Friday, 4 April 2025

Estação do Rocio que foi «da Avenida»

Acordei um pouco antes do meio-dia, quase a chegar a Lisboa. Era impossível pensar em almoçar e mal tive tempo de me aproveitar rapidamente do meu gabinete de toilette e do belo equipamento da minha mala de crocodilo. Não voltei a ver o professor Kuckuck na confusão da descida, nem na praça em frente do edifício da estação, de inspiração mourisca, onde segui o carregador até uma tipoia descoberta. [Thomas Mann (1875-1955). As Confissões de Félix Krull. 1895]

Estação do Rossio que foi «da Avenida» ou «de Cintra» |c. 1889|
A Estação Central da C. P. do Rossio — traço do arq.º Luiz Monteiro — começada a construir em 1887 é inaugurada em 11 de Junho de 1890, mas já em 8 de Abril de 1889 pelas 6 da tarde chegava ao Rocio a primeira máquina com um vagão, vindo de Campolide.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na noite de 7 de Março de 1914 Fernando Pessoa, poeta e fingidor sonhou que acordava. Tomou o café no seu pequeno quarto alugado, fez a barba e vestiu-se com esmero. Enfiou a gabardine, porque lá fora chovia. Quando saiu faltavam vinte minutos para as oito, e às oito em ponto estava na Estação do Rossio, na plataforma do comboio com destino Santarém.
[António Tabucchi. «Sonho de Fernando Pessoa, poeta e fingidor» Sonho de Sonhos, 1914]

Estação do Rocio que foi «da Avenida» |1899|
Em frente do edifício da estação de inspiração mourisca.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Estação do Rocio que foi «da Avenida» |1908|
«Cais de Orsay-Rossio» é que ele devia chamar-se.
Observam-se uns quantos eléctricos e carroças, um cavaleiro, os peões domingueiros e um dos raros automóveis existentes em Lisboa na época.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Neste comboio toda a gente vai a Paris ou para lá regressa e, mais que Sud-Express ou Paris-Lisboa, «Cais de Orsay-Rossio» é que ele devia chamar-se como comboio que é, o belo comboio-cama que tomamos nas imediações do Palácio da Legião de Honra e deixamos à entrada do Rossio, a grande praça central de Lisboa a dois passos da Avenida da Liberdade, a dez minutos do Terreiro do Paço cujas escadarias descem à água do Tejo. 
[Valery Larbaud. «Escrito numa carruagem do sud-express». in Portugal de fora para dentro, 1927]

Estação do Rossio |c. 1950|
Praça Dom João da Câmara, antigo Largo de Camões.
Os autocarros AEC Regal III da Carris começaram a circular em 1948-49.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Tuesday, 1 April 2025

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio (1916-1959)

O Chave d'Ouro foi não só o maior, mas também um dos mais emblemáticos cafés e salões de chá do século XX lisboeta, orgulhando - se na imprensa de fazer o chá e o café com água do Luso. Aberto ao público em 1916, tomou o espaço de uma antiga loja de ferragens, da qual reteve o respetivo nome comercial. Na segunda metade dos anos 30 foi totalmente remodelado pelo arquiteto Norte Júnior, autor da decoração original, na qual se destacara o enorme anjo que então decorava a fachada deste estabelecimento. O novo Chave d'Ouro abriu as suas portas em Fevereiro de 1936, tendo merecido uma página inteira no Diário de Lisboa, que realçou as suas «duas rentes — Rossio e Primeiro de Dezembro — sete andares, nove pavimentos, central — o grande café — galeria de café; salão de bilhares, salão de chá, restaurante, esplanada, cinco bares [...] » e até «11 400 lâmpadas».¹

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio de 1916 a 1959 |1923-05-10|
Praça D. Pedro IV, 33-38
Nota(s): Esta fotografia integra a reportagem "A Festa da Flor" em Lisboa. Foi coroada do melhor êxito,
sendo importantes os donativos alcançados", publicada no jornal 'O Século' de 10 de Maio de 1923.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Eram 5 da tarde e o Café Chave d'Ouro, no Rossio, no topo superior da grelha da Baixa, o coração da cidade , estava cheio de gente. Ainda não fazia frio e as janelas estavam todas abertas. Laura van Lennep tinha-se sentado ao pé de uma dessas janelas e olhava repetidamente para a praça. Tinha diante dela a pequena chávena de café que pedira há hora e meia, quando chegara, mas os empregados não a incomodavam. Já estavam habituados.

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio entre 1916 e 1959 |c. 1940-50|
Praça D. Pedro IV, 33-38
Anote-se o anjo esculpido em pedra de lioz e ferro, projecto de Fausto Fernandes. Á dir. observa-se a afamada Joalharia Lory. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Distraidamente, ia ouvindo a conversa duma mesa de refugiados que falavam francês com forte sotaque. Os dois homens tinham visto camiões do exército na Baixa, de manhã cedo, e desenvolviam uma fantástica teoria de invasão que não contribuiu nada para acalmar Laura. Não podia suportar a inércia daquela gente, que sabia vir de uma pensão a três prédios da sua, na rua de S. Paulo, por trás do Cais do Sodré. Tinha-os ouvido na rua, corrigindo-se mutuamente acerca de aristocratas que tinham conhecido em festas, como se isso tivesse sido na semana passada, e não noutro país e noutra década. Estava desesperada por não ter cigarros, e o homem que ia mudar a sua vida, que tinha prometido mudar a sua vida, não chegava.²

 

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio de 1916 a 1959 |1959|
Praça D. Pedro IV, 33-38 
Frontaria estilo Art Déco após remodelação, em 1936. e onde se destacam as grandes chaves pintadas de ambos os lados da entrada no dia em que foi encerrado.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ WILSON, Robert W, Último Acto em Lisboa.1941
² SANTOS, João Moreira dos, Roteiro do Jazz na Lisboa dos anos 20-50 : guia ilustrado de 40 espaços históricos dos primórdios do Jazz em Portugal 2012.
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