranda» ao chegar ao Cais do Sodré. Nele vem Bernardo Soares. Fora «pagar a Cascais uma contribuição do patrão Vasques, de uma casa que tem no Estoril», gozando «o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica».

Panorâmica sobre o Cais do Sodré [1944]
Estação do Cais do Sodré, Praça Duque da Terceira e Avenida 24 de Julho
Estátua de António José de Menezes Severin de Noronha, 1792-1860, 1º duque da Terceira; Jardim Roque Gameiro.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A Estação de Caminho-de-Ferro do Cais do Sodré é a primeira grande construção do seu autor, o arq. Porfírio Pardal Monteiro. Trata-se de um projecto executado para a Sociedade Estoril, que ambicionava desenvolver turisticamente o território favorecido pela exploração desta linha férrea. A Estação foi desenhada como se de um empreendimento público se tratasse, antevendo por certo esse estatuto posterior, na sua utilização efectiva e importância social.

Estação do Cais do Sodré [1963]
Praça Duque da Terceira
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
Estação do Cais do Sodré [1928]
Praça Duque da Terceira; Av. 24 de Julho
Porfírio Pardal Monteiro, in Lisboa de Antigamente

Trata-se de uma construção moderna de transição, de acordo com a própria modernização da linha operada em 1926, com a sua electrificação, e com uma proposta estilística assente nos ensinamentos da «Art-Déco». Abre-se ao espaço exterior através de grande superfícies de iluminação em ferro e vidro e de um grande arco envidraçado inserido num corpo que articula as fachadas laterais. Esta relação com a Praça marca efectivamente a modernidade deste edifício, servindo para tal a sua situação privilegiada em esquina. 

Bilheteiras da Estação do Cais do Sodré [195-]
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

A expressão formal decorre das possibilidades do novo material, o betão armado. Os seus motivos decorativos abundam em detrimento dos trabalhos em ferro e avançam para uma ideia de novo progresso (em contraponto ao progresso oitocentista) decorrente do desenvolvimento pretendido, tanto para o país, como também para o território entre Lisboa e Cascais. Simultaneamente, esta obra anuncia a caracterização depurada da arquitectura que Pardal Monteiro viria a projectar e que contribuiu decididamente para uma renovação da linguagem da arquitectura portuguesa.

Panorâmica sobre o Cais do Sodré [c. 1896]
Antiga Estação do Cais do Sodré (esq.), Praça Duque da Terceira. Partindo ainda do Cais do Sodré, junto ao rio e em direcção paralela à deste, estende-se a grande Avenida 24 de Julho, ou, mais vulgarmente o Aterro.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

«Um dia, ao comprar o bilhete do caminho de ferro na estação do Cais de Sodré, colocou em cima do guichet a importância da passagem em terceira classe e, quando o empregado lhe perguntava qual a classe desejada, respondeu irónico: «La que Usted quiera!»

Estação do Cais do Sodré [1908]
Legenda da foto no arquivo:«Eleições legislativas em Lisboa: condução de presos para a estação do Cais do Sodré com destino a Caxias»
António Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 40-41, 1939.
PESSOA, Fernando, O Livro do Desassossego, 1982.
CML-Cadernos do Arquivo Municipal, nº4, pp. 24-25, 2000.
Portucale. Revista ilustrada de cultura literária, scientífica e artística, 1943.

Sunday, 6 October 2019

Sítio da Achada: chafariz das Gralhas e Recolhimento do Amparo

Este sítio da Achada, que foi arrabalde da cidade muçulmana — recorda-nos o ilustre Norberto de Araújo — , deve o seu nome, muito antigo e característico, pois já é citado em 1554, ao facto de aqui se encontrar uma pequena planície ou descanso da encosta. «Achada», com efeito, é uma contracção de «achaada», terra chã.


Rua da Achada esquina com o Largo da Achada [194-]
[Prédio setecentista demolido]
Eduardo Portugal, in AML
(clicar para ampliar)


Largo da Achada esquina com o Beco de São Francisco [1901]
[Prédio setecentista alterado]
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente



Como vês, há aqui casas curiosas, interessantes na sua construção de alguns séculos, e como raras se encontram na Alfama. Por exemplo: estas na esquina nºs 17 e 19 [2ª foto] de feitio setecentista, com primeiro piso de ressalto na reentrância (da Achada, ou Jasmim forçadamente) defronte do Largo este prèdiozinho nº 54 [2], com porta ogival simples e janela do mesmo tipo.

Beco da Achada com o Largo da Achada esquina com o [1901]
Casa quatrocentista com porta e janela ogivais.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

É, no seu conjunto, bem pitoresco este sítio com seu marco fontanário rodeado de escadaria circular.

Chafariz do Largo da Achada, antigo Terreirinho das Gralhas [1945]
Ao fundo, nas Escadinhas da Achada observa-se o portal e lápide
do Recolhimento do Amparo.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Deste largo [antigo  Terreirinho das Gralhas] e rua sobe-se por contínuas escadas (sempre Rua da Achada) para a Costa do Castelo, e encontra-se à direita o velho Recolhimento do Amparo ou de S. Cristóvão, dentro de um pátio ou eirado, cujo portal ostenta uma lápide relativa à fundação do Recolhimento. Podemos ler no português de hoje: «Louvado seja o Santíssimo Sacramento. Este Recolhimento de N. S.' do Amparo é das meninas orfãs. Padre Nosso pelas Almas. l6l0». Esteve sujeito à Real Mesa da Consciência, e destinou-se finalmente só a pensionistas. Mas entremos no Pátio. O Terramoto sacudiu esta Casa e deixou-a maltratada.

Recolhimento do Amparo ou de S. Cristóvão [195-]
Rua da Achada com o Largo da Achada (antigo  Terreirinho das Gralhas)
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 55, 1938.

Friday, 4 October 2019

Calçada da Estrêla

Esta Calçada da Estrêla, daqui para cima, era no século XVIII pouco mais que campo, mostrando à direita a Cêrca dos benedictinos.
As discretas e simpáticas ruas à esquerda [de quem sobe] — Miguel Lupi, Almeida Brandão — são deste século [XX] na sua urbanização; como observas, toda esta bela artéria por aí acima tem um ar burguês, repousado, muito 1850.

Calçada da Estrela [ant. 1913]
Elevador Estrela-Camões (1890-1913) vulgo «Maximbombo da Estrela» ou «Mata~cães»; paragem junto aos conventos de S. Bento (A.R.) e das Francesinhas.
Fotografia anónima,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p.43, 1939.

Wednesday, 2 October 2019

Rua das Francesinhas

O topónimo (1950) advém da proximidade ao Convento do Santo Crucifixo das Capuchinhas Francesas, conhecido como das Francesinhas (à esq. na 1ª imagem); ao fundo, a Calçada da Estrela e a Rua de S. Bento.


Norberto de Araújo, nas suas «Peregrinações em Lisboa», recorda-nos, em 1938, que «Em tempos idos, e não foi há nenhum século, esta Rua de João das Regras não passava de um caminho estreito, encostado pelo norte ao muro da Cerca do Convento das Francesinhas, e pelo sul escancarado ao Tejo; não tinha iluminação que não fosse a das estrelas, e levava de S. Bento da Saúde o Mocambo como, num arredor de Lisboa, uma vereda que nasceu de um caminho de pé posto.

Rua das Francesinhas [190-]
Antiga Rua João das Regras, antes Caminho Novo
Paulo Guedes,in Lisboa de Antigamente

Aquele Pinto Machado, que tinha o seu palácio na Rua do Machadinho — diminutivo que nasceu do apelido do fidalgo — , foi quem fez rasgar, depois de 1758, uma serventia já desenhada desde 1680 «Caminho Novo» — na quinta de D. Francisco Xavier Pedro de Sousa, por alcunha o «Quelhas», quinta na qual o fidalgo tinha sua casa, que bem pode ter sido aquela onde assentou o palácio dos Pintos Machados. 

Rua  das Francesinhas, esquina com a  Avenida Dom Carlos I (esq.) [1959]
Antiga Rua João das Regras, antes Caminho Novo
 Fernando de Jesus Matias, in Lisboa de Antigamente

Caminho Novo é designação oficializada do século XVIII, julgo eu, embora de muitos anos antes viesse a novidade de um caminho público estreitíssimo, como aliás estreito era o que antecedeu a Rua de João das Regras.==

Lavadouro do Caminho Novo, hoje uma galeria de arte, na Rua  das Francesinhas [1969]
Antiga Rua João das Regras, antes Caminho Novo
Vasco Gouveia de Figueiredo,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 33, 1938.
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