Sunday, 16 September 2018

Ermida de Nossa Senhora da Glória (ao Cardal da Graça)

Havia dias em que, sem repousar, correndo pelas ruas, esbaforido, eu ia à missa das sete a Santana, e à missa das nove da Igreja de São José, e à missa do meio-dia na ermida da Oliveirinha — assim era o dia-adia de Teodorico Raposo – o protagonista e narrador de "A Relíquia" de Eça de Queiroz. 
Descansava um instante a uma esquina, de ripanço debaixo do braço, chupando à pressa o cigarro; depois voava ao Santíssimo exposto na paroquial de Santa Engrácia, à devoção do terço no convento de Santa Joana, à bênção do Sacramento na capela de Nossa Senhora, às Picoas, à novena das Chagas de Cristo, na sua igreja, com música. Tomava então a tipóia do Pingalho, e ainda visitava, ao acaso, de fugida, os Mártires e São Domingos, a igreja do convento do Desagravo e a Igreja da Visitação das Salésias, a capela de Monserrate, às Amoreiras e a Glória ao Cardal da Graça, as Flamengas e as Albertas, a Pena, o Rato, a Sé! 
[QUEIROZ, Eça de, A Relíquia, 1887]

Ermida de Nossa Senhora da Glória [c.1900]
Rua de Nossa Senhora da Glória (ao Cardal da Graça)
José Leitão Bárcia, in AML

Estamos agora defronte da Ermida de Nossa Senhora da Glória — diz o ilustre Norberto de Araújo. É esta Ermida posterior ao Terramoto, pois foi construída em 1757 pela Irmandade daquêle orago. Nela esteve, naquêle ano, instalada provisóriamente a paroquial de Santa Maria Maior (Sé Patriarcal). Interiormente, a Ermida é pobre, sem capelas no corpo da Igreja, que apresenta apenas um interessante teto, em arco de cesto, pintado a claro escuro. Nos topos tem apenas dois altares: o de N. Sr.ª das Dores e o de N. Sr.ª de Fátima.

Ermida de Nossa Senhora da Glória [1944]
Rua de Nossa Senhora da Glória (ao Cardal da Graça)
Eduardo Portugal, in AML

A Capela-Mór [vd. 3ª foto] já tem que ver. Observa êsses painéis laterais de azulejo, guarnecidos de florões policromos, de bons amarelos, e sobrepujados por legenda.
Nessas legendas-uma em cada lado da capela — se atesta, na da esquerda que em 1 de Novembro de 1755 descançou aqui um sacerdote que conduzia o Santíssimo, e o povo se prosternou ante a sagrada partícula, e na da direita que em 1 de Novembro de 1757 se transferiu para esta Ermida a Imagem de N. Sr.ª da Glória.

N.B. O painel representativo da Senhora da Glória era objecto de culto e de muita devoção da população local.

Ermida de Nossa Senhora da Glória, Capela-mor [c.1900]
O altar-mor está separado por um arco redondo e apresenta uma falsa abóbada de madeira
Rua de Nossa Senhora da Glória (ao Cardal da Graça)
José Leitão Bárcia, in AML
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 Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p+. 26-27.

Saturday, 15 September 2018

1.000.000 de visitas! Acaba de franquear a porta deste Tasco o milionésimo freguês

Cerca de 3 anos após o início desta aventura "blogo-literária", este pictórico boteco atingiu 1.000.000 de acessos conforme atesta o contador temporariamente trasladado para o topo  da página. Um milhão de estímulos que nos encorajam a continuar viagem nesta espécie de máquina do tempo.
Aos nossos dilectos leitores (e a um ou outro troll), aos que aqui vêm em procura de informação e inspiração para criarem outras publicações e aos que partilham, comentam, copiam ou descarregam conteúdos sobre a nossa amada Lisboa —  um milhão de obrigados.
A gerência do Tasco

Largo do Rato e Rua Alexandre Herculano [1927-02-14]
Multidão acorre ao Tasco em busca das últimas publicações de Lisboa de Antigamente
(Agora mais a sério) Legenda no arquivo:«O povo vendo os destroços da revolução [Revolta de Fevereiro de 1927, vd. N.B.]
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

N.B. A Revolta de Fevereiro de 1927, por vezes também referida como Revolução de Fevereiro de 1927, foi uma rebelião militar que ocorreu entre 3 e 9 de Fevereiro de 1927, centrada no Porto, cidade onde estava instalado o centro de comando dos insurrectos e se travaram os principais recontros. A revolta, liderada pelo general Adalberto Gastão de Sousa Dias, terminou com a rendição e prisão dos revoltosos e saldou-se em cerca de 80 mortos e 360 feridos no Porto e mais de 70 mortos e 400 feridos em Lisboa. Foi a primeira tentativa consequente de derrube da Ditadura Militar que então se consolidava em Portugal na sequência do Golpe de 28 de Maio de 1926, ocorrido nove meses antes, iniciando um conjunto de movimentos insurreccionais que ficaram conhecidos pelo Reviralhismo. [Wikipedia]

Friday, 14 September 2018

Rua do Crucifixo, 55

Velha rua quinhentista  — pouco mais ou menos no lugar onde  ficava o «Beco de Gaspar das Naus»  — também chamada Rua do Santo Espírito da Pedreira devido à proximidade do convento do mesmo nome, hoje Armazéns do Chiado e antes Palácio Bacelinhos.

Rua do Crucifixo, 55 [1929]
Fachada do Stand de automóveis C. Santos, representante da marca 
Studebaker, inscrita na frontaria
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Wednesday, 12 September 2018

Chiado: antigo Convento do Espírito Santo da Pedreira

Na confluência das Ruas do Carmo e Nova do Almada — diz Norberto de Araújo — e em prolongamento para qualquer dos lados  — , com a entrada principal no tôpo do fundo da Rua Garrett, levanta-se o edifício dos Grandes Armazéns do Chiado [1894], que dominam o local.

Alçado do Convento e Igreja do Espírito Santo na calçada do Carmo, topo da rua direita das portas de Santa Catarina (hoje Rua Garrett), e Rua Nova de Almada, da travessa de Santa Justa, até à travessa (hoje Rua) de S. Nicolau

Assentava aqui, antes do Terramoto, o amplo Convento do Espírito Santo da Pedreira, dos frades da Congregação do Oratório de S. Felipe Nery, fundado no final do século XIII, e reedificado entre 1514 e 1516. O Terramoto destruiu o Convento e Igreja, que foram reedificados, sem a antiga grandeza. Em 1835, depois da extinção das Ordens, os religiosos, que foram tolerados por algum tempo, acabaram por ser expulsos da sua casa. O edifício foi então comprado por Manuel José de Oliveira, 1.° Barão de Barcelinhos (1841), individuo que, pela sua fortuna, granjeara o apodo de «Manuel dos Contos»; pelo segundo casamento da viúva o prédio e o título passaram para Manuel Correia da Silva Araújo, e, morrendo êste, novamente a viúva casou com o Dr. Carlos Ramiro Coutinho, que foi 3.º Barão de Barcelinhos e 3.º Conde de Ouguella. (A Baronesa, de apelido Soares de Oliveira, ainda sobreviveu ao terceiro marido). O título de visconde de Barcelinhos continuou-se do primogénito do Barão, e depois perdeu-se.

Convento do Espírito Santo da Pedreira
Legenda da gravura: Perspectiva conjectural do território da Pedreira nos finais do século XIII. Vê-se no primeiro plano, ao centro, o Convento do Espírito Santo da Pedreira (mais tarde, Palácio dos Barcelinhos / Grandes Armazéns do Chiado); em frente, em direcção ao Poente, a estrada de Santos (a Rua Garrett de hoje); à esquerda o Convento de São Francisco e os Mártires; mais ao longe o paço que foi dos Condes de Ourém; à direita o Estudo Geral (liceu); ao fundo, à esquerda o Convento da Trindade
Desenho: Alberto de Sousa, 1880-1961, pintor, in AML

No local existiu desde 1279, uma antiga Casa chamada de Espírito Santo da Pedreira, irmandade de nobres e mercadores ricos de origem judaica, que promoviam a associação e a entreajuda financeira. O culto do Espírito Santo vem da rainha Isabel, mulher de D. Dinis, no primeiro templo da Pedreira. Pedreira, porque no local se encontrava a grande rocha que caía sobre o vale a que hoje se chama Baixa, e por onde o rio não entrava. A casa, o hospital da irmandade e o respectivo espaço conventual situavam-se na confluência da que é hoje a Rua Garrett com a Rua Nova do Almada, e sofreram durante o século XVII várias obras de reconstrução. 

Grandes Armazéns do Chiado [1910]
Rua do Carmo, Rua Nova do Almada (perspectiva tirada da Rua Garrett)
Antigo  Palácio Barcelinhos e antes  Convento do Espírito Santo da Pedreira
Joshua Benoliel, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 89, 1939.
VALDEMAR, António, Chiado O Peso da Memória, p. 104 , 1989.

COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 22-1130, 1987.

Sunday, 9 September 2018

Pátio de D. Fradique e Palácio Belmonte

Um recanto aberto, impregnado de melancolia, é este do Pátio de D. Fradique. Nado e criado à sombra do Castelo, passagem do Chão da Feira para o Menino Deus, este Pátio tem qualquer cousa de original na Lisboa do pitoresco urbano. De seu título ele evoca um D. Fradique Manuel, que teve aqui casa, e da qual advém o Palácio dos Condes de Belmonte, senhores no sítio, cujo pórtico brasonado de Figueiredos e Cabrais, se abre numa lateral do primeiro compartimento [vd. 2ª foto].¹

 

Pátio de D. Fradique [ant. 1938]
Portal de acesso ao pátio de D. Fradique na Travessia do Funil, 12; [Rua do Chão da Feira]
Eduardo Portugal, in AML

Uma curiosidade lisboeta é êste Pátio de D. Fradique. Êle constitui o prolongamento natural do Chão da Feira, que acabamos de ver com a sua Porta de S. Jorge e os seus dois cubelos circulares decorativos, e do qual se passa ao Contador Mór através de três serventias curtas e estreitas: as travessas de S. Bartolomeu, do Chão da Feira, e do Funil, está já contígua ao Pátio. [...]
Contém-se o "sítio" numa área pequena que abre com um portal simples, aqui no tôpo do Chão da Feira, e fecha com outro na Rua dos Cegos; êste recinto logo da entrada é que constitui propriamente o Pátio, pois que o recinto mais largo, passado o arco ou passadiço, bem pode chamar-se um terreiro, como dantes se chamou "Hortas de D. Fradique".

Palácio Belmonte no pátio de D. Fradique «de Cima» [1907]
Portal nobre do solar dos antigos senhores da Ota e de Belmonte,  janela central da 
fachada sul encimada pelas armas dos Figueiredos  — cinco folhas de figueira, em aspa,
em campo rodeado da legenda «Pro Deo et Pro Patria. P.N.A.M»
Travessa do Funil, 12; à direita
observa-se o passadiço, de acesso ao terreiro ou Pátio
de D. Fradique «de Baixo»
Machado & Souza, in AML

Êste recinto, no seu todo, constitui serventia pública de passagem, com portas sempre escancaradas, embora seja de propriedade particular.  
Quem deu nome ao Pátio? Supôs-se, com certa verosimilhança, que fôsse um D. Fradique de Toledo, comandante general das tropas de Filipe IV, de Espanha, e comandante geral de uma esquadra saída de Lisboa, e que, em 1625, tomou a cidade da Baía aos holandeses.

Pátio de D. Fradique [1907]
A antiga "Porta de D. Fradique" é hoje um passadiço abobadado (com 22 metros 

de comprimento por 3 e meio de largura) que liga os dois pátios:
o Pátio «de Cima» (Palácio Belmonte) e o Pátio «de Baixo» ([Pátio de D. Fradique).
Pode ver-se no topo do passadiço, de lado a lado, um oratório/capela
dedicado a Nosso Senhor do Livramento
, ali colocado em 1878 e por onde se
chegava pelas duas escadas laterais que se vêem na foto.
Machado & Souza, in AML

Êste D. Fradique, Marquês de Valdueza, tinha um irmão, D. Fernando, homem de ruins fígados, que foi, aqui no Castelo, comandante dos presídios castelhanos, os quais situados na Praça Nova deitavam sôbre a área do actual Pátio; D. Fradique talvez aqui tivesse morado, e tem-se escrito que êle próprio foi comadante dos presídios.  
Parece, porém, incontroverso que o D. Fradique, que deu nome ao local, tivesse sido D. Fradique Manuel, em 1518 moço fidalgo do Rei Venturoso, pois é certo que antes do domínio espanhol em Portugal já a êste Palácio, «senhor» do Pátio, andava ligado o nome de «Fradique».²

Pátio de Dom Fradique «se Baixo» [c. 1940]
A fachada do Palácio Belmonte virada para o rio e para o Pátio d«e Baixo», evidencia as sobreposições e acrescentamentos a que o edifício foi submetido ao longo dos séculos, destacando-se o amplo terraço, sobre uma casa térrea do Pátio de D. Fradique «de Baixo», guarnecido de uma fina balaustrada, ao centro da qual blasona a pedra de armas dos Figueiredos e Cabrais

 O caminho à esquerda conduz ao portal na Rua dos Cegos
Eduardo Portugal, in AML

Com efeito no meado do século XV, um corregedor de Lisboa, Brás Afonso Correia, possuía neste sitio uns terrenos e casas que comprara (1449) a um Aires da Silva, e meio século depois (1508) adquiriu à Câmara mais um pedaço de chão e quintal. Esta propriedade de Brás Correia, que foi instituída em cabeça de vinculo pelo mesmo Brás em 1520, situava-se no que veio a ser depois o Pátio de D. Fradique «de Cima», que é aquele onde se rasga o portal do palácio.
Foi no final ainda do século XVI o no começo do século XVII que um descendente do corregedor do Lisboa (Rui de Figueiredo?) teria dado às suas casas quinhentistas, encostadas ao muro da Alcáçova, a forma apalaçada que em parte ainda hoje ostenta, no Pátio «de Cima». Em 1684 um descendente do fundador da Casa, Pedro de Figueiredo Alarcão, comprou umas casas e hortas, contíguas ao seu palácio pelo Nascente (Pátio de Baixo), ao 4.º Conde de Atalaia, D. Luís Manuel de Távora, quarto neto de um D. Fradique Manuel, descendente em linha directa, por bastardia, de um D. João Manuel, bispo de Ceuta e capelão mar de D. Afonso V, e filho natural do Rei D. Duarte.

Pátio de D. Fradique «de Baixo» [1968]
 À esquerda vê se parte final da fachada sul do Palácio Belmonte; o carreiro à direita conduz ao portal na Rua dos Cegos [vd. foto seguinte]
Armando Serôdio, in AML

Fora aquele D. Fradique o transmissor de seu nome ao Pátio «de Baixo», denominação também atribuída a uma porta da Cerca Moura, situada onde existe hoje o corredor abobadado que faz ligação com os dois pátios [vd. 3ª foto], ou, melhor com os dois recintos do Pátio de D. Fradique, e ainda às «Hortas de D. Fradique». Desapareceram pois os Manuéis (Atalaias) desta sitio, ficando toda a propriedade unida no vinculo dos Figueiredos (1684), no Pátio de D. Fradique.O Palácio sofreu pelo Terramoto (era então de Rodrigo António de Figueiredo Alarcão) bastantes estragos, cujas obras de restauro o devem tem em parte desfigurado. Andou depois, em vários períodos, arrendado totalmente, quer na sua parte nobre quer suas dependências modestas.
O seu maior interesse histórico-arqueológico reside no facto de nele estarem integrados, e com nitidez, elementos de muros da Alcaçova e das torres e muralhas da Cerca Moura.³

Pátio de D. Fradique «de Baixo» [1961]
Portal na Rua dos Cegos, 44
 Ao fundo vê-se o Palácio Belmonte e passadiço abobadado que liga os dois pátios
Arnaldo Madureira, in AML

No interior do Palácio Belmonte cumpre salientar as salas temáticas, os tectos apainelados ornamentados e o património azulejar. Classificado como Imóvel de Interesse Público é, actualmente, uma unidade hoteleira (Palácio Belmonte, no Pátio «de Cima» [vd. 1ª foto]. O Pátio de de D. Fradique «de Baixo» é propriedade da edilidade e encontra-se em ruínas (e ao abandono).
_________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, Vol. III, p. 47-48, 1938.
² idem, Legendas de Lisboa, p. 186, 1943.
³
idem, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, pp. 39-41, 1947. 
monumentos. pt; igespar.pt.

Friday, 7 September 2018

Rua Augusta, 161 «Casa Africana»

A Casa Africana — recorda- nos mestre Araújo — , do lado poente da Rua [Augusta] esquina da Rua da Vitória — celebrizada pelo «preto» que transporta os pacotes, tradição — mascotte que ainda se mantém — é dos estabelecimentos comerciais de renome na Baixa.

Rua Augusta, 161 [c. 1934]
«Casa Africana»
Eduardo Portugal, in AML

A Casa Africana foi fundada em 1856 na loja do prédio quási fronteiro, onde está o Hotel das Duas Nações [...] Em 1909 transferiu-se a Casa Africana para êste prédio, [...] ocupando de comêço apenas a loja, mas alargando e elevando sucessivamente as suas instalações, hoje com quatro andares.
[ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 52, 1939.]

Rua Augusta, 161 [1940]
 Calçada portuguesa, o «Preto da Casa Africana»
Eduardo Portugal, in AML
Anúncio da Casa Africana [1941]
Frase de marca «O Preto da Casa Africana» era 

sinónimo de alguém muito carregado de embrulhos.




Wednesday, 5 September 2018

Grande Hotel das Duas Nações

Aí temos à esquina da Rua da Vitória o Hotel das Duas Nações — diz Norberto de Araújo — , um dos raros hotéis desta nossa área  — e tantos houve!
Êste Hotel das Duas Nações, com entrada pela Rua da Vitória, 41, leva aproximadamente sessenta e cinco anos, pois já existia em 1875; foi fundado neste prédio por Manuel (?) Certã. alentejano, casado com uma senhora espanhola, e daí a designação de «Duas Nações.

Grande Hotel «Duas Nações» [1912]
Rua da Vitória, 41 - 1º

Rua Augusta; Casa Comercial Ribeiro e Silva
Joshua Benoliel, in AML

À saída da Estação do Rossio — conta-nos Calderon Dinís — , por volta de 1900, os corretores dos hotéis eram uns sujeitos fardados exibindo nos quépis os títulos dos vários hotéis a que pertenciam.
À medida que os passageiros iam saindo das carruagens eram assaltados por esses homens a apregoar os nomes dos hotéis ou pensões, numa vozearia que se estendia a toda a gare. — Hotel Aliança! Hotel Borges! Suiço Hotel! Francfort Hotel! Hotel das duas Nações! Hotel Central! Pensão do Rossio! etc. Para quem vinha de longe e ignorasse Lisboa, eles, de imediato, tiravam as pessoas de dificuldades, oferecendo os seus préstimos e conduzindo as malas portáteis dos recém-chegados.
Tal serviço acabou com o desenvolvimento do turismo, pois, raro será o viajante que, não conhecendo o ambiente do destino, não contrate com uma agência de viagens que, sem mais preocupações para ele, se encarrega de todos os pormenores, desde o bilhete da passagem à instalação tranquila no local do destino.

Grande Hotel «Duas Nações» [1911]
Rua da Vitória, 41 - 1º, esquina com a Rua Augusta
Trabalhos de montagem do abrigo em ferro e vidro na fachada da

Casa Comercial Ribeiro e Silva virada à  Rua Augusta 
Alberto Carlos Lima, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa», vol. XII, p. 52, 1939.
DINIS, Calderon , Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974, p. 42, 1986.

Sunday, 2 September 2018

Grande Café d'Itália

A Rua Primeiro de Dezembro  — que já se chamou Rua do Príncipe — foi, desde o final do século XVIII, morada de muitos cafés. Entre os mais famosos e recentes —  diz Marina T. Dias — , do lado ocidental, estavam o pequeno Café Alvarez, o Grande Café Nacional e o seu "rival" Grande Café d'itália



Por volta de 1925 eram os dois últimos centros políticos muito animados, reunindo tertúlias também rivais entre si e avessas a qualquer contacto com o território do inimigo. No Nacional pontilhavam os jesuíticos "bonzos", partidários de António Maria da Silva. No Itália reuniam os "canhotos" (alusão à extrema-esquerda), adeptos de José Domingues dos Santos. O terreno neutro era, no final da rua e logo a seguir ao Restaurante Leão d'Ouro, o Café Leão "Triste", mais tarde rebaptizado Restauração. Após décadas de mudanças, podemos ver o supermercado Celeiro no antigo Grande Café d'Itália, a sua secção de produtos dietéticos no velho Nacional e uma perfumaria, desde 1991, no local onde esteve o Alvarez (inicialmente conhecido por Ortiz e famoso no jogo de bilhar por apostas). 

Grande Café d'itália [1931]
Gaveto da Calçada do Carmo com a Rua Primeiro de Dezembro
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Quanto ao Leão que o público chamava "Triste", alberga agora a herança e o nome do contíguo Restaurante Leão d'Ouro, desde que, em 1998, este se transformou em churrasqueira. Pela banda leste da rua tiveram entrada todos os cafés cujas portas principais davam para o Rossio: Chave d'Ouro, Brasileira do Rossio, Portugal e Gelo. Existiu ainda, no gaveto entre os dois quarteirões, o primeiro de dois cafés lisboetas com o nome Aviz.
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Bibliografia
DIAS, Marina Tavares, Os Cafés de Lisboa, p. 106, 1999.
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