Friday, 30 January 2026

Rua da Escola Politécnica, 51-55: «Casa das Tesouras»

De acordo com o olisipógrafo Matos Sequeira — reportando-se a uma noticia de um jornal daquela época — terá sido por volta de 1858 que foi construído o edifício dito «das onze portas» (risco do arquitecto Pezerat), dez das quais ficam no lado direito desta rua e uma na Rua do Monte Olivete.
Nele se instalou por volta de 1890, uma famosa alfaiataria de homens, de seu nome «Casa das Tesouras», de José Clemente e que forneceu Lisboa, até aos anos trinta do séc. XX, de capotes, sobretudos,  gabões e fatos de homem. Encerrou em 1935.
(Claus-Günter Frank, Lisboa: À descoberta da metrópole portuguesa, 2019)

Rua da Escola Politécnica, 51-55 |1922-05-03|
«Casa das Tesouras»: Moderníssimo prêt-à-porter do séc. XIX.
Nos baixos deste enorme prédio de dez vãos, fica(va) a Farmácia Albano e a Leitaria Camélia de Ouro. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Esta artéria –  refere Mestre Norberto de Araújo, a quem vamos sempre seguindo –  , rasgada como larga serventia entre as quintas do Noviciado da Companhia de Jesus e a de D. Rodrigo, fazia a ligação do sítio da Cotovia com o de Campolide, que começava — onde veio a ser o Rato. Antes do Terramoto a rua tinha duas designações para cada um dos seus troços: Rua Direita da Fábrica das Sedas até ao Palácio dos Soares (depois Imprensa Nacional), daí para diante até à actual Praça do Rio de Janeiro [desde 1948 corresponde à Praça do Príncipe Real] era Rua do Colégio dos Nobres, designação que sucedeu à de Rua Direita da Cotovia. Em Setembro de 1859 passou toda a artéria a ser Rua da Escola Politécnica. [Araújo: 1939]

A mágica da «Casa das Tesouras», publicidade

Sunday, 25 January 2026

Cais da Ribeira: cena de rua

Nos primeiros anos do séc. XX diversas empresas asseguravam o tráfego fluvial de Lisboa com a “Outra Banda”. A Parceria dos Vapores Lisbonenses, sedeada no “chalet” do Cais do Sodré, tinha duas carreiras diárias para Aldeia Galega (Montijo), onde se pagava 160 réis à ré e 120 réis à proa. Na “linha” de Cacilhas, durante a semana, os preços variavam de 60 réis à ré a 40 réis à proa, saindo os barcos com um intervalo de 40 minutos.
(in Guia do Viajante, Lisboa 1907)

Cais da Ribeira: recolher das redes de pesca |1912|
Em segundo plano destacam-se os famosos "Hotel Central" e "Hotel Bragança (ou Braganza)" mais atrás, ambos referidos por Eça de Queiroz nos seus romances e já aqui mencionados.
Joshua Benoliel
, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): As ovarinas (o 'o' etimológico perdeu-se na pronúncia) (peixeiras) formam com seus pais, maridos e irmãos a mais curiosa população desta cidade; população inteiramente à parte e com carácter e feição própria.

Cais da Ribeira: cena de rua |c. 1900|
A freguesia aguarda enquanto as varinas preparam o peixe para a venda. Antiga Estação da "Parceria dos Vapores Lisbonenses", fundada em 1890; Cais do Sodré.
Autor não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 23 January 2026

Esquina da Rua Augusta com a Rua da Conceição

Sobre a Rua da Conceição refere a Portaria de 1760 que «Assim se denominará a segunda das referidas seis traveças, e nella se acommodorão os Mercadores de logens de retroz», pelo que não é estranho que o arruamento também tenha sido vulgarmente conhecido como Rua dos Retroseiros ao longo do século XIX.

A 6 de Setembro de 1918, é autorizada a constituição do Banco Industrial Português, como sociedade anónima de responsabilidade limitada. A escritura de constituição de sociedade foi celebrada em 14 de Fevereiro de 1920, com um capital de 5.000 contos, elevado em Março de 1923 para o dobro. Em 5 de Novembro de 1925 abre falência.

Esquina da Rua Augusta com a Rua da Conceição |1930-01-12|
Banco Industrial Português
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto está erradamente identificado no arquivo

Sunday, 18 January 2026

Cena de rua na Praça da Estrela

A Basílica leva duzentos e vinte anos {em 1939]. A Estrela é quinhentista na designação. Pelo sítio amável deste bairro, hoje dilatado e formoso, passam ainda o capuz de um frade e a sombra do jumentinho que levava os cestos de azeitona dos olivais de S. Bento aos lagares da Horta Navia.

Cena de rua na Praça da Estrela |c. 1900|
Enquanto os quatro muares puxam uma carroça de transporte, o burrico vai comendo a aveia do seu embornal.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Cena de rua na Praça da Estrela |c. 1900|
No lugar daquele urinol em ferro forjado irá surgir, em 1909, o quiosque do Jornal o Seculo.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A Basílica do Coração de Jesus, obra dos arquitectos da escola de Mafra, foi consagrada em 1789, já no Convento se haviam recolhido as freiras carmelitas de Santo Alberto. O Zimbório é o coroamento audacioso desta mole arquitectónica.
Na sua imponência alcandorada a Basílica é o frontal da mais alacre praça de Lisboa. [Araújo: 1943]

Friday, 16 January 2026

Clube de Futebol Benfica: Estádio Francisco Lázaro

O Clube Futebol Benfica é uma associação desportiva da cidade de Lisboa cuja origem remonta ao ano de 1895, com a designação Grupo Foot-ball Benfica.
A 23 de Março de 1933 — data assinalada como aniversário — dá-se a reorganização do Clube que, por força da Constituição da República Portuguesa então vigente, altera o seu nome para o actual Clube Futebol Benfica, através de um manifesto distribuído à população do Bairro de Benfica.

Clube de Futebol Benfica: Estádio Francisco Lázaro |1960|
Rua Olivério Serpa, 9; Igreja de Benfica (Nª Sª do Amparo)
João Goulart, in Lisboa de Antigamente
Clube de Futebol Benfica: Estádio Francisco Lázaro |1960|
Rua Olivério Serpa, 9
João Goulart, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 11 January 2026

Beco da Corvinha que foi «da Curvinha» e «da Corvina»

Corvinha (Beco da) — Começa, segundo o Roteiro da Cidade de Lisboa, de 1920, na Calçadinha da Figueira e finda no [antigo] Beco do Alegrete [hoje Calçadinha de São Miguel]. No Itinerário lisbonense, de 1804, na parte relativa aos Becos, lê-se: «Curvinha: he o primeiro à esquerda no fim da Calçadinha da Figueira, vindo da Rua de Castello Picão, e termina no Becco do Alegrete».
Vê-se, pois, que houve acerca do letreiro deste Beco inadvertência igual à de que foi objecto o Pátio do Curvo, segundo no artigo que a este diz respeito se explica: troca do "u" pelo "o".
Na 1.ª edição do Roteiro das Ruas de Lisboa, de Queirós Veloso (1864), já os dísticos Curvo e Curvinha aparecem desfigurados.

Beco da Corvinha |s.d. (post. 1933)|
Igreja de S. Miguel
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem sem data; local da foto não está identificado no arquivo.

Curvinha é o diminutivo feminino de Curvo, e este vocábulo foi elemento do apelido de uma familia distinta e numerosa: a dos Curvos Sem-medo ou Semmedo.
No Livro das Plantas encontra-se com a designação Corvina.
O beco surge também como “da Corvina” na Corografia Portuguesa do Padre António Carvalho da Costa. [Brito: 1935]

Beco da Corvinha |c. 1960|
Igreja de S. Miguel
Artur Pastors, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem sem data; local da foto não está identificado no abandalhado amL..

Friday, 9 January 2026

Avenida Fontes Pereira de Melo

Esta artéria, que homenageia António Maria Fontes (1818-1887), estava integrada no Plano das Avenidas Novas, do Eng.º Ressano Garcia, aprovado em 1888 pela Câmara Municipal de Lisboa, seguia as ideias urbanísticas do séc. XIX, aplicando os princípios higienistas de combate à insalubridade das densas vilas da industrialização, definindo um traço regular formado por quarteirões uniformes, numa sequência de eixos estruturantes articulados por rotundas. 

Avenida Fontes Pereira de Melo |1969|
O Mercado 31 de Janeiro no sítio das Picoas data de 1924. Neste local funcionou até meado da década de 1950 o Matadouro Municipal de Lisboa depois edifício-sede da Portugal Telecom — «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades».
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

Neste plano, a Avenida Fontes Pereira de Melo constituía o elemento de ligação do conjunto das ruas adjacentes ao Parque da Liberdade (hoje Parque Eduardo VII) com o núcleo Picoas – Campo Grande.

Avenida Fontes Pereira de Melo |1959|
Antiga Rua Fontes, junto a Av. António Augusto de Aguiar (esq.); obras do metropolitano.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 4 January 2026

Elevador de Santa Justa e a formidável audácia do seu construtor

Quando há tempos se celebrou o centenário do nascimento de Eiffel, o famoso realizador de tantas obras de engenharia que assombraram o Mundo, no último quartel do século XIX, houve quem lhe atribuísse também a construção do elevador de Santa Justa.
Não é verdade.

O popular ascensor instalado no centro da Baixa é obra de um engenheiro português que, se não alcançou a fama de Eiffel, nem por isso é menos digno de ser recordado com simpatia e admiração por todos os portugueses.
Chamava-se ele Raúl Mesnier Ponsard (1848-1914). A origem francesa do seu apelido não invalida a sua qualidade de português. Embora descendendo de pais franceses, nasceu em Portugal (Porto) e aqui realizou toda a sua obra que é notável e merece ser lembrada.
Raúl Mesnier nascera com decidida vocação para a engenharia. Feitos os seus cursos com raro brilho, dedicou-se a pequenos inventos e aplicações mecânicas, tendo publicado diversas obras e realizado alguns aperfeiçoamentos em armas de fogo.
Mas, na realidade, ele nascera para dar vida às construções audaciosas que dominam o espaço, e essa tendência em breve se deveria manifestar.
Animado de ardor juvenil, traçou planos extraordinários, ideou construções grandiosas, tudo destinado a vencer as distâncias, a galgar as alturas.
Portugal, país montanhoso, acidentado, de grandes depressões e vertiginosas alturas, e Lisboa, em especial, construída sobre sobranceiras colinas, eram o campo em que a sua actividade e os seus projectos melhor podiam encontrar aplicação.
De princípio a sua energia, a sua audácia e o seu enorme espírito de iniciativa esbarraram contra a rotina, destino a que raramente são poupados os grandes inovadores. Consideraram-no doido, visto as suas concepções excederem a esfera das ideias de então.

Corte vertical do Elevador de Santa Justa, segundo projecto inicial do eng. Raúl Mesnier Ponsard

Mais tarde, quando a sua reputação já estava firmada, Raul Mesnier comprazia-se em recordar que tendo nesses primeiros tempos solicitado o auxílio do então poderoso banqueiro Moura Borges pouco faltara para que este lhe batesse.
Mesnier soube, porém, persistir e venceu. Os capitais, vencida a primeira desconfiança, começaram a afluír seduzidos pela audácia e clareza dos seus projectos. Assim se formou a base material indispensável à realização dos seus arrojados planos.
Em 1880 foi encarregado de dirigir a construção do elevador do Bom Jesus do Monte, em Braga, que foi o primeiro que se construiu no nosso País. Dois anos depois, as obras estavam terminadas, e eram feitas as experiências que alcançaram o mais lisonjeiro êxito, assegurando assim o futuro do novel engenheiro.
A seguir, em 1884, foi construído, sob o seu projecto, o elevador da Calçada da Glória. A este seguiram-se os do Lavra, da Estrela-Camões da Bica, e do Largo do Município, também conhecido como elevador da Biblioteca ou elevador de S. Julião,
Finalmente, no princípio deste século, Raul Mesnier empreendia a realização do elevador de Santa Justa ao Carmo que pode ser considerado o capítulo mais notável desta prodigiosa actividade desenvolvida no espaço de vinte anos apenas.

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo)
A Torre de Santa Justa, como soberbo Miradouro.
Postais ilustrados, post.1902, in Lisboa de Antigamente

De facto, a construção deste ascensor foi a que mais contribuiu para consagrar os inegáveis méritos deste ilustre engenheiro. Mais de trinta anos volvidos sobre a sua inauguração, a enorme construção metálica não manifestava o mais leve sinal de velhice. Ainda hoje, a sua enorme torre e o extenso viaduto que liga esta às ruínas do Carmo, suscitam de quem visita Lisboa um olhar de admiração pelas suas proporções grandiosas. Décadas de progressos mecânicos incessantes nada diminuíram ao ascensor a sua primitiva imponência.
Começaram as obras com a construção da enorme torre metálica que, partindo das Escadinhas de Santa Justa, junto à Rua Áurea, se havia de erguer até ao nível do Largo do Carmo, ou seja, a uma altura de 32 metros aproximadamente.
Realizada esta primeira parte da obra e de modo que honra a indústria portuguesa, uma outra não menos complexa restava fazer estabelecer a ligação entre o tabuleiro da torre e a faixa de terreno situado a par das ruínas do mosteiro do Carmo. Para tal, tornava-se necessário lançar entre os dois pontos um viaduto e essa operação fizera surgir uma série de incidentes que só o engenho e persistência de Raul Mesnier lograriam vencer.
Este viaduto, como é sabido, partindo do tabuleiro da torre, passa sobre a Rua do Carmo, mais adiante sobre um prédio que era ao tempo propriedade do conde de Tomar, e vai desembocar no terreno que contorna as ruínas do museu do Carmo e estabelece ligação com o largo do mesmo nome.
Ora o problema seria de solução relativamente fácil se sobre o prédio em questão se pudesse estabelecer um ponto de apoio para o viaduto.
Mas, ou por insuficiente resistência do edifício ou por oposição do proprietário, o certo é que essa ideia não pôde ser posta em prática. Necessário se tornou por isso construir os fortes pilares que se encontram situados ao começo das escadinhas, junto à Rua do Carmo.

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo)
Na «enorme torre de metal pintado de cinzento, o grande elevador» que «tem qualquer coisa de impressionante, de juslesvernesca, um ar de máquina para visitar a lua»...
Postal ilustrado, post.1902, in Lisboa de Antigamente

Por outro lado, a Câmara Municipal opunha-se a que nas obras a realizar fossem empregados tapumes ou andaimes que prejudicassem o trânsito intenso das importantes artérias interessadas.
Nestas difíceis circunstâncias, Raul Mesnier lançou mão dum processo curioso, cuja extrema simplicidade mais põe ainda em evidência as admiráveis faculdades do ilustre engenheiro.
Fez em primeiro lugar construir os pilares sobre o local em que ainda hoje se encontram, mas montados sabre uma espécie de charneira provisória que, após as obras terminadas, desapareceu para dar lugar ao fundamento fixo que hoje têm.
Nesta altura, os pilares, repousando sobre o seu pedestal articulado, achavam-se inclinados sobre a Rua Áurea e apoiavam-se contra a torre metálica já construída.
No sentido da altura da torre e fixado pelo meio ao pilar foi então construído o viaduto ou ponte com 25 metros de comprimento e cerca de vinte toneladas de peso.
O lançamento do viaduto fazia-se então da forma mais fácil possível: os pilares, que como dissemos se achavam inclinados e apoiados à torre eram puxados do Largo do Carmo até atingirem a posição vertical. Ao mesmo tempo, o tabuleiro que se encontrava ligado pelo meio aos pilares no sentido vertical era puxado do alto da torre pela extremidade inferior o que o obrigava a descrever um arco de círculo até ficar na posição horizontal estabelecendo assim a ligação entre a torre e o Largo do Carmo.

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo)
A pontecom decoração neo-gótica, tem 25 metros de comprimento.
Postais ilustrados, post.1902 e 1950, respectivamente., in Lisboa de Antigamente

Fixou-se o dia 31 de Agosto de 1901 — um sábado para a realização da difícil manobra. Foi de sensação em Lisboa o acontecimento. A complexa operação teve início às duas horas da tarde, presenciada por uma multidão ansiosa que de todos os pontos da Baixa e sobre os telhados vizinhos seguiu atenta as diversas fases da manobra.
Tudo correu como o grande engenheiro previra, demonstrando-se, assim, a justeza dos seus cálculos.
Durante cerca de três horas e meia a pesada massa de ferro descreveu os movimentos previstos até que a ligação se fizesse.
Pouco passava das cinco horas e meia da tarde quando a comunicação se estabeleceu. Foi um operário de nome Luiz Pinto de Oliveira a primeira pessoa que atravessou o viaduto, calcorreado depois por algumas gerações de passageiros desejosos de se furtarem às fadigas duma subida a pé pelo Chiado.
Para que nada faltasse a este espectáculo, que teve a assisti-lo alguns milhares de curiosos, foi ele interrompido por um incidente que, sem ter consequências, produziu enorme emoção. Foi o caso que em determinada altura da trajectória da ponte se notou que um fio eléctrico interceptava a passagem desta, de tal modo que o movimento não poderia continuar sem quebrar o fio, o que não se faria sem riscos para os que assistiam à manobra.
Uma extraordinária cena teve então lugar ante o pasmo de quantos acompanhavam as diversas fases do lançamento do tabuleiro. Viu-se dois aprendizes de cerca de quinze anos de idade saltarem para o tabuleiro que oscilava no espaço e, apoiando-se nas réguas metálicas que o formavam, treparem em direcção à extremidade superior a fim de desembaraçarem a ponte do imprevisto obstáculo. O fio eléctrico, porém, ficava nesse momento sob a face inferior do tabuleiro e, portanto, fora do alcance dos audaciosos aprendizes.
Um deles retrocedeu com o fim de buscar ferramenta, mas o outro mais destemido, passou o cinto em volta duma das réguas da ponte e fazendo dele apoio, debruçou-se no espaço, colheu o fio com as mãos e fê-lo passar para o lado oposto do tabuleiro, deixando desimpedido o caminho à enorme massa metálica que em breve retomava o seu vagaroso movimento. Chamavam-se os dois heróis desta aventura Luiz Pinto e Luiz Burra, «dois luízes de bom quilate», como então dizia o Diário de Notícias comentando o facto. Bem possível é que ainda vivam e que se ufanem dessa temerária proeza que deixou suspensa de emoção durante alguns momentos quási toda a Lisboa de há trinta anos.

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo)
O último piso ergue-se a uma altura de 41 mt.
Postal ilustrado, post.1902, in Lisboa de Antigamente

Uma única nota discordante se registou neste surpreendente espectáculo de que Lisboa inteira falou durante muito tempo. Foi o protesto dos lojistas da Rua Nova do Carmo contra a escolha da hora para a manobra que em seu entender deveria ter-se realizado durante a madrugada. A enorme afluência de curiosos fizera paralisar, por completo o trânsito nas imediações do ascensor, dificultando o comércio e justificando esta "aclamação" a que os jornais da época fizeram referência.
Como dissemos, o lançamento da ponte realizou-se, no meio de grande pompa, em Outubro de 1901, na presença de el-rei D. Carlos. Em Junho do ano de 1902, teve Raul Mesnier a alegria de ver inaugurar-se o elevador que de então para cá tantos serviços tem prestado. E a caranguejola, como ele se comprazia em chamar-lhe, funcionou sempre às mil maravilhas.

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo) quando ainda funcionava a vapor
 Um dos mais interessantes atractivos de Lisboa, de onde se abrange uma panorâmica que foge à vista do observador.
Postais ilustrados, post.1902, in Lisboa de Antigamente

N.B. Raúl Mesnier Ponsard (1848-1914), o homem que mais elevadores construiu em Portugal, é uma figura curiosa que mereceu ser recordada e que tem jus à nossa admiração.
O sonho de toda a sua vida foi sempre construir esses engenhos destinados a vencer as alturas. E morreu levando consigo o projecto, admiravelmente utópico, de reunir as sete colinas da cidade por gigantescos transportadores aéreos que passeassem no espaço, entre uma e outra extremidade da capital, os que assim pretendessem deslocar-se...==

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo)
Autoria do engenheiro Raoul Mesnier du Ponsard e do arquitecto Louis Reynaud, foi inaugurado na tarde de 10 de Julho de 1902, fazia a ligação entre as Rua do Ouro e de Santa Justa e o Largo do Carmo. 
Postal ilustrado, post.1902, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Arquivo nacional, 1940. Gazeta dos Caminhos de Ferro, 1902.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, 1939
JANEIRO, Maria João, Lisboa: histórias e memórias, 2006.
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, 1987
Guia de Portugal: 1924.
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