Sunday, 4 January 2026

Elevador de Santa Justa e a formidável audácia do seu construtor

Quando há tempos se celebrou o centenário do nascimento de Eiffel, o famoso realizador de tantas obras de engenharia que assombraram o Mundo, no último quartel do século XIX, houve quem lhe atribuísse também a construção do elevador de Santa Justa.
Não é verdade.

O popular ascensor instalado no centro da Baixa é obra de um engenheiro português que, se não alcançou a fama de Eiffel, nem por isso é menos digno de ser recordado com simpatia e admiração por todos os portugueses.
Chamava-se ele Raúl Mesnier Ponsard (1848-1914). A origem francesa do seu apelido não invalida a sua qualidade de português. Embora descendendo de pais franceses, nasceu em Portugal (Porto) e aqui realizou toda a sua obra que é notável e merece ser lembrada.
Raúl Mesnier nascera com decidida vocação para a engenharia. Feitos os seus cursos com raro brilho, dedicou-se a pequenos inventos e aplicações mecânicas, tendo publicado diversas obras e realizado alguns aperfeiçoamentos em armas de fogo.
Mas, na realidade, ele nascera para dar vida às construções audaciosas que dominam o espaço, e essa tendência em breve se deveria manifestar.
Animado de ardor juvenil, traçou planos extraordinários, ideou construções grandiosas, tudo destinado a vencer as distâncias, a galgar as alturas.
Portugal, país montanhoso, acidentado, de grandes depressões e vertiginosas alturas, e Lisboa, em especial, construída sobre sobranceiras colinas, eram o campo em que a sua actividade e os seus projectos melhor podiam encontrar aplicação.
De princípio a sua energia, a sua audácia e o seu enorme espírito de iniciativa esbarraram contra a rotina, destino a que raramente são poupados os grandes inovadores. Consideraram-no doido, visto as suas concepções excederem a esfera das ideias de então.

Corte vertical do Elevador de Santa Justa, segundo projecto inicial do eng. Raúl Mesnier Ponsard

Mais tarde, quando a sua reputação já estava firmada, Raul Mesnier comprazia-se em recordar que tendo nesses primeiros tempos solicitado o auxílio do então poderoso banqueiro Moura Borges pouco faltara para que este lhe batesse.
Mesnier soube, porém, persistir e venceu. Os capitais, vencida a primeira desconfiança, começaram a afluír seduzidos pela audácia e clareza dos seus projectos. Assim se formou a base material indispensável à realização dos seus arrojados planos.
Em 1880 foi encarregado de dirigir a construção do elevador do Bom Jesus do Monte, em Braga, que foi o primeiro que se construiu no nosso País. Dois anos depois, as obras estavam terminadas, e eram feitas as experiências que alcançaram o mais lisonjeiro êxito, assegurando assim o futuro do novel engenheiro.
A seguir, em 1884, foi construído, sob o seu projecto, o elevador da Calçada da Glória. A este seguiram-se os do Lavra, da Estrela-Camões da Bica, e do Largo do Município, também conhecido como elevador da Biblioteca ou elevador de S. Julião,
Finalmente, no princípio deste século, Raul Mesnier empreendia a realização do elevador de Santa Justa ao Carmo que pode ser considerado o capítulo mais notável desta prodigiosa actividade desenvolvida no espaço de vinte anos apenas.

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo)
A Torre de Santa Justa, como soberbo Miradouro.
Postais ilustrados, post.1902, in Lisboa de Antigamente

De facto, a construção deste ascensor foi a que mais contribuiu para consagrar os inegáveis méritos deste ilustre engenheiro. Mais de trinta anos volvidos sobre a sua inauguração, a enorme construção metálica não manifestava o mais leve sinal de velhice. Ainda hoje, a sua enorme torre e o extenso viaduto que liga esta às ruínas do Carmo, suscitam de quem visita Lisboa um olhar de admiração pelas suas proporções grandiosas. Décadas de progressos mecânicos incessantes nada diminuíram ao ascensor a sua primitiva imponência.
Começaram as obras com a construção da enorme torre metálica que, partindo das Escadinhas de Santa Justa, junto à Rua Áurea, se havia de erguer até ao nível do Largo do Carmo, ou seja, a uma altura de 32 metros aproximadamente.
Realizada esta primeira parte da obra e de modo que honra a indústria portuguesa, uma outra não menos complexa restava fazer estabelecer a ligação entre o tabuleiro da torre e a faixa de terreno situado a par das ruínas do mosteiro do Carmo. Para tal, tornava-se necessário lançar entre os dois pontos um viaduto e essa operação fizera surgir uma série de incidentes que só o engenho e persistência de Raul Mesnier lograriam vencer.
Este viaduto, como é sabido, partindo do tabuleiro da torre, passa sobre a Rua do Carmo, mais adiante sobre um prédio que era ao tempo propriedade do conde de Tomar, e vai desembocar no terreno que contorna as ruínas do museu do Carmo e estabelece ligação com o largo do mesmo nome.
Ora o problema seria de solução relativamente fácil se sobre o prédio em questão se pudesse estabelecer um ponto de apoio para o viaduto.
Mas, ou por insuficiente resistência do edifício ou por oposição do proprietário, o certo é que essa ideia não pôde ser posta em prática. Necessário se tornou por isso construir os fortes pilares que se encontram situados ao começo das escadinhas, junto à Rua do Carmo.

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo)
Na «enorme torre de metal pintado de cinzento, o grande elevador» que «tem qualquer coisa de impressionante, de juslesvernesca, um ar de máquina para visitar a lua»...
Postal ilustrado, post.1902, in Lisboa de Antigamente

Por outro lado, a Câmara Municipal opunha-se a que nas obras a realizar fossem empregados tapumes ou andaimes que prejudicassem o trânsito intenso das importantes artérias interessadas.
Nestas difíceis circunstâncias, Raul Mesnier lançou mão dum processo curioso, cuja extrema simplicidade mais põe ainda em evidência as admiráveis faculdades do ilustre engenheiro.
Fez em primeiro lugar construir os pilares sobre o local em que ainda hoje se encontram, mas montados sabre uma espécie de charneira provisória que, após as obras terminadas, desapareceu para dar lugar ao fundamento fixo que hoje têm.
Nesta altura, os pilares, repousando sobre o seu pedestal articulado, achavam-se inclinados sobre a Rua Áurea e apoiavam-se contra a torre metálica já construída.
No sentido da altura da torre e fixado pelo meio ao pilar foi então construído o viaduto ou ponte com 25 metros de comprimento e cerca de vinte toneladas de peso.
O lançamento do viaduto fazia-se então da forma mais fácil possível: os pilares, que como dissemos se achavam inclinados e apoiados à torre eram puxados do Largo do Carmo até atingirem a posição vertical. Ao mesmo tempo, o tabuleiro que se encontrava ligado pelo meio aos pilares no sentido vertical era puxado do alto da torre pela extremidade inferior o que o obrigava a descrever um arco de círculo até ficar na posição horizontal estabelecendo assim a ligação entre a torre e o Largo do Carmo.

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo)
A pontecom decoração neo-gótica, tem 25 metros de comprimento.
Postais ilustrados, post.1902 e 1950, respectivamente., in Lisboa de Antigamente

Fixou-se o dia 31 de Agosto de 1901 — um sábado para a realização da difícil manobra. Foi de sensação em Lisboa o acontecimento. A complexa operação teve início às duas horas da tarde, presenciada por uma multidão ansiosa que de todos os pontos da Baixa e sobre os telhados vizinhos seguiu atenta as diversas fases da manobra.
Tudo correu como o grande engenheiro previra, demonstrando-se, assim, a justeza dos seus cálculos.
Durante cerca de três horas e meia a pesada massa de ferro descreveu os movimentos previstos até que a ligação se fizesse.
Pouco passava das cinco horas e meia da tarde quando a comunicação se estabeleceu. Foi um operário de nome Luiz Pinto de Oliveira a primeira pessoa que atravessou o viaduto, calcorreado depois por algumas gerações de passageiros desejosos de se furtarem às fadigas duma subida a pé pelo Chiado.
Para que nada faltasse a este espectáculo, que teve a assisti-lo alguns milhares de curiosos, foi ele interrompido por um incidente que, sem ter consequências, produziu enorme emoção. Foi o caso que em determinada altura da trajectória da ponte se notou que um fio eléctrico interceptava a passagem desta, de tal modo que o movimento não poderia continuar sem quebrar o fio, o que não se faria sem riscos para os que assistiam à manobra.
Uma extraordinária cena teve então lugar ante o pasmo de quantos acompanhavam as diversas fases do lançamento do tabuleiro. Viu-se dois aprendizes de cerca de quinze anos de idade saltarem para o tabuleiro que oscilava no espaço e, apoiando-se nas réguas metálicas que o formavam, treparem em direcção à extremidade superior a fim de desembaraçarem a ponte do imprevisto obstáculo. O fio eléctrico, porém, ficava nesse momento sob a face inferior do tabuleiro e, portanto, fora do alcance dos audaciosos aprendizes.
Um deles retrocedeu com o fim de buscar ferramenta, mas o outro mais destemido, passou o cinto em volta duma das réguas da ponte e fazendo dele apoio, debruçou-se no espaço, colheu o fio com as mãos e fê-lo passar para o lado oposto do tabuleiro, deixando desimpedido o caminho à enorme massa metálica que em breve retomava o seu vagaroso movimento. Chamavam-se os dois heróis desta aventura Luiz Pinto e Luiz Burra, «dois luízes de bom quilate», como então dizia o Diário de Notícias comentando o facto. Bem possível é que ainda vivam e que se ufanem dessa temerária proeza que deixou suspensa de emoção durante alguns momentos quási toda a Lisboa de há trinta anos.

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo)
O último piso erguue-se a uma altura de 41 mt.
Postal ilustrado, post.1902, in Lisboa de Antigamente

Uma única nota discordante se registou neste surpreendente espectáculo de que Lisboa inteira falou durante muito tempo. Foi o protesto dos lojistas da Rua Nova do Carmo contra a escolha da hora para a manobra que em seu entender deveria ter-se realizado durante a madrugada. A enorme afluência de curiosos fizera paralisar, por completo o trânsito nas imediações do ascensor, dificultando o comércio e justificando esta "aclamação" a que os jornais da época fizeram referência.
Como dissemos, o lançamento da ponte realizou-se, no meio de grande pompa, em Outubro de 1901, na presença de el-rei D. Carlos. Em Junho do ano de 1902, teve Raul Mesnier a alegria de ver inaugurar-se o elevador que de então para cá tantos serviços tem prestado. E a caranguejola, como ele se comprazia em chamar-lhe, funcionou sempre às mil maravilhas.

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo) quando ainda funcionava a vapor
 Um dos mais interessantes atractivos de Lisboa, de onde se abrange uma panorâmica que foge à vista do observador.
Postais ilustrados, post.1902, in Lisboa de Antigamente

N.B. Raúl Mesnier Ponsard (1848-1914), o homem que mais elevadores construiu em Portugal, é uma figura curiosa que mereceu ser recordada e que tem jus à nossa admiração.
O sonho de toda a sua vida foi sempre construir esses engenhos destinados a vencer as alturas. E morreu levando consigo o projecto, admiravelmente utópico, de reunir as sete colinas da cidade por gigantescos transportadores aéreos que passeassem no espaço, entre uma e outra extremidade da capital, os que assim pretendessem deslocar-se...==

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo)
Autoria do engenheiro Raoul Mesnier du Ponsard e do arquitecto Louis Reynaud, foi inaugurado na tarde de 10 de Julho de 1902, fazia a ligação entre as Rua do Ouro e de Santa Justa e o Largo do Carmo. 
Postal ilustrado, post.1902, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Arquivo nacional, 1940. Gazeta dos Caminhos de Ferro, 1902.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, 1939
JANEIRO, Maria João, Lisboa: histórias e memórias, 2006.
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, 1987
Guia de Portugal: 1924.

Wednesday, 31 December 2025

Ano Novo: a Moda em Lisboa

A moda feminina mudara radicalmente durante a Grande Guerra, perdendo os contornos ditados pelo espartilho.
Pilar da coesão social própria comunicação gestual, a roupa determinou completa a postura, o movimento e a atitude, sociabilizando o corpo. No jogo das aparências, qualquer requinte de uma toilette elegante foi, durante largos anos, mais rigoroso dos que os próprios preceitos da higiene íntima. Até à segunda metade deste século, e apesar do culto oitocentista de "mente sã em corpo são", era mais importante ostentar o último capricho da moda do que tomar banho diariamente. O gosto aristocrático e refinado podia coabitar com a falta de asseio, mas nunca com a ausência da representação social do trajo. 

Praça Dom João da Câmara que foi Largo de Camões |1921-12-29|
Elegantes da década de 20, de estola e chapéu, passeando no antigo Largo de Camões — hoje Praça D. João da Câmara — com o afamado Café Martinho e o luxuoso hotel Avenida Palace como pano de fundo.  
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A linguagem da aparência vai até onde chegam os olhos alheios. Por isso se queixa o autor português Alfredo Gallis (1859-1910):
«Quantas, às nove da manhã, espera à janela, lindamente penteadas, o seu namorado, no entanto ainda não lavaram os pés nem tencionam levá-los?» (O Que as Noivas Devem Saber, 1910) 

N.B. Foi neste arruamento próximo do Teatro D. Maria II que a edilidade decidiu perpetuar como Praça, o nome do dramaturgo D. João da Câmara, com a legenda «Figura Gloriosa do Teatro Português, 1852–1908», embora o edital de 1924 tenha por lapso mencionado Largo e, durante décadas, se tenha mantido a duplicação de referências, ora como Largo ora como Praça.

Praça Dom João da Câmara que foi Largo de Camões |1921-12-31|
Depois de passar, provavelmente, pela Kermesse de Paris para fazer umas compras de
última hora. vamos lá preparar a passagem de ano. 
Ano Novo. Há concertos, fogos de artifício, inúmeras manifestações de alegria.
No convívio da família e  família e cumprindo tradições, também se vive a
passagem do ano, desejando saúde, dinheiro e realização
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 28 December 2025

Cena de rua no antigo Largo de Camões

Há quem suponha que este Camões é o nosso épico Luiz de Camões. Errada suposição. João Paulo Freire — jornalista, poeta, ensaísta, novelista — esclarece o motivo das trocas e baldrocas com este topónimo:
O Camões do Rossio nada tem que ver com o Camões das Duas Igrejas [actual Praça de Luís de Camões]. Este é o épico. Aquele é apenas o seu homónimo por antonomásia — Caetano José da Silva Souto Mayor, poeta epigramático, muito espirituoso, e que foi corregedor da corte de D. João V, juiz do Crime do Bairro da Mouraria, e corregedor do Bairro do Rossio, onde morava, pois residiu sempre no prédio onde mais tarde se construiu o actual que é ocupado pela Brasileira.
(FREIRE, João Paulo, Lisboa do meu tempo e do passado, Lisboa, 1931-1939)

Praça Dom João da Câmara que foi Largo de Camões — cena de rua |1908|
Uns quantos eléctricos e carroças, um cavaleiro, os peões domingueiros e um dos raros automóveis existentes em Lisboa na época. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Esta artéria, até 1924, era o Largo de Camões, já assim denominado em 1858 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque.

Praça Dom João da Câmara que foi Largo de Camões — cena de rua |c. 1920|
Encimando a imagem observa-se o Castelo ainda povoado por edifícios dos aquartelamentos militares.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 26 December 2025

Jardim de São Pedro de Alcântara: tabuleiro inferior

Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. [...] Cobardemente, por inércia, enervada pela voz pomposa do conselheiro, Luísa foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim.
(QUEIROZ Eça de, O Primo Basílio, 1878)

O tabuleiro inferior foi ajardinado à francesa, com os arbustos e canteiros de flores desenhados geometricamente, da mesma forma foi erguido um tanque de repuxo de pequenas dimensões e outro em cascata imbuído na muralha. Nas bordas dos passeios de areia, assentes em altos plintos, podemos observar bustos de deuses e heróis da mitologia greco-romana, como também figuras históricas dos nossos anos de descobridores. [...] O tabuleiro inferior acabou por ser fechado ao público, proibindo-se o acesso sob a vigilância de um guarda municipal. Tal ficou a dever-se ao facto de muitos utilizarem aquele espaço para pôr termo à vida, lançando-se do tabuleiro inferior e caindo na Rua das Taipas. O número destas ocorrências aumentou significativamente com o fecho do Aqueduto das Águas Livres, curiosamente devido às mesmas razões. Em 1864 foi colocada uma grade, exigida desde 1852. [paleolisboa.com]

Jardim de São Pedro de Alcântara/Jardim António Nobre |1949|
Rua de São Pedro de Alcântara 
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Esta esplanada, com a sua legião de bustos brancos orlando as aleias e os canteiros, é um dos mais belos miradoiros de Lisboa.
O passeio de S. Pedro de Alcântara, levantado sobre a muralha, de que em outros artigos já falámos, é, deslumbrante pelo panorama que descobre. O jardim, que fica subposto, tem muitos e viçosos canteiros, copada vegetação, uma cascata, e está adornado com bustos de romanos [e portugueses] célebres. (Portugal antigo e moderno, 1874)

N.B. O Jardim de São Pedro de Alcântara foi construído em Oitocentos sobre os restos de muralhas levantadas durante as obras das Águas Livres. O nome deste espaço de lazer deriva do Convento de Frades Arrábidos situado nas proximidades do jardim. [...]

Jardim de São Pedro de Alcântara/Jardim António Nobre |entre 1918 e 1922|
Rua de São Pedro de Alcântara 
João José Penha, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 24 December 2025

Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal

O Rossio só me confrange uma vez por ano, justamente na época que atravessamos, quando em contraste com a sua toilette cada vez mais cuidada, ali tomba, em vésperas do Natal, a ronda soturna, o rosário deselegante e miserável dos vendedores de brinquedos «a dez tostões».

É já um lugar-comum chamar à Praça do Rossio a sala de visitas de Lisboa. Concedamos que todo o vasto recinto tem hoje, efectivamente, o caracter peculiar a uma capital. Mas é talvez o pombalino, beliscado aqui e ali por incómoda alteração, é o Arco do Bandeira, serão mesmo os dois «pastiches» do Teatro Nacional e da estátua de D. Pedro, que ao local dão uma presença, um estilo nitidamente lisboeta, como não é possível encontrar em outra parte. O Rossio, a Praça do Rossio, a que o povo, com instinto seguro, nunca chamou a Praça de D. Pedro, desprende da sua perspectiva, do recorte regular dos seus prédios e janelas, sobretudo quando se vem de fora, quando se vem do Norte, uma serena e cariciosa amabilidade, que eu só com paro ao conforto do lar, depois de um dia de trabalho.

 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1964-12|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

A Praça do Rossio, nesses momentos, quando no ar tern seu quê de amigo, e nos trata por tu, e nos acolhe com sua graça alfacinha, - é o local de privilégio de Lisboa, o lugar-bruxo que nos sabe sempre bem atravessar, mesmo sem pretexto aparente, sem necessidade. 
Pincelada à noite, em suas mansardas, pelo vermelho, o azul, o verde luminoso dos tubos neon, dir-se-á que a Praça do Rossio, escovada e moderna, ganha outro caracter. Os novos estabelecimentos e cafés, decorados por uma publicidade bela, desenhados por luz sapiente, colorida e bem distribuída, como que surgem transformando o estilo, o caracter antigo, imprimindo a sua nota internacional.

 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1965-12|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1966-01|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Muito embora a instalação de todo esse cenário venha pintalgando lojas e telhados, o Rossio resiste, permanece pombalino, reserva-nos sempre a sua serenidade cariciosa. O seu estilo guarda sempre o segredo que nele adivinhamos, sem o desvendar.
Lisboa, a bela, não perdeu ainda, no pormenor do seu toucado, um certo desprendimento, um descuido peculiar que vive paredes meias com o desleixo. Um pouco mais e esta cidade constituiria o burgo mais aprazível da Europa do Sul. [Luíz Moita: 1939]

 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1959-12|
Lagos do Rossio
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Imbuídos no espírito natalício decidimos inserir abaixo as mesmas imagens do fotógrafo Armando Serôdio mas coloridas e geradas por IA com a chamada «quebra de página». Caso queira continuar e visualizar clique em «ler mais [read more]»

Sunday, 21 December 2025

Monumento ao Marquês de Pombal

Em 1910, poucos anos depois das comemorações das comemorações do Centenário da Índia, a Praça Marquês de Pombal estava edificada como hoje [em 1939].
Quedemo-nos uns momentos diante do monumento ao Marquês de Pombal. 


A ideia de se erguer um monumento ao estadista, reedificador de Lisboa, é antiga, mas só lhe foi dada expressão pública em 1882, ano em que o Parlamento autorizou o Estado a ceder o bronze necessário. Em Abril daquele ano — recorda o ilustre olisipógrafo Norberto de Araújo — constituiu-se uma comissão encarregada de promover a subscrição nacional, presidida por Rodrigues Sampaio.
Os trabalhos não tiveram sequência, e só em 1905 se voltou a um plano prático, constituindo-se nova comissão, presidida pelo Conselheiro Veiga Beirão, havendo a subscrição pública sido iniciada a 6 de Maio. Contudo, ainda desta vez a iniciativa não foi coroada de êxito, talvez porque logo em 1906 começou a agitação política que dominava todos os pensamentos.
Proclamada a República, a ideia de dar realização séria à iniciativa de havia quarenta anos, ressurgiu. Em 1913 realizou-se o concurso para o monumento, sendo apresentados catorze projectos, e aprovados quatro; destes, acabou por ser preferido (5 de Abril de 1914) aquele que sob a legenda «Gloria Progressus - Delenda reactio» era assinado por Adães Bermudes, António Couto e Francisco Santos. A escolha, feita por um júri idóneo, ao qual presidia o professor e director da Escola de Belas Artes, José Luiz Monteiro, provocou enorme celeuma, havendo muitas personalidades de categoria artística e intelectual que preferiam o projecto do arquitecto José Marques da Silva e do escultor António Alves de Sousa (ambos artistas portuenses).
A primeira pedra para o Monumento foi colocada em 15 de Agosto de 1917, mas em 13 de Maio de 1926 a cerimónia repetiu-se, havendo discursado o Dr. Bernardino Machado, Presidente da República, e D. Tomaz de Vilhena, descendente do «Grande Marquês» qualificativo tradicional da família — , e ao tempo deputado monárquico.

Monumento ao Marquês de Pombal
Fundações da estátua |1927|
Fotógrafo não identificado, in LdA

Monumento ao Marquês de Pombal
Obras de desaterro |1924|
Fotógrafo não identificado, in LdA




















As obras vinham-se arrastando, por falta de verba, desde 1914. Em Março de 1924 foi nomeada uma nova comissão, à qual presidia o Dr. Magalhães Lima, estando na vice-presidência o general Vieira da Rocha; o rendimento dos selos emitidos em Dezembro de 1924 não satisfez, mas as obras de 1925 para diante entraram na fase definitiva da sua actividade. Em 13 de Maio de 1930 o Presidente da República, general Oscar Carmona, visitou as obras, já em vulto neste local. A grande estátua foi completamente assente sobre o alto fuste em 2 de Dezembro de 1933.
Finalmente em 13 de Maio de 1934 foi inaugurado o monumento, sem a solenidade que parecia de supor; assistiram o Ministro das Obras Públicas, engenheiro Duarte Pacheco, o presidente da Câmara Municipal, tenente-coronel Linhares de Lima, o governador civil, tenente-coronel João Luiz de Moura, e o presidente da Comissão, general Vieira da Rocha.
Estas anotações cronológicas, apesar de deficientes, reputo-as necessárias, pois andavam dispersas. Dêmos volta ao monumento.
Vejamos primeiramente o pedestal. Essa figura de mulher, constituída por dois blocos de pedra que pesam 17.250 quilos, na frente do monumento, representa «Lisboa reedificada»; tem cinco metros de altura — não o dirias. Sob o plinto em que ela assenta, vemos a proa de uma nau simbolizando a libertação da marinha mercante. Em baixo, dos lados, representa-se o cataclismo que assolou Lisboa na terra e no mar; destacam-se as esculturas de Plutão e Poseidon, este simbolizado num cavalo-marinho.

Monumento ao Marquês de Pombal
Ao fundo nota.se o estaleiro de obra |1934|
Tomada da Braamcamp para a Av. Fontes.
Fotógrafo não identificado, in LdA
Monumento ao Marquês de Pombal
Cabeça da figura do Marquês |1934|
Ao fundo ve-se a R. Braamcamp.
Ferreira da Cunha, in LdA



























Analisemos agora os grupos escultóricos laterais do pedestal, em seu conjunto admiráveis, apesar de algum senão que lhes possas notar. No grupo da esquerda, lado nascente, simboliza-se a agricultura, com o trabalho da lavoura, através de uma junta de bois, e de figuras bem tratadas escultoricamente, e das quais sobressaem o homem que sustenta o arado e a mulher que transporta o cabaz com uvas. O grupo do lado oposto simboliza a indústria e a pesca: um cavalo arrasta as redes, e um operário sopra o vidro; eis um conjunto também de merecimento, não apenas pela disposição mas pelo lavor das várias figuras.
Os escultores, professor Simões de Almeida e Leopoldo Neves de Almeida, que já eram colaboradores do ilustre Francisco Santos, falecido em Abril de 1930, foram os realizadores destes trabalhos, como aliás de outros que valorizam o monumento.
Na face norte (posterior) do monumento construiu-se uma alegoria objectiva à reforma da Universidade de Coimbra [vd. imagem seguinte]. Destaca-se — nota — essa figura de Minerva, em bronze, sentada, adiante do pórtico da «Universitas Conimbricensis».


Monumento ao Marquês de Pombal, face norte (posterior) |1953|
Destaca com a presença, na fachada, de um edifício clássico que simboliza a Universidade de Coimbra, à frente do qual está uma estátua de Minerva, sentada, em bronze.
Em primeiro plano nota-se o Lago do Parque Eduardo VII.
Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

No fuste, de grande superfície, vêem-se nas suas quatro faces legendas que exaltam o estadista e reformador; na face principal lês, comigo: «Ao genial estadista Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal — a Pátria reconhecida — MCMXXXIV».
O capitel do obelisco ostenta quatro medalhões, enlaçados nos cunhais por quatro águias; no medalhão da frente enquadra-se  a efigie de Machado de Castro, no do poente as de D. Luiz da Cunha, Eugénio dos Santos e Manuel da Maia, no posterior a de Ribeiro Sanches, e no do lado nascente as de Luiz Verney, Serra da Silva e Conde de Lipe. Foram estes os principais colaboradores de Pombal.
Finalmente, ao alto, está o grupo fulcro do monumento — que mede, de alto abaixo, 36 metros: o Marquês, de corpo inteiro, assenta o braço sobre o dorso de um leão, na simbólica da serenidade e da força. Este grupo, de grandes dimensões (basta dizer que tem a altura de cinco homens) é de realização primorosa, prejudicada contudo na visão perspectival à distância, quando tomada do Norte e do Poente.

Monumento ao Marquês de Pombal (em obra) |1934-04-05|
No topo do monumento, sobressaem quatro medalhões que retratam os principais colaboradores de Pombal, incluindo Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Machado de Castro.
Perspectiva tomada da Av. da Liberdade.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Também este grupo principal foi concluído por Simões de Almeida; a cabeça da figura do Marquês [vd. imagem acima], ainda em formação no barro, com 1,80 de altura , de enorme peso, ruíra no atelier de Francisco Santos no próprio dia em que o artista morrera (29 de Abril de 1930).
Quatro grandes colunas de mármore nobre , cada uma com quatro candelabros de braço, em bronze, decoradas com florões e laços — bom trabalho de «atelier» e de fábrica , mas de gosto discutível — guarnecem o monumento.
E aí tens num dos degraus da escadaria do sopé: «Autores: Adães Bermudes, arquitecto; António Couto, arquitecto; Francisco Santos, estatuário; colaboradores, Leopoldo de Almeida, estatuário; Simões de Almeida, estatuário».

 

Inauguração do monumento ao marquês de Pombal |1934-05-13|
 O Marquês, de corpo inteiro, assenta o braço sobre o dorso de um leão, na simbólica da serenidade e da força.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

E, Dilecto, com paz na consciência, e sem beliscadura de sectarismo, digamos adeus ao monumento a Pombal. Antes, porém, anota as legendas cronológicas da vida do Marquês, e que no empedrado à portuguesa ilustram as placas que compõem a Praça.

Monumento ao Marquês de Pombal |1938-10-06|
Na base, várias figuras alegóricas dão vida à cena, como uma figura feminina que simboliza Lisboa reconstruída e três grupos escultóricos que representam as reformas de Pombal na agricultura, indústria e ensino.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa», vol. XIV, pp. 44-48, 1939.
BRITO, Francisco Nogueira de, Roteiro ilustrado de Lisboa e arredores, 1935.

Friday, 19 December 2025

Travessas do Forte e do Meio do Forte

Forte (travessa do) Principia no fim da travessa da Cruz ao Desterro e finda na travessa das Salgadeiras, freguezia da Pena 2 a 40 e 1 a 7. [Velloso: 1896]
Saiba mais aqui e aqui.

Travessa do Forte |1907-06|
À dir. abre-se a Travessa do Meio do Forte (v. imagem seguinte) e, ao fundo,
nota-se o arco — já demolido — na embocadura da Travessa das
Salgadeiras/Pátio do Sequeira. Não encontrámos referências bibliográficas para a origem
deste topónimo. O edifício a dir. é revestido por azulejos serigrafados com desenho centrado.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Forte (travessa do Meio do) primeira á direita na travessa de Santa Anna da Cruz, indo da travessa da Cruz e finda na travessa do Forte, freg. da Pena 21a 56 e 1 a 35. [Velloso: 1896]

Travessa do Meio do Forte |1964|
Ao fundo observa-se a Tv. Santana da Cruz.
Fernandes, Augusto de Jesus, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 14 December 2025

Estr. Marginal: o Convento e o Forte da Boa Viagem

O Convento da Boa Viagem, cujas ruínas chegaram aos nossos dias — tendo desaparecido os vestígios mais importantes quando se construiu a Estrada Marginal Lisboa-Cascais e o Estádio Nacional — era tido como localizado na margem direita do Jamor, no sítio ainda boje conhecido pela Boa Viagem em cujo alto se conservou, por memória, uma pequena ermida. 

Estr. Marginal, Alto da Boa Viagem |c. 194-|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente, in Lisboa de Antigamente

Era aqui, também, que estava o Forte da Boa Viagem, e em todas as cartas antigas onde se traça a barra do Tejo, lá aparece assinalado tanto este forte como um edifício com uma cruz — indicativo de igreja, ermida ou convento[Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa, 1961]

Estr. Marginal, Alto da Boa Viagem |ant. 1952|
Vista da Avenida Marginal e da linha de Cascais, anterior a 31 de Março de 1952, em fundo o Farol da Gibalta (Oeiras). Restaurante Boa Viagem.
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

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