sexta-feira, 21 de julho de 2017

Cais do Sodré: Padrão da Hora Legal, edifício da Administração Geral do Porto de Lisboa

As designações «Cais do Sodré» e «Praça dos Remolares» foram comuns durante muito tempo, antes de se erguer a Estátua do Duque de Terceira em 1877. Conhecida por «Remolares», por «ter havido em eras passadas lugares designados para os trabalhadores carpinteiros de remos, denominados remoladores» [1], esta área ribeirinha foi — e ainda hoje o é — de semblante muito marítimo.

Cais do Sodré [1939]
Ao centro, o edifício da Administração Geral do Porto de Lisboa e o  Posto do Relógio Padrão da Hora Legal
Eduardo Portugal, in AML

A Praça tem, como diz o autor das Peregrinações «um "tic" especial — único em Lisboa — marítimo e comercial, com a sua frequência parada de embarcadiços, homens do mar, arrais em descanso, capitães de bordo, e com a presença de escritórios, tabuletas longas, ao tipo das praças nas cidades portos de mar.». 
«Há sessenta anosconta Norberto de Araújo em 1939 o mar chegava sensivelmente aonde corre a linha do eléctrico; o edifício da esquina, da Administração Geral do Porto de Lisboa — onde está o relógio reguladorfoi construído entre 1906 e 1907, e houve de o assentar sobre estacaria.» [2]

Cais do Sodré [1913]
Edifício da Administração Geral do Porto de Lisboa construído entre 1906 e 1907
Joshua Benoliel, in AML

O Dec. Lei nº 1469, de 30 de Março de 1915, regulamenta o Serviço da Hora Legal «relativo ao novo relójio público (no Cais do Sodré) e outros meios de difusão da hora». Diz no seu ponto 1.º (primeiro): “Ao Observatório Astronómico de Lisboa compete enviar constantemente os sinais para a regulação do relójio público…“. Com o fim de emitir a Hora Legal para a cidade e, especialmente, para os navios ancorados no Tejo, foi construída em 1914 uma guarita na zona do Cais do Sodré, equipada de relógio mecânico ligado directamente por cabo eléctrico ao Observatório Astronómico de Lisboa (OAL), situado na Tapada da Ajuda. Da guarita partia um sistema semafórico, ao longo da costa, até Belém, para indicação luminosa da Hora a quem estava ancorado no rio.
A guarita do Cais do Sodré exibiu, até 2008, o título de «Hora Legal». No entanto, o Observatório pediu que esta designação fosse retirada, pois o relógio nunca tinha funcionado em condições. O local está sujeito a grandes amplitudes térmicas e nem a pala que foi acrescentada à estrutura impediu que o mecanismo sofresse com isso. Por outro lado, as trepidações cada vez mais fortes, fruto da passagem do trânsito rodoviário, também afectavam a marcha do mecanismo.

Cais do Sodré [1914]
Posto do Relógio Padrão da Hora Legal e o edifício da Administração Geral do Porto de Lisboa
Joshua Benoliel, in AML

Em 2009, a guarita do Cais do Sodré passou a estar equipada com um relógio de quartzo vulgar que está ligado em rede aos servidores da Hora Legal através de um sistema NTP (Network Time Protocol). O relógio do Cais do Sodré recebe sistematicamente a Hora Legal e processa um ajuste automático da hora interna, garantindo, assim, a sua exactidão. Esta interface tem um relógio electrónico próprio, com uma unidade de energia eléctrica independente. Deste modo, se houver um corte de energia na zona, os ponteiros param, mas reposicionam-se na hora correcta assim que seja restabelecido o fornecimento de energia. A única desvantagem é que o aparelho não tem ponteiros dos segundos. Se quiser acertar o seu relógio, terá que esperar atentamente pelo movimento do ponteiro dos minutos. [3]

Bibliografia
[1]
VIDAL, Angelina, Lisboa antiga e Lisboa moderna, p. 123-124
[2] ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 39-40
[3] História da Hora Legal, Observatório Astronómico de Lisboa

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Rua de São Tomé (antiga do Infante D. Henrique)

Ora, paciente companheiro, entremos na Rua do Infante D. Henrique, chamada até 1882, Rua de S. Tomé [em 1948 voltou a designar-se Rua de São Tomé], e Largo do mesmo nome na sua parte menos estreita. O Infante navegador teve aqui próximo umas casas, que cedeu ao Estudo Geral — a nossa Universidade de Lisboa  —, do qual resta o nome "Escolas Gerais", sítio de que nos ocuparemos noutra jornada. Deriva daquela circunstância o ter-se dado o nome do filho de D. João I a esta artéria do velho S. Tomé. [...]

Rua de São Tomé, 24 (esq). [1939]
Antiga do Infante D. Henrique; ao fundo
Eduardo Portugal, in Arquivo Municipal Lisboa

Êste sítio de São Tomé deriva seu nome de uma Igreja Paroquial que existiuexactamente onde estão o tabuleiro e cortina sobranceiros à Rua das Escolas Gerais e do Salvador. “São Tomé do Penedo” chamava o povo ao local pela razão de aqui ter havido uma penedia. A paroquial datava, pelo menos, do princípio do século XIV (1320); a Igreja, que resistiu bem ao Terramoto, foi demolida em 1839. A freguesia reuniu-se então à de S. Vicente.

Rua de São Tomé com a Travessa de São Tomé (dir.) [1939]
Antiga do Infante D. Henrique
Eduardo Portugal, in Arquivo Municipal Lisboa

Esta Rua do Infante D. Henrique pouco mais tem do que sessenta anos [ca. 1880] no seu aspecto de agora; foi um vereador Estrêla Braga que logrou fazer alargar a antiga Rua de S. Tomé, cujos prédios do lado Sul, à nossa direita, são como vês, relativamente modernos. O lado esquerdo, êsse conserva o seu aspecto pobre urbano do fim de setecentos. Da Rua Infante D. Henrique actual, onde, por ameaçarem ruína, já começaram a ser derruídos alguns antigos prédios típicos, abrem para a aba do Castelo e Menino de Deus estas curiosas serventias: Beco do Maldonado, que deixamos atrás, Beco do Funil, Calçada do Menino de Deus [foto em baixo à esq.], Rua dos Cegos, e o Beco da Laje, com uma casa setecentista à esquina [foto em baixo à dir.].

Rua de São Tomé [1908]
Rua de São Tomé [1908]
Esquerda: Esquina da Rua de São Tomé com a Cç. do Menino Deus.

Direita: Esquina da Rua de São Tomé com o Beco da Lage. De acordo com Gomes de Brito, o Beco da Lage aparece mencionado em “O Itenerário Lisbonense” de 1818. No entanto, já existia antes do grande terramoto de 1755.



O prédio mais representativo do sitio é êste, n.° 24 [à esquerda na 1ª foto], apalaçado, com sua fachada de dois andares, e sete elegantes janelas de sacada no primeiro. Constitue um espécime da arquitectura truncada da transição do século XVIII para o século XIX, mas o edifício denota no seu interior confuso mais antiguidade. 

Rua (Largo) de São Tomé [1939]
Antiga do Infante D. Henrique
Eduardo Portugal, in Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 72 -73)

domingo, 16 de julho de 2017

Praia de Cascais

Quem há cem e picos anos conheceu a praia de Cascais. justificava. certamente, o dito célebre de «uma vez a Cascais e muitas mais».
Era ali. na aristocrática praia de Cascais, que os elegantes e as elegantes de então — a nobreza e a alta burguesia — tinham os seus encontros. se organizavam as partidas. as regatas. as «ginkanas», que depois chamavam à praia e à vila pessoas dos quatro cantos de Portugal e até do estrangeiro.

Praia da Ribeira Cascais [c- 1900]
 O edifício da esquerda está identificado como o Casino da Praia
José Artur Bárciain AML

Ali, «onde o mar beijava constantemente as areias», na praia elegante por excelência, passearam as mais lindas mulheres de Portugal do seu tempo. e fidalgos de velhos pergaminhos bateram o fado  — como êle era batido então por fidalgos e boémios.
E não admira que assim fosse. Nesses dias fugitivos em que durava a época da praia, tão breves como um sonho raramente realizado, tudo se fazia na praia. Ela era casino, casa de chá e campo de desportos, e não poucas vezes centro de má língua. Todas as tardes. o rei D. Carlos, por lá dava o seu passeio largo, segredando com este e com aquele dos seus íntimos, tantas vezes falando de política e muitas outras inteirando-se das inofensivas intrigas da côrte. pelas quais era tão guloso ...

Praia de Cascais [1906]
A tarde. na praia. num grupo de elegantes conversa·se animadamente. discutindo aquelas preciosas futilidades que em todos os tempos e em toda~ as épocas sempre ocuparam o espírito das senhoras
Joshua Benolielin AML
Praia de Cascais [1906]
Um grupo de elegantes da época. vendo as provas náuticas que se realizam ao largo
Joshua Benolielin AML

Correram mundo, nas côrtes mais poderosas. as notícias perturbadoras da vida elegante em Cascais. No enquadramento admirável do mar, tão azul como o céu, da suavidade do clima, das moradias nobres, dos jardins e das matas luxuriantes, a côrte portuguesa cobrava, em três meses quentes, energia, vivacidade, ternura, para o resto do ano. 
Ir a Cascais, à praia. imprimia carácter e dava distinção. Não havia pessoa de sociedade ou que quisesse parecê-lo. homem ou mulher, que não fosse veranear para Cascais e que. estando ali, não fosse passar as tardes para a praia. Todos lá iam. Os que não iam para ver  — iam para se mostrar ...

Praia de Cascais [1906]
Debaixo do toldo
Joshua Benolielin AML

Vão longe as calças esticadas, os jequetões compridos, os colarinhos afogadores; e as saias pregueadas, de grandes rodas. os chapéus mal equilibrados em pequeninas cabeças, as sombrinhas de sêda. Mas perto fica, sempre, porque é uma tradição de beleza, a saudade do tempo em que a côrte e os dignatários, a aristocracia, a finança. o alto funcionalismo, punham de banda os rigores do protocolo, e folgavam e se praziam em jogos desportivos, em concêrtos de música. em arraiais luzidos e bizarros.

Praia de Cascais [1906]
Um grupo gentil de senhoras da alta roda. que cm 1906. veraneavam em Cascais. numa daquelas tardes luminosas de Setembro. frente ao oceano. passando uma tarde amena
Joshua Benoliel

Bibliografia

(Arquivo gráfico da vida portuguesa, 1903-1918)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Casa e Palacete Lambertini

Michel’Angelo Lambertini (1862-1920), foi uma personagem fundamental da cultura portuguesa de finais do século XIX, princípios do século XX. No domínio da música foi executante, maestro, compositor e musicólogo além de editor e comerciante. Foi também o responsável pela reunião de uma parte considerável do actual acervo do Museu da Música.


A Casa Lambertini & Cª, com a licença nº 454 registada e paga para o ano inteiro inteiro em 12 Janeiro de 1861, localizava-se na Rua Oriental do Passeio, 2, e apresentava armazém de pianos e instrumentos. No ano seguinte à morte de Luís Joaquim Lambertini, em 1865, os filhos renomeiam a designação comercial da casa passando a chamar-se Lambertini Filhos & Cª, no Largo do Passeio Público, 8– 2. A morada sofrerá pequenas alterações de número de polícia, não deixando, no entanto, de se fixar sempre na zona do Passeio Público, mais tarde Praça dos Restauradores e Avenida da Liberdade.
O nome perdurou por toda a segunda metade do séc. XIX, tendo dobrado a centúria. No limiar do séc. XX a casa estava já nas mãos de um neto do bolonhês, Michel’Angelo Lambertini, na Praça dos Restauradores, 43–49, declarando uma renda anual de 400$000 réis, sintomática da prosperidade económica da casa e da sua implantação no mercado.

Praça dos Restauradores, 43–49 [ant. 1900]
Antiga Rua Oriental do Passeio Público
O terceiro toldo, à direita, é da «Casa Lambertini»
Fotógrafo não identificado, in AML

O projecto de criação de um Museu Nacional da Música remonta a 1911, por iniciativa do próprio Michel’Angelo Lambertini, mas viria a falhar, contudo, com a morte do musicólogo, sendo retomado anos mais tarde pelo Conservatório Nacional na sequência da aquisição pelo estado do acervo.

Anúncio da Casa Lambertini em 1896
Branco e Negro: semanario illustrado

O Palacete Lambertini, sito na Avenida da Liberdade, 166, mandado construir por iniciativa de Michel’Angelo Lambertini, foi projectado, em 1901, pelo arq. Nicola Bigaglia. Este edifício recebeu, ex-aequo com outro imóvel, uma Menção Honrosa do Prémio Valmor de 1904, facto que não agradou de todo ao seu proprietário, uma vez que o prémio principal não havia sido atribuído nesse mesmo ano, em virtude do júri ter considerado que "(...) nenhum dos prédios concluídos em Lisboa (...) [durante o ano em questão, reunia] o conjunto de condições artísticas essenciais para ser classificado em mérito absoluto (...)". Apesar das reclamações e apelos de Lambertini junto da Câmara, a decisão manteve-se. Posteriormente foi objecto de duas alterações importantes, a 1ª , em 1927, com projecto do arq. Carlos Ramos e a 2ª, a partir de 1939, obra do arq. Raúl Tojal (foi alteado de um piso).
Incluído na zona da Avenida da Liberdade que se encontra Em Vias de Classificação, este imóvel traduz uma arquitectura eclética e assenta numa lógica renascentista veneziana, próxima do estilo lombardesco, evidenciando como elemento excepcional a integração no alçado principal de composições de mosaicos, inspirados nos da Igreja de São Marcos de Veneza.

Vista sobre a Avenida da Liberdade [ant. 1939]
Palacete Lambertini (assinalado a vermelho;, Monumento aos Mortos da Grande Guerra (1931)
Judah Benoliel, in AML

Bibliografia
(Cadernos do Arquivo Municipal, Nº4, 2000)
(FERREIRA, Fátima C. G., Guia Urbanístico e Arquitectónico de Lisboa, p. 287, 1987)

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Chafariz de Cacilhas e Igreja de N. S. do Bom Sucesso

Chafariz de quatro bicas — duas destinavam-se aos aguadeiros e as outras duas aos particulares — foi inaugurado em 1 de Novembro de 1874. Um importante melhoramento que a Câmara Municipal sob a presidência de Bernardo F. da Costa, prestou ao povo de Cacilhas. Implantado à entrada da antiga Rua Direita [actual Rua Cândido dos Reis] e junto ao Largo do Costa Pinto [actual Largo Alfredo Diniz (Alex)], os moradores abasteciam-se de água potável para os lares.
O chafariz (infelizmente destruído nos finais dos anos 40 ou início de 50) era abastecido pela mina do Ginjal, por intermédio de canalizações. Quando estas canalizações começaram a envelhecer e a degradarem-se, a água, que era de muito boa qualidade, passou a ser salobra por infiltrações das águas do Tejo.
Então, a população de cacilhenses, só a utilizava para lavagens. A boa, para beber, continuava a vir da mesma origem (do Ginjal) mas fornecida em barris, por aguadeiros. Até que veio a canalização domiciliária. 

Chafariz de Cacilhas [ca. 1904]
Rua Cândido dos Reis (antiga Rua Direita e a
ntigo Largo do Costa Pinto); Igreja de N. S. do Bom Sucesso
Postal ilustrado, ed. Papelalria Paulo Emílio Guedes & Saraiva

Construída de raiz quatro anos após o terramoto de 1755, a  Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso apresenta uma fachada de inspiração barroca, com um frontão triangular ladeado por torres sineiras, que apresentam cúpulas encimadas por pequenos zimbórios. Nas paredes de uma das torres podem também observar-se dois relógios de sol, um na fachada frontal e outro na lateral. O interior é composto pela galilé, coro alto, uma única nave e capela-mor. As paredes tê silhares de azulejos azuis e brancos da segunda metade do século XVIII, com cenas alusivas à vida de Nossa Senhora. Existem ainda três retábulos em madeira polícroma de estilo rococó, um dos quais com a imagem de Santa Luzia, datada do século XVII.  

Chafariz de Cacilhas [ca. 1900]
Antigo Largo do Costa Pinto, actual Largo Alfredo Diniz (Alex)
José Artur Bárcia, in Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia
(uf-acppc.pt)

domingo, 9 de julho de 2017

Paço de Belém (Palácio Presidencial de Belém)

Ora temos deante de nós o Palácio de Belém, antigo Paço Real e, desde 1910, Palácio Presidencial. 

Este edifício, enriquecido de jardins e magnificamente situado, pertence à história política portuguesa dos últimos dois séculos. Não tendo grandeza arquitectónica é, contudo, simpático, paço arrabaldino ainda a denunciar-se através dos restauros, mesmo exteriores, de que tem beneficiado.


Panorâmica de Lisboa abrangendo a Rua de Belém e o Palácio de Belém [Inicio séc. XX]
O Palácio é hoje monumento nacional e sede da Presidência da República Portuguesa. Chamado "das leoneiras" no século XVIII, parece ter como emblema o leão — símbolo solar que alia a Sabedoria ao Poder. Uma bandeira de cor verde com o escudo nacional — o estandarte presidencial
Paulo Guedes, in AML

Umas casas que existiam aqui no século XVI, e os chãos largos que as circundavam, constituíam um prazo foreiro aos frades dos Jerónimos; D. Manuel de Portugal, comprou àquêles religiosos os terrenos, que se integraram no Morgadio dos Cortes Reais, o qual, havendo passado às mãos de D. Luiz de Portugal (1623) acabou per cair na posse da Condessa de Aveiras, D. Joana de Portugal, e desta na do 3.° Conde, seu filho, D. João da Silva Telo de Menezes.
Foi a êste fidalgo, Presidente do Senado de Lisboa de 1702 a 1711, que o Rei D. João V comprou casa e quinta em 4 de Julho de 1726 por 200.000 cruzados. Ficou sendo a «Quinta de Baixo», para a distinguir da contígua «Quinta do Meio», que o mesmo soberano comprou pouco depois — para de tudo fazer uma única propriedade de grangeio — ao Conde de S. Lourenço. 
D. João V reedificou o Palácio, embelezou os jardins com plantações, estátuas, lagos, cascastas, vasos, fontes, pavilhões, ruas e curiosas escadarias, dos quais ainda existe uma boa parte, quer na reduzida área do Palácio Presidencial, quer naquela onde se instalou o Jardim Colonial.

Palácio Real de Belém
Desenho de Cazelhas, gravura de A. Oliveira
Pertença do Gabinete de Estudos Olisiponenses
Paço Real de Belém nos meados do século XIX
Litografia de Legrand, pertence à Biblioteca Nacional

A história política e diplomática do Paço de Belém não se comporta, Dilecto, no nosso plano. Do mais notável quero lembrar-te que foi aqui, a 4 de Novembro de 1836, que o tribuno liberal Manuel da Silva Passos, por ocasião da célebre «Belemzada» — que do local tirou a designação — de D. Maria II conseguiu, após palavras firmes e sinceras, que a Soberana voltasse para o Palácio das Necessidades, anuindo às pretensões do povo.
 
Reis e príncipes, presidentes estrangeiros, instalaram-se neste Paço quer em visitas de dois dias quer em estadias demoradas; quási todos os Reis de Portugal de D. João V até D. Manuel aqui habitaram ou transitoriamente passaram dias, embora nos últimos vinte anos de monarquia o Palácio fosse mais de receber que de estar.
Na República alguns dos Chefes de Estado têm-no habitado com permanência, mais ou menos demorada, mas todos êles em Belém dão suas recepções, assistem nas solenidades diplomáticas e permanecem nas ocasiões graves de crises.

Palácio de Belém [c. 1903]
Praça Afonso de Albuquerque, antiga Praça D. Fernando (1910)
Rua da Junqueira; Palácio Nacional de Belém e - tornejando para a Calçada da Ajuda - o extinto Picadeiro Real depois Museu dos Coches (1905); em segundo plano a torre sineira da Igreja de Nossa Senhora das Dores (1787) sita na Rua do Embaixador; logo atrás o zimbório octogonal do Convento das Salésias
 Fotógrafo não identificado, in AML

O Palácio Presidencial de Belém, cujas Salas foram restauradas há nove anos [1930], quando da anunciada visita de Afonso XIII em retribuição à que lhe fizera o Sr. General Carmona em 1929, possue magníficas instalações palacianas, e entre elas a Sala dos Bichos, na ala poente, logo acima da escadaria que nasce do Pátio dos Bichos, êste com ingresso por uma rampa, pela frente à Praça Afonso de Albuquerque.
As grandes obras de arte (pintura principalmente) do Paço antigo levou-as D. João VI quando foi para o Brasil; as peças de ourivesaria e outras obras primas estão hoje no Museu de Arte Antiga, mas as Salas ostentam ainda peças de relativo valor, mesmo em mobiliário, havendo sido no terceiro quartel do século passado e já no actual o Mácio objecto de restauro, e datando dessa época decorações e quadros de Columbano, Malhoa, João Vaz, Cotrim, Félix da Costa, e de outros artistas.
Como vês, o Palácio Presidencial de Belém, repousado, «oficial», discreto, conjuga-se admiravelmente nesta Praça, à qual faz o fundo natural norte, a toda a largura da área. Anexo ao Palácio, temos o Museu Nacional dos Coches (...).

Palácio de Belém [c. 1903]
Praça Afonso de Albuquerque
Observe-se, hasteada, a bandeira monárquica
 Fotógrafo não identificado, in AML

 Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 69-71)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Museu Nacional dos Coches Reaes

O edifício do Museu dos Coches, desintegrado do palácio, do qual fez parte, é também uma construção do começo do século actual, ampliado para Norte, sobre a Calçada da Ajuda, nos últimos meses de 1942 e em 1943.


O Museu reúne uma colecção de viaturas de gala e passeio dos séculos XVII a XIX, única no mundo. O seu espólio inclui: coches, berlindas, carruagens, seges, liteiras, carrinhos de passeio e carrinhos de crianças. Completam a colecção, arreios de tiro e cavalaria, acessórios de viatura, fardamentos, instrumentos musicais, um núcleo de armaria e uma colecção de retratos a óleo dos monarcas da Dinastia de Bragança

Museu Nacional dos Coches [c. 1909]
Praça Afonso de Albuquerque
Paulo Guedes, in AML

Anexo ao Palácio [de Belém] — recorda-nos Norberto de Araújo —, temos o Museu Nacional dos Coches, superior aos seus similares, o Trianon, de Versailles, e o de Madrid. Também merece duas palavras, antes de o visitarmos, o que não pudemos fazer ao Palácio. Onde está o Museu dos Coches foi, primitivamente, o Picadeiro do Paço de Belém, mandado construir por D. José, mas cuja obra, do risco de Jacomo Azzolini, só se concluiu em tempo de D. João VI.

Museu Nacional dos Coches [post. 1901]
Praça Afonso de Albuquerque
Fotógrafo não identificado, in AML

Foi a Rainha D. Amélia quem, em 1905, teve a iniciativa de construir o Museu dos Coches, a despeito da relutância de D. Carlos, em consentir a destruição do Picadeiro, um dos melhores da Europa; o Rei acabou por deferir a pretensão da Rainha, e logo o estribeiro-menor, coronel Alfredo de Albuquerque, se lançou à realização da obra.
A Rainha tinha razão; se o Picadeiro era, no seu género, cousa de manter-se e admirar-se, o Museu vale infinitamente muito mais.

Museu Nacional dos Coches [c. 1950]
Praça Afonso de Albuquerque
António Castelo Branco, in AML

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, p. 154, 1944)
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 71, 1939)

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Convento da Anunciada

Eis-nos no Largo da Anunciada — outra invocação de ressonância lisboeta, que deriva do nome do Convento que neste sítio existiu. De tudo te vou dar breves notícias. 
No local, onde está a paroquial de S. Josérelembra-nos Norberto de Araújo, para norte e para nascente, caindo sôbre as hortas, onde hoje passa a Avenida, levantava-se o Mosteiro, com sua Igreja e Cêrca, das religiosas dominicanas; a Casa fôra reedificada, senão edificada, por D. Manuel, em 1539, sôbre um anterior Convento de frades agostinhos descalços de Santo Antão que datava de 1400, e foi dele que derivou o nome à Rua das Portas de Santo Antão. As religiosas da Anunciada já tinham desde 1519 a sua casa conventual, na Mouraria (Coleginho)em local que fôra de uma mesquita moura.
No citado ano de 1539 os frades e as freiras trocaram a sede das suas casas: assim os Agostinhos de Santo Antão foram para o Coleginho, e as religiosas da Anunciada vieram para êste sitio, que passou por isso a ser chamado Anunciada; a Rua é que se manteve fiel a Santo Antão.
Igreja Paroquial de São José da Anunciada [c. 1902]
Largo da Anunciada
Emilio Biel, in Bn
F

O Convento da Anunciada, muito ligado à nobreza, foi dos mais importantes de Lisboa, até pela austeridade de que gozava fama, e pelo bom nome de suas religiosas, algumas delas escritoras e artistas.
O Terramoto destruiu quási inteiramente o Convento e Igreja, rompendo-se a abóbada, e morrendo dez religiosas, entre elas uma filha do Marquês de Távora. As freiras passaram para Santa Joana-e acabou-se o Convento da Anunciada. Dêle fôra grande protector Fernão Alvares de Andrade, o fundador de um palácio vizinho, pelo sul, e que veio a ser o dos Condes da Ericeira. 
Nada existe do velho Convento, neste sitio em que se ergueu a paroquial de S. José. Esta porta da igreja, no Largo da Anunciada, que leva a um pátio de ingresso ao templo, não corresponde a ruína alguma, ou a vestígio do Mosteiro; equivale a obras da frontaria da Igreja, e que não prosseguiram.  
Não deixa de ser curiosa esta troca de Casas dos frades e freiras de Santo Antão e da Anunciada; quem ganhou foram as dominicanas, ou melhor: a nobreza de que elas faziam parte. 

Igreja Paroquial de São José da Anunciada [1929]
Vista tomada do miradouro do Torel; no primeiro plano vê-se a cúpula e a torre sineira da Igreja Paroquial de São José da Anunciada; logo acima. a Avenida da Liberdade
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Edificada pela irmandade do Santíssimo Sacramento para sede da paróquia, que desde 1567 estivera na Igreja de São José dos Carpinteiros, a construção da Igreja Paroquial de São José da Anunciada teve início em 1863, prolongando-se até 1883, altura em que foi benzida no mês de Agosto, embora os trabalhos não estivessem concluídos na sua totalidade. O projecto inicial, riscado por Tomás da Fonseca, foi objecto de alterações, em 1868, por Domingos Parente, traduzindo uma igreja sem nave. Este último foi responsável pela fachada lateral de três corpos sobre a Rua de São José. A obra passou para a direcção de José Monteiro entre 1881 e a sua conclusão. O resultado final do templo pouco tem a ver com o projecto original.

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 95)
(cm-lisboa.pt)
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