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Sunday, 14 June 2020

Mosteiro dos Jerónimos: desabou tudo com estampido idêntico ao do trovão subterrâneo

Parte do antigo mosteiro arruinado ameaçava desabar: havia anos que tinham resolvido reedificá-lo. Era um corredor comprido e estreito que nos tempos primitivos deveria ter servido de passeio reservado aos frades. A Casa Pia, que ocupa , como já disse, o antigo claustro, destinava as novas construções para aumento do seu pessoal (...) 
A direcção dos trabalhos foi conferida a um pintor cenógrafo do Teatro de S. Carlos, o sr. Cinati, sem dúvida homem de talento, mas que, inexperiente no género de trabalhos que era chamado a superintender; traçou um plano fantástico e deficiente e imaginou levantar na base desse organismo decrépito uma enorme torre quadrada, pesada, maciça, ornamentada de decorações incorrectas e absolutamente deslocada [vd. 2ª foto] e alheia às prescrições.

Mosteiro dos Jerónimos, ruínas causadas pelo desmoronamento do corpo central [1878]
Praça do Império, antig
a de Dom Vasco da Gama, antes Largo dos Jerónimos
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

No dia 18 de Dezembro [de 1878], às 9 horas da manhã, desabou tudo com estampido idêntico ao do trovão subterrâneo, soterrando e matando nos escombros do desmoronamento nove ou dez operários. Se o sinistro tivesse ocorrido durante o grande desenvolvimento dos trabalhos, o número de vítimas ascenderia a cem ou cento e cinquenta. Acto contínuo propalou-se o boato de que ia proceder-se a um inquérito. A notícia fez sorrir maliciosamente os que sabiam avaliá-la e conheciam a índole do país. Se algum crédulo teve a ingenuidade de acreditar que desse inquérito resultaria a punição dos culpados, ou mesmo a simples demonstração pública da sua incompetência responderei certificando que não houve inquérito nem solução de espécie alguma.

Mosteiro dos Jerónimos, durante a construção do corpo central [1877]
Praça do Império, antig
a de Dom Vasco da Gama, antes Largo dos Jerónimos
Fotógrafo não identificado
, in Lisboa de Antigamente

N.B. Em 1882 propunha-se a construção de uma nova torre central de 60 metros de alto, projecto que não prosseguiu; em 1891-92 dirigia as obras de restauro o arquitecto Domingos Parente, depois Raimundo Valadas, e finalmente Rosendo Carvalheira. Foi este arquitecto que fez concluir um corpo central mais modesto, mas mesmo assim desproporcionado, o qual em 1940 foi reduzido de altura nos pináculos [vd. imagem abaixo] pela Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais (arquitecto Baltazar de Castro). [Araújo: 1944]

Mosteiro dos Jerónimos, vista de nascente para poente, da fachada sul [c. 1930]
Praça do Império, antig
a de Dom Vasco da Gama, antes Largo dos Jerónimos
Destaque para o corpo central antes de reduzido de altura nos pináculos para as dimensões actuais.
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
RATATZZI, Maria (1833 - 1902), Portugal de Relance, 1879.

Friday, 26 January 2024

Largo dos Jerónimos: Calçada do Galvão e o antigo Jardim Colonial

Do Largo dos Jerónimos saem a poente a Rua dos Jerónimos também de Belém antiga que morre na confluência da Rua das Pedreiras e Estrada dos Pocinhos, já subúrbios campestres e a nascente a Calçada do Galvão (António José Galvão , oficial maior da Secretaria de Estado dos Estrangeiros e da Guerra) que conduz ao Cemitério da Ajuda e às terras de Pedro Teixeira, em rigor arredores de Lisboa dentro de Lisboa.


Este topónimo homenageia António José Galvão, oficial-mor do Corpo de Sua Majestade (Intendente das Polícias). No nº 25-27 deste arruamento encontra-se a «Casa do Galvão», casa nobre de gosto barroco, construída numa quinta doada, em 1758, pelo rei D. José I a António José Galvão.

Calçada do Galvão |1941|
Perspectiva tomada do Largo dos Jerónimos; à direita, o Jardim Botânico Tropical, criado por Decreto Régio em 25 de Janeiro de 1906, pelo Conselheiro Moreira Júnior (Ministro da Marinha e Ultramar), sob o nome de Jardim Colonial.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Aqui temos o portão do jardim Colonial [actual Jardim Botânico Tropical — recorda Norberto de Araújo — , área arborizada e ajardinada com cerca de cinco hectares que constitui um admirável Parque científico e cultural de Lisboa.
Este belo logradouro botânico (a Cerca do Paço ou Palácio de Belém) foi o Regius Hortus Suburbanus, de «singular recreação», construído por D. João V [...] Este portão de ingresso e cortina gradeada, foram inaugurados em 1936, apesar de uma legenda de azulejo embebida no muro apresentar a data de 1927 (começo das obras, logo depois interrompidas); substituem a muro velho e portão de madeira da Cerca.
Quanto ao Jardim Colonial, foi criado em Janeiro de 1906 pelo Jardim Colonial então Ministro da Marinha e Ultramar, Dr. Moreira Júnior como dependência do Instituto de Agronomia, e instalou-se primeiramente (1907) no Jardim Zoológico
Como esta Cerca desde 1910 se encontrava quási ao abandono, foi para ela transferido o Jardim Colonial em Junho de 1912, mas só em 1914, após montagem de aparelhos de aquecimento nas novas estufas , a instalação se realizou em definitivo , já com novas alamedas abertas e com o traçado paisagista rectificado.

Largo dos Jerónimos |1939-03-06|
Ao fundo nota-se o portão do antigo Jardim Colonial, actual Jardim Botânico Tropical, criado por Decreto Régio em 25 de Janeiro de 1906.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Este Jardim é rico de espécies — acrescenta Araújo — , abundando as palmeiras, cedros, eucaliptos e casuarinas, entre plantas e arbustos de flora tropical e subtropical, tudo num delicioso conjunto, raro em Lisboa, envolvendo regatos, lagos, estufas, cascatas, tanques, grupos escultóricos e abrigos de meia sombra.==

 Antigo Jardim Colonial, actual Jardim Botânico Tropica |1961|
O plano inicial do Jardim foi concebido no reinado de D. Carlos I e a sua instalação foi dirigida por Henry Navel, jardineiro paisagista francês, que conseguiu aliar os aspectos educativos, que norteavam a sua criação, aos paisagistas. 
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 91-93, 1939.

Sunday, 6 January 2019

Mosteiro dos Jerónimos, Sala do Capítulo: Túmulo de Alexandre Herculano

A Sala do Capítulo tem esta denominação por servir às reuniões periódicas dos monges, as quais tinham o seu início com a leitura de um capítulo da Regra. Nessas reuniões, discutia-se a eleição dos priores, a recepção dos noviços e procedia-se à confissão pública das faltas.

Originalmente pensada para este efeito, a Sala do Capítulo nunca teve tal utilização pois a abóbada e decoração interior só foi completada no séc. XIX. A porta foi concluída nos anos de 1517-1518, tendo sido executada por Rodrigo de Pontezilha. Na sua decoração destacam-se duas imagens representando S. Bernardo e S. Jerónimo.


No centro da sala foi colocado, no século XIX, o túmulo de Alexandre Herculano delineado por Eduardo Augusto da Silva. Em 1940 é modificado, sendo deixada singelamente apenas a arca tumular
 
A singela arca tumular de Alexandre Herculano [séc- XIX]
Sala do Capítulo, Mosteiro dos Jerónimos
Domingos Alvão, in Lisboa de Antigamente

A Sala do Capítulo foi também utilizada como panteão de outros escritores e presidentes da República, até à finalização das obras na Igreja de Santa Engrácia. Convertida em Panteão Nacional, foram então para aí trasladadas as personalidades mais recentes da História de Portugal.
A trasladação do corpo de Herculano, que se encontrava no jazigo da Família Gorjão, em Santa Iria da Azóia, para a sala do capítulo nos Jerónimos ocorreu em 1888.

Túmulo de Alexandre Herculano [1934]
Sala do Capítulo, Mosteiro dos Jerónimos
Domingos Alvão, in Lisboa de Antigamente

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, escritor e historiador, nasceu em Lisboa a 28/3/1810 e morreu em Vale de Lobos, a 13/9/1877.
Obras: A harpa do crente (1838); O bobo (1843); Eurico, o presbítero (1844); O monge de Cister (1848); Lendas e narrativas (1851); História de Portugal (em quatro volumes, o último publicado em 1853).
No túmulo está gravado um excerto do poema «A harpa do Crente» que reza assim: 
Dormir? Só dorme o frio
Cadáver que não sente
Alma voa e se abriga
Aos pés do Omnipotente.

Túmulo de Alexandre Herculano [c. 1910]
Sala do Capítulo, Mosteiro dos Jerónimos
Poema inscrito na arca tumular
Garcia Nunes, in A.M.L.

Friday, 3 December 2021

As Torres da Igreja de Santa Maria de Belém

O Monumento dos Jerónimos, opulenta jóia  quinhentista de arquitectura e de estatutária representa na realização global uma projecção das glórias marítimas portuguesas. É certo que não foi concebido e projectado para celebrar essas glórias. pois a bula de Alexandre VI (1496) que aprovou a construção do mosteiro é anterior à largada das naus de Vasco da Gama para a India (1497), e a doação, por escambo com os freires de Cristo, da pequena ermida quatrocentista, fundada pelo Infante D. Henrique, de N. Senhora do Restelo, aos frades de S. Jerónimo, precedeu no ano de 1499 (Janeiro) a boa nova trazida pela «Berrio» (Julho) da chegada da frota a Calicut.
No fim do século o monumento não estava, porém, ainda lançado, o que só sucedeu  em 1502, ano da primeira pedra.

Igreja de Santa Maria de Belém, fachada Sul |ant. 1878|
Mosteiro dos Jerónimos
Torre, erguida no ângulo sudoeste, rematado o seu corpo central sineiro por um elegante coruchéu piramidal (da primitiva traça).
Fotógrafo não identificado in Lisboa de Antigamente

Mosteiro dos Jerónimos está localizado na margem direita do rio Tejo e é composto por dois grandes espaços: a Igreja e Claustros e os dormitórios (actualmente Museu da Marinha e Museu Etnográfico de Arqueologia).
Este conjunto monumental estende-se numa área aproximada de 300X50 m2 com uma altura média de cerca de 20 m (50 m nas torres). A sua construção iniciou-se nos primórdios do século XVI tendo-se prolongado durante aproximadamente um século. Não se conhecem os documentos originais do seu projecto. Foi construído em calcário de Lioz com materiais provenientes, segundo documentos históricos, dos arredores de Lisboa e da pedreira de Belém adjacente ao monumento.

Igreja de Santa Maria de Belém, fachada Sul |c. 1881|
Mosteiro dos Jerónimos
A Torre, erguida no ângulo sudoeste, rematado o seu corpo central sineiro por uma cúpula em rotunda octogonal interiormente (que substituiu no século passado e elegante coruchéu piramidal da primitiva traça), aberta de cinco ventanas emolduradas, adornada de oito pináculos e coroada por esfera armilar.
Fotógrafo não identificado in Lisboa de Antigamente

A Igreja é constituída por uma nave principal, um transepto com duas capelas laterais, uma capela-mor e uma torre sineira, no canto da fachada Sul com a fachada poente. A volumetria da Igreja apresenta dimensões consideráveis, com 70 m de comprimento, 23 m de largura na nave (40 m no transepto) e uma altura média de 24 m.
Entre 1867 e 1878 os cenógrafos do Teatro de S. Carlos, Rambois e Cinatti, vão reformular profundamente o anexo e a fachada da igreja, dando ao monumento o aspecto que conhecemos hoje. Vão, assim, demolir a galilé e a Sala dos Reis, construir os torreões em cada extremo Nascente e Poente do dormitório (em construção na 1ª foto), a rosácea do coro-alto e substituir a cobertura piramidal da torre sineira (vd. 1ª imagem) por uma cobertura mitrada (vd. 2ª imagem).
______________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1944.
ROQUE, J. A,.bibliotecadigital.ipb.pt/, 2007

Monday, 23 May 2016

Mosteiro dos Jerónimos, Portal Sul

Construído entre 1516 e 1518, rasgado a Sul, ergue-se o esplendoroso portal da autoria de João de Castilho e seus oficiais, segundo o projecto de Diogo de Boitaca, constitui o centro visual da fachada do Mosteiro que se desenvolve paralelamente ao rio. Apesar da sua grande sumptuosidade é apenas uma entrada lateral.
A figura central deste pórtico é Nossa Senhora de Belém com o Menino, que é a invocação desta Igreja e Mosteiro, ostentando na mão o vaso das oferendas dos Reis Magos. Ladeando a Virgem, uma multidão de estátuas representa os Profetas, os Apóstolos, os Doutores e Padres da Igreja e algumas santas (ou talvez sibilas).

Mosteiro dos Jerónimos, portal sul |1867|
Praça do Império
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente
 
Nos tímpanos figuram duas cenas da vida de S. Jerónimo – com vestes de cardeal arrancando o espinho da pata do leão e como penitente no deserto. Sobre o tímpano estão representadas as Armas de Portugal.

Mosteiro dos Jerónimos, portal sul |1867|
Praça do Império
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

Mais abaixo, entre as portas geminadas da Igreja, uma estátua representa o Infante D. Henrique armado cavaleiro, em memória deste antepassado de D. Manuel I, fundador da Ermida do Restelo e grande impulsionador dos Descobrimentos. A porta, separada por um mainel, é sobreposta nos tímpanos por baixos relevos e pelas armas reais ladeados por esferas armilares. A parede sul é rasgada por amplas janelas e janelões que ladeiam o portal e deixam penetrar, no interior, a luz filtrada pelos vitrais coloridos de execução recente (séc. XIX-XX).
Dominando este conjunto, ao alto, a imagem do Arcanjo São Miguel. (mosteirojeronimos.pt)

Mosteiro dos Jerónimos, portal sul |c. 1900|
Praça do Império
Chaves Cruzi, in Lisboa de Antigamente

Thursday, 10 June 2021

Mosteiro dos Jerónimos: Túmulo de Luiz de Camões

No túmulo de Luiz de Camões, assim está escrito: "Aqui jaz Luís de Camões, Príncipe dos poetas de seu tempo. Viveu pobre e miseravelmente e assim morreu."

 
Em 1880, as ossadas de Vasco da Gama e do poeta Luiz de Camões foram trasladadas para o Mosteiro dos Jerónimos. Os seus túmulos, da autoria do escultor Costa Mota tio, encontram-se no sob-coro da igreja. Vasco da Gama (do lado norte) e Luís de Camões (do lado sul) foram os dois representantes máximos da epopeia lusíada, que mereceram a honra de repousar ao lado de reis. Luiz de Camões, filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá Macedo, nasceu em 1524(?), tendo feito os seus estudos em Coimbra.
 
Túmulo de Luiz de Camões [ant. 1946]
Mosteiro dos Jerónimos
Fotografia anónima, in Lisboa de Antigamente

Em Ceuta, onde combateu os Mouros, perde um dos olhos. De regresso a Lisboa, é preso, em 1552, devido a uma rixa com um funcionário da Corte. Em 1553 é perdoado pelo rei e parte para a Índia, onde tomou parte em várias expedições militares. Segundo alguns autores compôs nesta altura o primeiro canto de Os Lusíadas. Em Macau exerceu o cargo de provedor-mor de defuntos e ausentes. Em 1569 regressa a Lisboa, publicando a obra Os Lusíadas três anos mais tarde. Morre em 10 de Junho de 1580, doente e na miséria.

Túmulo de Luiz de Camões [ant. 1946]
Mosteiro dos Jerónimos
Inscrição no túmulo: « PARA SERVIR-VOS, BRAÇO ÀS ARMAS FEITO;
PARA CANTAR-VOS, MENTE ÀS MUSAS DADA.
*LUSÍADAS * CANTO X * ESTANCIA CLV »
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 2 March 2016

Rua de Belém

Da fábrica (confeitaria) dos Pastéis de Belém à Farmácia Franco (onde nasceu o Sport Lisboa, mais tarde Sport Lisboa e Benfica)


O olisipógrafo Norberto Araújo caracteriza da seguinte forma este arruamento da antiga Lisboa arrabaldina:
Nesta Rua de Belém [antiga Direita de Belém até 1889] verifica-se o que tantas vezes temos notado: prédios que se encostam, uns sólidos e burgueses, outros pequenos e antigos, em confraria arruada. Nenhum é, porém, deste século, e, por consequência, a linha «modernista» não apareceu ainda por aqui, embora já campeie, ofegante de progresso, pela Boa Hora, Ajuda, e bairro novo do Almargem. 

Rua de Belém [1910]
Fábrica (confeitaria) dos «Pastéis de Belém», 84-86-92 (1º edifício a esq.)
Legenda da foto no arquivo: «Comemorações do centenário de Alexandre Herculano (1810-1877), cortejo a chegar aos Jerónimos»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Ora vejamos este prédio grandioso [na 2ª foto], para a sua época, desafogado, que é aquele que se confina entre as Travessas dos Ferreiros e de Marta Pinto, n.° 26. Foi construído entre 1881 e 1884 por Pedro Augusto Franco, Conde do Restelo, que adquiriu uma velhas casas que no local existiam, e que haviam sido, até 1834, as «Mercearias›» de Belém. [...)]
Pois o 1.° Conde de Restelo, Pedro Augusto Franco, adquiriu essas Casas e — «demolindo-as quási inteiramente — «elevou» o seu prédio. Ainda hoje num pátio interior, com serventia pela Farmácia, Franco, sobre um arco antigo, existe uma lápide que reza: «Mercearias da Rainha D. Catarina, que Deus tem, instituída para 20 cavaleiros de África. Em Maio de 1619». A data é da reconstrução da casa, pois a fundadora morreu em 1578.

Rua de Belém [1910]
O piso térreo do 2º edifício à esq. era ocupado pela Farmácia Franco
Legenda da foto no arquivo: «Comemorações do centenário de Alexandre Herculano (1810-1877), cortejo a chegar aos Jerónimos»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

   
Quanto à Farmácia Franco é dos mais antigos estabelecimentos de toda a Lisboa; foi fundada em 1821 por Inácio José Franco, pai de Pedro Augusto, o construtor do prédio (a farmácia já existia no lugar), avô do 2.° Conde, também Inácio José, bisavô de outro Pedro Augusto Franco, actual proprietário do prédio e farmácia.
Já agora, Dilecto, uma curiosidade: esta Fábrica (confeitaria) dos «Pastéis de Belém», n.° 84 e 86 92, é centenária; foi fundada por Domingos Rafael Alves, depois pertenceu ao filho Mário Benjamim Ramos Alves, que em 1920 a trespassou a uma sociedade. Os «pastéis» vieram à casa por compra do segredo da receita (outorgada em escritura), compra feita em 1879 a um tal José Vicente da Silva Pinto. A escritura não previa — «os plagiatos» da fórmula. [...] ¹ 

Rua de Belém [1916]
No piso térreo do 1º edifício à dir. vê-se a Farmácia Franco; ao fundo, o Mosteiro dos Jerónimos

Legenda da foto no arquivo: «Preparativos para o embarque das tropas que vão combater na Primeira Guerra Mundial»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente




 
Bibliografia
¹  ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 74-75, 1939.

Sunday, 9 December 2018

Chafariz de Belém (ou dos Golfinhos)

Ora vejamos o chafariz — recorda o ilustre Norberto de Araújo. É um exemplar interessante com seus dois planos ou peças independentes, realizando um conjunto decorativo neste Largo Frei Heitor Pinto, antigo Largo do Chafariz de Belém. No plano inferior (a Praça faz declive) assenta um tanque, em cujo espaldar se vê essa tradicional caravela, com a inscrição «Câmara Municipal de Lisboa. Ano de 1847»

Chafariz dos Belém (ou dos Golfinhos) |1939|
Antigo Largo do Chafariz, actual Largo dos Jerónimos; foi transferido para o Largo do Mastro c. 1947
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Chafariz de Belém (ou dos Golfinhos)  |1939|
Antigo Largo do Chafariz, actual Largo dos Jerónimos; foi transferido para o Largo do Mastro c. 1947
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

No segundo plano alto eleva-se propriamente o Chafariz, com seu obelisco e uma simpática expressão arquitectónica decorativa, para o qual se aproveitaram lavores escultóricos destinados a um projectado chafariz para o Campo de Sant'Ana [que não se chegou a construir], nomeadamente quatro golfinhos, obra do escultor António Gomes. Êste Chafariz substitue o «da Bola» que estava em ruína em 1837, ao qual atrás aludi, e que havia sido construído em 1611; fôra começado a construir em 1846 e inaugurou-se em 4 de Abril de 1848, havendo a Câmara de Lisboa comprado, para abrir o Largo, umas casas que neste sítio — «Chão Salgado», mas já não proscrito — existiam de pé por essa época.

Rua e Chafariz de Belém |1939|
Antigo Largo do Chafariz, demolido em 1939 —  assim como edifício de gaveto com nº 138 — para dar espaço à Exposição do Mundo Português de 1940.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Chafariz dos Belém (ou dos Golfinhos)
Desenho de Nogueira da Silv1830-1868), gravador Coelho

Segundo Velloso de Andrade, «os quatro Golfinhos, por onde corre a agua, estavam desde ha muito guardados em um telheiro a S. Pedro d' Alcântara, e alguém presume serem os tirados do Chafariz do Rocio; mas nós estamos persuadidos, que elles eram também pessas para o Chafariz do Campo de Santa Anna; 1.*, por que não davam idéa alguma de já terem servido; — 2.º por que na Planta do dito Chafariz , [...], também ali se vêem os mesmos Golfinhos.»
Em 1851, o chafariz n.º 23, tinha 4 bicas, 1 companhia de aguadeiros, 1 capataz e cabo, e 33 aguadeiros.
__________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 90-91, 1939.
ANDRADE, José Sérgio Velloso de, Memoria sobre chafarizes, bicas, fontes, e poços públicos de Lisboa, 1851.

Tuesday, 11 August 2015

Palacete da Casa Pia

Palacete romântico erigido na década de 1880 em terrenos então pertencentes à Cerca da Casa Pia, situava-se a poente do Mosteiro dos Jerónimos [vd. 2ª imagem], próximo da entrada do Museu da Marinha. Serviu de residência ao director da Casa Pia de Lisboa edificado por ordem do seu provedor, que até então habitava no 1º andar do corpo monástico. 

Praça do Império |190-|
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): esta imagem, assim como o local e data, não se encontram identificados pelo abandalhado arquivo municipal de Lisboa.
Praça do Império |1939-06-05|
Palacete onde residiu o director da Casa Pia de Lisboa, que foi demolido por causa da Exposição do Mundo Português.
Autor não identificado, in Lisboa de Antigamente

Foi deitado por terra em 1939-40 (vd. 2º imagem), vitima do «Ciclone Centenário», epíteto que ganharam na época as demolições realizadas na zona de Belém, por ocasião da «Exposição do Mundo Português».

Palacete Casa Pia, Praça do Império |c. 1930|
Fotografia aérea sobre o Mosteiro dos Jerónimos, parada militar vendo-se ao fundo
  o Palacete da Casa Pia a vermelho
.
Manuel Barros Marques, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 21 November 2021

Torre de Belém

Neste monumento, de maior beleza que imponência, há a considerar o Baluarte, avançado desde os extremos da frente Sul da Torre, com seis faces, e com cerca de 41 me­tros de comprimento, e a Torre, propriamente dita, vertical, com quatro faces regulares, e com cerca de 36 metros de altura.


A Torre de Belém, o mais belo monumento fortificado de todo o pais, ainda que reduzido hoje a um padrão de beleza, evocativo das glórias marítimo-militares, com reflexos dos descobrimentos e projecção da opulência quinhentista, data de 1515-1519-1521, anos respectivamente do começo da obra, da sua conclusão, e da investidura do seu primeiro alcaide-mor, Gaspar de Paiva. 
Realização do reinado de D. Manuel não resta dúvida de que foi concepção de D. João lI, destinada a defender a entrada do rio. O «Baluarte do Restelo», também chamado «Castelo de S. Vi­cente a-par de Belém». ou. simplesmente, «Torre de S. Vicente», foi executada por Francisco de Arruda, designado em 1516 o «mestre do baluarte do Restelo», lavrante de pedraria, pertencente a uma família de artistas que trabalharam em Tomar, na Batalha, nos Jerónimos, e na construção de fortalezas em Çafim e Azamor.

Torre de Belém  [c. 1866]
Antiga Praia do Restelo hoje Avenida de Brasília
Em  cada um dos vértices da face Norte uma guarita, com sua cúpula, igual às da muralha do baluarte; sobre estas dois nichos com baldaquinos, num dos quais se  vê a imagem escultórica de S. Miguel e noutro a de S. Vicente, padroeiro da Torre e da cidade de Lisboa; uma janela de perfil românico, à altura do primeiro andar; um lindo balcão, saliente da parede, apoiado em cachorros, com dois arcos assentes sobre três colunelos, com balaustrada e cúpula, no mesmo perfil do grande varandim da face principal; uma janela geminada sobre aquele  balcão.
Autor desconhecido, iin Lisboa de Antigamente

Parece incontroverso que a primeira traça ou desenho da fortaleza não foi de Francisco de Arruda, mas do cronista, também debuxador [o mesmo que desenhador], Garcia de Rezende, ainda no reinado de D. João II, e/ou, de Boytac, o insigne «mestre» dos Jerónimos, já no reinado de D. Manuel. Francisco de Arruda foi, porém, o grande arquitecto realizador desta obra, cujos planos, se os havia, ele interpretou, ou transformou na «mais graciosa, a mais elegante, e a mais encantadora das jóias cinzeladas sob a ins­piração das fantasias mouriscas» (Oliveira Merson: 1861).
A antiga fortaleza desenvolve-se, com inspiração nacional autónoma, nascida dos elementos construtivos gótico-romanos, a qual através das sugestões da Índia e da África mourisca, deram o manuelino, exuberante, neste monumento, de originalidade, de simbolismo e de fantasias, singularmente reguladas pelo poder contemporizador de Francisco de Arruda. Esteve o «Baluarte do Restelo» rodeado de água por todos os lados, até que o deslocamento do curso do Tejo o foi envolvendo de areias, prendendo-se à torre como uma nau de quinhentos encalhada, com a proa mergulhada no rio, A Torre de Belém tem expressão nacional, na evocação dos descobrimentos e dos feitos marítimos que se lhes seguiram, mas constitui também, nas suas particularidades históricas, um documento olisiponense, de formoso semblante e impecável beleza.

Torre de Belém e Forte do Bom Sucesso  [c. 1900]
Antiga Praia do Restelo hoje Avenida de Brasília
Em 1780 inicia-se a construção do forte, com projecto do engenheiro e general francês Vallerée (segundo o sistema do marquês de Montalembert); o mesmo ficava ligado à Torre de Belém por meio de um passadiço. Durante a ocupação francesa, em 1808, o general Junot determina que a bateria seja ligada à Torre de Belém por uma bateria corrida, chamada Bateria Nova do Bom Sucesso ou do Flanco Esquerdo.
Autor não desconhecido, in Lisboa de Antigamente

A iconografia do monumento é vastíssima. A sua crónica é dilatada, viva de glórias mas tam­bém testemunho de tristes factos políticos: baluarte recamado da simbólica e da mística portuguesa do mar; prisão do Estado, do século XVII ao XIX. Conta algumas vicissitudes; no tempo de Filipe II a Torre de Belém esteve pronta ser arrasada, a conselho de um arquitecto napolitano, Vicencio Cazale, que no lugar daquela jóia pretendia construir uma «grande fortaleza». Em 1780-82 foi a Torre de Belém ligada por um suporte de bataria, ao forte do Bom Sucesso, e quando, mais tarde, este forte passou a ficar isolado, a Torre sofreu em parte desmantelamento. No período das invasões francesas de 1807 a 1810, foram reduzidas as ameias e guaritas do baluarte a meia altura, e retirados os arcos do varandim e outros elementos decorativos. Em 1845, por efeito dos protestos de Almeida Garrett, e a esforços do Duque da Terceira, governador da Torre, foi o monumento reintegrado pelo engenheiro militar António de Azevedo e Cunha. Em 1865 foi nela colocado o farolim que só há poucos anos dali foi retirado, e em 1867 deu-se-lhe a vizinhança das instalações abarracadas e negras da fábrica do gás, e a sentinela obesa do gasómetro.

Torre de Belém e Fábrica de Gás de Belém e gasómetros (dir.)  [c. 1900]
Antiga Praia do Restelo hoje Avenida de Brasília
A  muralha envolvente,  hexagonal, com cerca de um quarto da altura da Torre, e 
nela: A guarda ameiada em escudos de Ordem de  Cristo; Seis guaritas (das oito que envolvem, decorativamente todo o monumento) no vértice das faces do polígono, com janela de vigia, apoio cónico, e cúpula golpeada de gomos, no estilo  bizantino; Dezassete frestas rectangulares, ou canhoneiros, abertas na  muralha um pouco acima do nível de água.
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

O monumento, constituído pela torre propriamente dita, quadrangular, e por um baluarte hex­agonal, que defende a torre por envolvimento e avança sobre o rio, forma uma peça de conjunto, na qual os elementos interdependem sem dispersão; desta sorte não comporta a anotação de espécie móveis ou soltas. Objecto de vários estudos, monografias criticas e descrições, a Torre de Belém está desde há muito inventariado em pormenor; pela sua unidade não admite neste trabalho mais que uma síntese de inventário.

Torre de Belém  [c. 1869]
Antiga Praia do Restelo hoje Avenida de Brasília
No  Baluarte há que  anotar o portal principal de acesso ao monumento, contíguo  pelo nascente ao envasamento da Torre, servido (actualmente) por ponte levadiça, ornado ao  gosto da Renascença, com arco lavrado de volta redonda, sobrepujado de escudo régio e de esferas armilares.
Jean Laurent Minier, iin Lisboa de Antigamente

N.B.  1982 — A Torre de Belém é classificada Monumento Nacional e Património Mundial (UNESCO)  2007 — Nomeada como uma das Sete Maravilhas de Portugal.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1944.

Saturday, 29 July 2017

Igreja dos Freires da Conceição Velha ou Conceição Velha (antiga da Misericórdia)

Ora bem, Dilecto — expressão com que habitualmente Norberto de Araújo interpela o leitor — mais tem que ver a Rua dos Bacalhoeiros, em 1755 designada Rua de Cima da Misericórdia, e depois, e até à dos Arameiros, aberta depois do Terramoto, chamada dos Confeiteiros.
E da Misericórdia, porquê? Porque no chão onde se eleva hoje um quarteirão de propriedades sólidas, entre as Ruas dos Bacalhoeiros e da Alfândega, se ergueu no começo do século de quinhentos a Igreja do Recolhimento da Misericórdia.
Pois metamos já por esta transversal da Rua dos Arameiros, e vamos ver o que resta desse templo manuelino, chamando, desde a segunda metade do século XVIII, da Conceição Velha. Quedemo-nos sob o majestoso pórtico. Duas breves notícias de história, que é simples, afinal.
   A instituição das Misericórdias foi obra, como já disse quando passámos pela Sé, e por S. Roque, da Rainha D. Leonor. A primeira Confraria, instalou-se na Capela de N. Senhora da Piedade, vulgo da Terra Sôlta no claustro ogival da Sé, em 15 de Agôsto de 1498.
   Prosperou a Confraria, ou seja a Misericórdia de Lisboa, reconhecendo-se pouco depois que a capela claustral da Sé era mesquinha para sede da instituição. D. Manuel, irmão da Rainha fundadora, viúva de D. João II, projectou, não se sabe ao certo o ano, mas seguramente depois de 1510, erguer neste chão — que era ocupado por vários edifícios públicos, como o Paço do Trigo, a Portagem, o Paço da Madeira — um majestoso templo e Casa para Misericórdia, a obra querida de sua irmã, inspirada por freire Miguel Contreiras.
   Era o tempo opulento da Índia e do Brasil, caracterizado pela sumptuosidade na arquitectura religiosa. A obra — templo, Recolhimento das Orfãs e Casas da Misericórdia — só se concluiu em 1534, tempo de D. João III, já havia falecido (1525) D. Leonor. A Igreja ostentava-se de três naves, sendo a abóbada apoiada ao centro por seis colunas monolíticas (de mármore?) e por mais catorze laterais, pilares de sustentação da cobertura; as casas anexas ocupavam quatro pavimentos.
   Obra notável era, de precioso recheio. Orientada no sentido poente-nascente, a porta principal com seu adro rasgava-se, de começo, para o Largo da Portagem, prolongamento, então da Rua da Padaria; a sua porta travessa, a sul, é hoje o portal desta Conceição Velha (já vou dizer, porque se chama Conceição Velha).

Igreja da Conceição Velha [ant. 1900]
À esquerda, a Rua dos Arameiros em direcção ao Campo das Cebolas
Rua da Alfândega, 112-114 
Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

   Veio o Terramoto. Aluiu e incendiou tudo. Do templo escaparam este pórtico magnífico, a Capela do Espírito Santo, hoje Capela-mor, e uma ou outra imagem.
   D. José ordenou que se reedificasse a Igreja, mas a Misericórdia andou de empréstimo por aqui e por ali, até que ocupou a Casa dos Jesuítas de S. Roque.
   A nova igreja, já num estilo bastardo da arquitectura religiosa, cujo risco é de Francisco António Ferreira, o «Cangalhas», foi entregue aos freires de Cristo de Nossa Senhora da Conceição, cuja Casa e templo haviam ardido também.
   Aquela Igreja da Conceição [vd. gravura] que ocupava uma antiga sinagoga dos judeus, situava-se próximo à Madalena, caindo sobre a actual Rua dos Fanqueiros junto ao quarteirão cujas traseiras são a Rua dos Douradores; fora N. Senhora da Conceição dada aos freires de Cristo em troca da Ermida do Restelo, derrubada para se erguer os Jerónimos, e chamava-se, por oposição, «a Velha» (paroquial em 1568), porque em 1698 se construíra outra sede paroquial de N. S. da Conceição «Nova» — desaparecida também pelo, Terramoto — e que se localizava onde passa hoje a Rua da Prata, segundo quarteirão do sul, então Rua Nova dos Ferros.
   E como foram os freires da Conceição Velha que para a antiga Misericórdia vieram em 1770, esta Igreja que temos à vista se passou também a chamar da Conceição Velha.
   Falta dizer que nunca estes chãos foram de sinagoga e de judeus, (como anda escrito), ou sítio de uma Vila Nova de Gibraltar, que nunca existiu, versão esta que corre derivada de um dos raros erros do grande Herculano, e que mestre Vieira da Silva teve a felicidade de poder desfazer, sem deixar qualquer espécie de dúvida.
Ficaste sumariamente a par do que isto foi, e como e porque foi.

Vista de Lisboa [1598?-1610?]
(clicar para  ampliar)
Olissippo quae nunc Lisboa, civitas amplissima Lusitaniae ad Tagum, totius orientis... emporium nobilissimum
Autores: Georg Braun, gravador (1542-1622) e Franz Hogenberg, geógrafo (1535-1590)
Esta gravura, colorida à mão e gravada em cobre, faz parte da colecção "Civitates Orbis Terrarum" publicada entre 1572 e 1618. Representa  a cidade de Lisboa com Armas Reais e as Armas de Lisboa ladeando uma rosa dos ventos e com os edifícios e espaços públicos numerados correspondente a uma legenda na parte inferior e superior..

Assinalados no mapa: 
Antiga Igreja da Misericórdia, actual Conceição Velha
Primitiva Igreja da Conceição
Terreiro do Paço, actual Praça do Comércio
Sé Patriarcal de Lisboa

Agora contempla o Pórtico — antiga porta travessa lateral —, obra de peregrinos lavrantes da pedra: ali tens, sobre a porta geminada, dentro do arco, o quadro escultórico, pormenor largo historiado desta bela peça arquitectónica, e que representa N. Senhora da Misericórdia, de manto aberto [sustido por dois anjos], tendo de joelhos, a seus pés, de um lado D. Manuel, D. Leonor, e alguns príncipes, e do outro o Pontífice Leão X, freire Miguel Contreiras — o inspirador das Misericórdias —, e algumas figuras da Igreja. Este quadro admirável esteve retirado deste seu lugar, desde 1818 a 1880, substituído por uma grade iluminante da Igreja, e colocado numa capela da nave, então de N. Senhora das Mercês.

Igreja da Conceição Velha, aguarela [s.d.]
Pórtico de estilo manuelino
Rua da Alfândega, 112-114 
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

De cada um dos lados do Pórtico rasga-se uma formosa e decorativa janela, avolumando a beleza deste conjunto plástico, que o frontão alto de remate avilta até à mesquinhez.
Como observas, esta peça solta de arte, encravada entre prédios vulgares do século passado [XIX], é de puro estilo manuelino, do tipo dos pórticos dos Jerónimos, posto que menos grandioso e exuberante.
A-pesar-de, aparte o pórtico, a Conceição Velha não ser famosa, ela merecia mais dilatada visita; se deste templo mais quiseres saber recomendo-te o livro «A Igreja da Conceição Velha», de Filipe Nery de Faria e Silva (1900).

Igreja da Conceição Velha [c. 1940]
Capela de Nossa Senhora do Restelo ou do Parto, quadro
oferecido pelo Infante D. Henrique aos freires.
Rua da Alfândega, 112-114 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Vejamos agora o templo no seu interior — prossegue o autor das Peregrinações — obra do final de setecentos, cuja torre sineira se encrava em propriedades particulares. (...)
À direita vemos a Capela de N. Senhora do Restelo  [vd. imagem acima], ou do Parto — pela circunstância de a Virgem, sentada numa cadeira (esta de madeira) ter o Menino Jesus nu sobre os joelhos. Esta imagem, em pedra pintada, é o venerando monumento dêste templo, relíquia da imaginária religiosa portuguesa; pertenceu à primitiva Ermida de N. Senhora do Restelo, doada em 1460 pelo Infante D. Henrique aos freires de Cristo, e adveio de Sagres onde o Infante teve sua Casa, sendo por consequência anterior à Ermida, podendo atribuír-se-lhe meio milhar de anos de idade (há receio de se lhe tocar por correr o perigo de se desfazer).
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 16-19, 1939.
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