sábado, 18 de fevereiro de 2017

A Feira de Agosto no Parque Eduardo Vll

Noutros tempos, quando havia comício ou festa — a feira d'Agosto, encantos meus! —, as poucas árvores ramalhudas, centenárias (que é feito delas?) ficavam pretas de garotos como pardalada. E havia picnics pelas raras sombras.


Nos terrenos do que seria o Parque Eduardo VII, assim denominado após a visita do monarca inglês em 1903«um belo espaço da natureza, com altos e baixos, velhas árvores, arbustos, ervaçal e mato», realizava-se, em Agosto, uma Feira. Raul Proença mostra-nos o parque, «ainda em construção, já com alguns lindos lagos», que embora «poucas curiosidades» ofereça, constitui «um cantinho de natureza luxuriante e pródiga». 

Fotografia aérea sobre o Parque Eduardo VII [ca. 1934]
Feira de Agosto
Av. da Fontes Pereira de Melo; Praça do Marquês de Pombal: Rua Castilho; Av. António Augusto de Aguiar
Pinheiro Corrêa, in Arquivo Municipal Lisboa

Era, para Aquilino, ainda antes de ser baptizado de Eduardo VII, esse «belo espaço da natureza», para onde ia sempre que lhe apetecia «um mimo rural». Datam de 1887 os primeiros projectos para o parque, então designado por Parque da Liberdade, sendo o Engenheiro Ressano Garcia o responsável pela proposta de abertura do concurso internacional, do qual sai aprovado o projecto do arquitecto paisagista Henri Lusseau.

Feira de Agosto, entrada  [Início séc. XX]
Praça do Marquês de Pombal Avenida da Fontes Pereira de Melo (Palacete Sabrosa)
Alexandre Cunhain Arquivo Municipal Lisboa

Feira de Agosto  [1911]
Praça do Marquês de Pombal Avenida da Fontes Pereira de Melo (Palacete Sabrosa)
Artur Benarusin Arquivo Municipal Lisboa

Feira de Agosto  [1911]
Praça do Marquês de Pombal Avenida da Fontes Pereira de Melo (Palacete Sabrosa)
Artur Benarusin Arquivo Municipal Lisboa

A vida alfacinha — relembra-nos Norberto de Araújo —, ingénua e pitoresca, essa teve no Parque um pouco de desafôgo, com a episódica «Feira de Agôsto», que funcionava quando se proclamou a República; nela existiram os teatrinhos «Maria Vitória» e «Júlia Mendes» — nomes de duas actrizes populares, de mal fadado destino —, e se manteve a tradição das barracas das farturas e da Maria Botas, que vinham das velhas feiras de Belém e de Alcântara. Também a «estampa antiga» do sítio do Parque foi Parque foi desfigurada com o desaparecimento da «Torrinha», uma curiosa vivenda octogonal (Quinta da Torrinha, que deu nome à Estrada), situada um pouco acima do actual lago, e demolida em Abril de 1916.

Feira de Agosto, entrada [1910]
Teatro Júlia Mendes

Joshua Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa

Feira de Agosto, entrada  [entre 1901 e 1910]
À esquerda a «vivenda octogonal» da Quinta da Torrinha
Autor desconhecidoin Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia
MIGUÉIS, José Rodrigues. «Da Mania das Grandezas», in As Harmonias do Canelão
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV
JANEIRO, Maria João, Lisboa: histórias e memórias, 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Igreja de São Francisco de Paula

E chegámos à Igreja conventual de São Francisco de Paula, agora considerada, no seu todo, monumento nacional. Foi aqui o convento dos Religiosos Mínimos de S. Francisco de Paula, fundado em 1719 por Fr. Ascenso Vaquero, um leigo andaluz, e engrandecido. em 1753, por assistência de D. Mariana Vitória, Rainha, mulher de D. José I, cuja igreja quási totalmente se lhe deve. O Terramoto em pouco ou nada danificou Convento e templo. Quando da extinção das Ordens já os frades minimos aqui não estavam desde 24 de Julho do ano anterior; a igreja não foi profanada, mas a casa conventual, nova quási em fôlha, foi vendida a particulares.
A fachada de S. francisco de Paula, como vês, tem elegância e certa imponência decorativa; é obra do arquitecto Inácio Oliveira Bernardes, sendo as formosas tôrres devidas a Diogo Azzolini. Duas portas laterais conduzem por uma escada dupla, coberta e já integrada no edificio, até ao adro no qual se abre a porta da igreja; nos patins superiores da escadaria há dois nichos por banda, vasios, coroados por ática.

Igreja de São Francisco de Paula [c. 1860]
Rua Presidente Arriaga
Amédée de Lemaire-Ternante, in CPF

O interior, forrado de ricos materiais, contém o túmulo da rainha, mulher de Dom José. O túmulo da rainha Dona Mariana Vitória, esculpido por Machado de Castro e existente na igreja, está classificado como Monumento Nacional.

Túmulo da rainha Dona Mariana Vitória

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII pp. 57-58)
(monumentos.pt)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Nova Companhia Nacional de Moagem

Teve eco na imprensa a inauguração de uma nova fábrica destinada à produção de todos os tipos de bolachas, biscoitos e massas alimentícias os quais «até aqui havia necessidade de importar». Pertencente à Nova Companhia Nacional de Moagem a nova Fábrica de Bolachas e Massas Alimentícias localizava-se, na Avenida 24 de Julho (antes Rua 24 de Julho e antes Aterro da Bôa Vista) e a sua construção esteve a cargo do construtor civil Zacarias Gomes de Lima.


Na cerimónia de inauguração, em 20 de ]unho de 1910, estiveram presentes o chefe de Estado, El-Rei D. Manuel, vários ministros, a imprensa, representantes das principais colectividades industriais, comerciais e agrícolas do País, e representantes de todas as classes sociais e do alto funcionalismo.

Edifício da Fábrica de Bolachas e Massas Alimentícias da Nova Companhia Nacional de Moagem [c. 1910]
Avenida 24 de Quatro do Julho, entre a Rocha do Conde de Óbidos e a Avenida Infante Santo
Joshua Benoliel, in AML

A Nova Companhia Nacional de Moagem, de acordo com a revista O Occidente — o primeiro estabelecimento fabril do País em 1910 — agrupava um conjunto de dezassete fábricas, de «capital social e nacional de 4 914 9005000 de réis» Esta revista considerou a abertura da nova fábrica uma grande manifestação de iniciativa particular, em benefício do progresso e da riqueza pública em Portugal, um «acontecimento de maior importância como tudo quanto é grande e belo, onde o capitalismo e a inteligência se completam realizando o verdadeiro progresso que resulta desta feliz combinação»

Edifício da Fábrica de Moagem da Nova Companhia Nacional de Moagem [1910]
Avenida 24 de Quatro do Julho, entre a Avenida Infante Santo e a  Rocha do Conde de Óbidos
in O Occidente

A Nova Companhia Nacional de Moagem detinha o oitavo lugar (em capital) no complexo comercial e industrial da metrópole em 1910, e o quinto lugar sete anos mais tarde. Com a implantação da República, esta companhia estará na origem da criação, em 1919, do poderoso cartel da Companhia Industrial de Portugal e Colónias.

Enquadramento dos edifícios da Fábrica de Moagem (1) e da Fábrica de Bolachas e Massas Alimentícias (2) da Nova Companhia Nacional de Moagem [1934]
Avenida 24 de Quatro do Julho; ao centro, entre as duas fábricas, vislumbra-se a Igreja São Francisco de Paula
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
 Legenda no arquivo: «A esquadra inglesa, à sua chegada a Lisboa»


Bibliografia
(O Século, 18 de Junho de 1910)
(O Occidente, 30 de Julho de 1910)

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Os primeiros táxis Palhinhas

Mais tarde, em 1925, cerca de 50 condutores associam-se, formando uma nova Companhia; foram os táxis Palhinhas.


Teria sido por 1907 que surgiram nas ruas de Lisboa os primeiros automóveis de aluguer, transformados em chauffeurs os cocheiros das tipóias. O preço era como nestas, à corrida, ainda não havia os aparelhos de taxímetro que só apareceram por 1910. Todavia, com a Primeira Guerra, faltou a gasolina e os automóveis recolheram, voltando as tipóias à rua. Embora a guerra acabasse em 1918, dificilmente se restabeleceu o fornecimento de combustíveis, uma vez que viriam nos navios-tanques que pouco a pouco foram construindo, a navegação a recuperar-se das enormes perdas ocasionadas pelos submarinos alemães. Só por volta de 1925, devido à iniciativa dum grupo de motoristas, se criou, em Lisboa, a Cooperativa Lisbonense de Chauffeurs que lançou na praça os célebres ‹‹Palhinhas››, que foram, na altura, um autêntico êxito, disputando-se os carros em plena rua. 
António Domingues dos Santos, motorista do Diário de Notícias, ao serviço de Augusto de Castro e Eduardo Schwalbach, foi um dos impulsionadores da cooperativa. 

Os primeiros onze táxis «palhinhas» que apareceram em Lisboa [1933 1925]
Rua de O Século; Palácio dos Viscondes de Lançada, edifício-sede do jornal O Seculo
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Começaram o negócio com onze carros, bandeirada a 1$00, mas a procura era tal e o resultado tão positivo que bem depressa o seu número subiu para uma centena. Eram todos eles de marca «Citroen» e tiveram inicialmente a sua praça no tabuleiro de baixo da estação do Rossio. Ainda hoje [em 1974] há aí, encostado ao Café Restauração, uma praça desses táxis devidamente assinalada por uma tabuleta. Eu gosto de olhar para ela, sabe a senhora? É o passado a meter-se no presente!.
A Cooperativa Lisbonense de Chauffeurs foi adquirida pela Companhia de Viação Sernache em 1976 e, mais tarde, foi integrada na Rodoviária Nacional.

Bibliografia
CALDERON, Dinis, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1900-1974, p. 128, 1986
CAPITÃO, Maria Amélia da Motta, Subsídios para a história dos transportes terrestres em Lisboa no século XIX, pp. 118-119, 1974

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Estação da Parceria dos Vapores Lisbonenses

A Estação da Parceria dos Vapores Lisbonenses — ainda rudimentar, deve dizer-se — data neste sitio de 1904 e substitue uma primitiva ponte, com seu barracão, e cujos restos ainda ali vês, cem metros a nascente, junto ao terreno marginal das «carreiras» do antigo Arsenal de Marinha.

 

Ponte de acesso à Estação da Parceria dos Vapores Lisbonenses  [1912]
Cais do Sodré
Joshua Benoliel, in AML

Era, então, o Cais do Sodré uma pequena praça à beira-Tejo, na qual se situava a Parceria dos Vapores Lisbonenses, de onde partiam os vapores para Cascais e para a outra banda. Aqui encontramos Ramalho Ortigão e Trindade Coelho. O primeiro, junto à ponte dos vapores, acaba de adquirir um bilhete de ida e volta no vapor de Cascais. Setenta minutos dura a viagem e custa dez tostões. «Embarcamos (...) Magnífico espectáculo. Diante de nós estende-se em toda a sua majestade, como um pequeno Mediterrâneo, o belo Tejo, que cintila sob a bruma aquática como um peito de aço coberto por um véu de gaze, batido pelo largo sol».  

Estação da Parceria dos Vapores Lisbonenses  [Início séc. XX]
Cais do Sodré
Estúdio Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.

O primeiro «vapor lisbonense», o Alcântara, foi construído em 1860, nos estaleiros de Hugh Parry situados em Alcântara e destinou-se à nova carreira fluvial entre o Cais do Sodré e Pedrouçoscom escalas em Alcântara e Belém, que seria inaugurada em Janeiro de 1861. Era propriedade de Frederico Guilherme Burnay que, em 1899, juntamente com Hersen, funda a «Parceria dos Vapores Lisbonenses».

Enquadramento da  Estação da Parceria dos Vapores Lisbonenses  [1950]
Cais do Sodré; Jardim Roque Gameiro
Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 41, 1939)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Elegâncias de Antigamente

   Uma das coisas que em Lisboa mais surpreiiende as senhoras da província é o costume das lisboetas. se ficarem olhando umas ás outras, quando se encontram na rua. Ás vezes, frequentes vezes, acontece que os olhos da que sóbe a calçada e os da que vai descendo se encontram n'um duello de critica, um momento depois de terem passado uma pela outra: surprehendem-se ambas a olhar para traz, e a sorrir!

Avenida da Liberdade [1912]
[Praça dos Restauradores]

Joshua Benoliel, in AML

   Sorrir de quê? De tudo, de nada, do chapeu, porque não parece ser de bom gosto, da capa, porque passou da moda; dos saltos das botinas, porque estão gastos de um lado.
   Acontece tambem que, n'este caso, nem só os olhos commentam; ouvem-se ás vezes risinhos, e até palavras, uma galhofa descarada.
   De modo que uma senhora é forçada a saber a opinião que a seu respeito, a respeito do seu physico e da sua toilette, formam as outras senhoras.

Praça Dom João da Câmara [1912]
[Estação do Rossio; Hotel Avenida Palace; Praça dos Restauradores]

Joshua Benoliel, in AML

   D'este mau passo só pode salvar-se com um grande desdém ou com uma replica prompta. Mas os nervos femininos não se resignam facilmente ao desdem, e daqui resulta que a replica, mais ou menos prompta e feliz, é inevitavel.
   Conta-se que passando no Chiado certa dama, que havia sido formosissirna, ouvira dizer a outra:
 — Está um caco!
Ao que ella, voltando-se, respondeu de prompto:
 — Um caco... mas de Sévres!
(PIMENTEL, Alberto, Vida De Lisboa, pp. 16-17, 1900)

A Festa da Flor no Jardim da Estrela  [1918]
Joshua Benoliel, in AML

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Lis-Hotel, antiga Pensão Tivoli

Já agora olha êste prédio pequeno, contíguo pelo Sul, ao [cinema] Tivoli; é um «Prémio Valmor» de 1927, arquitecto Norte Júnior. O Hotel Tivoli, no n.° 179 180, de linhas modernas, também do risco de Norte Júnior, data de 1922, e foi fundado por José Francisco Cardoso e Dr. Joaquim Gonçalves Machaz.  


Mandado edificar, a partir de 1922, com projecto do arq. Manuel Joaquim Norte Júnior, foi-lhe atribuído o Prémio Valmor de 1927. As qualidades que mais impressionaram o júri «[...] foram as condições do conjunto e do remate desse mimo arquitectónico, expresso pela sua fachada [...].» . A sua traça original viria a ser alterada na década de 30 do séc. XX, com a introdução de mais dois andares. Incluído na Zona da Avenida da Liberdade que se encontra Em Vias de Classificação, este imóvel traduz uma arquitectura civil comercial ecléctica, tendo sido ocupado inicialmente pela Pensão Tivoli e depois pelo Lis-Hotel.

Lis-Hotel, antiga Pensão Tivoli [post. 1927]
Prémio Valmor de 1927
Avenida da Liberdade, 180 
António Passaporte(?), in Arquivo Municipal Lisboa

Actualmente resta apenas a fachada, integrada no Hotel NH Liberdade. Fachada essa, de estrutura marcadamente vertical, dividida em dois corpos, um rematado por frontão triangular com pináculos nos acrotérios e o outro rematado por platibanda em balaustrada. Evidencia-se o tratamento das cantarias, nomeadamente no remate da porta principal com ática triangular interrompida por composição escultórica de festões e medalhão central, assim como nos apontamentos em estuque como festões, dentados ou óvulos, sobretudo a inscrever os vãos, patentes em todo o pano murário.

Lis-Hotel, antiga Pensão Tivoli [ca. 1952]
Prémio Valmor de 1927
Avenida da Liberdade, 180 

Gustavo de Matos Sequeira, in Arquivo Municipal Lisboa


Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, 1939
cm-lisboa.pt

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

1 de Fevereiro de 1908: Os Três Tiros que Abalaram a Monarquia

O Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, ocorrido no Terreiro do Paço, marcou profundamente a História de Portugal, resultando deste atentado a morte do Rei D. Carlos e do Príncipe Real D. Luís Filipe. O atentado foi uma consequência do clima de crescente tensão que perturbava o panorama político português. O Rei, a Rainha e o Príncipe Real encontravam-se então em Vila Viçosa, no Alentejo, onde costumavam passar uma temporada de caça no inverno. O infante D. Manuel, futuro Rei, havia regressado dias antes, por causa dos seus estudos como aspirante na marinha.
Os acontecimentos acima descritos levaram D. Carlos a antecipar o regresso a Lisboa, tomando o comboio, na estação de Vila Viçosa, na manhã do dia 1 de Fevereiro. Durante o caminho, o comboio sofre um ligeiro descarrilamento junto ao nó ferroviário de Casa Branca, provocando um atraso de quase uma hora. A comitiva régia chegou ao Barreiro ao final da tarde, onde tomou o vapor “D. Luís”, com destino ao Terreiro do Paço, onde desembarcaram, na Estação Fluvial Sul e Sueste, por volta das 5 horas da tarde, onde eram esperados por vários membros do governo, incluindo João Franco, além dos infantes D. Manuel e D. Afonso, o irmão do rei.

Fotografia do Terreiro do Paço, com indicações manuscritas:"Buiça, Costa, Nunes. Polícia nas arcadas".
A seta vermelha assinala o local do atentado
Carvalhão Duarte/ Rocha Martins/ Fundação Mário Soares

Apesar do clima de grande tensão, o monarca optou por seguir em carruagem aberta, numa tentativa de demonstrar normalidade. A escolta resumia-se aos batedores protocolares e a um oficial a cavalo, Francisco Figueira Freire, ao lado da carruagem do rei. Quando se deu o atentado, encontravam-se poucas pessoas no Terreiro do Paço. Quando a carruagem real estava perto da curva para a entrada da Rua do Arsenal, "um homem de barba preta [Manuel Buiça] com um grande gabão", vindo pela retaguarda e afastando as abas do capote, agarrou na carabina que transportava (Winchester, modelo 1907), apontou e descarregou o primeiro tiro, que acertou no pescoço de D. Carlos, matando-o. Apontou e descarregou de novo, atingindo desta feita o rei no ombro.

Terreiro do Paço [191-]
Ao fundo, a antiga Estação Sul e Sueste onde atracou o barco que transportava a família real regressada de Vila Viçosa; a seta vermelha assinala o local do atentado
Joshua Benoliel, in AML

Enquanto isto, vindo das arcadas, Alfredo Costa, armado com uma pistola Browning FN, calibre 7,65, avança para a carruagem real. Subindo para o estribo, dispara quase à queima-roupa sobre o rei. D. Luís Filipe levanta-se, de revólver em punho, mas antes de poder disparar, Costa atinge-o no peito. A rainha, de pé, agita um ramo de flores, gritando "infames, infames!". Seguiu-se a confusão, com a polícia à espadeirada e a disparar em todas as direcções. D. Manuel diria mais tarde: "começou uma perfeita fuzilada, como n'uma batida às feras!". Ambos os regicidas cairam mortos. Eram cinco e meia da tarde.

A rainha, de pé, agita um ramo de flores, gritando "infames, infames!"

A carruagem seguiu, a toda a velocidade, para o Arsenal da Marinha, onde o rei já entrou morto e o príncipe herdeiro agonizante, falecendo pouco depois. O Infante D. Manuel também estava ferido num braço, sem gravidade.
Ao anoitecer, o Infante D. Manuel é coroado Rei de Portugal, que, devido à crescente instabilidade social e à sua inexperiência para liderar, será o último Monarca do País. A Europa ficou revoltada com este bárbaro atentado, uma vez que D. Carlos era estimado pelos restantes Chefes de Estado europeus, e ainda mais pelo facto de não se ter tratado de um acto isolado, mas sim de uma organização metódica. Jornais de todo o mundo publicam imagens do atentado, baseadas nas descrições, com elementos mais ou menos fantasiosos, mas sendo sempre presente a imagem de Dª Amélia, de pé, indiferente ao perigo, fustigando os assassinos com um frágil ramo de flores. Em Londres, os jornais exibiam fotos das campas dos assassinos, cobertas de flores, com a legenda “Lisbon’s shame!” (A Vergonha de Lisboa).


Alfredo Costa
Fotógrafo: António Novais
in AML
Manuel Buiça
Fotógrafo: Alberto Carlos Lima
in AML





Os regicidas: Manuel Buiça (esq.) e Alfredo Costa (dir.), 1908











Nota: pode assistir a um pequeno filme sobre o Regicídio aqui.
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