quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O Pátio da Galega e o Beco de Francisco André, à Rua da Boavista

Ora vamos seguindo a Rua da Boa Vista, cuja fisionomia do lado Norte, como de-certo vais notando, é mais sulcada de velharia. 


Contempla êste Arco, de volta redonda, alto, que conduz ao Pátio da Galega. Ao fundo da passagem desdobra-se outro Arco ou passadiço, e então se abre o pequeno pátio, pobre e triste, sem ambiente pitoresco que não seja o que a sua grande boca, rés-vés da rua, pode sugerir. Não chega a constituir um apontamento de Alfama, na Boa VistaÉ, porém, interessantíssimo o seu exterior.
 
Arco, entrada para o Pátio da Galega, à Rua da Boavista (junto ao nº 120) [1953]  
Fernando Martinez Pozal, in AML

Arco, entrada para o Pátio da Galega, à Rua da Boavista (ao fundo) [1953]  
Fernando Martinez Pozal, in AML

O Beco de Francisco André — escadaria entre prédios, mais nada — vale ser citado apenas porque deve o seu nome a um mesteiral que foi da Casa dos Vinte e Quatro.

Arco do Beco de Francisco André, à Rua da Boavista, n.º 130 [1953]    
Fernando Martinez Pozal, in AML

A Casa dos Vinte e Quatro foi criada em 16 de Dezembro de 1383, por D. João, Mestre de Avis (futuro D. João I) com o objectivo de permitir que os mesteirais participassem no governo da cidade.
A Casa dos Vinte e Quatro era composta por dois representantes de cada uma das doze corporações de ofícios da cidade, conhecidas por "bandeiras”, os quais colectivamente eram conhecidos pelos "Vinte e Quatro”. Cada bandeira era designada pelo respectivo santo padroeiro e incluía um ofício de cabeça, bem como outros ofícios anexos. 
As reuniões realizavam-se inicialmente na igreja de S. Domingos, os quais elegiam um juiz do povo (que presidia à casa), juízes de paz, procuradores e outros magistrados.
Na sequência da implantação do regime liberal em Portugal, as casas dos vinte e quatro foram extintas pelo Decreto de 7 de Maio de 1834.

Rua da Boavista [1883]
Legenda:
Azul: Pátio da Galega
Vermelho:Beco de Francisco André

Levantamento topográfico de Francisco Goullard n.º 313, in AML

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, p. 79)
(cm-lisboa.pt; AML)
 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Lactários da Associação Protectora da Primeira Infância

«Em Lisboa morrem por anno, em média, 9 mil  pessoas. N'este numero vao incluidas perto de 2 mil creanças com menos de um anno de edade. De 0 a 2 anos morrem de diarreias e enterites, em media por anno, 750 creanças na capital e mais de 8:000 em todo o reino.»afirmava em 1907, num jornal de carácter médicoo dr. Jorge Cid, director clínico do Lactario,


Foi fundada, logo no início do século (1901), uma instituição particular, a Associação Protectora da Primeira Infância, pelo Coronel Rodrigo António Aboim de Ascensão, com o apoio da rainha D. Amélia, após ter visitado, em Paris, uma Gota-de-Leite do Dr. Léon Dufour, em 1900, e ter estudado a sua organização. Deve-se igualmente à rainha D. Amélia a criação, em 1903, do primeiro lactário, situado no Largo do Museu da Artilharia.

Largo do Museu de Artilharia [c. 1902]
Lactário da Associação Protectora da Primeira Infância, risco do arquitecto Miguel Ventura Terra
Fotógrafo não identificado, in AML

Largo do Museu de Artilharia [c. 1910]
Lactário da Associação Protectora da Primeira Infância, risco do arquitecto Miguel Ventura Terra
Alberto Carlos Lima, in AML

Este lactário — sob projecto do arquitecto Miguel Ventura Terra (na altura vereador da Camara Municipal de Lisboa) — tinha uma vacaria em anexo, com capacidade para dezoito cabeças de gado. Além da vacaria, o edifício era  constituído por uma série de pequenos pavilhões, cada um deles destinado a uma actividade específica, como os serviços administrativos e os gabinetes médicos. O seu o primeiro director clínico foi o Dr. Gomes Resende.

Largo do Museu de Artilharia [c. 190-]
Vacaria do Lactário n.º 1, risco do arquitecto Miguel Ventura Terra
Ao fundo, a torre sineira da Ermida do Senhor Jesus da Boa Nova
Paulo Guedes, in AML

Obs.: local não identificado no AML

Largo do Museu de Artilharia [1927]
Crianças amamentadas a cargo da Associação Protectora da Primeira Infância.
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Posteriormente, a Associação fundaria mais três lactários. O lactário nº 2, no Largo da Esperança, em Santos-o-Velho, inaugurado pela rainha D. Amélia em 29 de Dezembro de 1907. O lactário nº 3, no Largo do Calvário, em Alcântara, começou a distribuir leite a 30 de Julho de 1927. O lactário nº 4 foi implantado no bairro do Beato e terá iniciado funções em 1929.

Largo da Esperança, Av. D. Carlos I [post. 1907]
Lactário n.º 2
José Artur Bárcia, in AML

Largo do Calvário [1930]
Ao centro, o Lactário n.º 3
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

A Associação Protectora da Primeira Infância (APPI) desenvolveu um serviço de distribuição diária de leite para bebés lactantes cujas mães não podiam amamentar. O leite era distribuído gratuitamente duas vezes por dia, em doses recomendadas pelo pediatra, sendo transportado em garrafas-biberão esterilizados em autoclave.
Consciente das principais causas da mortalidade infantil na primeira infância, a APPI direccionou os seus Serviços e recursos para o apoio alimentar e pediátrico, para a assistência das crianças no domicílio (0 aos 3 anos) e para o auxílio à maternidade e à família, numa actuação global no plano da assistência.
A inscrição na APPI era realizada em boletim próprio, onde se anotava toda a informação sobre o agregado familiar e, posteriormente, os registos das consultas de pediatria. Até 2011, a APPI contou com mais de 14 000 crianças auxiliadas.



Bibliografia
(Lactário, Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. XIV)
(+ info: appinfancia.org)

sábado, 26 de novembro de 2016

Palácios do Calhariz: Palácio Calhariz-Palmela e Palácio Sobral

O Largo do Calhariz é um troço da seiscentista Estrada da Horta Navia, também denominada Estrada de Santos e este topónimo deriva da existência no local da residência dos Morgados do Calhariz, conforme relata Norberto Araújo:

   Encontramo-nos na artéria conhecida em tôda a Lisboa pelo «Calhariz», rua e sítio dêste título, e que tem origem no Palácio dos «Sousas Calharizes», como diz o vulgo e como se encontra em livros antigos. É este edifício, à direita, com um pequeno jardim adjacente, e que ocupa todo o quarteirão confinado entre as Ruas do Calhariz, da Atalaia, Travessa das Mercês e Rua da Rosa.
   Oferece, como vês, um certo ar nobre, de transição do estilo solarengo velho para o tipo palaciano do século XVIII. É elegante o portão ladeado por duas colunas dóricas, cujo entablamento suporta a varanda de balaústres, única sacada do primeiro andar. As sete janelas de sacada de cornija saliente do andar nobre, que é o segundo, dão ao prédio uma harmonia e distinção invulgares aos edifícios desta construção. O pequeno jardim é gracioso e foi construido depois de edificado o palácio, ocupando o lugar de uma serventia que daqui saía, e que erra o prolongamento da Rua da Trombeta, que ainda se continua nas traseiras até a Fiéis de Deus, serventia vendida pela Câmara de Lisboa a D. Pedro de Sousa Holstein. por um conto de réis...

Palácio Calhariz-Palmela [ant. 1900]
Rua da Atalaia (dir.); Largo do Calhariz;Rua da Rosa (ao fundo à dir.)

Fotógrafo não identificado, in AML

O palácio foi mandado erigir em 1703 pelo Morgado do Calhariz, D. Francisco de Sousa (1631- 1711). O edifício, além de moradia ducal — relembra Norberto de Araújo (1938) — tem sido de tudo um pouco: aqui esteve a Academia Real de Fortificações que precedeu a Escola do Exército e Escola Militar, em 1796 e em 1811, a Câmara Eclesiástica até 1830, a Contadoria Greal das Tropas, o Ministério dos Estrangeiros (em 1882), a Liga Naval até há poucos anos [o autor escreve em 1938], etc., ocupando quaisquer destas instituições parte do edifício, ou, por vezes, talvez todo.
Festas deslumbrantes viu o Palácio desenrolar-se nos salões, cujo recheio de arte era precioso.

Palácio Calhariz-Palmela [1929]
Rua da Atalaia (dir.); Largo do Calhariz;Rua da Rosa (ao fundo à dir.)

Ferreira da Cunha, in AML

Sofreu restauros e ampliações em 1843-44 dirigidas pelos artistas italianos Rambois e Cinatti,  e uma anexação ao Palácio Sobral em 1956, destruindo as obras oitocentistas (jardim e pavilhão), prolongando o corpo principal do edifício até á Rua da Atalaia, depois de em 1947 os Morgados do Calhariz, entretanto criados Duques de Palmela, o terem vendido à Caixa Geral de Depósitos para lhe servir de sede. Em 1969 está em curso a obra do passadiço sobre arco (sobre a Rua da Rosa) de ligação entre os dois palácios.
Sofreu obras de recuperação em 1997 com projecto dos arqs. Dante Macedo, Conceição Macedo e José Afonso, para albergar a Companhia de Seguros Fidelidade, o que lhe valeu a atribuição do Prémio Eugénio dos Santos referente a esse ano.

Palácio Calhariz-Palmela onde está a Caixa Geral de Depósitos,  e, ao fundo, o Palácio Sobral [1966]
Largo do Calhariz; Rua da Atalaia; Travessa das Mercês; Rua da Rosa; Rua Luz Soriano

Armando Serôdio, in AML

Acerca da história do primitivo Palácio Sobral [vd. 4ª imagem] diz Norberto de Araújo: «Reconstruído modernamente — fôra levantado entre 1770 e 1780, por Joaquim Inácio da Cruz Sobral, de quem descenderam os Condes de Sobral, que, para erguer o palácio, comprou o velho prédio aqui existente, pertencente a Lázaro Leitão Aranha, rico e erudito Principal da Sé, que nele fêz reünir a famosa Arcádia em 1764.»
Outro ilustre olisipógrafo — mestre Júlio Castilho — apresenta uma descrição pormenorizada do antigo palácio do século XVIII na sua Lisboa Antiga (1903):

   Formava o palácio um vasto paralellogrammo, com a frente principal de 130 palmos (uns 29 metros e tanto) sobre a Rua Direita, ou Largo do Calhariz, a opposta sobre a Travessa das Mercês, a occidental sobre a Rua do Carvalho [hoje Luz Soriano], e a oriental sobre a [Rua] da Rosa.
   A fachada sobre o Calhariz era dividida em tres corpos, sendo os lateraes separados do central por pilastras correspondentes ás dos cunhaes, e terminando ambos em feitio de torres sobrepojadas de mirantes elegantíssimos.
   No corpo central dois grandes portões de entrada ornamentados, e por cima duas filas de sacadas, sendo mais nobres e altas as do andar superior.
Na aresta dos dois cunhaes viam-se as Armas, que eram: escudo cortado; o i.° de azul, cinco estreitas de seis pontas, de oiro, postas em cruz; o 2.º de prata ondado de azul; bordadura de vermelho, com as palavras Nomen honorque meis em lettras de oiro. Elmo; timbre: cão de prata com colleira de vermelho, e chave de oiro na bocca.
   Os portões abriam para duas vastas lojas em forma de corredores, que ambas desembocavam no grande pateo, onde as carroagens davam volta, entrando por um portão e sahindo pelo outro.
   Ao fundo d'esse pateo, no interior da parte do edifício que deitava para as Mercês, ficava a entrada monumental de quatro degraus conduzindo aos vinte e dois da escadaria, bifurcada para a direita e para a esquerda em dois outros lanços, que levavam ao andar nobre, onde eram as salas.

Gravura do Palácio Sobral, no Calhariz [séc. XVIII]
in Lisboa Antiga (1903)

Em 1887, o Palácio Sobral é adquirido «por 50 contos e pico» pelo Estado para instalação da Caixa Geral de Depósitos, e de imediato, se iniciam obras de recuperação e remodelação. Em 1969, depois de uma reconstrução total, procede-se à uniformização das fachadas e efectua-se a ligação por arco dos dois palácios — Calhariz-Palmela e  Sobralhoje Edifício da Caixa Geral de Depósitos, CGD, do Calhariz.

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 22-26)
 (Lisboa antiga, Júlio de Castilho, 1903, vol. III, p. 26)
 (cm-lisboa.pt/toponimia; monumentos.pt)

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Chafariz da Esperança

Dilecto, podes observar o mais belo chafariz de tôda a Lisboa, pela sua graça e harmonia que não pela sua grandeza. O Chafariz integra-se na grande obra das Águas Livres, e para o erguer houve que comprar às freiras do Mosteiro da Esperança (então aqui ao lado, e senhoras desta parte do sítio) o terreno necessário, por 297 mil réis, e não se pode dizer que houvesse ficado caro.


Convento da Esperança e chafariz da Esperança, no bairro da Madragoa, gravura
Largo da Esperança; Avenida D. Carlos I
in AML

Localizado no antigo Largo da Esperança, viu alterada a sua envolvência com o arranjo urbanístico resultante da abertura da Av. D. Carlos I, em 1889, ficando encostado a um prédio, construído por essa altura, cuja fachada foi concebida como pano de fundo para o chafariz. Traduzindo uma arquitectura civil, de equipamento, barroca e rococó, é um dos mais interessantes, cenográficos e monumentais de Lisboa, que fazia parte de uma das principais linhas de abastecimento de água à cidade alimentadas pelo Aqueduto das Águas Livres.

Chafariz da Esperança [c. 1940]
Largo da Esperança; Avenida D. Carlos I
Eduardo Portugal, in AML

Projectado pelo arquitecto húngaro Carlos Mardel em 1752, a sua obra teve início no ano seguinte, sob orientação do mesmo, sendo terminada, em 1768, já por Miguel Ângelo Blasco.
Classificado como Monumento Nacional, obedece a um esquema vertical, apresentando, num plano inferior, um tanque largo, destinado a bebedouro dos animais, que recebe a água de carrancas de cantaria. Através de 2 lanços de escada laterais acede-se a um largo balcão, do tipo «varanda de pavilhão solene», onde um segundo tanque recebe a água de carrancas de bronze.

Chafariz da Esperança [c. 1900]
Largo da Esperança; Avenida D. Carlos I
in AML

Neste balcão destaca-se o corpo central do chafariz, ladeado por 2 pilastras dóricas, cujo espelho central, definido por 2 colunas, sustenta um pequeno frontão curvo aberto, onde avulta em estilo «rocaille» o escudo de D. João V, mutilado na coroa. A rematar este volume surgem, ao meio e nos cantos, 3 pináculos em forma de vaso, com decorações folhosas, terminando em alcachofra.
José Sérgio de Andrade refere, em 1851, que o cano que levava a água ao chafariz tinha 1433 palmos, e os sobejos corriam para um tanque-lavadouro, existente na Rua Nova do Cais do Tojo, com acesso pelo n.º 29; tinha 3 Companhias de Aguadeiros, 3 Capatazes e Cabos, 99 Aguadeiros e 1 Ligeiro.

Chafariz da Esperança [entre 1903 e 1908]
Largo da Esperança; Avenida D. Carlos I
Charles Chusseau-Flaviens, in GEH

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII
(ANDRADE, Velloso, Memoria sobre chafarizes, bicas, fontes, e poços públicos de Lisboa, Belem e muitos logares do termo, 1851)
(cm-lisboa.pt; monumentos.pt)

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Antiga casa dos Marqueses de Minas

Observa-me agora, Dilecto, do lado oposto, estes dois edifícios ligados num só, n.ºª 199 a 211 os mais velhos de aspecto de tôda a rua, mas com ar nobre vulgaríssimo de setecentos.
Foi velha casa dos Marqueses das Minas; do remoto da edificação podes fazer idéia pela lápide foreira «Andrada F. 1600», o que dá expressão bairrista ao casarão. Nota êsses cunhais, com cornija, e que desigualados do grosso da edificação, indicam estragos do Terramoto.
   No tempo das invasões francesas, comêço do século passado [séc. XIX], uma senhora, D. Ana de Oliveira, a cujas mãos o prédio veio, instituiu ali um recolhimento para orfãs de militares mortos em defeza da Pátria. Foi depois integrado rios «Recolhimentos do Reino», como outros ainda dependentes do Ministério do Interior, e de que te falei quando passamos pelas Merceeiras, à Sé. 
   Em 1928 passou a instituição a cargo da Santa Casa, que aqui recolhe 32 meninas, entre os 13 e 17 anos, freqüentando os cursos secundários em regime de externato, e recolhendo ao «Pensionato da Rua da Rosa» — tal é sua designação — como se recolhessem a casa de família. (...) O edifício é velho; alguns pormenoresazulejos sobretudoatestam o seu ar palaciano.
Palácio dos Marqueses de Minas / Lar Nossa Senhora do Amparo [1944]
Rua da Rosa, 199-211; Rua de São Boaventura, 2
Estúdio Mário Novais, in AML

No interior, destaca-se uma colecção de silhares de azulejos azuis e brancos dos finais do séc. XVIII, que vão desde o átrio de entrada ao andar nobre, e que podem ser observados no filme da autoria da SCML que reproduzimos abaixo.

video
Palácio dos Marqueses de Minas
Filme da autoria da SCML (dur.aprox. 4 min.)
(clicar para reproduzir)

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VI, pp. 45-46)

sábado, 19 de novembro de 2016

Mercado do Forno do Tijolo

Esta Rua Maria da Fonte, que abre à nossa esquerda, é designação post-República (1917), e constituía antes a Calçada do Forno do Tijolo.


O Mercado do Forno do Tijolo, com projecto vanguardista do arq.º Eduardo dos Reis,  construído pelo construtor António Veiga, foi inaugurado em 1956. O nome advém de dos antigos fornos de tijolo e telha que aqui existiam. O acesso à Rua Damasceno Monteiro faz-se por uma escadaria engalanada por diversos painéis que representam os comerciantes típicos do século XIXcomo os vendedores de galinhas, de castanhas assadas, de hortaliças, e até o ardina vendendo A Paróquia — a revista municipal da freguesia. Com o intuito de revitalizar o mercado e capacitá-lo para novas funções, a Câmara lançado um concurso público de concessão de parte delimitada da Nave Central, o qual permitirá a construção de um novo espaço de co-working.

Mercado do Forno do Tijolo [1956]
Rua Maria da Fonte; Rua Damasceno Monteiro

Armando Serôdio, in Arquivo Municipal Lisboa

A Câmara Municipal de Lisboa em Julho de 2013, pretendendo estimular a inovação e a criatividade abriu neste mercado o Fab-Lab. Trata-se de um laboratório de fabricação digital que permite a criação de novos produtos de propriedade intelectual (a baixo custo) e negócios. O FabLab Lisboa pretende ser acessível ao cidadão comum, possibilitando-lhe o acesso a um espaço onde se possa fazer quase tudo, visando o desenvolvimento social e económico, seja a nível individual ou comunitário. Com este laboratório a CML pretende estimular a inovação, a criatividade e o empreendedorismo, e ajudar a tornar realidade o protótipo de uma ideia.

Mercado do Forno do Tijolo, panorâmica [1956]
Rua Maria da Fonte; Rua Damasceno Monteiro
Armando Serôdio, in Arquivo Municipal Lisboa

Neste momento já podemos encontrar associados ao Mercado, nomeadamente, a Junta de freguesia dos Anjos, uma Universidade sénior, um parque infantil, um campo de jogos,.um supermercado e um posto dos CTT.

Mercado do Forno do Tijolo [1956]
Rua Maria da Fonte; Rua Damasceno Monteiro

Armando Serôdio, in Arquivo Municipal Lisboa

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Beco da Bicha

Aí tens o Beco da Bicha —  inexistente, porque os casebres por trás dos quais a viela corria, foram demolidos há pouco tempo. Mas é de admirar-se o fundo cenográfico dêste Largo, ao alto com o panorama dos quintais, e em baixo com o apontamento da casita à esquina da Bicha, n.º 11, e da Regueira, n.º 27 e 29, cousa de presépio: dois andares minúsculos com as suas reixas cruzadas de madeira e êsse pormenor de um passadiço sôbre uma reentrância inocente. A nascente, por trás dos prédios, espreita ao alto a torre de S. Estevão. E as alfurjas acomodam-se na sua miséria, contentes da graça que as envolve.

Beco da Bicha; Rua da Regueira [c. 1900]
Fotógrafo não identificado, in AML

Certos pontos de Alfama parecem executados por cartões de artistas, da raça anónima de predestinados de pupila. Está por compilar um álbum de aguarelas e águafortes dêste bairro tão sugestivo. [1]

Desconhece-se a origem do topónimo deste Beco da Bicha que liga a Rua de São Miguel e a Rua da Regueira, embora com segurança se saiba que já aparecia nos registos paroquiais anteriores ao Terramoto, como «Beco da Bixa». [2]

Beco da Bicha; Rua da Regueira [post. 1933]
Estúdio Mário Novais,in Biblioteca de Arte da F.C.G..


Bibliografia
[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 61, [1939])
[2] (cm-lisboa.pt/toponimia)

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Café-Restaurante Tavares Pobre

Olhe... pode ser o Tavares Rico! Oiço falar nesse restaurante a pessoas importantes e, um dia, gostava de lá ir para ver como é! Parece que só deixam entrar de rabonas. Não... vamos antes ao Tavares Pobre! Sempre estamos mais descontraídos.


No último artigo publicado aqui no tasco, demos conta da história do antigo Café-Restaurante Tavares ou Tavares Rico. Hoje falamos do seu irmão mais novo, o Tavares Pobre — espécie de sucursal daquele — mas mais modesto e menos rico.

   O «Tavares Pobre» — relembra Norberto de Araújo — na sua fase primitiva é dos antigos restaurantes da Rua de S. Roque [actual Rua da Misericórdia], teve também o seu período de representação discreta político-literária. Foi fundado em 1852, sem ter ainda a designação actual [em 1938], por Vicente Marques Caldeira — uma simples casa de cafés e chocolates, por onde se entretinham os velhos artistas do Trindade —, e mais tarde, passado ao filho daquele, Manuel Caldeira, alindou-se, constituiu uma duplicação do Tavares célebre da Rua de S. Roque, que hoje subsiste mais abaixo.

Restaurante Tavares Pobre [c. 1940]
Rua da Misericórdia esquina com o Largo da Trindade

Eduardo Portugal, in AML

Localizado, até cerca de 1940, na esquina da Rua da Misericórdia com o Largo — que mais parece travessa — da Trindade, foi ocupado durante as décadas seguintes por uma casa de representação de bebidas. Até que, em 1983, cinco conhecidos profissionais (os irmãos José, Joaquim e Belmiro Costa, Arménio Fernandes e Antero Jacinto) inauguraram aqui o Bachus, bar e restaurante de luxo.

Prédio do antigo Restaurante Tavares Pobre [1970]
Rua da Misericórdia esquina com o Largo da Trindade

João Hermes Goulart, in AML

Bibliografia

(ROSA, Baptista, Chamava-se Júlia e fazia flores, 1984)
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VI, p. 55 [1938])
(QUITÉRIO, José, Expresso.pt, 2011)
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