Sunday, 15 July 2018

Rua dos Remédios à Lapa

Topónimo atribuído por Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 para denominar a até aí designada Rua dos Remédios, conforme refere o olisipógrafo Pastor de Macedo:
Aparece em 1759 sob o nome de Rua de Nossa Senhora dos Remédios, nome que depois se simplificou para Rua dos Remédios. Este foi substituído pelo de Rua dos Remédios da Lapa (e não à Lapa) por edital do Governo Civil de 1 de Setembro de 1859. Conforme diz G. de B. [Gomes de Brito] o nome desta artéria foi dado "em homenagem a Nossa Senhora dos Remédios, padroeira do convento de carmelitas descalços, fundado em 1582 na rua larga que vai de Santos para Alcântara" (actual Rua das Janelas Verdes).
(MACEDO, Luís Pastor de, Lisboa de Lés-a-Lés, vol. IV)

Rua dos Remédios à Lapa [c. 1900]
Ao fundo, a Rua Garcia de Orta
Machado & Souza, in A.M.L.

Rua dos Remédios à Lapa [c. 1900]
Serralharia Jacob Lopes da Silva; ao fundo, a Rua Garcia de Orta
Machado & Souza, in A.M.L.

Friday, 13 July 2018

Edifício na Avenida Almirante Reis, 1

Construído segundo projecto do arq.º Joaquim Francisco Tojal, este edifício de gaveto e planta longitudinal, data de 1905. É um dos exemplares de arquitectura urbana ecléctica da Av. Almirante Reis [antiga de Dona Amélia], com características muito marcadas do início do séc. XX, nomeadamente ao nível dos elementos empregues, como o ferro forjado e o azulejo, que revelam um gosto Arte Nova.

Edifício na Avenida Almirante Reis (ao centro) [1944]
Avenida Almirante Reis, 1-1I; Rua Nova do Desterro, 2-2A
Eduardo Portugal, in AML

Classificado como Imóvel de Interesse Público, desenvolve-se em 4 pisos com mansarda, rematados por cornija saliente e platibanda interrompida por trapeiras, rasgadas por janelas com varanda corrida,encimadas por cornija,sendo esta,coroada por uma espécie de frontão curvo. É de salientar o notável conjunto azulejar policromático, que decora a zona superior e de coroamento, representando elementos florais de linhas finas e ondulantes, que transmitem uma noção de movimento. [cm-lisboa.pt]

Edifício na Avenida Almirante Reis (ao centro, a seguir ao chafariz) [1958]
Avenida Almirante Reis, 1-1I; Rua Nova do Desterro, 2-2A
Chafariz do Intendente
Judah Benoliel,, in AML

Wednesday, 11 July 2018

Teatro de S. Carlos

Ora aqui temos, Dilecto, um edifício ligado, de certo modo a tôda a história política e social de Lisboa do século passado e princípios do actual: o Teatro de S. Carlos. 

Presentemente — Setembro de 1939 — beneficiando de obras de reedificação, mais que de restauro, de que bem carecia, êste teatro do Estado não tem ainda destino artistico no seu horizonte. Encerrado há uma dezena de anos- tem perdurado em Lisboa como um museu de recordações com alguma boa arte a ilulstrá-lo.


O Teatro de S. Carlos — prossegue Norberto de Araújo — foi construído [para substituir a Real Casa da Opera (Real Opera do Tejo sita na Ribeira das Naus)] entre 8 de Dezembro de 1792 e 30 de Junho de 1793, dia da inauguração, com a ópera de Cimarosa «La Balerina Arnanter. O risco do Teatro, tomado do de S. Carlos de Nápoles, é do arquitecto José da Costa e Silva [...]
Ao invés do que vulgarmente se supõe, o Teatro não foi de iniciativa nem de fundação do Estado, mas de um grupo de capitalistas, entre os quais Anselmo José da Cruz Sobral, Jacinto Fernandes Bandeira, João Pereira Caldas e o famoso Joaquim Pedro Quintela, depois Barão de Quintela, que cedeu o terreno, com a condição de ficar com um grande camarote privativo para si e para seus descendentes, camarote que D. Fernando comprou em hasta pública em 1880 por vinte e um contos da época, e que mais tarde passou à Condessa d'Edla.
Só em Agôsto de 1854 o Estado adquiriu o Teatro, que se integrou no Património Nacional.

Teatro de S. Carlos [1928]
Rua Serpa Pinto, 9; Largo de S. Carlos, antigo do Directório
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

De D. Mariz I a D. Manuel II e Teatro de S. Carlos foi e teatro da Côrte, grandes solenidades oficiais, dos dramas e das farsas políticas, das exaltações glorificadoras e dos protestos colectivos. Algumas dezenas de emprêsas, de nomes ilustres ou de arrivistas de qualificação social, passaram por S. Carlos, desde Francisco Lodi, o primeiro de todos, passando pelo Conde de Farrobo (1838-40) até José Paccini, no comêço dêste século, e Mimon Anahory, já no actual [XX].
Ficaram célebres os «partidos» das cantoras e bailarinas — cujas narrativas enchem crónicas saborosas de Lisboa oitocentista, através de dinastias de boémios e de fidalgos, de amadores entendidos e de apaixonados das «primas-donas».
Cento e quarenta anos de Lisboa foram cento e quarenta anos de S. Carlos — hoje [1939] sonâmbulo.
Uma nota te quero dar: de comêço, a iluminação era a velas de cera e sebo e a azeite, só entrando o gás em 1850, e a electricidade em 1881.
A-pesar-do primitivismo da iluminação, foram «feéricas» algumas das grandes festas em S. Carlos, nos tempos de D. João VI, de Junot, de D. Maria II. O Teatro foi inaugurado com artistas masculinos cantores, representando os papéis de mulheres, os «supranistas» «castrati» para que a voz não engrossasse de volume... Só em 1799 pisaram o tablado da Ópera de Lisboa «primas-donas» autênticas, como Mariana Albani e Luíza Gerbini. Lisboa não perdeu pela demora, porque depois as cantoras e bailarinas de S. Carlos endoideceram meia cidade. Quem sabia disto bem era Pinto de Carvalho, o «Tinop», falecido em 1937.  

 Theatro de São Carlos, gravura da autoria de Legrand [entre 1839 e 1847]
Incluído no programa inaugural esteve também um elogio cantado, composto por António Leal Moreira, no âmbito das celebrações da gravidez da princesa Carlota Joaquina, a quem foi dedicado o teatro

S. Carlos é um grande e um lindo Teatro, ocupando uma enorme área, num edifício cheio de pavimentos, galerias, salas, casas, dependências — verdadeiro labirinto. Embora nos últimos trinta anos muito perdesse em fausto e sumptuária ainda era de ver-se, ao tempo em. que começaram as obras.
O teto do magnifico Salão de Entrada é de Cirilo Wolkmar Machado, sendo o chão de mármore branco e azul.
O Salão Nobre, ou «Salão das Oratórias», era igualmente formoso, mas muito perdeu do seu primitivo aspecto.
A Sala de Espectáculos, em forma elíptica, de vivos de ouro e de semblante nobre, tem vinte e um metros de comprimento e dezasseis de alto, ostentando cinco ordens de camarotes, entre êles as famosas «torrinhas›; a bôca de cena mede catorze metros. O teto, restaurado, é de Manuel da Costa, c a magnífica «tribuna real», que ocupa três alturas e larguras de camarotes, foi interiormente pintado por G. Appiani.

E eis quanto posso sintetizar dêste Teatro de S. Carlos, cuja fachada, que não tem a importância da do Teatro Nacional, ostenta na sobreporta central do terraço a lápide latina, ligando os nomes de Carlota Joaquina e do Príncipe Regente ao de Pina Manique — que tornou possível o milagre de se erguer um edifício desta ordem em seis meses —, e marcando a data MDCCXCIII (1793).
 
Classificado como imóvel de interesse público em 1928 (8 de Setembro de 1928) e Monumento Nacional em 1996 (6 de Março de 1996).

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 14-15, 1939.

Sunday, 8 July 2018

Largo do Barão de Quintela

Chegamos ao Largo Barão de Quintela — diz Norberto de Araújo — , no qual se eleva o belo Palácio que foi dos Quintelas-Farrobos, que fêz parte da história política e social de Lisboa da primeira metade do século passado.  


Êste Largo do Barão de Quintela foi mandado terraplanar e construir por Joaquim Pedro Quintela em 1788, que para tal comprou uns casebres aqui existentes, entre as Ruas das Flores e do Conde.
É discreto êste Largo, com o seu relvado e as suas palmeiras decorativas, ao centro da qual se ergue a estátua a Eça de Queiroz, devida à iniciativa de alguns homens de letras.

Largo do Barão de Quintela  [c. 1965]
Monumento a Eça de Queiroz; Rua das Flores
Armando Serôdio, in AML

Joaquim Pedro Quintela (1748-1817), Barão de Quintelapróspero negociante e abastado proprietárioera um dos lisboetas que no século XIX promovia concertos privados em sua casa reunindo profissionais e amadores e, como o Conde de Burnay e o Conde Farrobo (2º Barão de Quintela e também chamado Joaquim Pedro Quintela) era um dos que detinham o monopólio da indústria dos tabacos.
Em 29 de Novembro de 1807 quando a Família Real parte para o Brasil, Junot instalou-se no Palácio do Barão de Quintela, erguido desde 1782.

Largo do Barão de Quintela  [195-]
Palácio que foi dos Quintelas-Farrobos
Horácio Novais, in AML

Largo do Barão de Quintela, 1  [1933]
Edifício que albergou, em tempos, o consultórios de Egas Moniz e
onde está instalada a Associação a Associação Humanitária
de Bombeiros Voluntários de Lisboa

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
 
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 49-50, 1939.
cm-lisboa.pt.

Friday, 6 July 2018

Rua Alexandre Herculano (Palacete da Condessa de Edla)

Sobre esta zona da cidade relembra-nos o olisipógrafo Norberto de Araújo que «Aqui, no comêço de Conde Redondo e Santa Marta, do lado poente, existiu, no fundo de um jardim, o Palacete da Condessa de Edla [(vd. 2.ª foto], a espôsa morganática de D. Fernando, marido de Maria II; foi tudo demolido para dar lugar (1938) ao prolongamento da Rua Alexandre Herculano, que ai tens, já terraplanada, inaugurada em 25 de Outubro dêste ano de 1939».

Rua Alexandre Herculano [1940]
Observa-se  à dir. a Rua Camilo Castelo Branco e, à esq., a Rua Rodrigues Sampaio; em último plano a Avenida da Liberdade
Eduardo Portugal, in AML

N.B.: Alexandre Herculano de Carvalho Araújo (1810-1877) nasceu no Pátio do Gil, na Rua de São Bento. Foi poeta, romancista, historiador e ensaísta. Juntamente com Almeida Garrett, é considerado o introdutor do Romantismo em Portugal. Foi o renovador do estudo da História de Portugal.

Rua Alexandre Herculano [1938]
Palacete da Condessa de Edla
Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 88-89, 1939.

Wednesday, 4 July 2018

Ermida de Nossa Senhora do Rosário (ou da Verónica)

No seu relatório paroquial de 1759 diz o prior da freguesia de Santa Engrácia, Luís da Costa Barbuda, acerca desta ermida: «A ermida de N. S. do Rosário, sita na Vila Galega, fundação de alguns devotos, com um terço». De acordo com Norberto de Araújo, a Rua da Verónica, «que segue à Graça», deve o seu nome à existência desta ermida.


Ermida construída no século XVIII (1748) em substituição de um nicho ali existente. Um papel colado num dos poucos livros da irmandade dessa capela diz que naquele local houvera primitivamente um nicho chamado da Verónica; que mais tarde uns devotos, autorizados pelo Prior do Mosteiro de S. Vicente, construiram ali aquela ermida, e a ela se acolheram constituindo a irmandade de N. S.. do Rosário, tendo-lhes o dito Prior imposto a obrigação de taparem a porta com pedra e cal no caso de um dia de lá saírem.

Ermida de Nossa Senhora do Rosário [1902]
Rua da Verónica, 31; Travessa do Rosário de Santa Clara
Machado & Souza, in AML

Em 1914, em virtude da lei da separação do Estado das igrejas, foi mandado arrolar o pouco que lá dentro havia, e leiloado depois, sendo a sua capela secularizada. O que restava da irmandade e a imagem da Senhora passou a recolher-se à Igreja da Graça; em 1934, a primeira Assembleia de Deus de Lisboa alugou o edifício abandonado convertendo-o em espaço de culto; em 1943 o interior é utilizado como fábrica de malas.



Ermida de Nossa Senhora do Rosário, N. [c. 1900]
Rua da Verónica, 31
Artur Bárcia, in AML


Ermida de Nossa Senhora do Rosário, S. [1942]
Rua da Verónica, 31
Eduardo Portugal, in AML




Bibliografia
Revista municipal Lisboa, 1943.
monumentos.pt.

Sunday, 1 July 2018

A Sineta de S. Crispim

Maravilhas pequeninas do encanto de Lisboa — e que não chegam a ser maravilha nenhuma — são estas torres sineiras das ermidas, pouco mais que um nicho, e que se topam por aqui e por ali, às vezes já sem sinos, sem ermida, sem função. Parece terem ficado por esquecimento.
Elas foram, na sua nudez estática, a voz dos templos minúsculos, e, ainda hoje, quando soam, é como se fossem badaladas num bairro de bonecas. Há-as por toda a parte antiga da cidade, ligadas às tradições devotas. Cada uma delas tem uma lenda ou uma tradição. Tocaram nas procissões e chamaram para as romarias. 
Esta de S. Crispim — é apenas um apontamento, uma nota fugitiva, quase imperceptível, nas escadinhas que sobem de S. Mamede ao Milagre de Santo António. As coisas grandes fazem a crónica de Lisboa; as pequeninas são a sua iluminura.

A Sineta de São Crispim [1902]
Escadinhas de São Crispim À esquerda, o local da primeira ermida de S. Crispim e S. Crispiniano e, ao fundo, no cimo do muro. observa-se a a pequena torre sineira de S. Crispim
Machado & Souza, in AML

Aqui nas Escadinhas, no ângulo reentrante, à direita, logo adiante de S. Patrício, existia, por 1560, a ermida velha de S. Crispim e S. Crispiniano, da Irmandade dos Sapateiros, templozito todo «cosido de oiro», e que, arruinado pelo Terramoto, durou ainda até 1760. Levantou-se, depois, a Igreja de S. Crispim, na Rua de S. Mamede — dona de sineta. A sineta de S. Crispim! 
Pois S. Crispim não podia passar sem uma lenda. Ela diz que certa mulherzinha cristã, do tempo dos mouros, e quando foi do Cerco, se entreteve, por ardil, a atirar maçãs e castanhas aos sarracenos que se recolhiam â almedina, no intuito de os demorar e serem, assim, menos na defesa. Mais tarde uma Catarina Fernandes, patriota dos quatro costados, e em memória do facto, doou em testamento umas suas casas junto à ermida, para que, em véspera de S. Crispim, de ali se atirassem ao rapazio castanhas e maçãs. Eis uma comemoração bizarra. 
E assim se fez durante séculos e se fazia ainda no século passado. 
Tudo isto nos é recordado pela torrinha sineira, com a sua cruz, a sua corda, a sua janela gradeada, o seu ar de ingenuidade, na evocação da algazarra do rapazio rebolando atrás das camoesas — em véspera da festa de S. Crispim.

A Sineta de São Crispim [1944]
Escadinhas de São Crispim, perspectiva tomada da Rua de S. Mamede À direita, no cimo do muro. observa-se a a pequena torre sineira de S. CrispimMartinez Pozal, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 52-53, 1944.

Friday, 29 June 2018

Café Palladium dos Restauradores

O Café Palladium, projectado por Raul Tojal, ocupou em 1932 o piso térreo de um dos mais interessantes exemplos arquitectónicos da Avenida liberdade (edifício do arq.º Norte Júnior, 1909). Foi louvado como expoente máximo de modernidade, levando proprietários de casas congéneres — como o Nicola ou o Chave d'Ouro — a encomendar projectos de alteração do interior dos seus estabelecimentos ao mesmo arquitecto.

Edifício projectado por Norte Júnior [1918]
Avenida da Liberdade, 1 com a Calçada da Glória; em 1932 instalou-se
aqui o Café Palladium 

Legenda da imagem no arquivo: [Parada militar em honra dos militares vitoriosos da Primeira Guerra Mundial]
Joshua Benoliel, in AML

Durante várias décadas seria um dos poisos preferidos de estudantes e intelectuais da oposição ao regime salazarista. Alguns elementos da decoração interior — incluindo baixos-relevos e pormenores do varandim  — foram aproveitados pelo centro comercial que lhe sucedeu.¹

Edifício projectado por Norte Júnior [c. 1912]
Avenida da Liberdade, 1 com a Calçada da Glória; em 1932 instalou-se
aqui o Café Palladium
Fotografia anónima

Na esquina da Calçada [da Glória] — diz Norberto de Araújo—, já na Avenida, existe desde 17 de Novembro de 1932 o Café «Palladium», fundado por Tavares & Ferreira, ainda seus proprietários. Era aqui, anteriormente, o «Stand Dodge», que sucedeu ao «Faustino» Foi arquitecto dêste Café Raúl Tojal. Presentemente [1939] estão-se fazendo escavações para prolongamento do «Palladium» no terreno em que assenta o prédio contíguo, construido pelo Dr. Henrique Bastos há uma dezena de anos, na esquina da Calçada e Rua da Glória.²

Café Palladium [post. 1932]
Avenida da Liberdade,
1
 Estúdio Mário Novais, in FCG

Bibliografia
¹ DIAS, Marina Tavarea, Os Cafés de Lisboa. p. 128, 1999.
²
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV p. 23, 1939.
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