sexta-feira, 29 de abril de 2016

Profissões de antanho: o moço de fretes

O moço de fretes ou moço de esquina, como também era conhecido, foi uma instituição de Lisboa. Normalmente eram homens oriundos da Galiza, embora entre eles se contassem muitos elementos das nossas Beiras. Gente pacífica, honrada e mansa no trato, a esses homens podia entregar-se, utilizando os seus serviços, uma carta confidencial que, pressurosos, iam levar ao seu destino; valores ao penhor, de gente de bom-tom que se escondia; transporte de mobílias e outros carregos e até puxar as pequenas bombas de incêndio pelas ruas estreitas dos bairros populares. 

Largo do Chiado, esquina com a Rua Nova da Trindade [1912]
Joshua Benoliel, in AML

Todavia, a sua maior actividade era transportar mobílias, de casa para casa, nas mudanças que os lisboetas então faziam com frequência, porque havia casas para alugar! Era vulgar ver-se escritos nas janelas, sinal de que as casas estavam devolutas, e os alfacinhas, sobretudo as senhoras, adoravam mudar de domicílio. Bons tempos!

Calçada do Combro [1907]
Joshua Benoliel, in AML

Os moços de fretes, os galegos como eram conhecidos, encarregavam-se desses serviços, desarmando em casa os móveis e acomodando-os nas padiolas, amarrados com boas cordas. Depois de tudo empoleirado, dois ou quatro homens, consoante o volume e o peso, a passo certo, cadenciado, mas alternado, seguiam com a tralha para a nova residência onde rearmavam tudo com muito cuidado, no que eram mestres. Só que quando algo se partia, logo tinha justificação: - Tenha paxiêrixia, acontexe!...

Rua Rodrigo da Fonseca com a Rua Barata Salgueiro  [1908]
Joshua Benoliel, in AML

Calçada do Carmo [entre 1903 e 1908]
Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House

Era curiosa a forma como se auxiliavam no transporte com a padiola: dois à frente e dois atrás, com um grosso pau de carga que eles suportavam aos ombros, adoçando o incómodo com chinguiços - pequenas almofadas em forma de ferradura que ajustavam ao pescoço - e assim aguentavam o peso bem equilibrado.

Rua do Comércio com a Rua dos Fanqueiros [1910]
Joshua Benoliel, in AML

Praça do Comércio |Terreiro do Paço|  [entre 1903 e 1908]
Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House

Os moços de fretes ou de esquina agrupavam-se em vários locais da cidade nas praças principais, como o como o Rossio, Terreiro do Paço, Chiado, Graça, Alcântara e outros, e também pelas esquinas das ruas, onde eram procurados para ajustar os serviços que deles se pretendia

Largo do Chiado- A Ilha dos Galegos  [1908]
Joshua Benoliel, in AML

Rua do Arco do Marquês de Alegrete, Palácio do Marquês de Alegrete (Martim Moniz) [c. 1900] 
José Artur Leitão Bárcia, in AML

É de salientar um serviço que era sempre muito bem pago porque obrigava a discrição: levar cartas confidenciais, naquele tempo em que ter telefone era um luxo!
- Leva esta carta e entrega-a só à própria. Entendido?
- Xagrado! - respondia o Xoaquim.
 E pelo serviço cauteloso pagava-se cinco tostões de boa prata!
(DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1900-1974, p. 216)

Largo de São Domingos  [190-]
Paulo Guedes, in AML

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