Wednesday, 31 July 2019

Mercado de Santa Clara

A festa de inauguração deste mercado foi explêndida. N’esse dia todo o edifício esteve embandeirado, subindo aos ares milhares de foguetes e tocando duas philarmónicas, uma dentro do recinto e outra da parte externa, para que se armou um vistoso corêto. Immenso concurso de gente ali affluiu e a multidão era enorme.¹

O Mercado do Campo de Santa Clara — recorda-nos Norberto de Araújo — , que ali se vê ao centro da Praça — a parte sul do Campo de Santa Clara — , data de 1877, e foi construído por uma Companhia de Mercados e de Edificações Urbanas, que o explorou até 1927, ano em que, após o meio século do contrato com a Câmara, e segundo clausula fundamental, foi municipalizado.²
Mercado de Santa Clara, entrada Sul [1927]
Campo de Santa Clara
A inauguração do Mercado foi feita, com pompa e circunstância, no dia 7 de Outubro de 1877, sob a melodia de uma orquestra que tocava num coreto instalado no local, propositadamente para o dia da inauguração. 
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Desenhado e construído com base em novas técnicas e materiais, nomeadamente o tijolo industrial, o ferro e o vidro, o Mercado de Santa Clara fez parte da fase de introdução da arquitectura do ferro em Portugal, a qual à semelhança da restante Europa, utilizou o conceito sobretudo na construção de estações de caminho-de-ferro, mercados, pontes, armazéns, estufas e outros edifícios públicos. Situado numa área de 1250 m2, o edifício foi construído sobre um plano inclinado, o qual se revelou estruturalmente favorável à sua funcionalidade. A proposta de construção do Mercado de Santa Clara em Lisboa foi apresentada à Câmara Municipal pelos senhores Conde de Penamacor e António Paes de Sande e Castro a qual mereceu um parecer favorável por parte de então vereador camarário, José Gregório da Rosa e Araújo, preconizador do desenvolvimento e modernização da cidade de Lisboa. 

Mercado de Santa Clara [1961]
Campo de Santa Clara; entradas Sul e Norte, respectivamente.
Artur João Goulart, in A.M.L.

Na década de 80 sob o desígnio de inovar, rentabilizar e tornar o mercado mais funcional, foi solicitado, ao arquitecto Alberto Sousa Oliveira, um projecto de reparação e remodelação tendo em vista a solução dos seus mais graves problemas. Desse projecto resultou a instalação de um Restaurante panorâmico na sobre-loja do mercado, foram instaladas novas bancas e remodeladas diversas lojas, para além de diversas alterações funcionais. Porém, tudo isto não bastou para salvar o Mercado de Santa Clara que deixou de funcionar como mercado de venda de produtos frescos e passou a funcionar como pólo de dinamização cultural da cidade, acolhendo eventos de índole diversa.

Mercado de Santa Clara [1927]
Campo de Santa Clara; ao fundo observa-se a entrada sul
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Hoje em dia, para além do restaurante panorâmico, lojas de antiguidades e de produtos alternativos, o Mercado de Santa Clara acolhe o Centro de Artes Culinárias, o qual foi inaugurado no dia 28 de Junho de 2011, em resultado de um protocolo entre a Câmara Municipal de Lisboa e a Associação “As Idades dos Sabores”.³

Mercado de Santa Clara [1936]
Campo de Santa Clara; entrada Norte
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Bibliografia
¹ In Mercado de Santa Clara, C.M.L., Lisboa, p. 7, 1995.
² ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 73, 1938.
³ SEROL, Maria Elisabete Gromicho, O Campo de Santa Clara, em Lisboa Cidade, História e Memórias | Um Roteiro Cultural, pp. 84-127, 2012.

Sunday, 28 July 2019

Palácio dos Condes Almirantes de Rezende

Poucos edifícios por esta área — escreve Norberto de Araújo — têm a grandeza dêste antigo Palácio dos Condes Almirantes de Resende, e que se confina entre as duas faces do Campo de Santa Clara, e Rua do Paraíso.


No ângulo sul dêste enorme edifício, e com ingresso por uma estreita porta na Rua do Paraíso, estão instalados o Arquivo Histórico Militar, êste fundado em 25 de Maio de 1911 (sendo então director o coronel Henrique Luiz Pacheco Simões), mas só aqui arrumado depois da sua Organização de 1921 (cremos que em 1923). [...]

Palácio dos Condes Almirantes de Rezende [c. 1910]
Campo de Santa Clara, 21-24; Largo Dr. Bernardino António Gomes, 1-4; Rua do Paraíso, 2-16
Neste palácio funcionou  o Teatro Popular de Alfama, nome com que se abriu ao público o Teatro Thalia, inaugurado em 1873.
Alberto Carlos Lima, in AML

O Palácio Resende é usufruído pelo Ministério da Guerra, e e aparte os arquivos citados — todo o edifício é hoje ocupado pelos serviços das Oficinas Gerais de Fardamentos e Calçado [hoje OGFE vulgo Casão Militar], designação que vem de 1926, sucedendo ao Depósito Central de Fardamentos, criado em 1907. O edifício sofreu na parte poente e sul um grande incêndio em 1916, mas foi logo depois reedificado.
Antes de 1906, neste edifício Resende, e com frente para a Travessa do Zagalo, esteve — desde muitos anos antes — aquartelado um regimento de artilharia; durante muito tempo sôbre o muro daquela Travessa, e que ampara os terrenos circundantes do velho monumento de Santa Engrácia — nos quais em 1909 se construiu um pavilhão anexo da Fábrica Militar de Calçado — viam-se as bôcas das peças.

Palácio dos Condes Almirantes de Rezende [1900]
Campo de Santa Clara, 21-24; Largo Dr. Bernardino António Gomes, 1-4;  
Rua do Paraíso, 2-16
Observe-se o cunhal brasonado com as armas da dos «Condes de Rezende, 
Almirantes de Portugal».
Machado & Souza, in AML

Em 1916, o esquecido monumento nacional das «Obras de Santa Engrácia» foi ocupado (provisoriamente, se disse) pelas Oficinas de Calçado.
Também há poucos anos, e durante um curto período, a profanada capela do Conventinho do Desagravo serviu de Depósito de Material das Oficinas Gerais.
São bem curiosos estes sítios! Têm um bairrismo tranqüilo, quási de extra-muros, desafogado e popular, sem cair no pitoresco. Mas hemos de andar para diante.

Palácio dos Condes Almirantes de Rezende [1968]
Campo de Santa Clara, 21-24; Largo Dr. Bernardino António Gomes, 1-4; Rua do Paraíso, 2-16
OGFE vulgo Casão MilitarArnaldo Madureira, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 79-80, 1939.

Friday, 26 July 2019

Mosteiro de Santa Clara

Ora agora me cumpre falar-te do Convento das freiras de Santa Clara.

Ali, onde vês êsse casarão militar — recorda-nos Norberto de Araújo — , que ocupa a área que confina já com a Rua do Mirante — a Fábrica de Armas do fim do século XVIII — , e junto ao qual se erguem umas casas de habitação, pertenças também do Ministério da Guerra, assentou o desaparecido Convento que deu o nome ao sítio.


Campo de Santa Clara [1900]
Casas antigas, séc. XVIII, erguidas junto à Fábrica de Armas, onde assentou o célebre Convento de Freiras Clarissas, que deu o nome ao sítio.
Machado & Souza, in AML

Em 1288, quatro damas nobres e piedosas resolveram fundar um Mosteiro para religiosas da Ordem franciscana de Santa Clara, e começaram a erguer uma casas à Trindade. Breve, porém, se resolveram por sítio mais vasto, e escolheram êste campo, adquirindo uns chãos que aqui possuía Gonçalo Pires. A habitação estava de pé em 1292 e a Igreja inaugurou-se em 1294.
Prosperou logo aquela Casa religiosa, que pelo andar dos séculos se enriqueceu, sendo das mais grandiosas de de Lisboa, com sua Igreja recheada de boa. arte e de preciosas alfaias. 
O Terramoto de 1755 reduziu tudo a escombros e a cinzas. Foi esta uma das casas de Lisboa que mais sofreram; nada se salvou, e morreram 400 pessoas, entre as quais 123 religiosas e recolhidas. Nunca mais se pensou em reedificar Santa Clara. O terreno foi rasoirado para nele e edificar pouco depois uma dependência do Arsenal Real do Exército, a «Fundição de Santa Clara», ou Fábrica de Armas, com casas anexas e habitação de oficiais. Hoje essa Fábrica está convertida na Fábrica de Equipamentos e Arreios [vd. N.B.], mas o aspecto exterior não difere do do século XVIII.

Campo de Santa Clara, Fábrica de Armas [1900]
Antiga depência do Arsenal Real do Exército, a «Fundição de Santa Clara, depois OGFE.
Machado & Souza, in AML


Pois foi aqui o Mosteiro das freiras de Santa Clara, com larga cêrca traseira e que ainda há quarenta anos [c. 1900] se adivinhava em pedaços de quinta — como os vimos — , Mosteiro que por alguns escritores, reproduzindo-se, foi dado como assente no sitio onde se ergueu depois o Conventinho do Desagravo.

Campo de Santa Clara [1961]
Casas antigas, séc.XVIII, erguidas junto à Fábrica de Armas, onde assentou o célebre Convento de Freiras Clarissas, que deu o nome ao sítio, vendo-se à esq. a Fábrica de Armas hoje OGFE.
Arnaldo Madureira, in AML

N.B. Mais tarde, em 1968, por fusão das as Oficinas Gerais de Fardamento (OGF), com a Fábrica Militar de Santa Clara (FMSC), antiga Fábrica de Equipamentos e Arreios criada em 1927, tiveram origem as actuais Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento (OGFE).
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 75-76, 1938.

Wednesday, 24 July 2019

Jardim de Santa Clara / Jardim Botto Machado

Ora se aqui não devia de haver um miradouro! Qual é o sitio de Lisboa que o não possue?
Aí o temos: o Jardim do Campo de Santa Clara construído em 1862 [ou Jardim Botto Machado (1865)], mas muito melhorado depois. Daqui tiramos urna vista panorâmica do rio, tranqüilo e azulado.
E desçamos, cortando ainda a Feira da Ladra.

Jardim de Santa Clara ou Jardim Botto Machado [c. 1930] 
Em frente aos Palácios Lavradio e Sinel de Cordes
Ferreira da Cunha, in AML

Esta parte baixa do Campo de Santa Clara intitula-se desde há poucos anos Praça Dr. Bernardino António Gomes, que foi notável médico da Marinha de Guerra, e cujo busto, sôbre plinto, se ergue no centro da Praça, diante do Hospital, de que êle foi Director. Êste médico, verdadeiro homem de ciência, foi quern em Portugal aplicou pela primeira vez a anestesia pelo clorofórmio (1848).

Campo de Santa Clara  [1929]
Do lado esq. vê-se a cortina do Jardim de Santa Clara ou Jardim Botto Machado (1865)

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

N.B. Baptizado, em 1865, com o nome de Botto Machado em homenagem ao político português Pedro do Amaral Botto Machado. Pequeno espaço verde municipal, gradeado e com ruas asfaltadas com um estrato arbustivo e arbóreo bem desenvolvido. 
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 77-78, 1939.

Sunday, 21 July 2019

Chafariz da Meia-Laranja

A Rua Maria Pia — assim chamada pelo povo desde o final do século passado, antiga «Estrada da Circunvalação», designação ainda municipal em 1894 — começa do lado sul da antiga Ponte de Alcântara e vai até ao cruzamento com a Rua do Arco do Carvalhão.

Chafariz da Meia-Laranja, aguadeiras [1907]
Rua Maria Pia
Joshua Benoliel, in AML

A «Meia-Laranja» fica exactamente na Rua Maria Pia, entre o Arco de Carvalhão e Alcântara, na confluêndia da Estr. dos Prazeres com a Rua Maria Pia. Penso que se chama Meia-Laranja pelo feitio da rua que é cortada como se fosse uma laranja cortada ao meio criando um espaço em forma de semicírculo.
No centro há um Chafariz que, naquele tempo, era usado pelos aguadeiros, servindo de bebedouro aos cavalos e burros dos vendedores ambulantes.








Chafariz da Meia-Laranja [1964]
Rua Maria Pia junto ao antigo Casal Viúva Teles
Arnaldo Madureira, in AML

Bibliografia
NEVES, Ernesto, Uma tela igual às outras: um metro por oitenta e um, 2005.

Friday, 19 July 2019

Rua de Campo de Ourique

No século XVIII esta artéria, já desenhada e edificada — recorda Norberto de Araújo — , chamava-se dos «Pousos» –, pela proximidade com a quinta dêste nome dos Rebelos Palhares, depois dos Sás (Anadias). [...]
O sítio de Campo de Ourique logra porém possuir uma designação que blasona de antiguidade; terras de pão e de oliveiras nos séculos velhos, quintas, terrenos para merendas e passeio no século de seiscentos — subúrbios de Campolide com título próprio — , só no ciclo posterior ao Terramoto começou a desenhar-se em póvoa rudimentar, pela força da lei demográfica, apressada pelo arrasamento de uma parte de Lisboa.

Rua de Campo de Ourique [1908]
Machado & Souza, in A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 70-74, 1939.

Wednesday, 17 July 2019

Profissões de antanho: o homem da hortaliça

Não tinha grande relevo nem brilho de pregão o homem que carregava aos ombros dois canastros unidos por um grosso varapau:
 — Cá estão nabos, cenouras, tomates ou pepinos e tudo o mais que a horta dá!
Naturalmente, concorria no negócio com os lugares de hortaliça que os havia e há por toda a Lisboa, pequenas lojecas onde se vende, a par das couves e dos rabanetes, galinhas e coelhos em reduzidas capoeiras entaipadas e às vezes malcheirosas.

Profissões de antanho: o homem da hortaliça [1907]
Avenida Almirante Reis, S→N; quarteirão entre as Ruas Álvaro Coutinho e Febo Moniz
Joshua Benoliel, in AML

O homem da hortaliça, raras vezes de origem saloia, já não se vê nos bairros populares, substituído por oportunistas que, na altura das «novidades», gritam, de esquina em esquina, o produto que anunciam em primeira mão, utilizando umas carrocecas atreladas a pacientes burricos. Estes vendedores normalmente não pagam licença camarária para exercer o mister. Daí que, à aproximação do polícia fiscalizador, para gáudio e regalo dos proprietários dos lugares de hortaliça, lá vai tudo de escantilhão e com eles em fuga, a carroça, o burro, as balanças e os pesos, quando os há!

Profissões de antanho: o homem da hortaliça [post. 1901]
Avenida Vinte e Quatro de Julho e Praça do Duque da Terceira; Hotel Central
Garcia Nunes , in AML

Bibliografia
DINIS, Calderon , Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974, p. 42, 1986.

Sunday, 14 July 2019

Os Fiéis de Deus

Em 1902, o olisipógrafo Júlio de Castilho, adiantava a razão da origem deste curioso topónimo do seguinte modo: «A travessa dos Fieis de Deus, essa é toda mystica. Tira talvez origem de um antigo uso, que o Elucidário de Viterbo nos denuncia: montes de pedras soltas arrojadas a uma e uma pelos passageiros nas encruzilhadas, ao pé de alguma Cruz que ahi houvesse, e em honra d'ella; resto de hábitos pagãos transformados pelo Christianismo. Parecia aquillo um modo de provar que os fieis não esqueciam o seu Deus, pois erguiam, a pouco e pouco, junto ao symbolo da Redempção, aquelles rudes calvários, commemorativos do alcantilado theatro da Paixão de Christo.
A taes acervos de cascalho chamava o povo «Fieis de Deus», pela fidelidade dos obscuros e incógnitos auctores. E é para notar que a ermida de Nossa Senhora da Ajuda dos Fieis de Deus, que se acha ainda hoje no seu logar primitivo, foi edificada n'uma encruzilhada de dois caminhos; a actual Travessa dos Fieis de Deus, e a actual rua dos Caetanos.

Travessa dos Fiéis de Deus [1930] 
Perspectiva tomada da Rua de O Século
[Ermida (de Nossa Senhora da Ajuda) dos Fiéis de Deus]

Fotógrafo não identificado, in arquivo do Jornal O Seculo

Os «fiéis de Deus» eram pedrinhas — afirma por seu turno Norberto de Araújo. Pedrinhas de piedade. Não chegavam a ser uma lágrima. Queriam ser um Padre-Nosso. Quando era justiçado um homem, não o enterravam no adro sacrossanto das igrejas. A lei punha-o fora do seio de Deus. Abriam-lhe a cova numa encruzilhada. Os que passavam atiravam-lhe uma pedra e uma oração pelo «fiel de Deus». Eis o costume caritativo de há muitos séculos.
E aí está a única ermida do Bairro Alto, neste buliçoso sítio onde muitas outras existiram, e que esqueceram. Aí fica ela ao cabo do enfiamento de uma pitoresca travessa, ainda de casinhas cor-de-rosa, de fundo setecentista, perto das Salgadeiras, da Espera, das Mercês, da Trombeta. 

 Ermida (de Nossa Senhora da Ajuda) dos Fiéis de Deus] [1945] 
Travessa dos Fiéis de Deus, 111; Rua dos Caetanos
Eduardo Portugal, in AML

Data a Ermida de 1551, dedicada por um Afonso Brás às Almas do Purgatório. É pequena e pobre, com um arzinho de ingenuidade antiga. Nela habitou um dos cinco homens que, na cidade, tinham o ofício de recolher as crianças perdidas das mães: também foi um refúgio, os Fiéis de Deus.
Na Ermidinha entravam muitas vezes os calafates da Boavista, os brigões da Espera, os fidalgos de Soure, os frades eruditos de S. Caetano, as colarejas da Atalaia. Agora não entra quase ninguém. [...]
É simplesmente a pedrinha anónima, distraída, humilde dos Fiéis de Deus.
____________________
Bibliografia
CASTILHO, Júlio de, Lisboa antiga, Vol, 1, p. 102, 1902.
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 202-203, 1943.

Friday, 12 July 2019

Hotel Bragança ou Braganza Hotel

E numa luminosa e macia manhã de Janeiro de 1887, os dois amigos, enfim juntos, almoçavam num salão do Hotel Bragança, com as duas janelas abertas para o rio.

— QUEIROZ, Eça de, Os Maias, 1888


O Hotel Bragança ficava perto do Chiado, à esquina da Rua Vitor Cordon (outrora Ferragial de Cima) com a Rua dos Duques de Bragança (veio a chamar-se Rua da Luta, para de novo voltar a ser dos Duques de Bragança), não distante da Baixa. Era o Hotel Bragança o mais belo hotel lisboeta da época. Nele hoje funciona uma dependência da Universidade Livre. Pertence o edifício à Fundação D. Manuel II.

Hotel Bragança visto do Largo do Corpo Santo [1856]
No cimo vê-se a fachada que deitava para este Largo; situado na Rua Vítor Cordon (antiga rua do Ferragial), 45 — no local onde se situaria o Edifício do Tesouro dos Duques de Bragança — não deve ser confundido com o «Hotel Bragança» da Rua do Alecrim, 12, que lhe fica próximo. Do lado esq. vê-se o Convento do Corpo Santo
C. P. Symonds, in AML

O edifício do Hotel Bragança — diz o eng.º Vieira da Silva — , primeiramente denominado Hospedaria de Bragança, e depois, talvez por soar mal esta castiça designação portuguesa, chamado Braganza Hotel, alugado actualmente [1943] às Companhias Reunidas Gás e Electricidade, tem lojas na frente oriental e em parte da frente norte, rés-do-chão, 1.° e 2.° andares e sótão habitável; 11 janelas na fachada do norte e 12 na do sul; e 5 na frente do nascente e 4 na do poente. Não conseguimos averiguar em que ano foi construído o edifício (talvez depois do grande incêndio de 1841).

– Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os lençóis ao menos são frescos, cheiram bem, a sadio!
— QUEIROZ, Eça de, A Cidade e as Serras, 1901

Hotel Bragança [196-]
Rua Vítor Cordon (antiga rua do Ferragial), 45

Armando Serôdio, in AML

Pelo Braganza Hotel passaram alguns hóspedes ilustres vindos dos quatro cantos do mundo: imperadores, reis, príncipes, diplomatas, artistas e escritores, todos se hospedaram neste Braganza Hotel durante o século XIX. «(..) D. Fernando, o senhor infante D. Luiz (já então rei), o senhor infante D. João, etc. A rainha da Suécia, irmã de sua magestade imperial a duquesa de Bragança, também habitou este hotel, nos mesmos quartos dos imperadores do Brasil. Também esteve aqui residindo alguns dias S. A. o sultão de Zanzibar, Said-Bargash. (...) a célebre e estravagantíssima actriz francesa Sarah Bernhardt (Abril de 1882), e a viúva de Rattazzi,; o rei Kalakawa [Havai] (Agosto de 1881) e tôda a sua comitiva; os embaixadores do Japão ; o músico espanhol D. Guido Remigio Barbieri; sua alteza a princesa imperial do Brasil, seu marido o senhor conde de Eu, e o seu séquito;(...)»
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Bibliografia
SILVA, Vieira da, Os Paços dos Duques de Bragança em Lisboa, in Olisipo: boletim do Grupo Amigos de Lisboa, 1943.

Wednesday, 10 July 2019

Convento do Corpo Santo

Falemos do Corpo Santo 
De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo  «A origem deste nome está no culto de São Teimo, ou seja de S. Pedro Gonçalves Telmo, padroeiro dos pescadores, ao qual os devotos chamavam «Corpo Sant»; a imagem venerava-se numa ermidinha quinhentista de Nossa Senhora da Graça que ficava no princípio da Travessa do Cotovelo, já na proximidade do Largo actual, do lado norte. 
O nome de Corpo Santo passou ao sítio, ao Arco, ao Largo, e ao Convento dos dominicanos.

Igreja do Corpo Santo [191-]
Largo do Corpo Santo visto da Travessa do Cotovelo; Rua do Corpo Santo
Joshua Benoliel, in AML

O Convento, com sua Igreja, dos frades dominicanos irlandeses, data, neste sítio, de 1659, fundado por Fr. Domingos do Rosário, irlandês, que foi bispo eleito de Coimbra. O orago do Convento era de S. Domingos e de Nossa Senhora do Rosário, mas logo foi chamado do Corpo Santo — e até hoje. Existira antes (1629) à Cotovia, e desde 1633 no Pátio das Comédias das Fangas da Farinha, perto da Boa Hora. 
O Terramoto arruinou completamente o Mosteiro e Igreja dominicana no Corpo Santo, e foi depois erguida a Igreja que aí temos à vista, anexa à Casa religiosa, com entrada pela Rua de S. Paulo do Corpo Santo, e que não se distingue exteriormente.
A Igreja do Corpo Santo avulta neste Largo com sua fachada trivial, bem conjugada no conjunto muito pombalino do local; tem, como sabes, uma freqüência escolhida, tocada de distinção, mas não tanto, ou tão ostensivamente, como a do Colégio dos Inglesinhos. 
Por dentro é original.

Igreja do Corpo Santo [191-]
Largo do Corpo Santo visto da Travessa do Cotovelo; Rua do Corpo Santo
Garcia Nunes, in AML

A Igreja do Corpo Santo é das poucas de Lisboa de forma octogonal, uma face das quais corresponde à entrada, sob arco de volta abatida que sustenta o côro.
O teto é em cúpula, pintada de azul estrelado, e encimado por lanternim. [...]
Tem um ar discreto, a-pesar-de tudo muito português, esta Igreja dos dominieanos do Corpo Santo.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 35-36, 1939.

Sunday, 7 July 2019

Palácio da Rosa (Castelo Melhor)

O Palácio da Rosa, no Largo da Rosa, sobre a Mouraria, com a frente principal orientada a Sudoeste, ostenta dois pavimentos, além do térreo, dos quais o primeiro corres­ponde à parte nobre primitiva, aliás transfigurada, e mantém uma aparência repousada no seu semblante muito século XIX, à parte o portal setecentista. Em rigor pode considerar-se uma reedificação do século XVII, alterada e acrescentada no século passado [XIX]. É, contudo, uma representação sola­renga de Lisboa fidalga, e, só por esta circunstância digna de relevo.


Assentou aqui a casa nobre quinhentista de Luís de Brito de Nogueira, senhor dos morgados de S. Lourenço, de Lisboa, e de Santo Estêvão, de Beja, e descendente do cavaleiro, alcaide-mor de Lisboa, Afonso Ennes Nogueira, já no local proprietário da casa nobre no século XIV. Foi Luís de Brito o fundador (1619) do Convento da Rosa das religiosas dominicanas, que avultou à direita das actuais Escadinhas da Costa do Castelo, e que, destruído pelo Terramoto, caldo em ruínas, desapareceu de todo no começo do século passado [XIX]. Aquele Luís de Brito casou com D. Inês de Lima, da Casa dos Viscondes de Vila Nova da Cerveira, cujo 1.º do titulo, e primeiro visconde (1476) que houve em Portugal, foi Leonel de Lima, alcaide-mor, de Ponte de Lima. E aí está como a casa dos Britos Nogueira, da Mouraria, passou aos Vila Nova da Cerveira, para a qual entrou a varonia dos Britos. No século XVII o palácio foi reedificado, quase desde os fundamentos.

Palácio da Rosa (Castelo Melhor)  [ant. 1950]
Fachadas do  Palácio da  Rosa, dos  Marqueses de Ponte de Lima e Castelo Melhor, no qual se integra a velha igreja de  S.  Lourenço, contígua pelo Norte ao palácio, antiga Igreja paroquial de S. Lourenço, foi fundada no  século XIII por Pedro Nogueira, antepassado do fundador das casas do Morgado de S. Lourenço, reedificada depois do  Terramoto e restaurada em 1867 e 1904.
Largo da Rosa, 1-5; Escadinhas da Costa do Castelo, 6; Rua Marquês de Ponte de Lima,35-37
Horácio Novais, in Inventário de Lisboa

O Palácio da Rosa, com seu carácter seiscentista, foi destruído pelo Terramoto na sua maior parte, era então propriedade do 4.º Visconde de Vila Nova da Cerveira, D. Tomás Xavier, que nele houve de fazer grandes obras de restauro, as quais transformaram quase completamente não só o semblante exterior como a disposição interior. Foi, porém, no tempo do rico Visconde da Várzea, no final do século passado, que o palácio por acrescentamento de dependências, e novos restauros, adquiriu o aspecto que hoje mantém, mais burguês do que nobre, se abstrairmos do pátio interior, com decorações do começo do actual século.
Num troço do antigo jardim da casa nobre, que foi dos Britos de Nogueira, avulta, como padrão histórico, uma parte de um lanço da muralha da Cerca Fernandina, que desde aqui descia às Portas de S. Vicente da Mouraria. O palácio, de resto, desde o século XIV, que se encostava, e tinha, e tem, por fundo Norte a muralha daquela Cerca.

Palácio da Rosa (Castelo Melhor), portal nobre [c. 1900]
Largo da Rosa, 1-5; Escadinhas da Costa do Castelo, 6; Rua Marquês de Ponte de Lima,35-37
A Frontaria Principal, com sete janelas de peitoril ( século XIX), e, nela: 

O Portal, com bela expressão decora­tiva, emoldurado de cantaria, e sobrepujado, acima de tímpano, de
grande pedra de composição heráldica, ladeada de grinalda suspensa, entre dois leões minazes, na qual
se vêem, encimada por coroa condal, o bra­são de armas dos Vila Nova da Cerveira, esquartelado
dos Limas (quatro palas), dos Nogueiras (com duas bandas de escaques), dos Vasconcelos (três faixas 
eiradas), dos Bri­tos (nove lisonjas), e centrado do escudete dos Teles da Silva, Alegretes (dois leões 
al­ternando em campos rasos).
 José Artur Bárcia, in A.M.L.

No interior do Palácio, de todo não destituído de certa nobreza, a despeito dos restauros que lhe modificaram o carácter, pouco se encontra presentemente com o pas­sado histórico. Assinala-se:
As Salas, restauradas com tectos de es­tuque do final do século passado, algumas ainda com tectos apainelados, com pinturas decorativas, em estilo pompeiano, do final do século XVIII, e, entre elas: a Sala de Jan­tar, de tecto de estuque, estilo holandês, obra de restauro do século passado, e uma Saleta, revestida em 1904 de azulejos de Batistini, em painel representando episódios históricos; 

Palácio da Rosa (Castelo Melhor), sala de Jantar [1899]
Largo da Rosa, 1-5; Escadinhas da Costa do Castelo, 6; Rua Marquês de Ponte de Lima,35-37
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.
 
A Sala de Baile, também cha­mada do Trono, na qual se mantém o trono, forrado de velho brocado de seda amarela, e em cujas paredes, também forradas de brocado, se ostentam os retratos a óleo, do Conde de Castelo Melhor, amigo devotado de D. Afonso VI, e ainda um magnífico re­trato do 1.º Marquês de Ponte de Lima.

Palácio da Rosa (Castelo Melhor), Sala de Baile, ou do Trono [1899]
Largo da Rosa, 1-5; Escadinhas da Costa do Castelo, 6; Rua Marquês de Ponte de Lima,35-37
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.
 
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1950.

Friday, 5 July 2019

Lojas de antanho: «Lisboa á Moda»

A Lisboa á Moda — lê-se no jornal A Capital de 1916 — é uma excellente camisaria que fica á esquina da rua de S. Nicolau. Representa da parte do sr. David, que a fundou e dirige, um notavel esforço, porque tendo uma existencia relativamente curta, é um dos estabelicimentos de camisaria mais frequentados  e com melhor clientella. Os seus artigos, sem serem nunca caros, sao de superior qualidade, como o comprova a  clientella da casa, exigente e escolhida.

Lisboa á Moda, camisaria e gravataria [c. 1910]
Esquina da Rua Áurea, 106-108 com a Rua de S. Nicolau, 85-87
Neste local existe actualmente um hotel.
Alberto Carlos Lima, in AML

Bibliografia
A Capital: diário republicano da noite, 1916 [1910-1938].

Wednesday, 3 July 2019

Rua Alexandre Herculano, 25

O Prémio Valmor, em 1911, foi atribuído a um edifício de habitação. Este situa-se no nº 25 da Rua Alexandre Herculano. O projecto é da autoria do arq. Miguel Ventura Terra (1866-1919) e o proprietário era António Tomás Quartim.

Rua Alexandre Herculano, 25 [c. 1911]
Prémio Valmor em 1911
Joshua Benoliel, in AML

Considerado um excelente modelo de arquitectura urbana, este edifício apresentava um nobre estilo, incorporando diversos materiais e demonstrando uma notória influência parisiense.
Actualmente encontra-se em bom estado e funciona aqui uma Conservatória do Registo Civil.

Rua Alexandre Herculano, 25  [c. 1952]
Prémio Valmor em 1911
Gustavo de Matos Sequeira , in AML
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