Friday, 22 September 2017

Chafariz das Janelas Verdes

As Janelas Verdes — têm, assim, ressonância lisboeta. Resignada ao urbanismo esta póvoa nobre e conventual — aceitou o miradouro da Rocha dos Condes de Óbidos e Sabugal, e, mais tarde, o Chafariz, de formosa expressão monumental. ¹


Êste Largo das Janelas Verdes — recorda-nos Norberto de Araújo — que se designa desde há um ano [1937] Largo do Dr. José de Figueiredo. em merecida consagração em memoria dêste critico de arte, Director do Museu [de Arte Antiga, Palácio Alvor] falecido em 18 de Dezembro de 1937, constitue um recanto de elegante contôrno. que bem se ajusta à fisionomia da artéria principal. 
O chafariz data de 1775, e o grupo escultórico que o coroa é de António Machado, discípulo de João de Almeida,  representando Vénus e Cupido. Tem delicadeza, e recorta-se graciosamente no fundo azul, para lá do Olival [Rua]. O arranjo do Largo foi também feliz. ²
Em meados do século XIX (1851)tinha quatro bicas, quatro Companhias de Aguadeiros, quatro capatazes e cabos, cento e trinta e dois aguadeiros e um ligeiro. 
Por Alvará de 23 de Dezembro de 1782, se concederam os sobejos, metade a Maurício José Cremer Wanzeller, e a outra metade ás Freiras de Santo Alberto, as quaes os cederam ao Marquez do Pombal.³

Chafariz das Janelas Verdes [1858]
Largo do Dr. José de Figueiredo
Amédée de Lemaire-Ternante, in CPF

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 89
² idem, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp,74-75
³ VELLOSO D`ANDARDE, José Sérgio, Memória sobre chafarizes, bicas, fontes e poços públicos de Lisboa, Lisboa, 1851

Wednesday, 20 September 2017

O «Passo» da Mouraria e a lápide da Cerca Fernandina

Fez há pouco quarenta anos que foi ordenada a demolição do Passo da Mourariaescreve Norberto de Araújo num artigo publicado no boletim do Grupo "Amigos de Lisboa" — um dos da procissão do Senhor dos Passos, da Graça. 


Serve de pretexto a estas notas, que nenhuma novidade conterão, uma fotografia que possuímos, e na qual o «passo» se vê tal qual era no final do século passado {séc. XIX]. A estampa é inédita, e deve-se, segundo cremos, a Alberto de Oliveira, um dos fundadores do «Grupo do Leão» (1887), senão o seu principal organizador, e que cultivava as curiosidades e os tipos de Lisboa, interessando-se por assuntos de arte ligados aos progressos gráficos. Alberto de Oliveira, que figura na famosa tela de Columbano, de cujos pares hoje não resta um só, foi daquela gente da boémia do talento e do espírito o primeiro a desaparecer da vida. Já não viu demolir o velho «Passo da Mouraria», cuja fotografia teria feito há cerca de sessenta anos [c. 1887]. O pormenor não interessa demasiadamente; pela leitura do título de uma peça que se representava ao tempo no Teatro do Príncipe Real [A Filha do Snr. Chrispim] [1], e que se pode ler num cartaz que a fotografia reproduz, apurar-se-ia o ano que corresponde ao cenário.
Ao «Passo da Mouraria» está ligada a história do sítio da Saúde ou da Guia. Na conhecida gravura — e belo documento — do «Arquivo Pitoresco», volume V, pág. 377 [vd. 2ª imagem], aparecem em desenho o «Passo», o recanto do Alegrete, o Arco, rasgado num prédio dos Taroucas, o resto de um ângulo da muralha de D. Fernando, e a lápide de mármore, com inscrição em caracteres góticos maiúsculos, que atesta a construção (1373-1375) da muralha fernandina.
Na fotografia à qual nos reportamos não aparece o recanto [vd. 1ª imagem], mas distintamente se vê a lápide, aposta no lanço da muralha contigua ao «Passo», ao lado superior de uma porta que tinha o n.º 12 [da Rua da Mouraria].

O «Passo da Mouraria» e a lápide da Cerca de D. Fernando (dir.) [c. 1887?]
Rua da Mouraria; à esquerda vislumbra-se a fachada lateral da Ermida de Nossa Senhora da Saúde
Alberto de Oliveira, in AML

1907 foi o ano da condenação do «Passo da Mouraria» que, em reconstrução, datava de 1780; o Terramoto destruíra o primitivo, que vinha de 1698-1702, e era sensivelmente da mesma idade do palácio do Conde de Vilar Maior, antecessor da Casa dos Alegretes, depois Penalvas e Taroucas. Este palácio, dito dos Marqueses do Alegrete, cujo título passou para o arco e para a rua, foi demolido neste ano corrente de 1947, sem que houvesse razão para o prantear.
Duas das relíquias do pequenino sítio desapareceram, pois, quarenta anos uma atrás da outra. Está de pé apenas o Arco, teimosamente a recordar a Porta de S. Vicente da Mouraria, que leva 574 anos de Porta, e 273 de Arco, pois foi transformada em 1674, para facilitar o trânsito dos coches.
A lápide relativa à construção da cerca de D. Fernando passou, depois de 1908, quando foi construído o grande prédio n.º 8 a 16, à esquina das Escadinhas do Marquês de Ponte de Lima Escadinhas da Saúde, para a fachada desse prédio, onde ainda se encontra. E' venerando documento da Lisboa do Rei Formoso, talvez o único de vulto, assim como o Arco, tão escarnecido e desrespeitado na sua memória, é a última das portas de Lisboa da Cerca do século XIV.

Rua da Mouraria, Arco e Palácio do Alegrete em 1862
À esquerda, na parede ao lado do  «Passo da Mouraria» vê-se a lápide comemorativa da construção da Cerca de D. Fernando
Gravura de madeira: desenho de Barbosa Lima e gravura de Coelho Júnior e Pedroso
in Arquivo Pitoresco

O «Passo da Mouraria» desapareceu em 1907-1908, como dissemos. A Câmara ofereceu à Irmandade do Senhor dos Passos da Graça, à qual o «Passo» pertencia, uma indemnização de quinhentos mil réis, que a irmandade aceitou. Dos cinco «passos» de rua da procissão dos Passos da Graça subsistem hoje apenas dois: o da «Verónica», no Largo do Terreirinho n.º 119 do começo da Calçada de Santo André, que data de 1765, e substituíra um que existiu antes na Rua do Boi Formoso [Benformoso] (1673-1675), como este substituíra um ao cimo da Rua dos Cavaleiros; e o de «Santo André», místico com o desaparecido Arco de Santo André, ampliado em 1608-1702, sito no começo da Costa do Castelo, porta n.º 106.
O famoso «Passo» do Rossio, que datava de 1700, fôra apeado em 1759, e reedificado em 1782 em terrenos da Casa dos Duques de Cadaval, novamente demolido em 18319 por ordem da Câmara, que, por sentença, teve que reedificar logo em 1841, sendo inaugurado em 1843. Pouco depois construiu-se o grande prédio Cadaval que esquina para o actual Largo de D. João da Câmara, anteriormente «Pátio do Duque». E o «passo» ficou nele encravado até 1913, ano em que a Casa Cadaval logrou por sentença, que a irmandade o entregasse, para demolição. É hoje [em 1947] «O Passo», pequena leitaria tipo Rossio.
O «Passo de S. Roque» estava embebido na face da Torre de Álvaro Pais, que se situava, como é sabido, no Largo de S. Roque [actual Trindade Coelho]; o Terramoto destruiu-o e foi reedificado em 1780-1781, até 1827, ano em que a Câmara regularizou o largo para a abertura da Rua Nova da Trindade.
A arquitectura exterior destes «passos» era sensivelmente igual: portada de volta perfeita sobre cuja cornija assenta o frontão, constituindo duas volutas a envolver um medalhão central, coroado por uma cruz simples. Estas evocações (apoiadas no estudo histórico do ilustre Padre Ernesto Sales) servem apenas de ilustração ao insignificante mas curioso documento que é a fotografia do «Passo da Mouraria». Falta somente assinalar que a história de três dos «Passos» referidos está ligada por situação à Cerca de D. Fernando: os de S. Roque, da Mouraria e de Santo André.¹

[1] Refira-se, a título informativo, que «A Filha do sr. Chrispim» mencionada por Norberto de Araújo — e cujo cartaz se observa na 1ª imagem — foi escrita por Ludgero Viana (1842?-1934). Opereta de costumes portugueses, em 3 actos, terá estreado por volta de 1880, tendo feito furor à época com inúmeras representações em pelo menos dois teatros da capital. os já extintos Teatro do Rato e Teatro do Príncipe Real.
Ludgero Viana nasceu em Lisboa a 16 ele Março de 1842. Entrou para o jornalismo, em 1861. como redactor da época e foi durante muitos anos secretário da redacção do Diário Ilustrado. Como escritor teatral estreou-se no Teatro do Rato com a peça Os Malhados. Em 1903 entrou para a redacção do Diário de Noticias, onde se conservou durante vinte anos.

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Bibliografia
¹ARAÚJO, Norberto de. O «Passo» da Mouraria e a lápide da Cerca Fernandina, Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", 1947

Sunday, 17 September 2017

Monumento do Senhor Roubado

A origem do nome Odivelas está como o nome de tantas outras freguesias e concelhos de Portugal, envolto numa lenda que tem perpassado pelos séculos. A propósito do nome desta cidade, conta-se que D. Dinis tinha o hábito de deslocar-se à noite a Odivelas ao Mosteiro de S. Dinis e certa noite, sabendo a rainha do que se passava resolveu esperá-lo e quando o rei fazia o seu percurso para o encontro, a rainha interpelou-o e eis que proferiu as seguintes palavras: "Ide vê-las senhor." Pelo que, segundo a lenda, a expressão "Ide vê-las", por evolução, terá dado o nome a Odivelas.


A 11 de Maio 1671 um roubo na Igreja de Odivelas dá origem a um belo monumento, o «Senhor Roubado», que alguns descrevem como sendo a primeira banda desenhada portuguesa, e que levanta muitas pistas sobre a forte presença da Inquisição na região.
O monumento do Senhor Roubado, tendo sido construído em três fases distintas, entre 1744 e 1747, correspondendo à última os azulejos da parede fundeira, que relatam toda a odisseia do roubo e a respectiva pena aplicada a António Ferreira.
A construção do primeiro padrão remonta a 1744 e deve-se à iniciativa de frei António dos Santos Prazeres que, às suas custas e beneficiando de diversas colaborações, decidiu substituir a antiga cruz, que assinalava o local onde haviam sido enterradas as partículas sagradas, por um cruzeiro e um pináculo. Logo depois, em 1745, foi decidido complementar a primeira intervenção, através de quatro colunas toscanas e respectiva abóbada, patrocinada pelo Cardeal Patriarca e paga com as esmolas dos fiéis. A mensagem iconográfica foi bastante alterada com esta intervenção, colocando a tónica na "exaltação da Fé na doutrina cristã como uma virtude da alma essencial para se chegar à Salvação". Contribuem para esta leitura a representação da pomba do Espírito Santo, do Crucifixo, símbolo de Jesus, e do vaso sagrado, símbolo de Cristo, aludindo, no seu conjunto, à Santíssima Trindade. Da mesma forma se compreendem as colunas toscanas evocativas dos quatro Evangelistas, que suportam a cobertura com a figura da Fé, bem como os fogaréus aos cantos, cuja chama é, também, representativa da Fé.
Para melhor ilustrar a antiga e curiosa história deste monumento laçamos mão da velhinha  revista científica de grande prestígio nacional e internacional, "O Arqueólogo Português” publicada em 1915, num capítulo intitulado «Azulejos datados». Reza assim:

À saída das portas de Carriche, junto da estrada municipal que leva a Odivelas, do lado esquerdo, encontra-se um pequeno espaço trapezoidal lajeado, delimitado no mais largo topo por um muro coberto de azulejos, e no outro topo e nos restantes lados por gradaria de ferro e um muro baixo. 
Ao centro, perto da parede azulejada, levanta-se um oratório de pedra, sob cuja abóbada crucial aguentada em quatro colunas de mármore claro se abriga uma imagem do crucificado. Do lado esquerdo, separados do oratório, um púlpito pequeno e um orifício circular aberto no lajedo, a modo de boca de poço; do lado direito apenas um marco de pedra, semelhante aos frades dos portões. 
É este o local conhecido pelo «Senhor Roubado» onde, em fins do séc. XVII se desenrolou uma série de acontecimentos, cuja descrição apresentará. bem claramente um dos aspectos do religiosismo da época.

Monumento do Senhor Roubado [c. 1903]
Rua Pedro Álvares Cabral; Rua do Senhor Roubado, Odivelas
Fotografia anónima

Um tal António Ferreira, de Odivelas, trabalhador e moço de soldada, roubou a igreja do povo e foi esconder parte dos paramentos e vasos sagrados no lugar onde hoje se levanta o monumento e que ao tempo era um pedaço de vinha chamado os Caniços, a beira da estrada velha seguia para Lisboa. Descoberto o furto, preso e condenado o seu autor, a piedade dos fiéis fez crigir mais de meio século depois, aquela aparatosa fabrica, ainda hoje quási integralmente conservada. Comecemos a sua descrição.
No pedestal da cruz de pedra do oratório lêem-se primeiro os seguintes versos:
AQVI
OCCVLTOV A INGRATIDÃO
DO MAIOR ROVBO A INSOLÊNCIA
MAS LEVANTO V A CLEMENCIA
A MEMOBIA DO PERDÃO
 E logo por baixo: (na parte de trás do padrão, actualmente ocultada pela parede)
 ESTE PIADOZO PADRAO ⭙ COM ETERNA DOR SE LEA
AQVI VM ATROS LADRÃO ⭙ ÁS DUAS DA NOVTE E MEA
O CEV ENTERROV NO CHÃO
CAZO DE ODIVELLAS . AN . 1671
Ainda por baixo destas inscrições se encontra uma outra, que marca a época da construção do monumento, 1744. 
No muro azulejado, que forma o fundo do estranho monumento, abre-se ao centro uma porta hoje entaipada, em cuja verga se lê:
LOVVADO
SEIA O SANTÍSSIMO
SACRAMENTO E A TRINDADE
DA TERRA, JESVS, MARIA, JOZE
P. ALMAS P. N. A. M.
ESTA. O. FEITA T CÕ ESMOLAS DOS FIEIS. 1744.
o que nos indica com precisão a data dos azulejos que foram aplicados na obra. 
Aparecem divididos em quadros — como se de uma banda desenhada dos tempos modernos se tratasse —, seis de cada banda da porta, em duas ordens sobrepostas.
Sob eles, separado por uma linha de rectângulos amarelos, vem um lambris de outros azulejos de figura avulsa, com os cantos todos sobrecarregados de cinco pintas sôbre uma cruz riscada. Encostados as ombreiras da porta estão dois grandes painéis com figuras alegóricas de mulheres, semelhantes aos que vemos, por exemplo, nos ombros da capela da Senhora da Saúde, de Montemor de Loures.

Monumento do Senhor Roubado [c. 1900]
Rua Pedro Álvares Cabral; Rua do Senhor Roubado, Odivelas
 A parede desenvolve-se atrás do cruzeiro e apresenta-se totalmente decorada com azulejos
Fotografia anónima. in AML

Nos doze quadros citados contêm-se a história do roubo sacrílego, e lê-se sob cada um, no próprio azulejo, uma extensa nota explicativa; em quási todos há qualquer curiosidade etnográfica ou histórica digna de ser referida.

Friday, 15 September 2017

Antigo coreto da Avenida da Liberdade

D. Felicidade quis então saber as horas. Começava a enfastiar-se. Tinha esperado encontrar o Conselheiro; por ele, para lhe parecer bem, fizera o sacrifício de se apertar!
Acácio não vinha, os gases começavam a afrontá-la; e o despeito daquela ausência aumentava-lhe a tortura da digestão. Na sua cadeira, o corpo mole, ia seguindo a multidão que girava incessantemente, numa névoa empoeirada. 

Mas a música, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruído de cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do Fausto. Aquilo reanimou-a.
Era pot-pourri da ópera — e não havia música de que gostasse mais. (Queiroz, 1878)


No projecto da Avenida da Liberdade (após demolição do Passeio Público) estavam contemplados novos equipamentos para o jardim, incluindo um novo coreto, criado por José Luís Monteiro e cuja construção foi iniciada no lado oriental da Avenida, no talhão situado entre a Rua dos Condes e o Largo da Anunciada, mas uma petição de Dezembro de 1885, de vários moradores da zona pediu a suspensão da sua construção naquele local, o que foi aceite em Comissão Executiva, a 13 de Fevereiro de 1886, que decidiu suspender os trabalhos, remover os materiais e guardá-los até ser designado novo local para o coreto. Apesar de não haver coreto na Avenida, existem referências de bandas tocarem entre a Praça dos Restauradores e a Rua das Pretas.
Mais tarde, possivelmente no lugar onde actuavam as bandas foi construído um (primeiro) coreto fixo de materiais pouco duráveis a pedido da Sociedade Promotora das Creches para a realização de uma quermesse em Setembro de 1886, coreto esse que a pedido dos moradores, foi mantido nesse local até 1894, ano de inauguração do coreto fixo (segundo).
A necessidade de um novo coreto na Avenida da Liberdade, devido ao estado de degradação do coreto provisório e o pedido dos moradores lisboetas tendo em vista a necessidade de manter a música neste local, fez com que a 19 de Maio de 1892 fosse retomado o projecto de coreto de José Luís Monteiro, mas agora noutro local, para a parte mais alta da Avenida, no talhão em frente à Rua Rosa Araújo.
O coreto fixo, inaugurado a 15 de Agosto de 1894, foi aí mantido até 1935, quando foi desmanchado para ser novamente reconstruído noutro local, o Jardim da Estrela, onde se mantêm até aos dias de hoje. A decisão de mudar este coreto de local deveu-se ao aumento da quantidade de tráfego, comércio e escritórios na Avenida da Liberdade, factores pouco convidativos para o ambiente musical e para atrair pessoas até ao coreto.

Avenida da Liberdade, coreto [c. 1894]
Este coreto situava-se defronte ao nº 232 no lado nascente da avenida, no quarteirão entre as ruas Barata Salgueiro e Alexandre Herculano. Foi transferido em 1935-36 para o Jardim da Estrela
Chaves Cruz, in AML

Inaugurado em 15 de Agosto de 1894, tocando, à noite, das oito às dez horas a banda de Infantaria 2, e sendo todo iluminado a luz eléctrica. Porém, não deu o melhor resultado porque se apagou muitas vezes, o que fez com que a música desse algumas fifias, por estar às escuras.
É um coreto em mármore e ferro, do risco de José Luís Monteiro, com sugestões indianas no desenho dos arcos e na cobertura. O interior desta apresenta um invulgar trabalho decorativo em madeira com liras, folhagem e monograma camarário. É o único coreto com duas escadas de acesso, em ferradura, que pela simetria da planta lhe conferem um maior equilíbrio no desenho.

Avenida da Liberdade, coreto [c. 1900]
Coreto da autoria de José Luís Monteiro, foi transferido em 1935 para o Jardim da Estrela
Artur Leitão Bárcia, in AML

Na edição de 1831, do Dicionário da Língua Portuguesa de António de Morais Silva, a palavra coreto surge com o significado de «pequeno coro feito para alguma função». Enquanto em 1890 surge uma outra versão, emendada e acrescentada, que define o coreto da seguinte forma:
«Corèto», s. m. Côro pequeno. Especie de palanque, vistosamente ornamentado, destinado à música, e que se arma geralmente por occasião de festa publica, em arraiaes, etc..»
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Bibliografia
(QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878)

(NUNES, Joana, O coreto na cidade de Lisboa, Faculdade de Belas Artes (FBA), Dissertações de Mestrado, 2012)
(RELVAS, Eunice; BRAGA, Pedro Bebiano, Coretos em Lisboa: 1790-1990, p. 129)

Wednesday, 13 September 2017

Palácio Ludovice

O antigo Palácio Ludovice, enorme quarteirão com quatro faces, contido entre as Ruas de S. Pedro de Alcântara e do Diário de Noticias, e as travessas da Cara e da Boa Hora, não passa de um casarão utilitário, votado desde há muito ao inquilinato mais díspar. Nele avulta apenas a formosa frontaria, numa sugestiva expressão de beleza e de harmonia arquitectónica. Ê desde 22 de Março de 1938 considerado «imóvel de interesse público», apenas por sua fachada principal. 


Foi fundador deste palácio o arquitecto João Frederico Ludovice, que lhe imprimiu a traça setecentista pura, e a data pode ser fixada em 1747, segundo se depreende da inscrição na pedra colocada sobre a janela central do andar nobre. 
A versão apresentada por Jacome Raton, nas suas «Memórias», que dá João Pedro Ludovice, filho do arquitecto famoso, como o fundador do palácio não oferece consistência; parte, por ventura, da circunstância de João Pedro haver residido na casa, que herdou de seu pai em 1752.
O interessante imóvel foi mesmo conhecido por «Palácio do Frederico», segundo assevera Júlio de Castilho na sua «Lisboa Antiga» — «Bairro Alto». Ê de crer que os descendentes directos dos Ludovices houvessem, no todo ou em parte, residido no edifício de S. Pedro de Alcântara, já no século XIX.

Palácio Ludovice [c. 1940]
Rua de São Pedro de Alcântara, 39-49; Rua do Diário de Notícias, 144-154; 

Travessa da Boa-Hora ao Bairro Alto, 2-12; Travessa da Cara, 1-3A
Eduardo Portugal, in AML

Considerado um exemplo arquitectónico típico do barroco tardio nacional, assim como um dos mais importantes exemplos da arquitectura palaciana da Lisboa joanina, apresenta uma fachada desenvolvida em 5 pisos de altura desigual, rasgada por um portão central decorado com pilastras de cantaria em fiadas sobrepostas e sobrepujado de tímpano, animada por dois janelões centrais, com emolduramento de cantaria, que abrem para varandas de linhas ondulantes, estando o janelão do piso nobre encimado por uma lápide onde está patente a data da conclusão do imóvel, 1747. Salienta-se, ainda, a articulação entre janelas de sacada e de peitoril e a alternância de elementos decorativos,nomeadamente o elemento característico da arquitectura joanina ou de Ludovice, uma espécie de frontão liso, que coroa algumas janelas, e áticas triangulares de cantaria, que coroam outras tantas.
Objecto de intervenções ao longo do séc. XIX, foi sujeito a obras de transformação, segundo projecto do arq. Jorge Segurado, entre 1944-45, no sentido de instalar o Solar do Vinho do Porto no pavimento térreo do edifício. Algumas das salas do imóvel conservam, ainda, silhares de azulejos setecentistas e tectos apainelados com pinturas.
 O interior, antecedido por uma escadaria nobre, encontra-se bastante descaracterizado. Merece ainda atenção, o espaço em oval da primitiva capela, decorado com mármore rosa.
 
Palácio Ludovice [19550]
Rua de São Pedro de Alcântara, 39-49; Rua do Diário de Notícias, 144-154; 

Travessa da Boa-Hora ao Bairro Alto, 2-12; Travessa da Cara, 1-3A 
Construído em 1747, como testemunha a lápide existente no janelão central
Salvador de Almeida Fernandes, in AML
 
Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, p. 93, 1950)
(cm-lisboa.pt)

Sunday, 10 September 2017

Rua dos Correeiros: Primeira Casa das Bandeiras

Em 1883, António de Almeida Cardoso, após trabalhar como alfaiate em São Pedro do Sul, trouxe a sua arte para a capital e aí abriu a Alfaiataria A. Cardoso na  Rua dos Correeiros, 149-151, vulgo Travessa da Palha. Em 1885, mudou o nome da alfaiataria para Primeira Casa das Bandeiras, passando a dedicar-se quase em exclusivo à confecção de bandeiras. 
A primeira bandeira da República Portuguesa foi confeccionada neste estabelecimento e, actualmente, os seus produtos são vendidos para praticamente todo o Mundo, se bem que já não se bordem os panos a fio de ouro e à mão como chegou a ser tradição. Entre outros clientes, destacam-se o Estado Português, Clubes Desportivos, Bancos, Associações, Municípios, Juntas de Freguesia, Faculdades e a Casa Real Espanhola.

Primeira Casa das Bandeiras [post. 1908] Rua dos Correeiros, 149-151
Fonografia anónima, in DN

A Rua dos Correeiros (vulgo Travessa da Palha), que foi destinada aos ofícios de Seleiros — recorda-nos Norberto de Araújo nas Peregrinações — ainda hoje [em 1939] subsistentes —, e que se chamou também da Correaria Nova, e Nova dos Correeiros, deve a designação oral, sobrevivente, à vizinhança com o Largo e Praça da Palha.

Este topónimo foi oficializado pela Portaria pombalina de 5 de Novembro de 1760 que atribuiu denominações às ruas da Baixa lisboeta, entre a Praça do Comércio e a Praça do Rossio, na sequência da reconstrução da zona após o terramoto de 1755 e que é o primeiro diploma que tratou exclusivamente de matéria toponímica:
«Nesta rua he a que fica entre a Rua Bella da Rainha [actual Rua da Prata], e a Rua Augusta, e nella terão arruamento os Officios de Corrieiro, de Seleiro, e de Torneiro.»

Rua dos Correeiros [c. 1908] Do lado esquerdo, onde se vê a bandeira portuguesa e o letreiro com o nº. 151, fica a entrada da Primeira Casa das Bandeiras
Joshua Benoliel, in AML

Bibliografia
(Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 42)
(DN)

Friday, 8 September 2017

Avenida da Liberdade com a Rua Barata Salgueiro

A urbanização dos terrenos adjacentes à parte ocidental da Avenida da Liberdade só avançou a partir de 1880, depois de acordo entre a Câmara e o capitalista e advogado Antão Barata Salgueiro, proprietário de uma larga área de terrenos nessa zona. Os arruamentos, abertos desde 1882, tomaram os nomes de vultos do liberalismo e foram sendo ladeados de «palacetes particulares, alguns de certo mérito, prédios sólidos de rendimento» (ARAÚJO, 1939), destinados a uma classe burguesa abastada. Restam ainda diversas construções dessa época, estando no entanto a unidade do conjunto cada vez mais prejudicada pelos novos edifícios que proliferam de forma imparável.

Avenida da Liberdade com a Rua Barata Salgueiro [c. 1910]
Joshua Benoliel, in AML

O primeiro palacete na foto acima, no nº 185, foi demolido na década de 1930 para dar lugar ao primitivo Hotel Tivoli (Palacete Rosa Damasceno); o segundo palacete, no nº 187-189, construido em 1891, de estilo neo-mourisco é o actual Hotel Veneza mandado construir por Adriano Antão Barata Salgueiro; o terceiro palacete no n.º 191-193, de Cipriano Ribeiro Caleia adquirido a Barata Salgueiro, construído nos finais do séc. XIX, é o actual Arquivo Histórico do MOPTC. O quarto palacete no nº 195 — no gaveto com a Rua Barata Salgueiro — é o Palacete Barata Salgueiro, demolido na década de 1970, para dar lugar à sede do BES, actual Novo Banco.

Avenida da Liberdade, panorâmica N-S [c. 1934]
 A vermelho, a Rua Barata Salgueiro

Ferreira da Cunha, in AML

Wednesday, 6 September 2017

Comícios republicanos na Avenida D. Amélia

Do nosso tempo é a grande artéria de Almirante Reis, que sucedeu na designação, como tenho dito, à Avenida de D. Amélia: tem 40 anos incompletos. É uma linha urbana de primeira categoria, sem história, que começou a rasgar-se timidamente no final do século passado [séc. XIX]. [1]


Avenida D. Amélia, actual Almirante Reis [1908]
Comício republicano; quarteirão entre as ruas Marques da Silva e Pascoal de Melo (dir.);  em cima vê-se a
Igreja de Nossa Senhora da Penha de França
Fotógrafo não identificado, in Arquivo Municipal Lisboa

Nos últimos anos da monarquia, pela Avenida D. Amélia, agora de Almirante Reis, havia ainda muitos tapumes à espera de construções de prédios e nos terrenos à margem os dirigentes republicanos vinham, aos domingos, fazer os comícios de propaganda a que o povo, levado pelos artigos de Magalhães de Lima, no Século e de França Borges, no Mundo, acorria com entusiasmo e expectativa. No alto dos improvisados palanques, os caudilhos abjurgavam a Monarquia, condenavam o rei, reclamavam a República!
Nem todos ouviriam o que eles diziam, pois, ao tempo, não havia altifalantes e as palavras perder-se-iam nos grandes espaços. Mas a solidariedade levava os da frente a transmitir de boca em boca, o que eles arengavam. E sempre havia muitas palmas e vivas! 

Avenida D. Amélia, actual Almirante Reis [1908]
Comício republicano; ao fundo, a futura Praça do Chile
Fotógrafo não identificado, in
Arquivo Municipal Lisboa

Contava-se, como anedota, que em certa ocasião um ouvinte, dado à chacota, gritou: — Viva a Sardanica! E logo toda aquela gente premiou com aplausos a frase que poucos teriam entendido. 
A polícia nunca intervinha, uma vez que os comícios eram democraticamente autorizados pelo célebre juiz Veiga, zelador da coisa pública apesar de incansável perseguidor dos republicanos.
 Vivia-se num ambiente verdadeiramente revolucionário. [2]

Avenida D. Amélia, actual Almirante Reis [1906]
Comício republicano; Igreja de Nossa Senhora da Penha de França
Joshua Benoliel,
Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia
[1] ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 73, 1938
[2] DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do Meu Tempo (1900-1974), p. 35, 1986
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