sexta-feira, 8 de março de 2019

Rua do Vale de Santo António: Ermida da Assunção

Pois já agora tomemos o caminho do popular e pitoresco Vale de Santo António — convida Norberto de Araújo — , esta inclinada artéria que vai de Sapadores ao Caminho de Ferro. Esta Rua, então sítio, chamava-se há duzentos ainda, Vale dos Cavalinhos, não sendo com certeza, então, mais do que uma estrada, mas já definida em rua na sua parte baixa, isto é: do mar. A rua deve a seu nome à Ermidinha de Santo António [vd. 2.ª foto], esta à direita subindo, de culto popular muito intenso há alguns anos.

Rua do Vale de Santo António |1945|
À esq., a  Rua do Outeirinho do Mirante
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

A Capela do Vale de Santo António, também conhecida por Ermida de Santo António do Vale e Nossa Senhora da Assunção, foi construída na 2ª metade do século XVIII, no local onde, segundo a tradição, descansou Santo António quando se dirigia ao Tejo, vindo do Convento de São Vicente, para embarcar para o Norte de África. É um pequeno e modesto templo, encravado entre o casario, cujo interior ostenta grande riqueza azulejar. Traduz um exemplo dos mais interessantes da arquitectura das igrejas pequenas posteriores ao Terramoto, valendo pelo seu interior, decorado com altos lambris de azulejos de contornos recortados formando uma série de painéis historiados, a branco e azul com moldura polícroma, datados do terceiro quartel do século XVIII. Os painéis da direita, do lado da Epístola, narram milagres de Santo António, enquanto os da esquerda, do lado do Evangelho, retratam cena da vida de Nossa Senhora.

Ermida de Santo António e Nossa Senhora da Assunção |1942|
Rua do Vale de Santo António, 84
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto, «Peregrinações em Lisboa», vol. VIII, p. 28, 1938.
cm--lisboa.pt.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Igreja de Santa Cruz do Castelo

A igreja de. Santa Cruz do Castelo nada tem em arquitectura que a torne notável. Situa-se no Largo do mesmo nome, com a fachada para o Poente. A capela-mor encosta-se à muralha do Castelo, servindo uma das torres da cerca de base à torre sineira.


A Igreja de Santa Cruz do Castelo é uma reconstrução ao século XVIII, após o Terramoto. A primitiva igreja denominava-se de Santa Cruz de Alcáçova, e segundo tradição verosímil foi fundada por D. Afonso Henriques depois da conquista de Lisboa, em 1147, e instalada no local onde existia uma mesquita moura, certamente transformada em templo cristão. A igreja já aparece citada numa escritura de Maio de 1168, o que não implica que não tivesse existido antes. 
A denominação de Santa Cruz do Castelo é ainda do tempo do primeiro Rei, embora as «Inquirições» de 1248 e 1279 a designem ainda por Santa Cruz da Alcáçova; ela teria de seu começo, invariavelmente, as duas denominações.

Fotografia aérea da zona da Costa do Castelo e do Castelo de São Jorge antes das obras de remodelação, vendo-se ao centro, a Igreja de Santa Cruz do Castelo [1938] 
Pinheiro Correia, in Lisboa de Antigamente

A igreja recebeu sem dúvida transformações, ampliações e restauros no decorrer dos séculos, mormente no século XVI, depois do sismo de 1681. No segundo quartel do século XVII a igreja tinha, segundo Coelho Gasco, uma porta principal e outra travessa, esta sobre um adro muito grande, mas no final desse século, segundo Carvalho da Costa, já existiam três portas, a principal voltada ao Sul e as outras a Poente e a Nascente (resultado das obras anteriores a 1699?) e o corpo da igreja ostentava três naves. Seis anos antes do cataclismo foi sujeita a novos restauros. 
O Terramoto arruinou muito a igreja, que teve de ser reconstruida sob diversa traça, come­çando as obras em 1776 — data inscrita na actual porta principal — mas não se encontrando concluídas em 1783, pois nesse ano as paredes estavam levantadas só até à cimalha e apenas a capela-mor já coberta. 
A paróquia, que data da fundação da igreja, abrangia e abrange o recinto murado do bairro do Castelo. 

Igreja de Santa Cruz do Castelo, fachada e torre sineira [c. 1900]
Largo de Santa Cruz do Castelo
 Foi nesta igreja que tradicionalmente se baptizaram os filhos dos monarcas que habitavam o antigo
Paço da Alcáçova, no castelo de São Jorge.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Na igreja estão expostas numerosas telas representando Santos e vários Cartu­xos, todas dos séculos· XVII e XVIII, de me­diana pintura e cuja proveniência se ignora. As duas imagens de maior valia são as de S. Jorge, que figurava na tradicional pro­cissão, e o Crucifixo do altar-mor, venerado,segundo a tradição, na capela real do paço da Alcáçova e que, conforme a tradição tam­bém, dirigia a palavra à rainha Santa Isa­bel.

Igreja de Santa Cruz do Castelo, interior: nave e capela-mor [c. 1945]
Largo de Santa Cruz do Castelo
 O retábulo de tábua existente no Altar-Mor, proveniente da desaparecida Ermida do Espírito Santo, é do séc. XVII, tem feição maneirista, sofreu acrescento para cobrir as dimensões do retábulo, representa a "Descida da Cruz" sendo de autoria desconhecida.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

N.B. A primeira irmandade de S. Jorge foi fun­dada, diz-se, pelos Ingleses, na igreja dos Már­tires, no meado do século XII, trasladando-se depois para S. Domingos (1241) e. fundado o Hospital real de Todos os Santos, para ele (final do século XV). Fixou-se em Santa Cruz depois do Terramoto. A procissão do Corpo de Deus, onde a representação de S. Jorge tinha o papel principal, vem do reinado de D. Afonso III. Teve duas épocas de renome: o século XV, pelo pito­resco, o reinado de D. João V pelo fausto.

Igreja de Santa Cruz do Castelo [ant. 1955]
Largo de Santa Cruz do Castelo
 Capela de S. Jorge e da Senhora do Rosário
 
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1955.

domingo, 3 de março de 2019

Travessa de André Valente: Casa onde morreu o poeta Bocage

Deixemos à direita a Rua do Século, antiga e ressonante Rua Formosa — diz Norberto de Araújo — à qual voltaremos no cabo deste capitulo de jornada, e paremos um minuto só na esquina da Travessa de André Valente


Foi este André Valente, que o dístico em azulejo policromo da travessa, no vértice do seu cotovelo, dá como jurisconsulto do século XVI, um doutor em leis formado em Coimbra, vereador da Cámara de Lisboa, e Desembargador da Casa da Suplicaçâo, e, além do mais, muito rico, que viveu na metade de quinhentos e deixou o mundo por volta de 1627.
Este grande prédio, que em 1936 recebeu bemfeitorias interiores e exteriores, foi seu palácio e dêle deriva o nome da Travessa. [...]
 No recanto que faz a travessa [ao fundo na 1.ª foto] , há um pátio alindado à maneira joanina, com um prédio da mesma reconstrução, e que é desde 1923 propriedade do Dr. José da Arruela (marido da Sr* D. Ana Arnoso), por compra aos Condes da Figueira, o que nos leva a crer que nem toda a Casa deste sítio de D. Maria José de Melo se desmembrou da Casa Figueira. (Ainda hoje lhe chamam o «Pátio Figueira»).

Travessa de André Valente [c. 1940]
Perspectiva tomada da Rua de O Século
Casa onde morreu o poeta Bocage e, ao fundo, o «Pátio Figueira»
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Repara nesta portazinha [canto inferior direito], ainda de feitio primitivo sob a traça do século passado, do prédio n.° 25: foi nele que morreu o poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, em 1805, facto que a lápide sobre a verga da porta comemora.
Quantas vezes a figura esguia e volteira de Manuel Maria por aqui teria passado? E quantas agruras, nos últimos anos da sua vida, ali consumiu o poeta, pobre, desiludido, estafado de amores, sem paz, naquele primeiro andar onde agora espreita o vulto de uma «vizinha»l
Pois morreu aqui; foi sepultado num cemitério pequenino, cujo sítio havemos de ver na «Peregrinação seguinte, ali na esquina da Rua dos Caetanos e Travessa das Mercês.

Travessa de André Valente, 25 [1905]
Descerramento da lápide comemorativa (à esq.) do falecimento do poeta Bocage
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente    

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 29-31, 1938.

sexta-feira, 1 de março de 2019

Lojas de antanho: Armazéns Old England

A minha mãe — a da Alice Vieira, não a minha! — vai à abertura da estação do Old England, na Rua Augusta, como outras pessoas vão à abertura da temporada no São Carlos: enfia um vestido verde que só usa em ocasiões especiais, mitenes e um chapelinho em cima dos bandós.
A Rosa arranja a mesa da casa de jantar, com pratinhos de bolachas Marselhesa e um bule de chá de tília, para ela se sentir mais reconfortada no regresso, não esquecendo a garrafinha de Anisette, porque não há nada como um cálice de licor para uma pessoa ter alma nova.

Armazéns Old England [190-]
Rua Augusta, 109-111 (lado ocidental) esquina com a Rua de São Nicolau, 66-72

Joshua Benoliel,
in Lisboa de Antigamente

Então, quando a minha mãe regressa das compras, senta-se à mesa, com ar de imensa felicidade, e murmura, como se recitasse:
«Toda a elegância se curva diante do Rei da elegância»
É assim que vem nos anúncios dos jornais, e quando os leio, penso sempre se, no dia em que vier a República, o anúncio passará a ser «Toda a elegância se curva diante do Presidente da elegância»...
E, depois de uns minutos de silêncio, a minha mãe acrescenta:
«A loja merece bem o reclame.»
E ataca as bolachinhas.
E o licor.¹

Publicidade aos Armazéns Old England [1905]
Rua Augusta, 109-111 (lado ocidental) esquina com a Rua de São Nicolau, 66-72
in Serões: revista mensal ilustrada

Bibliografia
¹ VIEIRA, Alice, Diário de um adolescente na Lisboa de 1910, 2016.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Sítio de São Roque: Palácio Niza

Estamos no cérebro do Bairro Alto — diz Norberto de Araújo. Temos andado à roda do Bairro, sem penetrarmos no seu íntimo: em verdade só tenho querido evitar atropelos, em matéria de si tão entroncada de assuntos, tão xadrezada de motivos ornamentais da sua história.

Neste Largo de S. Roque-que desde 8 de Outubro de 1913 se passou a chamar «de Trindade Coelho» — é lugar de discorrermos — sem perdermos dez minutos — acerca [...] do edifício moderno, anexo da Misericórdia, com face para o Largo, e que se continua nos três primeiros lanços da Calçada do Duque.


Foi D. Francisco da Gama, 2." Conde da Vidigueira, quem aqui fez erguer o desaparecido Palácio Niza, em 1543, sobre chãos que a Câmara Municipal lhe aforou. O palácio era mais avançado do que hoje é.
A Casa solarenga foi dos descendentes de Vasco da Gama até 1631, ano em que, assoberbados de dividas, a venderam a Gaspar Freire, fidalgo da Casa Real. Mas logo quatro anos depois D. Vasco Luiz da Gama, 5.º Conde da Vidigueira, 1.º Marquês de Niza, voltou a adquirir o Palácio, que recebeu obras e beneficiações em 1672, para o que aquele fidalgo, que foi diplomata e Secretário de Estado de D. Pedro II, enquanto Regente — e não era opulento — precisou de vender umas casas que tinha na Rua Nova (dos Mercadores).
Em 1689 os Nizas não habitavam o seu Palácio de S. Roque, e nele residia o Embaixador de Franga Robert. Le Roux. Quando do Terramoto, o Palácio era a habitação faustosa do 1.º Patriarca de Lisboa. D. Tomaz de Almeida (que nele morreu); a permanência do famoso Prelado de Lisboa foi grande no Solar Niza, de S. Roque, e ao pátio chamava o povo «o Pátio do Patriarca».
O Terramoto .arruinou o edifício, e os fidalgos Gamas não estiveram dispostos — como aliás quási todos os propriet6rios de palácios em Lisboa — à reedificação, muito dispendiosa, sobretudo pela falta de braços.
Em 1814, num antigo palheiro da Casa, começou a funcionar um curioso «Teatro Pitoresco», no qual se representou, por amadores, o «Catão» de Almeida Garrett, e se deu o primeiro baile de máscaras público da capital. 

Sítio de São Roque: Palácio Niza [c. 1895]
Largo Trindade Coelho (Jurisconsulto e Escritor, 1861-1908); antes Largo de São Roque
À esq. a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, fundada em 1498 e. ao centro, antiga Companhia de Carruagens Lisbonenses; ao centro vê-se Coluna mandada erguer pela colónia italiana, comemorando o casamento do 
Rei Dom Luís I com Dona Maria Pia de Sabóia em 1862.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O edifício, cada vez mais arruinado, ameaçava desmoronar-se; entrou a ser pardieiro, como tantos. Em 1835 a Câmara Municipal intimou a Marquesa, D. Eugénia da Gama, à demolição urgente. Mas a nobre dama vendeu, por comodidade, tudo quanto possuía neste sitio a Francisco Caldas Aulette, dicionarista, contador da Relação, pessoa culta e de bom gosto; a transferência de propriedade fez-se a 17 de Maio de 1837. Recompôs-se então o Palácio na parte de seu fundo, encostando à Calçada do Duque, com entrada no pequeno Largo defronte da Rua da Condessa. Em 1863, Ant6nio Florêncio dos Santos adquiriu a Aulette, para a sua Escola Académica, de bom nome alfacinha, a parte do edifício sobre o Largo da Rua da Condessa, e a extinta Companhia de Carruagens [Lisbonenses] comprou o edifício, com seu pátio sobre S. Roque.
Quando em Lisboa os trens entraram em desuso, a Companhia meteu em S. Roque — onde alardearam coches principescos e episcopais — os automóveis de «remise». Foram de há vinte anos [c. 1918]. No primeiro andar do prédio, com frente para o Largo, instalou-se em 1917 um jornal, de nomeada em Lisboa pelo seu feitio literário e noticioso, «A Manhã», de que foi principal fundador e animador o distinto jornalista Luiz Derouet, embora a direcção estivesse a cargo de Mayer Garção; êste jornal acabou em 1922. Por essa época liquidou também a Companhia de Carruagens, e o prédio foi adquirido por Deniz M. de Almeida que tomou o activo e passivo da Companhia. Foi êste capitalista quem em 1926 vendeu à Misericórdia de Lisboa o que restava, desfigurado em absoluto, do antigo Palácio Niza.
E logo em 1927 a Companhia Portuguesa de Caminhos de Ferro adquiriu o edifício da Escola Académica, transferida para o Monte Agudo, à Penha de França, onde ainda se mantém.
As obras de adaptação aos serviços da Misericórdia sabre fundamentos antigos, e aproveitando as paredes do Largo e da Calçada, foram dirigidas pelo construtor Touzé, sob o risco do arquitecto Tertuliano Marques.

Sítio de São Roque: Palácio Niza [1920]
Largo Trindade Coelho (Jurisconsulto e Escritor, 1861-1908); antes Largo de São Roque
Legenda foto arquivo: «Lotaria do Natal no largo de São Roque, actualmente Largo Trindade Coelho»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

E sabre o Palácio Niza — de que tanto havia a dizer da época em que foi residência prelatícia, e do tempo em que foi sede de um dos mais interessantes jornais que tem havido em Portugal — nem mais palavra.
No muro que divide, actualmente, o edifício da Misericórdia daquela sede de escritórios da C. P. — no qual corria um lanço da muralha de D. Fernando, cuja relíquia está de pé-ainda existe uma lápide, que não se vê da rua, e que diz: «Êste lanço do muro que El-Rei D. Fernando acabou em 1413 foi conservado e reparado por Francisco José Caldas Aulete em 1840». 1413 — é a era, e que corresponde ao ano de 1375. Ainda há semanas vi a lápide, que chegou, a andar perdida durante obras no edifício

N.B. Da Misericórdia de Lisboa, falaremos numa próxima peregrinação.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 81-87, 1938.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Aeroporto Humberto Delgado (antigo da Portela)

Estivemos no ar outras nove horas e dez minutos e baixamos em Lisboa, no Aeroporto "Portela de Sacavém", distante cinco quilómetros da cidade. Sendo noite, apenas vimos a iluminação forte e profusa. Em terra, deparamos com uma pequena, porém bem apresentada, estação de embarque, com mobiliário moderno e cromado, várias folhagens junto às mesas e janelas, e muito asseio. Apenas descontentou-nos a deficiência de instalações sanitárias, e a morosidade em servir no restaurante, facto que se repetiu na volta.¹


Humberto Delgado nasceu a 15 de Maio de 1906 em Boquilobo, Torres Novas. Cedo ingressou na carreira das armas, frequentando o Colégio Militar entre 1917 e 1922 e a Escola do Exército, onde se formou em Artilharia em 1925. Participou no golpe militar de 28 de Maio de 1926 que depôs o regime republicano. Em 1928 optou pela carreira da Aeronáutica obtendo o curso de oficial piloto aviador. Em 1936 conclui o curso de Estado-Maior. 

Panorâmica sobre o Aeroporto da Portela de Sacavém [1958-09]
A partir de 15 de Maio de 2016 passou a designar-se Aeroporto Humberto Delgado
Na pista distinguem-se aviões Super Constellation.
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Em 1944 é nomeado director do Secretariado de Aviação Civil. Em 1945 funda os Transportes Aéreos Portugueses (TAP) e cria as primeiras linhas aéreas de ligação com Angola e Moçambique, a chamada "Linha Imperial", inaugurada em 31 de Dezembro de 1946.
Em 1952 é nomeado adido militar na Embaixada de Portugal em Washington e membro do comité dos representantes militares da NATO. Promovido a general com 47 anos é o mais novo oficial daquela patente. Em 1956 o Governo Americano concedeu-lhe o grau de oficial da Legião de Mérito.
Em 1958, acedendo ao convite da oposição democrática, apresentou-se como candidato independente às eleições presidenciais. O mote da campanha eleitoral foi lançado pela célebre frase "Obviamente demito-o", numa conferência de imprensa no Café Chave d'Ouro em Lisboa , a 10 de Maio de 1958, em resposta a um jornalista da "France Press" que lhe pergunta qual o destino que daria a Salazar no caso de ganhar as eleições.

Aeroporto da Portela de Sacavém [1958-09]
A partir de 15 de Maio de 2016 passou a designar-se Aeroporto Humberto Delgado
Parque de estacionamento
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

O "General Sem Medo", como ficou celebrizado, teve de se exilar (primeiro no Brasil, depois na Argélia), nunca tendo no entanto deixado de dirigir acções contra o regime.
Foi assassinado pela polícia política (PIDE) em 1965, perto de Badajoz, apesar de o regime nunca ter assumido oficialmente as responsabilidades. Contudo, a sua luta não foi em vão: a opinião pública que o apoiava tornou-se num grave problema para a política de Salazar.
Em 1990, dezasseis anos após o 25 de Abril de 1974 que restaurou a democracia em Portugal, o general Humberto Delgado foi postumamente elevado a marechal da Força Aérea e os seus restos mortais trasladados para o Panteão Nacional.²

Aeroporto da Portela de Sacavém [1952]
A partir de 15 de Maio de 2016 passou a designar-se Aeroporto Humberto Delgado
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

N.B. O Aeroporto da Portela, projectado pelo Arq.º Francisco Keil do Amaral, sendo a direcção da obra do Eng.º Duarte Pacheco, foi inaugurado a 15 de Outubro de 1942.

Aeroporto da Portela de Sacavém [1952]
A partir de 15 de Maio de 2016 passou a designar-se Aeroporto Humberto Delgado
Varanda do bar do Aeroporto da Portela, na pista distinguem-se aviões Super Constellation. 
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ PEREIRA, Osny Duarte, Juizes brasileiros atrás da cortina de ferro, 1952.
²  bnportugal.pt.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Lojas de antanho: Casa João Pedro

A Rua é «da Misericórdia» — que fica no Largo, que não é da Misericórdia; foi do «Mundo», que já não há. E foi Rua de S. Roque. [Araújo: 1938]


Esta artéria tinha-se denominado Rua do Mundo (1910), para perpetuar o nome do jornal que estava sediado neste arruamento e ainda antes designava-se Rua de São Roque (1889), e inicialmente Rua Larga de S. Roque, em memória da Igreja e Convento de São Roque que era também o topónimo inicial de Bairro Alto de São Roque. [cm-lisboa.pt]

Rua da Misericórdia, 41-43 [1929]
Casa João Pedro, Mercearias Finas
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Sé de Lisboa: Fachada

A igreja da Sé — orago de N. Senhora da Assunção — é o único monumento sacro, de fundamento românico, existente em Lisboa, e, com exclusão do Castelo, o mais antigo documento monumental da cidade.


Estamos diante da , Dilecto companheiro, monumento nacional por excelência, e, certamente, o mais antigo de Lisboa.
Esta fachada, com o seu ar vetusto, o seu semblante romântico, a sua patine desigual, sinal dos restauros e das transformações — é só por si um interessante documento de arquitectura religiosa, medieval, e ajusta-se à índole portuguesa "forte, rude, crente e sem requinte", no dizer de Reinaldo dos Santos.

Sé de Lisboa [1893]
Largo da Sé
A fachada da Sé antes das intervenções de Augusto Fuschini e António do Couto Abreu: em comparação com a actual, note-se a ausência de ameias e a diferença drástica da rosácea e do pórtico.
António Novais, 
in Lisboa de Antigamente

Até há meia dúzia de anos [c. 1932] esta fachada não era bem como hoje a vês. Deves talvez lembrar-te ainda do pórtico gradeado avançado ao nível do corpo do edifício; do adro mais elevado do que o de hoje, guarnecido por uma cortina [e gradeamento]; do corpo central entre torres, na frente do terraço onde hoje avulta uma bela rosácea recuada, e que constituía o fundo do coro alto da Igreja, com um grande óculo em caixilho de ferro envidraçado e duas desgraciosas janelas também envidraçadas; das janelas mesquinhas nos corpos laterais onde assentam as torres, janelas hoje substituídas por outras românicas geminadas, uma de cada lado. Aquela fachada anterior à actual foi obra dos restauros desassisados do fim do século XVII que tiraram ao monumento a sua importância e até o seu carácter. E deves recordar-te também de uma pirâmide de cimento armado que até há poucos anos existiu sobre o eirado da torre Norte [vd. 2ª foto], que é esta que faz esquina para a Rua do Arco do Limoeiro.

Sé de Lisboa, vista da Rua Pedras Negras [1929]
Largo da Sé; Capela de São Bartolomeu Joanes sobre a  Rua Augusto Rosa
«Naquela torre do Norte, já no período das obras deste século [XX], colocou-se uma guarita 
oitavada
, de cimento armado, e que há poucos anos foi, como disse, demolida.»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Este é, companheiro Dilecto, o templo fundado pelo Rei Afonso Henriques em 1147, logo depois da tomada de Lisboa.
Se ele assenta, como muitos supõem, sobre a antiga mesquita moura, não o sei eu, pois nem um vestígio único aparece que o indique. E muito menos se pode saber se essa mesquita, a existir, teria assentado sobre algum templo cristão visigodo, do período que antecedeu a dominação muçulmana. Fiquemos no seguro: em que a Sé é de Afonso Henriques, templo começado logo em 1147, e cujas obras se prolongaram por outros reinados. Embora o nosso primeiro rei tivesse vivido até 1185, não é muito de crer que dentro do seu tempo o templo se tivesse concluído, “em definitivo", preocupados como andavam o monarca e os homens bons com as guerras militares e políticas.
A mesquita moura, que seguramente existia, era a do Castelo. depois Igreja de Santa Cruz, logo entregue ao primeiro bispo de Lisboa, o inglês D. Gilberto de Hastings.

Sé de Lisboa [c. 1895]
Largo da Sé
Note-se o  adro mais elevado guarnecido por uma cortina [e gradeamento]
«O adro antigo desapareceu, no seu aspecto do século passado, pclas necessidades do 
trânsito e até porque se verificou, nos estudos de reconstituição e escavações, que o seu 
pavimento ficava a um nível mais baixo, cerca de um metro e meio.»
Imagem anónima, in Lisboa de Antigamente

Deu-se o Terramoto de 1755. Apesar da ruína exterior não ter sido tão grande como alguns escritores podem fazer crer, caiu a altiva tôrre sineira — magestosa indicação do espírito religioso dominante, com a sua dupla ordem de pavimentos janeladose na sua queda provocou irreparáveis estragos.
A planta da Sé, levantada em 1882, demonstrava bem que o «monumento nacional» — classificação de 10 de Janeiro de 1907 e 16 de Junho de 1910 — era um caos. O engenheiro Augusto Fuschini, mais artista que arqueólogo da arquitectura, foi o primeiro impulsionador do restauro da Sé (1899-1911), seguindo-se na direcção das obras, quási imediatamente à morte de A. Fuschini, o arquitecto António do Couto [Abreu] (Agosto de 1911 à actualidade), cuja cultura técnica firme e probidade, orientadas superiormente pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, lograram a conclusão das obras (1939-1940), na reintegração do monumento, no seu possível semblante romântico e gótico, ·reaparecendo a Sé, quer no exterior quer no interior, nas suas nobres linhas arquitectónicas da fábrica primitiva (apenas a Capela-mor, e a Capela do Santíssimo se conservam no gosto setecentista do restauro).

A Sé vista de avião [1938]
Largo da Sé e Rua Pedras Negras (à esq. em baixo), Rua Augusto Rosa (antiga do Arco do Limoeiro); Cruzes da Sé (à dir.); no primeiro plano vê-se a Igreja de Santo António de Lisboa; no edifício da Sé distinguem-se ao fundo o Claustro, e ao centro a base da desaparecida torre sineira.
«[...] Estas torres [Sé], primitivamente, não tiveram sinos, os quais se situavam na tôrre sineira, sôbre a cúpula do cruzeiro, e que o terramoto arrazou. [...]»
Pinheiro Correia, 
in Lisboa de Antigamente
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1944.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 31-35, 1938.
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