sexta-feira, 15 de junho de 2018

Largo de São Domingos (em dia de Portugal-Espanha)

Recorda mestre Norberto Araújo que « (...) não podemos negar certo carácter alfacinha a êste Largo de S. Domingos (...) é uma crónica viva de Lisboa, com as suas imediações da Praça da Figueira, com o seu trânsito obrigatório, pela Rua Barros Queiroz e Calçada do Garcia, formigueiros de gente, que desce dos Anjos, dos bairros novos, ou de Sant'Ana velha.». ¹



Tinha este Largo de São Domingos, às Portas de Santo Antão, «uma atmosfera decadente e boémia, estritamente lisboeta, impregnada dos aromas das iscas e do álcool que os clientes da Ginjinha cuspinhavam no chão e no passeio, juntamente com os caroços dos frutos», recorda Rodrigues Miguéis que, durante alguns tempos, por ali andou num escritório situado em frente ao Palácio dos Almadas ou da Independência. As «casas das iscas» eram, por norma, manhosas e acanhadas: bancos corridos e mesas de madeira, com os garfos atados por correntes de ferro, e o cozinheiro quase sempre com o fogão cerca da porta da rua; e, apesar da pouca comodidade dos estabelecimentos e da falta de higiene, as iscas, com elas ou sem elas, atraíam fregueses, pois «só os galegos lhes davam precioso tique saboroso, que apenas tinham como rival o cheiro particular do petisco» um «mágico odor a que ninguém resistia» (Fernandes: 1995).
Neste largo «estritamente lisboeta», espaço de trânsito obrigatório e «formigueiro de gente», dois monumentos merecem especial atenção: a Igreja de S. Domingos e o palácio dos Condes de Almada ou da Independência.²

Largo de São Domingos [2 de Abril de 1933]
Legenda no arquivo: «No Largo de São Domingos, a multidão ouvindo o relato do desafio Portugal-Espanha»
Fotógrafo não identificado, iin Lisboa de Antigamente

Bibliografia:
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 79, 1939.
² JANEIRO, Maria João , Lisboa: histórias e memórias, p. 250-266.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Palacete Marçal Pacheco

Dentro de poucos anos, Dilecto, — preconizava  o ilustre Norberto de Araújo em 1939 — esta Rua das Amoreiras estará desfigurada no seu traçado; as transformações das cidades, riscadas em plantas, quando chega a hora das realizações fazem sempre vítimas: alguns prédios desta artéria, de um lado e outro, desaparecerão.


Pois bem, foi exactamente o que veio a suceder com o Palacete Marçal Pacheco — demolido na década de 1960 para lá se erguer o edifício ocupado pela Philips, hoje Hotel Dom Pedro  — situado no antigo troço da velhinha Rua das Amoreiras [antiga Rua direita de S. João dos Bem Casados], antes daquela ser cortada pela actual Avenida Engenheiro Duarte Pacheco e ter mudado a denominação para Rua Prof. Sousa da Câmara (1971) [vd. carta topográfica mais abaixo].

Palacete Marçal Pacheco [1932]
Rua das Amoreiras [1874], antes Rua direita de S. João dos Bem Casados
Legenda da foto no arquivo:«Legação da Argentina»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O palacete mais vistoso desta Rua [das Amoreiras] — prossegue Norberto de Araújo — é aquele que se situa do lado oriental, construção do século passado [XIX], entre uma faixa de mata arborizada ainda. Pertencente a umas senhoras Pachecos, por transmissão de Marçal Pacheco, e foi antes de José António de Carvalho. Em 1916 esteve nele instalada a Legação de Espanha, e era em 1919 moradia de Carlos Bleck, voltando depois a servir de Legação, do Uruguai [e/ou Argentina?]. Esteve depois alguns anos ao abandono, e em 1937 instalou-se neste palacete a Direcção Geral dos Serviços Florestais e Agrícolas, vinda do edifício do Terreiro do Trigo. Possui algumas salas interessantes mas sem pormenores de arte pura. Do lado oposto existiu o Horto de Marcolino Teixeira Marques, que ocupava a faixa da rua, onde se ergueram (1935-36) aqueles prédios modernos e altivos que vês, e se estendia pelos terrenos da Casa Anadia.¹

Palacete Marçal Pacheco, entrada [entre 1903-1908] 
Rua das Amoreiras [1874], antes Rua direita de S. João dos Bem Casados
Legenda da foto no arquivo:«Legation d'Espagne»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Palacete Marçal Pacheco, demolição [c. 1966] 
Esquina da Avenida Engenheiro Duarte PachecoAvenida Engenheiro Duarte Pacheco com a Rua das Amoreiras [hoje Rua Prof. Sousa da Câmara].
Artur Bastos, in Lisboa de Antigamente

A propósito do historial toponímico da Rua das Amoreiras, vale a pena ler o que diz o livro Chorographia Moderna Do Reino De Portugal publicado em 1876. Reza assim:  
«Por baixo do dito arco [das Amoreiras] passa uma larga rua a que dava nome, a qual do Largo do Rato, e quasi parallela á da Fabrica da Loiça e ao longo da dita Praça das Amoreiras, conduz para as alturas de Campolide, tomando mais acima o nome de Rua [direita] de S. João dos Bem Casados. Hoje uma e outra tem o nome de Rua das Amoreiras, a qual começa no Largo do Rato e acaba na porta da cidade chamada do Alto do Carvalhão [actual Rua D. Carlos de Mascarenhas].²

Palacete Marçal Pacheco [vermelho] 
Verde:  troço da antiga Rua das Amoreiras,  antes Rua direita de S. João dos Bem Casados, que corresponde actualmente à Rua Prof. Sousa da Câmara
Laranja: Rua Silva Carvalho, antes
Rua de S. João dos Bem Casados 
Levantamento da Planta de Lisboa, 1911 por  Júlio António Vieira da Silva Pinto, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 80-81, 1939.
² BAPTISTA, João Maria, Chorographia Moderna Do Reino De Portugal, vol. 4, 1876.

domingo, 10 de junho de 2018

Palácio Sinel de Cordes

Poucos sitios se adornam, como este, de tantos palácios nobres — diz mestre Castilho — : o dos Marquezes do Lavradio, erigido pelo Cardeal D. Thomás de Almeida, o da familia Sinel de Cordes, o dos Viscondes e Condes de Barbacena, o dos Condes de Rezende, o do Cardeal Mendoça, etc.


O Palácio Sinel de Cordes é uma construção palaciana de meados de setecentos mandada construir pela família Sinel de Cordes, que segundo os genealogistas consultados provém de uma nobreza flamenga chegada a Portugal no início do século XVII.
Em meados do século XIX o imóvel é adquirido pelo Visconde de Correia Godinho, Juiz do Supremo Tribunal Militar que foi quem lhe fez acrescentar a balaustrada na platibannda, adornando-a de quatro estátuas.

Palácio Sinel de Cordes [c. 1940]
Campo de Santa Clara; Travessa do Conde de Avintes
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

No início do século XX funcionava no Palácio a Legação de Itália, época em que ocorreu um violento incêndio que destruiu grande parte do seu interior, posteriormente reconstruido. Em 1939, de acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo, a propriedade pertencia aos descendentes de Carlos Ribeiro Ferreira, «que foi conhecido na gíria bairrista e da Rua dos Capelistas por «Ribeiro do Campo Grande».
A partir dos anos 30 passaria a funcionar no palácio uma escola primária, ocupação que se prolongou até 2006. Fechado desde então, o Palácio Sinel de Cordes veio a ser redescoberto no início de 2012 com a chegada da Trienal de Arquitectura.

Palácio Sinel de Cordes [1900]
Campo de Santa Clara; Travessa do Conde de Avintes
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Castilho, Júlio de, A ribeira de Lisboa, 1893.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, 1939.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Ponte pedonal da praia de Algés

Naquele tempo a Alameda de Algés estava ligada à praia por passadiços, escadarias e pontes, sobre a linha do comboio Lisboa-Cascais. O povo, tal como hoje vai à Caparica, assim, naquele tempo, ia tomar banho a Pedrouços e a Algés, então de águas claras.
Nesta fotografia aérea de 1930 pode ver-se em baixo (ampliando a foto), a referida ponte pedonal defronte ao Parque Anjos.  

Ponte pedonal da praia de Algés [c. 1920] 
Situava-se defronte ao Parque Anjos, originalmente moradia de veraneio de Policarpo Anjos, construída no século XIX
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 3 de junho de 2018

Palácio dos Azevedos Coutinhos e o Arco do Chanceler

O Palácio dos Azevedos Coutinhos, ocupa uma área contida entre a Rua de Santo Estêvão, o Largo do mesmo nome (escadinhas de curiosa perspectiva), e o Largo do Chanceler, e assenta em parte sobre o Arco do Chanceler.


Não sei em Lisboa de cousa assim — diz-nos o ilustre Norberto de Araújo — como esta Alfama se multiplica de aspectos raros, em mistérios de germe urbanista, de imprevistos e de quadros locais que nunca se assemelham, mas de que nossos olhos se vão fatigando, acabamos, em saturação, por não fixar um apontamento. Fica-se entontecido. Não será assim, Dilecto?
O enquadramento é gracioso, seja qual for o conceito que nós possamos ter de beleza nestes quadrinhos bairristas, onde — e é o caso neste sítio — o pitoresco, o religioso, o fidalgo se dão mãos, para que Alfama se represente nos três Estados. 

O Palácio de Santo Estêvão, dos Azevedos Coutinhos é uma fundação seiscentista, de tipo nobre, modesto; envolto num pitoresco de cenário, único em Lisboa, e, a despeito da sua mediania arquitectónica, pode ser considerado um espécime curioso da cidade, como tal, merecedor de relevo nesta nota histórica.

Palácio Azevedo Coutinho [190-] 
Largo (Miradouro) Escadinhas de Santo Estêvão; Arco do Chanceler; Rua de Santo Estêvão
Ângulo do edifício sobre Santo Estêvão, distinguindo-se o terraço primitivo do andar nobre
com paredes ao fundo de azulejos historiados, de delicioso efeito tomado do Largo.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Ainda no século XVII uma grande parte dos terrenos que rodeiam a primitiva igreja de Santo Estêvão era do domínio directo do priorado ou da irmandade da paróquia. No local onde se levantou o solar existiam na primeira metade do seiscentos umas atafonas e depois umas casas — o núcleo primitivo do solar — «por trás da capela-mor sobre o Arco», casas que pertenciam a um Domingos Preto, descendente, talvez filho, de «Simão Gonçalves Preto, chanceler-mor que foi destes reinos», segundo atestava em 1695 o cura de Santo Estêvão, Padre Cristóvão Prestes da Silveira, num documento traslado que lhe foi requerido, e no qual há referência a casas no local em 1647, o que não significa que não as houvesse antes, pois um documento existente no arquivo da Câmara Municipal demonstra que, em 1688, aquelas casas passaram a um Tomé de Mesquita. De admitir é que tivesse sido o chanceler Simão Gonçalves Preto o fundador da casa, e duvida parece já não subsistir de que fosse dele que derivou a denominação do «Arco do Chanceler».

Palácio Azevedo Coutinho [1899]
Largo de Santo Estêvão; Rua de Santo Estêvão
A Fachada, de duas faces do corpo Sul do edifício contíguo
inferiormente ao principal, fazendo esquina para as escadinhas
e Rua de Santo Estêvão, caracterizado por um sólido cunhal de
cantarias sobrepostas, com algumas janelas (de sacada) e portas de habitações
pobres; sobre este corpo assenta um terraço, com cortina de grades seiscentistas.

Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

O palácio, propriamente dito, recebeu dano pelo Terramoto, pois se vê que uma parte do edifício é de reconstrução posterior ao núcleo primitivo, este representado pela frontaria, pelo ângulo do terraço e por parte da face sobre a estreita Rua de Santo Estêvão. Data, pois, de 1847 o senhorio dos Azevedos Coutinhos no solar e casas de Santo Estêvão. 
Entre 1847 e 1867, período durante o qual a propriedade foi administrada por João António de Azevedo Coutinho, este fez «Obras reais» na casa, acrescentando-lhe em parte dois andares modestos, conservando o semblante seiscentista da fachada amesquinhada na estreita serventia denominada ali Largo do Santo Estêvão, mas desfigurando as salas, pela cobertura com estuque dos tectos apainelados, e pela supressão de bons panos de azulejo que revestiam as paredes em silhares.
Em 1911 lavrou incêndio na ala Sul do palácio, sobre a Rua de Santo Estêvão; as obras de restauro não lograram repor o interior dessa ala no seu aspecto primitivo.


Palácio dos Azevedo Coutinho [1939]
Arco do Chanceler, vista tomada do Largo de
Santo Estêvão
Eduardo Portugal, in LdA


Palácio dos Azevedo Coutinho [195-]
Arco do Chanceler, vista tomada o Largo de
Santo Estêvão
Almeida Fernandes, in LdA



O Arco do Chanceler, sob o Palácio ao qual dá passadiço, é de volta abatida. À direita abre-se o portal do velho solar servido por um átrio interior, do qual a escadaria de dois lanços se desenvolve, amparado a um corrimão, em balaustrada de mármore branco, transpirando de tudo um ar discreto, repousado, setecentista, só igualado em espírito no palácio dos Condes dos Arcos. 

Palácio Azevedo Coutinho [c. 1900]
Escadinhas e Largo de Santo Estêvão; Rua de Santo Estêvão
O Palácio dos Azevedos Coutinhos, ocupa uma área contida entre a Rua de Santo
Estêvão, o Largo do mesmo nome (escadinhas de curiosa perspectiva), e assenta
em parte sobre o Arco do Chanceler.

José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 90-91, 1939.
id, Inventário de Lisboa, 1955.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Igreja de Santo Estêvão

A igreja de Santo Estêvão — considerada «monumento nacional» (27/8/1917) — é uma reedificação do segundo quartel do século XVIII. por sua vez objecto de largo restauro depois do Terramoto (1778). na frontaria e em parte do interior. Está situada numa elevação, na qual se construiu um vasto adro amparado a uma muralha.


A paróquia de Santo Estêvão, das mais antigas e representativas de Lisboa, remonta, por noticia de um documento, a 1188; existia seguramente o templo neste lugar em 1279, possivelmente mesmo na primeira metade do século, reinado de D. Afonso II. A primitiva igreja, certamente modesta, foi reedificada em 1316 e em 1548, por efeito dos danos causados por sismos nos século XIV e XVI, e teria então sido ampliada e revestida de grandeza, pois sabe-se que ostentou cinco naves — por ventura apenas divisões teóricas demarcadas por colunas de apoio, mas que representariam largueza na traça arquitectónica.

Igreja de Santo Estêvão, frontaria |c. 1900|
 Num terreiro sobre o Tejo, Santo Estêvão.
Panorâmica tirada do miradouro de Santa Luzia
José A. Bárcia, 
in Lisboa de Antigamente

Esta traça desapareceu completamente numa reedificação radical de 1788-1740, que deu ao templo outra planta, fazendo recuar a capela-mor sobre o troço da Rua, a Sul, ainda hoje incluído na Largo de Santo Estêvão. Além da reconstrução posterior ao Terramoto, concluída em 1775, a qual não lhe alterou a área nem a configuração, Santo Estêvão beneficiou de restauros de 1888 a 1848, e de reparos já no actual século [XX].



Igreja de Santo Estêvão, fachada |1898|
Largo de Santo Estêvão
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente


Igreja de Santo Estêvão, fachada |1939|
Largo de
Santo Estêvão
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente



Ora contempla a fachada, fria, mas expressiva — convida-nos Norberto de Araújo. Abre por três pórticos, dos quais o central, sobrepujado da data da reconstrução: 1773, é o mais largo e alto, todos coroados de áticas. O corpo central, onde se eleva um. frontão simples, com um óculo iluminante, avança um pouco da fachada, deixando assim os dois .curtos corpos extremos — sabre um dos quais, do lado nascente, assenta a torre — um pouco recuados. Três altos janelões e outras tantas janelas quadradas abrem-se no corpo central, e duas por lado nos corpos subsidiários.


Igreja de Santo Estêvão |1944|
 

A traseira da capela-mor, saliente do corpo do edifício, apoiada sobre grossa cachorrada, construída em 1733-1740, e na qual, ladeando a passagem do Largo de Santo Estêvão, ao alto das escadinhas, se vê um painel de azulejo com a representação da Eucaristia, legenda latina, tirada dos Salmos, e uma data, 1723.
J. C. Alvarez, 
in Lisboa de Antigamente


No Interior, a igreja é de forma octogonal, como as do Menino Deus, Santo Amaro, Penha de França, Santo Amaro). Assinala-se:
O Corpo da igreja, revestido de materiais nobres, cujas faces do octógono são divididas por pilastras caneladas, e nele:  
O tecto, pintado a claro-escuro, sobre estuque, simulando nervuras de artesão rematadas por fecho;  
O coro, apoiado em pilastras de quatro faces;
Seis capelas (três por cada lado) correspondendo a outras tantas faces do octógono (as outras duas faces correspondem ao sub-coro e ao arco da capela-mor.

Igreja de Santo Estêvão, interior |1963|
Na
Capela-mor destaca-se a coroação ou remate, sobre o trono, composição escultórica, em mármore alvíssimo, que representa um Cristo crucificado ladeado por dois serafins, obra de José de Almeida.
Armando Serôdio, 
in Lisboa de Antigamente

A Capela-mor, sector nobre do templo, toda de mármore, fazendo lembrar a da Igreja de S. Domingos, salvas as dimensões, e nela: a abóbada de aresta, em cujas faces se vêem os Evangelistas, e ao centro o símbolo da Eucaristia (factura posterior à dos Evangelistas, ou mal restaurada); o altar-mor, ostentoso, e, nele, o frontal e banqueta em embutidos florentinos; a guarnição, de duplas colunas salomónicas de mármore rosa da Arrábida, apoiadas em bases ricamente lavradas; a coroação ou remate, sobre o trono, composição escultórica, em mármore alvíssimo, que representa um Cristo crucificado ladeado por dois serafins, obra de arte pura de José de Almeida, com colaboração de Jerónimo da Costa, e que foi executada — parece — para o mosteiro de Mafra, onde chegou a estar colocada, e transferida depois para esta igreja; uma imagem de Santo Estêvão, escultura de Nicolau Pinto.

Igreja de Santo Estêvão |c. 1900|
 Cruzeiro de Santo Estêvão junto da igreja com o mesmo nome.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

No adro da igreja eleva-se um Cruzeiro, seiscentista (que deve ter substituído um muito mais antigo), com uma legenda no soco: «Este sinal de redenção, que um de voto aqui fez pôr, pede com devoção se louve o Redentor. Pelas Almas um Padre. Nosso e uma Avé-Maria. 1669». A cruz, ao alto, não é da época; partida a antiga há uns trinta anos foi depois substituída pela que alveja agora sobre a muralha.
 
Igreja de Santo Estêvão |1963|
 Cruzeiro de Santo Estêvão junto da igreja com o mesmo nome.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 85-87, 1939.
id., Inventário de Lisboa, 1955.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Antiga Rua das Tendas, à Mouraria

No prédio n.° 5 — observa Norberto de Araújo  — desta antiga Rua das Tendas, à altura do primeiro andar, existiu até 1927 um curioso nicho, antigo oratório, que a senhoria passou a patacos. Esta Rua das Tendas foi no século XV o sítio do primeiro mercado de louças e olarias que houve em Lisboa.

Nicho da Rua das Tendas [c. 1900]
Antigo troço da actual Rua Marquês Ponte de Lima (próximo à Igreja do Coleginho)
Nicho de Oratório na casa onde residiu o pai de Nicolau Tolentino em 1737
Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 67-68, 1938.

domingo, 27 de maio de 2018

Calçada da Bica Pequena e Rua da Bica de Duarte Belo

A designação «Bica do Belo» — recorda-nos Norberto de Araújo — já existia no meado do século XVI (em 1554, pelo menos), como um sítio, que podia até não ser regularmente urbanizado, e se localizava à beira rio.
Um certo Duarte Belo, pessoa de situação ao que se supõe, dispunha por aqui- — Boa Vista —, em local que se chamava Portas do Pó, de umas casas e de um chão, no qual existia uma bica, mais tarde desviada uns metros para o alinhamento da Rua da Boa Vista; é a Bica dos Olhos a que adente me referirei.

Calçada da Bica Pequena [1915]
Tem início Rua de São Paulo e termina Rua da Bica de Duarte Belo;
Travessa do Cabral.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

 Nos tempos antigos eram muito mais latas as referências toponímicas locais, fosse onde fosse. O certo que à vertente das encostas entre Santa Catarina e as Chagas se passou a chamar Rua da Bica do Duarte Belo, por extensão.

Calçada da Bica Pequena [1945]
Tem início Rua de São Paulo e termina Rua da Bica de Duarte Belo
 Rua dos Cordoeiros e Largo de Santo Antoninho (dir.); Ascensor da Bica.
Martinez Pozal, Lisboa de Antigamente

Êste sítio da Bica corresponde a um vale de encosta, um como que desfiladeiro, cavado mais acentuadamente, por efeito de um desmoronamento de terras das encostas laterais. Esse cataclismo, localizado ao sítio, sucedeu às 11 da noite de 22 de Julho de 1597; foram destruídas nada menos de 110 casas, em três ruas. Precisamente vinte e cinco anos depois repetiram-se os desabamentos, mas em menor escala.

Rua da Bica do Belo [1915]
Tem início na Travessa do Cabral e termina no Largo do Calhariz (ao cimo); 
Travessa da Portuguesa.
Joshua Benoliel, Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 67, 1939.
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