Wednesday, 21 August 2019

Teatro do Rato

No centro dêsse quarteirão sul [do Largo do Rato] referido — recorda Norberto de Araújo — chãos e casas que primitivamente foram da Real Fábrica de Sedasrasga-se um Arco, que leva a uns terrenos (antiga Quinta do Ferreira, ou do Ferrari, o que julgo mais acertado) nos quais à esquerda está de pé a adega e casa de pasto conhecida pela designação de «Parreirinha», e ao fundo se construíram em 1907 uns barracões sólidos, que pertencem, como oficinas, à Sociedade Portuguesa. de Automóveis, com entrada pela Rua da Escola Politécnica; uns quintalórios denunciam ainda a antiga feição rústico-fabril do local.

Largo do Rato [195]
Ao centro vê-se o arco de acesso à antiga Quinta do Ferreira, ou do Ferrari depois Teatro do Rato
Judah Benoliel, in AML

Aqui, precisamente no sítio dos barracões, assentou o Teatro do Rato, inaugurado em 27 de Março de 1880 e que ardeu em 1906, afinal também um grande barracão de zinco e tijolo, mas por cujo tablado passaram algumas notáveis figuras da cena portuguesa, entre as quais Adelina Abranches, felizmente ainda sobrevivente de uma geração de artistas eminentes.

Arco do Largo do Rato [1944]
Acesso à antiga Quinta do Ferreira, ou do Ferrari e ao Teatro do Rato
Eduardo Portugal, in AML
Comício republicano realizado no antigo recinto do Teatro do Rato [1907-05-01]
Largo do Rato
Fotógrafo não identificado, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 15, 1939.

Sunday, 18 August 2019

Rua Andrade

O Bairro Andrade — diz Norberto de Araújo — foi aqui a grande primeira nota de urbanismo, entre campos e lugares aprazíveis; fundou-o um proprietário de terrenos locais, o qual, concedida a autorização municipal, o rasgou em xadrês regular, pondo às ruas os nomes das senhoras de sua família; leva pouco mais que quarenta anos [finais séc. XIX].


A Rua Andrade foi atribuída por deliberação camarária de 10 de Novembro de 1892, confirmada pela presidência da Câmara em 30 de Janeiro de 1893, a qual atribuiu também na mesma área os seguintes topónimos: Rua Maria Andrade, Rua Maria, Rua Palmira e Rua Antónia Andrade, no arruamento que ligava o Caminho do Forno do Tijolo com a Rua Maria.

Rua Andrade [1960]
Esquina com a Av. Almirante Reis; em frente à 'Leitaria Bijou' - antiga Farmácia Bezelga; do lado esquerdo da foto ficava o antigo Cinema Lys.
Arnaldo Madureira, in A.M.L.

Das actas das sessões da Comissão Municipal no ano de 1892, pode ler-se o seguinte sobre o dia 10 de Novembro de 1892:
«De Manuel Gonçalves Pereira d'Andrade, proprietário do 'Bairro Andrade', cujas ruas estão na posse da Câmara, pedindo que n'ellas sejam conservados os nomes que indica.
Deferido, com a alteração de Rua Antónia Andrade em vez de Rua Maria Antónia».
Daqui se pode inferir que a Rua Andrade recolhe a sua denominação do proprietário do Bairro Andrade e as restantes ruas do bairro, também indicadas pelo proprietário serão provavelmente de familiares — quiçá mulheres e filhas — do proprietário do Bairro Andrade.

Rua Andrade junto à Rua Palmira [1960]
Vendedeira de quinquilharia
Arnaldo Madureira, in AML
Nota(s): o local da foto não está identificado no A.M.L.
Rua Andrade, 55 [1960]
Vendedor ambulante de fruta
Arnaldo Madureira, in AML.
Nota(s): o local da foto não está identificado no A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 15, 1938.
cm-lisboa.pt.

Friday, 16 August 2019

Calçada do Conde de Pombeiro

Tem esta designação por aqui se situar o Palácio dos Condes de Pombeiro. A Rainha D. Catarina de Bragança para erguer o seu Paço da Bemposta, comprou neste sítio e em Santa Bárbara vários terrenos, dos quais, por lhe sobrarem, cedeu vários pedaços a pessoas amigas, e um deles, no actual Largo do Conde de Pombeiro, à sua camarista D. Luísa Ponce de Leão, para que esta pudesse ir viver para perto de si. D. Luísa era casada com o 1.º Conde de Pombeiro e foi um seu neto, o 3º conde deste título que veio a edificar aí um palácio conhecido pela Bempostinha e que o Terramoto de 1755 arruinou. [cm-lisboa.pt]

Calçada do Conde de Pombeiro com a Rua dos Anjos [1907]
Machado & Souza, in A.M.
L.

Wednesday, 14 August 2019

Grande Hotel de Inglaterra

lnstalara-se o Grande Hotel de Inglaterra no vasto prédio a esquina da Rua do Jardim do Regedor para os Restauradores, com a sua sala de jantar de estilo D. João V, como o salão de visitas. Foi inaugurado em 15 de Abril de 1906, por ocasião do décimo quinto Congresso de Medicina, que se realizou na capital. Era proprietário do hotel o senhor Abel de Barros, também dono da Pension Hotel, da Rua da Glória, centro de hospedagem preferido pelos portugueses que regressavam do Brasil. No novo estabelecimento havia pessoal português, inglês, alemão e francês.

Grande Hotel de Inglaterra [1912]
Praça dos Restauradores e Rua Primeiro de Dezembro (antiga do Príncipe)

Joshua Benoliel, in AML

No prédio do lado oposto [da Rua 1.º de Dezembro], esquina da Rua do Jardim do Regedor — recorda Norberto de Araújo — , existiu até 1936 o Hotel de Inglaterra, que teve categoria. A Companhia, proprietária do Avenida Palace, comprou então o prédio para construir um grande Hotel, mas, como surgissem dificuldades, desfez-se do imóvel, o qual foi em 1937 adquirido pela «Ribatejana», sociedade de comércio agrícola; do Hotel novo, ou da reabertura do Hotel de Inglaterra, mais se não falou.

N.B. O edifício onde se encontrava o Grande Hotel de Inglaterra foi demolido em 1952.

Grande Hotel de Inglaterra [1910]
Praça dos Restauradores e Rua Primeiro de Dezembro (antiga do Príncipe)

«Funeral do almirante Cândido dos Reis e do doutor Miguel Bombarda (1910-10-16)»
Joshua Benoliel, in AML

Bibliografia
MARTINS, Rocha, Lisboa: História das suas Glórias e Catástrofes, 1947.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p.  15, 1939.

Sunday, 11 August 2019

Mercados do Poço dos Mouros e de Arroios

Construído em 1942 pela “Sociedade de Construções Amadeu Gaudêncio” e projectado pelo arquitecto Luiz Benavente, o Mercado de Arroios veio substituir o antigo Mercado do Poço dos Mouros considerado anti-higiénico — ou mesmo "infecto" —, no dizer de alguns.

Mercado do Poço dos Mouros, inaugurado em 1927 [1927-06-20]
Rua Morais Soares com a Rua Carvalho Araújo (antiga Azinhaga do Areeiro)

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
Mercado do Poço dos Mouros, inaugurado em 1927 [1939]
Rua Morais Soares com a Rua Carvalho Araújo (antiga Azinhaga do Areeiro)

Eduardo Portugal, in AML

Classificado inicialmente como mercado retalhista, mais tarde desempenhou as funções de mercado abastecedor de legumes, passando á categoria de mercado misto:
“Dispunha de 31 lojas destinadas a talhos, salsicharias, venda de frutas, lacticínios, etc., e de 300 lugares de venda. No subsolo foram instalados um matadouro de aves, tulhas, cantinas e frigoríficos, para carne, peixe, caça, aves, frutas, hortaliças. Aqui também existem lavabos e chuveiros para utilização dos vendedores, público e pessoal; arrecadação para produtos e vestuários dos vendedores, devidamente numerados e uma cantina.” (Leite, 2012)

Mercado de Arroios [post. 1942]
Rua Ângela Pinto
Eduardo Portugal, in AML

Dois anos e cerca de um milhão de euros depois, o Mercado de Arroios reabriu em 2017, apresentado à freguesia de cara lavada. Os postos de venda foram remodelados, o pavimento substituído e o interior pintado. Há uma nova rede de águas e melhorias na mobilidade (rampas e novos elevadores). O final desta requalificação acontece no ano em que se celebra o 75º aniversário da construção do mercado, classificado nos anos 80 como edifício com interesse cultural.

Mercado de Arroios [1941]
Rua Ângela Pinto
in Revista municipal Lisboa

Bibliografia
cm-lisboa.pt.
Revista municipal Lisboa, 1941.

Friday, 9 August 2019

Lançamento da 1ª Pedra para o monumento ao Dr. António José de Almeidaa

Recorda-nos o olisipógrafo Norberto Araújo que « O monumento ao Dr. António José de Almeida foi levado a efeito por iniciativa do então director do «Diário de Notícias» Eduardo Schwalbach; a subscrição pública abriu-se dois dias depois da morte do antigo presidente da República, sucedida em 30 de Outubro de 1929.

Avenida da República [1 de Fevereiro de 1932]
Cerimónia do lançamento da 1ª Pedra para o monumento ao Dr. António José de Almeida, 6º Presidente da República (1919–1923), na presença do Chefe de Estado Óscar Carmona
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

O primeiro local escolhido para o monumento foi o cruzamento das Avenidas da República e Miguel Bombarda, no qual se chegou a colocar a primeira pedra em 1 de Fevereiro de 1932.

N.B. Por iniciativa do Governo, a localização definitiva para o monumento viria a ser a Praça onde convergem a Avenida Miguel Bombarda e a Avenida António José de Almeida, tendo sido inaugurado a 31 de Dezembro de 1932

Avenida da República [1 de Fevereiro de 1932]
Sessão solene do lançamento da 1ª Pedra para o monumento ao Dr. António José de Almeida, 6º Presidente da República (1919–1923), na presença do Chefe de Estado Óscar Carmona
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 74, 1939.

Wednesday, 7 August 2019

Beco dos Cortumes

Nesta Travessa [do Terreiro do Trigo] se abre, à esquerda, descendo, uma das curiosidades autênticas da Alfama: o Beco dos Cortumes. Aí o temos, Dilecto. Eis-nos em- plena Alfama medieval.


Como é possível isto, através das desfigurações do tempo e da fortuna, no pobre urbanismo bairrista?  — questiona o ilustre Norberto de Araújo. Como encontramos hoje, e já tão perto da larga Rua do Terreiro do Trigo, êste especime raro ern tôda a Lisboa, que mais parece cousa de estampa antiga,arrancada a uma arca de erudito deão da Sé, do que água-forte viva em século de vintena?

Beco dos Cortumes, visto de dentro [1924]
Eduardo Portugal, in AML

Pois está aqui, pitoresco e  sombrio, até mais não poder ser. É um enfiamento curto, sem saída, morrendo nas traseiras dos prédios do Chafariz de Dentro, para onde em tempos teria passagem.
Não é do mais belo, mas é do mais «repassado» de tôda a Alfama: chamemos-lhe viela, alfurja, beco ou betesga, mas não chega a ser nada disso; pois nem tem quási sinal de gente. Entremos. 

Entrada para o Beco dos Cortumes, visto de fora [1947]
Fernando Martinez Pozal, in AML

Arcos curtos, passadiços ligando prédios exquisitos que já lhe não pertencem, janelas de madeira, baixos de armazéns gradeados de frestas, como na Rua das Canastras e do Almargem à Ribeira Velha — um mixto de reentrância exterior de cárcere e de recanto de burgo seiscentista — , êste Beco dos Cortumes é uma pequena água-forte.

Beco dos Cortumes, visto de dentro [1925]
Alfredo Roque Gameiro. Lisboa Velha. Aguarela
 
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 65, 1939.

Sunday, 4 August 2019

Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37

Edifício para habitação destinado a Emílio Leguori, construído por Augusto Carlos da Cunha, a partir de um projecto do arquitecto Ventura Terra (1902).
Este edifício foi desenhado de uma forma simétrica, nos seus aspectos relacionados com a métrica de vãos e desenho de varandas. Duas faixas de azulejo, no topo e ao nível do piso térreo, conferem-lhe horizontalidade em contraponto com a verticalidade dos vãos. A zona de esquina é marcada exteriormente por três varandas sobrepostas, unidas por um pano de marquise em dois níveis na continuidade e largura do vão principal constituído pela entrada e respectivo desenho em pedra.

Edifício na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [c. 1910]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa [vd. N.B.]; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso»; ao fundo vê-se o palacete «Casa da Cerâmica».
Joshua Benoliel, in AML

Uma proposta de 1940, tendo em vista retirar os envidraçados das marquises por se encontrarem em mau estado, não foi aceite por parte da Câmara, apesar de um primeiro parecer estar de acordo com a supressão dos mesmos, já que "em nada afectaria a expressão arquitectónica do edifício em questão, que segundo se julga só lucrará com essa circunstância", refere o texto da proposta. 
A necessidade de realizar obras por parte de um novo proprietário, a partir de 1940, levou a que o mesmo se dirigisse à Câmara solicitando a sua anulação relativamente ao interior das habitações. Curiosamente, refere o proprietário que "as rendas são antiquíssimas e de reduzido valor, para habitações de dezoito amplíssimas divisões, todas elas habitadas por gente rica. (...) Presentemente encontro-me exausto de recursos por muito tempo assim permanecerei, por os encargos dos empréstimos que contraí me absorverem todas as economias que venha fazer. Não seriajusto que, para beneficiar inquilinos ricos, satisfeitos com a sua habitação, fosse obrigado a fazer obras desnecessárias, gastando nelas dinheiro que não tenho, forçando-me a usar novamente o crédito,aumentando mais os encargos, já neste momento preocupante, pelo seu montante". 

Edifício sito na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [1917]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa [vd. N.B.]; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso»; manifestação.
Joshua Benoliel, in AML

Em 1946, foram substituídas as marquises de ferro, que se encontravam em ruína, para outras construídas em estrutura de betão. Este projecto foi assinado pelo arquitecto Norte Júnior e pelo engenheiro Francisco Ventura Rego.
Em 1972, a Sojornal, proprietária do jornal Expresso, instala-se neste edifício, ocupando-o na totalidade. Em 1990, esta sociedade solicita uma remodelação do imóvel, com ampliação em altura, construção de 4 caves para estacionamento e conservação da fachada. O projecto foi reprovado pela Câmara Municipal em função dos planos urbanísticos em vigor para a zona e do estudo volumétrico do quarteirão, aprovado em 1980. Apesar do protesto do interessado, com base em pareceres jurídicos, a obra nunca se concretizou.

Rua Braamcamp vista da Praça do Marquês de Pombal [194-]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso».
Ferreira da Cunha, in AML

N.B. Afonso Costa (1871-1937) foi Presidente do Conselho de Ministro, ministro, dirigente do Partido Republicano e do Partido Democrático.
Em Outubro de 1910, um levantamento popular conseguiu implantar a República, não tendo havido uma resposta determinada do Exército. Formou-se um Governo provisório chefiado por Teófilo Braga, tentando impor um regimento com apoios unicamente na população urbana num país rural. Afonso Costa ficou com a pasta da Justiça: fez uma revolução num ministério que primava pela discrição. Iniciou reformas claramente anti-clericais, que contribuíram para o aumento da impopularidade do novo regime junto da população e da ala conservadora do republicanismo. Mas o ministro da Justiça e dos Cultos não cedeu às pressões e continuou com a política de afirmação dos valores laicos da República e de separação do Estado das igrejas, instituindo também o registo civil obrigatório.
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Bibliografia
MANGORRINHA, Jorge, Arquitecturas de esquina em Lisboa, A.M.L., 2014.
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