Acordei um pouco antes do meio-dia, quase a chegar a Lisboa. Era impossível pensar em almoçar e mal tive tempo de me aproveitar rapidamente do meu gabinete de toilette e do belo equipamento da minha mala de crocodilo. Não voltei a ver o professor Kuckuck na confusão da descida, nem na praça em frente do edifício da estação, de inspiração mourisca, onde segui o carregador até uma tipoia descoberta. [Thomas Mann (1875-1955). As Confissões de Félix Krull. 1895]
Na noite de 7 de Março de 1914 Fernando Pessoa, poeta e fingidor sonhou que acordava. Tomou o café no seu pequeno quarto alugado, fez a barba e vestiu-se com esmero. Enfiou a gabardine, porque lá fora chovia. Quando saiu faltavam vinte minutos para as oito, e às oito em ponto estava na Estação do Rossio, na plataforma do comboio com destino Santarém.[António Tabucchi. «Sonho de Fernando Pessoa, poeta e fingidor» Sonho de Sonhos, 1914]
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Estação do Rocio que foi «da Avenida» |1899| Em frente do edifício da estação de inspiração mourisca. Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente |
Neste comboio toda a gente vai a Paris ou para lá regressa e, mais que Sud-Express ou Paris-Lisboa, «Cais de Orsay-Rossio» é que ele devia chamar-se como comboio que é, o belo comboio-cama que tomamos nas imediações do Palácio da Legião de Honra e deixamos à entrada do Rossio, a grande praça central de Lisboa a dois passos da Avenida da Liberdade, a dez minutos do Terreiro do Paço cujas escadarias descem à água do Tejo.[Valery Larbaud. «Escrito numa carruagem do sud-express». in Portugal de fora para dentro, 1927]
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Estação do Rossio |c. 1950| Praça Dom João da Câmara, antigo Largo de Camões. Os autocarros AEC Regal III da Carris começaram a circular em 1948-49. Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente |