domingo, 18 de junho de 2017

Bairro das Janelas Verdes

Um momento caminharam em silêncio. Depois, na Rua das Janelas Verdes, o Alencar quis refrescar. Entraram numa pequena venda, onde a mancha amarela de um candeeiro de petróleo destacava numa penumbra de subterrâneo, alumiando o zinco húmido do balcão, garrafas nas prateleiras, e o vulto triste da patroa com um lenço amarrado nos queixos. (QUEIROZ,  Eça de, Os Maias, 1888)


Falar da Rua das Janelas Verdes é também falar da Lisboa Queirosiana — e da casa dos Maias: «A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete

Rua do Sacramento, a Alcântara Rua Presidente Arriaga [ant. 1901]
Quartel da Guarda Municipal de Lisboa depois Guarda Republicana: Carro do «Salazar»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Campos Matos, em Imagens do Portugal Queirosiano, Lisboa, 1876, livro de reconhecida importância sobre o tema, assinala: «Quanto ao Ramalhete, sabemos que fica às Janelas Verdes, cerca da Rua de S. Francisco de Paula [hoje Rua Presidente Arriaga], embora se atribua ao solar do conde de Sabugosa, em Santo Amaro, a sua fonte de inspiração».

Rua das Janelas Verdes [entre 1901 e 1908]
Cruzamento das ruas de São João da Mata e de Santos-O-Velho vendo-se o Palácio Murça.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Aqui quási defronte da Igreja de S. Francisco de Paula — relembra Norberto de Araújo — se ergue o conjunto de edifícios, onde estão desde 1919 instalados uma companhia da Guarda Republicana e o Comando do Batalhão. (...) Depois de 1834 — em que esta casa deixou de ser o Convento de S. João de Deus — instalaram-se nela o Quartel de Marinha, e mais tarde o Tribunal da Corte.

Visita do Rei Dom Manuel II, a guarda de honra formada na Rua das Janelas Verdes Rua Presidente Arriaga [1908]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 59, 1939.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Café Montanha

Ora aqui temos à vista esse Montanha — com um ar decente, pacato, de Café do termo do século XIX. É um resto tranqüilo do Montanha de que falavam os nossos avós, e que nem sempre foi discreto como ora é.
[...] com entradas pela Rua dos Sapateiros e da Assunção — tornado café Restaurante, hoje sonâmbulo —, sucedeu, com intervalo de trinta e sete anos (será isto «suceder»?) ao tal Café das Sete Portas, que datava do princípio de oitocentos e fechou em 1827. Em 1864 Manuel Nunez Ribeiro Montanha — abriu o Montanha, e acabou por comprar o prédio.1

Café Montanha [c. 1910]
Gaveto da Rua dos Sapateiros (Rua do Arco (do) Bandeira)
com a Rua da Assunção

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O tal Café das Sete Portas referido por Norberto de Araújo, ou Marrare das Sete Portas, datava dos primórdios do século XVIII, e era um dos quatro cafés que, então, o napolitano António Marrare (proprietário do afamado Marrare do Polimento, ao Chiado) fundou em Lisboa. Vigiado pela Policia nos primeiros anos da sua existência, conhecidas que eram as ideias francófilas dos seus fregueses, fora, mais tarde, centro preferido pelos partidários do vintismo. Nos meados do século, já na posse de Manuel António Peres, o Manuel Espanhol, o Marrare das Sete Portas era o primeiro café da Baixa.
Luís Augusto Palmeírim, outro memorialista da Lisboa romântica, nos Excêntricos do meu tempo, recorda-nos a sua existência como botequim de fama: «jogava-se o bilhar entre artistas, avultavam as apostas e tomavam o seu café, antes do teatro, o Epifânio e o Tasso. À noite ceiava-se a valer, e o Domingos, o gerente da casa, abria crédito aos janotas que lho pediam e que nunca mais pagavam».
Já centenário, o Marrare das Sete Portas veio até aos nossos dias, passando de proprietário em proprietário. Em 1868, quando da morte do Manuel Espanhol, o Diário de Noticias refere-se-lhe deste modo: «Forum e tribuna, escritório e praça de comércio, palco onde se representaram dramas sentimentais e comédias burlescas, o decano dos botequins da Baixa, sucessor das glórias do Nicola e de outros respeitáveis ascendentes».2
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Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 54, 1939.

2 ANDRADE, Ferreira de, Os Cafés Românticos de Lisboa.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Monumento a Luiz de Camões

Pela Carta de Lei de 10 Agosto de 1845 foi o governo autorizado a expropriar por utilidade publica o respectivo terreno, que estava compreendido entre o Largo das Duas Igrejas, Rua do Loreto, Travessa dos Gatos [que se foi com os Casebres do Loreto] e Rua da Horta Seca, e a entregá-lo à Câmara Municipal, para nele se formar uma grande praça, que se pensou aproveitar para a construção do futuro Teatro Nacional.

Por ocasião do 3º centenário de Camões (1880) resolveu-se colocar no Largo do Loreto a estátua do Épico, dando ao largo, devidamente disposto, nivelado e gradeado, o nome de Praça Luiz de Camões.


Pensando-se então em erguer uma estátua em honra do imortal autor de Os Lusíadas, para a qual se indicara o Passeio Público, foi decidido, pela respectiva Comissão, presidida pelo duque de Saldanha, solicitar, para o efeito, a nova praça em construção, e que à mesma fosse dado o nome do grande épico. Procedeu-se à colocação da primeira pedra, em 29 de Junho de 1862, com a presença de Sua Majestade. 

Monumento a Luiz de Camões [c. 1870]
Observe-se o gradeamento em volta do monumento e que tanta celeuma causou à época
Praça de Luís de Camões.
Francesco Rocchini, 
in Lisboa de Antigamente

Não cessavam os comentários, enquanto durou a construção da praça, como este que aqui damos:
«Parece que um mau fado persegue a Praça de Luís de Camões. Que gradaria que hoje ali começaram a colocar! Não se pode imaginar coisa de mais mau gosto. São uns grossos varões de ferro atravessados e com flores amarelas.
«Dir-se-ia que o gradeamento fora feito para uma jaula de animais ferozes, tão possante é.
«Na verdade, custa a crer como a Câmara não concebeu que aquele gradeamento é impróprio da praça. O desenho não é elegante; porém, se ao menos fosse de mais ligeira fábrica, se não tivesse tão grossos varões, poderia passar com menos reparo; como fizeram o tal gradeamento, era objecto das censuras de toda a gente e censuras justificadas, pois que ali fica um padrão do mau gosto no governo da cidade.»¹

Praça Luís de Camões  [c. 1900]
Assistência à passagem do cortejo das festas
de homenagem a Luís de Camões
Fotógrafo não identificado, in LdA
Monumento a Luiz de Camões [Início séc. XX]
 Estátuas em pedra lioz
Praça Luís de Camões
Fotógrafo não identificado, in LdA






















 
 
A inauguração da estátua, no meio de delirante entusiasmo, teve lugar em 9 de Outubro de 1867, muito antes da data em que se completou o tricentenário do passamento do cantor das nossas glórias². O custo da obra, paga ao escultor Vítor Bastos, foi de trinta e oito contos. A figura principal é de bronze, tem quatro metros de altura e está assente num pedestal octogonal de sete metros e quarenta e oito centímetros de altura, rodeado de oito estátuas em pedra lioz, de dois metros e quarenta, representando Fernão Lopes, Pedro Nunes, Gomes Eannes de Azurara, João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda, Vasco Mouzinho de Quevedo, Jerónimo Corte Real e Francisco Sá de Miranda.

 A Praça de Luís de Camões, na tarde da inauguração da estátua do Poeta [1867]
Na janela do centro do 1.° andar, do prédio do lado Oeste, que foi de Carvalho Monteiro
armou-se a tribuna real 
in Archivo Pitoresco. Vol. X, 1867

Em 10 de Junho de 1880, uma grande multidão, entusiasmada, formada em cortejo, desfilou perante o monumento, irmanando-se com a massa compacta de portugueses, que enchia os passeios do Chiado, na ânsia de vitoriar a memória do poeta.
Por ocasião do Ultimatum inglês (1890), quando o monumento foi coberto de crepes pelos estudantes universitários, ainda o rodeava o gradeamento que a crítica alfacinha não perdoou.

¹ Jornal do Comércio, de 30 de Setembro de 1862
² Nessa noite, por iniciativa do rei D. Luís, efectuou-se um «baile campestre» nos jardins do palácio de Belém (A Dança no Estrangeiro e em Portugal, de Eduardo de Noronha, pág. 333)
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Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, pp. 68-70, 1987.

domingo, 11 de junho de 2017

Instituto Nacional de Estatística

Construído em 1931, risco do arq.º Pardal Monteiro. Destaca-se o seu salão nobre decorado com dez frescos, da autoria do pintor Henrique Franco representando as quatro estações do ano e algumas actividades económicas tais como a Agricultura, a Pesca, os Têxteis e a Cerâmica e a escadaria principal com vitral de grandes dimensões, em posição horizontal, executado em 1933 no atelier de Ricardo Leone, sob cartão do pintor Abel Manta, Encontram-se ainda, na parte superior da fachada principal do edifício, dois baixos-relevos de Leopoldo de Almeida, representando um a Agricultura e a Demografia e, outro o Comércio e a Indústria.

Edifício-sede do Instituto Nacional de Estatística [1934]
Avenida de António José de Almeida; Avenida do México (esq.); Praça de Londres
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O imóvel continua a manter a sua primitiva função — sede do Instituto Nacional de Estatística. São atribuições do INE a notação, apuramento, coordenação e difusão de dados estatísticos de interesse geral e comum. O edifício-sede do Instituto Nacional de Estatística (incluindo muros e logradouro) está Em Vias de Classificação.

Edifício-sede do Instituto Nacional de Estatística [post. 1935]
Avenida de António José de Almeida; Avenida do México (esq.)
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

O topónimo desta artéria, atribuído  pelo Edital de 18 de Julho de 1933 da C.M.L, homenageia António José de Almeida. Na Praça onde convergem a Av. Miguel Bombarda e a Av. António José de Almeida foi edificado o monumento ao antigo Presidente da República, segundo projecto do arq. Pardal Monteiro e esculpido por Leopoldo de Almeida, inaugurado a 31 de Dezembro de 1937, por iniciativa do Governo. De composição simples, é constituído pela figura do médico, escritor, jornalista e político, António José de Almeida, de pé, esculpida em bronze, sobressaindo do monumento a figura da República, esculpida em pedra. É junto dele que no dia 5 de Outubro se costuma prestar homenagem aos heróis da implantação da República. A face principal do monumento apresenta a seguinte legenda: "António José de Almeida, ardente tribuno, patriota perfeito, cidadão exemplar - Presidente da República 19919-1923. - 17-7-1866. - 31-10-1929"
Por sua vez, a face posterior do mesmo exibe legendas com frases históricas do Dr. António José de Almeida, como propagandista republicano (1906), como Ministro do Interior do Governo Provisório (1910) e como Presidente da República (1921)

Monumento a António José de Almeida [post. 1934]
Avenida de António José de Almeida; Avenida do México (esq.)

Em último plano o Instituto Superior Técnico
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

sábado, 10 de junho de 2017

Avenida da Ribeira das Naus

A historia da Ribeira das Naus — diz mestre Castilho — se alguém a pudesse escrever completa, seria um dos capítulos mais interessantes da nossa crónica nacional, com as apreciações do computo das despesas feitas, o desenho da fisionomia da arte náutica ao longo dos sucessivos reinados, a crónica fidedigna da valente Marinha militar portuguesa, a nomenclatura dos navios ali construídos, e a biografia dos nossos habilissimos mestres. [Castilho, 1893]


Lisboa estende-se ao longo do Rio Tejo, concentrando as múltiplas actividades ligadas à navegação, à pesca, ao comércio das mais diversas mercadorias.
A zona, designada de Ribeira das Naus, organizava-se, ontem como hoje, em torno do Cais do Sodré, e incluía também os estaleiros de uma importante construção naval que marcou durante vários séculos a economia portuguesa.

Vista aérea da Avenida da Ribeira  das Naus (poente) [1952]
Praça do Comércio; Cais do Sodré; Avenida 24 de Julho; em baixo à direita, a Estação Fluvial Sul e Sueste.
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

Conquanto já desde longo tempo houvesse nesta zona marinha da cidade uma fama construtiva de embarcações, foi só no reinado de D. Manuel, por 1501, que essa actividade.de se acentuou, e começou-se a chamar ao local Ribeira das Naus, correspondendo cm situação e em funções ao actual Arsenal da Marinha, como passou a denominar-se desde 1774. O Decreto n.º 29.595, de 13 de Maio de 1939, extinguiu a Direcção das Construções Navais, e com ela o Arsenal da Marinha, que se encerrou nessa data.

Doca da Ribeira  das Naus (actual Praça Europa) [c. 1918]
Lançamento à água da navio "Mandovi", construído no Arsenal da Marinha, navegou como canhoneira da Classe Beira desde 1918 a 1056.
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

Seguida, mas vagarosamente, começaram a ser demolidos os barracões das instalações fabris e a terraplanou-se o terreno para a construção duma avenida marginal entre a Praça do Duque da Terceira e o canto sudoeste da Praça do Comércio, ao sul do torreão do Ministério da Guerra.

(Avenida) Ribeira  das Naus [c. 1939]
À direita e ao fundo vêem-se os edifícios fabris do Arsenal da Marinha antes das demolições
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

A avenida marginal referida, que foi construída com carácter provisório, recebeu o nome de Avenida da Ribeira das Naus1, e foi aberta ao público em 9 de Agosto de 1948.
A sua largura é de 12m na faixa de rodagem, calçada com paralelepípedos de granito e alcatroada, e de 1,5m nos passeios laterais.
Tem, da banda do rio, uma cortina de alvenaria com capeamento de betão, e a cortina de vedação do lado do recinto do Arsenal está feita provisoriamente com um muro de tijolo com pilastras divisórias e de reforço.

Avenida Ribeira  das Naus [195-]
À esquerda o local do antigo Arsenal da Marinha que se  vêem na foto acima; à direita o Largo do Corpo Santo; ao fundo o Cais do Sodré
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Para memória de que havia sido aí o local onde se construíram quase todas as caravelas, naus e outros barcos de guerra desde o século XVI até aos meados do XX [2] , e que por todos os mares do mundo tornaram conhecido e afamado o nome de a Câmara Municipal de Lisboa mandou afixar no topo da ala da Sala do Risco, uma nau esculpida em pedra, do brasão de armas da cidade, e por baixo dela a seguinte inscrição:
NESTE LOCAL | CONSTRUIRAM-SE AS NAUS | QUE DESCOBRIRAM NOVAS | TERRAS E NOVOS MARES E | LEVARAM A TODO O MUNDO | O NOME DE PORTUGAL | MANDADA COLOCAR PELA C. M. L. NO ANO DE 1948.

[1] Edital de 22 de Junho de 1948, e Diário Municipal de 25 do mesmo mês. 
[2] As últimas naus portuguesas construidas na Ribeira das Naus, foram, nos  meados do século XIX, a D. João VI e a Cidade de Lisboa (1841) que depois se crismou em Vasco da Cama (Anais das Bibliotecas, Arquivo, etc., n.º 12, 19Sl, pág. 28); o último barco de guerra construido no Arsenal da Marinha foi o aviso de 2.ª classe João de Lisboa, lançado à água em 21 de Maio de 1936. 
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Bibliografia
(CASTILHO, Júlio de) A Ribeira de Lisboa, p. 461, 1893)
(VIEIRA DA SILVA, Augusto, Dispersos vol. I, pp. 389-391, 1968, Biblioteca de Estudos Olisiponenses)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Governo Civil de Lisboa, antigo Convento de São Francisco da Cidade

O Convento de São Francisco da Cidade de Lisboa foi fundado em 1217 e tem sido ocupado pela Escola Superior de Belas Artes, Academia Nacional de Belas Artes, Governo Civil de Lisboa, Polícia de Segurança Pública e Museu Nacional de Arte Contemporânea, este imóvel foi igualmente ocupado pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, onde se encontra sediada até ao presente momento. Está classificado como Imóvel de Interesse Público.


Aqui temos na Rua Capelo — relembra-nos Norberto de Araújo — o Governo Civil de Lisboa [1835-2011]. Era o edifício dependência do Convento de S. Francisco, o qual, a-pesar-das alienações feitas a favor da Casa de Bragança, dispunha ainda em 1834 de enorme área.

Governo Civil de Lisboa, portal [s.d. prov. séc XIX]
Rua Capelo, 13 (antiga Travessa da Parreirinha); actualmente ocupado pelo Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado e Faculdade de Belas Artes
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Governo Civil de Lisboa, pátio interior, calabouços [s.d. prov. séc XIX]
Rua Capelo (antiga Travessa da Parreirinha); actualmente ocupado pelo Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado e Faculdade de Belas Artes
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O aspecto conventual desta parte do edifício onde, poucos anos depois da extinção das ordens, se instalaram alguns serviços da polícia, e mais tarde o Governo Civil, ainda se pode notar nos pátios e nalguns pormenores dos corredores baixos.
As obras de melhoramentos parciais nas antigas dependências franciscanas têm sido muitas. Pode dizer-se que em cada década se realizam transformações, mas sem que o edifício deixe de constituir uma pobre adaptação.

Rua Capelo [1926]
Antiga Travessa da Parreirinha; Governo Civil de Lisboa, actualmente ocupado pelo Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado e Faculdade de Belas Artes
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente
Governo Civil de Lisboa [c. 1910]
Rua Capelo, 13 (antiga Travessa da Parreirinha); actualmente ocupado pelo Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado e Faculdade de Belas Artes
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A escadaria principal data de 1907; o seu aspecto actual, com azulejos decorativos de Alves de Sá, é de 1932. Os panos de azulejo do átrio mostram nos vãos laterais junto ao rompimento das escadas, o «Tejo» e o «Douro»; nas paredes altas da escada vêem-se alegorias à Paz, à Caridade, e à Justiça, e, no topo, do primeiro lanço, com frente à rua, o escudo nacional sobre um oval com a Nau do escudo de Lisboa.
O que dá ao edifício, nos seus baixos, ainda um aspecto de «antro» são os calabouços que vão desaparecer em breve, segundo se anuncia.

Crianças vadias presas nos calabouços do Governo Civil de Lisboa [190-]
Rua Capelo (antiga Travessa da Parreirinha)
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): O topónimo Rua Capelo foi-lhe dado pelo edital de 7 de Setembro de 1885, em conformidade com o que fora resolvido na sessão da Câmara de 3 do mesmo mês. Essa resolução constituía um dos pontos do programa estabelecido pela Vereação, para festejar a chegada a Lisboa dos exploradores Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens que daí a dias, a 16, haviam de desembarcar.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 16, 1939.
cm-lisboa.pt.

domingo, 4 de junho de 2017

Palácio dos Teles de Melo

O antigo Palácio dos Teles de Melo — recorda Norberto de Araújo — é um casarão interiormente incaracterístico, mas apresenta na sua linha quebrada de quatro faces, da Rua dos Remédios à Calçada do Cascão, uma aparência nobre embora adulterada, que explica a sua inclusão no «Inventário de Lisboa», justificada ainda pelo passado histórico.


Construído em 1701, o Palácio dos Teles de Melo foi a habitação urbana de uma família pertencente à alta nobreza, à data secretários de guerra dos reis D. João V e D. José I: os Teles de Melo [Secretários da Guerra].
Na sequência do terramoto que abalou Lisboa em 1755 sofreu várias modificações, nomeadamente a abertura de uma porta de serviço na Calçada do Cascão e o acesso à capela pelo portal nobre. Mais tarde, em 1868, o palácio é convertido em prédio de rendimento através de remodelações sucessivas no seu interior.

Palácio Teles de Melo [1944]
Rua dos Remédios, 191-203; Calçada do Cascão, 1-23
Eduardo Portugal,in Lisboa de Antigamente

A vida desta casa nobre de Alfama é acompanhada — a partir do momento em que é transformada em propriedade horizontal — por uma constante diversificação social dos seus ocupantes.
O Palácio Teles de Melo tem quatro fachadas, duas delas que acompanham e definem o limite oriental da Rua dos Remédios e o recorte do troço inicial da Calçada do Cascão.
Destaca-se em Alfama pelas suas dimensões e pela disposição fora do comum das suas quatro fachadas.

Palácio Teles de Melo [c. 1900]
Rua dos Remédios, 191-203; Calçada do Cascão, 1-23
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente



Palácio dos Teles de Melo [c. 1952]
Fachada virada a Rua dos Remédios, 191-203
Vasco Figueiredo, in Lisboa de Antigamente


Palácio dos Teles de Melo [1942]
Fachada virada à Rua do Cascão, 1-23
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente



O Palácio dos Teles de Melo — prossegue o olisipógrafo — , foi, quando da sua construção (1701), encavalgado, parte no exterior e parte no interior, no muro da Cerca Fernandina. Na parede da Calcada do Cascão, que faz esquina para a Rua dos Remédios [foto abaixo], está encastrada uma inscrição latina, de onze linhas, em mármore rosa com emolduração, que desde 1656 decorava as Portas ou Porta da Cruz da citada Cerca de D. Fernando, situadas no começo da Rua dos Remédios, e demolidas em 1755. A tradução da inscrição é a seguinte:
"Memória consagrada à Eternidade. A Imaculadíssima Conceição de Maria, João IV Rei de Portugal, de acordo com as cortes gerais, publicamente devotou a sua pessoa e os seus reinos por tributarios de um censo annual; e com juramento se confirmou — a si próprio para todo o sempre como defensor da Mãe de Deus, eleita padroeira do Reino, e imune do pecado original. Para que tão piedoso sentimento português se perpetuasse, mandou exarar esta memória perene em viva pedra no ano de Cristo de 1646, sexto do reinado do mesmo senhor".

Palácio dos Teles de Melo [c. 1952]
Lápide comemorativa da eleição da Virgem Maria Padroeira do reino nas Portas da Cruz
Ferreira da Cunha, 
Fachada virada a Rua dos Remédios, 191-203
Vasco Figueiredo, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, Fasc. VII, p. 184, C.M.L., 1950.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Livrarias de Antanho: Praça dos Restauradores e Praça Dom João da Câmara

Quero apenas dizer-terefere Norberto de Araújoque a Livraria Clássica Editora, hoje dos filhos de António Maria Teixeira, seu fundador, data neste sítio de 1903 [1ª foto], ano em que o velho Teixeira deixou a Livraria [Editora] de Avelino Tavares Cardoso (de quem era genro) no então Largo de Camões [hoje Praça Dom João da Câmara, 2ª 3ª foto], onde hoje está o Café La Gare.

Praça dos Restauradores, 20 [c. 1910]
Livraria Clássica Editora

 Joshua Benoliiel, in Lisboa de Antigamente

Na esquina das casas Cadaval, que dava para o Largo de Camões, hoje D. João da Camara, e Rua Primeiro de Dezembro, então Rua do Príncipe, montou-se, em 1846, o Café Barão que, em 1856, era o Café Moreira, em 1860 o Botequim do Hespanhol, em 1868 o Café Europa, e em 1872 desapareceu para dar lugar á Livraria Mattos Moreira, em 1873, e depois á livraria de Tavares Cardoso. É, desde 1922, o Café La Gare que não tem tradições. O La Gare é frequentado pelo que escorre dos outros e comem-se lá muito bons bifes. Agora é lá o Café Beira Gare.

Praça Dom João da Câmara com a Rua 1º de Dezembro [Início séc. XX]
Livraria Editora, actualmente «Café Beira Gare»
Alberto Carlos Lima,
in Lisboa de Antigamente
Praça Dom João da Câmara com a Rua 1º de Dezembro [Início séc. XX]
Livraria Editora, actualmente «Café Beira Gare»
Alberto Carlos Lima,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p.18, 1939.

FREIRE, João Paulo- Lisboa do meu tempo e do passado. Do Rocio à Rotunda, 1931-1932.
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