domingo, 19 de março de 2017

Monumento a Dom Pedro IV

E lá está em cima, a 18 metros 27,5 metros de altura, no bronze «eterno», D. Pedro IV, em general, cobertos os ombros pelo «régio manto», cabeça coroada de louros.

Inaugurou-se em 13 de Abril de 1870, dia em que se comemorava o 44.° aniversário da outorga da Carta Constitucional. Ao Rossio foi dado o nome de Praça de D. Pedro, que não entrou em uso, pois sempre se adoptou a primeira designação.


Ergueram-se três pavilhões [3ª foto], destinados a família real, ao corpo diplomático, ministério e representação nacional e camarária e para a Corte. Eram todos forrados de pano azul e branco. Em plano levantado em anfiteatro colocaram-se algumas cadeiras. Flutuavam bandeiras. As tropas, comandadas pelo visconde de S. Tiago e brigadeiros Talaia e Rego, formavam nas ruas; a artilharia estava do lado do Amparo para o Rossio. As bandas regimentais tocaram o hino de D. Pedro IV. Cidadãos condecorados com a medalha da Liberdade ocupavam um recinto reservado. Os veteranos, que ostentavam a mesma honraria, formavam com as suas unidades. O soldado António José da Silva, que o imperador abraçara pouco antes do seu passamento, também ali estava e Saldanha quase que era aclamado. Era o herói a quem se devera, em grande parte, o triunfo da Causa Liberal.

Monumento a Dom Pedro IV [1869-70]
Construção do Monumento a Dom Pedro IV; Praça Dom Pedro IV (Rossio); Teatro D. Maria
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

Pelas quatro da tarde, a família real tomou lugar no pavilhão. D. Luís vestia o uniforme de Caçadores 5 e a rainha D. Maria Pia, de azul claro e rendas brancas. O rei D. Fernando e o infante D. Augusto aguardavam-nos com a nobreza. O marquês Sá da Bandeira apresentou a el-rei os vogais da Comissão, o escultor Robert e o canteiro Germano Sales, que tratara da parte arquitectónica. O rei dirigiu-se para o monumento com seu pai e irmão, ministros, dignitários, e pôs-se a descoberto a obra que assinalava a glória do «Rei Soldado». Subiram girãndolas de foguetes, salvaram as fortalezas e navios de guerra. As bandas marciais tocaram o hino da Carta e assinou-se o auto, sendo oferecida ao rei a medalha comemorativa da cerimónia. Firmaram o documento alguns companheiros do imperador e outras pessoas pelos deveres do seu cargo. Depois do rei, da família real e do ministério, os nomes históricos da Causa Liberal dispersavam-se no documento, mas eram como luzes, aqui e ali, entre os quase anónimos. Brilhavam os nomes de Saldanha, Joaquim António de Aguiar, conde de Campanha, marqueses da Bemposta e Subserra, de Sá da Bandeira, da Fronteira e Ficalho e conde de Mafra, D. António José de Melo. Fontes Pereira de Melo figurava ao lado do marquês de Resende, o camarista e amigo de D. Pedro IV. Mais abaixo irmanava outro camarista, o visconde de Almeida. O povo aclamava muitos daqueles homens a quem devia a Liberdade. A noite iluminara-se o Rossio e as fachadas de todas as casas, ao que diziam os jornais. (...)

Construção do Monumento a Dom Pedro IV [1869-70]
Perspectiva tirada da Calçada do Carmo para a Praça Dom Pedro IV (Rossio)
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

O monumento, nada famoso — observa Norberto de Araújo — , concepção dos franceses Elias Robert, escultor, e Jean Davioud, arquitecto, que venceram o concurso aberto, e no qual foram apresentados 87 projectos vindos de todos os pontos da Europa! A construção é de Germano José Sales.
O pedestal é de mármore de Montes Claros, e a coluna coríntia, canelada, foi arrancada de Pero Pinheiro; a base é de granito dos arredores do Pôrto. Essas figuras nos ângulos da base do pedestal representam a Justiça, a Prudência, a Moderação e a Fortaleza; quatro figuras, em baixo relevo, adornam a parte superior do fuste. O segundo envasamento é ornamentado com os escudos de dezasseis cidades do país.==

Inauguração do Monumento a Dom Pedro IV [1870]
A peça concebida para o antigo «Rocio» determina, à data, uma nova denominação toponímica, doravante Praça Dom Pedro IV.
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 67-68, 1939.
MARTINS, Rocha, Lisboa – História das Suas Glórias e Catástrofes, pp. 852-854, 1948.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Avenida Álvares Cabral

«Considerando que foi por esta Camara deliberado construir o mais rapidamente possível a Avenida que vae ligar directamente o Largo do Rato com o da Estrella e que essa Avenida terá a denominação de Pedro Alvares Cabral; Considerando que com essa construcção o Largo do Rato será transformado n'uma das mais  bellas praças de Lisboa.»


Apesar desta decisão da vereação camarária, tomada em 1910, a abertura da actual Avenida Álvares Cabral só se viria a concretizar por volta de 1930. Até esta data, o acesso à Estrela — para aqueles que vinham do Largo do Rato — fazia-se pela Rua de Dom Dinis e pela Travessa das Terras de Santana e Rua de Santa Isabel, desembocando na alameda fronteira ao Liceu Pedro Nunes e à Escola João de Deus.

Avenida Álvares Cabral [1939]
Ao fundo, o Liceu Pedro Nunes (1906) e a Praça da Estrela; à direita, a Rua de Santa Isabel

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Desviemo-nos agora — sugere Norberto de Araújo —, pela Travessa de Santa Quitéria, cortada há uma dezena de anos [c. 1929/30] no seu troço central para abertura da Avenida Álvares Cabral, até esta nova e desafogada artéria, rasgada em terrenos adquiridos pelo Estado (para o Liceu [Pedro Nunes]) em 1906 e depois em parte cedidos à Câmara Municipal.

Avenida Álvares Cabral [195-]
Junto ao Jarim Cinema

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Avenida Álvares Cabral [195-]
À direita, a Travessa de Santa Quitéria; ao fundo, o Largo Rato

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
TORRES, João Romano, A Revolução Portuguesa, 1911.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p, 65, 1939.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Palácio Marim Olhão

O Palácio Olhão, foi solar nobre dos Condes de Castro Marim e dos Marqueses de Olhão (século XVIII). Em 1799 ali se instalou o Correio Geral do reino [ou Correio Velho], voltando depois aos antigos donos já neste século. Ocupa todo um quarteirão entre a Travessa das Mercês e a Rua do Século.
É uma grande construção à escala não nacional, dos fins do século XVIII e simultaneamente sintetiza uma influência italiana e uma influência francesa. Qualquer das três fachadas existentes, Calçada do Combro, Rua do Século, e a que dá para um jardim na Travessa das Mercês, incompleta hoje e parcialmente destruída, testemunham um sentido arquitectónico invulgar.


Vejamos agora, Dilecto, o último dos edifícios palacianos que ficam na nossa passagem pelo Calhariz: é este grande casarão à direita, já no começo da Calçada do Combro, o mais miserável de todos, mas também o mais fiel do bairro.

Palácio Marim Olhão ou do Correio Velho [1919]
Calçada do Combro, 38; Rua de O Século, 2-2E; Travessa das Mercês, 19-31
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

 

Este decrépito Palácio, hoje [1938] pouco mais do que um pardieiro imundo, é ainda rico de documentação arquitectónica.
Solar nobre dos Condes de Castro Marim e dos Marqueses de Olhão — um dos quais foi monteiro-mor da Côrte — aqui se instalou o Correio Geral, quando estes serviços públicos passaram para o Estado, vindos do sítio da Boa Morte para onde haviam transitado (1799) do tradicional edifício do «Correio Velho» às Pedras Negras.
Foi depois proprietário da casa, já no começo do século actual, D. José da Cunha, descendente dos primeiros titulares.
Aqui estiveram instaladas uma Conservatória do Registo Civil, no começo da República, e, depois, a Confederação Geral do Trabalho, o jornal «A Batalha» [vd. na 1ª imagem], as «Juventudes Monárquicas» e, em velhos tempos, com entrada pela Travessa das Mercês, a famosa «Revolução de Setembro», do grande jornalista Rodrigues Sampaio, além de outros jornais, em épocas mais recentes. (Este jornal, com várias índoles e direcções, e em diferentes locais, existiu de 22 de Junho de 1840 a 23 de Março de 1892; cinquenta e um anos de vida jornalística não é vulgar, e por isso apomos aqui esta nota).
O casarão palaciano é hoje [1938] moradia de famílias pobres, e aqui tem sua sede um sindicato da Companhia Carris.

Palácio Marim Olhão ou do Correio Velho [1919]
Calçada do Combro, 38; Rua de O Século, 2-2E; Travessa das Mercês, 19-31
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Sigamos a sugestão de Norberto de Araújo e «entremos uns momentos»:  
O grande átrio é nobre, de um nobre arruinado como depois de um abalo de terra. Adivinham-se as arcadas entaipadas mas bem desenhadas na volta inteira. E contempla este arco do portal de entrada [vd. 3ª foto], largo, vistoso, assente sobre duas belas colunas de maneira italiana. [...]
As duas fachadas, em ângulo do edifício, que olham para este pátio interior, e correspondentes aos corpos da Rua do Século e da Calçada do Combro [vd. 2ª foto] — são nobilíssimas, como as da frente principal; nelas se rasgam janelas e varandas, de soberbos pormenores de arquitectura. Mas tudo isto parece seguro por arames, e faz pena ver. [...]
Eu já te disse, Dilecto: acabam assim os palácios, ao mesmo tempo que, pela força do destino e pela natural evolução das sociedades, se extinguem os títulos de nobreza, que não a fidalguia, pois esta, apesar da dissolução de costumes, ainda logra manter-se em muitas famílias e em indivíduos, já pelo aprumo, já pelo carácter.

Palácio Marim Olhão ou do Correio Velho, átrio da escadaria [c. 1952]
Calçada do Combro, 38; Rua de O Século, 2-2E; Travessa das Mercês, 19-31
Salvador de Almeida Fernandes,  in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, vol. V, p. 63, 1973.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 27-28, 1938.

domingo, 12 de março de 2017

Palácio (arco) do Marquês de Alegrete

O Palácio do 1º Marquês de Alegrete, que o mandou construir em 1694, e ali existiu até 1946 junto à porta de São Vicente da Mouraria. Arruinado pelo terramoto de 1755, deixou de ser habitado pelos seus proprietários e foi alugado a modestos inquilinos que ali fizeram estabelecimentos comerciais e industriais.
Tinha o palácio três frentes, duas para locais já desaparecidos: o Largo Silva e Albuquerque e a Rua Martim Moniz, e a terceira para a Rua da Mouraria. Em 1946 foi demolido para dar lugar à actual Praça Martim Moniz.


O velho Palácio do Alegrete que teve certa aura na Lisboa de setecentos — relembra o olisipógrafo Norberto de Araújo —, é hoje [1938] uma ruína, pouco mais que um pardieiro, condenado à demolição, mas onde estão instalados ainda estabelecimentos de vária natureza e casas de habitação.

Palácio (arco) do Marquês de Alegrete  |ant. 1946]|
Rua da Mouraria e Rua Martim Moniz (à dir.); ao  fundo a Calçada do Jogo da Pela.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente
Palácio (arco) do Marquês de Alegrete, portal brasonado |1907|
Rua da Mouraria
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Tem a forma de um rectângulo contido entre a Rua da Mouraria [1ª foto] (junto ao Arco, onde avulta ainda o portal brasonado dos Sylvas, entrada hoje [1938] de uma serralharia), a Rua Martim Moniz (onde existe um portal do antigo tipo arquitectónico), a Rua da Palma, agora em muro raso (desde que em 1935 foi demolido o prédio da Ourivesaria Cunha, que se encostava a este topo do palácio) e o Largo de Silva e Albuquerque [3ª foto], antiga Rua dos Canos (onde na fachada se rasgam dois portais também do tipo dos antecedentes). 
O Arco, sobre o qual assentam dois andares, cada um com sua janela, pertence ao prédio da Rua do Arco do Marquez do Alegrete, que se lhe encosta, e que é propriedade também da família dos Condes de Tarouca [Teles da Sylva].

Palácio do Marquês de Alegrete  |1946|
Largo Silva e Albuquerque com a Rua da Palma em fundo.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Palácio do Marquês de Alegrete |194.|
Rua Martim Moniz (à esq,); Praça Martim Moniz (antes das demolições)
Filmarte, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 78, 1938.

sexta-feira, 10 de março de 2017

As Galerias Romanas da Rua da Prata

Em plena Baixa lisboeta há uma cidade invisível, quase secreta, mesmo por baixo dos nossos pés, que remonta à época romana e da qual pouca ou nenhuma noção temos. Esta Cidade dentro da cidade é um património arquitectónico que resistiu ao passar dos milénios, e por essa razão, é protegido.


Esta estrutura romana, descoberta no subsolo da Baixa de Lisboa, em 1771, na sequência do Terramoto de 1755 e posterior reconstrução da cidade, tem sido objecto, ao longo do tempo, de múltiplas interpretações quanto à sua função original. Actualmente, teses quase unânimes avançam a possibilidade destas galerias romanas terem sido um criptopórtico, solução arquitectónica que criava, em zona de declive e pouca estabilidade geológica, uma plataforma horizontal de suporte à construção de edifícios de grande dimensão, normalmente públicos, como é o caso do Fórum da cidade, que teria sido suportado por este criptopórtico.

Rua da Prata |c. 1910|
O quarteirão na Rua da Prata, entre as Ruas de S. Julião e da Conceição que fica acima das galerias romanas.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A descoberta de uma inscrição consecratória a Esculápio, Deus da Medicina, em nome de dois sacerdotes do culto imperial e no do Município de Olisipo, gravada numa das faces de um bloco paralelepipédico de calcário e datada do séc. I a.C., actualmente no Museu Nacional de Arqueologia, poderá ser uma confirmação do carácter público deste edifício. No início do séc. XX, estas galerias ficaram conhecidas como as Conservas de Água da Rua da Prata¿ por serem utilizadas pela população como cisterna.

Rua da Prata |1909|
Bomba a vapor dos Bombeiros Municipais esgotando a água das galerias romanas.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

As suas características construtivas, tipologia e materiais associados remetem-nos para uma construção datada entre o séc. I a.C. e o séc. I d.C., contemporânea de outros edifícios públicos da cidade romana de Olisipo. Abertas ao público com regularidade a partir da década de 80 do séc. XX, são visitáveis, hoje em dia, apenas uma vez por ano, devido à acumulação de água no interior das galerias. A bombagem dessa água com maior frequência, para além de constituir um processo moroso, poderia colocar em risco a conservação do edifício assente sobre esta estrutura romana, assim como a daqueles que lhes estão anexos. O acesso ao interior é feito através de um alçapão localizado na Rua da Conceição. Este monumento integra a classificação do Conjunto Baixa Pombalina (Imóvel de Interesse Público) e, mais recentemente, do Conjunto Lisboa Pombalina (Em Vias de Classificação para Monumento Nacional). [cm-lisboa.pt]

Rua da Prata |1909|
O fotógrafo Joshua Benoliel (autor das imagens acima) falando com o chefe dos bombeiros Carvalho, à volta das galerias romanas.
J. Canella, Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 8 de março de 2017

Profissões de antanho: o azeiteiro

– Aazêêite dôôôce! Óh-pritróliine!

– Azêite dôôc´i bom vináágre!


Grande parte dos produtos de consumo normal continuavam nas mãos dos vendedores ambulantes que os iam apregoando pelas ruas ou ofereciam-nos de porta em porta. Constituíam os vendilhões, com os seus trajes próprios, os seus pregões, e até a variedade dos seus produtos, uma das notas mais castiças e mais vivas do folclore lisboeta. Eram numerosos, cruzando as ruas em todas as direcções, parando nas praças, de giga à cabeça ou trazendo um burro pela arreata, sucedendo-se uns aos outros durante o dia, em cumprimento dos horários mais favoráveis à venda dos produtos de cada um, ou reaparecendo com as estações do ano.

Mouraria [Início séc. XX]
Vendedor ambulante de azeite
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Rua da Imprensa Nacional [entre 1903-1908]
(Antiga Travessa do Pombal; ao fundo o Instituto Politécnico)
Vendedor ambulante de azeite

Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Obs: o local não se encontra identificado pelo fotógrafo

O Azeiteiro que também vendia vinagre e petroline, com o fato cheio de manchas de óleo, transportava as grandes almotolias de folha, às duas e três, suspensas dos braços, e outras às costas. Se tinha carroça, podia trazer um maior número de unidades. Era um tipo geralmente pacato, sério no seu negócio que reclamava com um pregão banal:

– Aazêêite dôôôce! Óh-pritróliine!
– Azêite dôôc´i bom vináágre!

Rua da Prata com a Rua de Santa Justa [entre 1903-1908] 
Vendedor ambulante de azeite
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Obs: o local não se encontra identificado pelo fotógrafo
Campo de Santa Clara [Início séc. XX]
Vendedor ambulante de azeite na Feira da Ladra,
Campo de Santa Clara.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
(O povo de Lisboa: tipos, ambiente, modos de vida, mercados e feiras, divertimentos, CML, 1978)

domingo, 5 de março de 2017

Quiosque do Jardim de S. Pedro de Alcântara

Se quisermos compreender facilmente o seu nascimento, teremos de analisar primeiro a proveniência do termo quiosque. Originado do francês kiosque, derivou por sua vez do turco kiouchk, que quer significar "nádegas", talvez pela posição que as pessoas adquirem em redor dele. É provalvelmente por isso que, em gíria, quando pretendemos que alguém se afaste de nós, ainda ouvimos dizer: "chega-me para lá esse quiosque!”.

As causas reais que levaram à demolição de muitos dos Quiosques que existiram em Lisboa são praticamente desconhecidas. Ou porque o seu estado de degradação a isso obrigasse sem que, no entanto, "merecessem" restauração, ou porque a modificação do traçado das ruas e avenidas e os melhoramentos dos passeios o tornasse imprescindível, o certo é que eles lá foram desaparecendo. E foram 45.
 
Quiosque do Jardim de S. Pedro de Alcântara [1908]
Terá sido inaugurado em 1908 e demolido por volta de 1939; situava-se em frente ao Convento de S. Pedro de Alcântara.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Estrutura 
Base de alvenaria, de secção hexagonal. Balcão de pedra, com corpo de madeira e com janelas de todos os lados. Cúpula hexagonal aos gomos, com toldo muito largo suportado por ferros, para esplanada, de bordos muito trabalhados e mísulas de ferro artisticamente decoradas.
 
Particularidades 
Particular. Muito concorrido. Por cima de uma das janelas pode ler-se: «Pavillon Royal».
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Bibliografia
CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os quiosques de Lisboa, , p. 41, 1987.

sábado, 4 de março de 2017

Convento dos Arrábidos (ou de S. Pedro de Alcântara)

Nestes limites e extremos do Bairro Alto, raros documentos citadinos oferecem um interesse tão simpático como este Recolhimento das Órfãs, dependente da Misericórdia de Lisboa, aqui na curva e esquina da Rua Luísa Todi, antiga Travessa da Estela; é mesmo uma das mais antigas instituições de assistência moral e educativa da velha Santa Casa.

O pequeno edifício, aliás gracioso, foi o do antigo Convento de S. Pedro de Alcântara, que deu nome ao local. Aí estás a ver a Casa, com seu portal agradável, com seu painel de azulejo, logo na frente do patim, à vista da Rua, e que representa S. Francisco, com sua escadaria que se desdobra, com seu adro simples e a galilé pequenina, que abre de três arcadas singelas e decorativas.

Convento de São Pedro de Alcântara  [1966]
Rua de São Pedro de Alcântara, 85 (Igreja); Rua da Rosa, S/N (Convento de São Pedro de Alcântara);
Travessa de São Pedro, 2-8; Rua Luísa Todi, 1-11
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Erigido no Largo Rua de S. Pedro de Alcântara, no local onde foi o Palácio dos Condes de Avintes, e nos outros tempos, uma nobre morada de casas de Marcos Tinoco (Secretário da Mesa da Consciência e Ordens), este convento foi fundado pelo 1.° Marquês de Marialva, D. António Luís de Meneses, em 1680, para os religiosos Arrábidos, em cumprimento de um voto feito na Batalha de Montes Claros. 
O edifício tinha inicialmente uma pequena igreja, e a cerca abrangia todo o quarteirão entre a Rua da Rosa, a Travessa do Sacramento e a Rua do Príncipe Real [actual D. Pedro V]. 
Os frades Arrábidos tomaram posse do terreno e das casas em 1672, mas apenas em 1680 seria lançada a primeira pedra na igreja, mudando-se os religiosos para lá só em 1685. Eram pouco mais de 40 frades.
Vivia esta Ordem em austeridade na Serra da Arrábida, conforme as regras iniciadas por Frei Martinho e Frei Pedro de Alcântara.
Em 1707, possuía a Congregação, na chamada Província de Portugal, cerca de 22 conventos, dos quais 20 pertenciam ao Bispado de Lisboa.
Com o terramoto de 1755 ficou bastante deteriorado. A igreja caiu inesperadamente, esmagando muitos seculares e especialmente algumas mulheres que assistiam ao culto do dia. 
Foi posteriormente restaurada. 
A Casa do Capítulo (da autoria de Manuel da Maia), o refeitório e os dormitórios (restaurados em tempos de D. João V), resistiram ao sismo.
Na igreja jaz o grande General da Restauração, que foi ao mesmo tempo fundador do convento, e no adro o Arcebispo de Évora, D. Veríssimo de Lencastre. 
O 2.° Marquês de Marialva, D. Pedro António de Meneses, viria a promover o aumento da igreja com a reconstrução da capela-mor. 

Convento de São Pedro de Alcântara [entre 1901 e 1910]
Rua de São Pedro de Alcântara, 85 (Igreja); Rua da Rosa, S/N (Convento de São Pedro de Alcântara);Travessa de São Pedro, 2-8; Rua Luísa Todi, 1-11
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente
 
De referir no seu interior: 
A escadaria com painéis de azulejos Setecentistas; 
A entrada sob uma galilé de 3 arcos; 
A célebre Capela dos Lencastres, com tectos de Pierre Bordes [tecto pintado em trompe l’oeile] telas atribuídas a Pedro Alexandrino [A Pregação de São João Baptista], Wolkmar Machado e Quillard [A Coroação da Virgem]. 
A igreja foi restaurada em 1878, já depois da extinção das Ordens Religiosas.
Serviu depois para recolhimento de raparigas desamparadas, com o nome de Asilo da Apresentação de Maria (Assistência Social), estando actualmente dependente da Misericórdia de Lisboa [por decreto de D. Pedro, Duque de Bragança, ex-imperador do Brasil, a 31 de Dezembro de 1833].

Convento de São Pedro de Alcântara, fachada lateral [séc. XIX]
Rua de São Pedro de Alcântara, 85 (Igreja); Rua da Rosa, S/N (Convento de São Pedro de Alcântara);Travessa de São Pedro, 2-8; Rua Luísa Todi, 1-11
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

N.B. Em 1943 passou a ser administrado, em acordo de cooperação, pelas Irmãs da Província Portuguesa da Congregação da Apresentação de Maria. Actualmente designa-se por Instituto de S. Pedro de Alcântara. Este imóvel insere-se no tecido consolidado do Bairro Alto, classificado Conjunto de Interesse Público.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, p. 73, 1938
CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os conventos de Lisboa, p. 145, 1954
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