Tuesday, 21 July 2015

O Arsenal de Marinha no Terreiro do Paço

Neste local foi mandado construir por D. Manuel I os chamados estaleiros da Ribeira das Naus, a ocidente do novo palácio real, sobre o local das tercenas medievais. O terramoto de 1755 destruiu esse importante complexo, tendo sido reconstruido em 1759 segundo projecto de Eugénio dos Santos. No início da segunda metade do séc XIX, o Arsenal da Marinha começa a adaptar-se à construção de navios de ferro movidos a vapor.

Fotografia aérea do Terreiro do Paçoo, destaca-se a antiga Doca Seca do Arsenal de Marinha e o Cais da Caldeirinha [entre 1930 e 1932] 
Manuel Barros Marques, in Lisboa de Antigamente
Doca seca do Arsenal de Marinha e a Caldeira (esq) [ant. 1900]
Chaves Cruz, in Lisboa de Antigamente

Nos fins do século XVI, ainda. no tempo do domínio filipino, construiram-se duas docas ou caldeiras lado a lado (uma elas quais era conhecida por caldeirinha, vd. 3ª foto), uma terceira doca de abrigo de pequenas embarcações, e duas carreiras de construção de barcos de guerra; e ainda, pelo tempo adiante, construíram-se naquele recinto, armazéns, oficinas e edictos para. serviços de administração.

Cais da Caldeirinha e a Casa da Balança  do Arsenal de Marinha [ant. 1939]
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

A caldeira ocidental foi entulhada em 1864; a carreira de construção de oeste foi demolida. pouco antes de 1888. O dique teve origem no reinado de D. Ma.ria 1; foi reconstruido na segunda. metade do século XIX, e entulhado em 1948, assim como a caldeirinha aquando da abertura da Avenida da Ribeira das Naus.

Doca seca (ou de reparação) do Arsenal de Marinha [ant. 1939]
O dique do Arsenal de Marinha tinha 84 metros de comprimento útil, e 12 metros de largura.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Palácio Valada-Azambuja

Aí temos, Dilecto, ainda no Calhariz, esquina da Rua Marechal Saldanha — antiga da Cruz de Pau — este palácio, há poucos anos reedificado, e onde esteve instalado o jornal A Lucta. É este, seguramente, o monumento urbano que mais atrás recua na história do sítio.


Para quem se interessa pela história destes velhos palácios e para melhor perceber o longo e intrincado historial deste solar dos Almadas e dos Valadas, vale a pena a leitura e a descrição  detalhada feita pelo ilustre olisipógrafo Norberto de Araújo.

Aqui se erguiam no século xv, tempo de D. Afonso V, as casas e quinta de D. Álvaro Vaz de Almada, o famoso Conde de Avranches, morto com o Infante D. Pedro, «o Regente», na triste batalha de Alfarrobeira. Logo aos herdeiros de Avranches foram confiscados os bens deste sítio, e doados a Álvaro Pires de Távora, em Agosto de 1449; foi este fidalgo quem aqui fez levantar um novo palácio sobre velhas casas. Estes Távoras foram ascendentes dos Menezes, Tarocas e Castros, cujas armas campeavam num brasão, que existia sobre o portão principal, enfrentando o Largo actual do Calhariz. Por ocasião do Terramoto, o Palácio, que certamente beneficiara de obras e ampliações no decorrer de três séculos, ruiu estrondosamente e, sob os escombros, morreu o Embaixador de Espanha que nele morava. Mais obras recebeu o arruinado edifício, feitas por um dos Menezes, ascendente de D. Francisco de Menezes da Silveira e Castro, 1.º Conde da Caparica, e, em 1813, feito Marquês de Valada, e que no seu palácio habitava no começo do século passado [XIX]. Antes, em 1791, morava aqui o Marquês de Pombal, Henrique, que era casado com uma Menezes , filha de D. José. É ainda célebre «o coche do Marquês de Valada» , D. José de Menezes, como notáveis foram as recepções na sua casa e a sua vida envolvida em fausto.

Palácio Valada-Azambuja [séc. XIX]
Largo do Calhariz, 15-19; Rua da Bica Duarte Belo, 71-81; Rua Marechal Saldanha, 30-40;
Ascensor da Bica
Alberto Carlos Lima, in A.M.L.

Em 1867, era proprietário de direito deste edifício D. Francisco de Menezes, Conde de Caparica, de menor idade, e administradores e usufrutuários seus pais D. José de Menezes Silveira e Castro e D. Maria Isabel de Bragança, marqueses de Valada.
Em Janeiro desse ano, precedendo autorização do Conselho de família o palácio foi vendido por 23 contos e 500 mil réis ao conselheiro Francisco José da Silva Torre que em 1874 remiu o foro devido ao Hospital de S. José, por 48$523. 
Este Silva Torre: tinha uma enteada, casada com um Conde de Azambuja, e foi esta senhora que, depois, herdou a propriedade. Desta data em diante começou o velho solar dos Almadas e dos Valadas a ser conhecido por «Palácio Azambuja».

Palácio Valada-Azambuja [1968]
Largo do Calhariz, 15-19; Rua da Bica Duarte Belo, 71-81; Rua Marechal Saldanha, 30-40
Armando Serôdio, in A.M.L.

Em 1922, D. José de Melo, da família Azambuja, vendeu o edifício ao comerciante e antiquário Sr. Manuel Henriques de Carvalho. Já no edifício estava instalado o jornal A Lucta, em cujas salas tantos dramas políticos se conceberam. Em 1925, o proprietário mandou encurtar o átrio nobre para abrir estabelecimentos comerciais, colocando nas paredes do vestíbulo belos panos de azulejos — estes que vês — que haviam pertencido a um palácio da vila de Almada, única afinidade de procedência que eles têm com o primitivo solar dos Almada-Avranches do século XV, e adornando um pequeno pátio, à direita, com dois registos de azulejos, um datado de 1760, e que estavam numa dependência do edifício.
Em 1936, fizeram-se novas obras no antigo Palácio Azambuja (cuja frontaria ainda diz alguma coisa) respeitando-se contudo alguns pormenores interiores, e construindo-se uma Sala onde era o Jardim de  Inverno. Desapareceram as salas da Lucta e do Centro Nacionalista, e  instalaram-se o 7.º, 8.° e 9.º Juízos Criminais da Comarca de Lisboa, e uma repartição de Registo Civil. Os inquilinos multiplicaram-se.

Palácio Valada-Azambuja [1936-03-19]
Largo do Calhariz, 15-19; Rua da Bica Duarte Belo, 71-81; Rua Marechal Saldanha, 30-40
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

A Travessa Rua do Almada que aqui corre paralela à face lateral do velho Palácio, não deriva seu nome — como Júlio de Castilho supôs — do solar de D. Álvaro Vaz de Almada (Conde de Avranches), mas de um Fernão Rodrigues de Almada, homem abastado, que no meado do século de quinhentos aqui morava (Informação generosa do Sr. Luiz Pastor de Macedo; veja-se «Livro de Lançamento e serviço que a cidade de Lisboa fez a El-Rei D. João III, no ano de 1565», fol. 374, 375 e 394).

Do antigo jornal republicano de Brito Camacho, das suas tertúlias políticas e literárias, das suas congeminações conspiratórias (Sidónio Pais aqui urdiu discretamente a sua conjura de 1917) não resta mais do que a memória: «o palácio da Lucta».
Não vale a pena subirmos. Basta que observemos a fachada que olha para a Rua Marechal Saldanha [vd. imagem acima], respeitada pelas obras do século XIV e do presente, oferecendo ainda um semblante muito aproximado da arquitectura civil banalíssima posterior ao Terramoto.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 25-26, 1939)

Palácio Valada-Azambuja [1960]
Largo do Calhariz, 15-19; Rua da Bica Duarte Belo, 71-81; Rua Marechal Saldanha, 30-40
 Arnaldo Madureira, in A.M.L.

No seu interior são de destacar: o silhar de azulejos azuis e brancos, setecentistas, figurando cenas galantes, localizado no átrio de entrada; a decoração com estuques levemente relevados da escadaria de mármore; e os dois registos azulejares, figurando S. Francisco e S. Marçal, do pátio interior.

N.B. De espaço residencial converteu-se em espaço comercial, de serviços e cultural, acolhendo inclusivamente a Biblioteca Municipal Camões.

 
 
 Painel de azulejos com a imagem
de São Francisco de Borja


Painel de azulejos com a imagem
de São Marçal

Monday, 20 July 2015

Convento do Santo Crucifixo das Capuchinhas Francesas

Sobre a ruína do mosteiro do Santo Crucifixo paira ainda hoje a aza (sic) negra da fatalidade; e, daqui a pouco, razoirado o terreno, modificado o aspecto da rua, erguidos no seu local novos edifícios, ruirá também a própria lembrança das pobres freiras francesinhas. 
Paz às suas almas! [Sequeira: 1924]

Nesta historia verá Vossa Magestade hum edificio por todas as circunstancias Real, porque lhe deu princípio a Augustissima Rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboya. [Barbosa: 17484]

O Convento do Santo Crucifixo das Capuchinhas Francesas, conhecido como das «Francesinhas» foi fundado em 1667 pela Rainha de Portugal Maria Francisca de Sabóia, esposa de D. Afonso VI e, em segundas núpcias, de D. Pedro II. Quando morreu, a rainha foi sepultada no convento que fundou. Em 1911, o corpo foi trasladado para o Mosteiro de São Vicente de Fora, dando-se então início à demolição do convento [vd. 3ª imagem].

Esquina da Calçada da Estrela e do Caminho Novo, hoje Rua das Francesinhas [1910]
Joshua Benoliel,
in Lisboa de Antigamente

A denominação de Capuchinhas Francesas ficou definitivamente associada ao Convento do Santo Crucifixo (denominação oficial do cenóbio) e adveio unicamente da origem das freiras fundadoras — quatro freiras clarissas que a tinham acompanhado de França D. Maria Francisca de Sabóia — , não constituindo qualquer ramo ou variação do instituto de religiosas denominado Capuchinhas, fundado em 1535 pela espanhola Maria Lorenza Longo, em Nápoles, ao qual pertenciam as monjas do convento.
O convento do Santo Crucifixo constitui um importante exemplo do que foi a arquitectura monástica no feminino, com as suas particulares exigências e necessidades. O conjunto formado pela parte edificada, cuja centralidade era marcada pelo claustro, a cerca conventual (com a sua importância no contacto com a natureza), a distinção funcional e predefinida entre os diferentes espaços e as relações entre eles (quer se destinem a meditação e oração, ao trabalho diário, ao lazer ou ao contacto com o exterior) fazem do espaço conventual uma unidade autónoma que se pretendia auto-suficiente.

Esquina da Calçada da Estrela e do Caminho Novo, hoje Rua das Francesinhas [1910]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Na Igreja destacava-se segundo a descrição do autor anónimo, numa data em que ainda não estava concluída a capela-mor, um grande nicho sobre o arco triunfal:

[]  e sobre ele [arco] assenta hum nicho grande com columnas de talha dourada, e dentro do nicho se deyxa ver a fermosa imagem de um crucifixo, em estatura natural de um homem, e ao pé da cruz fazem assistência à sagrada imagem do Senhor, a de sua Mãy Sanctissima e do Discipulo amado e da penitente Magdalena. Esta imagem do Sancto Crucifixo dá o titulo ao mosteyro, que he o padroeyro da casa debayxo de cuja proteccção vivem as Religiosas, que à capella mor dam o titulo das Chagas de Christo
[História dos Mosteiros, Conventos e Casas Religiosas de Lisboa, 1972] 

Este nicho terá sido posteriormente fechado e as imagens colocadas em outro altar, possivelmente no compartimento que Matos Sequeira identificou como casa mortuária, no sobre claustro, e que possuía uma capela com essa invocação. O mesmo autor, refere-se à imagem de Cristo de grandes dimensões “ (…) um madeiro enorme, com a imagem do Crucificado”, na época, já retirado do seu local e colocado na sacristia junto à capela-mor. [Tição: 2007] 

Demolição do Convento das Francesinhas [1911]  
Em baixo, onde se vê o gradeamento, observa-se a Rua Miguel Lupi.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nos jardins do Convento encontra-se actualmente o Instituto Superior de Economia e Gestão. Só em 1949 se desenhou o jardim na sua forma actual. Com uma homenagem à Família numa escultura de Leopoldo de Almeida que ornamenta um chafariz de 8 bicas. Posteriormente, foi inaugurado um monumento em homenagem a Bento de Jesus Caraça.

Sunday, 19 July 2015

Basílica do Sagrado Coração de Jesus (ou da Estrela)

A Basílica do Coração de Jesus, obra dos arquitectos da escola de Mafra, foi consagrada em 1789, já no Convento se haviam recolhido as freiras carmelitas de Santo Alberto. O Zimbório é o coroamento audacioso desta mole arquitectónica.

Na sua imponência alcandorada a Basílica é o frontal da mais alacre praça de Lisboa. [Araújo: 1943]

 
A Basílica da Estrela nasceu da devoção de D. Maria I, a Piedosa, ao culto do Sagrado Coração de Jesus. Em 1760, aquando do seu casamento com o Infante D. Pedro, a ainda princesa, fez um voto ao Santíssimo Coração, de lhe erguer uma igreja e convento para as religiosas da Regra de Santa Teresa, pedindo o nascimento de um filho varão. D. Pedro contribuiu para a causa, cedendo os terrenos do Casal da Estrela, na parte ocidental de Lisboa. No entanto, desde logo se depararam uma série de obstáculos à devota princesa, apenas ultrapassados aquando da sua subida ao trono: dificuldades técnicas e económicas (estava em curso a reconstrução da capital após o terramoto de 1755, para a qual o Marquês de Pombal havia disponibilizado todos os meios), bem como teológicas, já que o culto ao Sagrado Coração além de polémico não era aceite pela ortodoxia católica, porque "revalorizava a natureza humana de Cristo sobre a divina" o que implicava uma mudança quase radical na mentalidade e modo de encarar os dogmas da Igreja da época. De facto, só o Papa Pio VI, no final do século XVIII, o aprovará.

Real Basilica do S.mo Coração de Jesus = Royal Basilique du Sacré Coeur de Jesus [c. 1845]
Basílica da Estrela, iniciada em 1779 consagrada em 1789 e concluída em 1790.
A Fachada, principal, ao alto de um largo adro de dois planos servidos por escadarias, circundados por vinte e dois marcos de pedra lavrada, desenvolvida em dois planos no sentido horizontal, seccionada em três corpos, dos quais os laterais levemente recuados.
Desenho de Legrand, C., 1839-1847 e Litografia de Manuel Luís da Costa, in Lisboa de Antigamente

A obra é confiada a Mateus Vicente de Oliveira, arquitecto da Casa do Infantado que tinha participado em obras de vulto, nomeadamente no Palácio de Queluz. Entre 1778-79 realiza dois projectos de estilo Barroco, que atingira o desenvolvimento pleno em Portugal no reinado de D. João V, avô de D. Maria I. Tratava-se duma basílica de planta maneirista em cruz latina, onde no transepto existia uma cúpula que iluminava a parte central do espaço, deixando o restante na penumbra e que tinha uma nave única em vez das três habituais. 
A fachada tinha dois pisos, com o corpo central de três tramos saliente, onde foi usado o jogo entre pilastras e colunas para a divisão dos mesmos (empregou-se a ordem jónica, feminina, própria para conventos de freiras), sendo ladeada por duas torres sineiras e encimada por um frontão ondulado denunciando a influência do arquitecto italiano Borromini. Elementos típicos do vocabulário barroco são também as estátuas da oficina de Machado de Castro, que adornam a fachada e a imponente escadaria que projectando-se sobre o seu exterior, "promove o diálogo entre o edifício e a cidade". Esta monumentalidade e efeito cénico próprios dos edifícios do Barroco, eram usadas para cativar os fiéis, prolongando todo o espectáculo para fora.

Basílica do Sagrado Coração de Jesus (ou da Estrela) [1866]
Praça da Estrela
A Fachada principal, ou frontaria orientada a Norte, e nela, a colunata do corpo central; a decoração esrnlt6rica da sobreporta, do tímpano e do povoamento dos nichos nos dois entablamentos; o coroamento alteroso das torres sineiras.
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

A partir de 1786, o arquitecto Reinaldo Manuel dos Santos é encarregado de terminar a basílica, elaborando um terceiro projecto, aquele que foi seguido, onde introduziu algumas alterações — segundo a tradição — a causa da morte de Mateus Vicente. Substituiu o frontão contracurvado por um triangular e adornou-o com uma profusão de estátuas e fogaréus ondulados, ao mesmo tempo que procedeu ao "alteamento da cúpula com zimbório e lanternim" e enfeitou as torres sineiras de ornatos e arrebiques, que apesar de tudo lhes conferiram uma certa elegância rococó, linguagem estilística que se estava a adoptar. Se há quem considere a Basílica da Estrela uma versão reduzida da de Mafra (obra anterior da época joanina), à intervenção de Reinaldo dos Santos se deve. A questão não é tanto qual o projecto de maior qualidade estética, mas antes o que melhor se adequava a uma igreja e convento de carmelitas, que na sua existência contemplativa prezam acima de tudo a pobreza material e a simplicidade.

Basílica da Estrela [s.d.]
Praça da Estrela
O Zimbório, acima do terraço das torres sobre o cruzeiro da Basílica, cintado, rasgados de janelões, coroado de cúpula grandiosa rematada por lanternim.
Estúdio Mário Novais, 
in Lisboa de Antigamente

Quanto ao interior, este prima pela harmonia da traça, pela nobreza dos materiais usados (pedra de lioz, mármores brancos de Pero Pinheiro, azuis de Sintra, rosas de Negrais, amarelos de Lousa e negros de Cascais) e pela qualidade da maior parte das pinturas, que o tornam num espaço duma sobriedade que prenuncia o Neoclássico.

A sagração da Basílica teve lugar em Novembro de 1789, numa cerimónia de pompa e circunstância, uma década após o lançamento da primeira pedra, resultado da firme vontade de D. Maria I, enquanto que o projecto de Pombal para a sua cidade iluminada se arrastaria até final do século XVIII. 
Como diz Nuno Saldanha no Livro de Lisboa, é uma obra sintomática de um final, do Antigo Regime e do Barroco mas reflecte o início de uma espiritualidade moderna.  
A Basílica foi a primeira igreja do Mundo a receber o título de lugar de culto ao Sagrado Coração sancionado por bula pontifícia, culto esse que se propagaria ao longo dos séculos seguintes.
 
Basílica da Estrela [195-]
Perspectiva tirada do Jardim da Estrela
A Basílica do Coração de Jesus, ou da Estrela, pode ser considerado uma miniatura da Basílica de Mafra, à parte as extensões co1iventuais, as proporções e o desenvolvimento das torres sineiras que se observam nesta última; notam-se analogias no trabalho dos artistas, em certos perfis e no semblante exterior.
Judah Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente


N.B. O túmulo monumental de D. Maria I (falecida no Brasil em 1816), todo em mármores, com sarcófago alto e inscrição, obra de Faustino José Rodrigues, e colocado do lado esquerdo da Capela-Mor.

Basílica da Estrela [195-]
Túmulo monumental de Dona Maria I
Mário de Oliveira, 
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
BORGES, Nelson Correia, " História da Arte em Portugal - Do Barroco ao Rococó ", Volume 9, Publicações Alfa, 1986, Lisboa.
SALDANHA, Nuno, " O livro de Lisboa - A Basílica da Estrela ", Capítulo VIII - Destaque I, Lisboa, 1994.
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1944.

Sporting Club de Cascais

Inaugurado em 15 de Outubro de 1879 pelo próprio Rei Dom Carlos, o Sporting Clube da Parada depressa se tornou no grande espaço de referência na sociedade aristocrática do Portugal de então. Pelos seus pavilhões, onde os finais de tarde eram passados em torno dos modernos jogos da moda, como o foot-ball, tennis e soft-ball, circulavam as mais importantes figuras do reino. Até à Implantação da República, o Clube da Parada viu crescer o seu prestígio, ao ponto de Ramalho Ortigão referir que era preciso ser-se visto na Parada para se poder ser alguém em Portugal: «O Sporting Club [...] deu ao lugar um arzinho de civilização, que não deixa de surpreender um pouco numa praia nacional. Vários jogos de jardim foram correctamente estabelecidos e são assiduamente frequentados.».  

O Rei D. Carlos e senhoras no Sporting Club da Parada de Cascais [antiga Parada da Cidadela] [1905]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em Outubro de 1888, foi também nos relvados defronte da Parada que se realizou o primeiro jogo de futebol em Portugal. O clube só se extinguiu em 1974. (in cm-cascais.pt)
 
Grupo de jogadores de Diábolo no Sporting Club de Cascais |1900|
Colecção Família Castelo Branco, in Lisboa de Antigamente

Saturday, 18 July 2015

Eirados das Pedras Negras

Consta que haveria na Babilónia uns magníficos jardins suspensos, uma das sete maravilhas do mundo antigo, mandados construir pelo rei Nabucodonosor como oferta a Amitis, sua esposa e rainha. Pois bem, parece que por cá também os havia, ou talvez um arremedo disso, não tão grandiosos e luxuriantes, mas com a óbvia vantagem de — ao invés dos da Babilónia — se saber exactamente onde se localizavam, sito na Rua das Pedras Negras. Eis como o mestre olisipógrafo Norberto de Araújo os descreve nas suas Peregrinações em Lisboa:
 
No quarteirão nascente desta Rua das Pedras Negras encontras na tua frente as traseiras de cinco prédios, interessantíssimos pelos seus altos eirados, prolongamento de jardins interiores [...] oferecem [...] um alegre aspecto decorativo, como nenhuns outros em Lisboa [...]

Rua das Pedras Negras [c. 1950]
Eduardo Portugal,
in Lisboa de Antigamente

 

A quinta face posterior que estamos observando [1ª imagem] é a que apoia o eirado mais curioso de quantos estamos a tratar. No alto corre um varandim com quatro janelas, e logo sob os apoios notas três frestas quadradas gradeadas, e logo mais três assimétricas; em baixo ainda vês uma fresta no ângulo do cunhal e a porta praticável ao centro. Corresponde este gracioso documento ao prédio nº 37 e 39 [...]; no pavimento que se prolonga do rés-do-chão há um pequeno jardim, com um lago.
(ARAÚJO, iNorberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 22-23, 1938)

 

           

 
 
 
Rua das Pedras Negras [1901]
Machado & Souza, iin Lisboa de Antigamente
(clicar para ampliar)







Friday, 17 July 2015

Mercado da Praça da Figueira

Entraram numa praça que tinha ao centro um mercado com uma cobertura de ferro forjado.

Robert Wilson, A Companhia de Estranhos, 2009


Nasceu em 1755, no terreno das ruínas do Hospital Real de Todos-os-Santos, impondo-se como mercado central e destinado à venda de frutas e legumes. Passou entretanto por vários nomes: Horta do Hospital, Praça das Ervas, Praça Nova e Praça da Figueira. De um local de bancadas diárias passou a praça fixa, com barracas arrumadas e um poço próprio; era — claro — ao ar livre, como comprova a imagem abaixo.

Mercado da Praça da Figueira [ant. 1885]
Rua da Betesga
Colecção do Conde de Arnoso, in Lisboa de Antigamente

Ao longo dos tempos, foi sofrendo algumas alterações consoante as necessidades da população. Assim, em 1835, é arborizada e iluminada, e em 1849 o recinto foi fechado com grades de ferro e oito portas,. Em 1883 a velha Praça foi demolida,  e em 16 de Maio de 1885 inaugurou-se o novo Mercado, do risco de Manuel Maria Ricardo Correia, com a presença da Família Real. 

Mercado da Praça da Figueira [16 de Maio de 1885]
Inauguração do mercado da Praça da Figueira, com a presença da Família Real (o Rei D. Carlos e a sua consorte D. Amélia de Orleães)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente


Consistia num edifício rectangular, com estrutura em ferro forjado e ocupando uma área de quase 8 mil metros quadrados.
Da venda de fruta e legumes, passou-se à transacção de outros produtos alimentícios necessários à população, fazendo da baixa lisboeta um local com um constante fervilhar de vida.

"Bendita seja a Praça da Figueira, colorida, estridente, regateira,
como todo o mercado que se preza...
É bem esta a paisagem portuguesa
que se deve mostrar, como surpresa,
à colónia estrangeira."

Fernanda de Castro (1900-1994). «O Mercado». Cidade em Flor. [1924]

Mercado da Praça da Figueira [post. 1885 e ant. 1900]
Rua da Betesga
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Desde logo, a praça tornou-se um dos emblemas de Lisboa, quer pela sua construção, quer pela sua localização no centro da cidade, quer ainda pela realização de verdadeiros arraiais por altura dos santos populares, transformando-a num verdadeiro teatro.
Em 1947, a vereação da altura decidiu o fim da praça, prevendo o alargamento da rede viária de Lisboa, que incluía a demolição do Socorro e zona baixa da Mouraria como forma de escoamento de trânsito, aproximando a cidade de Lisboa aos padrões europeus. 
Em 1949 festeja-se o último Santo António, procedendo-se de seguida — a 30 de Junho — à demolição do edifício. [cm-lisboa.pt]

Mercado da Praça da Figueira [c. 1906]
Rua da Betesga
Fotógrafo desconhecido

Bibliografia
CARNEIRO, Luís Miguel e Ilharco, Simões, Confeitaria Nacional.
CASTILHO, Júlio de, Lisboa antiga: bairros orientais,vol. I, III, X.
id, Lisboa antiga: o Bairro Alto, vol. V.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII.

Rua Tomás Ribeiro

À esquerda a Rua Sousa Martins. À direita o antigo Matadouro Municipal de Lisboa, actual Portugal Telecom (PT) e, quase escondido pelo automóvel, o antigo chafariz da Rua Tomás Ribeiro. Ao fundo, por onde desce o eléctrico, a Avenida Fontes Pereira de Melo.

Rua Tomás Ribeiro [1960]
Matadouro Municipal de Lisboa
Filipe Romeiras, in Lisboa de Antigamente

Por edital da C.M.L. de 1907, a antiga Tv. do Sacramento (1857), que era a continuação da Rua da Cruz do Taboado, (actual Rua Gomes Freire), que começava na esquina da Rua do Chafariz de Andaluz e findava no Largo de São Sebastião da Pedreira, passou a denominar-se Rua Tomás Ribeiro. 
António Tomás Ribeiro (1831-1901), diplomata, poeta romântico e dramaturgo, foi ministro da Marinha (1878), da Justiça (1879), do Reino (1881) e das Obras Públicas. (cm-lisboa.pt)

Rua Tomás Ribeiro [1955]
Matadouro Municipal de Lisboa
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

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