sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Largo da Boa Hora

Aqui temos o Largo da Boa Hora — diz Norberto de Araújo —, com seu sinistro casarão do Tribunal, o repulsivo Tribunal da Comarca de Lisboa, actualmente em obras, mas que continuará. a ser, mesmo asseado e limpo, um aleijão, simulacro ridículo de um vago Palácio da Justiça — que, parece, nunca veremos de pé.

Largo da Boa-Hora [1968]
Tribunal da Boa-Hora
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Neste sítio existiu, até ao Terramoto, o Convento dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho, construído em 1633 com esmolas do povo, mas de seu começo ocupado pelos irlandeses dominicanos que nele habitaram até 1668, entrando depois o Convento na posse dos Congregados do Oratório de Felipe Nery, que nele permaneceram até 1674. Neste ano entraram os citados agostinhos, e só então o Convento passou a ser de N. Senhora da Boa Hora, datando dessa época (1677) a segunda Igreja, de que foram padroeiros os vizinhos Senhores de Barbacena, cujo grande palácio assentava nas cercanias do Convento. Em 1755 a casa dos frades da Boa Hora ruiu, assim como a casa nobre dos Barbacenas; o Convento reedificou-se.

Largo da Boa-Hora [965]
Tribunal da Boa-Hora; Rua Nova do Almada
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
 
Em 1834, pela Extinção das Ordens, logo se estabeleceram no edifício os tribunais da comarca e seus cartórios, com calabouços anexos — e que calabouços!

Tribunal da Boa-Hora, claustro [1907]
Largo da Boa-Hora
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente


Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 32, 1939. 

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Quiosque da Praça do Príncipe Real

Os quiosques que embelezam Lisboa a partir da segunda metade do século XIX tiveram a sua época áurea por volta de 1900. No Rossio, no Cais do Sodré, no Largo da Misericórdia, Príncipe Real, Alcântara, por esta Lisboa encontrávamos sempre um quiosque para nos vender uma caixa de fósforos ou tomar um jeropiga. 


Situavam-se em locais escolhidos, mais ou menos com a mesma fábrica arquitectónica. Tivera a iniciativa de implantar os ‹‹Kioscos››, nome com que foi requerida à Câmara Municipal, nesses tempos recuados de 1867, D. Tomás de Mello, espírito generoso, de ideias avançadas, boémio e literário, homem de teatro e até comerciante, justificando a sua proposta com o embelezamento das praças e ruas da cidade, ao mesmo tempo que seriam pequenos estabelecimentos de franca utilidade pública, como aliás já existiam nas grandes cidades da estranja! Foi aprovado o projecto dos ‹‹Kioscos››, designação depois aportuguesada, uma vez que se tornaria mais fácil para o vulgo, retirando-lhe, portanto, a sua origem oriental, lojas para a venda de tabaco e fósforos, água fresca e capilés, café e bagaço, jornais e revistas, determinando a Câmara que se estudasse o modelo e os locais onde deveriam fixar-se. 

Quiosque da Praça do Príncipe Real, nascente  [1908]
Antiga Praça do Rio de Janeiro, topónimo de 1859
Joshua Benoliel, iin Lisboa de Antigamente

As causas reais que levaram à demolição de muitos dos Quiosques que existiram em Lisboa são praticamente desconhecidas. Ou porque o seu estado de degradação a isso obrigasse sem que, no entanto, "merecessem" restauração, ou porque a modificação do traçado das ruas e avenidas e os melhoramentos dos passeios o tornasse imprescindível, o certo é que eles lá foram desaparecendo. E foram 45. O Quiosque da Praça do Príncipe Real, canto nascente, apresentava as seguintes características:

Estrutura
Base de madeira. Secção octogonal. Balcão de pedra suportado por pernas trabalhadas em madeira. Corpo alto com janelas a toda a volta. Cúpula metálica em forma de pirâmide com oito gomos, suportada por mísulas em madeira.

Particularidades
Particular. Muito frequentado. Apresentava uma taça em pedra para os utentes deitarem os restos das bebidas.

N.B.  Este quiosque (nascente) já aparece referenciado no Levantamento topográfico de Francisco Goullard em 1890 (vd. planta). No mesmo local foi levantado um outro que pode ser visto aqui.

Planta referente à praça do Príncipe Real [1890]
Inclui o estado da antiga Praça do Rio de Janeiro, em Novembro de 1890, e o quiosque em apreço assinalado a vermelho. 
Levantamento de Francisco Goullard, iin Lisboa de Antigamente

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo, 1986.
CAEIRO, Baltasar de Matos, Quiosques de Lisboa, 1951.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Profissões de antanho: o deita-gatos

Lisboa engraçava com estes modestos profissionais, de boina vasca e tipicamente vestidos de calça e blusa de ganga azul, chamando a atenção com o característico toque de gaita de beiços e lançando ao vento o seu cantante pregão: «Deita gatos em bacias e alguidares, amola tisoiras e navalhas, conserta chapéus de sol...» 


Significado da expresão deita-gatos segundo a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira:
DEITA-GATOS, s. m. Pop. Humilde artífice que conserta, por meio da apostura de gatos de arame, a louça de barro, chapéus de chuva, etc. São os deita-gatos, pelo geral, oriundos da Galiza e exercem a sua arte ambulantemente: «Havia, entre os maltezes, alguns que exerciam um pequeno comércio — os tendeiros — e outros que praticavam uma pequena indústria — os deita-gatos. Todos pediam esmola; mas os  tendeiros formavam, por assim dizer, a aristocracia da classe, e os deita-gatos constituíam urna espécie de burguesia média nessa sociedade mal diferenciada, Brito Camacho, Gente Rústica, p. 140 (1921). Relegado para os meios rurais ou subúrbios das cidades, o deita-gatos acumula, multas vezes, com a sua, a profissão de amolador. Nalgumas regiões do Alentejo (v. g. Portel) anunciam a sua presença por um tilintar de ferrinhos e o povo liga a éste anuncio a superstição de que ele indica que vai chover ou fazer mau tempo.

 Deita-gatos/amolador, junto ao Palácio do Marquês de Alegrete [s.d.]
Antiga Rua da Mouraria
Fotógrafo  não identificado, in Lisboa de Antigamente

A este propósito ouçamos o magnífico eco do maior poeta da língua portuguesa e um dos maiores da literatura universal — Fernando Pessoa, em “Ó rapaz que deita gatos”:,

Ó rapaz que deita gatos
Deitas gatos só em pratos,
Só em tachos e tigelas, 
Ou deitas gatos também
Nas almas e no que há nelas
Que as quebra em mal e em bem?

Ah, se, por qualquer magia,
As tuas artes subissem
Àquela melhor mestria
De pôr gatos que se vissem
Nesta alma que se quebrou
No que sonho e no que sou!

Então... Qual então! Que tratos
Dei a um poema que surgiu!
Só consertas, só pões gatos
No inteiro que se partiu.
O que partido nasceu
Nem tu consertas nem eu.
(Fernando Pessoa, 1933)

Um deita-gatos de Lisboa
"Typos das ruas". Edição A.Martins, postal circulado em 1904

Um Deita-gatos de Lisboa [s.d.]
in Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa"
 
Bibliografia
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol 8, p. 499, 1959.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Castelo de S. Jorge: Porta (ou Portão) do Espírito Santo

Queria começar a legenda deste jeito: 

«Era uma vez uma cidade de mouras e valis...». E era. 

Foi assim a Lisboa sarracena que sucedeu à dos godos depois que se afogou no Guadalete a estrela de D. Rodrigo. Lisboa era a Alcáçova, a Kssaba mourisca, ninho de águias que fora romano e godo — o Castelo de hoje.  [...]
E lá passa ainda, esgueirando-se, e bem se vê no seu albornoz alvadio, o derradeiro mouro, talvez o filho do vali, que logrou escapar-se ao primeiro dos cavaleiros cristãos, e há oitocentos anos, todas as noitinhas, espera que o vento lhe traga desde as almenaras africanas — a canção do almuadin.

E... «era uma vez uma cidade de mouras e valis...».


De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo, tem o Castelo de S. Jorge — monumento nacional (séc. X) — sete portas: uma servindo a freguesia civil, outra dando acesso do exterior do bairro do Castelo ao «Passeio», três ligando a freguesia civil ao recinto monumental, e duas abrindo da antiga «Praça Nova» para o «Passeio». [vd. planta esquemática]

Castelo de S. Jorge: Porta ou Portão, do Espírito Santo [1906]
Esta Rua das Cozinhas que nasce junto ao nº 37 da Rua do Espírito Santo é uma artéria que surgiu após o Terramoto e recorda as cozinhas do Paço de Alcáçova medieval.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A Porta ou Portão, do Espírito Santo, situa-se no topo da Rua deste nome, já na Rua das Cozinhas, de perfil ogival e arestas chanfradas, rematado o arco por esfera armilar de D. Manuel, e em cujos muros laterais se rasgam, de um lado onze seteiras, e do outro dezassete, vendo-se, embebida no muro exterior, do lado esquerdo, uma pedra de armas reais do tempo de D. Afonso III [a primordial construção é árabe]; esta porta, com portão de ferro, conduz à antiga «Praça Nova», terreiro a Nascente do Castelejo, e está normalmente fechada.

Castelo de S. Jorge: Porta ou Portão, do Espírito Santo [c. 1900]
Ao alto ostenta a esfera armilar de D. Manuel e, a esq., as armas 
portuguesas do tempo de D. Afonso III.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Nesta plana a parle central, a branco, corresponde a lodo o recinto do Monumento, incluindo as actuais explana­das, a antiga Cidadela ou Alcáçova, o Castelejo, marcado e traço grosso negro, a muralha circundante marcada a traço mais fino, e a zona do «Passeio», assinalado a verde. Siga-se o texto, referenciado por números e por letras e círculos azuis. 

— Porta de S. Jorge (A) [já falámos dela aqui]
— Porta de Santo André (B)
— Porta  do  Sul  (C)
— Porta ou Portão, do Espírito Santo (D)
— Portão de Santa Cruz (E) [aqui]
 — Porta do Norte (F)
 — Porta de Martim Moniz (G) [já falámos dela aqui]


Planta esquemática do Castelo de S. Jorge
A  Porta ou Portão, do Espírito Santo está assinalada a vermelho,
as outras seis portas, a azul, e o «Passeio» a verde
.
ARAÚJO, Norberto de, in Inventário de Lisboa

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 10-22, 1943.
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, 1944.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Rua da Adiça

Quem melhor do que o próprio Norberto de Araújo, para guiar os nossos passos pelo pitoresco de Alfama. Atentemos na descrição que faz desta Rua da Adiça que «vale um poema popular» e que hoje ostenta e imortaliza o seu nome.


Subamos a Adiça. Aí temos um dos mais contemplativos recantos da Alfama. Nunca mais, até chegarmos ao fim da jornada, deixaremos de ver roupas estendidas às janelas, num alarde de pobreza ou de mediania resignada, conforme se trate de um beco ou de uma rua, feita «avenida» de um sítio. Aqui o estendal conjuga-se no fundo velho, ao alto, do casarão do Limoeiro; hás-de anotar apontamentos de aguarela ou de água forte por toda esta Alfama, sem que eu vá precisando de te tocar no braço. [...]
A artéria, larga no seu princípio, sobe em ladeira, que a artéria, larga no seu princípio, sobe em ladeira, que agora entra em curva: o rapazio enxameia como zângãos fugidos do cortiço. Olha a alegria desses quintais velhos, floridos em muros a cair! [...]
Esta Adiça vale um poema popular.

Rua da Adiça [1946]
No cimo, à esquerda do prédio com o nº 68 [actual Calçada de São João da Praça], sobe a actual Rua Norberto de Araújo; à direita do mesmo, encontramos o Beco das Canas
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Para alguns historiadores "adiça" significa "mina" que por ali existiu aquando da tomada de Lisboa aos Mouros; outros referem que é vocábulo árabe, "Addica", nome de certa espécie de "junco" comestível para os cavalos e utilizável para a cordoaria.
O topónimo Rua da Adiça foi recuperado pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital datado de 22/06/1956. A Rua da Adiça passara a Calçada de S. João da Praça, por deliberação e edital da C.M.L., respectivamente de 10 e 19/04/1893. Por Edital de 22/06/1956, a Calçada de São João da Praça desde o seu início até aos n.ºs 51 e 68 (inclusive) voltou a denominar-se Rua da Adiça, passando o restante troço até ao Largo das Portas do Sol, a denominar-se Rua Norberto de Araújo.

Rua da Adiça [1945]
Ao cimo, a Calçada de São João da Praça
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 50, 1939.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Igreja de S. Tiago (Santiago)

Esta Igreja de S. Tiago é dada como muito antiga, e alguns escritores fazem-na remontar ao século XIII (1220); seguramente se sabe que foi erecta, se não reedificada, em tempos de D. Afonso IV. (...) 

Na Capela-Mor, onde se guarda o Santíssimo, tem, aos cantos do fundo, duas imagens sobre mísulas: a de S. Tiago Maior e a de S. Martinho, esta oriunda do desaparecido templo, defronte do Limoeiro.

 

Igreja de Santiago |c. 1900|
Rua de Santiago, Igreja; Travessa de Santa Luzia; Largo do Contador-Mor
Fotógrafo não identificado,, in Lisboa de Antigamente

Fundada no séc. XII, segundo alguns autores, e objecto de modificações entre os sécs. XVI e XVIII, foi quase totalmente reedificada, a partir de 1773, em virtude de danos causados pelo terramoto, aproveitando alguns elementos construtivos anteriores, nomeadamente o pórtico maneirista de acesso à capela de Nossa Senhora-a-Franca. 

Igreja de Santiago |1961|
Rua de Santiago, Igreja; Travessa de Santa Luzia; Largo do Contador-Mor
Perspectiva tirada do Miradouro de Santa Luzia
Arnaldo Madureira,, in Lisboa de Antigamente

Classificada como Imóvel de Interesse Público, apresenta fachada orientada a poente, de linhas simples, rasgada por portal emoldurado a cantaria, coroado por frontão triangular, cujo tímpano apresenta um baixo-relevo dos atributos de S. Tiago, orago do templo, e por janelão sobreposto, a qual surge rematada por frontão em arco contracurvado, decorado com aletas. Adossada ao lado direito ergue-se uma torre sineira, coroada por coruchéu.
No interior, de nave única, destacam-se a talha joanina, o património azulejar oitocentista e várias telas.

Igreja de Santiago |entre 1926 e 1936|
Rua de Santiago, Igreja; Travessa de Santa Luzia; Largo do Contador-Mor
António Passaporte (Colecção Loty), in Lisboa de Antigamente

A Capela de  Nossa Senhora A Franca, lateral, constituindo como que  uma  nave independente do lado da Epístola, mas fora do  corpo da  nave  da  igreja, e que  ocupa, em  comprimento, um  espaço igual ao desta; e  nela:
O grande altar, fronteiro ao arco da entrada, todo  guarnecido de  rica talha dourada, com exuberante ornamentação de colunas envolvidas de  estilização, nichos, sacrário e  coroação de anjos, tudo  em boa escultura de  madeira, vendo-se em camarim  de  fundo a  imagem de  Nossa Senhora A  Franca ou do  Rosário, e  em  nichos as de  Sant'Ana  e  S. Joaquim; guarnição de silhares de  azulejos representando, em cinco painéis, os  «Mistérios da  Virgem»; o tecto,  com  cúpula central oval, e  dois  tramos  laterais, redondos, em estuque; dois quadros a  óleo, representando cenas da Vida de  Nossa Senhora.

Igreja de Santiago, Capela de Nossa Senhora A Franca |c. 1955|
A capela de Nossa Senhora A Franca, cuja confraria dos Cerieiros remontava a
1576, é a dependência mais antiga do templo, mas não parece ser de construção 
quinhentista. A igreja beneficiou de restauros de conservação em 1838.
Fotógrafo não identificado, in Inventário de Lisboa

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, p. 61, 1938.
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, pp. 29-30, 1950.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Rua (do Arco) do Limoeiro

Chamou-se esta artéria em tempos não muito antigos "do Arco" por ter existido mais acima um arco ou passadiço que ligava o Paço de a-par-de S. Martinho [Cadeia do Limoeiro] à desaparecida paroquial desta invocação [de onde o nome Rua do Arco do Limoeiro, depois, do Limoeiro]; foi demolido precisamente há um século: 1838.


Mais uns passos, na rua. — prossegue Norberto de Araújo — defronte da casa da Guarda da Cadeia. nota essa varanda do prédio n.° 11, que assenta sôbre um singular balcão de pedra e em feitio de concha sem caneluras. É manifesto que êste suporte, de que não há espécime algum em Lisboa, veio de outro sitio para aqui; quem sabe se das derrocadas e transformações do Paço de a-par-de S. Martinho. 

Rua do Limoeiro [1941]
À esq. vê-se a
varanda do prédio n.° 11, a que mestre Araújo se refere — e que consta no arquivo da CML como pertencente ao Palácio Tentúgal — ideia que o olisipógrafo descarta; à dir, a antiga Casa da Guarda da Cadeia do Limoeiro actualmente ocupado pelo Centro de Estudos Judiciários.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

E, já agora, contempla-me esta árvore frondosa, de raízes ao sol, junto à Casa da Guarda do Limoeiro: trata-se de um exemplar, pouco vulgar, de Filotaica Dioica, e que, segundo botânicos qualificados, deve ter mais de duzentos anos. Há algumas espécies iguais no Campo de Sant'Ana, na Ajuda e em Queluz. Tem direito à nossa veneração. Chegámos à bifurcação de S. Tiago e Santa Luzia.¹

Rua do Limoeiro [1941]
Antes do alargamento da via; ao fundo, a árvore centenária
da espécie Phytolacca Dioica e que ainda hoje existe-
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 52-60, 1938.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Palácio dos Condes de Ferreira e de Tentúgal

Digo-te já que nestes sítios — recorda-nos Norberto de Araújo —, em várias épocas dos séculos XVI ao XVIII, esqueceram ou recompuseram seus palácios, com jardins ou pátios, muitos fidalgos e gente de qualidade. [...] Este palácio, o segundo à esquerda de quem sobe, de portal armoriado, n.° 9 da rua [de Santiago], com um único andar de sacadas nobres, foi dos Condes de Ferreira e de Tentúgal. No seu interior estiveram os interessantíssimos painéis de azulejo, que oferecem o panorama de Lisboa desde Ribamar a Xabregas, hoje no Museu de Arte Antiga às Janelas Verdes. [...]

O Palácio era em 1749 de D. Álvaro de Cadaval filho do 2.° Duque de Bragança de quem foi o depois 1.° Conde de Ferreira e de Tentúgal. Andou na posse dos herdeiros até 1681, e depois correu várias mãos, entre as quais as de Pereira Coutinho, vindo a parar, em 1920 à posse de D. Carolina Vicente Ribeiro e do sr. José Carvalho da Fonseca Júnior, actuais proprietários [em 1938].

Palácio dos Condes de Ferreira e de Tentúgal, portal armoriado [c. 1900]
Rua de Santiago, 9; ao fundo corre a velhinha Rua do Limoeiro.
José Artur Leitão Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Interiormente o Palácio Tentúgal [...] pouco oferece de interesse: tem pouco fundo, e nele um quintal inexpressivo; sobe-se para o pavimento, outrora nobre, por uma escada de pedra, que abre para um corredor ou galeria no qual se nota uma tríplice ordem de arcadas, de pilares simples. Os baixos têm arcos de sustentação, hoje entaipados, mas com a volta redonda à vista.

Palácio dos Condes de Ferreira e de Tentúgal, portal armoriado [c. 1940]
Rua de Santiago, 9 (2.º prédio à esq.); perspectiva tomada da Igreja de S. Tiago (Santiago), donde advém o topónimo. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 62-63, 1938.
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