A apresentar mensagens correspondentes à consulta rua S. Bento ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta rua S. Bento ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Rua de S. Bento

O nome do sítio de São Bento data do séc. XVI em que o topónimo do local era feito por referência ao Convento de frades beneditinos que vieram de Tibães.
Segundo o olisipógrafo Norberto Araújo, em Peregrinações em Lisboa, da Rua dos Poços dos Negros até ao Largo passado o Arco de S. Bento, o topónimo Rua de S. Bento seria antigo. Dali para cima até ao Rato, considerava ser do séc. XVIII já que eram os Olivais de S. Bento e antes Rua Nova de Colónia
Segundo outro olisipógrafo, Luís Pastor de Macedo, em Lisboa de Lés-a-Lés, o troço superior da Rua de S. Bento poderia anteriormente ter sido designado como Rua de S. Bento às Trinas, por referência às Trinas do Rato.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 33, 1938-39)

Rua de S. Bento [1911]
O Arco de S. Bento, de autor desconhecido (séc. XVIII/XIX), esteve neste local até ao final dos anos trinta do séc. XX (1938), altura em que, a remodelação do antigo Palácio das Cortes, actual Assembleia da República, implicou que as suas pedras fossem desmontadas e numeradas, tendo sido reconstruído na Praça de Espanha.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Aquele terreno que existia murado em frente do velhinho Mosteiro de S. Bento da Saúde — depois sede do Parlamento — formava declive para a Rua de S. Bento, pois o edifício ficava no alto, imponentemente, tendo aos pés as ruelas e hortos. Terraplanou-se, construiu-se um muro de defesa e ficou um largo, onde as carruagens dos parlamentares esperavam a sua saída. Cavalos de seges e depois os das tipóias comiam as suas rações sob as árvores , os segeiros e cocheiros pugnavam entre si , enquanto lá dentro tronitroavam os representantes do povo.

Rua de S. Bento, Arco e Palácio de São Bento [1901-1908]
O arco, a escadaria e o paredão foram demolidos por ocasião das obras de terraplanagem e de remodelação do Palácio de São Bento em 1938-1939, dando lugar à configuração actual.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Mosteiro de S. Bento (da Saúde ou dos Negros)

Da actual Estrela  — recorda Norberto de Araújo — até ao fundo do que é S. Bento havia, em encosta, no século de quinhentos duas herdades ou grandes quintas contíguas: a de cima, propriedade de Luiz Henriques; a de baixo, de Antão Martines. 


Os frades beneditinos de Tibães já se tinham instalado em 1573 na quinta do Henriques, onde construíram um pequeno Convento, chamado mais tarde de Nossa Senhora da Estrêla ou da Estrelinha.
Como este fosse pequeno, os monges deitaram os olhos para as terras que desfrutavam só com os olhos, e suas não eram, as do Martines, e compraram-nas, por tal sinal por uma tuta e meia (1596). A essa quinta chamava o povo a Quinta (ou Casa) da Saúde, porque em 1569 e 1570, por ocasião de uma peste, aqui se instalara uma espécie de hospital de pestilentos.
É esta a razão por que ao grande Convento novo se chamou de S. Bento da Saúde¹

O antigo Mosteiro de S. Bento (da Saude ou dos Negros) já depois de convertido em Palácio das Cortes nos meados do século XIX [c. 1854]
Nota-se a Calçada das francesinhas (principio da actual Calçada da Estrela) entre as hortas dos frades (de S. Bento) e a das freiras (da Esperança), esta a sul. vê-se também o Mosteiro das Francesinhas à esquina do Caminho Novo ((hoje Rua de João das Regras).
Aguarela de Jan Lewicki, 
in Lisboa de Antigamente
Mosteiro de S. Bento [c. 1900]
Em primeiro plano pode ver-se o Arco de S. Bento.
José Artur Leitão Bárcia, in Lisboa de Antigamente

A origem do Palácio de S. Bento remonta a 1598, ano em que se iniciou a construção do convento beneditino na Quinta da Saúde. O arquitecto régio Baltasar Álvares foi o autor do projecto, continuado depois da sua morte por Frei Pedro Quaresma e por Frei João Turriano, e nunca concluído na totalidade dada a magnificência a que aspirava. Até 1833 o edifício pertenceu aos Frades Negros de Tibães e era conhecido por Convento de S. Bento da Saúde, sendo sua padroeira Nossa Senhora da Saúde cuja imagem existia no altar-mor da igreja conventual. 
O mosteiro foi submetido ao longo da sua história a constantes alterações arquitectónicas e acrescentos, na sequência de grandes incêndios e do terramoto de 1755, época em que ainda não tinham terminado as respectivas obras de acordo com o projecto inicial e nem estava concluída a capela–mor. Outras modificações resultaram de adaptações a novos gostos e novos estilos arquitectónicos e decorativos. 
O edifício do mosteiro, por ser demasiado vasto e em grande parte desocupado, teve a partir de então utilizações diversas tais como Arquivo da Torre do Tombo, a Patriarcal, hospedaria de bispos, “prisão”, Academia Militar, armazém dos despojos militares franceses e sepultura de muitos mortos, como o embaixador de Espanha. 

Perspectiva do Mosteiro de São Bento da Saúde (pormenor), cópia anónima do projecto de Baltasar Álvares [c. 1730-1750]
in Lisboa de Antigamente

No edifício restam, para além da matriz arquitectónica edificada no séc. XVII, o Refeitório dos Frades, com o pavimento original de mármore branco e negro e painéis de azulejos de c. 1770 com episódios da Vida de S. Bento, a igreja conventual com pavimento de mármore branco e rosa e actualmente Átrio do Palácio, o claustro ainda que reduzido e alterado na década de [19]30. A inacabada cripta do Marquês de Castel-Rodrigo situada sob a capela-mor da igreja sabe-se que ainda existe, embora permaneça por localizar.

N.B. Com o decreto real de D. Pedro IV, datado de Setembro de 1833, as duas Câmaras – Pares e Deputados – foram instaladas no edifício do Mosteiro de S. Bento que passou a designar-se Palácio das Cortes. O seu recheio foi nessa altura disperso e encontra-se actualmente em outras igrejas de Lisboa e em museus. Depois de um incêndio em 1895 ter destruído por completo o edifício, foi decidido reedificá-lo de raiz, com o objectivo de prosseguir a sua missão legislativa.

Palácio de S. Bento depois de convertido em Palácio das Cortes [1858]
Rua de S. Bento
Era um dos mais imponentes edifícios de Lisboa, apesar de nunca concluído, um mosteiro de grande prestígio a cujas cerimónias acorriam a corte e as grandes famílias da nobreza. A sua decadência tem início a partir do governo de Marquês de Pombal, e acentuada pelas Invasões Francesas e pelas Guerras Liberais culmina em 1834 ao serem extintas as ordens religiosas e as suas propriedades integradas nos bens do Estado.
Amédée de Lemaire-Ternante, 
in Lisboa de Antigamente
Mosteiro de S. Bento [ant. 1896]
Mosteiro de São Bento da Saúde (1598); Palácio das Cortes (1834); Congresso da República (1910); Assembleia da República
Largo de São Bento (antigo das Cortes); Rua de São Bento; Rua Correia de Garção; Calçada da Estrela
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 32-34, 1939.
SANTOS, Maria José Silva, O parlamento de Portugal, p. 75, 2002.
parlamento.pt.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Palacete Vilhena

Vamos entrar na Rua de S. Bento, que bem corrida dá pelo menos dez tostões por dia. Isto dizia-se há cinqüenta anos àcêrca dos mendigos de profissão; tão comprida é a rua que, com método e paciência, um «pobre», começando cedo, e recolhendo um óbulo de de cinco réis em cada uma das duzentas portas onde batesse, ganhava a sua jorna.


O nome do sítio de São Bento data do séc. XVI em que o topónimo do local era feito por referência ao Convento de frades beneditinos que vieram de Tibães.
Segundo o olisipógrafo Norberto Araújo, em Peregrinações em Lisboa, da Rua dos Poços dos Negros até ao Largo passado o Arco de S. Bento, o topónimo Rua de S. Bento seria antigo. Dali para cima até ao Rato, considerava ser do séc. XVIII já que eram os Olivais de S. Bento e antes Rua Nova de Colónia
Segundo outro olisipógrafo, Luís Pastor de Macedo, em Lisboa de Lés-a-Lés, o troço superior da Rua de S. Bento poderia anteriormente ter sido designado como Rua de S. Bento às Trinas, por referência às Trinas do Rato.

Palacete Vilhena [1908]
Rua de S. Bento, 183-189
Ao fundo, a casa onde viveu a fadista Amália Rodrigues.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Ora, Dilecto, observa quão delicada é, em bom gosto português, a edificação urbana da esquina da Rua de Santo Amaro, lado norte, n.°* 183-185 189, com suas doze sacadas muito unidas, num único andar; o prédio, que foi restaurado da primitiva traça setecentista por Tertuliano Marques em 1933 (existia em 1763), pertenceu à família Leite Ribeiro Freire e no fim do século passado era do chefe político e académico Dr. Júlio de Vilhena, pertencendo hoje a seu filho Dr. Ernesto de Vilhena, que nele habita.
Esta antiga residência classificada como património do Município de Lisboa foi reabilitada em 2008 e transformada empreendimento residencial.
 
Palacete Vilhena [1968]
Rua de S. Bento, 183-189
Ao fundo, a casa onde viveu a fadista Amália Rodrigues.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 32), 1939.
cm-lisboa.pt.

sábado, 1 de outubro de 2016

Rua de São Bento

Vamos entrar na Rua de S. Bento, que bem corrida dá pelo menos dez tostões por dia. 


Isto dizia-se há cinquenta anos — escreve Norberto de Araújo em 1939 — acerca dos mendigos de profissão; tão comprida é a rua que, com método e paciência, um «pobre», começando cedo, e recolhendo um óbulo de de cinco réis em cada uma das duzentas portas onde batesse, ganhava a sua jorna. 
Pois não vamos percorrer esta extinta extensa artéria como o faziam os pedintes de há meio século, embora mesmo sem bater a porta alguma, muito ganhássemos em curiosidade satisfeita. 

Rua de São Bento, 181, esquina com a Rua de Santo Amaro, 1 [1908]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A Travessa de Santa Quitéria (1759), tal como a Rua de Santo Amaro, as Travessas de Santa Gertrudes (hoje Rua de Teófilo Braga), de S. Plácido, de Santa Escolástica (hoje Rua dos Ferreiros [à Estrela]), de Santo Ildefonso (todas datando de 1763), e a Rua de S. Bernardo, trinta anos mais moderna do que as anteriores, foram talhadas na cêrca do Convento de S. Bento; os nomes, postos pelos frades, são os dos santos da sua Ordem.

Rua de São Bento, 458 [c 1910]
Pátio do Gil — casa onde nasceu a 29 de Abril de 1810,
e viveu muitos anos, Alexandre Herculano; demolido na década de 1950.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Esta Rua de S. Bento do nosso lado esquerdo [de quem desce] — recorda-nos Norberto de Araújo —, era cheia de pátios, muitos desaparecidos; (...) o Pátio do Gil, que se rasga no prédio nº 458, este que vês com sete varandas no primeiro andar, acusando velhice, e um arco com passadiço ao fundo do qual está o mísero pátio, com seus casebres, que fazem um todo com a propriedade fronteira à rua. Conforme atesta a lápide colocada, em 26 de Abril de 1910, sobre a verga da porta, aqui nasceu a 29 de Abril de 1810, e viveu muitos anos  Alexandre Herculano, em casa mais tarde transfigurada do velho jeito de setecentos. O Gil, que deu nome ao Pátio, foi um António Rodrigues Gil, mestre carpinteiro, tio-avô, por parte da mãe, do grande historiador, e que principiou por construir aqui umas pequenas casas em 1756, no prédio habitou também o Arquitecto Manuel Caetano de Sousa, irmão do avô materno de Herculano.

Rua de São Bento, 634 [ant. 1908]
O Music-Hall de S.Bento-Rato funcionou como recinto de variedades na primeira década
do século XX.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
Nesta extensa artéria — e já muito próximo do Largo do Rato — existiu até c. 1910(?) o Music-Hall de S.Bento-Rato. um recinto de variedades ou «Casino», como eram  denominados à época este tipo de casas de espectáculos. E como na realidade se trata de uma rua «tão comprida», voltaremos a palmilhá-la em futuras «Peregrinações», sempre na companhia do ilustre mestre Norberto de Araújo. Até lá.
____________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 29-31, 1939.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Arco de S. Bento (actualizado)

O Arco, de autor desconhecido (séc. XVIII/XIX), esteve neste local até ao final dos anos trinta do séc. XX (1938), altura em que, a remodelação do antigo Palácio das Cortes, actual Assembleia da República, implicou que as suas pedras fossem desmontadas e numeradas, tendo sido reconstruido na Praça de Espanha em 1998..

Arco de S. Bento, Rua de S. Bento [Início séc. XX]
Autor não identificado

De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo «Era aqui a horta dos frades de S. Bento, ainda do século passado [séc. XIX]. A designação de Largo de S. Bento datava do ano da inauguração do Mercado. E o Arco? Desapareceu integralmente há meia dúzia de dias, e levou sete longos meses a deitar abaixo, sendo numeradas tôdas as pedras para uma projectada edificação, meramente decorativa. Talvez venha o Arco a ser reerguido neste Largo, que será ajardinado — tal um arco romano no meio de uma praça moderna de cidade velha. 

Arco de S. Bento, Rua de S. Bento [1910]
Proclamação da República na varanda do palácio de São Bento.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
E o Arco, afinal, pouco tinha de pergaminhos. Fazia parte da grande obra das Águas Livres, e conduzia a água para o Chafariz da Esperança, não exercendo, contudo, mais do que uma função decorativa desde há alguns anos. De ordem dórica, harmonioso de linhas, coroado por um frontão — o Arco de S. Bento fazia parte das curiosidades majestosas de Lisboa. Voltaremos a vê-lo?»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 33, 1930)

Arco de S. Bento, Rua de S. Bento [1937]
Desmantelamento do Arco de São Bento, fachada sul.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Mercado de S. Bento

O mercado de S. Bento! Era bem curioso, a despeito da miséria que deixava transparecer nesses lugares de velharias. Foi sacrificado ao Palácio, como o foram já dois prédios do recanto do Largo. Era aqui a horta dos frades de S. Bento, ainda do século passado [XIX]. A designação de Largo de S. Bento datava do ano da inauguração do Mercado.

(ARAÚJO,  Norberto deo, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 33, 1939)


Mercado de São Bento, entrada S. [ant. 1938]
Praça de São Bento; Palácio de São Bento
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Mercado de São Bento, entrada N. |1908|
Praça de São Bento; Palácio de São Bento
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A parte ocidental da cidade tinha também um mercado próprio, o Mercado de S. Bento, situado na Rua de S. Bento e inaugurado em 1 de Janeiro de 1881. O edifício foi construído em ferro, com projecto do arquitecto E. A. Bettencourt. Tinha 3 entradas, 29 tendas, cada uma com 22 lugares. Vendia hortaliça, frutos, aves, carnes, pescado, bebidas, e toda a espécie de víveres. Com o decorrer dos anos foi-se transformando em local de venda de ferro-velho, tal o seu concorrente de Santa Clara. Construído pela Companhia dos Mercados Edificações Urbanas, que teve o direito de o explorar por cinquenta anos no fim dos quais o entregou à Câmara. Foi demolido em Abril de 1938.

Mercado de São Bento, entrada N. |ant. 1938|
 Praça de São Bento; Palácio de São Bento
Ao fundo destaca-se o Arco de S. Bento, actualmente na Pç. de Espanha.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Mercado de São Bento, entrada poente |1908|
Praça de São Bento; Palácio de São Bento
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente
Mercado de São Bento, interior |1907|
Praça de São Bento; Palácio de São Bento
No mercado de São Bento até havia alfarrabistas, um exemplo disso era este homem na foto, conhecido como o mano João.

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Mercado de São Bento, entrada Sul |c. 1938|
Praça de São Bento
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 28 de abril de 2023

Cenas de rua aos Poiais de São Bento

Este topónimo está relacionado com a proximidade ao sítio de S. Bento — «poial» é o lugar onde se põe ou se assenta alguma coisa — , denominação que data do séc. XVI por referência ao Convento de frades beneditinos que vieram de Tibães. Estes frades já instalados na área compraram em 1596 terras da Quinta da Saúde onde construíram o Convento de S. Bento, que por tal também foi conhecido por Convento da Saúde. Sabe-se que o convento já estava ocupado em 1598 apesar de a obra só ter ficado concluída em 1615.
O nome de São Bento ou de São Bento da Saúde, estendeu-se a todos os terrenos próximos, citando-se amiúde, como referência, para designar pontos bem distantes, logo ao alvorecer do século XVII.

Rua dos Poiais de São Bento |1960|
Marçano no cruzamento das Ruas da Cruz dos Poiais e de Caetano Palha
MARÇANO, s. m. Aprendiz de caixeiro, especialmente de armazém de géneros alimentícios: «Desaparelhado para a vida ... serviu de marçano num armazém de secos e molhados)», Aquilino Ribeiro , A Batalha sem Fim , cap . 2, p. 38.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

A Rua dos Poiais de São Bento vem desde 1672. Anteriormente a esta data, davam-se-lhe várias referências, sendo a mais comum delas a de além dos Poiais.
Em 1640 também se lhe chamou rua de São Bento abaixo do Poço Novo.
Estes «Poiais» serviam, identicamente, para ponto de referência de outras serventias, que se designavam «nos Poiais», «aos Poiais» e ainda «que vai para os Poiais», remontando tal sinonímia local a 1570.
À laia de curiosidade, tinha, em 1770, 54 fogos. Desdobra-se, em 1771, em Poiais de S. Bento (17 Fogos) e R. Direita do Poço Novo [hoje dos Negros] (40 fogos). Reúnem-se em 1772 na R. Direita dos Poiais de S. Bento (56 fogos).

Calçada da Estrela com a Rua dos Poiais de São Bento |1960|
O eléctrico segue para a Rua de S. Bento.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935.
SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Depois do terramoto: subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa, Volume 2, pp. 42-43, 1967.

domingo, 24 de junho de 2018

Rua Correia Garção: o «Quarteirão dos padres Bentos»

Ocupando o espaço todo desse grande quarteirão, desde a moderna Rua Correia Garção [rasgada por volta de 1912] —  diz Norberto de Araújo — até à confluência dos Poiais, era a chamada «Frontaria de S. Bento», terrenos do Convento nos quais os frades nos meados do século XVII já haviam consentido a construção de casas, à margem do caminho rústico; eles próprios, depois do Terramoto (1760), fizeram erguer uma grande correnteza de prédios que foram a base dos que depois se reedificaram, e aí tens à vista. Eram as «Casas» ou «Quarteirão dos padres Bentos», representadas hoje por este enorme renque de quatro prédios contíguos, n.°” 53 a 107 [hoje n.°” 1 a 17], com 112 janelas, e o seu ar sólido de rendimento.¹

Rua Correia Garção |ant. 1938|
«Poeta Arcádico do século XVIII»
Perspectiva tomada da Rua das Francesinhas e, à direita a Calçada da Estrela; ao fundo, a Rua  de São Bento vendo-se o antigo Arco.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O topónimo Rua Correia Garção foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 20/09/1912 ao arruamento que «liga a Calçada da Estrela com a Rua de S. Bento no ponto da muralha de suporte de terraplano do Parlamento».
Foi suprimida a legenda «Poeta Arcádico do século XVIII» por parecer da Comissão de Toponímia em 16/12/1946.

Rua Correia Garção |ant. 1938|
«Poeta Arcádico do século XVIII»
Ao fundo, Rua e o antigo Arco de São Bento; por esta altura estava em construção a escadaria do Palácio de S. Bento.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Poeta português do Neoclassicismo, de nome completo Pedro António Correia Garção (1724-1772), nasceu na Rua do Benformoso em Lisboa. Frequentou o curso de Direito da Universidade de Coimbra, não chegando, contudo, a terminá-lo. Em 1756, juntamente com Cruz e Silva, Teotónio Gomes de Carvalho e Manuel Nicolau Esteves Negrão, fundou a Arcádia Lusitana, utilizando como pseudónimo arcádico Coridon Erimanteu. Foi escrivão na Casa da Índia e dirigiu a Gazeta de Lisboa de 1760 a 1762. Em 1771 foi detido no Limoeiro (onde veio a falecer) por ordem do Marquês de Pombal, por razões não esclarecidas. É considerado um dos mais importantes poetas neoclássicos da literatura portuguesa.²

Rua Correia Garção |1938|
«Poeta Arcádico do século XVIII»
Perspectiva tomada do Palácio de S. Bento da «correnteza de prédios que foram a base dos que depois se reedificaram, e aí tens à vista. Eram as «Casas» ou «Quarteirão dos padres Bentos». [Araújo:1939] 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 40, 1939.
² cm-lisboa.pt.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Ruas de S. Bento e Poço dos Negros: «Palácio da Flor da Murta»

Seguindo o conselho de Norberto de Araújo, façamos uma curta paragem naquela «serpenteante Rua de S. Bento», pois «vale um poema este palácio de S. Bento: Flor da Murta!


Eram aqui nesta esquina, tal qual hoje, as «casas nobres do Poço dos Negros», integradas no morgadio de Terrugem, dos Fonte Arcada, e que passaram, ainda no século XVII, para os Meneses do ramo Cantanhede, onde ainda se continua. No cunhal do palácio, entre varandas, blasona o escudo esquartelado armoriado dos fidalgos anteriores aos Meneses. Na Flor da Murta se enxerta uma legenda de Lisboa amorosa, cheia de romances frívolos. 

Ruas de S. Bento e Poço dos Negros |séc. XIX|
«Palácio da Flor da Murta»
Notem-se as calhas, ou rails, para uso dos «carros americanos» puxados a muares.
Fotógrafo não identificado. in Lisboa de Antigamente

D. Luísa Clara de Portugal, dos Castelo Melhor, casou com um D. Jorge de Meneses, da Casa da Flor da Murta, e deste varão houve filhos. Era linda, D. Luísa, e dela se enamorou D. João V, esquecido da honra de fidalgo, que a dona, um feitiço volúvel de formosura, por igual vilipendiou. Dos amores nasceu uma menina, D. Maria Rita de Portugal, que foi monja em Santos-o-Novo. Mas a «Flor da Murta», mais nova do que o Rei catorze anos (isto passou-se por 1730) vingou, a seu modo, o marido nos brios do próprio amante real: entregou-se a um jovem ardente e menos orgulhoso, D. Pedro de Bragança, Duque de Lafões, sobrinho do monarca, e destes novos amores nasceu outra menina, que foi D. Ana de Bragança.

Ruas de S. Bento e Poço dos Negros |c. 1945|
«Palácio da Flor da Murta»
Note-se a linha de tracção eléctrica cuja rede foi inaugurada pela Companhia Carris de Ferro de Lisboa, a 31 de Agosto de 1901.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

E aí está como neste palácio de S. Bento, hoje retalhado e morto de fidalguias, casarão de muitas memórias ilustres, passa ainda o vulto gentil de Luísa Clara — que o quadro a óleo, existente no palácio, mostra em toda a irradiação da sua beleza.

D. Luísa Clara de Portugal (1702-1779)
« A Flor da Murta»

Dizem os romances que foi com uma flor de poesia popular que o «Magnânimo» conquistou o coração de Luísa Clara. É ainda fantasia em redondilha. O nome florido existia já antes, e a Rua de S. Bento, neste troço, chamou-se mesmo da Flor da Murta, que era divisa da Casa antes de ser o motete da mulher. Mas não importa. Cantemos com D. João V:
Flor da Murta,
raminho de freixo,
deixar de amar-te
é que eu não deixo.
__________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 74-75, 1943.

domingo, 17 de maio de 2026

Desmontagem do Arco da Rua de São Bento

Construído em 1758, este arco estava integrado na Galeria da Esperança do Aqueduto das Águas Livres. Foi desmontado em 1938-39 em consequência das obras de remodelação do espaço em frente do Palácio de São Bento.
Esteve desmontado durante décadas, primeiro nos jardins do Palácio da Ajuda e depois na Praça Espanha, onde foi finalmente reconstruído em 1998.

 Desmontagem do Arco da Rua de São Bento |1938-12-15|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O Arco de S. Bento é de ordem dórica e conduzia a água para o chafariz da Esperança. É, tal como o das Amoreiras, seu gémeo, mas sem a imponência  deste que celebra, triunfalmente, a entrada das águas na cidade.

  Desmontagem do Arco da Rua de São Bento |1938-12-15|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

De acordo com o olisipógrafo Matos Sequeira a parte da moderna rua deste nome, desde o entroncamento dos Poiais até onde depois se ergueu o Arco, foi conhecida por diversos nomes até à sua inclusão no arruamento.
Em 1626, pela designação: defronte de São Bento-o-Novo; em 1639, volta de São Bento, ou defronte da horta; em 1650, simplesmente volta de São Bento; em 1656 e 1657, defronte da horta de São Bento; e, em 1668 e 1669, por frontaria da horta de São Bento ou só frontaria de São Bento. [Sequeira: 1917]

Desmontagem do Arco da Rua de São Bento |1939-02-16|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Desmontagem do Arco da Rua de São Bento |1939-03-26|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Rua de S. Bento com a Travessa da Peixeira

O nome do sítio de São Bento data do séc. XVI em que o topónimo (1859) do local era feito por referência ao Convento de frades beneditinos que vieram de Tibães.
A origem do Mosteiro de S. Bento remonta a 1598, ano em que se iniciou a construção do convento beneditino na Quinta da Saúde.

Rua de S. Bento com a Travessa da Peixeira [1908]
À esq. nota-se o edifício onde funcionava a Cozinha n.º 6 da Sociedade Protectora das Cozinhas Económicas de Lisboa.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

O topónimo Travessa da Peixeira está de acordo com a antiga tradição lisboeta de atribuir nomes de arruamentos a "tipos" bem definidos dentro da cidade.
Recorda o insigne Norberto de Araújo que «o sítio em que se encontra é quinhentista e pelas velhas Rua da Paz, que existia feita em 1602, sendo aliás anterior, Travessa da Peixeira, e Rua da Cruz a Poiais, que também se chamou dos Cardeais, existem espécimes seiscentistas da transição." [Araújo, XI, 1939]

Travessa da Peixeira, vista da R. Paz  [1946]
Ao fundo nota-se o Palácio de S. Bento
Fernando Martinez Pozal,  in Lisboa de Antigamente

domingo, 17 de setembro de 2023

Rua de São Miguel

Miguel (rua de S.) principia na rua de S. Pedro, antes da rua da Galé [Largo de São Rafael], atravessa o largo de S. Miguel, e finda na rua da Regueira, freguezias de S. Miguel 14 a 82 e 1 a 105, S. João da Praça 2 a 12. [Velloso:1869]

Voltando agora a E. — reza o Guia de Portugal (1924) — , à rua de S. Miguel, de aspecto curiosíssimo, deve notar-se a série de estreitíssimos becos que nela desembocam, um dos quais (o da Bicha) pouco mais tem que dois palmos de largura. No n.º 1 casa interessante. A certa altura abre-se na rua o largo de S. Miguel, que oferece um aspecto típico de logradoiro quinhentista, e onde se ergue, quasi intacta, a igr. de S. Miguel, constr. em substituição da que o terramoto destruiu. É de uma só nave, com quadros atribuídos a Bento Coelho.

Rua de São Miguel N-S |c. 1900|
Nesta cena de rua, tendo como pano de fundo a velhinha igr. de S. Miguel.
contracenam o incontornável aguadeiro com a barrica ao ombro, o vendedor de azeite com
o seu burrico e, surgindo do Beco da Cardosa, o limpador de candeeiros com uma lanterna
às costas
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Esta Rua de Alfama, que vai do Largo de São Rafael até à Rua da Regueira, deriva  seu topónimo da Igreja de São Miguel, que começou a ser construída cerca de 1150, sendo a Freguesia da mesma invocação criada em 1180 e, assim a Rua de São Miguel funcionou como uma típica rua Direita medieval deste local.

Rua de São Miguel, junto ao Beco da Formosa |c. 1920|
Ao fundo nota-se a torre sineira da Igreja de Santo Estevão
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

domingo, 26 de março de 2017

Real Fábrica das Sedas

Neste ângulo recto que fazem as Ruas da Escola e do Rato, e de todo ainda não desfigurado, existiu a célebre Real Fábrica das Sedas, cujas oficinas, secções, anexos e armazéns em parte aqui se situavam, em ligação pelo interior rústico com a Rua — que se rasga defronte de S. Mamede — ainda hoje chamada da Fábrica das Sedas.


A Real Fábrica das Sedas — relembra-nos Norberto de Araújo — foi criada, com organização própria oficial, pelo Marquês de Pombal em 1757, sucedendo à Fábrica fundada, em tempos de D. João V, por Ricardo Godin, um industrial francês que primeiramente instalara o seu estabelecimento fabril na Fonte Santa, de onde transitou para o fundo da Rua de S. Bento e finalmente para o Rato; não foi feliz no empreendimento e já em 1750 o Estado deitara mão à sua fábrica. 
A Real Fábrica conheceu períodos de prosperidade, durante a administração pombalina sendo grande a sua influência na sumptuária portuguesa da época, fornecendo paços, palácios, conventos e igrejas, clientes que crivaram, por vezes, a Fábrica de dividas. 
Morto Pombal, a Fábrica decaiu, arrastando-se contudo até 1855, ano em que D. Maria II mandou vender tudo, edifícios, oficinas, teares, existência; uma parte foi ainda explorada por um industrial particular, e mais tarde multiplicaram-se mesmo os pequenos industriais da seda, nas Amoreiras, mas sem sinal de desafogo, havendo dessas fabriquetas ainda vestígios como veremos noutro passo.

Real Fábrica das Sedas [entre 1901 e 1908]
Rua da Escola Politécnica, antiga Rua direita da Fábrica das Sedas

Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Antes da criação de Real Fábrica estes terrenos por aqui, entre o Rato e a Rua da Imprensa Nacional (então Travessa do Pombal) até S. Bento faziam parte da Quinta do Morgado dos Soares [de Noronha] à Cotovia — a quinta de D. Rodrigo da primeira metade do século XVIII — e de que adeante te falarei.
Fez-se então a fábrica com suas dependências, vendidas no século passado como já te disse. Tudo foi depois parar às mãos de um Francisco Ferrari, de quem transitou para três filhas, duas das quais, que houveram a parte de um sobrinho, filho da outra irmã, casaram uma com o Visconde Silva Carvalho, outra com Guilherme Shindler; foi desta senhora que os imóveis da antiga Real Fábrica passaram para sua filha D. Lívia Ferrari Shindler de Castelo Branco, e desta para sua filha D. Maria Livia Shindler Castelo Branco viúva do estadista João Franco, actual [em 1939] proprietária de todas estas edificações, correspondentes à desaparecida Fábrica, quer as com frente para a Rua da Escola quer as com frente para o Rato.

Real Fábrica das Sedas [entre 1901 e 1908]
Rua da Escola Politécnica, antiga Rua direita da Fábrica das Sedas
Corpo central mais destacado e rematado por frontão triangular,
em cujo tímpano sobressai a pedra de armas de D. José I.

Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Classificada como Imóvel de Interesse Público, esta é uma das mais importantes manufacturas de fundação joanina, constituindo um marco na história industrial portuguesa dos séculos XVIII e XIX. Com proposta apresentada pelo tecelão francês Robert Godin em 1727, a sua construção foi autorizada pela Resolução Real de 13 de Fevereiro de 1734. Construído no Rato, segundo o risco do arq. Carlos Mardel, o edifício ficou concluído em 1741.

Instalações dos trabalhadores da Real Fábrica das Sedas [1910]
Antiga
Rua da Fábrica das Sedas, desde 1968, Rua Maestro Pedro de Freitas Branco
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Ocupando todo o quarteirão, a Fábrica desenvolve-se longitudinalmente com planta em L. De volumetria paralelepipédica uniforme, a sua fachada principal é composta por dois torreões avançados nos extremos ligados por duas alas recuadas a um corpo central mais destacado e rematado por frontão triangular, em cujo tímpano sobressai a pedra de armas de D. José I [vd. 2ª foto]. Estruturada em dois pisos, os panos murários surgem compartimentados em cinco corpos por pilastras e cunhais de cantaria, ritmados pelo rasgamento de 14 janelas em cada um dos registos. Tendo passado por vários proprietários desde o segundo quartel do séc. XIX, a fábrica sofreu um incêndio de grandes proporções, em Agosto de 1897, que destruiu o edifício quase na sua totalidade. Objecto de reconstrução posterior, sem qualquer afinidade com o uso para que fora criado, manteve a traça exterior, mas foi adaptado a novas funcionalidades no interior.

____________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 17-18, 1939.

cm-lisboa.pt.

Web Analytics