terça-feira, 25 de abril de 2017

Lisboa vista do cimo dos montes

Do Castelo, da Graça, do Alto de Santa Catarina, vista do cimo dos montes, das colinas, dos miradouros, Lisboa «enfia os olhos pelo Oceano». «Poucas vezes no mundo verá o viajante, como em como em Lisboa, tanta magnificencia de espectaculos naturaes, e tamanha variedade de scenario!», diz-nos o olisipógrafo Júlio de Castilho, para quem Lisboa «apresenta panoramas estonteadores, pela grandeza das linhas, e pelo variegado das minucias».


É de Francesco Rocchini (1822-1895)  esta  «vista tomada do Castelo de S. Jorge» que Norberto de Araújo descreve: «O encanto de Lisboa não se procura: encontra-se. Não reside num único sítio: dir-se-ia móvel, deambulatório. Vadio — passeando por onde lhe apetece. 
Aconselha-se o romeiro a que o não rebusque. Será a melhor maneira de dar com ele. 
Os mil motivos de interesse, de sedução, de êxtase — espraiam-se, perdem-se, ocultam-se e mostram-se pelas colinas e pelas planícies ribeirinhas. 
Num parque fecundado pelo sol, poetizado pelo luar, nascido espontâneo, enobrecido pelas idades — não é possível encontrar dispostos para nossos olhos os loureiros que coroam heróis e as rosas que engrinaldam vestais. Nem os rouxinóis têm moita certa. 
As colinas de Lisboa há que trepá-las para bem as conhecer. 
Os vinte miradouros suspensos de pérgolas e de torres, dão-nos o panorama objectivo, familiar: apontam-se as coisas, sabe-se-lhes a idade e a história. As colinas — não. Rugadas de congostas [*], quelhas, linhas de desfiladeiros, planos indecisos, são subjectivas. O seu encantamento é de sonho. 

Panorâmica de Lisboa tirada do Castelo S. Jorge  [c. 1870]
Panorâmica de Lisboa tirada da Sra do Monte
Francesco Rocchini (1822-1895), in BNP
 Legenda (clicar para ampliar):

Edifícios/Monumentos:
1—Igreja do Socorro (demolida c. 1940)  2—Palácio Folgosa (Propriedade Geraz de Lima)  3—Convento (Hospital) do Desterro  4—Hospital de S. José  5—Primitiva Igreja dos Anjos (demolida em 1908)  6—Campo de Sant'Ana  7—Convento de Santo António dos Capuchos  8—Palácio Mitelo  9—Palácio da Bemposta (Academia Militar) Paço da Rainha  10—Observatório Astronómico do Paço da Bemposta  11—Hospital de D. Estefânia  12—Palácio Pombeiro  13—Chafariz do Intendente  14—Hospital Miguel Bombarda (Antigo Rilhafoles)  15—Escola Superior de Medicina Veterinária (Antigo Instituto de Agronomia e Veterinária (Actual edifício da Policia Judiciária)
Arruamentos:
A—Rua de S. Lázaro  B—Rua da Palma  C—Rua do Benformoso  D—Largo (Sítio) do Intendente  E—Largo de Santa Bárbara  F—Arroios  G—Largo do Mastro

A penha do Castelo, abarcada desde o Largo do Caldas — é uma fantasmagoria. Do Rossio — uma maravilha. De Santana — um deslumbramento. 
Vista deste lado — a colina é um santuário ; adivinha-se a torrinha sineira de uma ermida. Contemplada deste outro sítio — é uma muralha. Tomada do lado do mar — é um museu; alveja o perfil manuelino de uma janela. 
Em todas as colinas, subindo, acavalgando-se, amparando-se, tocando-se nos beirais, as casas, os tugúrios, os palácios, os monumentos, os aglomerados indistintos, cinzentos ou violetas, conforme lhes dá a luz — são cenários do presépio lisboeta. 
As Colinas de Lisboaeis o panorama sagrado de uma cidade Olimpo, que enfia os olhos pelo Oceano. Os longes mandam na alma. Nas cidades e nos homensas distâncias ganham em saudade o que perdem em nitidez. Castelo, Graça, Penha, Estrela, S. Francisco, ascensão ideal... » [11]

Bibliografia
[11] (ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 28-29)

[* Nota(s): O Dicionário Houaiss e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam cangosta, mas remetem para congosta, portanto, o termo preferível. Trata-se de «caminho estreito e comprido, mais ou menos declivoso» (in Dicionário da Porto Editora) e «estrada estreita, rústica, entre muros ou sebes, na região periférica de uma povoação, aldeia, vila etc.; azinhaga» (in Houaiss). A palavra vem do latim hispânico 'congusta (via)', por 'coangusta (via)', «caminho estreito», de 'coangustare', «apertar».

domingo, 23 de abril de 2017

Largo dos Caminhos de Ferro: Museu Militar, antigo Museu de Artilharia

Vamos visitar o Museu de Artilharia, hoje intitulado, com mais propriedade, Museu Militar (...)

Já agora admira o formoso Pórtico poente nascente do edifício, verdadeiramente monumental, obra de Teixeira Lopes; anota a robustez e o movimento que distinguem o grupo escultórico superior, alegoria na qual avulta a figura da Pátria. É belo, posto que a muitos não pareça proporcionado. (Só foi concluido no comêço do nosso século [XX]).


Museu Militar, fachada nascente [séc XIX]
Largo dos Caminhos de Ferro; Calçada do Forte
Machado & Souza, in AML

O primeiro Museu, de máquinas e peças militares, foi instituído em 1842 pelo general José Baptista da Silva Lopes, Barão de Monte Pedral (cujo nome depois de 1910 crismou a freguesia de Santa Engrácia), e estava instalado na citada Fábrica de Armas a Santa Clara, onde abriu em 1851.
Só em 1876 o Museu [chamado então de Artilharia] passou a ocupar parte dêste edifício do Arsenal do Exército; era a casa, porém, insuficiente e estava velha.
Em 1895 promoverarn-se grandes obras, fazendo-se o prolongamento do edifício até ao Largo dos Caminhos de Ferro; [...]
Em princípios de 1901 as obras continuavam, recompondo-se a fachada do Largo do Caminho de Ferro, com magestoso pórtico de Teixeira Lopes [...]

Museu Militar, fachada nascente [c. 1908]
Largo dos Caminhos de Ferro; Pórtico da autoria de Teixeira Lopes
Alberto Carlos Lima, in AML

A rematar a porta do Museu Militar, voltada para o Largo dos Caminhos de Ferro, surge uma alegoria à Pátria, representada por uma figura feminina, que empunha uma espada na mão direita e uma bandeira na mão esquerda, ladeada pelos filhos.
Obra da autoria de António Teixeira Lopes (filho), foi executada, em pedra, entre 1895 e 1908.

Museu Militar, fachada nascente [c. 1908]
Largo dos Caminhos de Ferro; Pórtico da autoria de Teixeira Lopes
Chaves Cruz, in AML

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, p. 13)
(idem, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 104)

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Largo do Museu de Artilharia: Museu Militar, antigo Museu de Artilharia

Eis-nos no Largo do Museu de Artilharia ao fundo da Calçada dêste nome, aberta em 1775 para dar passagem à zorra [4ª foto] que conduzia a Estátua Equestre [de D. José]. para o Terreiro do Paço. [1]

Vamos visitar o Museu de Artilharia, hoje intitulado, com mais propriedade, Museu Militar (...) A fachada do edifício é, como vês, adornada com colunas monolíticas de ordem coríntia, e coroada de um entablamento com panóplias militares em cantaria.[2]

 

Museu Militar, antes Museu de Artilharia, fachada principal (poente) [c. 1900]
Largo do Museu de Artilharia;o pórtico data de 1874
Chaves Cruz, in AML

Aqui assentaram as «tercenas» de D. Manuel, para fundir e guardar artilharia; no tempo dos Filipes êste arsenal trabalhava só para espanhóis, e da circunstância derivou chamar-se ao estabelecimento a «Fundição dos Castelhanos›, designação que perdurou mesmo depois da Restauração. 
De 7 a 14 de Julho de 1726 as Tercenas foram reduzidas a cinzas, por um incêndio impossível de atalhar.  
D. João V tratou de reedificar as Tercenas, sendo o risco do francês Larre, mas só se acabando a obra em tempo do Marquês de Pombal (1760). Ficou a Cidade, para a sua época, com um Arsenal moderno; sob o ponto de vista técnico e científico o novo estabelecimento deve-se ao tenente general francês Fernando Chegary, ao general engenheiro Bartolomeu da Costa, e ainda a outros oficiais portugueses.
O Arsenal do Exército, no século XVIII e durante quási todo o século passado, compunha-se de três estabelecimentos: êste, ou seja a «Fundição de Baixo»,
o do Campo de Santa Clara, a poente, defronte das obras de Santa Engrácia, e que se intitulava a «Fundição de Cima», ou «Fundição de Canhões», letreiro que ainda se vê no abandonado edifício, e a «Fundição de Santa Clara», depois «Fábrica de Armas», hoje «Fábrica de Equipamentos e Arreios», a nascente do Tribunal Militar, no sítio onde existiu até 1755 o famoso Mosteiro de Santa Clara. (...)
O Arsenal do Exército conjunto de fábricas militares, como instituição centralizadora, foi extinto em1927. [2]

Museu Militar, antes Museu de Artilharia, fachada sul [c. 1900]
Rua Teixeira Lopes (antigo Cais da Fundição); fachada (sul) voltada ao rio Tejo; Igreja de Santa Engrácia (Panteão Nacional)
Machado & Souza, in AML

A história do Arsenal — diz Norberto de Araújoestá resumida. Falemos agora do Museu de Artilharia — Museu Militar.
O primeiro Museu, de máquinas e peças militares, foi instituído em 1842 pelo general José Baptista da Silva Lopes, Barão de Monte Pedral (cujo nome depois de 1910 crismou a freguesia de Santa Engrácia), e estava instalado na citada Fábrica de Armas a Santa Clara, onde abriu em 1851.
Só em 1876 o Museu passou a ocupar parte dêste edifício do Arsenal do Exército; era a casa, porém, insuficiente e estava velha.
Em 1895 promoverarn-se grandes obras, fazendo-se o prolongamento do edifício até ao Largo dos Caminhos de Ferro; [...]

Museu Militar, antes Museu de Artilharia, fachada sul [1907]
Rua Teixeira Lopes; fachada (sul) voltada ao rio Tejo; colunas (nove) e a balaustrada que faziam parte da rica capela de N. S. da Pureza, no Palácio Foz, aos Restauradores
Paulo Guedes, in AML

O pórtico, do Largo do Museu, antigo Largo da Fundição, data de 1874, alargado de um portal anterior; [...] a fachada, voltada ao rio, na Rua Teixeira Lopes, é deste século [XX], e assim mais moderna que as fachadas nascente e poente, havendo-se aproveitado as colunas (nove) e a balaustrada que faziam parte da rica capela de N. S. da Pureza, no Palácio Foz, aos Restauradores. [2]

Museu Militar, antes Museu de Artilharia [1927] 
Uma recordação do passado: a zorra em que, das suas oficinas, foram transportadas para o Terreiro do Paço a estátua de Dom josé e as colunas que sustentavam o arco triunfal da Rua Augusta.
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século











 
Bibliografia
[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 103)
[2] (idem, vol. XV, pp. 12-13)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Largo dos Caminhos de Ferro, antiga Praia dos Algarves

Onde vemos o largo em frente da fachada nobre do edifício (a do relogio) [da Estação de Santa Apolóni], era ainda então, como disse, uma pequena praia chamada dos Algarves. Convinha acabar com ella, e substituil-a pela projectada praça. [1]


Êste Largo dos Caminhos de Ferro — recorda Norberto de Araújo —, em cuja orla superior de casario, do nosso lado esquerdo, ao norte, avulta a silhueta das «Obras de Santa Engrácia», foi terraplanado em 1865. Era até então a «Praia dos Algarves» naturalmente porque aqui chegavam as mercadorias do Sul do país. O mar recuou um pouco, mas ainda no fim do século passado [séc. XIX] estava muito mais próximo do que está hoje; a obra da construção do cais de navegação e dos entrepostos levou-lhe boa faixa, como ainda sucede, mês a mês, em Santa Apolónia, em Xabregas e Poço do Bispo.  
O que a terra tem roubado ao rio em cem anos, desde Algés ao Poço do Bispo! E o Tejo —  contente! [2]

Largo dos Caminhos de Ferro , antiga Praia dos Algarves [ant. 1888]
À direita, o antigo Arsenal do Exército depois Museu de Artilharia;Cais da Fundição depois Rua Teixeira Lopes (1903)
Fotógrafo não identificado, in AML

O Largo em frente da Estação principal da então designada Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses passou por edital de 12 de Novembro de 1880 a denominar-se Largo dos Caminhos de Ferro. Também a Rua do Cais dos Soldados pelo mesmo edital passou a ser a Rua dos Caminhos de Ferro.

Largo dos Caminhos de Ferro [c. 1900]
Ao fundo, o cais da Empreza Nacional de Navegação a Vapor para a Africa Portugueza; a dir. o antigo Arsenal do Exército depois Museu de Artilharia
Machado & Souza, in AML

Este topónimo deriva da proximidade à Estação de comboios de Santa Apolónia, meio de transporte que em Portugal havia sido iniciado apenas 24 anos antes, com a viagem inaugural em 28 de Outubro de 1856, na qual o comboio baptizado D. Pedro V, partindo da Estação de Santa Apolónia ligou pela primeira vez Lisboa ao Carregado, a primeira linha de Caminho-de-ferro nacional. [3]

Largo dos Caminhos de Ferro [Início do séc. XX]
Ao fundo, a Estação de Santa Apolónia; ardinas
Paulo Guedes, in AML

Bibliografia
[1] (CASTILHO, Júlio de, A Ribeira de Lisboa, p. 123, 1893)
[2(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, p. 17)
[3] (cm-lisboa.pt)

domingo, 16 de abril de 2017

Torre da Pólvora: Palácio da Cova da Moura

Como já preconizava Norberto de Araújo, em 1938, nas suas Peregrinações «a Rua da Tôrre da Pólvora que tende a desaparecer, pela urbanização que já nela começou no seu comêço, esteve ligada às tradições polvoreiras de Alcântara».[1] De facto, esta antiga artéria seria extinta e, mais tarde, integrada na novíssima Avenida Infante  Santo, cujo topónimo viria a ser atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Tôrre da Pólvora. 


Espreitemos a Rua da Tôrre da Pólvora - prossegue Norberto de Araújo -, urbanizada e rectificada no seu troço inicial, sob a Pampulha, há dois anos [1936]. Na parte antiga vemos, à esquerda, uns casebres decrépitos, e os restos de fornos de cal, pois muitos por aqui houve. O sítio foi chamado, no século XVI, «Lapa da Moura», em virtude da existência de uma lapa entre as pedreiras que afloram ainda na raíz das construções. De Lapa da Moura se passou a Cova da Moura, nome que esta área entre Alcântara e Pampulha ainda mantém.
A designação de Tôrre da Pólvora nesta serventia nasce da circunstância de, no fundo da rua, ter sido construída, de 1670 a 1696, uma torre, depósito ou paiol de pólvora defendida per seu guarda fogo, num recinto relativamente largo.

Panorâmica sobre a zona da Pampulha e a antiga Rua da Torre da Pólvora {c. 1940]
 O topónimo Avenida Infante Santo foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Tôrre da Pólvora
Eduardo Portugal, in AML
Legenda:
1 - Palácio da Cova da Moura - Prémio Valmor, 1921, (Restauro), arq,º Tertuliano Marques   2 - Rua da Torre da Pólvora (extinta e integrada na Av. Infante Santo)   3 - Rua da Cova da Moura   4 - Hospital da    CUF Infante Santo (Tv. do Castro)   5 - Prédio, de 1938, «ao estilo moderno e desafogado» referido por Norberto de Araújo nas suas «Peregrinações em   Lisboa»   6 - Dispensário de Alcântara, sito na Rua Tenente Valadim, edifício de relevância histórica, foi mandado erigir por iniciativa da Rainha Dona Amélia. Inaugurado em 1893   7 - Rua do Sacramento a Alcântara

O casarão foi depois presídio (1843), já há muito o depósito de pólvora havia desaparecido do local. Mais tarde, nas casas anexas reconstruidas e ampliadas, instalou-se o regimento de Infantaria n.° 7; ainda depois, em 1899, vários serviços de Administração Militar, e em 1928 uma Companhia de Trem Hipomóvel. É êste o bairrista quartel da Cova da Moura. (...)

Abertura da Avenida Infante Santo (Viaduto da Pampulha) {c. 1949]
Ao fundo o Palácio da Cova da Moura (jardins)
O topónimo Avenida Infante Santo foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Tôrre da Pólvora

Judah Benoliel, in AML

Ora tornemos ao comêço da Rua. Êste palacete, do estilo de D. João V, à esquina da Cova da Moura, por onde tem a entrada principal, é do século passado [séc XIX]; pertencia ao Dr. João Ulrich, e foi adquirido pelo Ministério da Guerra em Agôsto de 1935, para sede do Conselho Superior de Defesa Nacional e do Conselho Superior do Exército. Como contraste, olha-me éste prédio, de 1938, ao estilo moderno e desafogado, e êsse outro, em gaveto, estreito como uma cunha, entre as Rua e Travessa da Cova da Moura, do século passado. O urbanismo em Lisboa tem muito dêste desequilíbrio estético.[2]

Palácio da Cova da Moura {ant. 1950]
Avenida Infante Santo
O topónimo Avenida Infante Santo foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Tôrre da Pólvora
Autor desconhecido

Em 1921, o Prémio Valmor foi o restauro do Palácio (setecentista) da Cova da Moura sito na Rua Cova da Moura; Avenida Infante Santo,; Travessa do Castro, projectado por Tertuliano Marques (1883-1942) e pertencente a João Ulrich. Até à data tinha sido o único caso de atribuição do prémio a um restauro, considerado significativo “por se desenvolver dentro de uma arquitectura tradicionalista portuguesa das mais belas”.
Apesar de ainda existir, foi profundamente modificado e acrescentado em 1950 e adaptado para ali funcionar uma dependência do Ministério da Defesa. [cm-lisboa.pt]

Bibliografia
[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 56)
[2] (idem, vol. IX, p. 13)

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Teatro República, ex—Dona Amélia e futuro São Luiz

O Teatro S. Luiz tem mais história. Foi edificado em 1893 por iniciativa de Guilherme da Silveira, em terrenos cedidos pela Casa de Bragança. Era então o Teatro de D. Amélia. O risco do Teatro de D. Amélia foi de Luiz Ernesto Reynaud, com decorações de Manini e Rossi.


Fundado por Guilherme da Silveira, Celestino da Silva, António Ramos e Visconde de São Luíz de Braga, inaugurou-se em 22 de Maio de 1894 — com a presença do Rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia —, o Teatro D.Amélia. Foi apresentada a opereta de Offenbach «A Filha do Tambor-Mor», com uma sala completamente cheia. Posteriormente as maiores figuras da cena mundial, como Sarah Bernhardt Eleanora Duse, pisaram o seu palco e, com maior frequência, os inesquecíveis João e Augusto Rosa, Eduardo Brasão, Ângela Pinto e tantos outros. 

Teatro República, ex—D. Amélia e futuro São Luiz [entre 1903 e 1908]
Rua António Maria Cardoso, antiga do Tesouro Velho (até 1890); 
do lado direito, o (novo) Chafariz do Loreto
Fotógrafo não identificado,in GEH

Em 1911 o teatro alterou o seu nome para «República» e, três anos mais tarde, de 13 para 14 de Setembro de 1914, ardia totalmente. Apenas foi poupada parte do «Jard«im de Inverno», onde António Ramos e o Visconde de São Luís de Braga (então únicos interessados no teatro) haviam organizado uma brilhante tertúlia literária e teatral. Contudo, graças ao entusiasmo e dedicação dos seus proprietários, o grande edifício foi reconstruído e reabriu as suas portas em 16 de Janeiro de 1916 com a peça «Os Postiços», de Eduardo Schwalbach, interpretada por Augusto Rosa, Chaby, Eduardo Brasão, Ângela Pinto e Lucinda Simões.

Jardim de Inverno do Teatro São Luiz [1928]
Rua António Maria Cardoso, antiga do Tesouro Velho (até 1890); 
Fotógrafo não identificadoin Arquivo do Jornal O Século

Companhia teatral à porta do Teatro Dona Amélia,
actual Teatro Municipal de São Luis [ca. 1910]

Rua António Maria Cardoso

Joshua Benoliel, in AML
 Até à morte do Visconde de São Luiz de Braga, a actividade teatral foi predominante e intensa, dando lugar, depois, à opereta, sob a direcção de Armando de Vasconcelos. 
Em 7 de Abril de 1928, nova e profunda alteração sofreu o mais elegante dos teatros de Lisboa, para permitir a introdução nas suas salas do espectáculo mais em voga, da novidade desse tempo: o cinema. Depois de algumas remodelações na decoração e estruturas e no nome (passou nessa data a chamar-se «São Luiz», em homenagem ao Visconde de São Luís de Braga) estreou-se o filme «Metropolis», de Fritz Lang, dos mais caros produzidos na época: cerca de 40 mil contos.


Chegada ao Teatro de São Luiz [s.d.]
Rua António Maria Cardoso
Mário Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.
A partir de 1934 assumiu a direcção do «São Luiz» João Ortigão Ramos, que iniciou uma nova actividade a que associou o seu cinema — a da produção de filmes, que viria a dar origem à Tobis Portuguesa. Todavia, o teatro regressou à acolhedora sala do Chiado, quer através dos festivais de Teatro Francês, quer pela apresentação de peças como «Um Eléctrico Chamado Desejo», de Tennessee Williams, pela Companhia do Teatro Nacional, ou «António, o Marinheiro», de Bernardo Santareno, com Eunice Muñoz, ou ainda com o desconhecido «Teatro Nô», trazido pela Fundação Gulbenkian. 



Simultâneamente, eram organizados concertos com grandes orquestras e solistas nacionais e estrangeiros.
Adquirido pelo Município de Lisboa, em 6 de Maio de 1971, o «São Luiz» passou a ser o primeiro teatro Municipal de Lisboa, satisfazendo os anseios expressos de numerosas camadas da sua população. 

Teatro Municipal de São Luís, sala de espectáculo [ca. 1955]
Rua António Maria Cardoso

Armando Serôdio, in Arquivo Municipal de Lisboa

No tempo do Visconde de S. Luiz de Braga o «foyer» dêste Teatro — recorda Norberto de Araújo — constituía uma tertúlia de artistas e escritores, o «cercle» literário de Lisboa; a tradição intelectual perdeu-se, ou sumiu-se. É, porém, ainda hoje [1939] um Salão de elite — tornado «Cinema S. Luiz». Sim; aqui, em referência à arte nobre do teatro, pode dizer-se: «tout passe...».

Foyer do antigo teatro Dona Amélia, depois, teatro Municipal de São Luís [ca. 1910]
Jantar de homenagem a Leal da Câmara
Rua António Maria Cardoso

Joshua Benoliel, in Arquivo Municipal de Lisboa

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 13[1939])
(Revista municipal Lisboa, pp. 61-62, 1971)

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Monumento(s) a Sousa Martins

Eis-nos,  Dilecto, de novo na rua. Já agora contempla a estátua do professor e notável homem de letras, Dr. Sousa Martins, grande figura moral e cientifica de português. Êste monumento foi inaugurado em 1907, e é obra de Costa Mota. Antes, nêste lugar, havia sido elevado um outro, da autoria do escultor Aleixo Queirós Ribeiro, e que não resistiu às criticas demolidoras, acabando por ser apeado.


Em 1895, quatro anos depois de ter sido demolida a praça de touros, o planalto de Sant'Ana foi transformado num jardim, que se estende num hexágono irregular, entre o Largo do Mitelo e o Torel. Num dos extremos da praça, frente ao imponente edifício da antiga Escola Médico-Cirúrgica ergue-se o Monumento a Sousa Martins, de Costa Mota, tio, de 1907, na base do qual uma figura feminina, qual juventude estudiosa, como que escuta a lição do mestre. 

Primitivo Monumento a Sousa Martins concebido pelo escultor Aleixo Queirós Ribeiro [1907]
Campo os Mártires da Pátria, antigo Campo do Curral (séc. XVI); em segundo plano a antiga
Escola Médico-Cirúrgica em construção
Artur Bárcia , in AML

 
 Primitivo Monumento a Sousa Martins concebido pelo escultor Aleixo Queirós Ribeiro [1907]
Campo os Mártires da Pátria, antigo Campo do Curral (séc. XVI)
Machado & Souza, in AML
(clicar para ampliar)



Esta obra veio substituir o primitivo monumento concebido pelo escultor Aleixo Queirós Ribeiro, muito criticado por representar o notável homem de letra sentado numa vulgar cadeira.
José Tomás de Sousa Martins (1843-1897), foi um distinto médico, cientista, investigador, professor e escritor da segunda metade do séc. XIX. A sua atitude humanista de não receber honorários dos mais desfavorecidos valeu-lhe o epíteto de «Pai dos Pobres», a ponto de ter sido alvo de verdadeiro culto popular, após o seu desaparecimento, culto esse, que ainda hoje se mantém.

Construção do Monumento a Sousa Martins concebido pelo escultor Costa Mota (tio) [c. 1907]
Campo os Mártires da Pátria, antigo Campo do Curral (séc. XVI)
Artur Bárcia , in AML
Monumento a Sousa Martins concebido pelo escultor Costa Mota (tio) [post. 1907]
Campo os Mártires da Pátria, antigo Campo do Curral (séc. XVI)
Chaves Cruz, in AML

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 34)

domingo, 9 de abril de 2017

Rua de São João da Praça, antigo Largo do Marquês de Angeja

Encontramo-nos no sítio que foi domínio do Marquês de Angeja —  diz Norberto de Araújo —, precisamente na antiga Rua do Tem-te-lâ, assim chamada até ao Terramoto, hoje prolongamento de S. João da Praça. Êste pequeno largo natural foi até há pouco o Largo Marquês de Angeja, defronte do Beco da mesma designação, ainda subsistente. A clarabóia ao centro dêsse pequeno largo dá para uma das areas ou nascentes do Chafariz de El-Rei, dependente hoje da Companhia das Águas.

Rua de São João da Praça [1944]
Antigo Largo do Marquês de Angeja
Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia 

(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 41)
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